Não é que a promiscuidade na corrupção de quase todos os integrantes dos chamados círculos dirigentes de Brasília, e do Brasil, me choque. O que me choca é que isso não tenha vindo à tona antes, tantas eram as evidências de que o ambiente era muito podre, mais podre do que pessoas de classe média, como eu e a maioria dos brasileiros bem informados, pudéssemos imaginar que fosse assim tão evidente, tão claro, tão transparente. Nas ditaduras tudo se passa nas sombras. Nas democracias, como a do Brasil, mesmo de baixa qualidade, as coisas acabam aparecendo...
Paulo Roberto de AlmeidaLiquidação do Banco Master expõe vínculos com políticos e juízes
The Economist, 26 jan 26
Daniel Vorcaro começou a viver luxuosamente depois de se tornar o chefe do Banco Master, um banco brasileiro de médio porte, em 2019. Nos anos seguintes, gastou extravagantemente em propriedades, jatos particulares, um hotel de luxo e um time de futebol. Desembolsou mais de US$ 3 milhões na festa de 15 anos de sua filha. Enquanto o champanhe corria e os jatos acumulavam milhas, alguns questionavam como o Banco Master estava crescendo tão rapidamente. O modelo de negócios do banco era baseado na venda de CDBs (Certificados de Depósito Bancário), um produto de renda fixa popular no Brasil, com taxas incomumente altas.
As rachaduras começaram a surgir em setembro, quando Vorcaro tentou vender a empresa repentinamente. Ele encontrou um comprador disposto no BRB (Banco de Brasília), uma instituição controlada pelo governo do Distrito Federal. No entanto, quando o Banco Central investigou os detalhes da fusão, descobriu que o Banco Master não tinha liquidez. Investigadores descobriram que o banco havia vendido carteiras de crédito sem valor ao BRB por mais de US$ 2 bilhões.
Logo depois, Vorcaro foi preso ao tentar embarcar em um jato particular para Dubai. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) desembolsará entre US$ 7,5 bilhões e US$ 10 bilhões para reembolsar os investidores, a maior compensação desse tipo na história do Brasil.
A saga poderia ter terminado aí. Mas os efeitos do colapso do Banco Master vão além do setor bancário. Isso porque Vorcaro passou anos cultivando laços com a elite brasileira. O caso expôs ligações entre políticos, figurões financeiros e o judiciário em Brasília, a capital, prejudicando a reputação do STF (Supremo Tribunal Federal) e do Congresso.
O enredo começou a se complicar logo após o Banco Central ordenar a liquidação do Banco Master em novembro. Jhonatan de Jesus, membro do TCU (Tribunal de Contas da União), um órgão fiscalizador cujos membros são indicados pelo Congresso, alegou que o Banco Central havia agido com muita pressa. Ele ordenou uma investigação para verificar se o BC poderia ter escolhido alternativas à liquidação. "Esse tipo de interferência na autoridade do Banco Central é incomum e preocupante", diz um procurador sênior que trabalha no caso. Jesus tem ligações estreitas com o Centrão, um grupo de partidos ideologicamente fluidos que controlam o Congresso e têm um longo histórico de corrupção.
Políticos do Centrão tentaram proteger o Banco Master antes de sua falência. O senador Ciro Nogueira, ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), um populista de direita e ex-presidente, tentou bloquear uma investigação parlamentar sobre as negociações do Banco Master e pressionou por um projeto de lei que daria ao Congresso o poder de demitir o chefe do Banco Central.
Enquanto isso, Ibaneis Rocha, o governador bolsonarista de Brasília, defendeu vigorosamente a aquisição do Banco Master pelo BRB, mesmo quando muitos analistas alertaram fortemente contra isso. (Um juiz desde então removeu o diretor-executivo do BRB devido a possível interferência política.) O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, que também está sob investigação, foi o maior doador individual para a campanha de Bolsonaro em 2022, e para a campanha de Tarcísio de Freitas (Republicanos), o governador de direita de São Paulo.
ABRE-TE SÉSAMO
Quando os investigadores acessaram o telefone de Vorcaro, encontraram ainda mais ligações com o poder. O banco havia assinado um contrato no valor de US$ 24 milhões por três anos com um escritório de advocacia administrado pela esposa de Alexandre de Moraes, um influente ministro do STF. A imprecisão do contrato e as grandes somas envolvidas "não são normais" pelos padrões brasileiros, diz um especialista jurídico. Logo depois, um jornal revelou que Moraes havia telefonado ou se reunido com Gabriel Galípolo, o presidente do Banco Central, várias vezes na preparação para a liquidação do Banco Master.
Moraes e sua esposa negaram qualquer irregularidade. Paulo Gonet, procurador-geral da República arquivou uma investigação sobre o casal, citando evidências insuficientes de má conduta. Moraes diz que ele e Galípolo se reuniram para discutir assuntos não relacionados ao Banco Master. No entanto, seu comportamento levantou suspeitas. Em 14 de janeiro, ele abriu uma investigação sobre a unidade de inteligência financeira do Brasil e a Receita Federal para descobrir se eles haviam vazado informações sobre o contrato.
A aparência não é melhor para o colega de Moraes, Dias Toffoli, um ministro que encerrou outras investigações anticorrupção contra a elite de Brasília. Toffoli viajou em um jato particular com um advogado do Banco Master aproximadamente na mesma época em que o sistema de sorteio do Supremo o designou para liderar o caso contra a empresa. Depois, descobriu-se que Zettel havia investido mais de US$ 1 milhão em um resort que pertencia aos irmãos de Toffoli. Não há evidências de que Toffoli soubesse do assunto, e ele não se pronunciou publicamente sobre isso.
No entanto, esses vínculos reforçam a impressão entre os eleitores brasileiros de que o tribunal superior do país carece de imparcialidade. Para combater tais suspeitas, o novo presidente do tribunal, Edson Fachin, um juiz que evita os holofotes, propôs que o plenário adotasse um código de ética modelado no da corte constitucional alemã. Os colegas de Fachin zombaram da ideia.
O único claro vencedor dessa saga sórdida é Galípolo, o chefe do Banco Central, que se manteve firme contra as pressões para salvar o Banco Master. Jesus foi forçado a retirar sua investigação. Desde então, Galípolo pediu aos legisladores que concedam ao banco autonomia administrativa, orçamentária e financeira, além da autonomia operacional que já possui. Isso daria ao banco poderes mais robustos de supervisão sobre instituições financeiras e um alívio das duvidosas maquinações de Brasília.
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