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sábado, 15 de agosto de 2026

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura - Pedro S. Malan (Estadão)

 Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa:

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Por Pedro S. Malan

Estadão, 09/08/2026 

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.


Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.


Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação. Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física, química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após 2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.


A política foi um extraordinário sucesso. Em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow” (“os países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.


A rivalidade EUA/China continuará impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente, Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).


É possível fazer um paralelo entre aquele amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses. Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.


Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa. Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material humano”.


Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta área.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

“Eu Disse Não!” Livro do comandante da Aeronáutica que se opôs ao golpe de Bolsonaro (Estadão)

 Eu Disse Não!’; ex-comandante da FAB revela bastidores da crise que levou ao 8/1

Em livro que será publicado em setembro, Baptista narra como formou a "trincheira antigolpista" e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional

Estadão. 03/08/2026

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, decidiu contar, em livro, o que viveu por dentro de um dos períodos mais delicados da história recente do País. Comandante da Força Aérea Brasileira entre abril de 2021 e janeiro de 2023, ele enfrentou uma etapa de forte tensão e uma atmosfera hostil protagonizada por Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas – um período em que a manutenção da ordem democrática dependeu, em parte, de decisões tomadas nos quartéis.

Em Eu Disse Não, que sai em setembro – publicação da Autêntica Editora -, Baptista Junior narra em primeira pessoa como formou a “trincheira antigolpista” e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional, tentativa que teria seu desfecho nos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023. É a primeira vez que um integrante da alta cúpula militar daquele período expõe, em livro, os bastidores da crise.

Piloto de caça com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea, que iniciou em 1975, Baptista Junior fala com a segurança e autoridade de quem esteve na sala de decisão – não como espectador, mas como um dos atores que, segundo seu próprio relato, ajudou a manter as Forças Armadas longe do rompimento.

O testemunho do oficial foi crucial nos autos da ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que impôs ao ex-presidente a pena de 27 anos e três meses de reclusão. O julgamento foi concluído em setembro do ano passado.

Baptista Junior indicou com detalhes três momentos em que a tentativa de golpe acabou frustrada. Ele confirmou encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que se discutiram medidas de exceção e os termos de uma minuta golpista – da qual se recusou a receber cópia. Contou que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que ele seria preso se insistisse no golpe para impedir a posse de Lula.

E, ainda, revelou que o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, colocou tropas da Força à disposição do plano golpista.

Eu Disse Não mostra em suas páginas que a resiliência das instituições em 2022 não foi automática, mas resultado de escolhas individuais de oficiais de alta patente em posições estratégicas.

‘Páginas muito importantes da nossa história’

“A decisão de escrever este livro consolidou-se a partir da percepção de um fenômeno social ainda mais inquietante, revelado por duas pesquisas do Instituto AtlasIntel”, disse Baptista Junior ao Estadão.

Segundo ele, o primeiro levantamento, realizado entre 6 e 9 de janeiro de 2023 – período que compreendeu a invasão das sedes dos Três Poderes -, revelou que 39,7% da população não acreditava na vitória de Lula sobre Bolsonaro.

“Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022”, diz o oficial.

Dois anos e meio depois, destaca Baptista Junior, ao comentar uma nova pesquisa sobre a confiança da população nas instituições, o presidente do AtlasIntel, Andrei Roman, foi enfático, durante uma entrevista no programa WW, da CNN Brasil.

“Uma boa parcela da população não entende que, nas investigações sobre o golpe de Estado, na postura do Bolsonaro, na possibilidade, por exemplo, de ele ter declarado estado de sítio para, com isso, cancelar o resultado da eleição, uma boa parcela da população não entenderia isso [como] um ataque à democracia.”

Roman afirmou que o porcentual dos que assim pensavam estaria em torno de 30%.

“Em suma – avalia o tenente-brigadeiro – já com a ação penal que levaria Jair Bolsonaro à condenação por golpe de Estado em sua fase final, com todos os depoimentos de testemunhas e réus já encerrados, cerca de um terço dos brasileiros ainda não interpretava que Bolsonaro se manter no poder após o dia 1.º de janeiro de 2023 seria um ataque à democracia.”

“Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras”, anota Baptista Junior. “Concluí que este livro seria a melhor opção.”

O militar conta que, após 12 horas de depoimento na Polícia Federal nos autos do inquérito que culminou na ação penal 2662, conversou com dois jovens agentes federais que acompanhavam a audiência. “Ao acabar, eles me sugeriram que tudo aquilo deveria ficar registrado para as gerações futuras, como páginas muito importantes da nossa história.”

Leia abaixo um trecho exclusivo do texto de Baptista Junior sobre o episódio de 1.º de novembro de 2022:

“Encerrava-se, assim, o primeiro de uma série de encontros decisivos entre Bolsonaro, seu ministro da Defesa e os comandantes militares, que marcaram aquele fim de ano – momentos de alta tensão que detalharei mais adiante.

Pouco depois, diversos ministros e aliados passaram a ingressar na biblioteca para prestar apoio e sugerir que ele reconhecesse oficialmente a vitória do oponente, dada a expectativa da imprensa reunida no hall de entrada do Palácio. Alguém já havia preparado um texto. Bolsonaro o pegou e, ali, pareceu-nos dar o caso por encerrado.

Houve uma sugestão para que fôssemos todos juntos à entrada do Alvorada para o breve discurso, mas decidimos que, como comandantes militares, não deveríamos ser envolvidos naquele evento político. Permanecemos na biblioteca, preservando a neutralidade institucional das Forças.

Ladeado por diversos ministros, pelo general Braga Netto, por seu filho Eduardo e alguns parlamentares, o presidente sacou da sua caneta BIC, fez alguma anotação no papel e iniciou um breve discurso de dois minutos:


‘Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim, no último dia 30 de outubro.

Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.

A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força dos nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade.

Formamos diversas lideranças pelo Brasil.

Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso.

Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra.

Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição.

Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais.

Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição.

É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da nossa Bandeira.

Muito Obrigado.’


As repercussões foram imediatas e dividiram o país em duas interpretações distintas.

