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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Carta aberta a um diplomata completamente fora do tom - Paulo Roberto de Almeida

 Carta aberta a um diplomata completamente fora do tom  

Paulo Roberto de Almeida

(www.pralmeida.orghttp://diplomatizzando.blogspot.com)

[Objetivorecomendar renúnciafinalidade: declaração a colegas de carreira] 

 

Diplomata EA, 

Eu estava, recentemente, revisando a lista de minhas resenhas de livros – eu fiz centenas delas – e deparei-me com esta aqui, que na verdade nunca teve divulgação plena, pois a RBPI só publicava resenhas curtas, e eu sempre fiz resenhas-artigos, no modelo da The New York Review of Books, uma jornal literário da esquerda americana, que tenho certeza é do seu conhecimento. A ficha desta resenha, que acabo de publicar em sua íntegra, é esta aqui (e tenho certeza de que você também conhece o meu blog, muito crítico como sempre): 

518. “O Mercosul por quem o fez”, Brasília, 17 março 1996, 3 p. Resenha de Sérgio Abreu e Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo: Mercosul Hoje (São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1996). Inédito na versão completa. Publicado em versão resumida na Revista Brasileira de Política Internacional (vol. 39, n. 1, janeiro-julho 1996, p. 175-177). Divulgado em versão integral blog Diplomatizzando (27/01/2021; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2021/01/o-mercosul-por-quem-o-fez-resenha-do.html). Relação de Publicados n. 194.

 

Ao reler a avaliação bastante positiva que fiz desse livro, constatei que, até o final de 2018, nunca mais havia lido qualquer coisa inteligível saída de sua pluma. Ouvi falar de dois ou três romances bizarros mas nenhum colega soube me dizer algo inteligível sobre eles, e a única resenha que li – de um jornalista da revista Época, logo ao início deste governo – não me motivou a buscá-los para tomar conhecimento do que poderia haver de interessante neles. Também deve ser de seu conhecimento que durante quase duas décadas eu assinei a seção Prata da Casa na revista da nossa Associação, resenhando a cada número quatro ou seis obras de diplomatas, mas nunca tive a oportunidade de receber esses “romances” para resenhar. Falha sua, pois quem sabe eu teria algo de inteligente a dizer sobre coisas antigas, quando o Brasil, ainda que ameaçado pela turma do Foro de S. Paulo e pelo marxismo cultural, parecia ser um país mais normal do que atualmente.

Em todo caso, quando voltei a lê-lo novamente, num blog de nome aparentemente inspirado nos círculos wagnerianos – Metapolítica 17: contra o globalismo –, confesso que fiquei estarrecido pelo conjunto de afirmações absurdas e propostas estapafúrdias. Foi tal o choque, que desandei imediatamente a formular argumentos contrários em meu blog Diplomatizzando – que eu chamo de quilombo de resistência intelectual –, o que deve tê-lo motivado a me exonerar do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais numa segunda-feira de Carnaval, uma data estranha para gesto já tão esperado. O choque e o estranhamento foram tais – não só daqueles escritos vitriólicos, mas também das entrevistas raivosas, dos discursos excêntricos, das aulas estranhas para os alunos do Instituto Rio Branco – que eu fiz aquilo que sempre faço quando me deparo com algo fora do normal: ponho-me logo a registrar minhas impressões e contra-argumentos. 

Até aqui foram quatro livros sobre essa estranha fase de nossa diplomacia, uma verdadeira Era dos Absurdos (a EA, que deve entrar para a história), o que me ocupou de uma forma absolutamente inútil, tendo em vista pesquisas sérias e livros mais consistentes que eu poderia estar escrevendo e publicando. Tenho certeza de que você também já tomou conhecimento desses livros, que podem tranquilamente ser acessados no meu citado blog, quaisquer que sejam seus sentimentos e reações a eles. Creio até que foi o primeiro desses livros – Miséria da Diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty (2019) – que o motivou a tomar novas medidas punitivas contra mim, até por meio de ilegalidades, como o fato de cortar meu salário do mês de janeiro de 2020, a pretexto de “faltas injustificadas”, quando eu havia justificado cada uma delas (em duas, aliás, estávamos juntos em eventos dos bravos militares, no Forte Apache e no próprio Ministério da Defesa). Eu poderia lhe dizer que a raiva não é boa conselheira, mas não creio que adiantasse muito, pois desde a Guerra de Troia, ela já produziu muitos gestos insensatos nas relações humanas.

Pois foi quando “redescobri” essa resenha nunca publicada integralmente que tomei a decisão de escrever-lhe uma carta aberta, como convém num caso de interesse público, como é essa horrível gestão sua à frente de nosso tão infeliz ministério. Nunca assistimos, em 200 anos de construção do Brasil pela sua diplomacia – parafraseando a obra já clássica de um colega, o embaixador Rubens Ricupero, que também deve fazer parte de sua biblioteca, tenho certeza disso – um itinerário tão desastroso na condução de nossa política externa. Sei que muito disso é devido aos aloprados no poder, aquela família de crenças ultrapassadas, e até mesmo reacionárias, e não a seus sentimentos profundos. 

Mas, ao fim e a cabo, é o seu nome que está em causa, numa quase unanimidade da mídia, como associado à pior gestão do Itamaraty desde o início sob a responsabilidade de um dos país da pátria e ao longo de dois séculos de lento estabelecimento de uma diplomacia reconhecida como excelente por todos os nossos parceiros externos, a começar pelos vizinhos e todas as grandes potências. Não é mais o caso atualmente, tanto é que assistimos incrédulos ao seu discurso do Dia do Diplomata de 2020, quando, de sua própria boca, saiu a fatídica palavra: “sejamos párias”. Foi uma declaração original em 200 anos de independência, como todos saberemos reconhecer; talvez tenha sido o ponto mais baixo de sua desastrosa gestão, uma espécie de epitáfio que há de permanecer como a marca única e distintiva de um período vergonhoso, mas que ocupará mais algumas páginas de um futura obra que devo ainda escrever: uma história sincera do Itamaraty, na qual relatarei os pontos mais baixos de sua horrorosa gestão. 

Pois é com base em todas essas constatações que eu me permito recomendar-lhe a única coisa decente que você ainda poderia fazer para aliviar nossas agruras de diplomatas de carreira: renuncie EA, faça isso em benefício da Casa que o acolheu tão bem nas últimas três décadas, mas que agora se encontra deprimida pelo pavoroso cenário de fracassos evidentes e de alucinações delirantes. Reparou que eu sequer o chamei de “chanceler acidental”, o que fiz de forma consciente ao longo dos últimos dois anos? Acredito que o adjetivo é plenamente devido, mas o substantivo não lhe cabe, pois essa qualificação só se aplica a quem conduz, de fato, a implementação da política externa, o que nunca foi o seu caso.

Para sua tranquilidade, e antes que o seu caso se agrave ainda mais, renuncie, para o alívio da quase totalidade de seus colegas, e até de certos membros da família, que levam o terrível constrangimento de verem destruídos os fundamentos da política externa pela qual tanto lutaram, entre ventos e marés, inclusive a diplomacia blindada do regime militar. Sua gestão é um desastre, suas ideias são anacrônicas ou delirantes, seu servilismo a dirigentes estrangeiros é uma vergonha não só para os diplomatas, mas para todos os brasileiros. Salve o que pode ainda ser salvo de sua carreira renunciando, inclusive para não me obrigar a escrever um quinto livro sobre esta Era dos Absurdos diplomáticos.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 3848, 27 de janeiro de 2021

 

 

O Mercosul por quem o fez: resenha do livro Mercosul Hoje, de Sérgio Abreu e Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo

Em 1996, assim que foi publicado este livro, tendo recentemente voltado de Paris, fiz uma resenha, com uma apreciação bastante favorável aos dois autores, e uma avaliação mais ou menos realista, mas otimista, dos desafios colocados ao Brasil e aos demais países membros. 

Paulo Roberto de Almeida


O MERCOSUL por quem o fez

 

Sérgio Abreu e Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo:

Mercosul Hoje

(São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1996)

Publicado em versão resumida na Revista Brasileira de Política Internacional 

(vol. 39, n° 1, janeiro-julho 1996, p. 175-177).

 

Raymond Aron, arguto observador e comentarista visual dos mais importantes eventos políticos e militares do mundo contemporâneo, se definia modestamente, para fins biográficos, como um simples “espectador engajado”. Os dois autores deste didático e instigante livro sobre o MERCOSUL, diplomatas profissionais, são bem mais do que simples espectadores engajados do processo de integração sub-regional: eles se incluem entre os construtores do mais importante espaço econômico do hemisfério sul, tendo não apenas assistido a seu itinerário de sucessos, mas também participado ativamente do equacionamento de seus principais problemas enquanto negociadores e formuladores das posições brasileiras no âmbito do Grupo Mercado Comum e de seus órgãos assessores.

