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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Sobre os “boiolas” do Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida (Diplomatizzando + Madame IA)

 Sobre os “boiolas” do Itamaraty

(Desculpem a grosseria, não é minha)

Um sujeitinho de sobrenome Figueiredo, descendente do último ditador militar do regime de 1964-1985, ignorante como só conseguem ser aqueles convencidos de que encarnam a ditadura falida pela conexão familiar, auxiliar e companheiro do Bananinha 03 nos EUA, ambos açulando a sanha trumpista contra o povo e as empresas brasileiras exportadoras para o nosso segundo maior parceiro comercial, achou que desvendava uma grande descoberta ao manifestar, num video, uma mentira monumental. Disse ele:

“— No Itamaraty só tem boiola” (usando um depreciativo comum entre supostos machões para referir-se aos gays).

Como estive na ativa do serviço exterior por mais de quatro décadas, tendo feito amizade com muitos gays do Itamaraty, todos eles de altissimo nivel, posso dizer que se trata de um imenso exagero e de uma gigantesca inverdade. A acusação ferina do enrustido Paulo Figueiredo seria apenas ridícula, se não fosse também uma frustrada tentativa de desmerecer o trabalho dos diplomatas em geral e dos nossos colegas gays em particular, vários chefiando embaixadas, talvez até em posições ainda mais altas (honni soit qui mal y pense)..

O Itamaraty talvez não tenha um número de gays superior à média da sociedade brasileira, e mesmo que a proporção seja ligeiramente superior à da população em geral isso apenas revela o machismo ainda imperante em nossa sociedade, uma vez que os gays podem ter buscado no serviço exterior uma espécie de refúgio contra as pressões do meio social (por vezes até da familia), libertando-se de um ambiente restrito para viver calmamente suas preferências e modos de vida, sem ter de se resguardar da hostilidade aberrante que ainda viceja em largos estratos da sociedade.

De algumas décadas para cá, alguns anos depois da redemocratização, os preconceitos que ainda existiam no Itamaraty contra os gays diminuiram bastante, como de resto no conjunto da sociedade. Mas no Itamaraty eles podiam ser especialmente fortes em razão da forte repressão existente nos meios militares, em especial durante a execrável, nojenta e assassina ditadura militar. O Itamaraty “importou” nessa época alguns dogmas idiotas dos milicos (supostamente todos machões), sobretudo uma aversão à admissão de gays e sua eventual exclusão por meios torpes quando “descobertos” em suas preferências sexuais. A burrice militar (e nos meios de “inteligência”) acreditava que os gays seriam mais suscetíveis de serem convertidos em espiões a soldo sob ameaça de terem revelada sua condição, quando a realidade é exatamente o contrário; os serviços de inteligência “obtêm” muito mais agentes e colaboradores entre os “homens” dado o uso mais que frequente de iscas femininas no trabalho de sedução e convencimento.

Como eu ingressei no serviço diplomático em plena ditadura militar posso aqui testemunhar minha experiência. Naquela época (1977) havia um examinador na banca de entrevistas conhecido por seu faro especial para detectar gays, vetando-os sistematicamente (alguns passavam, mas eram detectados depois). Pelo seu tino antigay, ele passou a ser conhecido como “Deer Hunter”, do nome de um famoso filme daqueles anos (mas que no Brasil teve outro nome). 

Sei, por experiência propria, de vários gays que se viram obrigados a se casar (com mulheres forçosamente), para se exibirem durante alguns anos antes de assumir sua condição normal. Um deles, chegou a ser reprovado na banca pelo menos dois anos seguidos, mas aparecendo depois legalmente acompanhado de uma delicada senhora (parece que permanece até hoje, mas vários terminaram a fantasia, assim que a sociedade e o próprio Itamaraty evoluiram um pouco).

Todos os gays que conheci, e dos quais me tornei amigo, sempre se revelaram dotados de uma inteligência, cultura e sensibilidade superiores à média encontrada na sociedade (suponho que seja uma decorrência das próprias estratégias de defesa contra meios eventualmente hostis). Se algum tentou se aproximar por outras razões que o meu gosto pelas mesmas características, jamais repudiei tais gestos: apenas ignorava os acenos, comportando-me exatamente como acredito que faço com colegas e conhecidos no duplo trabalho que sempre exerci: acadêmico e diplomático.