No mundo político e diplomático, houve um suspiro de alívio protocolar; afinal, o presidente não havia contestado diretamente o resultado, permitindo ao TSE e a líderes estrangeiros consolidarem o rito de transição. Contudo, para a imprensa e os analistas de bastidores, o semblante fechado de Bolsonaro e a ausência de uma felicitação direta ao vencedor indicavam que não havia uma pacificação real. O reconhecimento foi técnico, mas não emocional, ou, como me ensinou um professor na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena, ‘houve acomodação ao fato, mas não assimilação’.

Nas ruas e nas redes sociais, o efeito foi ainda mais complexo. Ao atribuir as manifestações à ‘indignação e sentimento de injustiça’, Bolsonaro evitou desmobilizar seus apoiadores. Suas palavras, longe de encerrar o episódio, deixaram aberta a possibilidade de questionamentos futuros, funcionando como um sinal para que bloqueios em rodovias e concentrações em frente a quartéis ganhassem fôlego. Para nós, que deixávamos a biblioteca do Alvorada naquela tarde, ficou claro que o discurso não representava um ponto final, mas reticências potencialmente perigosas, capazes de transferir às Forças Armadas um peso político que não lhes cabia.

Como piloto, aquele momento deveria marcar para mim o início da aproximação final para um pouso seguro, dali a dois meses, com a transição institucional do país. Não podia imaginar que a fase final desse voo exigiria tamanha destreza e firmeza de convicções. Esses desafios não fizeram parte das noites insones que antecederam minha assunção ao cargo de comandante da Força Aérea Brasileira.

Aquele turbulento pouso de 2022, no entanto, só pode ser plenamente compreendido se voltarmos ao momento da decolagem. Para entender como as engrenagens de uma crise que atingiria o meio militar em 2021 se moveram até o silêncio do Alvorada, é preciso retornar ao dia em que recebi o chamado que mudaria minha vida: 28 de março de 2021, quando decolei de São Paulo rumo a Brasília para assumir uma responsabilidade cuja dimensão, naquele momento, eu ainda não compreendia.”


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Aula de Democracia, pela Fundação FHC, por Simon Schwartzman (Estadão)

 

Aula de Democracia

(publicado em O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2026)

(publicado em O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2026)

Viver em Democracia, publicação da Fundação Fernando Henrique Cardoso e Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, de distribuição gratuita e voltada para escolas do ensino médio, é uma demonstração concreta de como suprir um grande vazio no currículo escolar brasileiro, a educação para a democracia. Os autores, Bernardo Sorj e Sérgio Fausto, começam com uma narrativa histórica da evolução das formas de governo, dos sistemas tribais aos estados modernos. e evoluem para a apresentação e análise de temas centrais e prementes como a divisão e conflitos de poderes, a importância das constituições, o funcionamento dos partidos e sistemas eleitorais, as relações entre capitalismo e democracia, e os desafios concretos de viver em regimes democráticos imperfeitos e permanentemente ameaçados. Não se furtam à defesa explícita de valores — liberdade, igualdade e fraternidade — a serem exercidos por meio de sistemas representativos eficazes e comprometidos com o bem comum. Mostram como a democracia não é um estado de coisas dado, mas uma conquista histórica carregada de disfuncionalidades e disputada por forças autoritárias que procuram corrompê-la por dentro ou destruí-la frontalmente.

Na segunda parte, Alice Noujaim, Maura Marzocchi e Renata Capovilla propõem treze atividades pedagógicas cuidadosamente estruturadas, pelas quais os estudantes podem vivenciar, como que em um laboratório, as virtudes e dificuldades da democracia, da elaboração de normas de convivência na sala de aula a simulações legislativas e trabalhos de pesquisa comunitária.

O tema da democracia não está totalmente ausente da Base Nacional Curricular Comum brasileira que inclui, para estudantes de nível médio, a necessidade de desenvolver competências sobre sistemas de governo, autoritarismo, populismo e participação política. Mas esses conteúdos aparecem fragmentados, sem sequência pedagógica coerente, e não de forma direta e sistemática, baseada nas ciências do direito e da ciência política propriamente ditas. Em um ano eleitoral como o que estamos vivendo, é impressionante pensar que não exista no currículo escolar um espaço onde os estudantes aprendam, de forma organizada, como o sistema político representativo brasileiro funciona, qual o papel dos três poderes, como se organiza o federalismo, que são ou deveriam ser os partidos políticos e, mais geralmente, porque é importante ter uma sociedade governada pelas regras do direito, e não pelo arbítrio e o poder individual ou de grupos.

Este vazio não se dá por acaso. O Estado brasileiro se organizou, desde o Império, como uma sociedade profundamente desigual, coberta por um tênue véu de ordem constitucional que conviveu tanto com a escravidão quanto com décadas de poder oligárquico. José Murilo de Carvalho, em A Formação das Almas (Companhia das Letras, 1990) e Cidadania no Brasil (Civilização Brasileira, 2020), mostra como intelectuais e políticos tentaram construir um Brasil imaginário, povoado de heróis e mitos cívicos que moldaram currículos escolares e monumentos nacionais, talvez na esperança de que assim este imaginário se tornasse realidade. O abismo entre o Brasil ideal e o Brasil real provocou, ao longo do século 20, reações de sentidos opostos. De um lado, as ideologias autoritárias, que defendiam a supremacia da ordem e da hiearquia, que entraram nas escolas através da Educação Moral e Cívica da ditadura militar e que tiveram continuidade, mais recentemente, no movimento das escolas sem partido e das escolas cívico-militares. De outro, a reação dos movimentos que defendiam o fortalecimento da sociedade em contraposição ao poder tradicional e ao formalismo das normas abstratas e das instituições. Esta segunda reação ganhou força nos documentos pedagógicos mais recentes, onde os temas da pobreza, identidades e direitos sociais passaram ao primeiro plano, em detrimento dos temas mais amplos do desenvolvimento econômico e social e da ordem democrática.

Para ambos, a democracia era uma tema menor, subordinado a outras prioridades. No século passado, estas reações podiam fazer sentido. No século 21, os temas da democracia e do funcionamento da ordem institucional não podem continuar sendo tratados como secundários. Assim como o direito positivo ficou fora das escolas, a economia também ficou. Sem compreender minimamente como funcionam o sistema político, os mercados, o orçamento público e o mundo do trabalho, os jovens chegam à vida adulta sem ferramentas para entender estes processos antes que seus efeitos desabem sobre suas cabeças.

