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segunda-feira, 30 de março de 2026

A Previdência, rumo ao colapso - Celso Ming (O Estado de S. Paulo)

 A Previdência, rumo ao colapso

Celso Ming
O Estado de S. Paulo, domingo, 29 de março de 2026

É como rompimento de barragem. O rombo da Previdência Social vai crescendo inexoravelmente. Se nada se fizer para estancar o vazamento, até mesmo antes de 2030 faltarão recursos para pagamento das aposentadorias.

Em uma década, o déficit anual, que era de R$ 272 bi em 2015, passou a R$ 442 bi em 2025, crescimento de 62,5%.

Um punhado de fatores explica essa esticada. O aposentado está vivendo cada vez mais, o que empurra por mais tempo as despesas com aposentadoria. O brasileiro optou por ter menos filhos, o que vem produzindo encolhimento da oferta de trabalho e das contribuições para a Previdência. De quebra, as empresas também aumentaram o uso de robôs e de outras tecnologias, o que as dispensa de contribuições da parcela do empregador. As grandes transformações do mercado de trabalho levaram o pessoal da ativa a preferir cada vez mais o trabalho autônomo ou a criação de MEIs (Microempreendedores Individuais), cuja contribuição ao INSS, quando é cumprida à risca, é apenas uma fração da contribuição comum.

Em consequência de políticas populistas, o salário mínimo, que corrige as aposentadorias, vem aumentando acima da inflação e, assim, multiplica as despesas da Previdência. Este e governos anteriores vêm sendo mais complacentes na concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que paga salário mínimo para pessoas com deficiência que comprove renda baixa. Essas pressões mostram que a reforma de 2019 não passou de gambiarra destinada a empurrar com a barriga um problema enorme.

Sempre que a situação da Previdência fica insustentável, aparecem sugestões para que se substitua o atual regime de repartição simples – em que o trabalhador da ativa paga as aposentadorias em curso – pelo regime de capitalização – em que a aposentadoria corresponderá tão somente às contribuições feitas pelo trabalhador somadas ao rendimento obtido por sua aplicação no mercado financeiro. Mas esse é um sistema complicado, que exige boa administração financeira e que deixa a descoberto a remuneração dos já aposentados e dos que já contam prazo no sistema de repartição. Não deu muito certo no Chile e foi abandonado pela Argentina.

Outra ideia é adotar regime misto, com a capitalização apenas para camadas mais altas. É mais ou menos o que já acontece hoje: as famílias de renda mais alta adotam esquemas de aposentadoria complementar (PGBL e VGBL) à aposentadoria convencional. Mas esse arranjo não traz solução para o problema principal.

A próxima administração do País terá de escolher entre adotar nova reforma da Previdência e continuar adiando a solução. Independentemente disso, quem já recebe aposentadoria ou quem a espera para os próximos anos tem de saber que essa renda, em pelo menos parte dela, corre alto risco de ser caloteada.

Um novo Oriente Médio Denis Lerrer Rosenfield O Estado de S. Paulo

Um novo Oriente Médio 

Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo, 

segunda-feira, 23 de março de 2026

O projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo

O Oriente Médio mudou após o ataque americano-israelense e a reação da teocracia iraniana. Nada voltará a ser como antes, goste-se ou não desta nova realidade. O Irã se apresentava com uma grande potência regional, caminhando para deter a produção de bombas nucleares, almejando a destruição pura e simples do Estado de Israel. Utilizava-se, para isso, de seus satélites: Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah e Houthis. Com exceção dos últimos, enfraquecidos, os outros já foram derrotados militarmente. Graças à guerra atual, o Irã já está militarmente vencido, contentando-se com atacar as nações árabes, inclusive xiitas como o Catar, procurando criar o caos no Estreito de Ormuz e forçar um aumento do preço do petróleo e do gás em escala mundial. Só os simpatizantes do Irã e do terror islâmico resistem a reconhecer a nova correlação geopolítica de forças, a esquerda mundial satisfazendo-se com a areia do ódio que a teocracia lança nos seus olhos.

Torna-se, aqui, necessário fazer a distinção entre os objetivos militares e políticos da guerra, pois a confusão entre essas duas perspectivas pode distorcer a análise dos fatos.

Os objetivos militares de israelenses e americanos são praticamente os mesmos, apesar de algumas nuances. Israel tem no Irã um inimigo existencial, voltado para a sua aniquilação, algo declarado pela teocracia e seus satélites. Sob a ótica militar, os objetivos estão praticamente consumados: destruição da defesa antiaérea do Irã, com todo o seu sistema de radares e armamentos; aniquilação de seus instrumentos e condições de produção de uma bomba nuclear e erradicação dos depósitos, estoques, fabricação e lançamento de mísseis balísticos.

Os americanos, em particular, acrescentaram a destruição da Marinha e Israel, a morte das lideranças políticas e militares. Segundo cada um desses itens, todos alcançando praticamente acima de 80%, pode-se dizer que em poucas semanas essa proporção aumentará, dando a guerra como finalizada. Ocorre, porém, que o presidente Trump falou de uma mudança de regime, enquanto os israelenses mais prudentes declararam que buscariam criar apenas as condições para isso, cabendo ao povo iraniano, violentamente oprimido pela teocracia, levar a cabo essa missão. Esse seria um objetivo propriamente político, que não poderia ser realizado militarmente, salvo com o emprego maciço de forças terrestres, algo fora de questão. Politicamente, a tarefa cabe aos iranianos.

Os líderes iranianos, cientes disso, apesar de seu discurso belicoso, segundo o qual irão destruir a coligação americano-israelense, mostram por suas ações que já perderam. Atacam os países árabes, inclusive bombardeando-os mais do que a Israel. A guerra deslocou-se de Israel e das bases americanas para esses países, almejando assim algum ganho propriamente político, uma espécie de porta de saída, com a vitória militar já completamente afastada. Sobra somente a narrativa voltada para os incautos, que ainda acreditam no que a liderança teocrática vocifera. O fato maior, todavia, é o seguinte: o projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo.

O Irã, se não houver uma sublevação de seu próprio povo, continuará a ser brutalmente oprimido pelo que restará da Guarda Revolucionária e dos paramilitares da polícia política Basij – diga-se de passagem, que são objetos de ataques israelenses sistemáticos. Pode perfeitamente acontecer que preservem o seu poder, embora não tenham doravante nenhuma importância geopolítica. Tal situação pode ser perfeitamente acomodada tanto pelos israelenses quanto pelos americanos, apesar de ser desejável o estabelecimento de uma democracia nesse país.

Os EUA, por sua vez, mostram que são uma potência mundial incontrastável. A esquerda mundial que tanto fala do declínio americano deve estar mordendo a língua. Os russos não conseguem nem vencer a Ucrânia, quanto mais a Europa em seu conjunto, contra forças alemãs, francesas, inglesas, polonesas e italianas. Os chineses contentaram-se com contestações diplomáticas, nada arriscando. Como é de seu feitio, resguardam com afinco os seus interesses, os seus businesses. Os países árabes, por causa da retórica do ódio da teocracia iraniana, atacando inclusive suas instalações de infraestrutura e civis, irão se alinhar diretamente ou indiretamente aos EUA e Israel. São sua proteção e sua existência que estão agora em questão.

Os israelenses surgem vencedores como grande potência regional. Nenhum Estado da região lhe é comparável em superioridade científica, tecnológica e de indústria de defesa, com uso intensivo de inteligência artificial e guerra cibernética. Ademais, o uso sincronizado de todos esses instrumentos entre Marinha, Exército e Força Aérea faz de seu poderio um poder incontornável.

Saliente-se, ainda, que esse tipo de coordenação com as forças americanas mostra como a guerra do século 21 perfila-se no horizonte, mostrando desde já a sua presença.

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma nova política de Defesa - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

Uma nova política de Defesa

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, terça-feira, 24 de março de 2026

A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo

Em janeiro passado, o presidente Lula convocou uma reunião com o ministro da Defesa, os comandantes das três Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto para analisar as vulnerabilidades do Brasil no caso de uma ameaça externa. A preocupação, oportuna neste momento, mas muito atrasada do ponto de vista da defesa da soberania, tem de ser também entendida pela sociedade e pela classe política, distantes desse problema, cada vez mais urgente diante das incertezas globais e pela insegurança interna.

O sinal de alerta foi dado ao se constatar que o País hoje é indefeso. No encontro com Lula, os militares ofereceram um quadro realista e preocupante. Foi dado como exemplo o fato de o Brasil não dispor de uma capacidade de defesa antiaérea que sirva como dissuasão para qualquer ameaça externa. Evidentemente, o Brasil e qualquer outro país da região estão longe de dispor da capacidade de dissuasão para impedir a ação militar de uma superpotência como os EUA. A defasagem dos equipamentos bélicos disponíveis não poderá ser corrigida nem a curto nem a médio prazo, inclusive porque o Brasil depende, na sua quase totalidade, de equipamentos dos EUA e da Europa.