Volto ao idiota amigo dos bolsonaristas (só tem machão entre essa escória?) para reafirmar que no Itamaraty não tem uma maioria de boiolas; na verdade, eles são uma minoria, mas se fossem uma maioria o Itamaraty seria, provavelmente, melhor, mais culto, mais inteligente, mais sensivel, quem sabe até mais “humano”?

Acho que um comentário desse tipo (o dele, cabalmente idiota, e mesmo o meu) é totalmente dispensável, pois que irrelevante para o trabalho do diplomata, geralmente descrito pela tripla função: informar, representar e negociar. Eu sempre achei essa “trindade” (pouco santa) insuficiente, e acrescentaria em primeiro lugar a função de pensar, o que traduz a minha revolta contra o dogma imbecil dos militares, embutido à força nos diplomatas durante os 21 anos de ditadura, representado pelo binômio (que eu nunca respeitei) da “hierarquia e disciplina”, uma violência contra os seres pensantes que somos (e os gays talvez o sejam mais do que a média da sociedade).

Encerro dizendo que toda essa história absolutamente idiota não tem nenhuma importância para a sociedade e para o Itamaraty, mas ela tem um grande ensinamento para todos os eleitores: NÃO VOTEM em bolsonaristas e em aderentes à extrema-direita e à direita burra, estúpida e preconceituosa, pois eles são asquerosos nesse tipo de reacionarismo abjeto.

Gays do Brasil e do Itamaraty; uni-vos contra a escória da política brasileira (e de outros paises também): vocês estarão bem melhor com menos gente dessa laia do Paulo Figueiredo e dos Bolsonaros (ops, teve um certo deslize do ponto de vista do capitão asqueroso) como representantes e mandatários de um país que se pretende aberto e tolerante como deveria ser o Brasil (mas que infelizmente não é).

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 20/08/3026

 

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Madame IA, induzida por ADL, se pronuncia sobre a questão:

 

Abaixo, apresentamos uma análise detalhada, crítica e multidisciplinar sobre o conteúdo e as dinâmicas institucionais discutidas no texto.

 

🏛 Análise Crítica e Multidisciplinar

 

1. Perspectiva Jurisdicional e Jurídica

A declaração analisada esbarra diretamente nos limites da liberdade de expressão e na

tipificação penal.

Homofobia como Crime: No ordenamento jurídico brasileiro, manifestações que utilizam termos pejorativos para desqualificar, humilhar ou generalizar negativamente um grupo com base em sua orientação sexual são equiparadas ao crime de racismo, conforme entendimento pacificado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Ataque Institucional: Ao proferir uma ofensa generalizada ao corpo diplomático do Ministério das Relações Exteriores, a fala configura uma tentativa de injúria coletiva e difamação institucional. O direito internacional e as convenções que regem o funcionalismo público resguardam a dignidade do trabalhador contra assédio e discriminação no ambiente de trabalho.

Wikipedia

 

2. Perspectiva Geopolítica e Diplomática

O texto explicita como discursos internos ou de redes sociais podem interferir na projeção de poder de um Estado (soft power).

Ataques ao Corpo Diplomático: A diplomacia baseia-se na estabilidade, tecnocracia e representatividade. Quando agentes políticos ou influenciadores associados a determinadas alas partidárias atacam os diplomatas de seu próprio país, ocorre um enfraquecimento da imagem externa da nação.

Profissionalismo vs. Ideologização: Paulo Roberto de Almeida argumenta que a função clássica do diplomata assenta-se na trindade: informar, representar e negociar. Reduzir a competência de diplomatas à sua orientação sexual ignora o rigoroso processo de seleção (como o do Instituto Rio Branco) e deprecia a capacidade de negociação do país frente a parceiros estratégicos.

