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terça-feira, 8 de setembro de 2026

A Economist avalia a economia de Milei - The Economist

 

Milei foi mexer com os ingleses ameaçando retomar as Malvinas, e a The Economist se vinga com um retrato irônico de Milei e do seu governo...

Maurício David

 

... Os peronistas também estão divididos. Sergio Massa, que perdeu para Milei nas últimas eleições, pode tentar novamente. Juan Grabois, um deputado inflamado, também pode concorrer. Ele promete justiça social financiada por impostos dramaticamente mais altos sobre os ricos. "Você não precisa temer Axel [Kicillof]," ele ri, "você tem que me temer, tem que temer Myriam Bregman."

Bregman é uma trotskista de alto perfil, à esquerda até mesmo dos peronistas. Surpreendentemente, sua aprovação é muito melhor do que a de Kicillof e Milei...

 


Enviada em: terça-feira, 8 de setembro de 2026 16:02
Assunto: THE ECONOMIST / Milei promete radicalizar reformas, mas experimento liberal perde popularidade

 

THE ECONOMIST

08set26

 

Milei promete radicalizar reformas, mas experimento liberal perde popularidade

Buenos Aires

The Economist

 

"Meu brinquedo favorito", diz Javier Milei, olhando para a motosserra dourada em seu gabinete na Casa Rosada, a sede da Presidência da Argentina.

"Há muito mais gastos a cortar e muitos mais impostos a reduzir", ele afirma, acrescentando que vai realmente mostrar a que veio assim que for reeleito no ano que vem.

Se as reformas até agora foram "mais do que tudo o que foi feito nos últimos cem anos na Argentina somados, garanto que o próximo pacote de reformas será muito mais profundo".

Ele promete que a Argentina vai abraçar a inteligência artificial como nenhum outro país e diz acreditar que isso pode ajudá-la a "se tornar uma potência mundial líder, como os Estados Unidos" em apenas 20 anos. Prepare-se para Milei 'recarregado', ele sorri.

Ainda assim, este é um momento delicado. Após herdar uma situação econômica terrível, Milei conseguiu reduzir a inflação e desregulamentar fortemente a economia.

Os eleitores recompensaram isso na eleição de meio de mandato do ano passado, mas hoje dizem aos institutos de pesquisa que se importam muito mais com perspectivas de emprego e salários do que com a inflação.

O crescimento econômico está em crise, e ainda faltam apenas 14 meses para que novas medidas políticas tragam resultados antes que ele enfrente as urnas em outubro do próximo ano.

Com sua aprovação pessoal profundamente negativa, há o risco de que um rival mais esbanjador da ala à esquerda do movimento peronista da Argentina, que defenda um Estado intervencionista, possa capturar o coração dos eleitores.

O experimento radical, que inspirou defensores do livre mercado pelo mundo, está em jogo. A grande questão para o próximo ano é se redobrar a aposta agressiva —o Milei "recarregado"— é o caminho para vencer a reeleição.

Ele pode se orgulhar de sucessos notáveis. Antes de assumir o cargo em dezembro de 2023, a inflação batia em 13% ao mês e os gastos do governo estavam fora de controle, financiados pela impressão de dinheiro.

Milei usou sua motosserra contra os gastos e entregou superávits fiscais. A inflação caiu, para cerca de 2% ao mês. Isso ajudou a reduzir a parcela de pessoas vivendo na pobreza em cerca de um terço, para 28%.

Os mercados estão muito mais contentes. O governo tem lidado com a dívida externa e, este ano, o BCRA (banco central argentino) tem comprado reservas em dólares de forma agressiva. Isso é facilitado pelo boom das exportações de petróleo.

Milei também reduziu a burocracia excessiva da Argentina. "Eliminamos 17 mil regulamentos", ele diz. No início deste ano, ele aprovou uma reforma trabalhista abrangente.

O presidente continua sendo um otimista convicto com a tecnologia. A IA "só pode fazer o bem; o único mal que pode ser causado é se os Estados interferirem", afirma. A teoria econômica "prova" isso.

Ele quer conceder plenos direitos legais às empresas administradas exclusivamente por IA. "Por que eu deveria discriminá-las?", questiona —embora o projeto de lei que empodera a IA pareça exigir alguma intervenção humana.

O alinhamento estreito com o governo Trump também deu resultados. Antes das eleições de meio de mandato do ano passado, com os peronistas gastadores indo bem nas pesquisas, o peso argentino estava sob tanta pressão que o banco central gastou mais de US$ 1 bilhão em dois dias tentando impedir a queda da moeda.

Trump veio ao resgate com uma linha de swaps de US$ 20 bilhões e compras diretas pelo Tesouro de pesos argentinos. A moeda se estabilizou, ajudando o partido de Milei a transformar uma provável derrota dolorosa em uma vitória expressiva.

Milei demonstrou pragmatismo em relação à China, grande parceiro comercial. Antes de assumir o cargo, ele vociferou contra a liderança chinesa, classificando-a de "assassina". Agora, se derrete ao dizer que "trabalhar com os chineses é muito agradável".

Isso valeu a pena. No mês passado, a China estendeu uma linha vital de swaps de US$ 19 bilhões com o banco central argentino. Ele diz que não pediram nada em troca.

E ainda assim, Milei tem problemas. A economia está a caminho de um segundo ano consecutivo de crescimento, algo raro na Argentina; mas em um ritmo mais lento do que o planejado.

Seu governo havia previsto um crescimento de 5% este ano, mas após vários meses de contração, a maioria dos analistas espera quase metade disso.

O crescimento está concentrado em setores como hidrocarbonetos, mineração e agricultura, que não são intensivos em mão de obra. A atividade econômica em setores mais importantes, como manufatura e construção, ainda é pelo menos 10% menor do que quando Milei assumiu o cargo.

Em parte, isso se deve ao fato de Milei estar expondo as fábricas protegidas da Argentina à concorrência estrangeira. Isso faz sentido, mas a transição é dolorosa.

"É como se estivéssemos financiando nossa própria autodestruição", diz Martín Rapallini, chefe da associação industrial argentina, que defende uma reforma fiscal ampla que Milei nem sequer tentou.

O resultado é 230 mil empregos formais a menos no setor privado do que em 2023, uma queda de 3,6%. Ele se gaba de ter cortado 86 mil cargos no setor público.

A taxa de desemprego aumentou apenas dois pontos percentuais porque as inscrições no âmbito de um regime tributário para pequenos empresários de baixa renda aumentaram acentuadamente. O trabalho informal também cresceu. "Também é trabalho", retruca Milei.

Salários são outra preocupação. No setor privado formal, eles ainda estão abaixo do que eram quando Milei assumiu o cargo. No setor público, eles são dramaticamente menores, fato que o presidente celebra.

Muitos argentinos estão enfrentando dificuldades. Quase 6 milhões de pessoas estão com dívidas atrasadas há mais de 90 dias. Taxas de juros altas e voláteis não ajudam.

Para combater a inflação, o banco central manteve a oferta monetária restrita e interveio para conservar o peso forte. Mas isso prejudica o crescimento porque limita o crédito. Também prejudica a manufatura, tornando as importações rivais mais baratas e as exportações caras.

Milei, concentrado em combater a inflação, simplesmente nega que seus esforços tenham qualquer custo para o crescimento da Argentina.

Esse foco em um único problema pode diminuir os retornos eleitorais. Quando o presidente argentino assumiu o cargo, os eleitores classificaram a inflação como seu principal problema, de longe. Atualmente, ocupa a oitava posição; a falta de empregos e os baixos salários estão no topo da lista.

Os eleitores também estão insatisfeitos com uma série de escândalos de corrupção em seu governo. Sua aprovação se aproxima dos 30%.

Isso parece estar irritando Milei. Ele ficou furioso com jornalistas argentinos por questionarem suas conquistas econômicas e escreverem sobre os supostos casos de corrupção. "Merda humana" é um de seus insultos favoritos para os jornalistas.

Ele pode atacar a imprensa várias vezes ao dia nas redes sociais. Quando questionado sobre economia na pergunta inicial da entrevista a The Economist, sua resposta incluiu ataques à mídia argentina "verdadeiramente vergonhosa" e suas mentiras "arrepiantes".

Seus aliados temem que essa agressividade esteja afastando os eleitores. "Eu não justifico, eu não faço isso", diz Patricia Bullrich, uma das principais senadoras de seu partido.

Com dificuldades internas, Milei parece cada vez mais tentado pelos assuntos externos. Desde que assumiu o cargo, visitou os Estados Unidos cerca de 17 vezes e Israel três vezes, mas ainda não visitou 8 das 23 províncias da Argentina. 