Um plano de investimentos na área de Defesa para o longo prazo foi apresentado pelo ministro José Múcio. O plano prevê investimentos de R$ 800 bilhões em 15 anos, sendo R$ 456 bilhões para projetos do Exército e R$ 250 bilhões para a Marinha e o restante para a Força Aérea. O valor é bem superior ao programa de defesa nacional de cerca de R$ 15 bilhões aprovados para 2026 e aos R$ 30 bilhões nos próximos seis anos para projetos estratégicos de defesa nacional.

O conflito no Oriente Médio começou a ser estudado pelo Exército para identificar riscos e impactos críticos para a Defesa a partir da ação e estratégia aplicadas no conflito. Como era de se esperar, os resultados apontaram para as deficiências e vulnerabilidades brasileiras nessa área. A nacionalização dos componentes e a diversificação dos fornecedores para os programas estratégicos e para a produção de munição, blindados e o desenvolvimento de um sistema de comunicações nacional foram algumas das conclusões alcançadas. Como uma das primeiras medidas para fortalecer a Defesa, o Exército tornou a artilharia antiaérea um projeto estratégico a ser desenvolvido de imediato.

Não será fácil nem rápido, o trabalho para ajustamentos internos de hábitos e práticas para a definição de uma nova política de Defesa.

As deficiências da Defesa não se limitam apenas ao orçamento reduzido e a insuficiente compra de equipamento bélico no exterior. A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas (FFAA) tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo. Ao Ministério da Defesa cabe a liderança de uma ampla discussão interna corporis – seguida de negociação com outros ministérios relevantes e o Congresso Nacional – sobre a reestruturação do sistema de Defesa para implementar mudanças estruturais, como a implantação de uma carreira civil, a redução gradual dos encargos com o pessoal ativo e inativo e a modernização do modus operandi das três Forças, inclusive com a criação da Base Logística de Defesa – difícil de ser aceita pelas FFAA – para coordenar as aquisições militares, a diversificação das fontes de suprimento dos equipamentos (Índia e Turquia) e o estímulo à indústria nacional, com o gradual aumento das compras de empresas nacionais. Um primeiro passo nessa direção pode ser a unificação e, no futuro, extinção dos escritórios de compras das três Forças no exterior e o fortalecimento da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod).

A Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Conselho de Governo (Creden), órgão de assessoramento ao presidente da República nas áreas de relações exteriores e defesa nacional, poderá melhorar a coordenação dentro do governo e ter maior interação com a sociedade civil, conforme previsto no decreto de institucionalização. A Creden poderá discutir e acompanhar políticas públicas na sua área de competência, em articulação com os demais órgãos responsáveis; promover a articulação e acompanhar a implementação de programas e ações interministeriais, incluindo temas como Defesa e relações exteriores.

O acompanhamento dos temas de Defesa no contexto dos interesses mais amplos do País e levando em conta os desafios globais e nacionais indicaria que o primeiro assunto a ser discutido pela Creden deveria ser a vulnerabilidade da segurança interna e externa do Brasil e como reforçar a Base Industrial de Defesa.

Em ano eleitoral, é difícil que temas que não tenham um efeito imediato ou que não sejam prioritários para os eleitores sejam focados pelo Congresso e pelo governo. Nesse sentido, os primeiros passos para a implementação das atribuições da Creden, pelo próximo governo, deveriam ser dados ainda este ano para que o futuro governo possa elaborar uma política de curto, médio e longo prazo para a Defesa nacional.

A discussão desses temas tão relevantes para o interesse nacional não deveria estar fora dos debates eleitorais em que os candidatos se comprometam com um projeto de Estado para as questões relacionadas com a segurança externa e interna do País.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Atoleiro no Irã enfraquece Imagem dos EUA no mundo - Daron Acemoglu (O Estado de S. Paulo)

Atoleiro no Irã enfraquece Imagem dos EUA no mundo
Daron Acemoglu
O Estado de S. Paulo, 23/03/2026


BOSTON – Sob a presidência de Donald Trump, a política externa dos EUA atingiu um novo patamar de decadência. A guerra de sua administração contra o Irã, que ocorre logo após o sequestro do ditador venezuelano, prejudicará os Estados Unidos e mudará a forma como o resto do mundo enxerga o poder americano.

É claro que esta não é a primeira vez que os EUA realizam uma intervenção malfadada e mal planejada no exterior. Uma das mais significativas, dado o contexto atual, foi a derrubada do primeiro-ministro eleito democraticamente do Irã, Mohammad Mossadegh, em 1953, pela CIA, após a nacionalização da indústria petrolífera iraniana, então controlada pelos britânicos.
Embora seja um exagero dizer que a deposição de Mossadegh tenha causado a Revolução Iraniana de 1979, não há dúvidas de que a intervenção descarada da CIA moldou a forma como muitos iranianos viam a monarquia absolutista que os EUA instalaram em seu lugar.
É por isso que tantos segmentos da população iraniana – incluindo comunistas, conservadores e liberais – inicialmente apoiaram a derrubada do Xá. Tragicamente, o aiatolá Ruhollah Khomeini estava longe de ser um líder consensual. Ele rapidamente se voltou contra seus antigos aliados e estabeleceu o regime teocrático extremamente repressivo que permanece no poder até hoje.
A lição é que as intervenções dos EUA tendem a ter muitas consequências imprevistas. Elas não apenas criam ressentimentos duradouros, como também moldam o poder brando (o poder de persuasão e atração) que os Estados Unidos sempre usaram para manter unida sua rede global de alianças e convencer outros de que sua hegemonia é benigna, contribuindo para a estabilidade e previsibilidade internacionais.

Isso é importante, porque a maioria das pessoas naturalmente se opõe quando a potência hegemônica se comporta como um valentão. Demonstrações frequentes e gratuitas de poder coercitivo tendem a corroer o poder brando, especialmente quando uma intervenção carece de uma justificativa coerente. Durante a Guerra Fria, os EUA ao menos tinham o objetivo primordial de impedir a disseminação do comunismo, que era uma ameaça real.
Pior ainda para o poder brando de um país é uma campanha mal planejada que demonstra total desrespeito pela vida das pessoas afetadas. É isso que estamos testemunhando agora no Oriente Médio. A guerra impulsiva de Trump certamente levará o poder brando dos EUA a um nível historicamente baixo, e ninguém em seu governo se importa em reconstruir o que foi perdido. Longe de valorizar o poder brando, esta Casa Branca vê ameaças e negociações bilaterais como substitutos para conquistar os corações e as mentes de líderes e públicos estrangeiros.

É verdade que o regime iraniano tem sido singularmente cruel e repressivo. A maioria dos iranianos não nutre simpatia pelo novo líder supremo, Mojtaba Khamenei (filho do líder supremo anterior), nem pela Guarda Revolucionária Islâmica. Mas isso não significa que o regime irá ruir, muito menos que a intervenção dos EUA trará paz e estabilidade à região.
O mais notável sobre esta guerra é o quão mal planejada ela foi – mesmo em comparação com algumas das intervenções mais desastrosas da CIA durante a Guerra Fria. Os militares dos EUA e de Israel tinham muitos alvos bem definidos e bombas de precisão, mas nenhuma estratégia de saída aparente.

Deveria ter sido óbvio que o regime iraniano não entraria em colapso imediatamente, mesmo que sua cúpula fosse decapitada. E era previsível que a retaliação do Irã visasse desestabilizar a região e aumentar os preços do petróleo. Todos sempre souberam que o Estreito de Ormuz é o trunfo do regime. No entanto, o governo Trump parece ter ignorado essas considerações, pelo menos a julgar pelas declarações recentes de altos funcionários.

Como resultado, o regime iraniano pode ter chegado à conclusão de que detém a vantagem. Sabe que os americanos não têm interesse em uma guerra prolongada e está preparado para suportar o bloqueio atual e reprimir a população pelo tempo que for necessário para garantir a sobrevivência da República Islâmica. A crescente consternação dos mercados globais reflete isso.

Num momento em que a economia já parecia frágil – refletida nas discussões generalizadas sobre uma bolha do mercado de inteligência artificial – a turbulência no setor de energia e o aprofundamento da incerteza global podem representar um problema. O forte aumento dos preços do petróleo irá desacelerar o investimento e o crescimento econômico, além de pressionar os preços para cima. O consequente aumento do desemprego e da inflação será custoso para os governos em exercício, incluindo aqueles na Europa que enfrentam desafios de populistas de direita (embora a maioria dos líderes europeus se oponha à guerra, rejeitando categoricamente o apelo de Trump para enviar navios de guerra para ajudar os EUA a reabrir o estreito).
No âmbito interno, é razoável supor que Trump deva pagar um alto preço político por sua guerra nas eleições de meio de mandato de novembro. Mas Trump é o suposto líder anti-establishment, e se seus apoiadores mais fervorosos culparem o establishment, em vez dele, pela deterioração da economia, isso poderá polarizar ainda mais o país e enfraquecer suas instituições.

