Mostrando postagens com marcador O Estado de S. Paulo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O Estado de S. Paulo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de março de 2026

Opinião: Por uma política de Estado para investimentos - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Por uma política de Estado para investimentos
A ausência de uma política industrial e tecnológica de médio e longo prazos, resultado da falta de planejamento e previsibilidade, explica o enfraquecimento da indústria nacional
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 10/03/2026

Além das dificuldades do governo de implementar políticas macroeconômicas, em especial, para diminuir o risco de uma crise fiscal e reduzir a taxa de juros, a falta de uma política de Estado para os investimentos no Brasil está gerando problemas em setores críticos nas áreas de defesa, infraestrutura, comunicações, tecnologia e inteligência artificial, entre muitos outros.
A ausência de uma política industrial e tecnológica de médio e longo prazos, resultado da falta de planejamento e previsibilidade, explica o enfraquecimento da indústria nacional. Sem diretrizes claras, o custo Brasil impede o investimento em inovação tecnológica, capacitação de mão de obra e expansão produtiva, comprometendo a competitividade e a sustentabilidade no longo prazo.
Na área ferroviária, a indústria nacional perdeu recentemente todas as concorrências públicas e aquisições: de 24 trens de passageiros para Belo Horizonte fabricados na China (Consórcio Comporte CRRC); de 44 trens para o Metrô de São Paulo; 62 carros de passageiros para a Vale (2024); e 2 locomotivas (China); além dos 22 trens da Concessionária Trem Intercidades (TIC) São Paulo-Campinas, que inclui a operação da Linha 7-Rubi.
Essa perda existe pela falta de isonomia tributária, fazendo com que a indústria nacional perca contratos relevantes para concorrentes estrangeiros em razão do desequilíbrio tributário imposto pelos processos licitatórios públicos; pelo pregão eletrônico reverso, que, utilizado em licitações de grande porte, permite práticas predatórias. Empresas estrangeiras, especialmente chinesas, contam com apoio estatal que lhes possibilita ofertar preços abaixo do custo, inviáveis para a indústria nacional – por ex-tarifários indevidos, obtidos por empresas utilizando narrativas das condições de prazo e preço para benefícios que não deveriam ser concedidos, distorcendo a concorrência e prejudicando o setor brasileiro.
Na prática, empresas estrangeiras operam com respaldo de governos que subsidiam perdas, prática que inviabiliza a sobrevivência da indústria nacional. Com isso, milhares de empregos e renda deixaram de beneficiar a população brasileira, além dos prejuízos de arrecadação para os cofres públicos. A produção de 128 trens pela indústria nacional poderia ter gerado mais de 22 mil empregos diretos e indiretos no Brasil (sendo cerca de 20 mil no Estado de São Paulo), além de representar um aumento estimado de R$ 2,5 bilhões na massa salarial do País.
Na linha da falta de políticas na área de infraestrutura, 50% do volume de produtos agrícolas exportados pelo Brasil é embarcado pelos portos do Arco Norte Miritituba, Barcarena e Santarém. Todos os portos estão enfrentando gargalos cada ano mais sérios, pelo aumento da produção exportável, em razão dos problemas de melhoria e conservação das estradas que levam até os terminais. A ausência de uma política nacional de hidrovias fica evidente com as marchas e contramarchas nas concessões de hidrovias no Arco Norte, o que pode dificultar ainda mais o escoamento da produção agrícola. Essa situação se repete também no sul, como no Porto de Santos, agravada agora com a possibilidade de proibição da participação de armadores nacionais no principal leilão portuário da história recente, o do terminal de contêineres de Santos. A deficiência na infraestrutura se manifesta também na falta de armazenagem para acolher as crescentes safras e evitar perdas.
A ausência de políticas de Estado para investimentos pode também ser detectada, entre outros setores vulneráveis, na exploração de minérios críticos, na área de defesa, no setor elétrico, na infraestrutura digital e na construção de data centers, com a incerteza de aprovação da Redata, que previa incentivos para sua instalação.
Complementando esse quadro, com um comércio exterior que ultrapassa US$ 0,5 trilhão, chegou a hora de pensar na criação de um Eximbank brasileiro, para o apoio de financiamento das exportações industriais.
A ausência de uma política clara nessas áreas ficará ainda mais evidente com a entrada em vigência do Acordo Mercosul-União Europeia. A baixa competitividade da indústria brasileira, resultado de prioridades equivocadas e de ausência de vontade política para reduzir o custo Brasil, tornará difícil o acesso de produtos nacionais ao mercado europeu, mesmo com tarifa zero, para competir com companhias coreanas, chinesas, japonesas e mesmo europeias.
As oportunidades que o acordo com a União Europeia oferecerá para atrair investimentos em áreas de interesse brasileiro exigirão uma nova política para dar isonomia às empresas nacionais. Para permitir igualdade de condições, a empresa estrangeira que queira se estabelecer no Brasil deveria negociar com empresas nacionais joint ventures e associações, cumprindo, desde o início, as regras de conteúdo nacional estabelecidas pelo governo e pelo BNDES. Além de uma clara política de investimentos e de incremento na competitividade, para evitar o que ocorreu com a imposição e o recuo nos impostos de importação no setor eletro-eletrônico, em casos específicos e bem definidos as medidas de salvaguardas e de antidumping deveriam ser aplicadas em setores estratégicos para o País, com critérios objetivos e sem influência política.

PRESIDENTE DO GRUPO INTERESSE NACIONAL, É MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/por-uma-politica-de-estado-para-investimentos/

segunda-feira, 9 de março de 2026

Após boa virada de ano, é hora da diplomacia - Rolf Kuntz (O Estado de S. Paulo)

 Opinião

Após boa virada de ano, é hora da diplomacia
Depois das notícias positivas na economia que marcaram a passagem de 2025 para 2026, é essencial cuidar da incerteza externa
Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo, 08/03/2026
https://www.estadao.com.br/opiniao/rolf-kuntz/apos-boa-virada-de-ano-e-hora-da-diplomacia/

Emprego e renda bateram recordes na virada do ano, segundo balanço divulgado na quinta-feira, mas o principal destaque, nos grandes órgãos de comunicação, foi o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Acusado de golpes financeiros, ele foi trancado numa cadeia no interior de São Paulo. Grandes títulos foram dedicados também à tentativa de suicídio, em Belo Horizonte, de seu cúmplice Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário.
O destaque a figurões do crime é tão justificável quanto útil, mas o prosaico noticiário econômico também pode merecer alguma atenção, especialmente num país ainda em busca do desenvolvimento.
Notícias positivas marcaram a passagem de 2025 para 2026. O rendimento real dos trabalhadores cresceu, o desemprego diminuiu e a ocupação aumentou, num cenário prejudicado por uma inflação distante do centro da meta, fixado em 3% para períodos de 12 meses.
A massa de rendimento habitual dos trabalhadores, de R$ 370,3 bilhões, foi recorde da série histórica. A população ocupada – 102,7 milhões de pessoas – foi recorde. Além disso, os 5,9 milhões de pessoas desocupadas no trimestre encerrado em janeiro formaram o menor contingente da mesma série. Esse grupo correspondeu a 5,4% da população economicamente ativa.
Os dados de emprego e de rendimento valorizam o crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Essa taxa pode ser – ou parecer – modesta para uma grande economia ainda classificada como emergente. Mas indica, juntamente com o avanço do emprego, certa melhora das condições experimentadas por dezenas de milhões de pessoas. Essas condições permanecem modestas, num país onde a formação da mão de obra é deficiente e a renda continua muito concentrada.
Mas há sinais de progresso, como a expansão do consumo nos últimos anos, a formação melhor e mais ampla da mão de obra e sensível diminuição da pobreza extrema. Entre 2021 e 2024, a parcela das famílias com renda domiciliar inferior a US$ 6,85 por pessoa diminuiu de 36,8% para 23,1%. Aquelas com renda pessoal menor que US$ 2,15 passaram de 9% para 3,5% nesse período. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A melhora na virada do ano de nenhum modo garante um avanço duradouro ao longo de 12 meses. Esse avanço depende tanto da expansão econômica e da evolução do emprego quanto da variação dos preços, isto é, do quadro de inflação. Por enquanto, algumas projeções apontam perspectivas favoráveis. Segundo as estimativas coletadas para o boletim Focus, elaborado semanalmente pelo Banco Central, a inflação deve recuar para 3,91% em 2026. Será um ganho para os consumidores e para a ordenação da economia, mas esse resultado ainda ficará bem acima da meta oficial.
Além da inflação em queda, o boletim aponta um dólar cotado a R$ 5,40 no fim do ano. Qualquer projeção referente ao câmbio é muito arriscada, num período de muita instabilidade na política internacional. Mas a expectativa de um dólar mais contido combina bem com um quadro de inflação declinante. Esse quadro comporta alguma redução dos juros. A taxa básica deve cair, segundo a mediana projetada no boletim, para 12%. Se essa estimativa estiver correta, o crédito ainda será muito caro, mas, ainda assim, a redução poderá produzir resultados apreciáveis.
A melhora nos juros, no crédito e na disposição dos empresários dependerá em grande parte da condução da política econômica pelo governo. Os dirigentes do Banco Central (BC) têm mostrado boa vontade e disposição de cooperar com o Executivo, mas também têm reafirmado o compromisso de manter prudência nas decisões sobre sua política. Parece muito improvável, neste momento, um afrouxamento monetário significativo sem uma clara demonstração de prudência pelo presidente da República. E Luiz Inácio Lula da Silva continua devendo essa demonstração, embora tenha apresentado, em algumas ocasiões, um discurso promissor.
Do lado externo, as contas do Brasil continuam satisfatórias. Mas o quadro internacional é marcado por graves conflitos e por muita insegurança. A guerra no Oriente Médio já evidenciou perigos para o comércio global e para o fluxo de matérias-primas importantes, por exemplo, para a agricultura brasileira. A diplomacia de Brasília tem preservado a tradição de equilíbrio e de conciliação, mas desafios significativos podem surgir a qualquer momento.
O governo do presidente Lula tem mantido bom entendimento com as autoridades americanas e de outras áreas importantes, como a Europa Ocidental, a Rússia e a China. Mantido o cenário global, o trabalho diplomático de Brasília será tão relevante, no curto e no médio prazos, quanto o dos ministérios econômicos. Embora permaneça a boa relação com os Estados Unidos e, de modo especial, entre os chefes de governo dos dois países, um surto belicoso do presidente Donald Trump poderá complicar todo o cenário. O ataque americano ao Irã, nos últimos dias, mostra a importância de levar em conta essa hipótese.
Opinião por Rolf Kuntz