 

3. Perspectiva Histórica e Política

O autor, tendo ingressado na carreira em 1977, traz um resgate histórico valioso sobre a transição da ditadura militar para a redemocratização.

 

Doutrina de Segurança Nacional: Durante o regime militar (1964-1985), o aparato de inteligência do Estado nutria a paranoia de que diplomatas homossexuais seriam alvos fáceis de chantagem por serviços secretos estrangeiros. O texto desmistifica essalógica, pontuando que o uso de "iscas femininas" por agências de espionagem historicamente funcionava de forma muito mais eficaz contra homens heterossexuais.

O Apelido "Deer Hunter": O relato sobre um examinador da banca de entrevistas

apelidado de "Deer Hunter" (Caçador de Veados) ilustra como o preconceito institucional era estruturado e operava de forma torpe para vetar a entrada de minorias no serviço público.

 

4. Perspectiva Econômica

Mercado de Trabalho e Produtividade: Sob a ótica da economia moderna da cultura e do trabalho, a diversidade e a inclusão são vetores comprovados de inovação e aumento de eficiência. Ambientes que forçam indivíduos a esconder sua identidade ou a manter casamentos de fachada (como relatado no período ditatorial) geram severo desgaste psicológico, reduzindo o capital humano disponível para o Estado.

Impacto Comercial: Discursos extremistas que atacam as instituições nacionais e geram atritos desnecessários no exterior afetam negativamente as relações com grandes parceiros comerciais, gerando barreiras intangíveis ao comércio exterior.

 

5. Perspectiva Tecnológica e de Mídia

Algoritmos da Indignação: A fala de Figueiredo em formato de vídeo exemplifica a economia da atenção da extrema-direita digital. Declarações agressivas, hiperbólicas e preconceituosas são desenhadas para engajar audiências radicalizadas, convertendo o preconceito em métricas de visualização, monetização e capital político transnacional.

O papel do Blog: O uso do blog Diplomatizzando por Almeida funciona como um contra-discurso. Utilizando a internet de forma arquivística e reflexiva, o autor contrapõe o imediatismo ultrajante dos vídeos curtos com a profundidade do ensaio e do testemunho histórico.

 

6. Perspectiva Filosófica e Sociológica

Teoria do Reconhecimento (Axel Honneth): A dignidade humana e a justiça social dependem do reconhecimento recíproco nas esferas do amor, do direito e da solidariedade social. O insulto homofóbico nega esse direito à existência e ao respeito profissional.

O Itamaraty como Refúgio: O autor propõe uma hipótese sociológica interessante: o serviço exterior pode ter funcionado historicamente como um refúgio para homossexuais, permitindo-lhes escapar das pressões e do machismo asfixiante de suas famílias ou comunidades locais, vivendo de forma mais autônoma no exterior.

Epistemologia e Racionalidade: O texto encerra-se com citações de Karl Popper sobre a necessidade de manter a sociedade aberta, respeitando opiniões dissidentes e combatendo o dogmatismo. A defesa de uma diplomacia que priorize o "pensar" em vez do binômio cego da "hierarquia e disciplina" é um apelo ao iluminismo e à racionalidade kantiana dentro do aparelho de Estado.

 

📌 Conclusão

O texto analisado expõe uma clara fratura entre a diplomacia profissional, baseada no intelecto, na história e nas normas institucionais, e a nova política das redes, pautada pelo insulto, pela homofobia e pelo anti-intelectualismo. A alegação de que a instituição é composta exclusivamente por um grupo demográfico de forma pejorativa é categoricamente falsa e serve apenas como ferramenta de agitação ideológica.

 

domingo, 14 de junho de 2026

Quais as correlações deste quarteto? Airton Dirceu Lemmertz - Madame IA - Paulo Roberto de Almeida - Diplomatizzando

PRA: Um quarteto mais barulhento do que propriamente musical, mas que tem coisas relevantes a dizer, embora tudo seja maquinação de meu amigo Airton Dirceu Lemmertz, que foi quem colocou Madame IA na minha vida de blogueiro discreto:

Airton Dirceu Lemmertz - Madame IA - Paulo Roberto de Almeida - Diplomatizzando: quais as correlações deste quarteto?