No entanto, viajar não parece divertido para Milei. No vizinho Brasil, em um comício de campanha para Flávio Bolsonaro (PL), candidato de direita na eleição presidencial, ele se referiu ao atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como "ladrão" e "condenado".

O Brasil, maior parceiro comercial da Argentina, retirou seu embaixador em resposta. Milei não se arrepende. "O comunista Lula", diz, "contaminou todo o continente com o socialismo do século 21".

Em 3 de setembro, em um pronunciamento televisionado, ele intensificou sua retórica sobre as reivindicações da Argentina às Ilhas Malvinas, no que parece um esforço grosseiro para mobilizar apoio.

Será que preocupações com o emprego e a queda das pesquisas podem provocar mudanças antes das eleições? "Não vou parar de fazer o que é certo só pelo resultado da eleição", ele responde.

"Se o povo argentino decidir virar as costas para o modelo de liberdade porque eu permaneci fiel às minhas convicções... bem, isso depende do povo argentino."

As fortes convicções do Sr. Milei estão por trás de grande parte de seu sucesso, mas ele não alcançará uma reforma duradoura sem um segundo mandato.

Ele insiste que suas políticas centrais em breve impulsionarão o crescimento e os salários. Ainda assim, seu governo recentemente fez várias pequenas mudanças que parecem particularmente favoráveis ao crescimento: permitir que as taxas de juros caiam um pouco, usar o fundo de pensões dos argentinos para ajudar os bancos a reduzir as taxas de financiamento imobiliário e permitir que os bancos emprestem mais em dólares do que em pesos.

Milei diz que está apenas "liberando restrições". Seja o nome que isso tenha, se oferecer melhores salários e mais empregos, os eleitores vão gostar mais dele.

A salvação de Milei pode ser seus rivais. O principal provável desafiante é Axel Kicillof, atual governador peronista da província de Buenos Aires.

Ex-ministro das finanças profundamente associado a excessos de gastos passados, sua taxa de aprovação é tão ruim quanto a de Milei. Kicillof insiste que, no momento, não é candidato, mas mesmo assim se esforça para destacar os problemas econômicos.

Ainda assim, sua própria economia pouco ortodoxa aterroriza os mercados e assusta muitos eleitores. Ele não aceita que a principal causa da inflação no passado tenha sido a emissão de dinheiro. Em vez disso, diz que a conjuntura é "muito complexa".

Os peronistas também estão divididos. Sergio Massa, que perdeu para Milei nas últimas eleições, pode tentar novamente. Juan Grabois, um deputado inflamado, também pode concorrer. Ele promete justiça social financiada por impostos dramaticamente mais altos sobre os ricos. "Você não precisa temer Axel [Kicillof]," ele ri, "você tem que me temer, tem que temer Myriam Bregman."

Bregman é uma trotskista de alto perfil, à esquerda até mesmo dos peronistas. Surpreendentemente, sua aprovação é muito melhor do que a de Kicillof e Milei.

Com os principais candidatos sendo tão impopulares, outros nomes também estão de olho nas eleições. Hernán Lacunza, um ex-ministro das finanças de centro-direita, oferece uma economia no estilo Milei, mas sem os palavrões do presidente.

Governadores provinciais e pastores pentecostais que aparecem na televisão estão sondando o terreno. Milei ainda é o favorito. Mas, enquanto a economia cambaleia, a situação parece desconfortavelmente apertada.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

OS MÉDICOS RESPONSÁVEIS PELA SOBREVIVÊNCIA DE CUBA - Sarah Esther Maslin (The Economist)

 Um artigo de Sarah Esther Maslin na revista 1843, do The Economist, em 17/07/2026, Walmyr Buzatto

OS MÉDICOS RESPONSÁVEIS PELA SOBREVIVÊNCIA DE CUBA 

Os médicos são o artigo de exportação mais valioso do país. Agora Trump está de olho neles


No início deste ano, um médico cubano chamado Jorge recebeu uma mensagem no WhatsApp de um funcionário de saúde oferecendo-lhe a chance de trabalhar na zona rural do México. Se ele quisesse a posição, disse o funcionário, ele teria apenas algumas horas para fazer as malas. Jorge concordou imediatamente.


Não foi a primeira vez que Jorge, um homem de 40 anos com olhos castanhos intensos, foi enviado para o exterior. Nas últimas seis décadas e meia, Cuba transformou sua abundância de médicos e enfermeiros bem treinados em um item de exportação valioso. Em grande parte do mundo em desenvolvimento, as pessoas associam o país não a mísseis ou ao marxismo, mas aos profissionais de saúde que vivem e trabalham em lugares que seus colegas locais evitam: aldeias rurais, favelas urbanas, a floresta amazônica. O programa médicos é uma iniciativa humanitária, uma expressão de poder brando e uma tábua de salvação para o governo comunista de Cuba - é a maior fonte de moeda estrangeira do país, trazendo cerca de US$ 4 bilhões por ano.


A primeira missão médica de Jorge foi durante a pandemia, quando ele foi colocado em uma unidade de terapia intensiva para pacientes com covid-19 na Cidade do México. Foi a primeira vez que ele deixou Cuba, e o choque cultural o balançou. Tendo crescido em um país empobrecido por uma economia de comando e um embargo americano, ele estava acostumado a infraestrutura envelhecida, roupas de segunda mão e prateleiras vazias. No México, ele passava horas olhando de olhos arregalados para as vitrines; não acostumado a saciedade, ele comia tanto que se sentia doente. Ele pensou em quanto tempo havia perdido em filas, consertando eletrodomésticos antigos e caminhando para o trabalho quando não havia gasolina. Agora ele descobriu a calma que veio com não ter que dedicar toda a sua energia à sobrevivência.


Mas assim que Jorge voltou para casa, ele se sentiu esgotado novamente. A escassez de alimentos estava piorando e havia apagões frequentes. No passado, ele conseguiu se safar com seu salário mensal, complementado com rações do governo. Mas no final do ano passado, quando o presidente Donald Trump intensificou sua campanha para estrangular o regime de Cuba, as bodegas do governo estavam funcionando vazias e os 6.600 pesos cubanos que Jorge recebiam a cada mês valiam apenas US$ 14. Jorge e seu parceiro Bryan (ambos pseudônimos) sobreviveram com remessas de parentes no exterior e presentes de seus pacientes: um saco de feijão, alguns tamales.


Quando foi oferecida a Jorge a chance de voltar ao México, foi uma decisão financeira direta. Ele estaria ganhando o equivalente a US$ 1.700 por mês, trabalhando em um pequeno hospital em uma região devastada pela pobreza e violência. “Não foi por humanismo”, ele me disse. “Qualquer um que te diga isso está mentindo. Eu preferiria muito mais estar em Cuba com minha família.”


Como seus colegas, Jorge envia a maior parte do dinheiro que recebe para casa, onde financia painéis solares e salsichas e inúmeras outras coisas que tornam a vida mais confortável. A casa que ele e Bryan compartilham, em uma província rural longe de Havana, tem painéis solares e pisos de azulejos rosa e verde, e está cheia de coisas que faltam a outras famílias cubanas: uma scooter elétrica, um disco rígido cheio de entretenimento pirateado, uma fotografia que Bryan fez com IA do casal parecendo elegante em ternos de negócios.


Jorge ficou feliz por poder fornecer essas coisas a Bryan, e ele gostou da experiência de trabalhar no exterior. Seus pacientes no México gostavam dele; ele era descontraído e um bom ouvinte. Ele estava ganhando cem vezes seu salário cubano e vivendo de forma simples, mas sem aluguel, com água quente e internet rápida. Ele frequentemente trabalhava menos do que o contratado 35 horas por semana porque alguns membros da equipe tendiam a ir para casa mais cedo, antes que a noite se instalasse e a cidade se tornasse um playground para narcotraficantes.


No entanto, ele estava sempre pensando em Cuba. Sempre que Bryan tinha sinal de internet, ele atualizava Jorge sobre a tragédia que se desenrolava em casa: sobre as luzes apagadas com mais frequência do que estavam acesas; sobre as bodegas do governo negando pão a qualquer pessoa com mais de seis anos e menos de 65 anos; sobre pessoas morrendo por falta de antibióticos.


Jorge nunca se considerou comunista, mas, como muitos cubanos, aprendeu a ser a linha oficial. “Mesmo que você pense de uma maneira, você age de outra”, ele me disse. “Você diz 'Viva a revolução!' Você vai para a marcha.” Sua conformidade lhe rendeu um lugar nesta missão. Mas ele começou a se preocupar que seu trabalho estivesse sustentando o regime que ele responsabilizava pela crescente crise de Cuba. Às vezes, ele desejava que o México acabasse com seu apoio ao programa de médicos; ele estaria desempregado, mas tal medida poderia ajudar a derrubar os líderes comunistas de Cuba. Ele orou para que a América lançasse uma “greve cirúrgica”, embora se preocupasse com seus entes queridos.