sábado, 7 de março de 2026

Reflexões de Thomas Friedman sobre a destruição do Irã (O Estado de S. Paulo)

 A ponderacão de Thomas Friedman no New York Times, traduzida no Estadão de hoje, merece ser lida, mesmo que não se concorde necessariamente com seus comentários.

Wylmar Buzzatto

••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••


A guerra em quatro pensamentos

Thomas Friedman

O Estado de S. Paulo, 03 de mar. de 2026

Queda do regime melhoraria o Oriente Médio, mas não será fácil derrubá-lo.

Para pensar com clareza sobre guerras no Oriente Médio, é preciso raciocinar com vários cenários em mente. Falamos de uma região complexa e caleidoscópica, onde religião, petróleo, políticas tribais e políticas de grandes potências se entrelaçam. Se você busca uma narrativa maniqueísta, talvez seja melhor consultar outras fontes. Eis meus quatro pensamentos sobre Irã – ao menos até hoje.

1. Primeiro, espero que esse esforço para derrubar o regime clerical de Teerã seja bem-sucedido. Trata-se de um regime que assassina seu povo, desestabiliza vizinhos e destruiu uma grande civilização. Nenhum evento isolado contribuiria mais para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança com foco exclusivo em capacitar o povo iraniano para realizar seu pleno potencial, com uma voz real, em seu próprio futuro.

2. Segundo, isso não será fácil, porque o regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado por meio apenas de uma ofensiva aérea. Israel não conseguiu eliminar o Hamas em Gaza após mais de dois anos de uma guerra implacável por terra e ar – eo Hamas está bem ao lado. Dito isto, mesmo que não ocasione a revolta do povo iraniano que o presidente Trump tanto incentiva, este ataque contra o Irã poderá surtir outros efeitos benéficos e imprevistos, como a criação de uma república islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e seus vizinhos. Mas também pode resultar em perigos imprevistos, como a desintegração do Irã enquanto ente geográfico único.

3. Em terceiro lugar, devemos lembrar que o momento do fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e financeiros quanto pela situação militar interna do Irã. O Irã está à beira do colapso econômico, com uma moeda que não vale quase nada. A Europa tornouse muito mais dependente do gás natural liquefeito do Golfo Pérsico para sustentar suas economias, desde que reduziu as compras da Rússia. Uma onda inflacionária prolongada, causada pelo aumento dos preços da energia, irritaria a base de Trump, onde muitos já não gostam de ser arrastados para mais uma guerra no Oriente Médio. Há muita gente desejando que esta guerra seja curta, e isso influenciará como e quando Trump e Teerã negociarão.

4. Em quarto lugar, não devemos permitir que esta guerra – para levar democracia e estado de direito ao Irã – nos distraia da ameaça à democracia e ao estado de direito representada por Trump nos EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em Israel. Trump quer promover esses ideais em Teerã mesmo enquanto seus agentes do ICE atuaram por dois meses com pouco respeito às leis em meu estado natal, Minnesota, e enquanto ele cogita restringir eleitores em nossa próxima eleição. A guerra no Irã permitir que Netanyahu vença as eleições israelenses planejadas para este ano será um grande impulso para seus esforços de anexar a Cisjordânia, enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um Estado de apartheid – um grande golpe para os interesses americanos na região além do Irã.

A vida de colunista seria fácil se todo conflito fosse a Guerra Civil Americana e todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então analisemos um pouco mais a fundo essas quatro reflexões sobre o Irã.

Embora você jamais soubesse se desse ouvidos à esquerda universitária, a república islâmica do Irã é a maior potência imperialista da região desde 1979, cultivando aliados para controlar Síria, Líbano, Iraque e Iêmen – minando reformistas progressistas e promovendo divisões sectárias nos quatro.

O enfraquecimento de Teerã, graças aos golpes contundentes de Israel e EUA nos dois anos recentes, levou à queda do regime de Bashar Assad na Síria e permitiu ao Líbano escapar do domínio do Hezbollah, o que, por sua vez, abriu espaço para o governo mais decente do país em décadas – liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph Aoun. É por isso que a morte do aiatolá Ali Khamenei está sendo celebrada, discretamente ou ruidosamente, em toda a região.

Além disso, o povo iraniano está entre os mais pró-Ocidente da região. Se esse impulso for capaz de emergir e se espalhar, substituindo o veneno sectário e radical islâmico propagado pelo regime iraniano, haverá possibilidade de um Oriente Médio muito mais inclusivo.

INDIGNAÇÃO. Como me disse o estrategista Nadim Koteich, não é por acaso que um dos cânticos mais populares dos manifestantes antirregime no Irã seja: “Nada de Gaza, nada de Líbano. Minha vida pelo Irã”. Muitos iranianos estão revoltados ao ver seus recursos desperdiçados em milícias que lutam contra Israel. Também não é por acaso, observou Koteich, que o Irã acaba de lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados árabes do Golfo em processo de modernização.

“Eles estão atacando a infraestrutura de abertura e integração e os Acordos de Abraão. O velho Oriente Médio atacando o novo Oriente Médio”, acrescentou Koteich. A morte de Khamenei,

tomara, “representa a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio deveria se definir pela resistência e não por inclusão e integração”.

Tomara também que isso acabe com o jogo duplo praticado por Khamenei e seus antecessores, como Mahmoud Ahmadinejad – que foi presidente do Irã de 2005 a 2013 e também foi morto em um ataque aéreo israeloamericano – de que o Irã tem o direito de gritar abertamente “Morte aos EUA” e “Morte a Israel” e, ao mesmo tempo, alegar que também tem o direito de ser tratado como a Dinamarca, ou enriquecer urânio para fins “pacíficos”.

Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse jogo.

Quanto à união do povo iraniano para derrubar o regime, é difícil imaginar que isso aconteça em breve sem um líder claro e uma agenda comum.

TEOCRACIA 2.0. Analistas iranianos dizem que o resultado mais provável é uma espécie de república islâmica 2.0, na qual os principais reformistas – como Hassan Rohani, o sétimo presidente do Irã, de 2013 a 2021, um crítico cada vez mais ferrenho da linha-dura de Khamenei, ou o ex-chanceler e negociador nuclear Javad Zarif – pressionem a liderança remanescente a negociar um acordo com Trump. Esse pacto poderia incluir o fim do programa nuclear iraniano e limites às suas guerras por procuração e mísseis balísticos – em outras palavras, tudo o que Trump quiser – em troca do fim das sanções econômicas e da sobrevivência do regime.

Essa república islâmica 2.0 poderia então ser capaz de organizar uma transição para uma democracia verdadeira. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de dar uma tábua de salvação a um regime moribundo que recentemente matou pelo menos 6,8 mil manifestantes, segundo a agência de notícias Human Rights Activists, sediada nos EUA, provavelmente muito mais. Em outras palavras, iniciar esta guerr foi relativamente fácil; encerrá-la será difícil.