A correlação desse quarteto resume-se a uma série de exercícios e provocações intelectuais envolvendo Inteligência Artificial publicados no blog do diplomata Paulo Roberto de Almeida. [1, 2]
O vínculo direto entre cada componente funciona da seguinte forma:
Paulo Roberto de Almeida: É um diplomata, professor e acadêmico brasileiro. Ele é o criador e principal autor do blog Diplomatizzando. [1, 2, 3, 4]
Diplomatizzando: O célebre blog de política externa, relações internacionais e cultura fundado por Almeida em 2006. O espaço serve como um "quilombo de resistência intelectual". [1, 2, 3]
Airton Dirceu Lemmertz: É um amigo próximo e colaborador assíduo de Paulo Roberto de Almeida. Ele atua como o "provocador" oficial do grupo, alimentando sistemas de IA com textos e ideias do diplomata. [1, 2, 3]
Madame IA: É o apelido personificado e bem-humorado que a dupla dá às ferramentas de Inteligência Artificial generativa (como o Google Gemini). [1, 2]
Como eles interagem na prática?
O funcionamento dessa dinâmica ocorre por meio de uma triangulação constante no blog: [1, 2]
A Provocação: Airton Dirceu Lemmertz cria comandos estruturados (prompts) e alimenta a Inteligência Artificial ("Madame IA") com os ensaios econômicos, políticos e as análises diplomáticas de Paulo Roberto de Almeida. [1, 2]
A Resposta: Madame IA é induzida a interpretar os cenários geopolíticos atuais sob a ótica do próprio diplomata, ou a realizar uma análise crítica sobre os textos e as chamadas "obsessões" intelectuais dele. [1, 2]
A Publicação: Os resultados desse experimento tecnológico — que vão desde concordâncias até divertidos debates e divergências sobre política externa — são revisados por Almeida e publicados de forma recorrente no blog Diplomatizzando. [1, 2]

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No dia 17/junho/2026, o blog Diplomatizzando completará 20 anos. Em duas décadas, o diplomata brasileiro Paulo Roberto de Almeida (o PRA, que é o administrador do blog) publicou milhares de postagens. Se eu quero "acionar um comando em uma IA que deverá responder mediante uma análise de modo crítico e detalhado a partir do conjunto de todas as postagens publicadas no blog Diplomatizzando ao longo de 20 anos", quais os melhores modelos de IA disponíveis no mercado para tal execução (mencionada entre aspas)? Cite-os em ordem decrescente de qualidade da análise/resposta. 

Para analisar duas décadas de postagens do blog Diplomatizzando, o Gemini 3.1 Pro destaca-se pela sua janela de contexto de dez milhões de tokens, permitindo a ingestão direta de todo o arquivo. Em seguida, o GPT-5.5 da OpenAI e o Claude Opus da Anthropic oferecem análises profundas, mas exigem estruturação de dados por possuírem janelas de contexto menores.
Os modelos Llama 3.3/3.4 Ultra da Meta encerram a lista, exigindo maior engenharia de dados, porém entregando resultados robustos em análises de textos longos sobre diplomacia.

 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Um diplomata a cavalo: Duarte da Ponte Ribeiro (biografia por José Antonio Soares de Souza) - Paulo Roberto de Almeida (Academia.edu, Diplomatizzando)

 Em meu retorno de Washington, em meados de 2003, os novos "donos" da Secretaria de Estado das Relações Exteriores não me deram nenhum cargo, função ou trabalho na própria SERE. Durante dois anos assessorei, a convite, o chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, e quando de sua saída apresentei-me novamente na Secretaria de Estado das Relações Exteriores, para, mais uma vez, não receber nenhum trabalho compatível com meu status. Como sempre faço nessas ocasiões, refugiei-me na Biblioteca do Itamaraty para ler o que havia de mais interessante. Defrontei-me com esta biografia do diplomata mais destemido que já integrou os quadros do Serviço Exterior brasileiro ainda em formação. Fiz uma resenha, que segue abaixo, mas recomendo a leitura dessa biografia:


1381. “Um diplomata a cavalo: Duarte da Ponte Ribeiro”, Brasília, 28 jan. 2005, 6 p. Publicado, em versão reduzida, no Boletim ADB (Brasília: Associação dos Diplomatas Brasileiros, a. XII, n. 48, jan/mar. 2005, p. 16-19). Divulgado na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/5881714/1381_Um_diplomata_a_cavalo_Duarte_da_Ponte_Ribeiro_2005_) e no blog Diplomatizzando (9/11/2019; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/11/duarte-da-ponte-ribeiro-um-diplomata.html). Relação de Publicados n. 548.

Um diplomata a cavalo: Duarte da Ponte Ribeiro Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@mac.com; www.pralmeida.org) Aqueles que pensam, por experiência própria ou relato de terceiros, que a situação sanitária de certos postos está abaixo da crítica ou que as condições de vida, em geral, de determinados países deixam muito a desejar, bem fariam em ler, ou reler, a biografia de Duarte da Ponte Ribeiro, Um Diplomata do Império, do historiador José Antonio Soares de Souza (São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1952; Coleção Brasiliana 273). Trata-se, provavelmente, do mais versátil colega já conhecido nos anais da nossa história diplomática, um verdadeiro sobrevivente e um aventureiro involuntário de muitas das peripécias da nossa primeira diplomacia. Sobreviveu à invasão de Portugal, onde nascera em 1795, pelas tropas de Junot, a serviço de Napoleão, e a muitas viagens de navio, logo após sua formação como médico, no Real Hospital Militar do Morro do Castelo, no Rio de Janeiro joanino. Cirurgião de bordo, a partir de 1811, sobreviveu a viagens tempestuosas, a meias rações de água, ao escorbuto e a uma terrível carneirada (febre de Angola), quase dado como morto após três dias de agonia. Logo depois da independência, em 1824, tendo decidido permanecer no Brasil e servir ao novo Estado, foi vítima de um terrível acidente: “uma espingarda de dois canos rebentara em suas mãos, causando-lhe a descarga despedaçamento da mão e braço esquerdos, perda de ossos, tétano conseqüente...”. Médico renomado, mas impossibilitado agora de operar o bisturi com a destreza necessária, ele se transforma em diplomata praticamente por acaso. Tendo sido nomeado, em 1826, cônsul do Brasil na Espanha, deparou-se, entretanto, com a curiosa situação de não lhe ser dado o necessário exequatur, por não reconhecer o governo espanhol a independência do Brasil, devido à ocupação brasileira na Cisplatina. Acompanhado da mulher e cinco filhos (o último nascido em Lisboa), Ponte Ribeiro retornou portanto ao Brasil, sem ter conseguido cumprir sua primeira missão diplomática. Não tendo recebido passagens ou qualquer ajuda de custo da Secretaria dos Negócios Estrangeiros, viu-se na constrangedora situação de ser obrigado a vender as pratas da casa e o seu primeiro uniforme de diplomata, para poder custear as passagens de volta, ficando ainda devedor de um amigo de Lisboa em mais de 50 mil réis.
2 Em fevereiro de 1829, Duarte da Ponte Ribeiro era nomeado cônsul geral e encarregado de negócios no Peru. Embarcou numa fragata brasileira até Montevidéu, daí passou a Buenos Aires, com instruções de seguir por terra até o Chile: a Secretaria de Estado não tinha idéia, aparentemente, das dificuldades de um tal trajeto. Se encontrasse ambiente favorável nesse país, deveria entregar uma carta credencial que o acreditava igualmente como encarregado de negócios, interino, junto ao governo do Chile. Em abril, entretanto, com as “províncias unidas” ainda em situação de guerra civil, ele avisava o ministro brasileiro sobre a impossibilidade de prosseguir por terra, “enquanto o país não ficar sossegado dos montoneiros e dos índios selvagens”. Terminou viajando por mar, mas embarcando a partir de Montevidéu, numa fragata