Dica de leitura :
O Brasil Ainda Pode Ser um País Rico ?, de Mailson da Nóbrega
Em novo livro, Maílson da Nóbrega analisa os desafios para o Brasil se tornar um país rico. Reparar os alicerces da economia, especialmente o quadro fiscal do governo, deveria estar no topo das prioridades, observa o ex-ministro da Fazenda
Por Felipe Erlich
Felipe Erlich
Veja, 24 janeiro 2026
A construção de um país é o resultado das escolhas de seus líderes e cidadãos, organizados em instituições funcionais. A trajetória de desenvolvimento — ou retrocesso — da economia não está escrita em pedra, e sempre há espaço para fazer ajustes de rota e enfrentar mazelas antes tidas como incontornáveis. Ao longo da história recente, o Brasil perdeu sucessivas oportunidades para enriquecer. Muitos fatores jogam contra o país. A baixa taxa de poupança, a insegurança jurídica, os juros altos e o protecionismo são apenas alguns dos entraves para o crescimento. Mas houve, também, muitas conquistas, entre as quais a consolidação de um Banco Central técnico e autônomo, um sistema financeiro sólido, um agronegócio protagonista e indústrias extrativas competitivas. Reparar os alicerces da economia, especialmente o quadro fiscal do governo, deveria estar no topo das prioridades para colocar o país, enfim, no clube das nações ricas.
Esse cenário está descrito em profundidade no livro O Brasil Ainda Pode Ser um País Rico?, de autoria de Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e colunista de VEJA. A obra chega às livrarias no início de fevereiro e já está disponível em pré-venda on-line. O economista esteve à frente da pasta de 1988 a 1990 e, desde então, é um dos principais analistas econômicos do país.
Aquele período dos primeiros anos da Nova República foi marcado pela promessa de um Brasil próspero e socialmente justo, uma ambição impulsionada pela Constituição recém-promulgada. Ao longo das décadas seguintes, Maílson, hoje com 83 anos, presenciou governos de diferentes matizes políticos, com seus avanços e declínios, mas em todos identificou uma dificuldade em comum: promover ganhos de produtividade, “o principal fator de geração de riqueza de um país”.
Para compreender o impacto econômico dos fatos que marcaram a história recente do Brasil, como o Plano Real, as três vitórias eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva, a recessão da era Dilma Rousseff e as reformas promovidas por Michel Temer, o ex-ministro da Fazenda recorre primeiro a uma análise histórica do que os países devem ou não fazer ao buscar o desenvolvimento.
Da criação de instituições liberais resultantes da Revolução Gloriosa de 1688, na Inglaterra, até as reformas promovidas por Deng Xiaoping na China do século XX, a explanação de Maílson não poupa o leitor da erudição necessária para responder às grandes perguntas que ajudam a colocar em perspectiva também a realidade brasileira.
Para o autor, a história econômica mundial mostra uma clara trajetória de progresso. A garantia de direitos e deveres essenciais ao capitalismo, como a propriedade privada e o cumprimento de contratos, e as revoluções tecnológicas propiciaram aumento na produtividade. O que aguarda o Brasil no médio prazo, contudo, vai na direção contrária do enriquecimento. Segundo Maílson, a dinâmica político-econômica inaugurada em 1988 pode produzir, nos próximos anos, uma crise inédita, caracterizada por um arrocho puramente fiscal, em que o governo não terá dinheiro para despesas básicas, com o orçamento comprimido por despesas obrigatórias.
A análise do ex-ministro da Fazenda aponta para os dois lados do colapso iminente das contas públicas: ele pode “desaguar em uma crise financeira de graves repercussões para a economia brasileira”, mas “tende a criar o ambiente para um promissor ciclo de reformas estruturais”. A história mostra que o Brasil costuma aprender com a dor. Foi assim no período do Plano Real, quando a sociedade não podia mais suportar a inflação e encontrou uma saída.
Assim como ocorreu no passado, o país depende de lideranças para conseguir capitalizar a crise e lidar de frente com suas fragilidades. Apesar das previsões negativas no médio prazo, Maílson deposita esperança na capacidade de o Brasil aprender com seus erros.
Na avaliação de Maílson da Nóbrega, a economia brasileira não vai bem e é praticamente certo que o país vai enfrentar uma grave crise fiscal no médio prazo. Apesar disso, o ex-ministro da Fazenda não acredita que a questão fiscal vai pautar a eleição deste ano.
O BRASIL AINDA PODE SER UM PAÍS RICO?, de Maílson da Nóbrega
(Editora Matrix), 373 págs., R$ 99 e R$ 69 em e-book)
Qual será o impacto do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, assinado neste mês?
É o mais importante acordo de comércio da história mundial. A extensão e a abrangência de normas são inéditas. Ele representaria um passo gigantesco para o enriquecimento do Brasil, ajudando a superar o desafio do aumento de produtividade.
O senhor costuma dizer que o Judiciário brasileiro é um freio para a economia. Por quê?
Os juízes brasileiros não são preparados para entender o impacto de suas decisões na economia. Fico feliz em ver a disciplina análise econômica do direito sendo introduzida em faculdades. Não existe capitalismo sem Judiciário.
Seu livro cita o Banco Central e a solidez do sistema financeiro como alguns dos principais ativos do Brasil. Como isso se relaciona com o caso do Banco Master?
A liquidação do Master é prova dessa solidez. Trata-se, provavelmente, do caso mais barulhento da história, mas não gerou dano relevante ao sistema. Tudo continua funcionando. Mas crises deixam lições: acredito que veremos uma reformulação do Fundo Garantidor de Créditos, que perdeu bilhões com esse escândalo.
A inteligência artificial pode ter um papel no desenvolvimento do país?
Essa tecnologia é transformadora e vai enriquecer a sociedade, a despeito de haver uma bolha no mercado. Cada país terá que aproveitar as oportunidades criadas pela IA para não ficar para trás. É o que cabe ao Brasil.
A armadilha da renda média é um desafio enfrentado pelo Brasil há décadas. O que há de diferente hoje?
A economia brasileira está doente. Os fundamentos básicos para o desenvolvimento passam por uma crise. É o caso do regime fiscal, do endividamento e da produtividade. São problemas urgentes, por isso fiz questão de lançar o livro neste ano em que o futuro do país está em foco.
Como esse debate deve aparecer nas eleições?
Não tenho ilusão de que o ajuste fiscal vai constar nas campanhas eleitorais. Seria ingenuidade minha. O candidato que defender o fim de vinculações da saúde e da educação ou uma nova reforma da Previdência vai perder a eleição.
Como vai ficar o Brasil a partir de 2027?
Lula poderia sair da Presidência no auge, como um Pelé, mas hoje ele é favorito à reeleição e tomaria posse com as condições fiscais no limite extremo. É aritmética: a alta dos gastos obrigatórios vai levar o país a uma grande crise fiscal, e o governo pode acelerá-la. Além disso, desde o primeiro Orçamento da República, em 1989, deputados tentam inflar emendas deturpando a estimativa de receita.
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