NEGOCIAÇÃO. Mas um acordo desse tipo pode ser tentador para Trump, por evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada pela disparada dos preços do petróleo ou a desintegração do Irã. Por isso, não me surpreendeu ouvir Trump dizer à revista The Atlantic: “Eles querem conversar, e eu concordei, então vou conversar com eles”.

Como já observei nesta coluna, no Oriente Médio, o oposto de autocracia não é necessariamente democracia. Com frequência é desordem. Porque quando ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece: ou elas implodem, como a Líbia, ou explodem, como a Síria.

Os persas representam apenas cerca de 60% da população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente azerbaijanos, curdos, luros, árabes e balúchis. Cada uma delas tem ligações com terras fora do Irã, especialmente os azerbaijanos com o Azerbaijão e os curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um a se separar e, na prática, explodir o Irã.

DESMEMBRAMENTO. O Irã testemunhou o colapso de governos e quedas de governantes ao longo de sua história. Em todas as ocasiões, “o país permaneceu intacto”, disse Koteich. “Pela primeira vez, não tenho certeza se o Irã permanecerá intacto.”

Se você quer o barril do petróleo a US$ 150, esse tipo de desintegração ocasionaria isso. As exportações de petróleo do Irã – de 1,6 milhão de barris diários, destinados principalmente à China – seriam completamente retiradas do mercado global. Cerca de 20% de todo o comércio de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, que o Irã tem capacidade de fechar. Os preços dos seguros para navios petroleiros já estão disparando, e cerca de 150 petroleiros no Golfo Pérsico estariam parados.

Enquanto isso, em Pequim, o presidente Xi Jinping deve estar se perguntando como seus sistemas de armas se comparariam aos fornecidos pelos EUA a Taiwan, depois de ver caças e mísseis inteligentes de fabricação americana burlar facilmente ou destruir os sistemas antiaéreos iranianos, de origem russa, e matar grande parte da elite de segurança nacional do Irã dentro de suas casas e escritórios. Talvez não seja esta a semana para invadir Taiwan – nem a próxima.

Mas esta pode ser uma boa semana para Pequim ver todo o povo iraniano dançando espontaneamente nas ruas para celebrar a morte de Khamenei e se perguntar se a República Popular da China deveria ter sustentado seu regime com compras de petróleo durante todos esses anos. Talvez devesse ter estado do lado do povo iraniano.

URNAS. É muito cedo para prever como esta guerra influenciará duas eleições cruciais este ano – em Israel e nos EUA. Para Trump, a coisa é simples. Ele não quer ver seu nome associado com a palavra “atoleiro” em nenhuma manchete antes das eleições de meio de mandato, em novembro. Quanto a Netanyahu, posso imaginá-lo convocando eleições antecipadas para usar a queda do regime iraniano para se manter no poder. Mas uma vitória sobre o Irã também poderia complicar sua política.

Netanyahu derrotou militarmente a curto prazo o Hamas, a Jihad Islâmica, o Hezbollah e o Irã, mas não transformou nenhuma dessas vitórias em ganhos diplomáticos ou políticos de longo prazo. Para isso, ele precisaria concordar em negociar novamente com os palestinos com base na estrutura de dois Estados para dois povos.

A oportunidade para Israel pode ser enorme: se a república islâmica do Irã for derrubada ou enfraquecida, não tenho dúvidas de que Arábia Saudita, Líbano, Síria, Omã, Catar, Kuwait e talvez até o Iraque se sentiriam muito mais confortáveis em normalizar as relações com Israel – sob a condição de que Netanyahu não anexe Gaza nem a Cisjordânia, mas concorde com um plano de separação e uma solução de dois Estados. Netanyahu aproveitará essa oportunidade? Os eleitores israelenses o puniriam se ele não o fizer?

Mas estou me adiantando. Imagino que até amanhã haverá pelo menos mais três pontos em competição na minha cabeça tentando dar sentido a isso tudo, porque este é o momento mais imprevisível no Oriente Médio desde a revolução iraniana de 1979. Tudo – e o contrário disso – é possível. •

sábado, 17 de janeiro de 2026

A alardeada política externa altiva de Lula negou fogo justo quando era mais necessária - Rogério Werneck (O Estado de S. Paulo)

Opinião
A alardeada política externa altiva de Lula negou fogo justo quando era mais necessária
A posição difícil em que se meteu o governo Lula decorreu de longa sucessão de erros do passado, que o deixou implicado até o pescoço na sobrevida de Maduro como presidente da Venezuela
Por Rogério Werneck
O Estado de S. Paulo, 15/01/2026 | 22h00
https://www.estadao.com.br/economia/rogerio-werneck/a-alardeada-politica-externa-altiva-de-lula-negou-fogo-justo-quando-era-mais-necessaria/

A intervenção militar do governo Donald Trump na Venezuela, seguida de ameaças à Colômbia, justo no início do ano eleitoral, trouxe enorme desconforto ao presidente Lula. Tudo indica que não se trata de um desgaste pontual. Muito pelo contrário, é bem provável que notícias da Venezuela continuem a assombrar o presidente a cada dia da longa campanha de reeleição que tem pela frente.
O mais grave do episódio é ter marcado extemporânea volta à América do Sul da gunboat diplomacy dos Estado Unidos, um termo cuja tradução modernizada deveria passar a ser diplomacia de porta-aviões.

Para o Brasil, que jamais escondeu suas pretensões de proeminência na região, o episódio se revestiu de gravidade redobrada. Em condições normais, o que se deveria esperar era a liderança brasileira em protestos veementes dos países da região à volta da diplomacia de porta-aviões à América do Sul.
Não foi o que se viu. Ao final de longa reunião de emergência da cúpula do governo, descrita por um participante como um “desfile de dúvidas”, a montanha pariu um rato: uma nota frouxa e tímida em que o Planalto nem mesmo se arriscou a mencionar os nomes de Trump e Nicolás Maduro.

O próprio governo deixou claro que se metera numa saia justa. E que o oportunismo prevalecera: a esta altura, não estava disposto a botar a perder a suposta “boa química” que o presidente Lula conseguira desenvolver com o presidente Trump, da qual pretendia fazer bom uso na campanha da reeleição.
Na verdade, a posição difícil em que se meteu o governo Lula decorreu de longa sucessão de erros cometidos no passado, que o deixou implicado até o pescoço na sobrevida de Maduro como presidente da Venezuela.
Ao final de muitos anos de absurda contemporização com toda sorte de abusos dos governos chavistas, o Brasil simplesmente perdeu o respeito de outros países sul-americanos quanto à questão venezuelana.
Basta lembrar as espinafrações, à direita e à esquerda, que Lula teve de ouvir dos presidentes Lacalle Pou, do Uruguai, e Gabriel Boric, do Chile, no final de maio de 2023, quando se permitiu declarar, em uma reunião de países da região, em Brasília, que a questão dos direitos humanos na Venezuela não passava de uma “construção narrativa”.
Justo agora, quando sua alardeada política externa altiva se tornou mais necessária, Lula, entalado com está, se vê sem condições de desempenhar o papel que a gravidade do momento exige. Chegou a conta da forma irresponsável com que, por anos, o Planalto se dispôs a respaldar os desmandos do chavismo.

Opinião por Rogério Werneck
Economista, doutor pela Universidade Harvard, é professor titular do departamento de Economia da PUC-Rio

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A estratégia dos EUA e a Doutrina Monroe - Rubens Barbosa O Estado de S. Paulo

 Opinião

A estratégia dos EUA e a Doutrina Monroe
A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 09/12/2025