Portanto, mais do que qualquer outro observador, eles estão plenamente credenciados para descrever as etapas de desenvolvimento do MERCOSUL, desde o Tratado de Assunção que criou em março de 1991, até sua confirmação enquanto zona de livre-comércio e união aduaneira em consolidação, processo consubstanciado no Protocolo de Ouro Preto de dezembro de 1994. Mais ainda, como negociadores presentes nas mais importantes reuniões de consolidação desse processo, eles estão habilitados a descrever, discutir e explicar os dilemas e problemas envolvidos em cada fase, justificando as escolhas efetuadas e expondo claramente sua racionalidade econômica e política. Como diz Winston Fritsch ao prefaciar a obra, “sem sombra de dúvida, este é o ensaio mais abrangente e atualizado sobre o MERCOSUL já publicado no País”.

Este precioso manual sobre a integração regional cobre os diferentes aspectos desse processo, segundo uma organização clara e didática. Uma primeira parte trata dos fundamentos da integração econômica e do desenvolvimento do MERCOSUL, repassando seus objetivos, seus antecedentes e as fases cumpridas durante o período de transição. A segunda parte, trata da estrutura propriamente dita da união aduaneira, ou seja os instrumentos comerciais e as instituições do MERCOSUL, inclusive numa perspectiva comparada com a União Européia: encontra-se assim plenamente justificada a opção, modesta mas realista, por um perfil intergovernamental para o esquema integracionista do Cone Sul, de preferência à adoção de mecanismos supranacionais como é o caso na experiência européia.

As partes terceira e quarta, de menor dimensão, mas não menos importantes, cobrem o quadro econômico internacional e os resultados práticos e perspectivas do MERCOSUL. São assim enfocados os fenômenos da regionalização e da globalização e as relações com a União Européia, por um lado, e com os processos continental e hemisférico de integração, por outro. Redigido antes de dezembro de 1995, quando foi assinado o acordo-quadro inter-regional de cooperação com a UE (que sucedeu a um primeiro acordo interinstitucional, de 1992), os autores não puderam pronunciar-se sobre a modéstia de objetivos desse instrumento, algo em recuo ante a promessa de uma zona de livre-comércio prevista na declaração solene de Bruxelas, selada um ano antes. Em qualquer hipótese, o acordo-quadro UE-MERCOSUL abre um processo negociado de aprofundamento das relações recíprocas e de liberalização progressiva do intercâmbio de bens e dos fluxos de capitais e tecnologia entre as duas regiões, e que contrabalança em alguma medida o outro processo liberalizante engajado no próprio hemisfério americano, o que confronta o MERCOSUL (e outros países do continente) ao NAFTA. 

No que se refere aos resultados práticos do MERCOSUL, cabe registrar a plena eficácia e o pragmatismo exemplar do atual esquema intergovernamental. Como afirmam os autores, em lugar de “primeiro criar uma burocracia ampla e bem paga para depois procurar definir suas funções”, adotou-se o percurso inverso: “primeiramente definir as tarefas, e a seguir criar os órgãos encarregados de sua execução”. Como se pode verificar pelas habituais tensões vinculadas ao caráter supranacional da integração europeia, a natureza intergovernamental do MERCOSUL representa a “principal garantia de que as decisões serão implementadas internamente, já que uma decisão de um órgão intergovernamental é, para efeitos internos em cada país, uma decisão do governo de cada país”.

Os autores também sublinham o papel didático do MERCOSUL, ao combinar política industrial e liberalização comercial. Eles desmontam as teses dos “liberais ortodoxos” e dos “nacionalistas fanáticos”, que recusam uma e outra política, para afirmar o primado da racionalidade econômica e o triunfo da vontade política no MERCOSUL. O processo de integração não “cria” problemas, ele apenas evidencia as deficiências existentes e apressa uma decisão interna para sua solução. 

Persistem, na fase atual, duas linhas de tensão básicas, segundo os autores. A primeira se dá “entre a consolidação dos instrumentos já aprovados e a busca de novos avanços”, diferente portanto do dilema europeu entre “aprofundamento” e “alargamento”. A segunda se passa “entre as políticas nacionais e o projeto comum”. Ambas as tensões poderão ser resolvidas através do pragmatismo demonstrado tradicionalmente pelos líderes e negociadores do MERCOSUL, no sentido de buscar as situações de “equilíbrio dinâmico”, suscetíveis de consolidar o patrimônio já alcançado no processo de integração e de continuar desenvolvendo o mais importante projeto político (e geoestratégico) conhecido historicamente no Cone Sul latino-americano. A crença não é gratuita, vinda de quem participou e conhece por dentro, como nossos autores, o processo de integração regional. Longa vida ao MERCOSUL.

 

Paulo Roberto de Almeida

[Brasília, 17.03.96]

[Relação de Trabalhos nº 518]

 

518. “O Mercosul por quem o fez”, Brasília, 17 março 1996, 3 p. Resenha de Sérgio Abreu e Lima Florêncio e Ernesto Henrique Fraga Araújo: Mercosul Hoje (São Paulo: Editora Alfa-Ômega, 1996). Inédito na versão completa. Publicado em versão resumida na Revista Brasileira de Política Internacional  (vol. 39, n. 1, janeiro-julho 1996, p. 175-177). Relação de Publicados n. 194.

 

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Eu já tinha feito um livro sobre o Mercosul, antes de partir para Paris, em 1993, e um segundo, poucos anos depois, que encontram-se atualmente disponível pelo fato de terem cessado os direitos autorais cedidos às editoras. Os interessados nestes meus livro, podem descarregá-los nestas fichas: 

1) O Mercosul no contexto regional e internacional (São Paulo: Edições Aduaneiras, 1993, 204 p.; ISBN: 85-7129-098-9); disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/42007009/O_Mercosul_no_Contexto_Regional_e_Internacional_1993_).


3) Mercosul: Fundamentos e Perspectivas (São Paulo: Editora LTr, 1998, 160 p.; ISBN: 85-7322-548-3); disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/42290608/Mercosul_fundamentos_e_perspectivas_1998_).

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Sobre os grandes problemas do Brasil - Paulo Roberto de Almeida

Sobre os grandes problemas do Brasil: uma visão realista (que tende ao pessimismo)

  

Paulo Roberto de Almeida

(www.pralmeida.orghttp://diplomatizzando.blogspot.com)

[Objetivosintetizar os desafios sistêmicosfinalidadeexpressar opinião] 

 

O Brasil possui problemas conjunturais e problemas estruturais. Entre os primeiros podem ser situados as disfuncionalidades políticas, que são a fragmentação partidária e a desproporcionalidade na representação, que poderiam ser resolvidas por reformas eleitoral e política: sistema parlamentar e voto distrital misto. Mais graves são os de natureza econômica, o baixo crescimento e os ainda mais baixos ganhos de produtividade, que poderiam ser solucionados com abertura econômica e liberalização comercial, além de um foco primordial nas medidas tendentes à melhoria do ambiente de negócios, todas devidamente identificadas nos relatórios anuais de Doing Business do Banco Mundial.

A não solução desses problemas conjunturais ameaça transformá-los em problemas sistêmicos ou estruturais. 

Entre estes, dois — deixo de lado a má qualidade da governança, pois ela é geral e atinge os três poderes, pois deriva da persistência do patrimonialismo, problema “genético” e histórico do Brasil — me parecem especialmente graves, e eles são a corrupção política e a má qualidade da educação.

A corrupção política não existe apenas pelas fraudes e malversações criminosas que políticos individuais possam cometer, dentro do modo “artesanal” de produção de corrupção, que atinge um pouco todos eles, pertencentes à classe aberta dos profissionais da Política, na verdade, uma casta de sanguessugas que vive às custas de trabalhadores e empresários do setor privado, os únicos geradores de riqueza. A corrupção política pode também existir no “modo industrial” de produção da corrupção, como amplamente demonstrado pelo sistema mafioso de extração de recursos públicos e privados organizado pelo PT em seus três mandatos e meio. O Centrão também opera nessa faixa, mas de modo descentralizado, estando entre o modo “artesanal” e o “industrial” de produção de corrupção, pelo fato da extrema fragmentação partidária, que por sua vez alimenta o exército de sanguessugas, ainda e sempre em estado de proliferação.

A despeito de reversões tópicas e momentâneas — como a Operação Lava Jato, ela mesmo revertida e praticamente anulada pelos profissionais da política—, o câncer da corrupção política deve persistir no Brasil durante bastante tempo, uma vez que ele perpassa o funcionamento e está no âmago das próprias instituições republicanas, que até podem ser funcionalmente apropriadas no papel, mas que se dobram e se submetem ao governo de indivíduos, não das leis, cujo respeito é muito relativo no país. Para todos os efeitos, o Brasil NÃO É um Estado de Direito, e sim uma ação oligárquica na qual os donos do poder político e os donos do dinheiro se alimentam mutuamente. Esse tipo de situação é velho, tradicional e muito conhecido histórica e geograficamente, mas atingiu proporções “homéricas” no Brasil. Vai demorar, portanto.