É provável que o próprio Trump jogue lenha na fogueira, tentando polarizar republicanos e democratas – e talvez promovendo ações domésticas ainda mais incendiárias. Afinal, as instituições americanas já estão fragilizadas, com muitas das normas e mecanismos de controle que deveriam limitar o poder presidencial tendo deixado de funcionar. Isso beneficia a agenda de Trump, e ele aproveitará qualquer oportunidade para enfraquecer ainda mais as instituições.

Resta saber quanto mais danos a democracia e o soft power dos EUA sofrerão por causa dessa aventura estrangeira mal concebida. Mas uma coisa parece certa: serão os americanos que pagarão o preço, e será maior do que podemos imaginar. A ameaça à democracia, à estabilidade social e à resiliência econômica dos EUA é agora maior do que em qualquer outro momento da nossa história recente.

Daron Acemoglu, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2024 e professor do Instituto de Economia do MIT, é coautor (com Simon Johnson) de “Power and Progress: Our Thousand-Year Struggle Over Technology and Prosperity” (PublicAffairs, 2023).

sábado, 21 de março de 2026

Carlos Andreazza: O escudo Gilmar O Estado de S. Paulo

O escudo Gilmar

Carlos Andreazza
O Estado de S. Paulo, sábado, 21 de março de 2026

O acordo sério que se urde não é o de delação. É o de empastelamento. Para que nunca saibamos o que se comprou quando comprada aquela parte do hotel. Para que nunca saibamos o que se contratou quando contratado aquele escritório de advocacia. (Ou aquela consultoria.) Para que nunca saibamos do que tratavam quando tratavam sobre bloquear algo.

O caso Master bateu no teto – nas togas – das possibilidades investigativas deste país. E a história nos ensina que aqui paramos. O caso Master chegou ao Supremo e o Brasil voltou ao lugar em que decidirá pela acomodação; o que significa asfixiar a investigação. Chegamos de novo – a história se repete – a Dias Toffoli, vários “os amigos dos amigos” de alguém que precisa ter a ação contra si bloqueada. Vários agora os que precisam ter as ações contra si bloqueadas.

Não é a história que se repete. A história nos ensina. Não saímos do lugar. Desse lugar tendo saído – por Dias Toffoli, para Dias Toffoli – o inquérito xandônico onipresente e infinito. Desde esse lugar tendo se procedido – por Dias Toffoli – à destruição de provas sobre corrupção. Dias Toffoli é a fachada. Expressão de que o limite se aproxima.

Chegou-se ao momento em que advogado de provável delator precisa garantir que a colaboração do cliente será “séria”. Garantia necessária porque o banqueiro passara a testar mercados sobre a hipótese de uma delação seletiva, poupados ministros do Supremo. Não há mesmo estímulos para que fale de suas relações com Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Nunes Marques, membros do tribunal que homologará o seu acordo e que o julgará. Os dois primeiros ainda membros do clube do uísque londrino de Vorcaro, em cuja mesa também se sentaram Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, chefes das instituições portas-de-entrada à delação.

Não voltamos ao mesmo lugar. Nunca saímos do lugar. Não há razões para crer em que seja séria a delação. Estão aí as gestões de Gilmar Mendes – baixado o escudo Gilmar – para evidenciar a impossibilidade de que ministros do STF sejam investigados. Ele tranca a Corte e manda recados. Não se pode saber nem quanto nem de quem a empresa de Dias Toffoli recebeu em suas transações com a teia vorcárica. Tampouco se pode saber quanto e a quem o fundo sócio da empresa de Dias Toffoli pagou – fundo que nos levará à Reag, enredada na Operação Carbono Oculto, sobre trânsitos entre PCC e mercado financeiro.

Mendes criou uma prevenção-puxadinho para si – relatorblindador de tudo quanto se refira à busca por dados sobre relações de ministros-empresários com Vorcaro. Dias Toffoli – a proteção a Dias Toffoli – sendo apenas objeto de partida. O cerceamento à prerrogativa investigatória das CPI, apenas parte do projeto. O recado é também ao banqueiro. Não valerá o esforço.

Entregar políticos do centrão bolsonarista, governadores ferrados, o PT baiano e burocratas do Banco Central é fácil – e o acordo que se tece poderia fazer ser suficiente. A delação de Vorcaro só será séria se detalhar também suas relações e de seus zetteis com ministros do STF. Não será.

segunda-feira, 16 de março de 2026

As ‘Memórias de Marcos Azambuja’ - Celso Lafer (O Estado de S. Paulo)

As ‘Memórias de Marcos Azambuja’
Celso Lafer
O Estado de S. Paulo, 15/03/2026
No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas ‘Memórias’ um paradigma do processo decisório diplomático

As Memórias de Marcos Azambuja, uma das mais notáveis figuras da diplomacia brasileira, acabam de ser publicadas. Foram instigadas pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), denso centro de análise sobre a política externa brasileira, ao qual Marcos se dedicou depois de sua aposentadoria no Itamaraty. No Cebri, Marcos encontrou até o seu falecimento, em maio de 2025, um espaço para uma renovada vida diplomática.

As Memórias são abrangentes na reflexão sobre a diplomacia brasileira. Resultam de três longas entrevistas. A primeira, em 1997, ao término de sua notável embaixada em Buenos Aires (1992-1997). Dela deflui uma excepcional análise da importância das relações Brasil-Argentina.

A segunda data de 2009. Amplia o escopo de sua reflexão, tratando desde o Tratado de Tlatelolco, do campo do desarmamento nuclear e de seus percalços. Inclui o bem-sucedido período da embaixada na França (1997-2003), indicando como uma missão diplomática requer a percepção do que é relevante para atuar num Estado a que está acreditado. É uma lição sobre as artes da diplomacia.

O terceiro depoimento foi colhido em 2025, já sob a expectativa de um arremate do impulso da publicação deste livro, que foi estruturado e organizado numa fluida e cativante narrativa por Gelson Fonseca Jr., Mônica Hirst e Alexandra de Mello e Silva.

O livro revela os ativos da personalidade, do modo de ser de Marcos como pessoa e diplomata. Retém o muito válido tom da oralidade, pois Marcos era um virtuoso da palavra falada, sempre apto a sintetizar com precisão e graça a natureza do que estava em jogo. Com perfeição a ele se ajustava a formulação de Octavio Paz: “A palavra que se ajusta ao movimento é pele – não prisão – de pensamento”.

Na Rio-92, evento inaugural da inserção multilateral do meio ambiente na pauta internacional, Marcos foi o qualificado coordenador das posições brasileiras. Discutindo comigo, o então chanceler, as dificuldades do andamento de um “novo”, ele observou: “Esta conferência é sui generis. É a expressão de uma diplomacia aberta que combina facetas de Yalta, da Conferência de São Francisco e a de Woodstock, da espontaneidade dos atores não governamentais. Daí suas dificuldades”.

Para Marcos, a diplomacia não é uma atividade pastoral de pregação de virtudes. Era um lúcido realista. Para ele, a “diplomacia é o âmago do poder”. “Requer bons modos para não bater de frente, mas é um exercício viril.” É um ofício que “requer polidez” para transmitir “exigências muito firmes”, que são as das necessidades da nação, para lembrar Vattel.

O lúcido realismo de Marcos estava atento à lição do Padre Antonio Vieira: “Perdemse as Repúblicas porque os seus olhos veem o que não é, e não veem o que é”.

O realismo de Marcos não era imobilista e conservador. Ele foi um realista esperançoso, atento ao olhar do potencial do novo. Nas suas palavras: “Sou um grande tradicionalista, que tem um imenso entusiasmo pelo novo”. As qualidades contrapostas deste oxímoro singularizam o modo de ser, da pessoa e do atuar de Marcos.

Marcos foi, por isso mesmo, um mestre no retratar e analisar transições, como destaca Gelson no seu prefácio. Essas transições foram significativas na sua carreira.

No âmbito do funcionamento do Itamaraty, a análise das transições faz destas Memórias um paradigma do processo decisório diplomático, iluminado pela perspectiva de “dentro” e não de “fora” da experiência de quem as viveu. Por exemplo, a Política Externa Independente, o Pragmatismo Responsável e as reorientações trazidas pelo fim da guerra fria.

Marcos analisa a passagem do Itamaraty tradicional para o Itamaraty no qual ingressou. Este modernizou-se e adquiriu institucionalidade com o ingresso na carreira de seus quadros pelo sistema de mérito, implantado pelo Instituto Rio Branco.