O governo Trump divulgou, na semana passada, sua Estratégia de Segurança Nacional, em que define a visão de médio e longo prazo dos EUA, as prioridades internas e externas e o relacionamento de Washington com as regiões globais. O pragmatismo e o realismo da política externa dos EUA têm como único objetivo, como ressaltado no documento, proteger os interesses nacionais fundamentais e colocar os EUA em primeiro lugar.
Embora assinalando que “dar atenção constante à periferia é um erro”, a estratégia norte-americana, quando discute o que os EUA querem do mundo e o que esperam receber do mundo, coloca, pela primeira vez, seus interesses no Hemisfério Ocidental antes da China, da Europa, do Oriente Médio e da África e marca uma ruptura histórica com a ordem mundial depois de 1945.
Dada a relevância para o Brasil, o presente artigo trata apenas dos trechos do documento que se referem às Américas:
“Os EUA devem ser preeminentes no Hemisfério Ocidental como condição para nossa segurança e prosperidade — uma condição que nos permita afirmar nossa presença com confiança onde e quando precisarmos na região. Queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa para os EUA; queremos um hemisfério cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou da apropriação de ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, vamos afirmar e fazer cumprir um ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe”.
“Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes de fora do hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso hemisfério. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e eficaz do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos EUA. Nossos objetivos para o Hemisfério Ocidental podem ser resumidos em ‘atração e expansão’. Buscaremos apoio dos aliados já estabelecidos no hemisfério para controlar a migração, deter o fluxo de drogas e fortalecer a estabilidade e a segurança em terra e no mar. Expandiremos, cultivando e fortalecendo novas parcerias, ao mesmo tempo em que reforçamos a posição de nossa nação como o parceiro preferencial em termos econômicos e de segurança no hemisfério. A política americana deve concentrar-se em angariar aliados regionais que nos ajudariam a deter a imigração ilegal e desestabilizadora, neutralizar cartéis, impulsionar a produção em áreas próximas aos EUA e desenvolver empresas privadas locais, entre outras áreas. Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados com nossos princípios e estratégia. Mas não devemos ignorar governos com perspectivas diferentes, com os quais, ainda assim, compartilhamos interesses, e que desejam trabalhar conosco”.
“A escolha que todos os países devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos EUA, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo”.
Com esses objetivos, em resumo, os EUA pretendem reconsiderar sua presença militar no Hemisfério Ocidental, aumentar a presença da Guarda Costeira e da Marinha para garantir a segurança da fronteira e derrotar os cartéis, incluindo, quando necessário, o uso de força letal. A diplomacia comercial visará fortalecer a economia e as indústrias americanas, utilizando tarifas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas para fortalecer as cadeias de suprimentos críticas no hemisfério. O Conselho de Segurança Nacional, inclusive, da Comunidade de Inteligência, iniciará um processo para identificar recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental.
A preocupação com a China está presente quando o documento acentua que qualquer tipo de ajuda dos EUA deve estar condicionada à redução gradual da influência externa adversária – instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo aquisição de ativos estratégicos, entre outros. A redução da influência chinesa no Hemisfério Ocidental foi obtida com a demonstração dos custos ocultos – em espionagem, segurança cibernética, dívida – embutidos na assistência externa de “baixo custo”.
A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo o secretário da Guerra). O Corolário Trump da Doutrina Monroe cria grandes desafios para a política externa do PT, levando em conta a dependência comercial da China e o forte viés antiamericano expresso pelos governos Lula e Dilma ao longo dos 20 anos em que o partido ocupou o poder.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e ex-embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004), Rubens Barbosa escreve mensalmente na seção Espaço Aberto.

Doutrina Trump e a nova desordem global Editorial, O Estado de S. Paulo

Doutrina Trump e a nova desordem global

Editorial, O Estado de S. Paulo (09/12/2025)

Casa Branca rompe oficialmente com a ordem de 1945 e transforma aliados em alvos e o Hemisfério Ocidental em zona de influência, ao mesmo tempo que acomoda autocracias como Rússia e China

As Estratégias de Segurança Nacional dos Estados Unidos costumavam ser documentos programáticos. A de Donald Trump, divulgada na semana passada, é a codificação de uma ruptura doutrinária. Pela primeira vez desde 1945, Washington abdica explicitamente da gramática que sustentou a ordem liberal – alianças, previsibilidade, contenção e distinção moral entre democracias e autocracias. A administração Trump oferece, em seu lugar, um amálgama de identitarismo, interesses imediatos e transações personalistas. Trata-se de uma visão de mundo tão improvisada quanto radical. E, ainda assim, suficientemente articulada para reconfigurar o sistema internacional.

O abandono da ordem pós-1945 é explícito. O documento não fala em “mundo livre” nem em liderança democrática, mas em soberania absoluta, competição civilizacional e “realismo flexível”. Regras importam menos do que preferências; compromissos, menos do que barganhas. A política externa americana deixa de ser fiadora da ordem liberal e assume a lógica das esferas de influência – inclusive reconhecendo, de modo tácito, a da Rússia. A distinção entre aliados e autocratas dissolve-se na medida em que ambos são avaliados segundo um critério único: a utilidade imediata para os EUA.

Esse revisionismo é mascarado por um discurso de retração. Trump promete não impor valores e evitar aventuras externas, mas o documento advoga abertamente por intervir no debate interno europeu, apoiar movimentos nacionalistas e remodelar o equilíbrio político do continente. É uma doutrina anti-intervencionista que intervém, e se diz pacifista enquanto militariza o Caribe. Nada disso sinaliza coerência, mas sinaliza poder. A Europa, em particular, aparece não como parceira estratégica, mas como alvo ideológico. Governos eleitos são descritos como elites ilegítimas, a imigração é tratada como ameaça civilizacional, e a União Europeia, como entrave à liberdade. O efeito imediato é a erosão da confiança transatlântica; o efeito de longo prazo é o enfraquecimento da Otan e o incentivo ao irredentismo russo.

No Hemisfério Ocidental, a ruptura é ainda mais profunda. O chamado “Corolário Trump” à Doutrina Monroe (“América para os americanos”, de 1823) transforma a região em prioridade militar dos EUA, com operações letais contra cartéis, presença naval ampliada e vigilância sobre minerais estratégicos e cadeias críticas. Países “alinhados” são recompensados; governos divergentes, tolerados, desde que cooperem em migração, crime organizado e contenção de potências extrarregionais. Para o Brasil, isso implica maior pressão sobre 5G, terras raras, portos e parcerias com a China. Trata-se, em essência, da restauração de uma esfera de influência cuja legitimidade o próprio Direito Internacional já havia repudiado.

O pano de fundo é a normalização das autocracias. O documento ignora violações russas, poupa ditaduras do Golfo Pérsico, suaviza críticas à Índia e reenquadra a China de rival geopolítica a mera concorrente econômica. Democracias são admoestadas; autocratas, bajulados. A bússola moral que guiou a política externa americana desde Truman (1945-1953) é substituída pelo pragmatismo de curto prazo – e, paradoxalmente, por uma retórica civilizacional que ecoa movimentos antiliberais em todo o Ocidente.

Nenhuma dessas escolhas torna os EUA mais seguros. Ao contrário: a estratégia incentiva as aventuras de Moscou, fragiliza a coesão europeia, aprofunda a competição sino-americana e transforma o continente americano em palco de tensões que poderiam ser geridas diplomaticamente. Mais grave: desmoraliza a noção de que a força norte-americana é inseparável das normas que ela própria ajudou a criar.

Resta uma dúvida: até que ponto essa doutrina sobreviverá ao próprio Trump? A incoerência interna, o caráter volátil do presidente e a resistência de instituições americanas talvez limitem sua implementação. Mas a simples existência dessa estratégia – articulada, oficial e ideologicamente carregada – já prenuncia uma era pós-liberal. Uma era em que a ordem construída em 1945 deixa de ser horizonte e passa a ser, para Washington, apenas uma lembrança incômoda.


terça-feira, 28 de outubro de 2025

O que esperar da COP-30 - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

O que esperar da COP-30

A COP-30 foi pensada como uma conferência que transcende a imagem restritiva de um encontro climático

