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terça-feira, 25 de agosto de 2026

Diplomacia em tempos de mudança - Rubens Barbosa (Estadão)

 Opinião: Diplomacia em tempos de mudança

A diplomacia é que deve respaldar a política externa

 

Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 25/08/2026

 

Em tempos de grandes mudanças e transformações geopolíticas, econômicas e comerciais, a diplomacia, como instrumento para a promoção da paz, da ordem e da estabilidade internacional, tem perdido espaço relativo nas relações internacionais.

Essas novas realidades, porém, não significam que a diplomacia tenha deixado de ser importante. Apesar dessas transformações e limitações, os diplomatas têm funções importantes justamente em momentos de crise: negociar discretamente, interpretar posições do outro país, evitar mal-entendidos, preservar canais de diálogo e construir compromissos. Quanto maiores as tensões entre países, mais necessária pode ser a atuação diplomática para evitar conflitos e construir acordos.

Vários fatores podem ser apontados como responsáveis pelo papel menos relevante que a diplomacia e os diplomatas passaram a desempenhar nos últimos anos:

1) Ascensão da comunicação direta: presidentes e ministros negociam diretamente por telefone, reuniões, redes sociais e videoconferências, reduzindo a intermediação dos diplomatas;

2) Personalização da política externa: decisões passam a depender mais da relação pessoal entre líderes e de seus interesses políticos;

3) Velocidade das crises: redes sociais e meios de comunicação exigem respostas imediatas, enquanto a diplomacia tradicional costuma depender de análise e negociação cuidadosas;

4) Maior influência de outros atores: empresas multinacionais, organizações internacionais, ONGs, bancos e grupos de pressão também participam das negociações internacionais;

5) Polarização política: governos podem priorizar discursos e demonstrações de força para seu público interno em vez de negociações discretas;

6) Diplomacia econômica e tecnológica: comércio, investimentos, energia, tecnologia e sanções ganharam enorme importância, fazendo com que negociações internacionais envolvam cada vez mais ministérios e atores além das chancelarias;

7) Redes sociais: líderes podem falar diretamente com a população de outros países, tornando a diplomacia pública mais importante e, às vezes, substituindo negociações reservadas.

O que ocorre hoje é que a diplomacia, além de ceder espaço ao uso da força, como expressão de poder para a defesa dos interesses nacionais, passou a ser exercida por outros agentes, não funcionários diplomáticos. O exemplo mais paradigmático dessa tendência é o que está ocorrendo nos EUA, desde o início do segundo mandato de Donald Trump. O Departamento de Estado, o ministério do exterior dos EUA, perdeu espaço na formulação e execução da política externa norte-americana. Mais de 25% dos membros do serviço exterior dos EUA saíram, se aposentaram, foram afastados de seus postos ou viram agências vinculadas à chancelaria serem extintas. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, escreveu que deseja reorganizar o departamento e sua força de trabalho para “responder aos imensos desafios do século 21 e colocar a América em primeiro lugar”.

Em 1997, George Kennan, diplomata, conhecido por ter sido o arquiteto da política de contenção dos EUA na guerra fria, já havia observado a transformação do serviço exterior norte-americano desde o início do século 20, influenciado por novas forças que moldaram e restringiram a ação dos diplomatas, fazendo com que o Departamento de Estado perdesse seu papel tradicional de porta-voz e coordenador da política externa, como está sendo acentuado nos dias de hoje.

Os negociadores dos EUA nas guerras do Irã, na guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza e nas conversações com a Rússia, no tocante à guerra na Ucrânia, não são diplomatas, mas o genro de Trump, que não é nem funcionário do governo, e um empresário do setor imobiliário. Com o Departamento de Estado alijado do processo decisório e dos entendimentos, centrados na Casa Branca – com o presidente Trump – , as dificuldades do governo americano para a defesa de seus interesses via negociações estão cada vez mais evidentes.

A situação nos EUA, como superpotência e um dos atores na atual competição bipolar com a China, tem influência determinante nos rumos da diplomacia global. Reconhecendo os novos desafios, algumas chancelarias ao redor do mundo começam a se ajustar a essas realidades, procurando defender da melhor forma possível seus interesses. O exemplo e a experiência de outros países para reforçar o papel das chancelarias e melhorar a eficiência de sua diplomacia nos tempos de mudança são relevantes. Surgem soluções inovadoras, como postos virtuais, aprimora-se a política de pessoal, modernizam-se os métodos de trabalho, ultrapassados pela rapidez das comunicações, sofisticam-se a aplicação das tecnologias de informação e o treinamento adequado às novas demandas e redefinem-se os meios oferecidos no exterior aos diplomatas.

A diplomacia é que deve respaldar a política externa. Quando a política externa passa a depender excessivamente dos líderes políticos e pouco dos canais diplomáticos profissionais, cresce a possibilidade de decisões baseadas em considerações ideológicas – que pouco têm de ver com o interesse nacional – sem uma visão estratégica de médio e longo prazo.

 

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/diplomacia-em-tempos-de-mudanca/ 


sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Crise política e diplomática com os EUA - Rubens Barbosa Portal Interesse Nacional

Crise política e diplomática com os EUA

O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo

Rubens Barbosa

Portal Interesse Nacional, 7/08/2026 

As relações bilaterais com os Estados Unidos se deterioraram desde o início do governo Trump, em especial, depois das restrições protecionistas globais com as sucessivas medidas do tarifaço e das investigações comerciais mais pesadas contra o Brasil.

A crise política e diplomática surgiu e tende a se intensificar com base em dois fatores: a prioridade (pela primeira vez na história) do Hemisfério Ocidental (América Latina) como área de influência da administração Trump e a interferência no processo eleitoral de outubro próximo. Além das medidas comerciais que afetaram o Brasil e provocaram reações em nível técnico e político do governo Lula, desde abril de 2025 até julho de 2026, começaram a surgir evidências de uma crise política e diplomática que está sendo gradualmente agravada pelo componente ideológico dos dois lados. 

‘A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que os países da região devem escolher se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos ou em um mundo paralelo’

A Lei de Segurança Nacional dos EUA estabelece que “a escolha que todos os países da região devem enfrentar é se querem viver em um mundo liderado pelos Estados Unidos, com países soberanos e economias livres, ou em um mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo. Recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados com nossos princípios e estratégia. Mas não devemos ignorar governos com perspectivas diferentes, com os quais, ainda assim, compartilhamos interesses, e que desejam trabalhar conosco”. 

A preocupação com a China está presente quando o documento acentua que “qualquer tipo de ajuda dos EUA deve estar condicionado à redução gradual da influência externa adversária – instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo aquisição de ativos estratégicos, entre outros”. 

‘A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra)’

A nova estratégia de Washington para as Américas, na prática, afirma que a região pertence à área de influência dos EUA (“quintal”, segundo secretário da Guerra). O Corolário Trump da Doutrina Monroe cria grandes desafios para a política externa do PT, levando em conta a dependência comercial da China e o forte viés antiamericano expresso pelos governos Lula e Dilma, ao longo dos 20 anos em que o partido ocupou o poder. 

Por outro lado, essas medidas são influenciadas por motivações ideológicas prevalentes no Departamento de Estado contra governos de esquerda, como Cuba, Nicarágua, Venezuela e agora inclusive o Brasil, considerados países “não amigos dos EUA”, no dizer de Marco Rubio. 