Este ano, pela primeira vez, Jorge se permitiu considerar desertar - algo que vários de seus colegas fizeram durante sua missão anterior. Isso significaria abrir mão do apoio que ele deu à sua família e expô-los a retaliação. Ele lembrou o vitríolo que um desertor recebeu no bate-papo da missão no WhatsApp, geralmente cheio de emojis de coração e mãos rezando. “Nós temos um rato”, escreveu o chefe da missão, pedindo a todos que enviassem seus pensamentos sobre o contra-revolucionário. “Eles escreveram horrores sobre ele”, disse Jorge. “Eles o chamaram de desertor, traidor, escória.” Cada vez mais, no entanto, ele lutou para imaginar retornar a um país que estava desmoronando. À noite, ele ficava acordado se perguntando: devo ficar ou devo ir?


Os médicos têm sido fundamentais para a ideia de Cuba sobre si mesma desde a revolução. Che Guevara era um médico antes de trocar seu jaleco por trajes de combate. Depois de derrubar a ditadura de direita de Fulgêncio Batista em 1959, o governo revolucionário de Fidel Castro se estabeleceu para construir um sistema de saúde para uma população pobre e doente. Desde então, o país consagrou o direito à assistência médica gratuita em sua constituição e foi pioneira em uma abordagem baseada na prevenção da medicina, que se mostrou extraordinariamente eficaz na prestação de cuidados em um piscar de olhos. Na década de 2010, as taxas de mortalidade infantil de Cuba estavam no mesmo nível das dos países desenvolvidos, apesar de gastarem muito menos do que em serviços de maternidade, e a expectativa de vida era igual à dos Estados Unidos. (Alguns se perguntam se as estatísticas oficiais são confiáveis.) Em 2021, havia 9,5 médicos por mil cubanos—cinco vezes a média mundial e mais do que o dobro do que nos Estados Unidos.


Hoje, os médicos de Cuba são responsáveis pela sobrevivência não apenas de seus pacientes, mas também do próprio regime. Está em péssima forma, econômica e diplomática. Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio - um cubano-americano que construiu sua carreira, em parte, assumindo uma posição de linha dura sobre Cuba - seguiram políticas que têm ecos do imperialismo americano no século XX, quando o país apoiou golpes e guerras por procuração em uma tentativa de dominar o hemisfério ocidental. Eles aumentaram as sanções a Cuba, esmagando sua indústria do turismo e cortando outros fluxos de moeda forte, e derrubaram seu aliado mais importante na região: Nicolás Maduro, o ditador da Venezuela, que costumava manter a ilha abastecida com petróleo a preços reduzidos. O governo Trump também impôs um bloqueio de fato de combustível de outras fontes, ameaçando aplicar tarifas em qualquer país que venda petróleo para Cuba. O presidente se gaba de que, de uma forma ou de outra, trará uma mudança de regime. Ele não descartou uma invasão militar.


Trump e Rubio discerniram - como as administrações americanas anteriores - que o programa médico é um ponto sensível para o governo de Cuba. Inicialmente, Cuba enviou seus médicos para países anfitriões sem custo ou com uma taxa fortemente subsidiada. Mas depois que a União Soviética entrou em colapso em 1991, ela perdeu seu principal financiador. A economia, já tensa pelo embargo de décadas, entrou em crise. O regime cubano silenciosamente começou a usar uma escala móvel para cobrar milhões de dólares na maioria dos países pelos médicos. Logo a exportação de serviços profissionais superou o turismo, o açúcar e o tabaco como a principal fonte de dinheiro de Cuba.


À medida que as missões médicas do país cresciam em importância econômica, as tentativas da América de frustrá-las também cresceram. Em 2006, a administração George W. Bush estabeleceu o Programa de Liberdade Condicional Médico Profissional Cubano, que oferecia residência permanente a médicos que desertavam. Quase 10.000 profissionais de saúde abandonaram seus postos antes que o esquema fosse encerrado em 2017. Mas tentativas passadas de intimidar os países anfitriões para expulsar seus médicos foram em grande parte malsucedidas. “O problema era que os EUA não estavam em posição de oferecer seus próprios médicos”, disse Tom Shannon, um diplomata de carreira e ex-alto funcionário do Departamento de Estado. “Nossa posição era, não use os médicos cubanos, e para o inferno com seu povo.”


No ano passado, o segundo governo Trump descobriu uma maneira particularmente eficaz de interromper o programa: restringir vistos para funcionários de países com missões médicas cubanas. Desde meados de 2025, pelo menos dez países anfitriões disseram para seus médicos para fazer as malas. O México é o resultado mais significativo, mas seu governo de esquerda parece interessado em manter a implantação dos médicos o mais discreta possível. Jorge foi levado de avião para a Cidade do México no meio da noite e levado para seu pueblo, ou cidade, na manhã seguinte - parecia uma operação secreta. “Só faltava o capuz sobre nossas cabeças”, ele me disse.


O Departamento de Estado de Rubio justificou sua cruzada contra as missões médicas dizendo que elas são uma forma de escravidão moderna. Enquanto os médicos são roubados por seu próprio governo - que normalmente embolsa entre 50% e 80% do que os países anfitriões pagam por seus serviços - os motivos da administração Trump dificilmente são humanitários. “Eles criaram essa narrativa para justificar o estrangulamento de um pequeno país”, disse Johana Tablada, uma diplomata cubana de ponta na Cidade do México, quando conversamos em junho.


Não está claro se Trump e Rubio seguirão suas ameaças de invasão. Mas eles provaram estar mais motivados do que qualquer administração americana anterior para encerrar o programa médico de Cuba. O objetivo deles, ao que parece, é enfraquecer o regime a ponto de ser forçado a fazer um acordo com Trump, ou abdicar do poder.


Médicos no exterior se encontram na ponta dessas manobras geopolíticas. A renda que eles fornecem para suas famílias em casa é cada vez mais essencial. A miséria dentro de Cuba está piorando a cada dia. Quando a visitei em maio, parecia que a ilha estava viajando para trás no tempo - as pessoas estavam estudando à luz de velas e cozinhando com carvão. Fora de Havana, algumas estradas tinham mais carroças do que carros.


Como a luta do governo cubano parece cada vez mais fútil, alguns médicos, como Jorge, estão começando a se perguntar: eles devem continuar ajudando a perpetuá-la, ou devem abandonar o navio enquanto podem? A ironia é que a única maneira de o regime em Havana ganhar a moeda que precisa para se manter vivo é expor seus médicos ao mundo capitalista do qual, de outra forma, tenta isolar seus cidadãos. No entanto, ao contrário de outras exportações cubanas, como café e tabaco, os médicos têm mentes próprias.


O governo revolucionário começou a enviar seus médicos para o exterior em 1960, depois que um terremoto no Chile deixou quase 2.000 pessoas mortas. Nas décadas seguintes, Cuba enviaria mais de 500.000 funcionários médicos para mais de 165 países, refletindo o compromisso do estado com os cuidados de saúde como um direito humano. A Escola Latino-Americana de Medicina em Havana treinou mais de 31.000 médicos de 122 países, principalmente no sul global; A Operação Milagre forneceu cirurgia ocular gratuita para cerca de 3 milhões de pessoas em todo o mundo.


A ajuda pode ser medida de diferentes maneiras, mas com base no capital humano, “a contribuição desta pequena ilha para a saúde global supera a de todos os outros países industrializados”, escreveu John Kirk, um acadêmico canadense e especialista em Cuba. Na década de 1980, a América enviou para o exterior um trabalhador de ajuda para cada 34.700 cidadãos - Cuba enviou um para cada 625.


Nos últimos seis meses, conversei com mais de 30 médicos e enfermeiros cubanos que serviram em missões médicas. Cerca de metade vive em Cuba; a maioria dos outros desertou de seus postos. Dois, incluindo Jorge, estão atualmente servindo no exterior e estão tecnicamente proibidos de falar com jornalistas. Seus motivos para ir em missões variaram, desde um desejo de estabilidade financeira, avanço na carreira ou aventura, até um desejo genuíno de ajudar. Assim como as experiências deles. Muitos, particularmente de gerações mais velhas, sentiram maior apreço pelo sistema de saúde de Cuba, uma vez que viram o sofrimento de seus pacientes estrangeiros.