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 28/10/2025

        A tão falada e esperada COP-30 terá início na próxima semana. Desde 2023, o governo brasileiro vem trabalhando para que a COP-30 se consolide como marco não apenas para o fortalecimento do multilateralismo, mas também para sua evolução rumo a uma nova era de governança global fortalecida.
        As bem-sucedidas presidências brasileiras da Cúpula da Amazônia (Belém, agosto de 2023), do G-20 (2024) e do Brics (2025), bem como o protagonismo brasileiro na COP-28 (Dubai, dezembro de 2023) e na COP-29 (Baku, novembro de 2024), permitiram desenhar uma linha de pensamento e ação na área de mudança do clima capaz de enfrentar os desafios do século 21, de ameaças difusas e grandes transformações nos cenários econômico e político globais, em que o avanço tecnológico e as preocupações com o meio ambiente e as mudanças climáticas ganham um papel de relevo.
        A COP-30 foi pensada como uma conferência que transcende a imagem restritiva de um encontro climático. Além das expectativas da sociedade civil em torno de uma “COP social”, trata-se de um momento potencialmente definidor para o futuro da governança global, que vai muito além do seu papel convencional de conferência climática. Tal perspectiva reflete uma realidade em que geopolítica, comércio, desenvolvimento, paz e segurança, estabilidade financeira, inflação, emprego, política fiscal e monetária, tecnologia e integridade da informação, democracia e combate às desigualdades, fome e pobreza passaram a fazer parte de agendas que impactam e são impactadas, em todos os níveis, do local ao global.
        Para a política interna, a COP-30 poderá servir de plataforma para que o Brasil se consolide na vanguarda da economia do futuro, permitindo ao País não só aproveitar, como também moldar um novo ciclo de prosperidade definido pelas transições energética, digital e bioeconômica, acompanhadas por avanços no combate às desigualdades. A agenda de transições justas para uma economia de baixo carbono poderá ajudar a definir um novo caminho para o desenvolvimento brasileiro.
        A presidência brasileira da COP teve um papel relevante na preparação e no desenvolvimento da agenda do encontro em torno de três objetivos: 1) reforçar o multilateralismo e o regime climático sob a Convenção do Clima e seu Acordo de Paris; 2) conectar o regime climático à vida real das pessoas, inclusive como vetor de prosperidade, desenvolvimento e combate à desigualdade, no quesito fome e pobreza; e 3) acelerar a implementação do Acordo de Paris, envolvendo atores públicos e privados e ajustes estruturais na governança global e na arquitetura financeira internacional.
        A presidência brasileira convocou um “mutirão global” contra a mudança do clima, em quatro frentes de atuação: Mobilização Global, com quatro Círculos de Liderança – o “Círculo dos Presidentes das COP”, presidido por Laurent Fabius, presidente da COP-21; o “Círculo dos Povos”, liderado pela ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara; o “Círculo de Ministros da Fazenda”, presidido pelo ministro Fernando Haddad; e o “Círculo do Balanço Ético Global”, liderado pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Negociações formais incluem cerca de 20 temas substantivos, entre os quais adaptação e transições climáticas justas. Agenda de Ação – envolve atores públicos e privados (governos subnacionais, setor privado, sociedade civil), durante a COP. Cúpula de Líderes, tratando de temas politicamente sensíveis que poderão dar o tom para o sucesso da COP-30, com anúncios de alto nível, em áreas como fome e pobreza, energia e florestas, entre os quais o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
        A COP-30 marca o início do segundo ciclo de ambição do Acordo de Paris com a apresentação das novas metas climáticas para 2035 pelos países-membros, por meio de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Além da apresentação das NDCs e do relatório com soluções para o incremento do financiamento climático para países em desenvolvimento, a COP-30 deverá avançar em três dimensões: 1) dar seguimento e melhor detalhamento a metas globais de transição energética e do “fim do desmatamento e sua reversão até 2030”, adotadas pela COP-28 sob o Balanço Global do Acordo de Paris; 2) atender aos anseios de países em desenvolvimento quanto aos impactos de medidas unilaterais de comércio sobre o desenvolvimento sustentável; e 3) há expectativa em relação à presidência brasileira quanto à inflexão sem precedentes para colocar as pessoas no centro da pauta climática e de desenvolvimento, inclusive via oportunidades para empregos, renda, qualidade de vida, redução da inflação, saúde e combate às desigualdades, fome e pobreza.
        Embora não constando formalmente da agenda negociadora, as seis áreas-chave mencionadas – multilateralismo; NDCs; pessoas; comércio; energia e florestas; e financiamento climático – colocar-se-ão, substantivamente, como medidas do sucesso da COP-30. O pacote político de Belém deverá finalmente ser lastreado por entregas mínimas na agenda formal das negociações, sobretudo quanto aos indicadores para o Objetivo Global de Adaptação – principal tema negociador mandatado para a COP-30 e ao programa de trabalho sobre transições justas.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004).

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido

Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 23/09/2025
        Muito se tem discutido sobre os desafios e oportunidades que a região amazônica apresenta para o governo e para o setor privado. Entre outros, são eles representados pelo desmatamento, pelas queimadas e pelo garimpo ilegal, inclusive nas terras indígenas. A ameaça à soberania nacional, pela crescente presença do crime organizado, torna mais difíceis as iniciativas para aproveitar a biodiversidade em favor da população local e para levar a riqueza da região aos povos nativos.
        Um dos temas mais importantes quando se trata do desenvolvimento da Amazônia é a questão do aproveitamento das riquezas da região pelas comunidades indígenas. O artigo 231 da Constituição prevê que as terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas são destinadas a ser por eles ocupadas para sempre, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Sem uma regulamentação mais precisa, essa disposição nem sempre é cumprida e em alguns casos, é flagrantemente desrespeitada, como no caso do garimpo ilegal e do desmatamento em terras indígenas.
        Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas, como importante contribuição para o desenvolvimento econômico da região e para tornar efetivo o cumprimento constitucional. É o caso do projeto Cachoeira Seca, desenvolvido pela comunidade indígena Arara.
        Trata-se do desenvolvimento do maior projeto de carbono em área indígena no Brasil, já de acordo com a lei que regula as bases do mercado de carbono, com todas as aprovações já obtidas, depois de consultas à comunidade, sob a supervisão da Funai e do Ministério Público Federal. O projeto socioeconômico está em andamento para melhorias efetivas para a comunidade e a geração de 1,8 milhão de toneladas/ano de créditos de carbono durante os próximos dez anos.
        A área total da reserva compreende 734.000 hectares da floresta amazônica, rica em biodiversidade e funcionalidade do ecossistema, e está hoje sob pressão pela ocupação ilegal de terras, derrubada seletiva, desflorestamento e mineração. Da área total, aproximadamente, 50 mil hectares já foram devastados e serão objeto de projeto de restauração florestal.
        O território indígena Cachoeira Seca, localizado nos municípios de Altamira (76%), Placas (17%) e Uruará (7%), no Pará, vai beneficiar cerca de 50 famílias indígenas. Todas essas municipalidades são alvos de prevenção prioritária de deflorestação, atividades de monitoramento e controle pelo governo federal. Na realidade, o projeto Cachoeira Seca perdeu mais de 70 mil hectares de floresta natural até 2024. Existem algumas iniciativas de prospecção mineral, ligadas especialmente ao ouro e ao minério de ferro, o que impõe ameaça aos recursos naturais (solo e água) e à vida selvagem do território.
        Levando em conta que a maior parte da área está ainda coberta por florestas nativas e habitadas pelo povo Arara, o projeto Cachoeira Seca representa uma parte crucial da floresta a ser preservada – por reduzir as emissões de GHG (gases de efeito estufa, na sigla em inglês), por preservar a sua biodiversidade e por reconhecer a governança do povo indígena sobre sua terra.
        De fato, essas pressões representam ameaças à valiosa cultura tradicional, herança e modo de vida dos povos indígenas que habitam o projeto. Nos anos recentes, ocorreram frequentes conflitos entre as populações indígenas tradicionais e o crime organizado, que tenta tomar posse da terra para a extração de madeira, expansão da agricultura e transações especulativas de terras. Manter as comunidades indígenas em seus territórios, protegidos de agentes destrutivos como desmatadores ilegais e ocupantes de terra, assegura a preservação da biodiversidade da floresta, na medida em que as práticas tradicionais apoiam o equilíbrio ecológico do ecossistema.
        Um censo socioeconômico vai ser conduzido na comunidade indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, que servirá como uma base para planejar e implementar atividades que ofereçam melhoria do bem-estar social, acesso à educação básica e a serviços de saúde para mais de 350 indígenas. Algumas iniciativas servirão também para criar fontes de renda sustentáveis que poderão gerar a independência do povo Arara.
        O projeto, que visa dar relevo ao papel da conservação, do manejo sustentável e do aumento de estoques de carbono florestal, foi desenvolvido pelo REDD+, sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal. Trata-se de mecanismo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que oferece incentivos financeiros a países em desenvolvimento para que reduzam o desmatamento e a degradação das florestas, além de conservarem e aumentarem os estoques de carbono.
        O principal objetivo do Projeto REDD+ dos povos Arara é evitar um desmatamento sem planejamento, dentro do território indígena Cachoeira Seca. Deve ser ressaltado que haverá a destinação de 70% do resultado líquido do projeto à comunidade indígena e 5% para um instituto que visa realizar pesquisas para o desenvolvimento da bioeconomia da floresta a benefício da comunidade. No tocante aos créditos de carbono, o projeto já foi aceito pela empresa Verra e foi incluído em sua plataforma para consulta.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

terça-feira, 9 de setembro de 2025

Independência e a política externa - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Independência e a política externa
Desde o início, os formuladores da política externa viam o Brasil como uma ‘potência transatlântica’
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 9/09/2025