Em um ano e meio, houve significativos avanços e crescente influência do governo Trump na região: no Panamá, na Venezuela, na Argentina, em Cuba, no combate à imigração ilegal e ao crime organizado, nas eleições presidenciais, nas propostas de criação de um grupo para minérios estratégicos e do Escudo das Américas. 

‘O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC’

O Brasil foi o único país a criticar e a não aceitar pressão para zerar as tarifas para bens industriais, químicos e automotriz e a questionar o tarifaço na OMC. O governo brasileiro colocou-se contra a classificação de grupos criminosos como terroristas e não está representado no grupo sobre minérios, nem no Escudo das Américas, nem no Conselho de Paz. 

Em artigo do último dia 26 no Washington Post, Lula foi duro e direto ao afirmar que “dividir o mundo em áreas de influência e buscar empreendimentos neocoloniais em busca de recursos estratégicos são gestos anacrônicos e retrocessos. Ninguém vai nos derrotar por mentiras (acusação de que o Brasil estava espionando o espaço em favor da China e outras relacionadas com o tarifaço). A América Latina não precisa de porta-aviões patrulhando suas águas, nem de tarifas punitivas”. 

‘O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente’ 

O segundo fator da crise – a interferência externa nas eleições presidenciais – está escalando gradualmente, como parte da missão atribuída por Trump ao secretário de Estado, Marco Rubio, de redesenhar politicamente e ideologicamente a região. 

A escalada retórica entre os dois governos começou com a postagem de Rubio afirmando que “as tarifas foram decididas como forma de retaliação ao governo Lula” e que “o Brasil não estava negociando de boa fé com os EUA e que Lula colocou seu próprio ego a frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”. E a resposta de Mauro Vieira rechaçando o “ataque de forma grosseira e arrogante contra um chefe de Estado de um país amigo e afirmando que o Brasil não vai se curvar às pretensões desmedidas e demandas irrazoáveis”.  

O atrito continuou com uma série de declarações de confronto. O desafio público do presidente para que Rubio crie um comitê para apoiar Flávio Bolsonaro foi respondido em Nota do Departamento de Estado em que reafirma “o interesse histórico e global dos EUA na liberdade de expressão e na integridade dos processos democráticos em todo o mundo, inclusive no Brasil”. 

A declaração de Vieira de que a classificação dos grupos criminosos como terroristas abriria caminho para o uso da força militar norte-americana no Brasil, recebeu resposta imediata do Departamento de Estado considerando “absurda” essa declaração. 

Ao prorrogar tarifa de 50% (sem efeito prático), com base na legislação suspensa pela Suprema Corte, Trump disse que “o Brasil interferiu na economia dos EUA, violou a livre expressão de cidadãos norte-americanos e minam os interesses dos EUA em proteger seus cidadãos e empresas”. 

‘Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente’

Caso o governo brasileiro decida aplicar a lei de reciprocidade e eventuais retaliações às tarifas, a reação de Washington poderá escalar rápida e violentamente, como ocorreu com o Canadá, com consequências imprevisíveis para a economia interna e a relação política e diplomática. 

A escalada continuou com a negação de visto para o assessor de Trump e para dois altos funcionários do Departamento de Estado que viriam ao Brasil para questionar o sistema eleitoral brasileiro, segundo o Washington Post, o que foi negado oficialmente pelo Departamento de Estado. 

‘A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado’

A forma como ocorreu a designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, aliado de Trump é mais um ato ideológico do Departamento de Estado. Anunciado e sabatinado pelo Senado dos EUA, antes do pedido de agrément ao governo brasileiro, a concessão do agrément deverá ocorrer somente depois das eleições. No dia 3, práticas diplomáticas foram mais uma escalada na crise. 

Em nota do Departamento de Estado foi explicado que o visto da embaixadora do Brasil em Washington foi revogado em razão da demora na concessão do agrément para o novo embaixador dos EUA e o cancelamento de vistos de três altos funcionários norte-americanos. 

Em resposta o Planalto emitiu dura nota chamando de faltas as alegações de Washington e Lula, de irresponsáveis, em mais uma escalada da crise. A confirmação por Lula de que o agrément ao embaixador não vai ser concedido antes das eleições pelo receio de interferência no processo eleitoral deverá agravar as tensões bilaterais com novas retaliações contra o Brasil.

‘A influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas’

Uma coisa não se pode ignorar, a influência ideológica e partidária de todos os lados na política externa está apresentando soluções inusitadas, quebrando séculos de práticas diplomáticas. Com o crescente afastamento dos diplomatas dos centros de decisões é de esperar-se novas e criativas soluções para tornar ainda mais inesperadas as crises políticas e diplomáticas.

Noticia-se que Lula está buscando conversa telefônica direta com Trump para tratar da convocação de encontro dos líderes das principais potências para a busca de uma saída para os conflitos atuais. Nesse sentido, já teria falado com Putin e com Xi. Mais uma vez em busca de protagonismo, se a conversa ocorrer, como será tratada a crise bilateral? 

O telefonema de Lula a Xi Jinping no domingo, 26 de julho, e o apoio público do governo de Pequim contra ingerência externa no Brasil reforçam a percepção de Washington da crescente influência chinesa.

‘A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica’

A questão crítica em jogo para o país, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica. O governo, a classe política e os empresários precisam entender qual o real desafio no cenário internacional e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado, e estratégias de médio e longo prazo. 

Se isso não for feito, o Brasil continuará a reboque da história, administrando as influências externas, sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas, tecnológicas em curso e sujeito a crescentes pressões de Washington no contexto da política de área de influência sobre a América Latina. Dependendo do resultado da eleição presidencial, ficará decidido o próprio conceito de soberania e interesse nacional.

Em outra frente, em nova decisão inovadora na diplomacia, o Brasil decidiu unilateralmente ”rebaixar” suas relações com a Argentina e nesse sentido ainda pediu que o embaixador argentino volte para casa enquanto o representante brasileiro em Buenos Aires permanecer no Brasil.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

Cadeia produtiva nuclear - Rubens Barbosa O Estado de S. Paulo

Opinião: 

Cadeia produtiva nuclear

A consolidação de uma cadeia produtiva nuclear robusta não ocorre de forma espontânea

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 28/07/2026

 

        O setor nuclear é caracterizado por alta sensibilidade geopolítica, complexidade tecnológica, rigor regulatório e longos ciclos de investimento. O Brasil domina o ciclo de combustível nuclear e dispõe de uma grande reserva de urânio, ainda pouco explorada. A consolidação de uma cadeia produtiva nuclear robusta não ocorre de forma espontânea. Exige coordenação institucional, continuidade de políticas públicas e, sobretudo, a presença de atores capazes de integrar conhecimento, indústria e Estado.

        Quando o desempenho de várias empresas estatais é contestado, com razão, surge um exemplo de como deveria ser o papel do Estado na coordenação e no estímulo de atividades estratégicas com resultados concretos num setor sensível e muito relevante para o Brasil, como o nuclear. Criada com a missão de absorver, desenvolver e transferir tecnologias sensíveis, a Amazônia Azul Tecnologias de Defesa (Amazul) ocupa uma posição singular no ecossistema nuclear nacional. Ao atuar simultaneamente na engenharia de projetos estratégicos, na gestão do conhecimento e na interface com a indústria, a empresa desempenha um papel que vai além da execução técnica: ela estrutura as bases para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva nuclear com maior densidade tecnológica e menor dependência externa.