Não é que a introdução do direito e da economia nos currículos escolares possa, por si só, resolver a má qualidade da educação brasileira e os problemas institucionais e econômicos com que vivemos. Não estavam errados os que, vinte anos atrás, entenderam que a coluna dorsal da educação deve ser o ensino da língua portuguesa e da matemática, e criaram todo um sistema de acompanhamento do desempenho escolar nessas matérias. Mas tanto a língua quanto a matemática são instrumentos que só ganham sentido quando aplicados para entender o funcionamento da vida em todos os seus aspectos, dos quais as formas de convivência democrática e os processos de produção, circulação e apropriação da riqueza são fundamentais.

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terça-feira, 12 de maio de 2026

Erro histórico do governo do PT: a recusa do ingresso na OCDE - Rubens Barbosa (Estadão)

Opinião: 

Erro histórico do governo do PT

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 12/05/2026

Um dos aspectos mais relevantes da política externa do governo Lula é a defesa do multilateralismo, visto que, como potência média regional, o fortalecimento das instituições multilaterais é considerado fundamental pelo PT para a defesa dos interesses brasileiros.

A realidade, porém, aponta para uma crescente dificuldade quanto ao ressurgimento do multilateralismo para o ordenamento das relações internacionais. O enfraquecimento dessas instituições fica evidente quando se sabe do limitado papel da Organização das Nações Unidas (ONU), nas questões da paz e da segurança globais, e da Organização Mundial do Comércio (OMC), na regulamentação, negociação e solução de controvérsias no comércio internacional. Enquanto outras instituições multilaterais desaparecem ou são enfraquecidas pela ação dos EUA, uma das organizações preservadas, sem sofrer qualquer restrição, foi a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem sido fortalecida e prestigiada.

Nesse contexto, a suspensão pelo governo Lula dos entendimentos, iniciados por Dilma Rousseff e apoiados por Temer, com vistas ao acesso do Brasil à OCDE só pode ser explicado por restrições ideológicas superadas, visto que o ingresso do Brasil traria benefícios de natureza política, econômica, institucional, estratégica e de cooperação regional e internacional. Não se pode ignorar, como faz Brasília, que existe uma forte convergência de princípios com a OCDE. O Brasil consagra, em sua Constituição federal e ordenamento institucional, os mesmos princípios fundamentais que os membros da OCDE procuram promover, notadamente democracia, direitos humanos, livre empreendimento e economia de mercado, bem como de Estado comprometido com a governança pública pautada em transparência, prestação de contas, combate à corrupção e ilícitos e busca contínua – e sob escrutínio internacional – das melhores políticas públicas – econômicas e sociais, em particular – para o cidadão.

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação. Como membro pleno da organização, o Brasil participaria das deliberações estratégicas e políticas da organização. Por meio dessa atuação, o Brasil influenciaria os consensos internos, construiria pontes com diferentes grupos de países e promoveria os processos de reforma da OCDE, segundo seus interesses. Contribuiria também para a crescente consideração da perspectiva de países em desenvolvimento, trabalhando em conjunto com países da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, com países já membros, em processo de acessão ou com crescente engajamento nos trabalhos da OCDE. Nesses termos, o Brasil poderia melhor projetar não só seus interesses, mas também suas visões sobre variados temas.

Hoje, quase todos os ministérios e agências regulatórias brasileiras atuam na OCDE e conhecem cada vez mais a natureza e os mecanismos de trabalho da organização. O Brasil é visto pelo secretariado da OCDE como o País em desenvolvimento mais preparado para ingressar na organização em toda a sua história, tendo o País ampliado de modo progressivo sua atuação e convergência nas últimas três décadas. Esse esforço está amadurecido, mesmo nas áreas mais sensíveis na adesão, como tributação e movimento de capitais, objeto de recomendações e dos chamados Códigos de Liberalização da OCDE. Ademais, a pedido do Brasil, a própria OCDE tem contribuído para as reformas no País, como nas atualizações sucessivas da legislação de concorrência e na recente reforma tributária. Esse gênero de convergência é promovido com base em diálogos com o secretariado e com os países-membros, que promovem a internalização e a racionalização das circunstâncias nacionais, bem como o exame da pluralidade de soluções cabíveis, em particular, na medida em que a organização se torna mais diversa no quadro de seus membros.

A participação plena e regular do Brasil na OCDE serviria de sinal significativo sobre a qualidade da regulação doméstica e dos padrões adotados pelo País em áreas como tributação, concorrência, comércio, agricultura, investimentos, serviços, governança pública, combate à corrupção, supervisão financeira, mercados de capitais e governança corporativa, empresas estatais e multinacionais, educação, saúde, emprego e trabalho. A OCDE mantém códigos técnicos também nas áreas de tratores, sementes, químicos e créditos à exportação. Muitos dos padrões da OCDE são reconhecidos internacionalmente, inclusive por países não membros, e sua adoção facilita a compreensão das práticas empregadas pelo país em avaliações e decisões comerciais, financeiras, de investimentos e negócios em geral. O ingresso do Brasil seria um elemento adicional de convergência regional. A América Latina, com México, Chile, Colômbia e Costa Rica, é a região em desenvolvimento que mais tem participado dos trabalhos da OCDE. A Argentina reviu sua posição e voltou a se interessar pelo ingresso. Outros países da região têm manifestado interesse em considerar a adesão futura à OCDE, como Paraguai, Panamá e República Dominicana.