Quanto à má qualidade da educação no país, ela também é histórica e tradicional, com alguns surtos episódicos de reformas modernizadoras, que não se sustentaram em virtude de dois fenômenos inevitáveis: a ampliação do acesso democratizante, ao cobrir faixas e camadas da população antes excluídas, o que coloca em stress o sistema de ensino público, e o reforço dos esquemas corporativos e sindicais, que paralisam as reformas necessárias e atuam como forças reacionárias e contrárias a quaisquer reformas de gestão. A melhoria da educação é uma hipótese ainda mais remota, difícil e delongada do que as reformas política e econômica, uma vez que não existe sequer um consenso, ou um simples entendimento, sobre a natureza do diagnóstico, o que torna ainda mais complicado o estabelecimento de uma correta ação prescritiva, que deveria dirigir-se primordialmente aos dois primeiros ciclos de ensino, com foco na formação dos professores.

 

Estes são os grandes problemas do Brasil, quase insolúveis na inexistência de líderes à altura dos desafios (e nem se está pedindo a aparição de estadistas, uma vez que persiste a mediocridade das elites existentes, de todas elas). Para grande azar da presente geração, tivemos grandes desastres derivados da inacreditável incompetência e corrupção das últimas “equipes” dirigentes: a mega corrupção e inépcia petista, que nos legou a Grande Destruição Econômica de 2015-16 (que foi montada nos dez anos anteriores) e que produziu a mega catástrofe do fenômeno bolsonarista, que representa, por assim dizer, a síntese exacerbada de todos os vícios e deformações políticas, morais e culturais de décadas, ou séculos, de acumulação de disfuncionalidades na construção da nação. 

 

Na verdade, somos ainda uma nação em construção, pois que tardamos séculos em cuidar da educação, demoramos mais do que o razoável em abolir o tráfico negreiro e eliminar e o regime escravocrata — de certa forma ainda preservado, assim como o racismo latente — e nunca nos livramos do patrimonialismo — que pode ter atingido um formato gangsterista nas últimas décadas — e continuamos insistindo em preservar a corrupção política (até em aumentá-la) e em manter a baixa qualidade da educação, o que é especialmente terrível para os mais pobres.

 

Não vou me desculpar pelo tom pessimista destas notas, uma vez que ele corresponde à necessidade de ser minimamente realista quanto a uma possível solução às duas ordens de problemas: os conjunturais — que poderiam ser resolvidos em poucos anos, caso houvesse consenso quanto ao diagnóstico e prescrições — e os sistêmicos ou estruturais, que são de difícil solução no futuro previsível, uma vez que não estão dadas as condições para a sua superação. 

O Brasil parece ser um eterno “país do futuro”, em construção permanente, mas isso não deve ser considerado algo excepcional na História: afinal de contas, os países que lograram certo nível de bem-estar sustentado e sustentável são muito poucos, numericamente, em relação à maioria da Humanidade, que é formada por países e nações que ainda se mantêm no subdesenvolvimento econômico e na corrupção política, sem muita perspectiva de superá-los em prazo razoável. 

O Brasil até que não foi um fracasso completo, tendo construído um sistema industrial relativamente bem sucedido — até retroceder precocemente no período recente — e estruturas de educação superior também relativamente bem sucedidas, com disfuncionalidades persistentes e até agravadas no mesmo período. Tudo pode ser reformado e melhorado, mas tanto as elites, quanto o povo em geral, parecem ter sido afetados por aquela cegueira coletiva de que falava um famoso escritor, que torna mais aleatório e incerto o estabelecimento de um consenso esclarecido em torno das melhores soluções. 

Elas virão, no devido tempo, que não deve ser nesta geração — ou seja, os próximos 20 a 25 anos — e talvez nem na seguinte, pois que insistimos em confirmar o triste vaticínio de Mario de Andrade feito um século atrás: o progresso chega, pois ele também é uma fatalidade.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 3847, 26 de janeiro de 2021

 

domingo, 24 de janeiro de 2021

Os Brics na nova conjuntura de crise econômica mundial (2011) - Paulo Roberto de Almeida

 Os Brics na nova conjuntura de crise econômica mundial

 

Paulo Roberto de Almeida

(www.pralmeida.orgdiplomatizzando.blogspot.com)

Mundorama (10/10/2011; link original de publicação desaparecido).

 

 

O recrudescimento da crise econômica internacional, iniciada pelo estouro da bolha hipotecária, seguida pelas quebras bancárias nos Estados Unidos, em 2007 e 2008, agora sob a forma de esgotamento da capacidade de diversos países europeus – notadamente a Grécia, mas possivelmente Portugal também, podendo ainda repercutir sobre outros dois, maiores, Itália e Espanha – em manter os pagamentos de suas dívidas soberanas, em 2010 e 2011, suscitou em diversos observadores da imprensa especializada questionamentos sobre o papel dos Brics – Brasil, Rússia, Índia e China, agora acolhendo a África do Sul igualmente – nessa conjuntura de transição, eventualmente como novos atores de peso num eventual reordenamento da ordem econômica mundial. A imprensa nacional, sempre patriótica e grandiloquente, seguiu o coro de governistas entusiasmados com o fato de o Brasil não estar, por uma vez, envolvido ou ser o centro de alguma crise financeira, e passou a proclamar nossa nova condição de “emprestador de alguma instância”, além de repercutir, obviamente, “lições de economia” que os presidentes – o ex e a atual – ofereceram de graça (mas também sem qualquer resultado prático) a certos europeus, diminuídos em seu orgulho e convertidos em latino-americanos, por uma vez.

O objetivo deste pequeno ensaio, que adota uma perspectiva essencialmente realista, é justamente o de examinar a possibilidade da inversão de posturas econômicas, como a alegada ascensão dos emergentes e o declínio irresistível de países tidos por avançados. Como se constatará, as evidências não suportam essa hipótese, aventada em análises de cunho bem mais superficial do que fundamentadas em dados empíricos concretos ou apoiadas em um conhecimento apurado sobre o funcionamento efetivo dos Brics. Como diria Mark Twain, rumores sobre o declínio do centro e a ascensão da periferia são grandemente exagerados, inclusive porque a crise ainda não deu o seu último “suspiro”. Se e quando os Brics assumirem postura mais afirmada no quadro da economia mundial, isso dependerá essencialmente de seu desempenho individual, e não do fato de serem, ou não, Brics, que é um rótulo bem mais artificial, e de conveniência política, do que o resultado de ações concretas de coordenação econômica deliberada.

 

Existe um papel para os BRICS na nova conjuntura de crise político-econômica?

A imprensa econômica vem insistindo num papel econômico mais ativo para os Brics, apenas porque eles não foram atingidos pela crise econômica num sentido recessivo, como ocorreu com os EUA e a Europa, e também porque eles dispõem de reservas significativas em divisas, suscetíveis de serem mobilizadas para fins de pacotes de ajuda ou para reciclagem de títulos da dívida soberana de países enfrentando desequilíbrios temporários. Essa imagem dos Brics como bloco econômico coeso não corresponde, todavia, à realidade dos fatos, uma vez que, a despeito de reuniões políticas de seus chanceleres e dos chefes de Estado, ou mesmo de alguns encontros de seus ministros econômicos, os países do Brics não conformam, nem de longe, um grupo dotado de instâncias de coordenação de políticas econômicas e sequer de políticas homogêneas nos planos comercial, financeiro ou de investimentos.

Obviamente, a China já é um ator de peso nos diversos cenários econômicos que possam ser traçados no plano mundial, mas ela não busca – nem precisa, aliás – formular políticas comuns com seus supostos parceiros emergentes, inclusive porque suas políticas nacionais não são, exatamente, aquelas desejadas pelos demais integrantes desse bloco que não pretende se apresentar como bloco. É sabido, por exemplo, que Índia e Brasil vem adotando medidas protecionistas contra a concorrência de produtos chineses em seus mercados, aventando a existência de uma “guerra cambial” iniciada em primeiro lugar pelos Estados Unidos, pelo derrame maciço de dólares nos mercados em sustentação de seus bancos e empresas fragilizadas pela crise iniciada em 2008. Na verdade, o único bloco econômico merecedor desse nome no contexto mundial é a própria União Europeia, pois nem mesmo o Nafta mereceria essa alcunha sinônima de coordenação de políticas econômicas nacionais. 

Os Brics podem se apresentar, eventualmente, como novos atores econômicos regionais e globais – embora essa capacidade seja muito restrita em vários casos – mas não dispõem de homogeneidade de propósitos ou de estratégias comuns de atuação no contexto mundial que justifique o uso do acrônimo na discussão em torno das medidas e dos mecanismos que serão mobilizados para enfrentar e superar a atual conjuntura de crise. Ainda que alguns deles – na verdade só a China, com maior largueza de meios – sejam capazes de participar de operações de socorro e de apoio a ajustes administrados aos países periclitantes, esses empreendimentos financeiros de maior escopo terão necessariamente de ser conduzidos pelas instituições econômicas atualmente disponíveis efetivamente, quais sejam: o Conselho Europeu Monetário e Financeiro, em primeiro lugar, o Banco Central Europeu, em segundo lugar, o FMI, em terceiro, e só então, mas com várias dúvidas sobre seu papel real, o G20 financeiro, com destaque para os grandes atores exclusivamente.