        No âmbito do Programa Nuclear da Marinha, a Amazul participa da engenharia e integração de sistemas associados ao Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica, elemento central para o domínio da propulsão nuclear. Já no campo civil, sua participação no desenvolvimento do Reator Multipropósito Brasileiro reforça sua capacidade de atuar em projetos que combinam pesquisa, produção de radioisótopos e aplicações industriais. Mais do que iniciativas isoladas, esses projetos funcionam como indutores de demanda para a indústria nacional. Ao exigir componentes, sistemas e serviços altamente especializados, criam oportunidades para que empresas brasileiras ingressem ou se qualifiquem para atuar em um dos segmentos mais exigentes do mundo.

A Amazul trabalha também na formação de recursos humanos. Num setor no qual o conhecimento acumulado é um ativo estratégico, a empresa tem investido na capacitação de especialistas em áreas críticas, como engenharia nuclear, materiais, instrumentação e sistemas de controle. Parcerias com universidades e centros de pesquisa, bem como a participação em programas de pós-graduação, contribuem para a formação de uma base técnica capaz de sustentar os desafios de longo prazo do setor.         Além da formação direta, há também um processo relevante de transferência de conhecimento para a indústria. À medida que fornecedores nacionais são incorporados a projetos nucleares, tornam-se expostos a padrões técnicos elevados, o que exige investimentos em qualificação, certificação e inovação. Esse movimento contribui para a construção de uma base industrial mais sofisticada e preparada para competir em mercados internacionais.

O setor nuclear brasileiro envolve múltiplos atores – civis e militares, regulatórios e operacionais – cuja coordenação no Brasil é, por natureza, complexa e nem sempre de acordo com o interesse nacional. A empresa funciona como um elemento de integração, contribuindo para alinhar diretrizes estratégicas com a execução técnica dos projetos.         Esse papel ganha relevância adicional num momento em que o Brasil discute a expansão de sua matriz energética e a retomada de investimentos no setor nuclear. A existência de uma cadeia produtiva estruturada, com capacidade de atender às demandas de novos projetos, será um fator decisivo para viabilizar essa expansão de forma competitiva.

        Algumas áreas ainda poderão ser desenvolvidas em parceria com o setor privado. A mineração submarina surge como uma oportunidade estratégica para o Brasil, dada a riqueza mineral da “Amazônia Azul” e a demanda global por minerais críticos. No entanto, a atividade ainda está em fase inicial, com desafios regulatórios, ambientais e tecnológicos relevantes. O desenvolvimento e a produção de micro reatores nucleares aumentariam a autonomia e reduziriam a dependência de combustíveis fósseis ao fornecer energia contínua para regiões fronteiriças ou operações em alto-mar. O avanço desse setor dependerá de uma estratégia nacional bem estruturada e do desenvolvimento tecnológico, permitindo ao Brasil se posicionar de forma competitiva nessa nova fronteira econômica.

Num cenário internacional cada vez mais competitivo e marcado por disputas tecnológicas, a capacidade de dominar e estruturar setores estratégicos como o nuclear tende a se tornar um diferencial decisivo. Nesse contexto, o papel desempenhado pela Amazul mostra que o Brasil dispõe de um ativo institucional relevante – e ainda em consolidação – para transformar conhecimento em capacidade produtiva e, em última instância, em soberania tecnológica.

        Num país sem estratégia clara e sem um projeto de médio e longo prazo, o trabalho desenvolvido pela Amazul reforça a prioridade mencionada para o setor nuclear na Política Nacional de Defesa (PND), com uma clara visão de futuro. As questões espaciais e de defesa cibernética, além de outras prioridades na PND, demandam uma atuação e ação na mesma linha.

 

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do grupo Interesse Nacional

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/cadeia-produtiva-nuclear/

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Confrontação política e econômica com os EUA - Rubens Barbosa (Portal Interesse Nacional)

 O embaixador Rubens Barbosa, no portal Interesse Nacional, apresenta uma síntese objetiva dos fatos e opiniões envolvidos na mais grave crise político-diplomática entre os governos de Trump dos EUA e Lula do Brasil em mais de dois séculos de relações bilaterais. Os embates politicos e comerciais podem escalar de forma ainda mais grave no plano econômico e diplomático caso o governo Lula adote retaliações contra os EUA baseadas na Lei de Reciprocidade já adotada no Congresso brasileiro, ou caso o governo Trump resolva acrescemtar novas restrições às exportações brasileiras, inclusive mediante novas sobretaxas baseadas na Seção 301 de sua Lei Comercial, que prevê retaliações unilaterais. PRA


Confrontação política e econômica com os EUA

Rubens Barbosa 

Portal Interesse Nacional, 17/07/2026


O novo pacote tarifário dos EUA ameaça reduzir exportações brasileiras em até US$ 11 bilhões e inaugura uma fase inédita de confronto político entre Brasília e Washington, em meio à campanha eleitoral e ao debate sobre uma eventual retaliação comercial do Brasil. 


Como era esperado, o governo de Washington confirmou o novo tarifaço de 25% sobre produtos exportados para os EUA por práticas desleais a partir de 22 próximo. Ainda deverão ser anunciados mais 12,5% relacionados com a importação de produtos de países com trabalho forçado. 


Essas tarifas se aplicam em mais de 80 países que não têm acordo comercial com os EUA, em substituição às tarifas que tiveram de ser suspensas em função da decisão da Suprema Corte que considerou ilegal a base legislativa (IEEPA) que as respaldavam.


‘Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados’


O tarifaço vai afetar cerca de 2.900 produtos, especialmente industriais, vai prejudicar muitas empresas nacionais e vai reduzir ainda mais o intercâmbio bilateral. Estima-se que cerca de US$ 11 bilhões deixarão de ser exportados.


Foram mantidas as exceções para café em grão, carne bovina, suco de laranja, produtos aeronáuticos, petróleo, castanhas e algumas frutas. A lista de exceções foi ampliada (2.100) com relação àquela proposta em 1º de junho. Essas exceções foram consideradas “insumos essenciais para a economia americana”; “produtos cuja taxação poderia gerar interrupções de abastecimento” e “bens sem fontes alternativas adequadas de fornecimento”.


Segundo cálculos preliminares, o número de linhas tarifárias passou de 1.698 em junho para 2.126. Foram incluídos diversos produtos de interesse dos exportadores brasileiros na lista de exceções. Destacam-se, entre eles, mel orgânico, ferro-gusa e café solúvel; mel orgânico; ferro-gusa; café solúvel sem sabor; ⁠alguns tipos de pescado (tilápia e atum); hidróxido de alumínio; antiguidades, itens de colecionador e arte; cinzas contendo metais preciosos ou compostos de metais preciosos; certas peles de animais, peles com pelo e couros – certos produtos de frutos do mar; certos produtos de madeira adicionais; resíduos e sucatas de ferro e aço; roupas usadas.


Logo em seguida o Palácio do Planalto circulou nota dura em que afirma que “o dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável. O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais. O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC”.


Os dois lados dizem que não houve empenho da outra parte em uma efetiva negociação para superar as dificuldades. 


É compreensível a politização interna dessa questão pelo envolvimento do senador Flávio Bolsonaro, acusado de traição à Pátria, quando se inicia a campanha para as eleições de outubro. 