Elisa, a meia-irmã mais nova de Jorge, se juntou ao programa de médicos em 2013. Estava então no seu auge, trazendo cerca de US$ 8 bilhões por ano - cerca de 10% do PIB de Cuba - e colocando quase um terço dos médicos do país no exterior. Depois de se formar na faculdade de medicina, Elisa recebeu uma oferta de vaga no Barrio Adentro, na Venezuela. Foi a maior missão cubana na época, com cerca de 32.000 profissionais de saúde, juntamente com outros profissionais, como professores, arquitetos e engenheiros.


Elisa (também um pseudônimo) tinha então 24 anos, com um físico de duende, cabelo loiro tingido e uma reserva aparentemente infinita de energia e idealismo. Tanto ela quanto seu irmão cresceram saudando a bandeira na escola todas as manhãs, cantando: “Pioneiros do comunismo, seremos como Che”. Mas enquanto Jorge foi criado por seus avós paternos que eram céticos em relação ao comunismo, Elisa foi influenciada por seu pai. Ele supervisionou uma cadeia de fábricas estatais e incutiu nela uma crença fervorosa de que o comunismo era a melhor coisa que já havia acontecido com Cuba.


Partindo em sua missão, Elisa estava cheia “com a ideia de que eu ajudaria o povo venezuelano”. Ela estava animada para colocar em prática os valores de solidariedade e sacrifício que aprendeu na faculdade de medicina. Ela também queria ganhar dinheiro. Na Venezuela, ela ganhava US$200 por mês, dez vezes seu salário como médica de terapia intensiva em Cuba, onde parecia normal economizar por um ano para comprar um único par de Crocs.


Elisa foi designada para um hospital pobre e movimentado no vasto estado de Bolívar. Ela manteve um cronograma exaustivo - 24 horas de trabalho, 24 horas de folga - e tratou de 60 a 100 pacientes por dia na sala de emergência. Uma vez, um membro de uma gangue local levou seu líder inconsciente, que estava sangrando de um ferimento de bala. “Salve-o ou vamos matar você”, disse ele.


No dezembro seguinte, Elisa retornou a Cuba para um mês de férias. Ela ficou na casa da mãe e do padrasto, que tinha um telhado com vazamento e um chiqueiro no quintal. Depois de um ano economizando em refeições para economizar o máximo possível de seu salário, ela pesava apenas 90 libras (41 kg). Mas com os US$ 2.000 que ela havia reservado, ela comprou para sua família uma unidade de ar condicionado, uma máquina de lavar e uma televisão. Ela se sentia tonta toda vez que usava o cartão de débito emitido pelo governo que lhe dava um desconto de 30% em utensílios domésticos - um privilégio reservado para membros de missões médicas. “Eu nunca tinha visto um cartão bancário antes”, disse ela. “Eu senti que poderia mudar o mundo.”


No Natal, Elisa montou uma pequena árvore artificial. Em retrospecto, ela disse, essa foi sua primeira rebelião, já que tanto o cristianismo quanto o consumismo eram contrários aos valores da revolução. Seu fervor de infância a deixou preparada para a desilusão quando ela descobriu o mundo além das costas de Cuba. Ela começou a questionar se o comunismo era realmente tão igualitário quanto pretendia ser. Na Venezuela rica em petróleo e socialista, ela notou um abismo entre a pobreza de seus pacientes e a riqueza de comparsas do governo e oficiais do exército. Ela também aprendeu que o valor do petróleo subsidiado que a Venezuela estava pagando a Cuba pelos serviços médicos excedeu em muito a quantia que os próprios médicos levaram para casa. O governo cubano justifica tais discrepâncias dizendo que o dinheiro é canalizado de volta para o sistema de saúde pública, incluindo escolas de medicina gratuitas.


Elisa não estava convencida. Durante toda a sua vida, ela ouviu as pessoas culparem a América e seu embargo pelos hospitais deteriorados e a pobreza de Cuba. Mas agora ela lutou para se sentir grata a um governo que pedia tanto dela, mas era incapaz de suprir suas necessidades básicas. Embora Raúl Castro, o presidente da época, tivesse introduzido reformas econômicas cautelosas, a maioria dos cubanos ainda tinha problemas para sobreviver. As rações estavam sendo reduzidas, as escolas estavam perdendo professores e até mesmo o amado sistema de saúde estava mostrando sinais de tensão. (Elisa disse que sua mãe recebeu pontos após uma queda que foram tão mal costurados que não pararam o sangramento.) Elisa sempre foi inteligente e curiosa, mas cresceu sem a internet. “Eu deixei Cuba com minha mente em uma gaiola”, disse ela. “Na Venezuela, eu comecei a acordar.”


O serviço de Elisa na Venezuela ocorreu em um interlúdio incomum nas relações América-Cuba. Barack Obama buscou uma reaproximação com os Castros e havia uma grande esperança de que o isolamento da ilha pudesse acabar. Durante sua visita a Havana em 2016—a primeira vez que um presidente americano em exercício foi ao país desde a revolução cubana—Obama elogiou o programa médico e seu serviço “para os pobres e os que sofrem”. Ele afrouxou as restrições às remessas e viagens para a ilha. O governo cubano, por sua vez, tornou mais fácil para os estrangeiros investirem e para os cubanos administrarem pequenas empresas e comprarem e venderem casas.


Obama acreditava que uma maior liberdade econômica, juntamente com a rápida disseminação do acesso à Internet, faria os cubanos questionarem sua falta de direitos democráticos. Até certo ponto, uma revolução aconteceu—mas não entre aqueles na ilha. Em vez disso, ocorreu entre os médicos que vivem no exterior, que enfrentaram menos repercussões por falar. Uma revolta notável ocorreu no Brasil, onde os médicos, em vez de desertar silenciosamente como no passado, reclamaram à imprensa sobre suas experiências de retenção de salários. Eles também entraram com ações judiciais contra o governo brasileiro e a Organização Pan-Americana da Saúde, que estava agindo como intermediária financeira e também embolsando parte de seus salários.


O governo cubano e seus defensores alegaram que tais revoltas foram o resultado de uma conspiração entre associações médicas xenófobas em países anfitriões, exilados cubanos financiados pelo Departamento de Estado e políticos reacionários. Para conter o fluxo crescente de deserções, o regime reprimiu os profissionais de saúde. Confiscou os passaportes daqueles que servem em missões; os encorajou a espionar uns aos outros; congelou parte de seus salários como um incentivo para voltar para casa; e se recusou a deixar suas famílias acompanhá-los no exterior. A ferramenta mais cruel foi a “proibição de oito anos”, que impede aqueles que abandonaram missões internacionais de retornar à ilha por quase uma década. Tablada, o diplomata cubano, me disse que as leis de imigração do país estão “em revisão”, mas também que “Cuba tem o direito de se defender” contra “roubo de cérebros”.


As restrições fizeram Elisa se sentir sufocada. Depois de suas férias em Cuba, ela retornou à Venezuela, onde vivia em alojamentos apertados nos fundos de uma delegacia de polícia com outros 14 cubanos. Eles não tinham permissão para sair depois das 18h, ou para dirigir, ou viajar para fora do estado. Havia regras rígidas sobre com quem eles se relacionavam: eles não podiam namorar um local sem permissão, ou ter “amizades ou relacionamentos” com aqueles que tinham “visões hostis ou contrárias”. Quando os chefes de Elisa descobriram que uma pessoa estava planejando abandonar a missão, eles o mandaram para casa e interrogaram seus colegas de casa. “É uma sensação horrível”, ela me disse. “Você começa a desconfiar de todos, até mesmo de seus próprios compatriotas.”


Havia pressões externas também. A má gestão catastrófica e a queda dos preços do petróleo levaram à escassez de alimentos, hiperinflação e protestos violentos em toda a Venezuela. Como os médicos cubanos às vezes faziam campanha em nome do governo de Maduro, eles se tornaram alvos de raiva antigovernamental. Elisa entendeu a raiva dos manifestantes e se sentiu responsável pelo papel que seu país desempenhou no colapso da Venezuela.


Finalmente, ela colapsou. “Eu não aguento mais”, ela confessou a um colega simpático. Acabou que o colega tinha um amigo que abandonou sua missão e desertou para a Colômbia; ele foi o primeiro a contar a Elisa sobre o programa de liberdade condicional médica da América. O homem a colocou em contato com um coiote, ou contrabandista, que prometeu levar-a através da fronteira venezuelana. Elisa foi informada de que sua viagem começaria em apenas quatro dias. “Eu não tive tempo de processar o quão perigoso era”, disse ela. “Parecia ser a única opção.” Ela deu seus pertences ao seu colega e vendeu seu celular. Depois de uma longa viagem até a fronteira, ela se juntou a um grupo de migrantes venezuelanos e cruzou, com água na altura da cintura, o rio que separa a Venezuela da Colômbia.