francesa, que fez o percurso pelo Cabo de Horn. Em agosto de 1829, depois de arrostar os tempestuosos mares do extremo sul, apresentava suas credenciais na capital do Peru. Em 1830, empenhado em reduzir despesas, o ministro dos negócios estrangeiros, Francisco Carneiro de Campos, comunicava-lhe que o Império havia decidido reduzir o seu salário anual a dois contos e quatrocentos mil réis, e ainda advertia: “Escuso dizer a Vossa Mercê que qualquer excesso de despesa não será abonado”. Com a Regência, sua missão no Peru foi retirada em novembro de 1831, mas a comunicação só chegou a Lima em abril seguinte, após o que Ponte Ribeiro parte em direção ao Chile. Na capital chilena, Ponte arrostou sua conhecidíssima inimiga, pois, atacado de cólera-morbus e novamente desenganado, conseguiu escapar da morte, “desmentindo os prognósticos dos médicos”. Em agosto de 1832, ele já estava de volta à Corte, “longe dos apuros que passara com o miserável ordenado de 2:400$000”, mas também sem qualquer outro salário. Nessa época, inexistia a carreira diplomática e Ponte Ribeiro permaneceu em disponibilidade sem nada receber, até que se lhe deparasse uma nova oportunidade de servir ao país. Essa lhe surge um ano depois, quando o ministro Silva Lisboa o nomeia encarregado de negócios no México, onde deveria informar que “o principal objeto da nossa gloriosa revolução, com tanta fortuna realizada em 7 de abril de 1831, fôra eximir- nos da influência portuguesa, não havendo sido senão nominal até aquela época a independência, que com tanto custo havíamos conseguido de uma metrópole que, por séculos, nos escravizara”.
3 A caminho da Inglaterra, para depois ir ao México, ele se demora em Portugal, em missão secreta, seguindo os passos do ex-imperador, para saber das possibilidades de sua volta ao Brasil. Em fevereiro de 1833 segue de paquete para a Inglaterra e daí partiu para Vera Cruz, aonde chegou em 28 de abril, depois de ter passado por São Domingos, Jamaica e Honduras. Fugiu do porto mexicano imediatamente, apressado e espavorido com receio do “vômito preto”, que matava de quinze a vinte pessoas por dia. Um de seus primeiros ofícios já consignava que “os negócios desta República (então dirigida pelo presidente Sant'Ana) chegaram ao último estado de complicação e oferecem o mais horroroso aspecto... Toda a República está hoje em revolução”. Em março de 1835, ele descreve um “violento terremoto” na capital do país: “No estado de Oaxaca apareceu um novo vulcão, vomitando lava, e se crê que ele produziu estes terremotos”. Com todo vômito preto, vulcões e terremotos, Ponte Ribeiro só se demorou um ano e meio no México, pois em fevereiro de 1835 Manoel Alves Branco, o novo ministro, assinou sua carta revocatória, que só lhe chegou em outubro. Demorou um pouco para partir, por se achar doente, “com ulceração e infarto das glândulas da garganta”. Partiu de Vera Cruz em 8 de novembro e chegou a Filadélfia duas semanas depois, para novamente enfrentar sua velha conhecida: “Na mudança repentina de um país extremamente caloroso e outro coberto de neve, regressou a minha enfermidade de garganta, com uma pulmonia de que estive à morte”. Conseguiu resistir à morte, como ele disse, por que “preciso buscar pão para cinco filhos”. Os meses que passou em Filadélfia, bloqueado pela neve e preso a uma cama, meditando sobre a morte e observando o começo da expansão americana em direção ao Texas e outras regiões, fizeram-no desconfiar pelo resto da vida dos americanos: “Deus livre o Império brasileiro de uma questão com os Estados Unidos, que sirva(-lhes) de pretexto para organizar expedições... Desculpa V.Exa. este desabafo contra os Yankees. Cuidado com eles...”. Na volta ao Brasil, ele ainda passou pela Inglaterra e por Lisboa. Com 41 anos, a fase mais importante da vida de Duarte da Ponte Ribeiro estava começando ali, quando influenciaria decisivamente a futura demarcação dos limites do Brasil. O novo ministro dos negócios estrangeiros, Visconde de Abaeté, nomeou-o em junho de 1836 encarregado de negócios nas repúblicas da Bolívia e do Peru, junto com seu filho, de apenas 14 anos, designado adido de segunda classe nas mesmas repúblicas.