Do ângulo geopolítico, o Brasil seria o único país membro do Brics e da OCDE. O futuro governo deveria reexaminar a decisão de manter o Brasil fora da OCDE, apenas por razões ideológicas, sem levar em conta o interesse nacional.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Vida e Morte das Universidades - Simon Schwartzman (Estadão)

 

Vida e Morte das Universidades

By Simon Schwartzman on May 08, 2026 08:22 am

(Publicado em O Estado de São Paulo, 8 de maio de 2026)

Em artigo recente, os economistas David Cutler e Edward Glaeser tratam de explicar como as universidades têm sido capazes de existir por mais de mil anos, e o papel importante que elas desempenharam e ainda desempenham em várias partes do mundo (“How Have Universities Survived for Nearly a Millennium”, NBER Working Paper35079, 2026). O segredo, dizem eles, está na combinação entre uma cooperativa de professores, com autonomia substancial sobre ensino e pesquisa, e entidades externas de financiamento e controle — Igreja, governos, filântropos, empresários, doadores. Eles têm interesses diferentes, mas que convergem. Os professores querem um lugar onde tenham liberdade para exercitar sua curiosidade, desenvolver e expor suas ideias sem se preocupar com de onde vem o dinheiro; e os controladores querem um lugar para onde possam mandar seus jovens e os melhores profissionais sejam formados. Cada um precisa ceder um pouco. Os professores precisam gastar tempo dando aulas e não exagerar em suas liberdades, a ponto de os controladores cortarem seus recursos; e os controladores precisam se cuidar para não forçar os professores a fazer o que não querem, matando a galinha de ovos de ouro. Com o tempo, as universidades foram crescendo e se transformando pelos dois lados, instalando laboratórios e infraestrutura de pesquisa, organizando museus e atividades culturais, entrando em competições esportivas, e desenvolvendo pesquisas de interesse civil e militar. É esta multiplicidade de funções e interesses que faz com que as universidades se mantenham e floresçam.

Como às vezes acontece, os economistas redescobrem e organizam de forma elegante ideias que já eram conhecidas entre cientistas sociais que estudaram estas questões. Um deles, Burton R. Clark, desenvolveu um modelo também simples e elegante da coordenação das universidades que ficou conhecido como o “Triângulo de Clark” (Clark, B. R., The Higher Education System: Academic Organization in Cross-National Perspective, University of California Press, 1983). Neste modelo, as universidades contemporâneas vivem dentro de um triângulo com três vértices: o governo, a corporação acadêmica e o mercado, formado pelos estudantes e empresas que contratam seus serviços. Cada um puxa e pressiona para seu lado, e as universidades se aproximam de um ou outro vértice conforme a força de cada um. O interessante deste modelo é que ele permite entender como as universidades podem ser diferentes conforme o país e  se transformar ao longo do tempo, movendo-se conforme varia a força de cada polo. E, tal como Cutler e Glaeser, mostra que as melhores e mais duradouras universidades são as que conseguem não ser dominadas por nenhum dos polos, aproveitando as vantagens e recursos de cada um. Universidades autônomas não são as que são controladas por suas corporações internas, mas as que têm capacidade de se movimentar dentro do triângulo buscando onde possam maximizar os diferentes interesses sem perder a força vital de seus professores.

Nestas movimentações, muitas instituições criadas para fins práticos acabam se tornando mais acadêmicas, em um processo conhecido como academic drift, ou deriva acadêmica. Um autor inglês, Jonathan Harwood, explica este processo pela hierarquia de status que existe no campo acadêmico, que dá mais prestígio e recursos para os cientistas que fazem pesquisa básica do que para os que se dedicam ao ensino ou a trabalhos aplicados (“Understanding Academic Drift: On the Institutional Dynamics of Higher Technical and Professional Education”, Minerva, 48, 2010). Estes desvios de função podem ter resultados positivos, como por exemplo em centros de pesquisa em agricultura que se envolveram em pesquisas acadêmicas sobre genética, e acabaram por revolucionar o campo das ciências agrárias; ou negativos, como parece ter ocorrido com os antigos Centros Federais de Educação Tecnológica brasileiros, que, ao serem elevados à condição em institutos universitários em 2008, se transformaram, de boas escolas técnicas, em instituições que hoje se dedicam sobretudo a formar bacharéis e professores do ensino médio como tantas outras.

Muitas instituições, no entanto, nem sobrevivem nem se transformam, mas simplesmente decaem. Quem, olhando para a América Latina, descreveu este mecanismo meio século atrás foi o economista Albert Hirschman (Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations, and States, Harvard University Press, 1970). Quando instituições perdem eficiência e estão sujeitas às regras do mercado, as pessoas se afastam delas, e elas desaparecem. Quando elas são públicas e desempenham funções indispensáveis, as pessoas protestam, os governos vêm em seu socorro, e elas renascem. O pior é quando elas são públicas mas perdem o monopólio para outros concorrentes. Elas não morrem, mas definham. O exemplo de Hirschman eram as antigas ferrovias,  sufocadas pelas rodovias, e os exemplos atutais podem ser tanto os Correios quanto muitas universidades públicas da região, cujas greves e protestos se arrastam e cada vez menos se ouvem.


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sábado, 7 de março de 2026

Guerra no Irã é o momento mais imprevisível no Oriente Médio em 50 anos - Thomas Friedman (NYT, Estadão)

Guerra no Irã é o momento mais imprevisível no Oriente Médio em 50 anos

Ofensiva contra Teerã é chance de derrubar teocracia, mas carrega risco de colapso e fragmentação do país
Impacto econômico pode ditar ritmo, mas guerra não deve obscurecer pressões sobre democracia nos EUA e em Israel
Thomas Friedman
The New York Times, 3.mar.2026 às 15h34
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/thomas-l-friedman/2026/03/guerra-no-ira-e-o-momento-mais-imprevisivel-no-oriente-medio-em-50-anos.shtml