Marcos aprecia e valoriza o Itamaraty, ao qual dedicou sua vida. Entendeu que, pela qualidade de seus quadros e de sua dedicação ao tema do lugar do Brasil no mundo, é uma instituição focada em pensar o País. Nas suas palavras: “O Brasil é difuso e o Itamaraty consegue dar ao Brasil do momento o seu foco”. Um foco que combina memória e inovação, como explicitam as análises dos momentos de transição discutidas neste Memórias.

Eu penso que a avaliação de Marcos sobre o Itamaraty é justa. Faço essa observação na condição de estudioso das relações internacionais e de quem, não tendo sido diplomata de carreira, conviveu com o Itamaraty como ministro das Relações Exteriores em duas ocasiões e exerceu a função de embaixador. Por isso, refletindo sobre a experiência a respeito da minha atuação no Itamaraty, observei em sintonia com ele: o Itamaraty é uma instituição que tem autoridade no contexto da administração pública brasileira. Sua palavra é menos que um comando, mas é mais do que um conselho, para valer-me das características da autoridade na formulação de Mommsen.

quarta-feira, 11 de março de 2026

Opinião: Por uma política de Estado para investimentos - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Por uma política de Estado para investimentos
A ausência de uma política industrial e tecnológica de médio e longo prazos, resultado da falta de planejamento e previsibilidade, explica o enfraquecimento da indústria nacional
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 10/03/2026

Além das dificuldades do governo de implementar políticas macroeconômicas, em especial, para diminuir o risco de uma crise fiscal e reduzir a taxa de juros, a falta de uma política de Estado para os investimentos no Brasil está gerando problemas em setores críticos nas áreas de defesa, infraestrutura, comunicações, tecnologia e inteligência artificial, entre muitos outros.
A ausência de uma política industrial e tecnológica de médio e longo prazos, resultado da falta de planejamento e previsibilidade, explica o enfraquecimento da indústria nacional. Sem diretrizes claras, o custo Brasil impede o investimento em inovação tecnológica, capacitação de mão de obra e expansão produtiva, comprometendo a competitividade e a sustentabilidade no longo prazo.
Na área ferroviária, a indústria nacional perdeu recentemente todas as concorrências públicas e aquisições: de 24 trens de passageiros para Belo Horizonte fabricados na China (Consórcio Comporte CRRC); de 44 trens para o Metrô de São Paulo; 62 carros de passageiros para a Vale (2024); e 2 locomotivas (China); além dos 22 trens da Concessionária Trem Intercidades (TIC) São Paulo-Campinas, que inclui a operação da Linha 7-Rubi.
Essa perda existe pela falta de isonomia tributária, fazendo com que a indústria nacional perca contratos relevantes para concorrentes estrangeiros em razão do desequilíbrio tributário imposto pelos processos licitatórios públicos; pelo pregão eletrônico reverso, que, utilizado em licitações de grande porte, permite práticas predatórias. Empresas estrangeiras, especialmente chinesas, contam com apoio estatal que lhes possibilita ofertar preços abaixo do custo, inviáveis para a indústria nacional – por ex-tarifários indevidos, obtidos por empresas utilizando narrativas das condições de prazo e preço para benefícios que não deveriam ser concedidos, distorcendo a concorrência e prejudicando o setor brasileiro.
Na prática, empresas estrangeiras operam com respaldo de governos que subsidiam perdas, prática que inviabiliza a sobrevivência da indústria nacional. Com isso, milhares de empregos e renda deixaram de beneficiar a população brasileira, além dos prejuízos de arrecadação para os cofres públicos. A produção de 128 trens pela indústria nacional poderia ter gerado mais de 22 mil empregos diretos e indiretos no Brasil (sendo cerca de 20 mil no Estado de São Paulo), além de representar um aumento estimado de R$ 2,5 bilhões na massa salarial do País.
Na linha da falta de políticas na área de infraestrutura, 50% do volume de produtos agrícolas exportados pelo Brasil é embarcado pelos portos do Arco Norte Miritituba, Barcarena e Santarém. Todos os portos estão enfrentando gargalos cada ano mais sérios, pelo aumento da produção exportável, em razão dos problemas de melhoria e conservação das estradas que levam até os terminais. A ausência de uma política nacional de hidrovias fica evidente com as marchas e contramarchas nas concessões de hidrovias no Arco Norte, o que pode dificultar ainda mais o escoamento da produção agrícola. Essa situação se repete também no sul, como no Porto de Santos, agravada agora com a possibilidade de proibição da participação de armadores nacionais no principal leilão portuário da história recente, o do terminal de contêineres de Santos. A deficiência na infraestrutura se manifesta também na falta de armazenagem para acolher as crescentes safras e evitar perdas.
A ausência de políticas de Estado para investimentos pode também ser detectada, entre outros setores vulneráveis, na exploração de minérios críticos, na área de defesa, no setor elétrico, na infraestrutura digital e na construção de data centers, com a incerteza de aprovação da Redata, que previa incentivos para sua instalação.
Complementando esse quadro, com um comércio exterior que ultrapassa US$ 0,5 trilhão, chegou a hora de pensar na criação de um Eximbank brasileiro, para o apoio de financiamento das exportações industriais.
A ausência de uma política clara nessas áreas ficará ainda mais evidente com a entrada em vigência do Acordo Mercosul-União Europeia. A baixa competitividade da indústria brasileira, resultado de prioridades equivocadas e de ausência de vontade política para reduzir o custo Brasil, tornará difícil o acesso de produtos nacionais ao mercado europeu, mesmo com tarifa zero, para competir com companhias coreanas, chinesas, japonesas e mesmo europeias.
As oportunidades que o acordo com a União Europeia oferecerá para atrair investimentos em áreas de interesse brasileiro exigirão uma nova política para dar isonomia às empresas nacionais. Para permitir igualdade de condições, a empresa estrangeira que queira se estabelecer no Brasil deveria negociar com empresas nacionais joint ventures e associações, cumprindo, desde o início, as regras de conteúdo nacional estabelecidas pelo governo e pelo BNDES. Além de uma clara política de investimentos e de incremento na competitividade, para evitar o que ocorreu com a imposição e o recuo nos impostos de importação no setor eletro-eletrônico, em casos específicos e bem definidos as medidas de salvaguardas e de antidumping deveriam ser aplicadas em setores estratégicos para o País, com critérios objetivos e sem influência política.

PRESIDENTE DO GRUPO INTERESSE NACIONAL, É MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/por-uma-politica-de-estado-para-investimentos/

segunda-feira, 9 de março de 2026

Após boa virada de ano, é hora da diplomacia - Rolf Kuntz (O Estado de S. Paulo)

 Opinião

Após boa virada de ano, é hora da diplomacia
Depois das notícias positivas na economia que marcaram a passagem de 2025 para 2026, é essencial cuidar da incerteza externa
Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo, 08/03/2026
https://www.estadao.com.br/opiniao/rolf-kuntz/apos-boa-virada-de-ano-e-hora-da-diplomacia/