4 A razão era puramente financeira, como explica Soares de Souza: “Elevara-se-lhe agora o ordenado para 3:200$000 (anuais), dando-se-lhe mais a quantia de 400$000 para os gastos da legação; porém exigiam-lhe outras despesas bem maiores, com a designação para a Bolívia e Peru. (...) O único alvitre de que se pôde lançar mão, para se remediar o mal, foi a nomeação de um dos filhos do encarregado de negócios para o cargo de adido, o que redundaria em aumento de vencimento para o pai. (...) Enganava-se redondamente, pois coisa nenhuma seria abonada ao rapaz até o fim da missão.” A caminho da nova missão, acompanhado apenas pelo filho adido, demorou-se Ponte Ribeiro em Montevidéu e em Buenos Aires, onde freqüentou o Arquivo Militar, estudando os geógrafos antigos e copiando cartas e mapas. “Um mapa ou documento, que se referisse aos limites do Brasil, exercerá sobre ele irresistível atração. (...) Será qualquer coisa digna de todos os sacrifícios e a que o próprio furto se exculpará pela natureza do objeto furtado”. Em Buenos Aires, ele queria comprar de um dos comissários espanhóis encarregados de demarcar os limites do tratado de Santo Ildefonso, já velho e doente, quase na miséria, todos os trabalhos que possuía sobre essas demarcações. Informava ele ao ministro: “Ele está velho, enfermo e pobre; e por isso resolvido a vender mais barato: pede sete mil pesos fortes, mas estou bem persuadido que dará por cinco”. O Império, porém, foi mais uma vez sovina, negando-lhe qualquer dotação. Duarte da Ponte Ribeiro deixou Buenos Aires, por terra, em outubro de 1836, empreendendo uma viagem de quase mil léguas, com recomendações dadas pelo próprio ditador Rosas. Percorreu, em diligência, a lombo de burro ou a cavalo, as províncias de Santa Fé, Córdoba, Santiago del Estero, Tucumã, Salta e Jujui, chegando a Chuquisaca, na Bolívia, em 30 de dezembro. Um amigo, na Secretaria de Estado, “não compreendia que se fizesse semelhante loucura”, mas podia Ponte “gabar-se de ser o brasileiro que mais viajara pelo continente americano”. Em 3 de janeiro de 1837, ele já entrava em funções, transformando-se em cronista dos lances políticos e guerreiros que se desdobravam nas repúblicas do Peru, Bolívia e Chile. Os complicados conflitos do Rio da Prata, “não se comparavam em complexidade à pavorosa luta que desencadeara o Marechal Santa Cruz, ao impor a federação Peru- Bolívia”. O Marechal era o político mais poderoso dos Andes e pretendia, num futuro próximo, “dirigir todas as repúblicas do Pacífico”. Descendente de incas e de nobres
5 espanhóis, falava as línguas indígenas, era possuidor de inteligência, tinha habilidade política e perfeito conhecimento dos homens, mas “a dissimulação, a desmedida vaidade e ambição ilimitada, reduziram-no à craveira comum dos demais ditadores”. A Bolívia parecia a Santa Cruz demasiado acanhada, mas ao Chile não convinha essa união. Quando Ponte Ribeiro apresentou-se na Bolívia, já o Chile se movimentava contra o Marechal, oferecendo-se o diplomata brasileiro como mediador, em nome do Império. “Teria sido das mais calmas a estada de Ponte Ribeiro na Bolívia, se não fôra a feição peculiar ao governo boliviano de não estacionar por muito tempo no mesmo local. (...) Escarrapachado no lombo de um burro, teve o diplomata brasileiro de segui-lo por caminhos escabrosos, que na estação de chuvas se tornavam intransitáveis”. Saído