Quando o governo cubano descobriu sobre sua fuga, eles enviaram agentes para a casa de sua mãe todos os dias durante três semanas. Alguns dias, eles criticavam sua mãe por criar uma traidora; em outros, eles imploravam para que ela convencesse Elisa a retornar à Venezuela. “Quando ela se arrepender, vamos recebê-la de volta”, disseram eles. Enquanto isso, US$ 4.800 em fundos congelados desapareceram da conta bancária de Elisa. Amigos e familiares escreveram mensagens ferventes em sua página do Facebook, chamando-a de inimiga da revolução, uma desertora, um verme. A melhor amiga dela parou de falar com ela. O mesmo aconteceu com Jorge, que viu suas próprias esperanças de ir em uma missão frustrada como resultado das ações de Elisa.


Esse fanatismo só fortaleceu a determinação de Elisa. Uma vez na Colômbia, ela foi à embaixada dos Estados Unidos em Bogotá e anunciou que era uma médica que queria desertar. Ela teve sorte: não muito tempo depois, Obama anunciou o fim do programa de liberdade condicional. Quatro meses depois, ela embarcou em um voo para Miami.


Hoje, com o fim da era Obama, o programa médico é uma sombra do que era quando Elisa o deixou. Os países anfitriões começaram a devolver seus profissionais de saúde cubanos durante o primeiro mandato de Trump. Em 2018, Jair Bolsonaro, presidente populista de extrema-direita do Brasil, usou a revolta dos médicos de lá como desculpa para forçar todos os 8.300 deles a sair. Bolívia e Equador seguiram o exemplo. Agora, após a última campanha de pressão de Trump, há menos de 20.000 profissionais de saúde cubanos no exterior, uma queda em relação a mais de 50.000 há uma década. Essa perda prejudicará os países anfitriões. Alguns confiaram em médicos cubanos por 50 anos; outros contam com Cuba para 20% de sua equipe médica. Os médicos cubanos que estão atualmente tratando vítimas de terremotos na Venezuela em breve voltarão para casa.


Cuba, enquanto isso, se transformou em um lugar semelhante aos países para onde enviava médicos. Quando visitei um hospital na cidade natal de Jorge e Elisa, os corredores estavam escuros e as salas de exame não tinham suprimentos e equipamentos. Geradores estavam mantendo as luzes acesas nas salas de cirurgia, mas os frequentes cortes de energia haviam queimado vários ventiladores envelhecidos e máquinas de raios-x. Ninguém sabe quantos cubanos morreram como resultado do bloqueio de combustível, que especialistas da ONU consideraram uma violação do direito internacional. Mas o governo disse que os procedimentos críticos foram interrompidos para dezenas de milhares de pessoas. Os pacientes estão sendo solicitados a trazer seu próprio medicamento, que atingiu preços exorbitantes no mercado negro.


Tais circunstâncias desesperadas alienaram muitos profissionais de saúde. Conheci pessoas por toda a ilha que deixaram a medicina para se tornarem taxistas, lojistas ou garçons, porque esses empregos são muito mais lucrativos (Cuba perdeu mais de 77.000 profissionais de saúde entre 2021 e 2024).


Para os médicos que aguentaram, a crise do país criou um forte incentivo para ir para o exterior e um profundo estado de ambivalência sobre um programa que já foi a fonte de orgulho de Cuba. Muitos médicos da geração de Elisa tinham motivações idealistas e experiências gratificantes, mas hoje em dia a razão para trabalhar no exterior é esmagadoramente econômica. Embora ainda seja o caso de que apenas uma pequena minoria de médicos deserta, falei com vários que foram em missões com esse propósito explícito, e o fizeram nas primeiras 24 horas.


Em Havana, conheci uma mulher que chamarei de Yasmín, uma enfermeira obstétrica negra de 63 anos. Na década de 1950, seus pais pertenciam a um movimento de resistência urbana que ajudou a levar Fidel Castro ao poder, e ela credita a revolução por reduzir as disparidades raciais. Ela havia servido em várias missões médicas e recentemente entregou sua papelada para ir para o exterior novamente. Mas a gratidão dela se transformou em desencanto. “Eu fiz tanto pelo meu país”, disse ela, abaixando a voz do jeito que os cubanos fazem sempre que criticam o governo. “Mas onde está todo o dinheiro?” Ela tentou se aposentar no final da pandemia, mas teve que voltar ao trabalho porque sua pensão não era suficiente para viver. "Você olha para o estado dos hospitais..." ela disse, sua voz desaparecendo. Seus irmãos, que deixaram Cuba há décadas, a têm incentivado a se juntar a eles na Flórida. Pela primeira vez, ela está considerando isso.


Contra todas as probabilidades, algumas pessoas em Cuba conseguiram permanecer otimistas. Durante um apagão de 18 horas, o parceiro de Jorge, Bryan, me levou a um restaurante na cobertura com luzes de  elas e coquetéis congelados - seu proprietário, disse ele, tinha renda estrangeira e contatos com o governo. Bryan é uma década mais novo que Jorge. Apesar de nunca ter vivido no exterior, ele parece urbano e informado. Ele mistura inglês em suas conversas; ele sabe sobre anime e musicais da Broadway. A internet permitiu que ele ampliasse seus horizontes desde jovem de uma maneira que Jorge e Elisa nunca poderiam.


Perguntei se ele achava que os médicos eram heróis humanitários ou escravos de um regime autoritário, como afirma o Departamento de Estado. Bryan riu: “Ambos são verdadeiros.” O governo cubano explora o desespero dos médicos, mas chamá-los de “escravos” é um exagero, disse ele, especialmente em um país que foi moldado pela escravidão (estudiosos acreditam que mais da metade dos cubanos têm ascendência africana). Os médicos deveriam receber mais, ele pensou, mas é justo que se espere que eles retornem. “Eu sou filho de uma pobre mulher negra que limpava o chão para viver”, disse Bryan. “Graças à revolução, consegui me tornar um engenheiro. Eu nunca paguei um centavo.”


De muitas maneiras, Elisa é uma história de sucesso americana. Depois de desertar, ela fez uma nova vida em Miami, onde um terço da população é cubana. Como a maioria dos médicos que desertaram, Elisa desistiu do árduo processo de recertificação necessário para praticar medicina na Flórida. Em vez disso, ela conseguiu um emprego como codificadora médica, trabalhando entre médicos e seguradoras de saúde. Ela se saiu melhor do que muitos médicos com quem conversei, especialmente chegados mais recentes: um me disse que está entregando pacotes para a Uber, outro está lutando contra um processo de deportação. Elisa mora em uma casa de quatro quartos em um bairro arborizado com seu marido, um veterano da guerra do Iraque, seus filhos, de seis e quatro anos, e sua sogra polonesa. “Nós nos unimos por causa de nossos traumas compartilhados do comunismo”, brincou Elisa.


Quando a visitei, Elisa se desculpou por seu espanhol—não apenas porque era ultrarrápido, como o da maioria dos cubanos, mas porque estava salpicado de palavras em inglês como “so”, “hum” e “well”. Em nossas conversas, ela se lembrou de seu orgulho quando jovem médica, mas lutou para lembrar o que a impressionou sobre o sistema de saúde de Cuba. Como quase todos os médicos que entrevistei que haviam desertado, Elisa concordou com a caracterização do Departamento de Estado das missões médicas como “escravidão moderna”. Ela ficou frustrada com um relatório recente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que concluiu que elementos das missões equivaliam a trabalho forçado e tráfico de pessoas. Foi a condenação mais forte do programa de médicos até o momento por um grande órgão regional de direitos humanos, mas na opinião dela, não foi longe o suficiente. “Em nenhum lugar”, disse ela, “eles usaram a palavra 'ditadura'.”


As opiniões de Elisa foram inegavelmente influenciadas por uma década na estridente comunidade de exílio cubano anticomunista e firmemente republicana de Miami, que vê a perspectiva de intervenção americana com entusiasmo. Ela e seus filhos passaram a chamar o presidente de “Papa Trump”. É uma prova da profundidade do desencanto dos médicos desertores de que muitos se tornaram apoiadores de Trump, embora seu governo os tenha tratado com o mesmo desdém que mostra a outros grupos de migrantes. As regras de imigração draconianas em ambos os lados do Estreito da Flórida afetaram a família de Elisa. Embora sua proibição de oito anos tenha terminado, ela não retornou à ilha; ela teme que, se o fizer, possa ser sinalizada como médica e proibida de sair.