Emprego e renda bateram recordes na virada do ano, segundo balanço divulgado na quinta-feira, mas o principal destaque, nos grandes órgãos de comunicação, foi o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Acusado de golpes financeiros, ele foi trancado numa cadeia no interior de São Paulo. Grandes títulos foram dedicados também à tentativa de suicídio, em Belo Horizonte, de seu cúmplice Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário.
O destaque a figurões do crime é tão justificável quanto útil, mas o prosaico noticiário econômico também pode merecer alguma atenção, especialmente num país ainda em busca do desenvolvimento.
Notícias positivas marcaram a passagem de 2025 para 2026. O rendimento real dos trabalhadores cresceu, o desemprego diminuiu e a ocupação aumentou, num cenário prejudicado por uma inflação distante do centro da meta, fixado em 3% para períodos de 12 meses.
A massa de rendimento habitual dos trabalhadores, de R$ 370,3 bilhões, foi recorde da série histórica. A população ocupada – 102,7 milhões de pessoas – foi recorde. Além disso, os 5,9 milhões de pessoas desocupadas no trimestre encerrado em janeiro formaram o menor contingente da mesma série. Esse grupo correspondeu a 5,4% da população economicamente ativa.
Os dados de emprego e de rendimento valorizam o crescimento de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025. Essa taxa pode ser – ou parecer – modesta para uma grande economia ainda classificada como emergente. Mas indica, juntamente com o avanço do emprego, certa melhora das condições experimentadas por dezenas de milhões de pessoas. Essas condições permanecem modestas, num país onde a formação da mão de obra é deficiente e a renda continua muito concentrada.
Mas há sinais de progresso, como a expansão do consumo nos últimos anos, a formação melhor e mais ampla da mão de obra e sensível diminuição da pobreza extrema. Entre 2021 e 2024, a parcela das famílias com renda domiciliar inferior a US$ 6,85 por pessoa diminuiu de 36,8% para 23,1%. Aquelas com renda pessoal menor que US$ 2,15 passaram de 9% para 3,5% nesse período. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A melhora na virada do ano de nenhum modo garante um avanço duradouro ao longo de 12 meses. Esse avanço depende tanto da expansão econômica e da evolução do emprego quanto da variação dos preços, isto é, do quadro de inflação. Por enquanto, algumas projeções apontam perspectivas favoráveis. Segundo as estimativas coletadas para o boletim Focus, elaborado semanalmente pelo Banco Central, a inflação deve recuar para 3,91% em 2026. Será um ganho para os consumidores e para a ordenação da economia, mas esse resultado ainda ficará bem acima da meta oficial.
Além da inflação em queda, o boletim aponta um dólar cotado a R$ 5,40 no fim do ano. Qualquer projeção referente ao câmbio é muito arriscada, num período de muita instabilidade na política internacional. Mas a expectativa de um dólar mais contido combina bem com um quadro de inflação declinante. Esse quadro comporta alguma redução dos juros. A taxa básica deve cair, segundo a mediana projetada no boletim, para 12%. Se essa estimativa estiver correta, o crédito ainda será muito caro, mas, ainda assim, a redução poderá produzir resultados apreciáveis.
A melhora nos juros, no crédito e na disposição dos empresários dependerá em grande parte da condução da política econômica pelo governo. Os dirigentes do Banco Central (BC) têm mostrado boa vontade e disposição de cooperar com o Executivo, mas também têm reafirmado o compromisso de manter prudência nas decisões sobre sua política. Parece muito improvável, neste momento, um afrouxamento monetário significativo sem uma clara demonstração de prudência pelo presidente da República. E Luiz Inácio Lula da Silva continua devendo essa demonstração, embora tenha apresentado, em algumas ocasiões, um discurso promissor.
Do lado externo, as contas do Brasil continuam satisfatórias. Mas o quadro internacional é marcado por graves conflitos e por muita insegurança. A guerra no Oriente Médio já evidenciou perigos para o comércio global e para o fluxo de matérias-primas importantes, por exemplo, para a agricultura brasileira. A diplomacia de Brasília tem preservado a tradição de equilíbrio e de conciliação, mas desafios significativos podem surgir a qualquer momento.
O governo do presidente Lula tem mantido bom entendimento com as autoridades americanas e de outras áreas importantes, como a Europa Ocidental, a Rússia e a China. Mantido o cenário global, o trabalho diplomático de Brasília será tão relevante, no curto e no médio prazos, quanto o dos ministérios econômicos. Embora permaneça a boa relação com os Estados Unidos e, de modo especial, entre os chefes de governo dos dois países, um surto belicoso do presidente Donald Trump poderá complicar todo o cenário. O ataque americano ao Irã, nos últimos dias, mostra a importância de levar em conta essa hipótese.
Opinião por Rolf Kuntz

sábado, 7 de março de 2026

Reflexões de Thomas Friedman sobre a destruição do Irã (O Estado de S. Paulo)

 A ponderacão de Thomas Friedman no New York Times, traduzida no Estadão de hoje, merece ser lida, mesmo que não se concorde necessariamente com seus comentários.

Wylmar Buzzatto

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A guerra em quatro pensamentos

Thomas Friedman

O Estado de S. Paulo, 03 de mar. de 2026

Queda do regime melhoraria o Oriente Médio, mas não será fácil derrubá-lo.

Para pensar com clareza sobre guerras no Oriente Médio, é preciso raciocinar com vários cenários em mente. Falamos de uma região complexa e caleidoscópica, onde religião, petróleo, políticas tribais e políticas de grandes potências se entrelaçam. Se você busca uma narrativa maniqueísta, talvez seja melhor consultar outras fontes. Eis meus quatro pensamentos sobre Irã – ao menos até hoje.

1. Primeiro, espero que esse esforço para derrubar o regime clerical de Teerã seja bem-sucedido. Trata-se de um regime que assassina seu povo, desestabiliza vizinhos e destruiu uma grande civilização. Nenhum evento isolado contribuiria mais para colocar o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança com foco exclusivo em capacitar o povo iraniano para realizar seu pleno potencial, com uma voz real, em seu próprio futuro.

2. Segundo, isso não será fácil, porque o regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado por meio apenas de uma ofensiva aérea. Israel não conseguiu eliminar o Hamas em Gaza após mais de dois anos de uma guerra implacável por terra e ar – eo Hamas está bem ao lado. Dito isto, mesmo que não ocasione a revolta do povo iraniano que o presidente Trump tanto incentiva, este ataque contra o Irã poderá surtir outros efeitos benéficos e imprevistos, como a criação de uma república islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e seus vizinhos. Mas também pode resultar em perigos imprevistos, como a desintegração do Irã enquanto ente geográfico único.

3. Em terceiro lugar, devemos lembrar que o momento do fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e financeiros quanto pela situação militar interna do Irã. O Irã está à beira do colapso econômico, com uma moeda que não vale quase nada. A Europa tornouse muito mais dependente do gás natural liquefeito do Golfo Pérsico para sustentar suas economias, desde que reduziu as compras da Rússia. Uma onda inflacionária prolongada, causada pelo aumento dos preços da energia, irritaria a base de Trump, onde muitos já não gostam de ser arrastados para mais uma guerra no Oriente Médio. Há muita gente desejando que esta guerra seja curta, e isso influenciará como e quando Trump e Teerã negociarão.

4. Em quarto lugar, não devemos permitir que esta guerra – para levar democracia e estado de direito ao Irã – nos distraia da ameaça à democracia e ao estado de direito representada por Trump nos EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em Israel. Trump quer promover esses ideais em Teerã mesmo enquanto seus agentes do ICE atuaram por dois meses com pouco respeito às leis em meu estado natal, Minnesota, e enquanto ele cogita restringir eleitores em nossa próxima eleição. A guerra no Irã permitir que Netanyahu vença as eleições israelenses planejadas para este ano será um grande impulso para seus esforços de anexar a Cisjordânia, enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um Estado de apartheid – um grande golpe para os interesses americanos na região além do Irã.

A vida de colunista seria fácil se todo conflito fosse a Guerra Civil Americana e todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então analisemos um pouco mais a fundo essas quatro reflexões sobre o Irã.

Embora você jamais soubesse se desse ouvidos à esquerda universitária, a república islâmica do Irã é a maior potência imperialista da região desde 1979, cultivando aliados para controlar Síria, Líbano, Iraque e Iêmen – minando reformistas progressistas e promovendo divisões sectárias nos quatro.

O enfraquecimento de Teerã, graças aos golpes contundentes de Israel e EUA nos dois anos recentes, levou à queda do regime de Bashar Assad na Síria e permitiu ao Líbano escapar do domínio do Hezbollah, o que, por sua vez, abriu espaço para o governo mais decente do país em décadas – liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph Aoun. É por isso que a morte do aiatolá Ali Khamenei está sendo celebrada, discretamente ou ruidosamente, em toda a região.

Além disso, o povo iraniano está entre os mais pró-Ocidente da região. Se esse impulso for capaz de emergir e se espalhar, substituindo o veneno sectário e radical islâmico propagado pelo regime iraniano, haverá possibilidade de um Oriente Médio muito mais inclusivo.

INDIGNAÇÃO. Como me disse o estrategista Nadim Koteich, não é por acaso que um dos cânticos mais populares dos manifestantes antirregime no Irã seja: “Nada de Gaza, nada de Líbano. Minha vida pelo Irã”. Muitos iranianos estão revoltados ao ver seus recursos desperdiçados em milícias que lutam contra Israel. Também não é por acaso, observou Koteich, que o Irã acaba de lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados árabes do Golfo em processo de modernização.

“Eles estão atacando a infraestrutura de abertura e integração e os Acordos de Abraão. O velho Oriente Médio atacando o novo Oriente Médio”, acrescentou Koteich. A morte de Khamenei,

tomara, “representa a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio deveria se definir pela resistência e não por inclusão e integração”.

Tomara também que isso acabe com o jogo duplo praticado por Khamenei e seus antecessores, como Mahmoud Ahmadinejad – que foi presidente do Irã de 2005 a 2013 e também foi morto em um ataque aéreo israeloamericano – de que o Irã tem o direito de gritar abertamente “Morte aos EUA” e “Morte a Israel” e, ao mesmo tempo, alegar que também tem o direito de ser tratado como a Dinamarca, ou enriquecer urânio para fins “pacíficos”.

Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse jogo.

Quanto à união do povo iraniano para derrubar o regime, é difícil imaginar que isso aconteça em breve sem um líder claro e uma agenda comum.