No dia 29 de agosto, há 200 anos, Portugal reconheceu a Independência do Brasil.
Um dos objetivos da revolução liberal do Porto, em 1820, estimulada pela elite portuguesa, foi forçar a volta de D. João VI e restabelecer o reinado controlado por Lisboa. Seu filho, Dom Pedro, decidiu ficar no Brasil, rebelando-se contra as Cortes (Parlamento), e em 7 de setembro de 1822 proclamou a separação de Portugal.
O processo de Independência do Brasil foi difícil em razão da tentativa das Cortes do Porto de manter o País como colônia portuguesa. A consolidação da Independência não foi pacífica, em vista das sucessivas revoltas estimuladas e financiadas pelas Cortes, com intenção de dividir o País em dois: toda a Região Norte e Nordeste até Minas Gerais continuaria sob o domínio de Lisboa, e o Sul do País permaneceria independente. As revoltas no Pará, Jenipapo, no Piauí, no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia tinham esse objetivo.
Pouco depois da derrota do exército português na Bahia, em 2 de julho de 1823, Portugal e Brasil assinaram, em 29 de agosto de 1825, o tratado que oficializou o reconhecimento da Independência brasileira. O acordo contou com a mediação da Grã-Bretanha, que teve papel decisivo nas negociações.
O reconhecimento do Brasil como país independente, a integridade territorial, a afirmação de sua soberania e a formulação dos princípios básicos da política externa, independente de Portugal, foram alguns aspectos iniciais da ação externa do novo país, mesmo enquanto havia a tentativa de organização de forças de Portugal e Espanha para continuar a manter o Brasil como Reino unido a Portugal.
A relação com a Grã-Bretanha foi dominante nas primeiras décadas depois da Independência e das mais difíceis para a diplomacia imperial brasileira: o esforço para o reconhecimento da Independência (depois de várias tentativas das Cortes de buscar o apoio de Londres contra a separação), para manter uma esquadra estacionada na Bahia para manter a separação de Portugal, para evitar a concessão de novos empréstimos leoninos ao Brasil e, sobretudo, a questão da escravidão, pela pressão britânica para o Império pôr fim ao tráfico de escravos. Apesar dessas questões e da pressão das Cortes, o governo de Londres, de forma pragmática, atendendo a seus interesses comerciais e financeiros, também assinou o Tratado Portugal-Brasil e reconheceu, na mesma data, a Independência do novo Estado, garantindo a integridade territorial brasileira e a continuidade de seus privilégios junto à ex-colônia (renovação em 1827 do acordo de comércio, concessão do primeiro empréstimo internacional) e pela promessa de proteção e fornecimento de material bélico e embarcações. A estreita relação política e comercial com a Grã-Bretanha, que colocou o Brasil quase na condição de um protetorado, teve na questão do tráfico de escravos por mais de 40 anos o maior trabalho da diplomacia para contornar compromissos não cumpridos, tornando os entendimentos com a Grã-Bretanha crescentemente tensos.
Outro relacionamento central no Império foi com os EUA. A história oficial no Brasil registra um equívoco no tocante ao início do relacionamento com os EUA. Dá-se como pacífico que o reconhecimento ocorreu em 1824, com o governo Monroe. Repete-se, inclusive, que os EUA foram o primeiro país a reconhecer a Independência do Brasil. Na realidade, há um duplo equívoco. A Independência só foi oficialmente reconhecida em Washington por um tratado assinado entre o Brasil e os EUA em fins de 1825, depois do reconhecimento de Portugal e da Grã-Bretanha. A razão desse erro histórico talvez resida no fato de o credenciamento do primeiro encarregado de negócios do Brasil em Washington, José Silvestre Rebelo, ter ocorrido em maio de 1824. Rebelo recebeu instruções detalhadas de que tinha como missão obter o reconhecimento da nossa Independência por Washington, visto que o governo norte-americano não reconhecia a Independência brasileira. Na realidade, o primeiro país a reconhecer a Independência não foi nem Portugal, nem os EUA, nem a Grã-Bretanha, foi a Argentina, em 1823, por razões relacionadas com a disputa pela Província Cisplatina, hoje Uruguai.
Desde o início, os formuladores da política externa viam o Brasil como uma “potência transatlântica” que não poderia aceitar subordinação aos interesses de potências estrangeiras, principalmente europeias, que, por seu poderio econômico e militar, eram as principais ameaças à consolidação do Brasil independente. Já nesse início da autonomia em relação a Portugal, a política externa, comandada por José Bonifácio, atuava com um pensamento mais amplo procurando projetar os interesses do País em várias áreas. O essencial para a política externa do novo país era manter a unidade territorial e a soberania. Para isso, trabalhou para equipar as forças de defesa para resistir a alguns focos de resistência à Independência, de modo a defender efetivamente o território nacional e para desenvolver uma ação diplomática que procurasse preservar a autonomia decisória nacional.
Salve a política externa da Independência.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/independencia-e-a-politica-externa/

terça-feira, 26 de agosto de 2025

A moderna Doutrina Monroe: intervencionismo norte-americano na América Latina - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

Opinião: A moderna Doutrina Monroe

O intervencionismo norte-americano na América Latina começa a submeter os países a pressões que violam sua soberania

Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 26/08/2025 


Está em execução a estratégia do governo Trump para a América Latina anunciada, em termos genéricos, pelo secretário de Defesa como o “quintal” dos EUA, onde “os países deverão optar entre os EUA e a China”, como afirmou o presidente norte-americano.

Ao lado da firme oposição aos governos de esquerda no hemisfério (Cuba, Venezuela, Nicarágua, Colômbia, Chile e Brasil), o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, senador da Flórida, ultraconservador e primeira geração de cubanos que saíram de Cuba, está tomando medidas concretas para fortalecer os governos de direita (El Salvador, Paraguai, Argentina e agora a Bolívia) e tentar reverter a tendência pendular de governos de esquerda na região para influir nas eleições para eleger governos alinhados às políticas de Washington, “para construir um hemisfério mais seguro, mais forte e mais próspero”.

As medidas tomadas até aqui ressuscitam a Doutrina Monroe de 1823, pela qual se afirmava o princípio da “América para os americanos”, afastando a influência da Europa, e o Corolário Roosevelt (1904), autorizando intervenção militar para a defesa das empresas americanas.

Atualizada, a Doutrina Monroe moderna busca afastar os países da região da crescente presença da China, hoje o principal parceiro comercial da quase totalidade dos países da região, e defender as empresas americanas.

A primeira intervenção foi no Panamá, forçando o governo a pôr um fim nos contratos com empresas chinesas, a fim de controlar o fluxo de transporte por essa via estratégica para os EUA. Mais recentemente, o Departamento de Estado assinou acordos com o Paraguai para criar uma base na fronteira com o Brasil contra o Hezbollah integrada por agentes do FBI. Na semana passada, com o ministro do Exterior paraguaio, foi assinado, em Washington, um acordo para o Paraguai acolher asilados de outros países residentes nos EUA, no contexto de ampla parceria estratégica em segurança, diplomacia e economia, em especial no combate ao crime transnacional, na estabilidade regional, na energia, na mineração e na tecnologia. Nesse contexto, chama a atenção declarações de Marco Rubio sobre a possibilidade de intervenção de Washington na utilização da energia da binacional Itaipu para a instalação de data centers, em função do excedente de energia e seu baixo custo. Em outra iniciativa, na semana passada, o comando do Sul, na Flórida, enviou 4 mil marinheiros e fuzileiros navais para o combate ao tráfico de drogas, ameaça à segurança nacional, para as costas da Venezuela, “governado por um presidente ilegítimo e por um cartel de narcoterroristas”. A Casa Branca afirmou que “Trump mantém todas as opções abertas”, inclusive intervenção armada nos países para atingir os traficantes. Apoio a eventual movimento de parte do Exército venezuelano contra Maduro e proteção à Guiana, com eleição em 1.º de setembro, podem ser outros objetivos dos EUA.

O Brasil parece ser um dos alvos preferidos de Washington, desde a imposição das tarifas mais elevadas (50%), ao lado da Índia, para a exportação de produtos para os EUA, com a escalada de sanções políticas sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e de funcionários do Ministério da Saúde, por terem coordenado a vinda de médicos cubanos ao País, e de relatório crítico sobre direitos humanos no Brasil. Em uma situação de impasse nas negociações comerciais, é possível prever novas ações depois do julgamento de Bolsonaro em setembro, com inaceitável interferência em assuntos internos que atentam contra a soberania nacional. A resistência do governo brasileiro a essas intervenções, contrárias à evolução normal das relações entre os dois países e a tentativa de formação de uma frente de oposição às medidas protecionistas norte-americanas poderão criar uma situação de graves consequências diplomáticas entre os dois países. A possível intervenção militar na Venezuela entrou na pauta de Lula nas conversas com o presidente do Equador e com os chefes de Estado na reunião do Tratado de Cooperação Amazônica, realizada em Bogotá.

Não pode ser afastada a possibilidade de o Brasil estar sendo usado como um exemplo para os países que ousarem se opor à nova versão da Doutrina Monroe. Além de Itaipu, como base de colonização tecnológica e talvez a Amazônia, cujo desmatamento está sendo objeto de investigação no contexto da seção 301 da lei de comércio americana, pelos recursos minerais e pelo maior reservatório de água do planeta, poderão ser, no futuro, os próximos alvos da agressiva política imperial de Washington. A decisão do STF sobre a aplicação da Lei Magnitsky no Brasil, com potencial de forte impacto sobre os bancos e sinais de distanciamento dos EUA na área da Defesa, com o cancelamento da Conferência Espacial das Américas, organizada pela Força Aérea, e da Operação Formosa, principal exercício da Marinha, são os últimos exemplos da escalada entre os dois países.