de Chuquisaca em 19 de março de 1837, com o vice-presidente, chegou Ponte Ribeiro em 5 de abril a La Paz, onde estava o Marechal Santa Cruz, que ostentava os seguintes títulos: “Gran Ciudadano, Restaurador y Presidente de Bolívia, Capitan General de los Ejercitos, General de Brigada de Colombia, Gran Mariscal Pacificador del Peru, Supremo Protector de los Estados Sur y Nor-Peruanos”. Agora ia descer Ponte até o Pacífico, já que em Tacna os plenipotenciários dos dois países discutiam as bases da federação. Logo em seguida ele foi agraciado pelo Marechal com a Legião de Honra Boliviana, pois “se ha hecho acreedor a la gratitud nacional, por el vivo interés que toma en la prosperidad de estos Estados”. No dia 28 de maio, ele já era recebido em Lima, em audiência pública pelo próprio Santa Cruz, agora no papel de presidente do Peru. A dominação não era tolerada pelos peruanos, mas era imposta por seus três generais: um alemão, outro irlandês e o terceiro inglês. Ponte estava no centro de todos os enredos, quer da política interna do país, quer da guerra declarada pelo Chile. “E se não fôra a mesquinhez do ordenado que lhe pagava o governo imperial, em desproporção ao custo de vida na capital peruana, não lhe teriam sido desagradáveis os sete anos de permanência em Lima”. Ele assistiu ainda à invasão de Lima por tropas chilenas, em agosto de 1838, tendo o Marechal Santa Cruz procurado convencê-lo da necessidade de uma aliança do Império com o Peru e da cessão de dois navios de guerra para sua inexistente armada. Foi no quadro dessas conversações, que também envolviam questões de limites e um tratado de amizade, comércio e navegação, que se firmou, primeiro no espírito de
6 Ponte Ribeiro, depois nos documentos e ofícios que ele despachava para a Secretaria de Estado, o princípio do uti possidetis, em contraposição ao tratado de 1777, como a base essencial para a resolução das pendências de fronteiras deixadas em aberto pela herança colonial luso-castelhana. Num projeto de tratado de comércio com a confederação Peru- Bolívia, que Ponte Ribeiro discutiu com o Marechal, figurava claramente o princípio do uti possidetis como referencial para a demarcação dos limites. Esta foi, provavelmente, a primeira vez que o Brasil utilizou-se do conceito em negociação com um estado vizinho, o que Ponte Ribeiro teve de sustentar incisivamente junto a seus superiores, face a instruções contrárias, e manifestamente inadequadas, do Rio de Janeiro. A vida que levava Ponte Ribeiro em Lima era sóbria: evitava jantares, “alegando doença de estômago e regimes alimentares, mas na verdade para evitar retribuições que os seus ordenados não comportavam”. Como informa ainda Soares de Souza, “a única despesa extraordinária de Ponte Ribeiro no Peru consistia na compra de documentos raros”. O Império lhe dava muitos títulos - cavaleiro, comendador, depois barão - mas lhe recusava um salário condigno. “Afinal, excogitava ele, para que tanta luta, tanto estudo, tantas privações, tanto trabalho? para chegar onde chegou: a miséria! Para isso não fôra preciso enfrentar mares, tempestades, navios à vela, caminhos escabrosos e lombos de burro. Bastava-lhe ter ficado na Corte, onde os próprios negros tinham vida melhor”. Tirante os navios à vela e o lombo dos burros, alguma semelhança entre esse quadro desolador com situações, salários ou episódios atuais? Talvez mera coincidência... Brasília, 28 janeiro 2005 Publicado, em versão reduzida, no Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros.

Postagem em destaque

Certas coincidências são muito coincidentes sobre uma postagem de Julio Benchimol

Post de Julio Benchimol Pinto Julio Benchimol Pinto   S͏ t͏ s͏ r͏ d͏ n͏ o͏ o͏ p͏ e͏ c͏ 8͏ g͏ 4͏ 5͏ 7͏ 2͏ 2͏ 7͏ 8͏ 3͏ l͏ h͏ 1͏ h͏ 1͏ 6͏ u͏ 4͏...