TEOCRACIA 2.0. Analistas iranianos dizem que o resultado mais provável é uma espécie de república islâmica 2.0, na qual os principais reformistas – como Hassan Rohani, o sétimo presidente do Irã, de 2013 a 2021, um crítico cada vez mais ferrenho da linha-dura de Khamenei, ou o ex-chanceler e negociador nuclear Javad Zarif – pressionem a liderança remanescente a negociar um acordo com Trump. Esse pacto poderia incluir o fim do programa nuclear iraniano e limites às suas guerras por procuração e mísseis balísticos – em outras palavras, tudo o que Trump quiser – em troca do fim das sanções econômicas e da sobrevivência do regime.

Essa república islâmica 2.0 poderia então ser capaz de organizar uma transição para uma democracia verdadeira. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de dar uma tábua de salvação a um regime moribundo que recentemente matou pelo menos 6,8 mil manifestantes, segundo a agência de notícias Human Rights Activists, sediada nos EUA, provavelmente muito mais. Em outras palavras, iniciar esta guerr foi relativamente fácil; encerrá-la será difícil.

NEGOCIAÇÃO. Mas um acordo desse tipo pode ser tentador para Trump, por evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada pela disparada dos preços do petróleo ou a desintegração do Irã. Por isso, não me surpreendeu ouvir Trump dizer à revista The Atlantic: “Eles querem conversar, e eu concordei, então vou conversar com eles”.

Como já observei nesta coluna, no Oriente Médio, o oposto de autocracia não é necessariamente democracia. Com frequência é desordem. Porque quando ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece: ou elas implodem, como a Líbia, ou explodem, como a Síria.

Os persas representam apenas cerca de 60% da população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente azerbaijanos, curdos, luros, árabes e balúchis. Cada uma delas tem ligações com terras fora do Irã, especialmente os azerbaijanos com o Azerbaijão e os curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um a se separar e, na prática, explodir o Irã.

DESMEMBRAMENTO. O Irã testemunhou o colapso de governos e quedas de governantes ao longo de sua história. Em todas as ocasiões, “o país permaneceu intacto”, disse Koteich. “Pela primeira vez, não tenho certeza se o Irã permanecerá intacto.”

Se você quer o barril do petróleo a US$ 150, esse tipo de desintegração ocasionaria isso. As exportações de petróleo do Irã – de 1,6 milhão de barris diários, destinados principalmente à China – seriam completamente retiradas do mercado global. Cerca de 20% de todo o comércio de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, que o Irã tem capacidade de fechar. Os preços dos seguros para navios petroleiros já estão disparando, e cerca de 150 petroleiros no Golfo Pérsico estariam parados.

Enquanto isso, em Pequim, o presidente Xi Jinping deve estar se perguntando como seus sistemas de armas se comparariam aos fornecidos pelos EUA a Taiwan, depois de ver caças e mísseis inteligentes de fabricação americana burlar facilmente ou destruir os sistemas antiaéreos iranianos, de origem russa, e matar grande parte da elite de segurança nacional do Irã dentro de suas casas e escritórios. Talvez não seja esta a semana para invadir Taiwan – nem a próxima.

Mas esta pode ser uma boa semana para Pequim ver todo o povo iraniano dançando espontaneamente nas ruas para celebrar a morte de Khamenei e se perguntar se a República Popular da China deveria ter sustentado seu regime com compras de petróleo durante todos esses anos. Talvez devesse ter estado do lado do povo iraniano.

URNAS. É muito cedo para prever como esta guerra influenciará duas eleições cruciais este ano – em Israel e nos EUA. Para Trump, a coisa é simples. Ele não quer ver seu nome associado com a palavra “atoleiro” em nenhuma manchete antes das eleições de meio de mandato, em novembro. Quanto a Netanyahu, posso imaginá-lo convocando eleições antecipadas para usar a queda do regime iraniano para se manter no poder. Mas uma vitória sobre o Irã também poderia complicar sua política.

Netanyahu derrotou militarmente a curto prazo o Hamas, a Jihad Islâmica, o Hezbollah e o Irã, mas não transformou nenhuma dessas vitórias em ganhos diplomáticos ou políticos de longo prazo. Para isso, ele precisaria concordar em negociar novamente com os palestinos com base na estrutura de dois Estados para dois povos.

A oportunidade para Israel pode ser enorme: se a república islâmica do Irã for derrubada ou enfraquecida, não tenho dúvidas de que Arábia Saudita, Líbano, Síria, Omã, Catar, Kuwait e talvez até o Iraque se sentiriam muito mais confortáveis em normalizar as relações com Israel – sob a condição de que Netanyahu não anexe Gaza nem a Cisjordânia, mas concorde com um plano de separação e uma solução de dois Estados. Netanyahu aproveitará essa oportunidade? Os eleitores israelenses o puniriam se ele não o fizer?

Mas estou me adiantando. Imagino que até amanhã haverá pelo menos mais três pontos em competição na minha cabeça tentando dar sentido a isso tudo, porque este é o momento mais imprevisível no Oriente Médio desde a revolução iraniana de 1979. Tudo – e o contrário disso – é possível. •

sábado, 17 de janeiro de 2026

A alardeada política externa altiva de Lula negou fogo justo quando era mais necessária - Rogério Werneck (O Estado de S. Paulo)

Opinião
A alardeada política externa altiva de Lula negou fogo justo quando era mais necessária
A posição difícil em que se meteu o governo Lula decorreu de longa sucessão de erros do passado, que o deixou implicado até o pescoço na sobrevida de Maduro como presidente da Venezuela
Por Rogério Werneck
O Estado de S. Paulo, 15/01/2026 | 22h00
https://www.estadao.com.br/economia/rogerio-werneck/a-alardeada-politica-externa-altiva-de-lula-negou-fogo-justo-quando-era-mais-necessaria/

A intervenção militar do governo Donald Trump na Venezuela, seguida de ameaças à Colômbia, justo no início do ano eleitoral, trouxe enorme desconforto ao presidente Lula. Tudo indica que não se trata de um desgaste pontual. Muito pelo contrário, é bem provável que notícias da Venezuela continuem a assombrar o presidente a cada dia da longa campanha de reeleição que tem pela frente.
O mais grave do episódio é ter marcado extemporânea volta à América do Sul da gunboat diplomacy dos Estado Unidos, um termo cuja tradução modernizada deveria passar a ser diplomacia de porta-aviões.

Para o Brasil, que jamais escondeu suas pretensões de proeminência na região, o episódio se revestiu de gravidade redobrada. Em condições normais, o que se deveria esperar era a liderança brasileira em protestos veementes dos países da região à volta da diplomacia de porta-aviões à América do Sul.
Não foi o que se viu. Ao final de longa reunião de emergência da cúpula do governo, descrita por um participante como um “desfile de dúvidas”, a montanha pariu um rato: uma nota frouxa e tímida em que o Planalto nem mesmo se arriscou a mencionar os nomes de Trump e Nicolás Maduro.

O próprio governo deixou claro que se metera numa saia justa. E que o oportunismo prevalecera: a esta altura, não estava disposto a botar a perder a suposta “boa química” que o presidente Lula conseguira desenvolver com o presidente Trump, da qual pretendia fazer bom uso na campanha da reeleição.
Na verdade, a posição difícil em que se meteu o governo Lula decorreu de longa sucessão de erros cometidos no passado, que o deixou implicado até o pescoço na sobrevida de Maduro como presidente da Venezuela.
Ao final de muitos anos de absurda contemporização com toda sorte de abusos dos governos chavistas, o Brasil simplesmente perdeu o respeito de outros países sul-americanos quanto à questão venezuelana.
Basta lembrar as espinafrações, à direita e à esquerda, que Lula teve de ouvir dos presidentes Lacalle Pou, do Uruguai, e Gabriel Boric, do Chile, no final de maio de 2023, quando se permitiu declarar, em uma reunião de países da região, em Brasília, que a questão dos direitos humanos na Venezuela não passava de uma “construção narrativa”.
Justo agora, quando sua alardeada política externa altiva se tornou mais necessária, Lula, entalado com está, se vê sem condições de desempenhar o papel que a gravidade do momento exige. Chegou a conta da forma irresponsável com que, por anos, o Planalto se dispôs a respaldar os desmandos do chavismo.