Para pensar com clareza sobre as guerras no Oriente Médio é preciso manter múltiplos pensamentos na cabeça ao mesmo tempo. É uma região complicada e caleidoscópica, onde religião, petróleo e política das grandes potências se entrelaçam em cada grande história. Se você está procurando uma narrativa preto no branco, talvez seja melhor jogar damas. Então, aqui estão meus quatro pensamentos sobre o Irã—pelo menos por hoje.
Primeiro: espero que esse esforço para derrubar o regime clerical em Teerã tenha sucesso. É um regime que assassina seu povo, desestabiliza seus vizinhos e destruiu uma grande civilização. Não há evento único que faria mais para colocar todo o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança focada exclusivamente em permitir que o povo iraniano realize seu pleno potencial com uma voz real em seu próprio futuro.
Segundo: isso não será fácil, porque esse regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado apenas pelo ar. Israel não conseguiu eliminar o Hamas na Faixa de Gaza após mais de dois anos de uma guerra aérea e terrestre implacável
—e o Hamas está logo ali ao lado.
Dito isso, mesmo que esse ataque israelo-americano ao Irã não leve à revolta do povo iraniano que o presidente Donald Trump pediu, poderia ter outros efeitos benéficos não previstos, como produzir uma República Islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e vizinhos. Mas também poderia resultar em perigos não previstos, como a desintegração do Irã como uma única entidade geográfica.
Terceiro: devemos lembrar que o momento do fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e pelos mercados financeiros quanto pela situação militar dentro do Irã.
O Irã está à beira do colapso econômico, com uma moeda que vale pouco mais que papel de parede. A Europa tornou-se muito mais dependente do gás natural liquefeito do golfo Pérsico para mover suas economias, desde que eliminou gradualmente as compras de gás natural da Rússia.
Uma explosão sustentada de inflação causada por preços mais altos de energia irritaria a base de Trump, muitos dos quais já não gostam de ser arrastados para outra guerra no Oriente Médio. Há muitas pessoas que vão querer que esta guerra seja curta, e isso impactará como e quando Trump e Teerã negociarão.
Quarto: não devemos deixar que esta guerra para trazer democracia e Estado de Direito ao Irã nos distraia das ameaças à democracia e ao Estado de Direito representadas por Trump nos EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em Israel.
Trump quer promover esses ideais em Teerã, mesmo enquanto seus agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) operaram por dois meses com pouca consideração por restrições legais no meu estado natal de Minnesota e enquanto ele lança ideias sobre restringir quem pode votar em nossa próxima eleição.
Se a guerra no Irã permitir que Netanyahu vença as eleições israelenses planejadas para este ano, será um grande propulsor para seus esforços de anexar a Cisjordânia, enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um estado de apartheid, o que seria um grande golpe aos interesses americanos na região além do Irã.
A vida como colunista de opinião seria fácil se toda guerra sobre a qual você tivesse que se posicionar fosse a Guerra Civil Americana e se todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então vamos nos aprofundar um pouco mais nesses quatro pensamentos sobre o Irã.
Embora você nunca saberia disso se ouvisse a esquerda universitária nos últimos anos, a República Islâmica do Irã tem sido a maior potência imperialista na região desde 1979, cultivando representantes para controlar quatro Estados árabes —Síria, Líbano, Iraque e Iêmen— e minando reformistas liberais em todos os quatro ao promover divisões sectárias.
Apenas o enfraquecimento do regime de Teerã, graças aos golpes de martelo israelenses e americanos nos últimos dois anos, levou à queda do regime de Assad apoiado pelo Irã na Síria e permitiu que o Líbano escapasse do aperto da milícia Hezbollah apoiada pelo Irã, o que por sua vez deu espaço para o governo mais decente do Líbano em décadas —liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph Aoun. É por isso que a morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, está sendo celebrada silenciosa ou ruidosamente em toda a região.
Além disso, o povo iraniano está entre os mais naturalmente pró-Ocidente da região. Se esse impulso puder emergir e se espalhar, e substituir o veneno islamista radical e divisivo propagado pelo regime iraniano, temos a possibilidade de um Oriente Médio muito mais inclusivo.
Como o estrategista libanês-emiradense Nadim Koteich me disse: Não é por acaso que um dos gritos mais populares dos manifestantes antirregime no Irã tem sido: "Nem Gaza, nem Líbano. Minha vida pelo Irã".
Muitos iranianos ficaram enojados ao ver seus recursos desperdiçados em milícias lutando contra Israel. Também não é por acaso, observou Koteich, que o Irã acabou de lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados árabes do Golfo em modernização.
"Eles estão atacando a infraestrutura de abertura e integração e os Acordos de Abraão —foi o velho Oriente Médio atacando o novo Oriente Médio", acrescentou Koteich. A morte de Khamenei, esperançosamente, "é a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio deveria ser definido pela resistência e não pela inclusão e integração".
Esperançosamente, isso também acabará com o jogo duplo praticado por Khamenei e seus predecessores como Mahmoud Ahmadinejad —que serviu como presidente do Irã de 2005 até 2013 e também foi morto em um ataque aéreo israelo-americano— de que o Irã tem o direito de gritar abertamente "Morte à América" e "Morte a Israel" e depois alegar que também tem o direito de ser tratado como
a Dinamarca ou de enriquecer urânio para propósitos "pacíficos".
Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse jogo.
Quanto à ideia de que o povo iraniano agora se unirá e derrubará o regime, é difícil ver isso acontecendo tão cedo sem um líder claro e uma agenda comum.
Os analistas iranianos com quem converso dizem que o resultado mais provável é uma espécie de República Islâmica 2.0, onde reformistas proeminentes do regime—como Hassan Rouhani, que foi o sétimo presidente do Irã, de 2013 a 2021, e tem sido um crítico cada vez mais vocal da linha dura de Khamenei, ou o ex-ministro das Relações Exteriores e negociador nuclear Javad Zarif— pressionem a liderança sobrevivente a negociar um acordo com Trump.
Esse acordo poderia ser um que abandone o programa nuclear do Irã e aceite limites em suas guerras por procuração e mísseis balísticos —em outras palavras, o que Trump quiser— em troca do fim das sanções econômicas e da sobrevivência do regime.
Tal regime de República Islâmica 2.0 poderia então ser capaz de supervisionar uma transição para uma verdadeira democracia iraniana novamente. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de jogar um salva-vidas para um regime moribundo que recentemente matou pelo menos 6.800 manifestantes, de acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos sediada nos EUA, e provavelmente muitos mais. Em outras palavras, começar esta guerra foi relativamente fácil. Terminá-la não será.
Tal acordo pode ser tentador para Trump, porém, para evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada por preços de petróleo disparados ou a desintegração do Irã. É por isso que não fiquei surpreso ao ouvir Trump dizer à The Atlantic: "Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então estarei conversando com eles".
No Oriente Médio o oposto da autocracia não é necessariamente a democracia. Frequentemente é a desordem. Porque quando ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece. Ou elas implodem, como a Líbia fez, ou explodem, como a Síria fez. Os persas são apenas cerca de 60% da população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente azeris, curdos, lurs, árabes e balúchis. Cada um tem ligações com terras fora do Irã, especialmente azeris com o Azerbaijão e curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um deles a se separar e o Irã, na prática, explodir.
O Irã testemunhou o colapso de governos ou a queda de governantes ao longo de sua história. Em todas as vezes, "o Irã permaneceu intacto", disse Koteich.
"Pela primeira vez não tenho certeza de que permanecerá intacto."
Se você quiser ver petróleo a US$ 150 o barril, esse tipo de desintegração iraniana o levaria até lá. As exportações de petróleo do Irã de 1,6 milhão de barris por dia, que vão principalmente para a China, seriam completamente retiradas do mercado global de petróleo. Cerca de 20% de todo o comércio global de petróleo passa pelo Estreito de Hormuz, que o Irã pode fechar. As taxas de seguro para transportadores de petróleo já estão disparando, e cerca de 150 navios-tanque no Golfo estão supostamente paralisados.
Espero que até quarta-feira haja pelo menos mais três pontos competindo na minha cabeça para fazer sentido de tudo isso, porque este é o momento mais plástico e imprevisível no Oriente Médio desde a Revolução Islâmica em 1979. Tudo —e seu oposto— é possível.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