‘É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro’


É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros. 


A Fiesp, em nota, critica fortemente o Governo Lula afirmando que “em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários e críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamentos políticos com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”. A posição da Fiesp foi considerada “vergonhosa e estarrecedora” pelo Planalto.


A grande novidade está no ataque político de Washington ao governo de Brasília. Depois de 62 ataques de Lula a Trump nos últimos três anos, a Nota de Rubio dá início ao ataque político de Washington ao presidente brasileiro. Essa novidade deve continuar com crescente interferência norte-americana durante a campanha eleitoral. 


Chama a atenção a ênfase política que essa decisão está ensejando e o eventual confronto político entre os dois países. Ao anunciar a decisão, a Casa Branca divulgou nota de Marco Rubio em que afirma que o presidente Trump decidiu impor 25% em muitos produtos importados do Brasil, mas, “não deve haver confusão nas razões dessa decisão: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA em boa fé. Suas políticas econômicas são contrárias aos interesses norte-americanos e brasileiros. Desde o ano passado, Lula colocou seu ego à frente dos entendimentos para benefício do povo brasileiro e essas tarifas são o preço por isso”. 


A resposta de Mauro Vieira escala a crise política ao chamar o pronunciamento de Rubio de “grosseiro e arrogante” e “inaceitável e ofensivo ao povo e ao governo brasileiro”. “O que incomoda ao governo dos EUA é o fato do Brasil não ter se curvado às demandas irrazoáveis”.


A questão mais grave e preocupante é a possibilidade de retaliação comercial contra os EUA anunciada pelo Planalto. Haverá um período de 30 dias para a confirmação da medida. Nenhum outro país no mundo (com exceção da China por curto período, logo corrigido) ameaçou retaliar os EUA. O governo de Washington divulgou que nas negociações as tarifas sobre os produtos brasileiros poderão subir ou descer, dependendo da reação do governo brasileiro. 


O custo para o Brasil e para as empresas brasileiras pode ser enorme. A retaliação de Washington pode ocorrer em qualquer outra área, prejudicando setores econômicos inteiros. 


O Brasil não tem cacife para enfrentar comercialmente os EUA. Nenhuma retaliação contra produtos norte-americanos exportados para o Brasil afetará significativamente os interesses do governo Trump. Uma decisão nessa direção poderá trazer ganhos políticos internos, mas será certamente contra o interesse nacional, a médio e longo prazo. O programa de apoio às empresas afetadas, prometido pelo governo, vai ser muito importante nesse momento.


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Rubens Barbosa

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Geopolítica da infraestrutura digital - Rubens Barbosa (OESP)

Opinião: 

Geopolítica da infraestrutura digital

O Brasil precisa dar prioridade à tecnologia para estar na mesa de governança global com voz e com capacidade de influência real

Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 14/07/2026


A disputa por poder, zonas de influência e soberania, em termos de geopolítica clássica, significa controle de territórios, rotas marítimas, reservas de petróleo, arsenais militares e acordos de defesa. No mundo atual, o poder passou a ser exercido também por meio de satélites, algoritmos, cabos submarinos, chips de silício e, cada vez mais, por data centers. A infraestrutura digital tornou-se uma das principais arenas de competição geopolítica global.

Quem controla a conectividade global controla o fluxo de dados e o acesso à informação. Quem controla informação condiciona decisões – econômicas, políticas, militares e sociais. Não é por acaso que os Estados Unidos e a China travam hoje uma batalha sem regras pelo domínio dos semicondutores, da inteligência artificial (IA) e da infraestrutura de nuvem. Os americanos restringiram exportações de chips avançados para a China. Os chineses responderam com restrições a minerais críticos indispensáveis para a fabricação desses mesmos chips.

E não é por acaso que países em desenvolvimento em todo o mundo estão sendo pressionados por Washington e por Pequim para escolher de qual infraestrutura digital vão depender – qual sistema de pagamentos vão adotar, qual rede 5G vão instalar e qual plataforma de nuvem vai armazenar os dados do seu governo.

É importante entender o que está em jogo. O mundo digital, que nasceu com a promessa de ser universal, aberto e neutro, está se partindo em blocos com regras, protocolos e infraestruturas distintas. Há uma internet americana, baseada em plataformas privadas e na doutrina da livre circulação de dados. Há uma internet chinesa, com controle estatal, firewall e padrões próprios de governança. E há uma série crescente de países que tentam, com graus variados de sucesso, construir um terceiro caminho – europeu, indiano ou simplesmente nacional.

O Brasil, com o Marco Civil da Internet, tem defendido uma internet aberta, multilateral e baseada em princípios acordados internacionalmente. Mas defender uma internet aberta no plano dos princípios requer, no plano concreto, que tenhamos infraestrutura própria, capacidade de processamento local e independência tecnológica suficiente para que nossa posição seja genuína – e não apenas uma dependência, disfarçada de escolha soberana.

Outro fator crítico é a conectividade. Satélites em órbita baixa tornam-se ativos geopolíticos estratégicos. No Brasil, o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação Estratégica, com vida útil prevista até 2032, desempenha essa função em grande parte do território nacional e no armazenamento de dados do governo. Os cabos submarinos de fibra ótica que conectam os continentes são hoje tão estratégicos quanto as rotas marítimas eram no século 19. Há hoje uma disputa crescente, com implicações diretas de segurança nacional, sobre quem financia esses cabos, quem os opera, quem tem acesso às informações que por eles trafegam e quem pode, em situações de crise, interrompê-los ou monitorá-los.

Está havendo uma corrida pela IA, que está redefinindo completamente a demanda por infraestrutura digital (data centers e satélites). Os países que não tiverem infraestrutura de processamento em seu próprio território vão, na prática, desenvolver sua inteligência artificial em servidores localizados em outros países, sob jurisdições estrangeiras, sujeitos a leis e a pressões que não definiram e sobre as quais têm pouco ou nenhum controle. Mais do que uma questão tecnológica, trata-se de uma questão de controle de dados, de privacidade e de autonomia, de decisão política e econômica. Na geopolítica digital, a distância geográfica perde importância, pois os ataques podem ser marcados de qualquer lugar, daí a relevância da segurança cibernética.

O papel do Estado contemporâneo está sendo redesenhado. Fala-se muito do Estado socioambiental, mas pouco sobre o Estado tecnológico. Para o Brasil, é urgente a definição de uma política para a infraestrutura digital, com um marco regulatório que dê previsibilidade real aos investidores – não apenas para os grandes operadores internacionais, mas para os operadores brasileiros de médio porte que precisam competir em igualdade de condições e que são os que mais sofrem com a insegurança jurídica e a instabilidade regulatória.

É necessária uma política de formação de mão de obra especializada. É essencial uma estratégia de investimentos em áreas de interesse para a infraestrutura digital, como a exploração de minérios críticos.

A infraestrutura digital não é neutra. Os sistemas de inteligência artificial que processam dados dos brasileiros refletem os valores e os interesses de quem os treinou e de quem controla os servidores onde rodam. A governança dos dados – quem pode acessá-los e sob quais condições –, em especial os relacionados com informações de Estado, como é o caso do Brasil, visa à defesa da soberania e não representa um desafio técnico secundário.