Opinião por Rogério Werneck
Economista, doutor pela Universidade Harvard, é professor titular do departamento de Economia da PUC-Rio

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A estratégia dos EUA e a Doutrina Monroe - Rubens Barbosa O Estado de S. Paulo

 Opinião

A estratégia dos EUA e a Doutrina Monroe
A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 09/12/2025

O governo Trump divulgou, na semana passada, sua Estratégia de Segurança Nacional, em que define a visão de médio e longo prazo dos EUA, as prioridades internas e externas e o relacionamento de Washington com as regiões globais. O pragmatismo e o realismo da política externa dos EUA têm como único objetivo, como ressaltado no documento, proteger os interesses nacionais fundamentais e colocar os EUA em primeiro lugar.
Embora assinalando que “dar atenção constante à periferia é um erro”, a estratégia norte-americana, quando discute o que os EUA querem do mundo e o que esperam receber do mundo, coloca, pela primeira vez, seus interesses no Hemisfério Ocidental antes da China, da Europa, do Oriente Médio e da África e marca uma ruptura histórica com a ordem mundial depois de 1945.
Dada a relevância para o Brasil, o presente artigo trata apenas dos trechos do documento que se referem às Américas:
“Os EUA devem ser preeminentes no Hemisfério Ocidental como condição para nossa segurança e prosperidade — uma condição que nos permita afirmar nossa presença com confiança onde e quando precisarmos na região. Queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa para os EUA; queremos um hemisfério cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou da apropriação de ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, vamos afirmar e fazer cumprir um ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe”.
“Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e proteger nossa pátria e nosso acesso a regiões-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes de fora do hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso hemisfério. Este ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe é uma restauração sensata e eficaz do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos EUA. Nossos objetivos para o Hemisfério Ocidental podem ser resumidos em ‘atração e expansão’. Buscaremos apoio dos aliados já estabelecidos no hemisfério para controlar a migração, deter o fluxo de drogas e fortalecer a estabilidade e a segurança em terra e no mar. Expandiremos, cultivando e fortalecendo novas parcerias, ao mesmo tempo em que reforçamos a posição de nossa nação como o parceiro preferencial em termos econômicos e de segurança no hemisfério. A política americana deve concentrar-se em angariar aliados regionais que nos ajudariam a deter a imigração ilegal e desestabilizadora, neutralizar cartéis, impulsionar a produção em áreas próximas aos EUA e desenvolver empresas privadas locais, entre outras áreas. Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados com nossos princípios e estratégia. Mas não devemos ignorar governos com perspectivas diferentes, com os quais, ainda assim, compartilhamos interesses, e que desejam trabalhar conosco”.
“A escolha que todos os países devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos EUA, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo”.
Com esses objetivos, em resumo, os EUA pretendem reconsiderar sua presença militar no Hemisfério Ocidental, aumentar a presença da Guarda Costeira e da Marinha para garantir a segurança da fronteira e derrotar os cartéis, incluindo, quando necessário, o uso de força letal. A diplomacia comercial visará fortalecer a economia e as indústrias americanas, utilizando tarifas e acordos comerciais recíprocos como ferramentas para fortalecer as cadeias de suprimentos críticas no hemisfério. O Conselho de Segurança Nacional, inclusive, da Comunidade de Inteligência, iniciará um processo para identificar recursos estratégicos no Hemisfério Ocidental.
A preocupação com a China está presente quando o documento acentua que qualquer tipo de ajuda dos EUA deve estar condicionada à redução gradual da influência externa adversária – instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo aquisição de ativos estratégicos, entre outros. A redução da influência chinesa no Hemisfério Ocidental foi obtida com a demonstração dos custos ocultos – em espionagem, segurança cibernética, dívida – embutidos na assistência externa de “baixo custo”.
A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo o secretário da Guerra). O Corolário Trump da Doutrina Monroe cria grandes desafios para a política externa do PT, levando em conta a dependência comercial da China e o forte viés antiamericano expresso pelos governos Lula e Dilma ao longo dos 20 anos em que o partido ocupou o poder.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e ex-embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004), Rubens Barbosa escreve mensalmente na seção Espaço Aberto.

Doutrina Trump e a nova desordem global Editorial, O Estado de S. Paulo

Doutrina Trump e a nova desordem global

Editorial, O Estado de S. Paulo (09/12/2025)

Casa Branca rompe oficialmente com a ordem de 1945 e transforma aliados em alvos e o Hemisfério Ocidental em zona de influência, ao mesmo tempo que acomoda autocracias como Rússia e China

As Estratégias de Segurança Nacional dos Estados Unidos costumavam ser documentos programáticos. A de Donald Trump, divulgada na semana passada, é a codificação de uma ruptura doutrinária. Pela primeira vez desde 1945, Washington abdica explicitamente da gramática que sustentou a ordem liberal – alianças, previsibilidade, contenção e distinção moral entre democracias e autocracias. A administração Trump oferece, em seu lugar, um amálgama de identitarismo, interesses imediatos e transações personalistas. Trata-se de uma visão de mundo tão improvisada quanto radical. E, ainda assim, suficientemente articulada para reconfigurar o sistema internacional.

O abandono da ordem pós-1945 é explícito. O documento não fala em “mundo livre” nem em liderança democrática, mas em soberania absoluta, competição civilizacional e “realismo flexível”. Regras importam menos do que preferências; compromissos, menos do que barganhas. A política externa americana deixa de ser fiadora da ordem liberal e assume a lógica das esferas de influência – inclusive reconhecendo, de modo tácito, a da Rússia. A distinção entre aliados e autocratas dissolve-se na medida em que ambos são avaliados segundo um critério único: a utilidade imediata para os EUA.

Esse revisionismo é mascarado por um discurso de retração. Trump promete não impor valores e evitar aventuras externas, mas o documento advoga abertamente por intervir no debate interno europeu, apoiar movimentos nacionalistas e remodelar o equilíbrio político do continente. É uma doutrina anti-intervencionista que intervém, e se diz pacifista enquanto militariza o Caribe. Nada disso sinaliza coerência, mas sinaliza poder. A Europa, em particular, aparece não como parceira estratégica, mas como alvo ideológico. Governos eleitos são descritos como elites ilegítimas, a imigração é tratada como ameaça civilizacional, e a União Europeia, como entrave à liberdade. O efeito imediato é a erosão da confiança transatlântica; o efeito de longo prazo é o enfraquecimento da Otan e o incentivo ao irredentismo russo.

No Hemisfério Ocidental, a ruptura é ainda mais profunda. O chamado “Corolário Trump” à Doutrina Monroe (“América para os americanos”, de 1823) transforma a região em prioridade militar dos EUA, com operações letais contra cartéis, presença naval ampliada e vigilância sobre minerais estratégicos e cadeias críticas. Países “alinhados” são recompensados; governos divergentes, tolerados, desde que cooperem em migração, crime organizado e contenção de potências extrarregionais. Para o Brasil, isso implica maior pressão sobre 5G, terras raras, portos e parcerias com a China. Trata-se, em essência, da restauração de uma esfera de influência cuja legitimidade o próprio Direito Internacional já havia repudiado.

O pano de fundo é a normalização das autocracias. O documento ignora violações russas, poupa ditaduras do Golfo Pérsico, suaviza críticas à Índia e reenquadra a China de rival geopolítica a mera concorrente econômica. Democracias são admoestadas; autocratas, bajulados. A bússola moral que guiou a política externa americana desde Truman (1945-1953) é substituída pelo pragmatismo de curto prazo – e, paradoxalmente, por uma retórica civilizacional que ecoa movimentos antiliberais em todo o Ocidente.

Nenhuma dessas escolhas torna os EUA mais seguros. Ao contrário: a estratégia incentiva as aventuras de Moscou, fragiliza a coesão europeia, aprofunda a competição sino-americana e transforma o continente americano em palco de tensões que poderiam ser geridas diplomaticamente. Mais grave: desmoraliza a noção de que a força norte-americana é inseparável das normas que ela própria ajudou a criar.

Resta uma dúvida: até que ponto essa doutrina sobreviverá ao próprio Trump? A incoerência interna, o caráter volátil do presidente e a resistência de instituições americanas talvez limitem sua implementação. Mas a simples existência dessa estratégia – articulada, oficial e ideologicamente carregada – já prenuncia uma era pós-liberal. Uma era em que a ordem construída em 1945 deixa de ser horizonte e passa a ser, para Washington, apenas uma lembrança incômoda.


terça-feira, 28 de outubro de 2025

O que esperar da COP-30 - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

O que esperar da COP-30

A COP-30 foi pensada como uma conferência que transcende a imagem restritiva de um encontro climático