Como resultado, ela e Jorge não se veem há uma década, e ele nunca conheceu os filhos dela. Mas ela se reuniu com sua mãe, que se juntou a ela em 2022 (seu padrasto, que tem espinha bífida e artrite, ficou para trás em Cuba). Na minha última tarde em Miami, encontrei os dois no pequeno apartamento que a mãe dela, a quem chamarei de Teresa, divide com um dos primos de Elisa. Cheirava a cebolas douradas e a mistura terrosa de especiarias usadas no arroz cubano. Enquanto conversávamos, gritos e risadas vieram do quarto, onde os filhos de Elisa estavam brincando com seu primo. Teresa pega seus netos na escola todas as tardes e cuida deles até Elisa chegar em casa do trabalho.


A reunião de mãe e filha não saiu como esperado. Em Cuba, eles estavam tão próximos que até dividiam uma cama. Mas em Miami, eles brigavam constantemente. “No começo, eu senti ciúmes dos meus netos”, explicou Teresa. Elisa levantou as sobrancelhas; esta foi a primeira vez que ela ouviu falar disso. “Eu não estava aqui para as gestações de Elisa, para seus primeiros anos”, disse Teresa. “Eu senti como se eles tivessem tirado minha filha de mim.”


Teresa virou-se para Elisa. “Eu não sei se você se lembra,” ela disse. “Você tinha essas sandálias surradas. Um prego estava segurando a alça. Eu segurei eles por anos depois que você saiu, eu não podia jogá-los fora.”


Elisa riu. “Quando cheguei aos EUA pela primeira vez, minha mãe me ligou e disse: 'Eu tenho seus livros, suas roupas, seu leite em pó.' Eu fiquei tipo, 'Mamãe, eu não vou voltar!'” Ela fez uma pausa e olhou para sua mãe, como se a visse pela primeira vez. “Quando eu saí, eu era uma garota ainda bebendo leite em pó”, ela finalmente disse. “Minha mãe chega aqui e encontra uma mulher adulta com dois filhos.”


Apesar do abraço de Elisa à vida americana, ficou claro que ela também se sentia nostálgica. Ela me pediu para fazer uma visita à sua casa quando eu estava em Cuba e enviar fotos por mensagem de texto de tudo o que eu vi. A sala de estar quase não tinha móveis, e na cozinha havia os mesmos eletrodomésticos que Elisa havia comprado há mais de uma década. Um furacão havia arrancado parte do telhado, que foi coberto com uma lona desde então. Nas paredes havia fotografias desbotadas: Jorge em uma fralda com uma bola; Elisa na escola primária usando um lenço de pescoço estilo soviético na frente da bandeira cubana; Elisa se formando na faculdade de medicina com um vestido rosa e um jaleco branco. “Chorando aqui,” ela respondeu quando viu minhas mensagens. “É exatamente o mesmo de quando eu saí.”


Algumas semanas depois de ver Elisa em Miami, viajei para o pueblo de Jorge no México. Enquanto dirigia para a cidade, passei por cartazes anunciando uma banda famosa por baladas de narco e cartazes prometendo “vistos de trabalho rápido” para os Estados Unidos. Quando nos encontramos na praça do lado de fora da igreja católica, Jorge ainda parecia dividido sobre a perspectiva de deserção. Por enquanto, seu salário lhe deu um forte incentivo para ficar, mas ele previu que “cargas” de médicos partiriam logo antes do término da missão em dezembro. Ele havia feito planos para falar com um advogado sobre a residência mexicana - mas também adicionou seu nome a uma planilha de voluntários para missões em 2027.


Jorge admitiu que às vezes invejava Elisa. “Ela era tão jovem quando saiu, ela dá por certo que pode pensar livremente”, disse ele. Ele se sentiu mal pela maneira como a evitou quando ela desertou, mas disse que sofreu como resultado de sua decisão; levou anos para o governo confiar nele o suficiente para enviá-lo em uma missão. “Ela não pensou no resto de nós”, disse ele.


Em maio, o Departamento de Justiça indiciou Raúl Castro por seu suposto envolvimento na derrubada de dois aviões que transportavam exilados cubanos em 1996. Os especialistas especularam que o caso poderia ser usado como pretexto para uma intervenção militar no estilo da operação para capturar Maduro, que também foi precedida por acusações criminais. Em resposta, os chefes de Jorge no México convocaram uma reunião por vídeo com todos os médicos da missão, dizendo-lhes para estarem prontos para voar para casa “a qualquer momento” porque Cuba estava “em guerra”.


Ele entrou em pânico. “Eles fazem isso em todas as missões”, seus colegas o tranquilizaram. Com certeza, a conversa sobre uma invasão logo morreu. Mas isso forçou Jorge a pensar sobre o que ele faria se de repente fosse chamado para casa. “Eu não quero voltar,” ele confessou.


Elisa não tem certeza se ele terá coragem de fugir. Quando Jorge morou no México pela primeira vez, ela se ofereceu para pagar um coiote para trazê-lo pela fronteira, mas ele se opôs. “Às vezes, quando você abre a porta da gaiola, o pássaro não sai”, disse ela. Teresa tinha outra explicação. “Meus filhos são bons filhos”, disse ela. “Mas minha filha é mais corajosa do que meu filho.”


sábado, 11 de julho de 2026

China diminui distância dos EUA no design de chips, mas ainda tropeça na fabricação (The Economist)

China diminui distância dos EUA no design de chips, mas ainda tropeça na fabricação
The Economist, 10jul26

Taipei (Taiwan) 