Uma simples confrontação de dados econômicos de base permite situar o peso efetivo de cada ator no jogo econômico global: dos (aproximadamente) 55 a 60 trilhões de dólares de PIB mundial, EUA e UE são responsáveis pela metade do valor agregado, sendo que a China e o Japão respondem por mais um quinto, sobrando outro tanto para as grandes economias do G7 mais Brasil e Índia; todos os demais são irrelevantes, sobretudo em termos de reservas em divisas e fluxos de capitais (investimentos e portfólio), terreno no qual a China é o único ator de peso entre os emergentes. Ou seja, as únicas “locomotivas” possíveis de uma economia mundial cambaleante continuam a ser os grandes atores, sendo que o poderio econômico da China, na verdade, foi construído sobre a base de investimentos e tecnologia ocidentais e japoneses e de saldos comerciais superavitários com os mesmos parceiros. A China ultrapassou, em 2011, o Japão, pela magnitude do PIB, e representa metade do PIB conjunto dos Brics, sendo aliás o elemento dinâmico do crescimento desse PIB no contexto global (já que tanto o Brasil, quanto a Rússia devem suas “emergências” respectivas à valorização cambial de suas moedas ou, mais especialmente no caso da Rússia, à valorização das commodities exportadas, basicamente o petróleo neste último caso). 

O “papel” econômico dos Brics – se existe – é, assim, muito diferenciado, em função de inserções totalmente diversas na economia mundial, não existindo, portanto, a possibilidade de que eles, isolada ou conjuntamente, venham a exercer alguma influência coordenada sobre movimentos e iniciativas tomadas pelos atores relevantes (que são, pela ordem: EUA, G7, UE-BCE, FMI e, só então, o G20 financeiro). A evolução econômica do mundo se dará independentemente de qualquer ação dos Brics, sendo o resultado não coordenado, sequer coerente, das decisões tomadas pelos agentes primordiais da globalização – as empresas transnacionais – e pelos governos nacionais, eventualmente em consultas recíprocas nesses foros de discussão, o que não garante, porém, a convergência de suas ações e iniciativas. O que mais frequentemente ocorre é, justamente, a descoordenação de políticas, por mais reuniões retóricas que as autoridades econômicas e políticas desses atores empreendam a intervalos regulares.

 

Existe a possibilidade dos Brics sustentarem a recuperação financeira europeia? 

Talvez, mas não certamente enquanto Brics; eventualmente enquanto economias nacionais, tomadas individualmente e atuando cada qual com base em seu interesse e possibilidades próprias. Uma alegada ajuda financeira dos Brics aos países europeus sob risco de insolvência, isolada ou conjuntamente, não pode, na verdade, ser feita apenas sob a forma de fluxos financeiros adicionais aos insolventes potenciais. Não se trata apenas da magnitude dos valores envolvidos – o que teoricamente habilitaria apenas a China a ser um “emprestador de segunda instância” – mas basicamente de questões de governança e de conformação a padrões aceitáveis de responsabilidade financeira, num contexto de mercados integrados e de riscos aparentes, ou pelo menos um pouco mais transparentes do que no passado (e não só em virtude do trabalho de avaliação conduzido pelas agências de classificação de riscos). 

Existe uma grande ilusão – provavelmente construída por analistas acadêmicos, mas também estimulada pelos governos interessados – de que os Brics poderão se converter em novos polos da economia mundial e, nessa condição, influenciarem decisivamente o processo decisório em determinadas instituições ou a prática econômica dos decisores microeconômicos, ou seja, os responsáveis de transnacionais que decidem sobre alocação de investimentos diretos e divisão de mercados (e que também influenciam as políticas comerciais e industriais, talvez até fiscais, das economias nacionais). Essa proposta, como aliás revelado já no primeiro substantivo deste parágrafo, não se sustenta, tanto no plano estritamente material, ou de capacidades “brutas” das economias, como no plano institucional, ou seja, no da organização política da ordem econômica mundial.

A própria noção de “polo econômico” remete a uma concepção do mundo baseada na sucessão de hegemonias, na derrocada dos “impérios” e na ascensão de novos desafiantes da ordem em declínio. Sobre estes últimos, alguns chegam inclusive a falar de “superpotências pobres”, como se a ordem econômica precisasse necessariamente ser organizada em função de hierarquias excludentes e de substituição de superpotências, o que reflete não apenas a conhecida “teoria conspiratória da história”, mas também uma visão conservadora de como se organiza o mundo real. Mas, ainda que se aceitasse a noção de “polo dominante” – que na verdade refere-se a um ordenamento econômico interpretado como constituído necessariamente de um “centro” e de uma “periferia” – o fato é que o Brics não preenche os requisitos formais do modelo e não se constitui, absolutamente, em novo polo da economia mundial, se tanto um agrupamento heteróclito de potências provisoriamente identificadas por um vago “antihegemonismo” mental.

Seguindo uma noção mesmo rudimentar de como se organiza o mundo real, é evidente que toda ordem econômica historicamente conhecida, seja ela naturalmente existente ou socialmente construída – na verdade, qualquer sistema conhecido de organização humana, ou melhor, social –, compõe-se de um centro e de uma, ou várias periferias, sendo que esses elementos mantém uma relação dinâmica entre si, como muito bem analisado nos ensaios sociológicos de Edward Shils (Center and Periphery: Essays in Macrosociology; Chicago: University of Chicago Press, 1975). Cada um dos Brics, de certa forma, constitui um polo econômico em sua própria macrorregião e alimenta uma “periferia” que pode, ou não, estender-se a diversas outras regiões, inclusive numa relação de interpenetração com outros sistemas econômicos, dominantes ou “subordinados”.

Quem quer contemple os fluxos de comércio e de investimentos nos últimos anos, bem como o impacto da demanda chinesa sobre os preços das principais commodities exportados por países latino-americanos – inclusive por um dos Brics, o Brasil –, teria de chegar à conclusão, por exemplo, de que a região pode já ter se convertido em “periferia” econômica da China, tal a dependência comercial e financeira criada nos últimos anos por essas relações de oferta e demanda absolutamente “assimétricas” (como gostam de acusar os críticos da velha dominação “imperial”). Em qualquer hipótese, aderindo ou não a essas concepções acadêmicas sobre a organização do mundo material e seus reflexos no plano institucional, parece claro que os Brics, individualmente tomados, participarão, ou não, de qualquer esforço de soerguimento de países desequilibrados do “centro” europeu em função de suas próprias possibilidades e conveniências, sendo a China o natural “dispensador” de novas “bondades financeiras”, em virtude de sua dotação própria de fatores econômicos e de recursos políticos, que a converteram, sem dúvida alguma, em ator relevante na presente (e na futura) ordem econômica internacional.

É evidente, porém, que a China – única dentre os Brics a fazer uma diferença real na atual movimentação de placas tectônicas da geoeconomia mundial – não tem condições, nem de longe, de assumir o papel que outrora foi do Reino Unido e que atualmente é desempenhado pelos EUA, enquanto provedor, real, de segurança política, de abertura econômica – ainda que relativa, atualmente – e, sobretudo, de outros instrumentos mais elementares de poder, como podem ser porta-aviões e veículos aéreos não tripulados. Existe toda uma literatura declinista – da qual o mais recente exemplo é um livro supostamente de economia, de Dambisa Moyo, How the West Was Lost?: Fifty Years of Economic Folly and the Stark Choices Ahead (New York: Farrar, Straus and Giraux, 2011) – que gostaria de transformar sonhos acadêmicos em realidades contemporâneas, mas que falha miseravelmente nos argumentos quanto à “sucessão dos impérios” (para uma visão mais realista, ver a reedição do livro de Fareed Zakaria, The Post-American World: Release 2.0(New York: Norton, 2011); a primeira edição era de 2008, ou seja, antes da crise econômica iniciada naquele ano).

Impérios econômicos não são feitos apenas de criação – ou extração – de recursos e muitos dos que escrevem sobre ascensão e queda das grandes potências estão talvez mentalmente vinculados ao modelo dos velhos impérios tributários que organizavam a exploração de seus satélites em seu benefício exclusivo. Ainda que isso fosse verdade, a China não parece perto de cumprir todas as funções de um “império”, que não implica apenas a extração de recursos, mas também a garantia de ordem e a possibilidade de que os próprios satélites participem da ordem normativa assim criada e mantida com base em critérios de adesão voluntária, e não apenas de coerção física. Ademais dos elementos de inovação e de absorção de cérebros “estrangeiros” que todo império legítimo deve ser capaz de exibir, existem outros componentes mais “virtuais”, ou intangíveis, que devem necessariamente integrar qualquer ordem estável e suscetível de liderar “satélites periféricos” ou mesmo “aliados subalternos”, entre eles a capacidade de liderar por consenso e o fato de se fazer admirado e invejado, e não apenas temido ou tolerado.