O Brasil precisa dar prioridade à tecnologia para estar na mesa de governança global com voz e com capacidade de influência real. E só terá essa voz se tiver infraestrutura própria, regulação sólida e uma política digital coerente com seus interesses nacionais.

 

Rubens Barbosa, presidente do Grupo Interesse Nacional e Membro da Academia Paulista de Letras.

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/geopolitica-da-infraestrutura-digital/

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Rubens Barbosa no programa Interesse Nacional, na Rádio My News FM 90.9 (todas as sextas, 08h30)

Prezados(as),
A partir do dia 3-7, todas as sextas-feiras, às 8.30h, estarei no comando do programa Interesse Nacional, na Rádio My News FM 90.9.

Vamos trazer uma nova perspectiva nas análises e comentários sobre o que ocorre no mundo e o impacto sobre o Brasil.

Para assistir, sintonize FM 90.9. O programa estará disponível também no portal www.interessenacional.com.br

Rubens Barbosa

terça-feira, 9 de junho de 2026

A questão crítica em jogo para o País, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica - Rubens Barbosa (OESP)

 Opinião: 

Relações Brasil–EUA: decifra-me ou devoro-te

A questão crítica em jogo para o País, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo. 09/06/2026

 

Os EUA estão cada vez mais presentes na política interna e externa do Brasil. Quatro recentes decisões impactaram o governo brasileiro e agitaram o cenário pré-eleitoral. São elas: a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas; a designação do novo embaixador norte-americano; os anúncios das recomendações das investigações contra o Brasil no âmbito da seção 301 da Lei de Comércio exterior de 1974 por práticas desleais e contrárias aos interesses dos EUA; e sobre trabalho forçado em produtos importados.

É um erro político grave – só explicável em função da política interna – considerar essas medidas como resultado de pressão por parte da família Bolsonaro sobre o governo em Washington. As medidas têm a ver com a nova visão global dos EUA, refletida na Estratégia de Segurança Nacional, cujo foco principal de interesse norte-americano é a América Latina.

O princípio fundamental da política externa de Washington é o interesse próprio, por isso essas medidas refletem a defesa dos objetivos comerciais dos EUA, a disputa geopolítica com a China e a intenção norte-americana de controlar a América Latina. Por outro lado, essas ações são influenciadas por motivações ideológicas dominantes no Departamento de Estado contra governos de esquerda, como Cuba, Nicarágua, Venezuela e agora o Brasil, considerados países “não amigos dos EUA”, no dizer de Marco Rubio.

Nesse contexto, não é surpresa a inclusão do PCC e do CV como organizações terroristas, contra as gestões do governo brasileiro. Essa decisão trouxe para a linha de frente o combate ao crime organizado e abre a possibilidade de empresas brasileiras, sobretudo do mercado financeiro, serem atingidas por medidas duras do governo norte-americano. Ao contrário do que muito se comentou, o Pix não poderá ser atingido neste capítulo, assim como é muito pouco provável que haja alguma intervenção dos EUA em território brasileiro. A ampliação da cooperação bilateral nessa área poderá aumentar a capacidade do governo brasileiro, se atuar coordenado, no enfrentamento do crime organizado de maneira mais firme e eficiente.

A designação do novo embaixador dos EUA, Daniel Perez, deputado estadual da Flórida e aliado de Trump, sem pedido de agrément prévio, é mais um ato ideológico e de provocação do Departamento de Estado. Sem qualquer experiência diplomática, Perez defende publicamente a dura política imigratória de Trump, os princípios da política ultranacionalista e conservadora do Maga (Make America Great Again), a nova atitude dos EUA em relação à América Latina e o apoio de governos de direita na região. Caso aprovado pelo Senado, Perez vai chegar ao Brasil às vésperas da eleição presidencial de outubro, num momento dos mais delicados na relação Brasil-EUA.

No tocante à proposta de taxar produtos brasileiros em 25%, o relatório sustenta que determinadas políticas e práticas brasileiras relacionadas a comércio digital, meios eletrônicos de pagamento, propriedade intelectual, combate à corrupção – citando nominalmente ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que levou a anulação de mais de uma centena de casos – , acesso a mercado e outras matérias afetam negativamente interesses comerciais dos EUA.

Tal decisão foi precedida de investigação e respostas do governo brasileiro em julho do ano passado. Agora, o governo Lula tem até 6 de julho para responder à proposta das novas tarifas de 25% sobre os produtos brasileiros para os EUA que não entraram na lista de exceções definidas por Washington.

Não se trata de negociação, porque a legislação prevê uma decisão unilateral do governo de Washington que será formalizada em 15 de julho próximo. Caso essas tarifas sejam mantidas, 21% dos produtos exportados para os EUA ficarão afetados, entre eles madeiras, pescados, máquinas e equipamentos. Essas medidas tarifárias substituem as tarifas impostas por legislação considerada ilegal pela Suprema Corte e deverão estar em linha com as tarifas então aplicadas ao Brasil. Os 40% anteriores foram substituídos pelos atuais 37,5%. Além dos produtos exportados, são matérias de preocupação o Pix e as big techs, em vista da regulamentação do STF e do governo brasileiro, o que poderá resultar em novas medidas restritivas dos EUA.

Ainda dentro das investigações no âmbito da seção 301, foi também anunciada a imposição de 12,5% de tarifa sobre todos os produtos brasileiros pelo descumprimento das restrições a importações de produtos produzidos com trabalho forçado, no caso, produtos vindos da China. Todas essas medidas são explicadas pelo peso do Brasil no cenário global, em função de seu território, recursos naturais, energia disponível, agricultura tropical e reservas minerais.

A questão crítica em jogo para o País, neste momento, não é eleitoral, mas geopolítica. O governo, a classe política e os empresários precisam entender o real desafio externo e procurar discutir e implementar, no novo governo, um projeto de nação, com políticas de Estado e estratégias de médio e longo prazo. Se isso não for feito, o Brasil continuará a reboque da história, administrando as influências externas, sem capacidade de se beneficiar das transformações políticas, econômicas e tecnológicas em curso no cenário global.

 

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE).

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/relacoes-brasileua-decifra-me-ou-devoro-te/

 

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Erro histórico do governo do PT: a recusa do ingresso na OCDE - Rubens Barbosa (Estadão)

Opinião: 

Erro histórico do governo do PT

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 12/05/2026

Um dos aspectos mais relevantes da política externa do governo Lula é a defesa do multilateralismo, visto que, como potência média regional, o fortalecimento das instituições multilaterais é considerado fundamental pelo PT para a defesa dos interesses brasileiros.

A realidade, porém, aponta para uma crescente dificuldade quanto ao ressurgimento do multilateralismo para o ordenamento das relações internacionais. O enfraquecimento dessas instituições fica evidente quando se sabe do limitado papel da Organização das Nações Unidas (ONU), nas questões da paz e da segurança globais, e da Organização Mundial do Comércio (OMC), na regulamentação, negociação e solução de controvérsias no comércio internacional. Enquanto outras instituições multilaterais desaparecem ou são enfraquecidas pela ação dos EUA, uma das organizações preservadas, sem sofrer qualquer restrição, foi a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem sido fortalecida e prestigiada.