O intervencionismo do governo norte-americano na América Latina começa a submeter os países da região a pressões que violam a soberania ou demandam subordinação disfarçada de cooperação, além de impor ameaças de intervenção militar, sob pretexto de combate aos “narcoterroristas”.

Essas movimentações de Washington apresentam-se como o maior desafio da política externa brasileira nas últimas décadas.

 

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/a-moderna-doutrina-monroe/ 

domingo, 24 de agosto de 2025

Como a Rússia já perdeu a guerra na Ucrânia - Rodrigo da Silva (O Estado de S. Paulo) ; Introdução de Paulo Roberto de Almeida

Uma introdução necessária a esta boa matéria sobre a derrota da Rússia na sua guerra de agressão à Ucrânia.

Paulo Roberto de Almeida

Estatisticas do CDS ucraniano são bastante confiáveis: costumam colocar perdas russas na faixa de 1000 baixas por dia. Economistas dos anos 1950 costumavam falar de “unlimited supply of labor” no caso de paises pobres com altas taxas de fertilidadece de natalidade. A Rússia tem algo semelhante no caso das muitas regiões pobres da sua grande, imensa federação: jovens paupérrimos são comprados para morrer na guerra, literalmente; as famílias aceitam pois isso lhes dá um alívio financeiro inesperado.

Mas a Russia vai sair dessa guerra ainda mais depauperada economicamente e drenada demograficamente. A Ucrânia destruída materialmente e também drenada demograficamente.

Ou seja, Putin destruiu dois países, incluindo o seu próprio, para NADA!

Quem ganhou? Os produtores e mercadores de armas mais ima vez!

Quem perdeu mais? Os paises pobres, mais uma vez, que também perdem com a hostilidade insana entre China e EUA, por culpa dos EUA, um hegemon que não reconhece o seu declínio inevitável, por fatores puramente internos, nada a ver com atos predatórios da China, que simplesmente faz o seu dever de casa (que é tirar o seu próprio povo da miséria, algo que o Brasil tampouco faz, por cegueira de suas oligarquias).

Tragédia humana e mundial trazida por um reles tirano megalomaníaco.

PRA, vamos à matéria agora!

===========

Como a Rússia já perdeu a guerra na Ucrânia

Rodrigo da Silva

O Estado de S. Paulo, 22/08/2025 

Nesse momento, a guerra na Ucrânia está corroendo a própria estrutura da sociedade russa.

A guerra na Ucrânia é a maior guerra na Europa desde 1945.

A linha de frente do conflito se estende por mais de mil quilômetros, atravessando campos, cidades e áreas industriais – algo sem paralelo no continente desde a 2ª Guerra Mundial.

Só a Rússia já mobilizou mais de 1,5 milhão de soldados. A Ucrânia colocou outros 700 mil em diferentes funções militares.

Não há nada tão violento na Europa nos últimos 80 anos de história. E nada traduz melhor essa violência do que as estatísticas das mortes.

É verdade que a Rússia mantém em segredo os números oficiais de baixas militares no conflito – desde setembro de 2022, o Kremlin não atualiza o seu balanço. Mas as melhores estimativas nos revelam perdas extraordinariamente altas. Até o último mês de junho, pelo menos 250 mil soldados russos morreram na guerra. Os russos registraram 1 milhão de baixas.

O número de militares russos mortos em pouco mais de três anos de conflito é cinco vezes maior que a soma das mortes combinadas da Rússia e da União Soviética em todas as guerras que o país travou entre 1945 e 2022.

Só para colocar em perspectiva: os Estados Unidos perderam pouco mais de 58 mil soldados nos 8 anos da Guerra no Vietnã. A cada ano, a Rússia tem perdido um Vietnã na Ucrânia.

Na verdade, mais do que isso: em míseros 3 anos, morreram mais russos na Ucrânia do que americanos em todas as guerras que os Estados Unidos lutaram desde 1945.

Durante os 10 anos da guerra do Afeganistão, a União Soviética perdeu 15 mil soldados. A Rússia perde isso hoje em um mês de combate na Ucrânia. Com uma diferença considerável: Moscou suportou 15 mil mortos no Afeganistão, sofrendo uma pressão política que tornou o conflito bastante impopular na Rússia. Hoje, o Kremlin lida com o desafio de transportar dezenas de milhares de mortos em muito menos tempo.

O dinheiro, claro, ajuda. Hoje, uma família de um soldado russo morto pode receber, de uma vez, até 14 milhões de rublos em benefícios sociais, o equivalente a R$ 800 mil.

É certamente um dinheiro bem alto para o padrão de vida russo (8 vezes o salário médio anual do país). Só em 2024 o Kremlin destinou o equivalente a US$ 15 bilhões para pagar compensações de morte e invalidez pela guerra – 6% de todo o orçamento federal anual.

E esse buraco não parece ter fim. No ritmo atual, 440 russos estão morrendo todos os dias na Ucrânia.

E não são só os mortos que retornam em caixões: soldados com membros amputados e ferimentos graves também estão voltando para casa, provocando um aumento bem acentuado na produção de próteses na Rússia.

A indústria da morte agradece. Dados do Ministério do Trabalho da Rússia revelam que Moscou subsidiou o fornecimento de 152 mil próteses em 2024, um aumento de 53% em relação a 2023 – quando 99 mil braços e pernas artificiais foram distribuídos –, outro aumento frente às 64 mil próteses de 2022, quando a guerra começou.

Empresas de caixões também relatam crescimento nos negócios. Só nos primeiros quatro meses desse ano, as funerárias russas faturaram quase 40 bilhões de rublos (cerca de R$ 2 bilhões), um aumento de 12% em relação ao ano passado.

E já não morre mais gente com o mesmo perfil de antes.

Enquanto nos primeiros meses da guerra, a idade média dos soldados que lutavam na Ucrânia era de 20 anos, esse número agora é de 36.

Muitos dos mortos não são só soldados, mas profissionais de diversas áreas: engenheiros, médicos, professores, metalúrgicos. Se no começo a guerra era dominada pelos militares de carreira, a Rússia hoje depende cada vez mais de recrutas civis de meia-idade.

Na prática, regiões bem pobres e distantes, onde há pouco emprego e salários baixos, lotados de minorias étnicas, se tornaram o principal reservatório humano do Exército russo.

Em alguns casos, homens são literalmente sequestrados em vilarejos; abordados nas ruas, retirados das suas casas ou capturados em pontos de ônibus, sem qualquer aviso.

Na Buriácia, por exemplo, no extremo leste da Sibéria, a taxa de mortos na guerra é até 30 vezes maior do que em Moscou. Em repúblicas do Cáucaso, como o Daguestão, jovens muçulmanos são convocados em massa, muitas vezes sob pressão direta das autoridades locais.

No fim, a estratégia é coerente: as mortes russas se concentram em regiões com baixo peso político, longe dos centros de poder. O luto de mães buriates ou daguestanesas faz bem menos barulho do que o de uma mãe de Moscou.

A Rússia diz treinar essas pessoas entre 3 semanas e 6 meses, dependendo da função. Mas a verdade é que há muitos relatos de 1 mês de treinamento – e para algumas operações, a quantidade de treino fornecido varia entre dois dias e duas semanas.

A Rússia já tinha uma pirâmide etária deformada por conta da 2ª Guerra Mundial e da crise dos anos 1990. Tanto é assim que o país já vinha em declínio populacional antes da guerra. Mas a situação agora é caótica.

A população economicamente ativa russa está encolhendo. E essa escassez de trabalhadores produzirá, no curto prazo, não só uma queda da produtividade russa, mas uma possível importação forçada de mão de obra estrangeira – principalmente da Ásia Central e de países muçulmanos.

É claro que as perdas da Ucrânia também são bem altas. Em dezembro do ano passado, Zelenski revelou 43 mil soldados ucranianos mortos em combate e 370 mil feridos desde o início da invasão russa.

Além dessas mortes, quase 14 mil civis ucranianos foram mortos no conflito, e 35 mil ficaram feridos.

A Ucrânia é indiscutivelmente a grande vítima desse conflito, mas os russos são os maiores derrotados.

Nesse momento, a guerra na Ucrânia está corroendo a própria estrutura da sociedade russa. Cada caixão que retorna, a cada dia de batalha, significa não só um soldado a menos, mas um pai ausente, uma família quebrada, uma comunidade empobrecida.

Nesses três anos de conflito, centenas de milhares de crianças perderam o pai. Outras centenas de milhares de mulheres ficaram viúvas.

O resultado é uma geração marcada pelo luto.

Hoje, o Kremlin até consegue comprar o silêncio com indenizações, próteses e propaganda. Não há grandes manifestações contra Putin. Mas esse silêncio tem prazo de validade.