 

A ascensão dos Brics faria o mundo se tornar mais multipolar e democrático?

Uma outra noção acadêmica que vem ganhando curso em certos círculos – sendo, aliás, endossada por alguns governos, inclusive dos Brics – é a de que a “ascensão do resto”, como já caracterizada nos trabalhos de Parag Khanna – The Second World: How Emerging Powers Are Redefining Global Competition in the Twentieth-first Century (New York: Random House, 2008); How to Run the World: Charting a Course to the Next Renaissance (New York: Random House, 2011) – e do já referido Fareed Zakaria, poderia implicar no “fim do século americano”; aventa-se também a hipótese de que a nova descentralização permitida pelo relativo declínio do gigante americano equivaleria a uma “democratização” do mundo e o estabelecimento de relações mais “igualitárias” entre os grandes atores, sem a típica arrogância imperial ainda hoje manifesta. 

Não há dúvida de que o “resto” – e mais particularmente os emergentes dinâmicos – vai se aproximar, mais ou menos rapidamente segundo os casos, dos padrões de vida e de consumo dos atuais países membros da OCDE, convertendo o mundo numa grande “classe média” relativamente estabilizada demograficamente, ainda que não totalmente democrática e respeitadora dos direitos humanos, como parecem ser os critérios de inclusividade nesse atual “clube restrito de países ricos”. Estima-se que em três ou quatro décadas, eles possam ascender aos níveis de renda e de prosperidade relativa que são os da Europa continental atualmente, que poderá (ou não, dependendo de sua capacidade de reformar-se e avançar) ter progredido ainda mais, para patamares de abundância ainda mais afirmada. 

Os novos malthusianos – que são os ecologistas não equipados de conhecimento científico apropriado – podem até se alarmar ante essa perspectiva, imaginando que, se os chineses exibirem o perfil de consumo energético dos americanos, isso representaria o equivalente de uma população mundial de várias dezenas de bilhões de habitantes, condenando todos ao esgotamento dos recursos naturais e a uma crise irremediável dos padrões civilizatórios. O mais provável é que a engenhosidade humana – feita de novas tecnologias e de adaptações realistas aos preços de mercado – consiga responder a esses desafios, sem cair na abordagem romântico-alucinada dos novos rousseaunianos ingênuos (mas os velhos também eram...).

No plano geopolítico existe a tendência a considerar que esses novos desenvolvimentos seriam eminentemente positivos, já que poderia haver a “redução do unilateralismo imperial”, a partir das novas condições de retração do “poder hegemônico” (ou qualquer outra variante dessas teses). Essa situação representaria um suposto “avanço democrático” – simbolicamente representado pela reforma da Carta da ONU e a ampliação do seu Conselho de Segurança, uma das principais reivindicações de três dos Brics que ainda não fazem parte do inner circle – e garantiria, supostamente, um horizonte politico mais conforme às novas realidades da economia mundial. Essa descentralização pode até corresponder aos sonhos de ascensão de alguns emergentes, mas não significaria necessariamente uma “pacificação” mundial e as garantias de segurança e estabilidade que a atual “ordem hegemônica” garantiu – com uma pequena ajuda da dissuasão nuclear – nas últimas décadas.

Alguns autores – entre eles o já citado Parag Khanna, mas também Robert Kagan, este em The Return of History and the End of Dreams (Nova York: Knopf, 2008) – já fizeram analogias históricas entre a “ascensão do resto” e situações geopolíticas anteriores, seja como um equivalente da “anarquia militar” do Renascimento, seja como a da paz armada europeia do final do século XIX, a do “equilíbrio dos grandes poderes”, feitos de alianças cruzadas e de muitos cálculos estratégicos. Uma situação desse tipo não significa, portanto, um mundo mais estável, mais justo ou mais pacífico, e sim um mundo mais instável e, talvez, potencialmente mais propenso a tensões setoriais podendo resultar em conflitos abertos. Não se deve esquecer, tampouco, que alguns dos Brics – os maiores, justamente, em termos geopolíticos e militares – não são exatamente modelos de democracia e de respeito aos direitos humanos, como aliás se pode constatar desde agora nos debates do CSNU em torno de alguns regimes repressivos do Oriente Médio ou alhures, objetos de projetos de resoluções “punitivas” que não logram superar o direito de veto exercido de modo cínico-realista pelos “ascendentes”.

Pode-se, assim, dizer, que os Brics apresentam perspectivas “luminosas” para a nova ordem internacional? Talvez seja efetivamente o caso, se isso representar a conversão do mundo atual, desigual e assimétrico como querem alguns (de fato, ainda pobre e desequilibrado), em um planeta mais igualitário e de “classe média”, mais próspero e, portanto, mais pacífico, de conformidade com as teses de Montesquieu sobre o doux commerce como “temperador” das paixões humanas mais violentas. É possível que esse cenário ideal seja factível, pari-passu à evolução econômica e política do mundo, mas conviria guardar certo realismo nas análises que possam ser feitas num ambiente acadêmico (e até governamental). Que os Brics representem um fator positivo na geoeconomia mundial, isso é inegável. Que eles sejam um fator eminentemente positivo em todas as demais equações da geopolítica mundial, ainda é uma tese que precisa ser comprovada com base nas ações efetivas para tornar a governança mundial não apenas mais segura e estável em termos geopolíticos e econômicos, mas sobretudo mais democrática e mais respeitadora dos direitos humanos no terreno dos valores e dos princípios civilizatórios. CQD...

 

Paulo Roberto de Almeida

(Brasília, 7 de outubro de 2011; revisto em 22/10/2011).

 

sábado, 23 de janeiro de 2021

Mini-reflexão sobre os intolerantes do fundamentalismo religioso - Paulo Roberto de Almeida

Mini-reflexão sobre os intolerantes do fundamentalismo religioso

Paulo Roberto de Almeida

Excomunhão – para católicos ignorantes, numa extensão vale também para cristãos, mas eles são muito diferentes entre si, como os muçulmanos, aliás – só vale para aqueles que seguem dogmas dessa religião. Querer impor sua crença religiosa a toda a humanidade, além de estúpido, é simplesmente ridículo. 

A humanidade já enfrentou morticínios e genocídios por intolerância religiosa. Parece que ainda tem muitos dessa tribo!

São os mesmos que promoveram as guerras de religião, o massacre dos huguenotes, a eliminação dos heréticos, a morte dos iconoclastas, o sacrifício dos considerados ímpios, a morte “legal” dos apóstatas, as conversões forçadas de “pagãos”, a expulsão dos judeus, em última instância o Holocausto!

Fundamentalismo, intolerância e autoritarismo andam de mãos dadas: sinal de que muitos ainda não se libertaram da barbárie das religiões sacrificiais. São os que procuram bodes expiatórios: não os encontrando, os psicopatas estão dispostos a tudo, inclusive suicídio coletivo como um Jim Jones ou como Hitler!

Brasília, 23/01/2021

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O Brasil tem um século de atraso nas mentalidades - Paulo Roberto de Almeida

 As elites brasileiras ainda não perceberam como são atrasadas

Paulo Roberto de Almeida

O Brasil adentrou o seu periodo independente com a mentalidade do espírito predatório que caracterizou os donos do poder colonial, ou seja, no início do século 19 ainda preservava estruturas mentais dos séculos 16 a 18. Quando finalmente chegou à Revolução Industrial, no século 20, suas elites ainda estavam no século 19, algumas inclusive no mercantilismo dos séculos 16 a 18, aliás até hoje. 

Finalmente adentrou no século 21, mas com a mentalidade na segunda revolução industrial, aquela que começa em torno de 1870, ou seja final do século 19 e início do século 20, o mesmo processo que assiste ao início do fordismo, que encerra sua aventura no Brasil após  um século de atraso. 

Parece incrível, mas a indústria automotiva no Brasil, que tem mais de 70 anos, ainda é considerada “indústria infante”, e tratada como tal pelos diferentes governos, civis e militares, liberais e protecionistas, que se sucederam desde então.

Em resumo, o Brasil vem se arrastando penosamente em direção à modernidade sempre com pelo menos um século de atraso. No século em que a China reassume seu papel de grande protagonista avançado da economia mundial, não podia dar certo. A “fábrica Brasil” encerra melancolicamente suas operações por excesso de anacronismo: estava recém adentrando na terceira revolução industrial, quando o mundo já tinha ultrapassado a quarta. Eis a raiz do problema: fomos declarados carta fora do baralho antes que as elites brasileiras sequer compreendessem que eram muito atrasadas mesmo para o lento relógio da economia mundial.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12/01/2021

Estágios da Loucura (segundo algum Foucault do Cerrado) - Paulo Roberto de Almeida

 Estágios da Loucura (segundo algum Foucault do Cerrado)

Paulo Roberto de Almeida


Quando os colegas do Itamaraty – ainda em 2018, depois das revelações das impagáveis postagens no "Metapolítica 17: contra o globalismo" – começaram a chamar o chanceler escolhido de Beato Salu, achei que estavam exagerando. 