As razões da ganância de Trump pela Groenlândia - Daniel Gateno, William Brizola, Lucas Keske (Estadão)

 As razões da ganância de Trump pela Groenlândia

DANIEL GATENO 

WILLIAM BRIZOLA 

LUCAS KESKE

O Estado de S. Paulo, 19 de fev. de 2026

Presidente americano mira terras raras e usa argumentos militares

No meio do caminho entre Estados Unidos e Rússia, a Groenlândia virou objeto de cobiça de Donald Trump ainda em seu primeiro mandato. O presidente americano foi atraído pela posição estratégica do território, os minerais críticos e o potencial cada vez maior do Ártico por conta das mudanças climáticas. Apesar de a Dinamarca ter recusado a proposta de venda de Washington na primeira passagem de Trump pela Casa Branca, o republicano não esqueceu a ilha e parece irredutível em sua busca pelo território.

A tentativa de Trump em dominar uma parte ainda maior do Ártico adiciona mais tensão a uma região que se tornou mais disputada, militarizada e alvo de espionagem e sabotagem nos últimos anos. O Ártico é considerado um possível campo de batalha entre Rússia e o Ocidente, já que Washington, Moscou, Canadá e os países nórdicos possuem um flanco da região e o derretimento do gelo pode tornar os territórios mais acessíveis e próximos no futuro.

Segundo Trump, a disputa pelo Ártico é o que o motiva a tornar a Groenlândia parte dos Estados Unidos. “Existem barcos russos por todo lugar, barcos chineses por todo lugar – navios de guerra. Nós precisamos da Groenlândia”, afirmou o presidente americano em um discurso no Congresso no ano passado.

A alegação de Trump é rechaçada pelas autoridades locais da Groenlândia e por especialistas. “Não é útil para a China enviar navios militares tão ao norte e a Rússia não tem nenhuma razão para atacar a Groenlândia, já que o território faz parte do Reino da Dinamarca, que é da Otan”, opina Marc Lanteigne, professor de ciências políticas da Universidade de Tromso, na região do ártico norueguês.

Apesar disso, o especialista destaca que é necessário investir na segurança do Ártico porque a competição pelos recursos da região vai aumentar nos próximos anos. “Estima-se que em apenas 10 anos poderemos ver águas abertas sobre o Polo Norte no verão e os EUA acreditam que, se eles não conseguirem extrair os recursos do Ártico, outros países irão.”

ROTAS COMERCIAIS. As passagens estratégicas do Ártico também podem transformar o potencial comercial e geopolítico da região. As grandes potências já imaginam o dia em que os navios que viajam entre Ásia, Europa e América do Norte não precisarão mais seguir para os canais do Panamá e de Suez, e sim realizar rotas mais curtas pelo Ártico.

A chamada Passagem do Noroeste começa no Estreito de Davis, justamente entre a Groenlândia e o Canadá, enquanto a Passagem do Nordeste passa pela Rússia e termina no Estreito de Bering, que separa os EUA do território russo.

O derretimento cada vez mais rápido do gelo está abrindo outros caminhos, como a Rota Marítima do Norte, que se sobrepõe à Passagem do Nordeste e percorre a costa ártica da Rússia, da Europa à Ásia, e uma potencial rota ártica central, que pode ser viável através do Polo Norte no futuro relativamente próximo.

Em 2025, o navio porta-contêineres Istanbul Bridge se tornou o primeiro navio a viajar da China para a Europa pela Rota Marítima do Norte. O trajeto foi completado em cerca de 20 dias.

De acordo com a Marine Exchange of Alaska, uma organização de monitoramento marítimo, houve um aumento de 175% de navios que passaram pelo Estreito de Bering em 2024 em relação ao número registrado em 2010.

Em meio ao aumento de possibilidades comerciais e estratégicas, Rússia e China já deixaram claro que também querem expandir a sua presença no Ártico.

Pequim não possui território na região, mas sinalizou que deseja desenvolver a chamada “Rota da Seda Polar”, enquanto Moscou reativou bases navais e tem mísseis nucleares estacionados no Extremo Norte e na Península de Kola, perto da Noruega.

“O aumento da presença russa no Ártico abriu os olhos da Otan para uma possível rivalidade entre o Ocidente e Moscou na região”, avalia Lanteigne. Os movimentos da Rússia preocupam mais os países nórdicos, que sofrem com constantes casos de espionagem e sabotagem.

Para o professor da Universidade de Tromso, a região do Ártico central pode se transformar em uma zona de colisão entre Otan, Pequim e Moscou.

PRESENÇA MILITAR. Trump alega que os EUA são o único país com capacidade de garantir a segurança da Groenlândia.

Mas Washington não precisa ter soberania sobre a ilha se quiser reforçar a segurança do local.

Em 1951, Estados Unidos e Dinamarca firmaram um acordo de defesa que permitiu o estabelecimento de bases militares americanas na Groenlândia. Os EUA já tiveram mais de 20 bases na ilha e cerca de 10 mil soldados.

Durante a Guerra Fria, a Groenlândia se tornou peçachave no tabuleiro militar entre EUA e União Soviética, já que os possíveis ataques das duas partes seriam lançados pelo Círculo Polar Ártico.

Atualmente, Washington possui ali apenas a Base Espacial Pituffik, um dos pontos militares estrategicamente mais importantes do mundo, mas tem o poder de abrir mais bases militares quando quiser.