Nesse contexto, a suspensão pelo governo Lula dos entendimentos, iniciados por Dilma Rousseff e apoiados por Temer, com vistas ao acesso do Brasil à OCDE só pode ser explicado por restrições ideológicas superadas, visto que o ingresso do Brasil traria benefícios de natureza política, econômica, institucional, estratégica e de cooperação regional e internacional. Não se pode ignorar, como faz Brasília, que existe uma forte convergência de princípios com a OCDE. O Brasil consagra, em sua Constituição federal e ordenamento institucional, os mesmos princípios fundamentais que os membros da OCDE procuram promover, notadamente democracia, direitos humanos, livre empreendimento e economia de mercado, bem como de Estado comprometido com a governança pública pautada em transparência, prestação de contas, combate à corrupção e ilícitos e busca contínua – e sob escrutínio internacional – das melhores políticas públicas – econômicas e sociais, em particular – para o cidadão.

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação. Como membro pleno da organização, o Brasil participaria das deliberações estratégicas e políticas da organização. Por meio dessa atuação, o Brasil influenciaria os consensos internos, construiria pontes com diferentes grupos de países e promoveria os processos de reforma da OCDE, segundo seus interesses. Contribuiria também para a crescente consideração da perspectiva de países em desenvolvimento, trabalhando em conjunto com países da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, com países já membros, em processo de acessão ou com crescente engajamento nos trabalhos da OCDE. Nesses termos, o Brasil poderia melhor projetar não só seus interesses, mas também suas visões sobre variados temas.

Hoje, quase todos os ministérios e agências regulatórias brasileiras atuam na OCDE e conhecem cada vez mais a natureza e os mecanismos de trabalho da organização. O Brasil é visto pelo secretariado da OCDE como o País em desenvolvimento mais preparado para ingressar na organização em toda a sua história, tendo o País ampliado de modo progressivo sua atuação e convergência nas últimas três décadas. Esse esforço está amadurecido, mesmo nas áreas mais sensíveis na adesão, como tributação e movimento de capitais, objeto de recomendações e dos chamados Códigos de Liberalização da OCDE. Ademais, a pedido do Brasil, a própria OCDE tem contribuído para as reformas no País, como nas atualizações sucessivas da legislação de concorrência e na recente reforma tributária. Esse gênero de convergência é promovido com base em diálogos com o secretariado e com os países-membros, que promovem a internalização e a racionalização das circunstâncias nacionais, bem como o exame da pluralidade de soluções cabíveis, em particular, na medida em que a organização se torna mais diversa no quadro de seus membros.

A participação plena e regular do Brasil na OCDE serviria de sinal significativo sobre a qualidade da regulação doméstica e dos padrões adotados pelo País em áreas como tributação, concorrência, comércio, agricultura, investimentos, serviços, governança pública, combate à corrupção, supervisão financeira, mercados de capitais e governança corporativa, empresas estatais e multinacionais, educação, saúde, emprego e trabalho. A OCDE mantém códigos técnicos também nas áreas de tratores, sementes, químicos e créditos à exportação. Muitos dos padrões da OCDE são reconhecidos internacionalmente, inclusive por países não membros, e sua adoção facilita a compreensão das práticas empregadas pelo país em avaliações e decisões comerciais, financeiras, de investimentos e negócios em geral. O ingresso do Brasil seria um elemento adicional de convergência regional. A América Latina, com México, Chile, Colômbia e Costa Rica, é a região em desenvolvimento que mais tem participado dos trabalhos da OCDE. A Argentina reviu sua posição e voltou a se interessar pelo ingresso. Outros países da região têm manifestado interesse em considerar a adesão futura à OCDE, como Paraguai, Panamá e República Dominicana.

Do ângulo geopolítico, o Brasil seria o único país membro do Brics e da OCDE. O futuro governo deveria reexaminar a decisão de manter o Brasil fora da OCDE, apenas por razões ideológicas, sem levar em conta o interesse nacional.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)


O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

O Atlântico Sul como zona de paz e cooperação
Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 28/04/2026

Nos dias 8 e 9 de abril, o Brasil foi sede da 9.ª Reunião Ministerial e assumiu pela terceira vez a Presidência Pro Tempore da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas).
A Zopacas foi criada – por iniciativa do Brasil, apoiado pela Argentina – pela Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), com o intuito de promover a cooperação regional e a manutenção da paz e da segurança no entorno dos 24 países sul-americanos e da costa ocidental da África que aderiram ao projeto. Estabelecida em 27 de outubro de 1986, este fórum se propôs a ser o principal mecanismo de articulação, no Atlântico Sul (área compreendida entre o paralelo 16.° N e a Antártida), buscando promover uma maior cooperação regional para o desenvolvimento econômico e social, a proteção do meio ambiente, a conservação dos recursos vivos e não vivos e a segurança de toda a região, sob a perspectiva da integração multilateral, permeada pelo pano de fundo das iniciativas relacionadas à não proliferação de armas nucleares e de destruição em massa.
Em seus primeiros anos, a agenda política da Zopacas esteve voltada a projetos de cooperação para o desenvolvimento socioeconômico. As preocupações eram associadas à percepção de ameaça oriunda da confrontação entre as duas superpotências; e do regime sul-africano que, além de institucionalizar políticas discriminatórias, ocupava ilegalmente o território da Namíbia, influenciava a guerra civil angolana e perseguia um programa nuclear para fins militares, conflitante com a proposta de uma zona de paz livre de armas nucleares no Atlântico Sul. Com o fim da guerra fria e do regime do apartheid sul-africano, a Zopacas esgotou suas pautas principais, correndo o risco de avançar rumo à irrelevância. Em 1992, visando a recuperar o projeto regional de iniciativa brasileira, foi lançado o projeto de atualização da zona que propunha a inclusão da pauta de proteção do meio ambiente marinho como meio de mantê-la como um fórum relevante internacionalmente.
A partir dos anos 2000, com as descobertas de petróleo offshore em ambas as margens do Atlântico Sul, a Zopacas passou a se apresentar como um dos meios para governança deste espaço e para evitar ingerência externa e proteger os recursos energéticos. Em 2021, ficou decidida a convocação de reuniões anuais à margem da reunião da Assembleia-Geral da ONU e a necessidade de criação de um mecanismo de acompanhamento. Os principais objetivos da retomada das reuniões ministeriais foram: 1) reforçar a ideia do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação, livre de armas de destruição em massa e de rivalidades e conflitos que lhe sejam alheios; 2) aumentar o engajamento dos membros africanos com o agrupamento; e 3) desincentivar a presença militar de Estados das demais regiões no Atlântico Sul.
Do ângulo brasileiro, a Zopacas passou a se integrar ao conceito de entorno estratégico, incluído na Política de Defesa Nacional desde 2005, mantendo-se nos documentos seguintes a prioridade do entorno estratégico, da América do Sul à Costa Ocidental da África, englobando o Atlântico Sul e a Antártida, já presente no texto desde a primeira versão. Dentro do novo quadro geopolítico, a instabilidade internacional e a reconfiguração de alianças observadas nos últimos anos reforçam a importância de fortalecimento da Zopacas como contrapeso ao aumento de pressões extrarregionais no Atlântico Sul. Ao mesmo tempo, ameaças à região e aos recursos marinhos nela existentes, incluindo a poluição do meio ambiente marinho, ameaças à segurança marítima, especialmente no Golfo da Guiné, o crime organizado transnacional, a pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, dentre outros, demandam respostas coletivas e estreita coordenação regional.
Nos últimos 20 anos, o governo brasileiro assinou acordos-quadro de cooperação em defesa com alguns dos Estados-membros da Zopacas, sendo África do Sul; Guiné-Bissau; Namíbia; Angola; Guiné Equatorial; Nigéria; São Tomé e Príncipe; Senegal; Uruguai; Cabo Verde; e Benin. Foram igualmente assinados o Acordo Operacional entre o Centro de Controle de Área Atlântico e o Centro de Controle de Área Abidjan (2010) e um Memorando de Entendimento entre a Marinha do Brasil e a Marinha Nacional de Camarões (2018).
Caso a Zopacas não seja capaz de responder a essas demandas, outras iniciativas e atores podem se impor à região. É oportuno lembrar que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mudou sua doutrina ampliando seu raio de ação para o Atlântico Sul e mais recentemente para “as áreas de interesses dos países membros”, referência indireta ao mar do Sul da China.
A 9.ª Reunião Ministerial apresentou como resultados uma declaração política com compromissos sobre a manutenção da paz e segurança e cooperação para o desenvolvimento sustentável no Atlântico Sul, a apresentação de uma estratégia de cooperação entre os países participantes, cobrindo a governança dos oceanos, segurança e defesa marítima e desenvolvimento sustentável do meio ambiente e uma convenção sobre proteção do meio ambiente no Atlântico Sul. Nos próximos três anos, o Brasil estará na presidência dessa importante organização do ponto de vista geopolítico.
 
Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)
 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Lula na Casa Branca - Rubens Barbosa (Interesse Nacional)

 Lula na Casa Branca

Rubens Barbosa

Interesse Nacional, 8/06/2026

Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente

Enfim, depois de mais um ano, Lula foi recebido por Trump na Casa Branca. Participaram do encontro os ministros brasileiros do Exterior, da Fazenda, da Justiça, da Indústria e Comércio, das Minas e Energia. O encontro de trabalho foi seguido de almoço entre os dois presidentes. Chamou a atenção a ausência de Marco Rubio do lado norte-americano.

Em nota divulgada por Trump, depois do encontro, a Casa Branca afirmou que a conversa foi produtiva e ressaltou, entre outros assuntos, a discussão em torno do comércio, sobre as tarifas. 

Na entrevista à imprensa, na residência da Embaixada em Washington, Lula, como seria de esperar, ressaltou o clima de entendimento entre os presidentes e suas delegações. 

‘Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, seção 301, pix, crime organizado, minérios estratégicos e geopolítica’

Mauro Vieira resumiu os temas tratados nas três horas de reunião: tarifas, investigação sobre restrições a produtos norte-americanos (seção 301), pix, cooperação contra o crime organizado, minérios estratégicos, além de temas geopolíticos (multilateralismo, organizações internacionais).

Os ministros presentes chamaram a atenção dos principais temas de sua área de atuação: definição de novas regras para o relacionamento econômico bilateral. Volta dos investimentos norte-americanos – compartilhamento informações crime organizado e ampliação da cooperação bilateral – relato   sobre situação econômica brasileira – cooperação no combate ao crime organizado (não foi discutida a  classificação do PCC e do CV como organizações terroristas)– cooperação entre aduanas (informações e operações conjuntas – (apreendidas armas vinda dos EUA meia tonelada de drogas sintéticas dos EUA) – lavagem de dinheiro – minérios críticos (terras raras) transmitida informação sobre o novo marco regulatório aprovado pelo Congresso.

‘Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico’

Todos os temas de interesse brasileiro foram abordados por Lula, o que era necessário para permitir as conversas em nível técnico. Ficou decidido que em 30 dias os diferentes setores deverão negociar posições comuns para serem apresentadas para decisão final dos presidentes. Lula afirmou que o encontro foi um passo importante na consolidação das relações entre o Brasil e os EUA e para reverter a baixa   prioridade dos EUA em relação ao Brasil. 

No tocante à geopolítica, Lula ofereceu estar à disposição para ajudar nas conversas com Cuba, Venezuela, ONU e CSNU. Mesmo no tocante ao Irã, Lula disse estar à disposição para ajudar e entregou cópia do acordo negociado com o Irã pelo Brasil e Turquia em 2010. Lula disse não acreditar na interferência de Trump nas eleições de outubro. 

‘A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda’

O governo brasileiro deu sua versão do encontro. A reunião presidencial foi positiva porque desbloqueou a negociação setorial sobre toda a agenda. Do ângulo de Lula, a maneira amistosa como transcorreu o encontro presidencial, sem qualquer armadilha ou constrangimento que pudesse afetar a imagem do presidente brasileiro, vai ser capitalizado pelo presidente.

Do lado brasileiro, nada foi adiantado quanto às reivindicações de Washington no tocante à agenda de seu interesse e sobretudo sobre a reintrodução de tarifas em julho, quando a investigação sobre a seção 301 da lei de comércio norte-americana for concluída e anunciada.

Resta agora aguardar pelas informações do lado norte-americano para ver se o otimismo do governo brasileiro vai ser comprovado.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Opinião: As FFAA e a política no Brasil - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

 Opinião: As FFAA e a política no Brasil

A prisão de militares de alta patente marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no País
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 14/04/2026

A prisão de militares de alta patente, inclusive de um ex-presidente, ex-ministro da Defesa e comandantes das forças singulares, marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no Brasil. Foram 27 militares que participaram de uma tentativa de golpe, de acordo com a acusação do Supremo Tribunal Federal (STF), todos tornados réus e condenados.
Como consequência das prisões, o Superior Tribunal Militar (STM) julgará se todos os oficiais e o presidente perderão seus postos e patentes por serem considerados indignos do oficialato ou com ele incompatíveis. O resultado é incerto e poderá tornar-se controvertido.
A reação da instituição militar ao julgamento mostra que houve uma mudança significativa no comportamento das Forças Armadas (FFAA), comprovada pela atuação fora da política (com poucas exceções individuais) desde 1985, apesar das tentativas de atraí-las para o cenário político no governo anterior. E agora, depois do julgamento e do início do cumprimento das penas, não se ouviu nem se leu qualquer manifestação contra a condenação e as penas impostas aos que tentaram desafiar a democracia e as regras do jogo democrático. Com 40 anos, desde 1985 até hoje, nunca houve um período tão longo na história brasileira, sem uma intervenção dos militares na vida política nacional.
Depois de 14 intervenções militares na política nacional, desde a deposição do imperador Pedro II em 1889, até o golpe de Estado de 1964, pela primeira vez, os articuladores e líderes desses movimentos contrários à democracia foram indiciados, julgados e condenados. A anistia, sempre concedida a todos os participantes das insurreições anteriores, pela primeira vez, não foi aplicada, pelo menos, até aqui.
Pesquisa recente da AtlasIntel/Estadão sobre o nível de confiança da sociedade nas instituições – talvez influenciada pelo que ocorreu no governo anterior – colocou o Exército e as FFAA com 60% de desconfiança, em penúltimo lugar, só perdendo para o Congresso. Corrigir essa percepção é uma das principais razões para virar mais uma página de nossa história.
A virada de página dos militares seria um marco na história política brasileira e, espera-se, poderá ter profundos impactos na evolução e fortalecimento da democracia no Brasil e no papel das FFAA na sociedade brasileira.
No debate interno sobre o papel das FFAA, a tendência é sempre discutir o papel constitucional dos militares, a submissão dos militares ao poder civil, deixando de lado, no Congresso e na sociedade civil, aspectos relevantes, como a formulação de uma nova política de Defesa, a modernização operacional e logística das FFAA, a necessidade de investimentos na Defesa, a interação com a Base Industrial de Defesa e sobretudo a previsibilidade das questões orçamentárias. Na verdade, os civis – os políticos e a academia – são os grandes ausentes no exame isento e objetivo dos problemas da organização das Forças Armadas e da Defesa nacional.
O Congresso daria uma relevante contribuição para reafirmar a supremacia do poder civil, caso decidisse examinar questões que dizem respeito à participação de militares da ativa no Executivo e sobre a designação do ministro da Defesa. A chefia do Ministério da Defesa, normalmente civil, somente poderia ser ocupada por oficial militar se o indicado estiver na reserva por pelo menos sete anos e, caso não preencha esse requisito, com a expressa autorização do Congresso, como ocorre nos EUA. Duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) encontram-se paradas no Congresso.
A primeira é a PEC que estabelece que a indicação de militares da ativa para cargos civis no governo deveria seguir norma pela qual qualquer representante das Forças Armadas e da Polícia Militar que aceitar convite para integrar o Executivo, em qualquer nível, deveria passar automaticamente para a reserva. Adicionalmente, o Congresso deveria votar a PEC que proíbe a participação de militares da ativa nas eleições. O texto, que dorme há três anos no Congresso, prevê a transferência para a reserva de integrantes das Forças Armadas que optarem por entrar na política, uma medida importante para proteger as tropas da politização.
Para encerrar um período complexo da história nacional, o Congresso deveria também examinar outra PEC prevendo a mudança no artigo 142 da Constituição federal, que dispõe: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Seria eliminada a parte final (“a garantia dos poderes constitucionais e por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”) para deixar bem claro que as FFAA não ganharam, pelo texto atual, um poder moderador para arbitrar crises políticas internas no Brasil, conforme decisão do STF sobre o assunto.
Com essas medidas, seria virada uma página sensível dos 137 anos de história de participação ativa dos militares na vida política nacional, dando-se ênfase à subordinação das FFAA às leis e à Constituição.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/as-ffaa-e-a-politica-no-brasil/