Na verdade, eu estava fora do Brasil quando passou a novela (que nunca vi), e não tenho a menor ideia de quem seja, o que fez o tal Beato Salu.

Mas assim que começou, e as loucuras se multiplicaram, comecei a pensar naquela velha figura das piadas, o famoso Napoleão de hospício, mas era muito carnavalesco.

Em todo caso, as últimas manifestações, depois do famoso "comunavirus" da pornográfica reunião de gabinete de 22 de abril, confirmaram que o caso dele é realmente grave e talvez nunca mais se recupere. Bolsonaro fez mal à saúde do chanceler acidental, capacho por obrigação, louco por indução de um guru.

O famoso discurso da aceitação da condição de "pária", a saudação de final de ano ao corpo diplomático e todas as mensagens e tuítes por ocasião das eleições americanas, da apurações contestadas e da insurreição dos "Proud Boys", todas essas ocasiões nas quais o chanceler acidental se excedeu nas suas alucinações ideológicas terminaram por confirmar que a loucura do bolsolavista ultrapassou os limites do "maluco beleza" e adentraram no terreno do distúrbio psiquiátrico grave.

Acho que não tem mais volta, nem argumento. Minha avó italiana resumiria à perfeição: "È pazzo!"

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 11/01/2021

Quão baixo, quão fundo, uma sociedade pode descer, por vezes despencar, literalmente? - Paulo Roberto de Almeida

Quão baixo, quão fundo, uma sociedade pode descer, por vezes despencar, literalmente?

  

Paulo Roberto de Almeida

(www.pralmeida.orghttp://diplomatizzando.blogspot.com)

[Objetivoreflexões sociológicasfinalidadedebate público]

  

Nós, os incluídos, os supostamente iluminados, esclarecidos e informados, gostamos de pontificar, sobre isto e mais aquilo, sobre o sentido da História e sobre os destinos do mundo. Gostamos de dar lições, sobre isto e aquilo, apreciamos que outros apreciem nossa sapiência, nossas certezas, nossas conclusões inteligentes e nossos julgamentos definitivos, como uma espada de Dâmocles, como a guilhotina certeira, alinhada com a Deusa da Razão. 

Estamos certos de atravessar, neste momento, a mais horrível experiência de governança em 130 anos de República, em 200 anos de Estado independente, em 520 anos de povo, no prelúdio da nação. Não ousamos imaginar que pudéssemos ter um governo tão ruim, tão horroroso, tão inepto, tão ignorante, tão calhorda, tão mentiroso, tão sem noção, sem destino, sem projeto, sem sentido, sem nada. 

Pensávamos, até pouco tempo atrás, que já tínhamos visto tudo, experimentado tudo em matéria de mediocridade, arrogância e desfaçatez, com relação aos princípios elementares da adesão aos valores democráticos e de respeito aos princípios de direitos humanos, ou de simples humanidade. 

 

E, no entanto, mirando retrospectivamente, somos obrigados a reconhecer que, num passado não muito remoto, de horrores e de opressão, sob ditaduras expressas, mesmo a noção de governança, de sentido de direção nas políticas públicas, de construção de estruturas e de patrimônio — inclusive cultural — não se perdeu, em meio aos estertores da liberdade, da luta pela livre expressão, do próprio arbítrio e prepotência do Estado, da arrogância dos donos do poder. No negrume do Estado Novo, na repressão da ditadura militar, tínhamos a opressão dos poderosos, e vinha junto todo um programa de construção de um país, de certa ordem na economia, de certo sentido de direção, de algum esforço institucional, ainda que von Oben, pelo alto, aquela organização prussiana, que colocava o Estado no centro de tudo, e que expressava, de alguma forma, certa racionalidade intrínseca ao projeto que autoritariamente nos era oferecido, ou melhor, imposto.

Racionalidade, ordem, sentido de direção, construção institucional ou material, progresso (à maneira de cada etapa), tudo isso é o que menos temos atualmente. Estamos no meio do pântano, levados a esmo por um psicopata perverso, expostos aos risos do mundo por um outro maluco e suas alucinações exteriores, alguns poucos técnicos setoriais que machucam suas biografias ao servirem uma patota de medíocres e incompetentes, civis e militares, mandarins do Estado ou eleitos oportunistas, todos eles prolongando essa agonia de dois anos, e que pode se prolongar por mais dois, preservando, ou até ampliando, as duas grandes tragédias corrigíveis que temos: a não educação e a corrupção política. Temos outras tragédias, sistêmicas ou estruturais, como as desigualdades sociais, a baixa inovação e uma produtividade também medíocre, todas essas coisas que não serão resolvidas agora, sequer encaminhadas, e que podem ainda ser agravadas, no mar de incultura, de estupidez, de calhordice que nos é oferecido atualmente pelo déspota eleito por uma dessas surpresas da História. 

Acho que nunca imaginamos que poderíamos descer tão baixo no horror da mediocridade política, do retrocesso cultural, na promoção da ignorância, com demonstrações públicas da bestialidade do psicopata perverso que nos desgoverna. 

 

E no entanto, no entanto, se deixarmos para trás nossas experiências de ditaduras tecnocráticas, veremos que ainda não somos, não fomos, talvez não sejamos o povo mais infeliz de um planetinha redondo — mas fragmentado — que já conheceu horrores bem mais bárbaros em diversos episódios de um longo itinerário de ódios, guerras, massacres, tiranias assassinas.

 

Sem remontar muito longe, vamos começar pela destruição do segundo templo do povo judeu, que deu início a uma diáspora que ainda não terminou; vamos continuar por invasões de hordas de bárbaros literais, destruindo impérios e nações dotadas de civilidade; passemos ao empreendimento insano das cruzadas, que não só deram continuidade aos massacres de judeus em seu caminho, como também impuseram à história mundial uma oposição entre cristianismo e islamismo que não precisaria, não deveria ter ocorrido e que prolonga seus péssimos efeitos até a atualidade; e as guerras de religião na Europa, e as conversões forçadas disfarçadas de “catequese” que os europeus “judaico-cristãos” impuseram a maior parte do mundo conquistada e dominada durante cinco séculos?; e o nefando crime da escravidão africana e todos os horrores do tráfico transcontinental durante quatro séculos pelo menos?; os pogroms que continuaram contra o povo judeu, em vários redutos da supostamente humanitária religião cristã; e o novo expansionismo colonialista europeu, que assistiu à primeira criação de campos de concentração por iniciativa da liberal Grã-Bretanha?; o nacionalismo e o racismo ascendentes, que levaram a Europa a uma segunda guerra de trinta anos, arrastando o resto do mundo a uma sanha destruidora jamais vista desde quando exércitos conquistadores simplesmente eliminavam os prisioneiros homens e reduziam as mulheres a servas ou escravas; o fascismo totalitário começou na Itália, mas foi na Alemanha de Goethe e de Wagner que ele foi levado à exacerbação tirânica sob o comando do psicopata Hitler, partindo da Noite dos Cristais para caminhar para os campos de extermínio “científico”; não esquecer tampouco o fascismo expansionista e militarista japonês, que perpetrou barbaridades na China equivalentes ou até piores que os nazistas cometeram na Europa central e oriental; antes e depois disso ainda tivemos  o Gulag soviético com seu cortejo de “eliminados como inimigos do povo e do Partido”, sob as ordens do psicopata do Stalin, logo seguido pelo maoísmo demencial, acumulando mortos aos milhões, no Grande Salto para a frente, ou na Revolução Cultural; vamos falar também dos “killing fields” do Camboja e de massacres balcânicos ou africanos, levando dezenas ou centenas de milhares à morte pelo fuzil ou pelos machetes. 

 

Não, não somos o povo que mais sofreu na Terra, como se pode constatar, depois de relembrar todo esse cortejo de horrores ao longo de dois mil anos de história; mas não precisa ir muito longe: o nazismo hitlerista perpetrou os crimes mais bárbaros de toda a história da humanidade menos de 80 anos atrás, três gerações apenas. Nos anos 90 sérvios e hutus estavam trucidando concidadãos; e no Oriente Médio, na África, em outras paragens, nas favelas do Rio de Janeiro outros crimes bárbaros são cometidos, além do número inaceitável de feminicídios e crimes contra homossexuais e transgêneros. Não, ainda não nos livramos da barbárie, e parece que ainda vai demorar um pouco.  