Quando a elite da indústria de chips desembarcou em Taipei no mês passado para a Computex, feira anual do setor, dois temas dominaram as discussões. O primeiro foi a inteligência artificial, que transformou os semicondutores em uma das indústrias mais lucrativas do mundo. O segundo foi a China. Os fabricantes chineses estavam ausentes, mas sua sombra era longa.
O fascínio pela China é fácil de explicar. Uma semana antes da Computex, a Huawei, campeã chinesa em hardware tecnológico, revelou uma técnica que empilha camadas de circuitos em um chip para obter melhor desempenho sem depender das mais recentes ferramentas de fabricação ocidentais.
Os investidores também estão sinalizando confiança no país. Os preços das ações de empresas de semicondutores na bolsa de Hong Kong subiram 140% no último ano, superando um índice americano comparável. Alibaba e Baidu, dois gigantes chineses da internet, pretendem desmembrar seus negócios de design de chips. A CXMT, fabricante de chips de memória, está preparando uma oferta pública de ações.
O potencial da China para autossuficiência na fabricação de chips é uma das maiores questões da indústria. A resposta importa porque o "compute" —os processadores e memórias que treinam e executam modelos de IA— tornou-se a moeda do poder tecnológico.
No final de 2025, a China tinha apenas cerca de um sétimo da capacidade de computação dos Estados Unidos. Fechar essa lacuna exige dominar duas atividades muito diferentes: projetar chips e fabricá-los. A China fez progressos notáveis na primeira. Na segunda, ainda tem um longo caminho a percorrer.
A China costumava estar muito atrás no design de chips. Até 2023, a americana Nvidia, que domina o mercado de chips de IA, atendia cerca de 90% da demanda chinesa. Os controles de exportação mudaram isso. Desde que os EUA restringiram as vendas de chips avançados para a China em outubro de 2022, a política americana tem oscilado. A resposta da China, por outro lado, não vacilou: os reguladores têm consistentemente distanciado as empresas domésticas dos chips estrangeiros, mesmo quando são legalmente obtidos.
O resultado foi um mercado interno protegido. Alibaba e Baidu estão projetando processadores internamente, enquanto startups como a Cambricon prosperaram com concorrência limitada. Projeta-se que os designers domésticos capturem cerca de quatro quintos dos gastos na China com chips de IA este ano. Qingyuan Lin, da corretora Bernstein, brinca que os EUA fizeram mais para fortalecer a indústria de semicondutores da China do que o próprio governo do país.
O mercado chinês é grande o suficiente para sustentar uma indústria. Espera-se que os gigantes locais de nuvem gastem mais de US$ 400 bilhões em infraestrutura de IA nos próximos três anos, grande parte em computação. Também há rumores de que o governo está planejando outros US$ 295 bilhões em gastos com data centers ao longo de cinco anos.
A China também tem muitas pessoas com as habilidades certas. Muitos designers de chips chineses ganharam experiência trabalhando para empresas americanas como Nvidia e AMD. Kyle Chan, do Brookings Institution, avalia que atualmente há tantas opções no mercado que até pequenas startups conseguiriam recrutar equipes inteiras de design.
E os designers talentosos estão encontrando maneiras de avançar mesmo em meio às sanções. Uma saída é usar a força bruta. O sistema CloudMatrix da Huawei conecta 384 processadores Ascend da empresa para desafiar os mais recentes sistemas de IA da Nvidia (embora consuma quatro vezes mais energia).
Outra é a integração mais estreita de hardware e software. Em abril, a DeepSeek lançou um modelo de linguagem grande ajustado para o silício da Huawei. Os designers chineses também estão adotando o FP8, um formato de dados de menor precisão que ajuda os modelos a rodar eficientemente em chips menos potentes.
A Huawei também está trabalhando para minar a vantagem da Nvidia com o CUDA, software amplamente utilizado na indústria. Sua plataforma própria, a CANN, foi projetada para facilitar a transição de chips da Nvidia.
Mas tal engenhosidade só pode levar a China até certo ponto. A Bernstein observa que o chip top de linha da Huawei, o Ascend 910C, entrega apenas quatro quintos do desempenho do H100 da Nvidia, lançado há quase quatro anos. Os chips nacionais competem principalmente com os processadores ultrapassados que a Nvidia é autorizada a vender na China. Eles também estão majoritariamente confinados à "inferência" —executar modelos existentes— em vez da tarefa muito mais exigente de treinar IA de fronteira do zero.
Com os avanços de design, a distância que resta entre as duas nações está na esfera da fabricação. Processadores mais rápidos exigem linhas de produção mais avançadas. Os designers chineses estão proibidos de usar os processos mais recentes de foundries (fábricas especializadas que produzem os chips para outras empresas inserirem em seus produtos) como a TSMC.
As foundries domésticas, impedidas de comprar equipamentos de litografia ultravioleta extrema (EUV) da holandesa ASML, não conseguem produzir em massa de forma confiável chips com transistores menores que sete nanômetros (o estado da arte é de 3 nanômetros para baixo). Mesmo para chips menos avançados, a capacidade é limitada.
Consequentemente, a demanda da China por processadores de IA supera em muito o que ela consegue obter. Um analista da empresa de pesquisa Citrini, Zephyr (nome fictício) diz que as empresas chinesas compensam a escassez alugando capacidade de nuvem no exterior ou contrabandeando chips.
A memória avançada é outro gargalo. Quase toda a memória de alta largura de banda (HBM) necessária para IA é fabricada por três empresas: a americana Micron e as sul-coreanas Samsung e SK Hynix.
Os chineses estão gastando muito para tentar alcançar seus pares ocidentais. Desde 2019, as importações anuais de equipamentos de fabricação de chips triplicaram para US$ 39 bilhões, cerca de 40% da demanda global. Grande parte dessa fatia é destinada para produção de chips mais antigos, mas uma fração está sendo usada para fabricação avançada.
Ao mesmo tempo, empresas locais como Naura e AMEC agora oferecem alternativas competitivas para ferramentas em etapas críticas como deposição química, corrosão e limpeza de wafers. A China está até avançando em HBMs. A empresa de pesquisa SemiAnalysis espera que a participação da CXMT na produção global de HBM suba de quase nada hoje para cerca de 12% até 2028.
Ainda assim, apesar de todo o progresso, o impulso de autossuficiência da China esbarra em um muro com a litografia EUV, essencial para imprimir circuitos minúsculos. Apesar de anos de acesso às máquinas de ultravioleta profundo (DUV) mais antigas da ASML, a China ainda não produziu um equivalente doméstico.
A maioria das estimativas da indústria coloca um EUV fabricado na China a cerca de uma década de distância, embora o departamento de comércio dos EUA acredite que o país pode ter obtido uma máquina ilicitamente.
Sem essas impressoras avançadas, os fabricantes de chips chineses estão buscando soluções alternativas para extrair mais desempenho das máquinas DUV. Uma opção é o "multi-patterning", que expõe repetidamente um único wafer de silício a múltiplas passagens de uma ferramenta de litografia. Isso grava características menores, mas eleva custos, desacelera a produção e aumenta a chance de defeitos.
Outra é o empacotamento avançado, que conecta múltiplos chips feitos com tecnologia mais antiga em um único sistema. O anúncio da Huawei antes da Computex sinalizou que a empresa estava buscando se aproximar do desempenho de ponta usando ferramentas DUV mais antigas.
Embora a China ainda esteja a alguma distância da fronteira tecnológica da fabricação de chips, seu progresso não deve ser ignorado. Basta olhar para a Apple: em meio a uma piora na escassez de chips de memória, a dona do iPhone está buscando permissão do governo americano para comprar memória de geração anterior da CXMT.
Se obtiver aprovação, uma empresa americana estará ajudando a financiar justamente a indústria que seu governo passou anos tentando conter.


THE ECONOMIST

domingo, 12 de abril de 2026

O petróleo, produtor de riquezas e das maldições da corrução e das guerras - The Economist, introdução e resenhas de Paulo Roberto de Almeida

O petróleo, produtor de riquezas e das maldições da corrução e das guerras

The Economist, introdução de Paulo Roberto de Almeida

Contrastes entre o “excesso” de riqueza em algumas partes do mundo e a resiliência da miséria e da pobreza em muitas outras partes do nosso planetinha redondo. A discussão da Economist se refere ao caso da Noruega, um país que saiu de uma pobreza “normal” no século XIX, para uma afluência invejável já em meados do século XX, e que depois “mergulhou” numa riqueza extraordinária, graças a uma “dádiva da natureza”, o petróleo, fonte de muita riqueza, mas também de corrupção, exageros geopolíticos e de várias guerras no Oriente Médio, a fonte por excelência do petróleo dos nosso tempo. Vai demorar ainda muito tempo para que esse nauseabundo e precioso produto deixe de produzir riqueza e de atrair a ambição dos poderosos, como sempre foi o caso do ouro no mundo.

Já escrevi um pouco sobre essas questões— e remeto aqui a minhas resenhas dos livros de Daniel Yergin, mas reproduzo abaixo a matéria da Economist sobre a Noruega. PRA

THE ECONOMIST

05 abril 26

É possível um país ficar rico demais?

A Noruega mostra os potenciais perigos de uma prosperidade incomum

A homenagem da Noruega a Edvard Munch, o pintor mais famoso da Escandinávia, é uma impressionante estrutura de 13 andares feita de alumínio e vidro reciclados, construída na orla do porto de Oslo. Concluída em 2021, ao custo de US$ 350 milhões, sua obra foi ainda mais impressionantemente atrasada (em uma década) e com um estouro de orçamento (de US$ 200 milhões). Erguendo-se acima da densa névoa que cobre o mar em uma tardede inverno, o museu encapsula o país que o financiou: sofisticado e tão rico que dinheiro não é problema.

O petróleo norueguês construiu uma economia que é a inveja de outros países ricos, para não mencionar os pobres. O PIB per capita é de impressionantes US$ 90 mil, ficando atrás apenas de cidades-Estado, paraísos fiscais e da Suíça. 

Desde 1991, o governo acumulou um fundo soberano no valor de US$

2,2 trilhões, ou US$ 400 mil para cada um dos 5,6 milhões de habitantes da Noruega. Os rendimentos sustentam um dos estados de bem-estar social mais generosos do mundo.

No entanto, nem todos os noruegueses estão satisfeitos com isso. Em 2025, o livro de não ficção mais vendido no país foi "O País que Ficou Rico Demais", uma crítica ao modelo econômico escrita por Martin Bech Holte, economista e ex-consultor da McKinsey.

 Bech Holte captou um sentimento emergente. Nas eleições de setembro passado, o partido Progresso, de centro-direita, que argumentou que a Noruega “joga mais dinheiro nos problemas” e precisa parar, foi o partido que mais ganhou terreno. A preocupação é que a riqueza da Noruega esteja distorcendo o comportamento de todos, desde políticos a trabalhadores de escritório e estudantes. Confiantes em receber generosos auxílios, poucos se preocupam o suficiente com o futuro. Será que a riqueza de um país pode comprometer suas perspectivas?

Com os lucros inesperados do petróleo e os retornos dos investimentos, que dobraram o tamanho do fundo soberano na última década, os políticos noruegueses tornaram-se perdulários, acredita Bech Holte. Embora o fundo invista apenas no exterior, para evitar prejudicar o setor privado nacional, ele canaliza dinheiro de volta para o governo, que o utiliza para cobrir a diferença entre gastos e impostos. Em 2008, esse pagamento foi de modestos 36 bilhões de coroas norueguesas (US$ 6,4 bilhões na época), ou menos de 5% das despesas. Em 2025, 414 bilhões de coroas norueguesas (US$ 40 bilhões), um quinto dos gastos, vieram do fundo petrolífero.