Apesar dos questionamentos aos argumentos trumpistas, a Dinamarca reconhece que pode fazer mais para defender a ilha e anunciou um pacote de US$ 2 bilhões em renovação militar para o Ártico, com a compra de novos navios, drones e satélites.

Segundo explica o professor da Universidade de Tromso, a Groenlândia precisa de mais bases para monitorar o chamado espaço GIUK (Groenlândia-Islândia-Reino Unido), ponto vital entre o Mar da Noruega e o Atlântico que fica entre os três países que compõem a sigla.

“Esse ponto é importante e precisa de monitoramento porque, se a Rússia quisesse enviar um navio de guerra ou submarino para o Atlântico, seria por essa rota que passa pela Groenlândia, Islândia e Reino Unido.”

TERRAS RARAS. A ilha semiautônoma da Dinamarca está entre os dez territórios com as maiores reservas de terras raras do mundo. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, a ilha tem 1,5 milhão de toneladas de minerais críticos.

A Groenlândia também abriga dois dos maiores depósitos conhecidos de terras raras, em Kvanefjeld e Tanbreez. A empresa chinesa Shenghe Resources é a segunda maior acionista do projeto Kvanefjeld, com uma participação de 6,5%.

A busca por minerais críticos tem sido um dos focos do presidente Trump para competir com a China. Pequim domina a extração e o refino de terras raras, controlando 50% das reservas mundiais e 70% da produção. “Na cabeça de Trump, o Ártico é visto como um lugar de recursos importantes para a nova economia: gás, petróleo e terras raras”, avalia Lanteigne.

APLICAÇÃO. As terras raras são importantes para a confecção de produtos de alto valor no mundo moderno, como carros elétricos, celulares, equipamentos médicos, turbinas eólicas e chips de computadores, além de terem, também, uso em maquinário militar.

Mas Trump não precisa comprar a Groenlândia para explorar as terras raras da ilha. O governo do território já deixou claro que está aberto a investimentos, mas poucas empresas se interessaram por conta dos custos da operação e problemas relacionados a infraestrutura, mão de obra e gelo.

“A Groenlândia poss ui uma grande riqueza mineral, mas a mineração na ilha é difícil e cara. É preciso esperar muito tempo até que uma empresa obtenha algum lucro”, disse o professor da Universidade de Tromso.

NEGOCIAÇÃO. Mesmo com os argumentos de especialistas sobre o poder que os Estados Unidos têm sobre a Groenlândia e sua segurança, Trump se mostra irredutível em sua vontade de anexar a ilha.

O presidente americano anunciou uma série de tarifas contra países europeus por conta de sua defesa da soberania da Dinamarca, mas voltou atrás depois de uma reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial.

De acordo com informações do jornal americano The New York Times, as negociações têm se concentrado em propostas para aumentar a presença da Otan no Ártico, conceder aos Estados Unidos uma reivindicação soberana sobre partes do território da Groenlândia e impedir que China e Rússia explorem os minerais da ilha.

A Dinamarca apontou que se opõe publicamente à cessão da propriedade de qualquer terra groenlandesa, mas está aberta a negociar outras áreas que não afetem a soberania da ilha.

“Existe a esperança de que algum tipo de acordo possa ser alcançado, mas que não afete a soberania da Groenlândia”, aponta Lanteigne. “Poderia ser um acordo militar ou algum memorando de preferência para a mineração de terras raras, existem muitos pontos possíveis.” •

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PRA: Grato a Walmyr Buzzatto pela transcrição.


Uma nação de privilegiados? - Wesley Galzo e Gustavo Côrtes (Estadão)

 Uma nação de privilegiados?

Os ganhos efetivos, reais (pois vários sem IR), dos excelentissimos aristocratas da magistratura representaram TRÊS VEZES o teto máximo autorizado pela legislação. O ministro Dino pretende, também, cortar TODOS os “penduricalhos” e exigir explicações em 60 dias?

Transcrevo do Estadão 19/02/2026:

“Em mais um capítulo da série Ilustríssimo Privilégio, os repórteres Wesley Galzo e Gustavo Côrtes revelam que ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST) e Superior Tribunal Militar (STM) receberam, na reta final de 2025, em média R$ 129 mil líquidos — o triplo do teto constitucional — impulsionados por penduricalhos. Esses vencimentos ocorrem graças a artifícios usados para driblar os limites legais por meio do pagamento de verbas indenizatórias além dos salários. 

O Estadão analisou os contracheques de todos os membros dos três tribunais em dezembro e identificou que os salários acima dos R$ 100 mil foram viabilizados por uma miríade de adicionais, como licença compensatória, licença prêmio, gratificação por tempo de serviço, abono permanência e auxílios variados. 

O levantamento não contabilizou o 13º ou a venda de férias, pois são benefícios garantidos por lei a funcionários públicos e trabalhadores da iniciativa privada. 

Procurados, o STJ e o TST afirmaram que valores abarcam diversos benefícios autorizados por lei pelo CNJ; demais tribunais não se manifestaram. 

Nos bastidores do poder em Brasília, o colunista Álvaro Gribel observa que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), quer criar uma teoria da conspiração para desviar o foco do principal: o suposto contrato milionário entre o escritório da sua esposa e o falido Banco Master e a sociedade do ministro Dias Toffoli em um resort de luxo por valores muito acima da sua renda acumulada como servidor público.

Segundo o colunista, comenta-se nos corredores que o magistrado faz parte de um grupo de autoridades próximas ao banqueiro Daniel Vorcaro, ao lado de Toffoli e de políticos como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira e o atual presidente da Casa, Hugo Motta. A lista ainda incluiria dezenas de deputados e senadores que, direta ou indiretamente, surfaram na onda de crescimento da instituição financeira nos últimos anos. 

O que não para em pé na conduta dele, sinaliza Gribel, é o uso do inquérito das fake news — que tem a ver com a tentativa de golpe por parte de Bolsonaro em 2022 — para investigar a quebra de sigilo de membros da Corte e de seus familiares a partir de 2023, ou seja, durante o governo Lula. Leia a coluna na íntegra.”