 

Não querendo ser leniente com a realidade dos retrocessos no Brasil atual, o fato é que atravessamos um mau momento de nossa história, talvez o pior, às vésperas do Bicentenário, que deveria ser um momento de congraçamento, de unidade, de grandes balanços e de projetos para o futuro. Provavelmente, não teremos nada disso: apenas mais divisão, mais política do ódio, mais mediocridade e mais estupidez. Vamos aproveitar, nós, os iluminados, para avaliar nossos próprios erros, nossas desuniões na defesa de picuinhas particularistas, em lugar de consolidar o edifício democrático, a promoção da educação, a luta contra as desigualdades e a promoção dos direitos humanos. 

Num certo sentido, ainda somos um povo de selvagens, com alguns costumes bárbaros — entre os quais eu colocaria a corrupção política, dos políticos e dos donos do dinheiro — e várias outras deficiências culturais. 

Vamos avançando aos trancos e barrancos, como disse uma vez Darcy Ribeiro. Um dia acertamos e deslanchamos para o progresso e o bem-estar da maioria da população. Não sei quando isso virá. O que sei é que se costuma aprender mais com os fracassos do que com os sucessos.

Então, estamos servidos: estamos em meio a um dos maiores, senão o pior dos fracassos de nossa trajetória como povo, como nação e como sociedade. Aproveitemos para melhorar, já que, como dizia Mario de Andrade, o progresso também é uma fatalidade.

 

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 3841: 12 de janeiro de 2021


segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Ah, esse globalismo opressor... - Paulo Roberto de Almeida

Ah, esse globalismo opressor...

Paulo Roberto de Almeida

O chanceler acidental remete a um livro sobre o glorioso triunfo do império americano (do bem, evidentemente) e da sua absoluta necessidade para a preservação da civilização judaico-cristã.

Ele diz que “o comunismo soviético fracassou no projeto” de destruir a América, e no final pergunta, de forma aparentemente aflitiva:

“Estaria o globalismo conseguindo?”

Esse cara tem uma obsessão, e uma paúra, com o tal de globalismo que só pode ser trauma de infância — mas o termo ainda não estava na moda — ou então é fixação doentia no catch-word preferido dos atuais conspiradores da extrema-direita (mas isso por necessidade de manutenção do cargo).

O Trump já fez boa parte do serviço, ao colocar em cheque metade das instituições multilaterais que seus antecessores criaram desde Bretton Woods. 

O Bolsovirus não tem capacidade, nem poder, para destruir qualquer uma: ele só deixa de pagar as dotações do Brasil, com a aquiescência canalha do chanceler acidental, para maior vergonha dos diplomatas.

Este último vai continuar lutando contra o globalismo depois que for defenestrado do Itamaraty, ou era tudo figuração, para se legitimar aos olhos dos amadores ineptos que mandam nele?

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 11/01/2021

De volta ao tema extremamente chato das teorias conspiratórias sobre o tal de globalismo - Paulo Roberto de Almeida

 De volta ao tema extremamente chato das teorias conspiratórias sobre o tal de globalismo, que certos alucinados estão seguros de sua realidade (possuem até nomes e endereços)

Paulo Roberto de Almeida

Idiotas conspiratórios não se conformam que a gente desmonte suas crendices estapafúrdias: assim foi com o Rasputin da Virgínia, que não se conteve que eu tenha desmentido suas bobagens numa live, e também foi assim com o chanceler antiglobalista; mandou me exonerar depois que eu me referi às olavices debiloides. Não suportou que eu tivesse falado assim de seu guru, patrono e guia espiritual.

Os dois me odeiam. 

Ufa! Ainda bem! 

Os descerebrados que os seguem vivem excitados comigo: usam os mesmos expletivos do guru esquizofrênico achando que me intimidam!

Eu me divirto com todos eles: sempre constatando como podem existir os adeptos da servidão voluntária.

Que ignorantes possam defender a tal teoria conspiratória do globalismo é compreensível, até aceitável. Afinal de contas, idiotas do criacionismo, da terra plana existem em todas as sociedades.

Agora, que um diplomata seja, não só antimultilateralista, mas sobretudo antiglobalista, aí já é mais grave: é uma deformação conceitual que se aproxima da debilidade mental.

Como sempre, assino embaixo do que afirmo.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 11/01/2021

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O desgoverno de Bolsonaro criando a falência do Brasil - IstoÉ, Paulo Roberto de Almeida

Avaliação de meio de caminho do PIOR GOVERNO que já teve o Brasil 

Paulo Roberto de Almeida

Dois anos de desgoverno do capitão despreparado confirmam o que já prevíamos e o que já sabemos: Bolsonaro é um inepto assumido, um incompetente total, um dirigente desequilibrado e perverso, no limite da sociopatia, senão um psicopata perigoso para o país e para a sociedade. O país retrocede sob seu desgoverno, em todas as áreas de interesse para a nação, e deve continuar sob ameaça de deterioração, nas diversas esferas das políticas públicas, pois o capitão se revela incapaz de qualquer ação racional e responsável em face dos desafios que se apresentam ao país, sobretudo no terreno que representa a diferença entre a vida e a morte para dezenas de milhares de brasileiros, o das respostas preventivas e corretoras da mortandade já provocada pela pandemia. Nesse terreno em especial, seu desgoverno é o próprio pandemônio, que caracteriza toda a sua anti-postura, só interessado nele mesmo e no seu círculo íntimo de corruptos, oportunistas, medíocres e falastrões.

Na área da política externa, que me interessa mais particularmente, os resultados estão muito acima de desastrosos ou catastróficos: eles são indignos, inaceitáveis e vergonhosos para a imagem internacional (e interna) do Brasil, sob a gestão de amadores ineptos, orientados por um guru destrambelhado e incompetente em assuntos de política internacional, pois que entregue a um diplomata despreparado e desequilibrado, totalmente submisso aos ineptos, um verdadeiro capacho, não apenas do degenerado presidente, mas de autoridades estrangeiras, às quais se submete de modo tão servil que chega a ser constrangedor para qualquer servidor do corpo de diplomatas de carreira. Seu desconforto ante o fracasso completo de toda a sua gestão, não o levou a fazer autocrítica e corrigir seus tremendos equívocos, mas a recrudescer nas sandices e loucuras, ofendendo os colegas profissionais e a própria inteligência da nação, ao se confessar satisfeito com a condição de “pária internacional” a que o Brasil foi relegado pelo próprio presidente e por ele mesmo, um incapaz à frente de ministério tão sensível. Não hesito em classificar a política externa e a diplomacia atuais como as mais desastrosas jamais vistas em nossa história bissecular de projeção responsável do país no âmbito regional e no contexto mundial. 

EA, a Era dos Absurdos, é uma VERGONHA ABSOLUTA para o Brasil e os brasileiros.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 8/01/2021 


Desgoverno

Ao declarar que “o Brasil está quebrado e que não pode fazer nada”, Jair Bolsonaro reconhece que não sabe como lidar com as crises que se agravam em 2021. Após a confissão de impotência, ele deveria renunciar

IstoÉ Dinheiro | 8/1/2021, 9h30

Desde a posse de Jair Bolsonaro, a sociedade espera ações concretas para combater os graves problemas nacionais. Em vez disso, o que se viu foi um ataque contínuo à democracia, o desmonte do Estado e um show de incompetência. Mais de dois anos depois, não se vislumbrou nenhuma grande estratégia para a retomada econômica, além das promessas extravagantes de Paulo Guedes. Pior, a pandemia ampliou os desafios e já custou a vida de mais de 200 mil brasileiros. O rombo fiscal vai empobrecer milhões. Tudo isso não é obra do acaso. São consequências das ações do presidente. Enquanto os brasileiros enfrentaram um fim de ano dramático, preocupados com a crise e isolando-se para evitar a Covid, ele aproveitou um descanso de 17 dias em praias do litoral de Santa Catarina e São Paulo pescando e promovendo aglomerações. Mais uma vez debochou dos cuidados básicos com a doença. Na volta a Brasília, deu seu diagnóstico para a situação: “O Brasil está quebrado. Não consigo fazer nada”. A declaração, feita para seu público preferido, a claque postada no cercadinho do Palácio da Alvorada, é o reconhecimento do seu fracasso.

Dívida explosiva

Além de a economia não ter reagido na atual gestão, a dívida pública explodiu com a pandemia, trazendo dúvidas aos investidores sobre a solvência do País. Há R$ 1,3 trilhão vencendo da dívida pública neste ano e a equipe econômica quer encerrar o ano com um rombo de R$ 247,1 bilhões — o oitavo ano consecutivo no vermelho. Existe pouca confiança sobre a trajetória da dívida e as dúvidas só crescem. Guedes tem reafirmado o compromisso com a disciplina fiscal, mas há pressão no governo pelo abandono do teto de gastos para tocar obras que garantam a reeleição. Além disso, a popularidade do presidente será afetada pelo fim do auxílio emergencial, que acabou em janeiro. O cenário era insustentável e já se sabia que seriam necessárias mudanças após o pleito municipal. A fala de Bolsonaro, assim, não é uma surpresa. Apenas verbaliza um movimento que era inevitável. Para sobreviver politicamente, ele é empurrado para o aumento dos gastos. Como dispõe de cerca de R$ 100 bilhões de gastos não obrigatórios no Orçamento, ou “fura” o teto, ampliando o déficit, ou arruma mais dinheiro. Guedes apostava na volta da CPMF para isso, mas o mandatário não quis arcar com o ônus de ampliar os impostos. Sobra então o controle dos gastos públicos, mas essa opção também é bloqueada por Bolsonaro, pois não deseja mexer em interesses corporativos. Além disso, a falta de articulação política no Congresso por sua inépcia inviabiliza as reformas.