Isso está tendo consequências perversas. Os políticos podem adiar decisões difíceis. Os eleitores veem poucos motivos para moderar as demandas por mais gastos. Considere a saúde, a maior despesa do governo. Em média, os serviços médicos custam 30% a mais na Noruega do que na União Europeia.

Mas por que reformar hospitais quando se pode simplesmente investir mais dinheiro no problema? A Dinamarca, que gasta quase o mesmo por pessoa que a Noruega, reduziu o tempo de espera para cirurgias de rotina duas vezes mais rápido que seu vizinho do norte.

Poucos parlamentares se preocupam em avaliar os benefícios e custos econômicos de suas propostas, lamenta um deles. Essa é uma fraqueza em outros lugares, mas a Noruega parece especialmente propensa a ela. Assim como no caso do Museu Munch, as reformas do prédio do parlamento em Oslo levaram quatro anos, em vez de um, e custaram seis vezes mais do que o previsto. 

Em 2023, o governo destinou 250 bilhões de coroas norueguesas

(US$ 25,25 bilhões), metade da arrecadação de impostos sobre o trabalho e o capital, para ajuda externa e para instituições de caridade nacionais. Esse é um preço alto a se pagar para conquistar boa vontade no exterior e aliviar a culpa climática interna. No Reino Unido, esse valor é inferior a 10% dos impostos sobre o trabalho e o capital.

Os cidadãos noruegueses não são menos perdulários que seus representantes. A dívida média das famílias é de 250% da renda anual, a mais alta da Europa. Quando se pode contar com a riqueza nacional para socorrer, a necessidade de poupar para tempos difíceis parece menos urgente. 

Assim como a necessidade de gerar renda. 

Quase um em cada dez noruegueses na faixa dos 20 anos está desempregado, 

em comparação com um em cada 20 dinamarqueses. A taxa de evasão escolar no ensino médio e na universidade na Noruega está entre as mais altas da Europa. O sistema de ensino superior oferece quantos diplomas o estudante desejar, gratuitamente, além de generosos empréstimos estudantis. Isso incentiva as pessoas a adiarem seus cursos, mudarem de área e prolongarem seus estudos.

Consequentemente, a população é altamente qualificada: mais de 70% dos trabalhadores não qualificados do setor de serviços (como baristas e atendentes de call center) nascidos na Noruega possuem mestrado. Pessoas de origem imigrante ocupam 100 mil vagas de pesquisa em ciência, tecnologia e engenharia, metade do total. Outras 100 mil vagas precisarão ser preenchidas até 2030.

Esse hedonismo financeiro já está prejudicando a economia. O Banco Central reluta em aumentar as taxas de juros diante do alto endividamento das famílias, o que enfraqueceu a coroa norueguesa e afastou investidores estrangeiros. A produtividade dos trabalhadores parou de crescer. Os salários reais estão começando a cair.

Poderíamos argumentar que nada disso importa, desde que o país consiga prover para a população atual e as gerações futuras. O PIB importa, politicamente falando, porque é uma forma de garantir o bem-estar dos cidadãos: diretamente, por meio do trabalho remunerado, e indiretamente, por meio de auxílios financiados por impostos. Em teoria, esse bem-estar pode ser financiado com rendas, e não com produção. Enquanto a riqueza nacional crescer mais rápido do que os gastos do governo, isso pode continuar indefinidamente.

Esse tem sido o caso na Noruega. Embora o Tesouro tenha extraído dez vezes mais dinheiro de sua principal fonte de renda em 2025 do que em 2008, essa parcela representava uma parcela menor da avaliação total do fundo. Enquanto os retornos anuais (ajustados pela inflação) ultrapassarem 6%, o governo poderá reduzir a arrecadação de impostos e aumentar os gastos no ritmo atual, mesmo depois que seus poços de petróleo se esgotarem, o que poderá acontecer em 50 anos.

Doença norueguesa

Essa visão é complacente por dois motivos. Primeiro, na prática, a menos que a inteligência artificial impulsione drasticamente a produtividade global, retornos de 6% podem se mostrar inatingíveis.

 Segundo, e mais importante, uma economia próspera beneficia as sociedades  de maneiras que vão além da subsistência. Os políticos são mais responsabilizados se tiverem de pedir dinheiro aos eleitores por meio de impostos. Investidores estrangeiros trazem novos conhecimentos.

 Muitas pessoas encontram satisfação no trabalho. Tudo isso contribui para o florescimento humano. Ninguém deveria invejar a riqueza da Noruega - exceto, se forem sábios, os próprios noruegueses.”

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PRA: Essa matéria me faz lembrar o livro do historiador inglês Simon Schama sobre a riqueza extraordinária dos Paises Baixos no século XVII, The Embarassment of Riches (O Desconforto da Riqueza). Os neerlandeses se tornaram tão ricos que começaram a ter gastos perdulários e até a especular nos mercados de futuros (que eles inventaram), investindo em tulipas, sim, nessas simpáticas flores importadas originalmente de fora, e que se tornaram símbolos de riqueza, junto com obras de arte, quadros pessoais retratando os ricaços. A especulação sobre as tulipas causou uma febre geral e uma imensa bolha financeira que redundou na primeira crise financeira da história do capitalismo moderno, como estudado pelo historiador americano Charles Kindleberger em Panics, Manias and Crashes (várias edições). Fiz um artigo sobre isso, trazendo a história para os casos de crises no Brasil. Está em um dos meus livros

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12/04/2026

Nota sobre minhas resenhas: 


Nota sobre minhas resenhas:

219. “O ‘Prêmio’ é o Petróleo”, Montevidéu, 24 novembro 1991, 11 p. “Review-article” sobre o livro de Daniel Yergin: The Prize: The epic quest for Oil, Money and Power (Nova York: Simon and Schuster, 1991, 877 + xxxiii p.) e referência a artigo de Edward L. Morse, “The Coming Oil Revolution”, Foreign Affairs (Winter 1990/1991). Publicado, sob o título “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo” no Caderno Internacional do Correio Braziliense (Brasília: 3 agosto 1992, p. 6). Relação de Publicados n. 092.

337. “Odor de Petróleo”, Brasília: 25 abril 1993, 8 p. Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932 p.), com base em resenha anterior feita a partir da versão original do livro. Publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, n. 1, 1993, p. 158-163). Relação de Publicados n. 138.

Ambas resenhas consolidadas nesta postagem do Diplomatizzando:

domingo, 9 de janeiro de 2011
Odor de petroleo: sempre malcheiroso, e tendente a corrupcao
Percorrendo uma livraria recentemente, o que faço de modo muito frequente, como já é do conhecimento de quem frequenta este blog, deparei com um livro que eu já tinha lido, e que tenho, em sua primeira edição original:

Daniel Yergin"
The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power
(New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)

As resenhas que fiz, na ocasião, da edição americana e sua tradução brasileira, vão aqui referidas a partir da minha lista de publicados:

092. “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo”, Correio Braziliense (Brasília: 3 de agosto de 1992, p. 6, Caderno Internacional) [Resenha crítica do livro de Daniel Yergin, The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power (New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)]. Relação de Trabalhos nº 219.

138. “[Odor de Petróleo]”, Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, nº 1, 1993, pp. 158-163) [Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932pp.)]. Relação de Trabalhos nº 337.

Trata-se, provavelmente, da melhor história do petróleo disponível no mercado, embora existam muitos outros livros mais.
Aliás, comprei na minha última passagem pelos Emirados, mais exatamente em Dubai, este livro que também recomendo:

Peter Maass:
Crude World: The Violent Twilight of Oil
(dispenso-me de dar os dados editoriais completos, pois este livro acaba de me ser roubado, quando eu já estava em seu final, o que me impede, temporariamente, de fazer notas e comentários mais elaborados. Voltarei a ele, oportunamente.)

Bem, voltando a livro de Yergin, a edição brasileira, uma nova, é esta aqui:

Daniel Yergin:
O Petróleo: Uma história de conquistas, poder e dinheiro
tradução de Leila Marina U. Di Natale, Maria Cristina Guimarães, Maria Christina L. de Góes; edição Max Altmann
(São Paulo: Paz e Terra, 2010, 1080 p.; copyright Daniel Yergin, 1991, 1992, 2009; ISBN: 978-85-7753-129-5)

Clique em: https://diplomatizzando.blogspot.com/2011/01/odor-de-petroleo-sempre-malcheiroso-e.html

Material completo consolidado nesta postagem de Academia.edu:
https://www.academia.edu/165638797/5277_O_petroleo_produtor_de_riquezas_e_das_maldicoes_da_corrupcao_e_das_guerras_2026_

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