terça-feira, 24 de março de 2026

Uma nova política de Defesa - Rubens Barbosa (O Estado de S. Paulo)

Uma nova política de Defesa

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, terça-feira, 24 de março de 2026

A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo

Em janeiro passado, o presidente Lula convocou uma reunião com o ministro da Defesa, os comandantes das três Forças e o chefe do Estado-Maior Conjunto para analisar as vulnerabilidades do Brasil no caso de uma ameaça externa. A preocupação, oportuna neste momento, mas muito atrasada do ponto de vista da defesa da soberania, tem de ser também entendida pela sociedade e pela classe política, distantes desse problema, cada vez mais urgente diante das incertezas globais e pela insegurança interna.

O sinal de alerta foi dado ao se constatar que o País hoje é indefeso. No encontro com Lula, os militares ofereceram um quadro realista e preocupante. Foi dado como exemplo o fato de o Brasil não dispor de uma capacidade de defesa antiaérea que sirva como dissuasão para qualquer ameaça externa. Evidentemente, o Brasil e qualquer outro país da região estão longe de dispor da capacidade de dissuasão para impedir a ação militar de uma superpotência como os EUA. A defasagem dos equipamentos bélicos disponíveis não poderá ser corrigida nem a curto nem a médio prazo, inclusive porque o Brasil depende, na sua quase totalidade, de equipamentos dos EUA e da Europa.

Um plano de investimentos na área de Defesa para o longo prazo foi apresentado pelo ministro José Múcio. O plano prevê investimentos de R$ 800 bilhões em 15 anos, sendo R$ 456 bilhões para projetos do Exército e R$ 250 bilhões para a Marinha e o restante para a Força Aérea. O valor é bem superior ao programa de defesa nacional de cerca de R$ 15 bilhões aprovados para 2026 e aos R$ 30 bilhões nos próximos seis anos para projetos estratégicos de defesa nacional.

O conflito no Oriente Médio começou a ser estudado pelo Exército para identificar riscos e impactos críticos para a Defesa a partir da ação e estratégia aplicadas no conflito. Como era de se esperar, os resultados apontaram para as deficiências e vulnerabilidades brasileiras nessa área. A nacionalização dos componentes e a diversificação dos fornecedores para os programas estratégicos e para a produção de munição, blindados e o desenvolvimento de um sistema de comunicações nacional foram algumas das conclusões alcançadas. Como uma das primeiras medidas para fortalecer a Defesa, o Exército tornou a artilharia antiaérea um projeto estratégico a ser desenvolvido de imediato.

Não será fácil nem rápido, o trabalho para ajustamentos internos de hábitos e práticas para a definição de uma nova política de Defesa.

As deficiências da Defesa não se limitam apenas ao orçamento reduzido e a insuficiente compra de equipamento bélico no exterior. A melhoria da capacidade de atuação das Forças Armadas (FFAA) tem de ser vista como uma questão de Estado, com uma visão estratégica de médio e longo prazo. Ao Ministério da Defesa cabe a liderança de uma ampla discussão interna corporis – seguida de negociação com outros ministérios relevantes e o Congresso Nacional – sobre a reestruturação do sistema de Defesa para implementar mudanças estruturais, como a implantação de uma carreira civil, a redução gradual dos encargos com o pessoal ativo e inativo e a modernização do modus operandi das três Forças, inclusive com a criação da Base Logística de Defesa – difícil de ser aceita pelas FFAA – para coordenar as aquisições militares, a diversificação das fontes de suprimento dos equipamentos (Índia e Turquia) e o estímulo à indústria nacional, com o gradual aumento das compras de empresas nacionais. Um primeiro passo nessa direção pode ser a unificação e, no futuro, extinção dos escritórios de compras das três Forças no exterior e o fortalecimento da Secretaria de Produtos de Defesa (Seprod).

A Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Conselho de Governo (Creden), órgão de assessoramento ao presidente da República nas áreas de relações exteriores e defesa nacional, poderá melhorar a coordenação dentro do governo e ter maior interação com a sociedade civil, conforme previsto no decreto de institucionalização. A Creden poderá discutir e acompanhar políticas públicas na sua área de competência, em articulação com os demais órgãos responsáveis; promover a articulação e acompanhar a implementação de programas e ações interministeriais, incluindo temas como Defesa e relações exteriores.

O acompanhamento dos temas de Defesa no contexto dos interesses mais amplos do País e levando em conta os desafios globais e nacionais indicaria que o primeiro assunto a ser discutido pela Creden deveria ser a vulnerabilidade da segurança interna e externa do Brasil e como reforçar a Base Industrial de Defesa.

Em ano eleitoral, é difícil que temas que não tenham um efeito imediato ou que não sejam prioritários para os eleitores sejam focados pelo Congresso e pelo governo. Nesse sentido, os primeiros passos para a implementação das atribuições da Creden, pelo próximo governo, deveriam ser dados ainda este ano para que o futuro governo possa elaborar uma política de curto, médio e longo prazo para a Defesa nacional.

A discussão desses temas tão relevantes para o interesse nacional não deveria estar fora dos debates eleitorais em que os candidatos se comprometam com um projeto de Estado para as questões relacionadas com a segurança externa e interna do País.

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