Nunca ficou tão clara a falta de um estadista para o País. A história ensina que líderes mobilizam nações em travessias difíceis contando a verdade e somando os melhores recursos. É tudo o que não se viu no Brasil. Para enfrentar a pandemia, o governo demonstra uma falta de capacidade espantosa. Primeiro, negou a gravidade da doença. Depois, sabotou as medidas de prevenção e apostou em remédios milagrosos. Por fim, foi omisso na busca por vacinas. Com isso, mais de 50 países já deram a largada na imunização em massa, enquanto o Brasil ainda discute qual antídoto será adotado. Aqui, nem a compra de seringas e agulhas foi providenciada. No fim do ano passado, o Ministério da Saúde tentou fazer essa aquisição às pressas, mas fracassou. A resposta oficial para a inação foi no estilo Bolsonaro. Terceirizou o problema. Ele disse que “quem quer vacina” é que precisa ir atrás do registro na Anvisa, contando com o “mercado consumidor enorme” do Brasil para atrair os fabricantes. Ocorre que o planeta está numa busca desesperada pelo imunizante, que não será suficiente para todos neste momento — a oferta mundial cobre apenas um terço da demanda. Apenas os governos que se anteciparam e foram eficientes conseguiram obter as vacinas. Da mesma forma, o presidente suspendeu as compras de seringas “até que os preços voltem à normalidade”. Além do desconhecimento primário da lei da oferta e da procura, o mandatário simplesmente não consegue fazer a avaliação óbvia de que a imunização em massa é a única saída para a retomada econômica.

Felizmente vários estados e prefeituras se anteciparam. O governador João Doria, que desde junho investiu pesado no Instituto Butantan e impulsionou a cooperação com a China, agora tem a oferecer à população mais de 10 milhões de doses da vacina Coronavac, que mostrou eficácia de 78%. Promete atender toda a população do Estado até o fim do ano. O bem estruturado programa de vacinação paulista, a começar no dia 25, é o que falta no plano nacional.

Já a conduta irresponsável do governo federal é reproduzida nas principais áreas da administração. A Educação, que é a forma mais eficaz de diminuir a desigualdade, está à deriva, atolada em questiúnculas ideológicas, o que pode levar a um atraso de décadas no desenvolvimento do País. O Meio Ambiente, patrimônio vital para a transição à economia verde, está sendo degradado por omissão ou de forma francamente criminosa. O fogo consumiu 40% do Pantanal mato-grossense no ano passado, segundo o Ibama. A devastação da Amazônia foi a maior em 12 anos, enquanto o governo descartou a ajuda financeira de outros países e relaxou a fiscalização. Esse resultado deplorável transformou-se em obstáculo para a atração de empresas, além de ameaçar as relações com os EUA e a Europa. O acordo Mercosul-União Europeia está por um fio e o futuro presidente dos EUA, Joe Biden, já ameaçou o Brasil com sanções. É um desastre internacional. Para reverter a imagem negativa, Bolsonaro optou pela propaganda, uma interpretação tosca de como se constroem reputações. Gastou 17 vezes mais com publicidade no exterior do que todos os governos que o antecederam na última década.

Brasil isolado

É mais um gasto inútil. O campo das relações internacionais traduz de forma exemplar o desgoverno. O chanceler Ernesto Araújo não é levado a sério no circuito diplomático e já se vangloriou por ter transformando o País em “pária”. Em seu balanço de fim de ano, disse que o Brasil precisava combater o “covidismo” e que a maior emergência sanitária em um século representava uma “histeria biopolítica”. Apontou a necessidade de combater o “narco-socialismo”, o “sistema intelectual politicamente correto”, o “abortismo”, o “trans-humanismo”, o “anticristianismo”, a “cristofobia” e o “marxismo do mercado megatecnológico”. Não se trata apenas de mistificação tradicionalista ou diversionismo político. Tamanha coleção de asneiras escancara a indigência intelectual que impregna a atual administração, com consequências práticas. O “soft power” leva anos para se construir e pode ser implodido numa só gestão. É o que está em curso. Nunca o Brasil esteve tão isolado, inclusive na América Latina, onde sempre exerceu a liderança natural.

Na gestão interna, o descalabro não é menor. Os exemplos se multiplicam. Para tentar driblar o monitoramento das queimadas feito com competência pelo Inpe, a Aeronáutica comprou um satélite-radar com tecnologia duvidosa que custou US$ 33,8 milhões. Enquanto isso, o governo promove o desmonte desse órgão e da própria ciência, minando toda a pesquisa acadêmica no País. Na economia, o presidente se queixou de não conseguir reajustar a tabela de Imposto de Renda para aumentar a isenção dos atuais R$ 1,9 mil para R$ 3 mil. Essa é mais uma das inúmeras promessas que fez para ganhar a eleição, engavetada como todas as outras. O alívio para os assalariados, que custaria R$ 22 bilhões, até seria viável se o governo tivesse agido, mas nada foi feito desde a campanha matreira de 2018. Da mesma forma, as privatizações, que poderiam atrair investimentos e dinamizar setores, estão paralisadas por culpa exclusiva do mandatário. Na direção contrária, ele criou mais uma estatal em sua gestão, a NAV, além de fazer um aporte de R$ 7,6 bilhões em uma estatal da Marinha para construir corvetas. Administrar é fazer escolhas, como se sabe. E o presidente não esconde suas prioridades, voltadas para a caserna. Ao sancionar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, ele vetou o item que blindava gastos com a emergência sanitária. O mesmo vale para despesas relacionadas ao combate à pobreza. Mas garantiu que projetos do Ministério da Defesa não serão tocados. É o caso do desenvolvimento do submarino com propulsão nuclear e da compra de blindados. Reafirma o privilégio aos militares, que já tiveram aumentos salariais e foram beneficiados na Reforma da Previdência.

Fugindo da responsabilidade

A manifestação do presidente provocou uma enxurrada de críticas. As hashtags #RenunciaBolsonaro e #PedePraSairBolsonaro dispararam nas redes sociais. Depois da péssima repercussão, ele repetiu o que sempre faz em momentos de crise. Jogou a culpa nos outros, fugindo à sua responsabilidade. Mais uma vez, apontou o dedo para a imprensa, “que potencializou a Covid”. Com isso, tenta mobilizar os apoiadores e preparar o terreno para uma guinada na economia, que pode ter efeitos calamitosos. Além do abandono da disciplina fiscal — medida que causou o desastre econômico da gestão Dilma —, o aumento dos impostos e o relaxamento no combate à inflação podem ter consequências terríveis que vão recair principalmente sobre os pobres. E o País já está diante de um desastre social.

O desemprego bateu novo recorde em novembro, atingindo 14 milhões de pessoas. O auxílio emergencial, que beneficiou 46 milhões de brasileiros e custou R$ 300 bilhões (dez vezes mais do que o Bolsa Família), havia reduzido a extrema pobreza. Seu fim terá o efeito inverso. O País passará a ter 30,8% da população em estado de miséria. Contra essa realidade, Bolsonaro também não tem respostas. Pior que isso, em outra declaração, atribuiu a culpa do desemprego à própria população, que teria formação deficiente: “Uma parte considerável não está preparada para fazer quase nada”.

O reconhecimento do fiasco prenuncia o destino da gestão Bolsonaro. O presidente deixou o primeiro ano passar em brancas nuvens e não aproveitou para aprovar medidas necessárias — a Reforma da Previdência avançou mais pelo esforço do Congresso do que do Executivo. No segundo ano, a pandemia mostrou um governo à deriva na Saúde, fazendo rodízio de ministros e entronizando um general sem conhecimento da área. Este ano, que antecede o período eleitoral de 2022, é o último em que reformas poderão ser encaminhadas. Mas Bolsonaro entra nesse momento crucial sem um projeto consistente de poder. Sua fala desastrada foi uma confissão de impotência e de desprezo pelo destino da Nação. Não cabe ao presidente dizer se o País está quebrado ou se é “ingovernável”. Essa é a desculpa de todos os governantes fracassados. Sua função é superar as dificuldades e encontrar soluções. Mas a falta de interesse do mandatário — já demonstrada em quase três décadas no baixo clero do Congresso — e a pouca disposição em tomar decisões difíceis ou complexas o impedem de dar respostas à sociedade. Se não estava à altura do cargo, Bolsonaro não deveria ter tomado posse. Se não pode dirigir o País, deve renunciar.

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