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 28/10/2025

        A tão falada e esperada COP-30 terá início na próxima semana. Desde 2023, o governo brasileiro vem trabalhando para que a COP-30 se consolide como marco não apenas para o fortalecimento do multilateralismo, mas também para sua evolução rumo a uma nova era de governança global fortalecida.
        As bem-sucedidas presidências brasileiras da Cúpula da Amazônia (Belém, agosto de 2023), do G-20 (2024) e do Brics (2025), bem como o protagonismo brasileiro na COP-28 (Dubai, dezembro de 2023) e na COP-29 (Baku, novembro de 2024), permitiram desenhar uma linha de pensamento e ação na área de mudança do clima capaz de enfrentar os desafios do século 21, de ameaças difusas e grandes transformações nos cenários econômico e político globais, em que o avanço tecnológico e as preocupações com o meio ambiente e as mudanças climáticas ganham um papel de relevo.
        A COP-30 foi pensada como uma conferência que transcende a imagem restritiva de um encontro climático. Além das expectativas da sociedade civil em torno de uma “COP social”, trata-se de um momento potencialmente definidor para o futuro da governança global, que vai muito além do seu papel convencional de conferência climática. Tal perspectiva reflete uma realidade em que geopolítica, comércio, desenvolvimento, paz e segurança, estabilidade financeira, inflação, emprego, política fiscal e monetária, tecnologia e integridade da informação, democracia e combate às desigualdades, fome e pobreza passaram a fazer parte de agendas que impactam e são impactadas, em todos os níveis, do local ao global.
        Para a política interna, a COP-30 poderá servir de plataforma para que o Brasil se consolide na vanguarda da economia do futuro, permitindo ao País não só aproveitar, como também moldar um novo ciclo de prosperidade definido pelas transições energética, digital e bioeconômica, acompanhadas por avanços no combate às desigualdades. A agenda de transições justas para uma economia de baixo carbono poderá ajudar a definir um novo caminho para o desenvolvimento brasileiro.
        A presidência brasileira da COP teve um papel relevante na preparação e no desenvolvimento da agenda do encontro em torno de três objetivos: 1) reforçar o multilateralismo e o regime climático sob a Convenção do Clima e seu Acordo de Paris; 2) conectar o regime climático à vida real das pessoas, inclusive como vetor de prosperidade, desenvolvimento e combate à desigualdade, no quesito fome e pobreza; e 3) acelerar a implementação do Acordo de Paris, envolvendo atores públicos e privados e ajustes estruturais na governança global e na arquitetura financeira internacional.
        A presidência brasileira convocou um “mutirão global” contra a mudança do clima, em quatro frentes de atuação: Mobilização Global, com quatro Círculos de Liderança – o “Círculo dos Presidentes das COP”, presidido por Laurent Fabius, presidente da COP-21; o “Círculo dos Povos”, liderado pela ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara; o “Círculo de Ministros da Fazenda”, presidido pelo ministro Fernando Haddad; e o “Círculo do Balanço Ético Global”, liderado pela ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Negociações formais incluem cerca de 20 temas substantivos, entre os quais adaptação e transições climáticas justas. Agenda de Ação – envolve atores públicos e privados (governos subnacionais, setor privado, sociedade civil), durante a COP. Cúpula de Líderes, tratando de temas politicamente sensíveis que poderão dar o tom para o sucesso da COP-30, com anúncios de alto nível, em áreas como fome e pobreza, energia e florestas, entre os quais o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
        A COP-30 marca o início do segundo ciclo de ambição do Acordo de Paris com a apresentação das novas metas climáticas para 2035 pelos países-membros, por meio de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Além da apresentação das NDCs e do relatório com soluções para o incremento do financiamento climático para países em desenvolvimento, a COP-30 deverá avançar em três dimensões: 1) dar seguimento e melhor detalhamento a metas globais de transição energética e do “fim do desmatamento e sua reversão até 2030”, adotadas pela COP-28 sob o Balanço Global do Acordo de Paris; 2) atender aos anseios de países em desenvolvimento quanto aos impactos de medidas unilaterais de comércio sobre o desenvolvimento sustentável; e 3) há expectativa em relação à presidência brasileira quanto à inflexão sem precedentes para colocar as pessoas no centro da pauta climática e de desenvolvimento, inclusive via oportunidades para empregos, renda, qualidade de vida, redução da inflação, saúde e combate às desigualdades, fome e pobreza.
        Embora não constando formalmente da agenda negociadora, as seis áreas-chave mencionadas – multilateralismo; NDCs; pessoas; comércio; energia e florestas; e financiamento climático – colocar-se-ão, substantivamente, como medidas do sucesso da COP-30. O pacote político de Belém deverá finalmente ser lastreado por entregas mínimas na agenda formal das negociações, sobretudo quanto aos indicadores para o Objetivo Global de Adaptação – principal tema negociador mandatado para a COP-30 e ao programa de trabalho sobre transições justas.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004).

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião:

Projeto Cachoeira Seca: exemplo a ser seguido

Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 23/09/2025
        Muito se tem discutido sobre os desafios e oportunidades que a região amazônica apresenta para o governo e para o setor privado. Entre outros, são eles representados pelo desmatamento, pelas queimadas e pelo garimpo ilegal, inclusive nas terras indígenas. A ameaça à soberania nacional, pela crescente presença do crime organizado, torna mais difíceis as iniciativas para aproveitar a biodiversidade em favor da população local e para levar a riqueza da região aos povos nativos.
        Um dos temas mais importantes quando se trata do desenvolvimento da Amazônia é a questão do aproveitamento das riquezas da região pelas comunidades indígenas. O artigo 231 da Constituição prevê que as terras tradicionalmente ocupadas pelos indígenas são destinadas a ser por eles ocupadas para sempre, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Sem uma regulamentação mais precisa, essa disposição nem sempre é cumprida e em alguns casos, é flagrantemente desrespeitada, como no caso do garimpo ilegal e do desmatamento em terras indígenas.
        Algumas iniciativas em curso na Amazônia para o crescimento e a melhoria das condições sociais dos povos nativos merecem ser ressaltadas, como importante contribuição para o desenvolvimento econômico da região e para tornar efetivo o cumprimento constitucional. É o caso do projeto Cachoeira Seca, desenvolvido pela comunidade indígena Arara.
        Trata-se do desenvolvimento do maior projeto de carbono em área indígena no Brasil, já de acordo com a lei que regula as bases do mercado de carbono, com todas as aprovações já obtidas, depois de consultas à comunidade, sob a supervisão da Funai e do Ministério Público Federal. O projeto socioeconômico está em andamento para melhorias efetivas para a comunidade e a geração de 1,8 milhão de toneladas/ano de créditos de carbono durante os próximos dez anos.
        A área total da reserva compreende 734.000 hectares da floresta amazônica, rica em biodiversidade e funcionalidade do ecossistema, e está hoje sob pressão pela ocupação ilegal de terras, derrubada seletiva, desflorestamento e mineração. Da área total, aproximadamente, 50 mil hectares já foram devastados e serão objeto de projeto de restauração florestal.
        O território indígena Cachoeira Seca, localizado nos municípios de Altamira (76%), Placas (17%) e Uruará (7%), no Pará, vai beneficiar cerca de 50 famílias indígenas. Todas essas municipalidades são alvos de prevenção prioritária de deflorestação, atividades de monitoramento e controle pelo governo federal. Na realidade, o projeto Cachoeira Seca perdeu mais de 70 mil hectares de floresta natural até 2024. Existem algumas iniciativas de prospecção mineral, ligadas especialmente ao ouro e ao minério de ferro, o que impõe ameaça aos recursos naturais (solo e água) e à vida selvagem do território.
        Levando em conta que a maior parte da área está ainda coberta por florestas nativas e habitadas pelo povo Arara, o projeto Cachoeira Seca representa uma parte crucial da floresta a ser preservada – por reduzir as emissões de GHG (gases de efeito estufa, na sigla em inglês), por preservar a sua biodiversidade e por reconhecer a governança do povo indígena sobre sua terra.
        De fato, essas pressões representam ameaças à valiosa cultura tradicional, herança e modo de vida dos povos indígenas que habitam o projeto. Nos anos recentes, ocorreram frequentes conflitos entre as populações indígenas tradicionais e o crime organizado, que tenta tomar posse da terra para a extração de madeira, expansão da agricultura e transações especulativas de terras. Manter as comunidades indígenas em seus territórios, protegidos de agentes destrutivos como desmatadores ilegais e ocupantes de terra, assegura a preservação da biodiversidade da floresta, na medida em que as práticas tradicionais apoiam o equilíbrio ecológico do ecossistema.
        Um censo socioeconômico vai ser conduzido na comunidade indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, que servirá como uma base para planejar e implementar atividades que ofereçam melhoria do bem-estar social, acesso à educação básica e a serviços de saúde para mais de 350 indígenas. Algumas iniciativas servirão também para criar fontes de renda sustentáveis que poderão gerar a independência do povo Arara.
        O projeto, que visa dar relevo ao papel da conservação, do manejo sustentável e do aumento de estoques de carbono florestal, foi desenvolvido pelo REDD+, sigla para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal. Trata-se de mecanismo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), que oferece incentivos financeiros a países em desenvolvimento para que reduzam o desmatamento e a degradação das florestas, além de conservarem e aumentarem os estoques de carbono.
        O principal objetivo do Projeto REDD+ dos povos Arara é evitar um desmatamento sem planejamento, dentro do território indígena Cachoeira Seca. Deve ser ressaltado que haverá a destinação de 70% do resultado líquido do projeto à comunidade indígena e 5% para um instituto que visa realizar pesquisas para o desenvolvimento da bioeconomia da floresta a benefício da comunidade. No tocante aos créditos de carbono, o projeto já foi aceito pela empresa Verra e foi incluído em sua plataforma para consulta.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

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