A Rússia pode até sustentar a guerra no campo de batalha, mas está perdendo em casa. E quando a poeira baixar, Moscou governará um país menor, mais pobre e mais velho. E nenhum triunfo militar, real ou inventado, será capaz de compensar essa derrota.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Mais pragmatismo e menos ideologia - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Mais pragmatismo e menos ideologia

Não resta alternativa ao governo Lula senão estabelecer um canal de alto nível com a Casa Branca
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 12/08/2025

O relacionamento entre o Brasil e os EUA passa por um momento de grandes desafios com os desdobramentos da opção feita por Trump de utilizar a lei de emergência econômica (International Emergency Economic Power Act - Ieepa) como fundamento das tarifas aplicadas aos produtos nacionais.
Trump assinou na semana passada ordem executiva baseada na Ieepa que dá poderes ao presidente norte-americano para tomar medidas de modo a afastar as ameaças à economia dos EUA e à segurança nacional. Essa lei tem sido usada como justificativa para as tarifas de todos os países, mas está tendo desdobramentos políticos internos com o Brasil. Por outro lado, para alguns outros países, a base legal para a aplicação das tarifas está amparada pela Seção 232 do Trade Expansion Act de 1962, que trata a questão da segurança nacional sob o ângulo comercial, sem declaração de emergência. No caso da China, a legislação invocada foi a Seção 301 do Trade Act de 1974.
É importante entender a diferença entre as duas legislações. Enquanto a Seção 232 e a 301 são implementadas pelos órgãos técnicos de comércio exterior, a lei de emergência econômica é aplicada pelo Departamento de Estado e pelo Tesouro, sem consulta ao Congresso, e é utilizada como meio de pressão diplomática com caráter extraterritorial, como foi o caso da Lei Magnitsky e, na semana passada, a pesada nota da embaixada dos EUA. A Ieepa pode alcançar empresas ou indivíduos no Brasil. As empresas podem ser afetadas por bloqueios bancários, encerramento de linhas de crédito internacional, exclusão de fornecedores de peças e equipamentos e até sanções secundárias, quando transacionam com outros países, como foi o caso da Índia, por comprar petróleo da Rússia.
A política tarifária em relação ao Brasil tem uma característica única por abrir a possibilidade de tratar questões políticas e diplomáticas mais amplas e que, espera-se, estejam sendo objeto de exame e consideração mais cuidadosos pelo governo em Brasília. As ações do Departamento de Estado, diante da atitude antagônica de Marco Rubio em relação ao Brasil, são inaceitáveis. O risco e a ameaça são claros e vão requerer uma defesa da soberania e do interesse nacional mais sofisticada e responsável.
Os desdobramentos dessa medida já estão começando a aparecer. Foi aberta uma investigação no âmbito da seção 301 da lei de comércio exterior para apurar medidas restritivas contra produtos norte-americanos, serviços financeiros (Pix) e até o desmatamento da Floresta Amazônica.
Além dessa investigação, o Congresso dos EUA está examinando um projeto de lei que autoriza recursos financeiros a órgãos de inteligência para, entre outras áreas de interesse para os EUA, avaliar e preparar relatório sobre os investimentos da China no setor agrícola do Brasil. O Intelligence Authorization Act, se aprovado, financiará a Agência Central de Inteligência (CIA) e a Agência de Segurança Nacional (NSA) para o combate às ameaças à segurança nacional dos EUA.
No tocante ao relacionamento entre o Brasil e a China, esses órgãos de informação deverão elaborar “avaliação e relatório sobre investimentos da China no setor agrícola no Brasil, após consulta com o Departamento de Estado e a Secretaria da Agricultura” e avaliar “o nível de envolvimento do presidente Xi Jinping, ou por ele ordenado, com autoridades brasileiras, com foco no setor agrícola do Brasil”. O relatório deverá também incluir análise sobre “o nível de envolvimento da China com o setor agrícola do Brasil” e “as intenções estratégicas do possível envolvimento do presidente Xi ou por ele ordenado, para investimento no setor agrícola do Brasil”. O relatório deverá examinar “o número de entidades com sede na China ou de propriedade do país com investimentos no setor agrícola do Brasil, incluindo joint ventures com empresas brasileiras” e listar “os impactos sobre a cadeia de suprimentos, o mercado global e a segurança alimentar gerados por investimentos ou pelo controle do setor agrícola brasileiro pela China”.
As tensões entre os EUA e a China, considerada pelo governo de Washington como inimiga, podem respingar em outros países com forte relacionamento com Pequim. O Brasil é um parceiro estratégico da China, especialmente na área agrícola, e por isso atraiu as atenções estratégicas dos órgãos de inteligência.
O governo brasileiro tem de definir claramente seu objetivo em relação às medidas restritivas já tomadas e outras que poderão ser adotadas contra o Brasil. Não convêm ao interesse nacional a posição defensiva e uma narrativa para fins de política interna.
O impasse atual, com as dificuldades e as diferenças de caráter político e ideológico, tem de ser superado para o avanço das negociações comerciais. À luz da tendência da escalada político-diplomática, não resta alternativa ao governo Lula senão estabelecer um canal de alto nível com a Casa Branca por meio de um telefonema de Lula a Trump ou a ida do vice-presidente, Geraldo Alckmin, para um encontro com JD Vance.
A China e a Índia, que, junto com o Brasil, são os países com as tarifas mais altas, com possíveis novas medidas restritivas, continuam a negociar com Trump, de forma pragmática e deixando de lado a ideologia.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/mais-pragmatismo-e-menos-ideologia/

quarta-feira, 23 de julho de 2025

O Brasil, sem poder de barganha Celso Ming O Estado de S. Paulo

O Brasil, sem poder de barganha

Celso Ming
O Estado de S. Paulo, sexta-feira, 18 de julho de 2025

Aos poucos, a indignação infantil e inconsequente vai sendo substituída por uma visão mais realista das nossas precariedades.
A primeira reação do presidente Lula ao anúncio do presidente Trump sobre o tarifaço de 50%, a vigorar a partir de 1º de agosto, foi apelar para a soberania nacional e para revides em nome do princípio da reciprocidade. Lula chegou a avisar que recorreria à Organização Mundial do Comércio, providência que teria a mesma força de um pedido de apoio ao arcebispo de Nova York. Nesta quinta-feira, declarou que “gringo não vai dar ordens” e, em pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão, disse que “No Brasil, ninguém está acima da lei”.
Mas, na avaliação de parte dos empresários brasileiros, cutucar a onça com vara curta poderia levar ao pior. O País está na defensiva, tentando se apegar a alguma ajuda dos empresários norte-americanos prejudicados com a alta dos preços dos produtos exportados pelo Brasil. Nem a primeira carta enviada a Donald Trump, logo após o anúncio do tarifaço geral em abril, conseguiu resposta.
O presidente Trump parece ter eliminado a principal justificativa apresentada em sua carta do dia 11, quando alegou que o ex-presidente Jair Bolsonaro estava sendo vítima de uma caça às bruxas. “Bolsonaro nem chega a ser amigo”, disse Trump. “É apenas conhecido.”
A verdade é que o Brasil começa a se dar conta de que não tem poder de barganha diante de Trump, e qualquer alegação pode servir de pretexto para algum ato econômico de força. Até mesmo o Pix é acusado como política desleal aos Estados Unidos – apenas porque as bandeiras de cartões de débito começam a perder função e se tornar inúteis.
A economia brasileira carrega mazelas, enquanto o governo segue se enganando com a ideia de que somos “um país tropical, abençoado por Deus!”
Outra seria a condição do Brasil para enfrentar trancos como esse se não houvesse o rombo fiscal e, em consequência dele, os juros não tivessem de ir para a lua, derrubando a competitividade do produto nacional. Ou se a indústria e boa parte do setor produtivo não carregassem os problemas que têm hoje com seu sistema imunológico debilitado porque vivem dopados pelo protecionismo, pelos subsídios, pelas isenções tributárias, pela criação de reservas de mercado, pela imposição de conteúdos locais e pela artificialidade da competitividade zero, como a da Zona Franca de Manaus.
Bem outra seria a situação do Brasil se seus governos tivessem tomado a iniciativa de fechar acordos comerciais com o resto do mundo, em vez de insistirem tanto no Mercosul, que, até agora, não conseguiu passar ao estágio inicial de integração: o de área de livre comércio.
Esta é uma situação grave que, pelo menos, pode ser aproveitada pelo governo como oportunidade para abandonar a distribuição de presentes de Papai Noel, levar a sério a saúde das contas públicas e realizar as reformas sempre anunciadas e nunca enfrentadas.

Postagem em destaque

A destruição, em todos os sentidos - Paulo Roberto de Almeida

  A destruição, em todos os sentidos A sociedade civil iraniana, oprimida pela teocracia totalitária dos aiatolás, sempre foi, antes, durant...