PRA: O venerando jornal conservador tem sido revolucionário ao denunciar os abusos da casta politica em nosso país, assim como os privilégios indefensáveis da aristocracia da magistratura, que destroi qualquer laivo de moralidade ao quebrar ela mesma regras e normas que impediriam que altos mandarins do Estado assaltassem a nação dessa forma desavergonhada como vêm fazendo ao longo de anos e anos e de forma crescentemente despudorada.

Vivem melhor do que a nobreza do Ancien Regime, que acabou provocando uma revolução popular, com destruições seguidas de um regime de Terror. 

É a isso que suas Excelências pretendem conduzir o pais?

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 19/02/2026


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Opinião: Brasil país indefeso - Rubens Barbosa (Estadão)

 Opinião:

Brasil país indefeso

Com recursos insuficientes, ficam evidentes as vulnerabilidades na segurança do País quanto a meios adequados para assegurar a soberania nacional
Foto do autor Rubens Barbosa
Por Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 27/01/2026

A revista Inteligência Insight publicou, no número de dezembro, o artigo Brasil país indefeso, apresentado como um manifesto à nação. O artigo trata das vulnerabilidades na área da segurança, com graves danos à soberania e à defesa do interesse nacional. Levando em conta a nova estratégia nacional e o recém-publicado documento com a doutrina de Defesa dos EUA, é importante ressaltar algumas análises feitas a partir do artigo.
País pacífico, cuja Constituição advoga a solução negociada dos conflitos, a única guerra com vizinhos em que o Brasil se viu envolvido foi contra o Paraguai em 1865. Todos os conflitos de fronteiras foram resolvidos em entendimentos bilaterais ou por arbitragem. Por outro lado, 14 intervenções militares na política nacional desde 1889 até 1964, com os 21 anos de autoritarismo, contribuíram para que se evitasse estimular o ressurgimento do poder militar no País. Com esse pano de fundo, não é difícil explicar a falta de uma forte cultura de Defesa, como nos EUA, na Rússia e na Europa.
Embora o Ministério da Defesa receba a quinta maior dotação da Esplanada, com o valor previsto de R$ 133 bilhões durante o ano de 2025, os gastos livres correspondem a menos de 10% desse montante, pois o resto é gasto com pessoal e encargos sociais, sobretudo inativos e pensionistas. Nos dias que correm, o Ministério da Defesa teve recursos cortados, não somente no reequipamento das Forças Armadas (FFAA), chamadas a desempenhar funções na área de segurança pública, mas também em programas essenciais para a defesa nacional, como, entre outros, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras, que, sem recursos, só estará finalizado em 2040, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul, o Programa Espacial Brasileiro e o programa da construção do submarino de propulsão nuclear. Segundo dados do Ministério da Defesa, a falta de recursos deixa parte da frota da Marinha parada, sem navios de escolta necessários, por exemplo, para dar proteção às plataformas do pré-sal. No exército, os frequentes contingenciamentos exigiram a redução drástica da linha de produção do carro blindado Guarani, que poderá levar a empresa construtora do equipamento a suspender a produção. Na Aeronáutica, quase metade da frota aérea está parada. A construção do avião cargueiro KC-390 só foi possível porque a Embraer, mesmo sem receber mais de R$ 1,5 bilhão devido pelo governo federal, bancou o projeto sozinha, ao custo de um atraso de vários anos.
A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA coloca, pela primeira vez, as Américas (Western Hemisphere) como a principal prioridade de Washington. A América do Sul não pode continuar a ser vista pelo Brasil como uma área periférica e sem ameaças à soberania nacional. Com recursos insuficientes, ficam evidentes as vulnerabilidades na segurança do País quando se pensa na inexistência de meios adequados para assegurar a soberania nacional na defesa das fronteiras, para proteger as plataformas de petróleo no pré-sal do mar territorial, para derrotar eventuais ambições externas sobre os grandes recursos biológicos e de água na Amazônia, para defender o País de ataques cibernéticos e para preservar as comunicações privadas e governamentais – inclusive militares – dependentes de satélites operados por companhias estrangeiras.
Devem ser levadas em conta também uma série de novas ameaças, como o tráfico de armas e de drogas, o terrorismo e a guerra cibernética. Se o Brasil não dispuser de capacidade para utilizar as novas tecnologias e a inteligência artificial, capaz de substituir os recursos humanos em numerosas funções militares, estará em grande desvantagem em seu poder de dissuasão perante as outras nações. Numa nova era geopolítica em que os princípios inscritos na Carta da ONU passaram a ser desrespeitados, o Brasil é um país indefeso, desarmado, incapaz de se proteger efetivamente da cobiça internacional com respeito a suas imensas riquezas biológicas, energéticas, hídricas, minerais e humanas. É urgente uma agenda positiva para a Defesa de curto, médio e longo prazo.
A agenda de curto prazo deveria contemplar, entre outros aspectos, o fortalecimento da Base Industrial da Defesa por meio de sua crescente nacionalização mediante a atuação do BNDES e do Banco do Brasil com vistas à criação de novas empresas e fortalecimento das já existentes. A médio prazo, deveriam ser ampliados os meios à disposição do Ministério da Defesa, via previsibilidade orçamentária e manutenção dos investimentos para a conclusão dos atuais projetos especiais da FFAA, como o submarino nuclear, a defesa cibernética e o programa espacial. Não se pode mais adiar a revisão da assimetria quanto à imunidade tributária das importações de Defesa, apoio a projetos das FFAA com forte conteúdo científico e tecnológico, treinamento, pesquisa e cooperação técnica e a criação de órgão para cuidar da logística (demanda e oferta) da Defesa. No longo prazo, impõem-se uma política de reaparelhamento das Forças, a redução do custo com pessoal (da ativa e da reserva) e políticas para reduzir a dependência e as vulnerabilidades em tecnologias críticas para o desenvolvimento dos produtos de Defesa considerados estratégicos.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

https://www.estadao.com.br/opiniao/espaco-aberto/brasil-pais-indefeso/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Politica brasileira cheira mal: Master, BRB, colusões - Marcia Pezenti (Estadão)

Vorcaro disse à PF que tratou com Ibaneis a venda do Banco Master ao BRB

Marcia Pezenti

O Estado de S. Paulo, 23/01/2026

Em depoimento à PF, Daniel Vorcaro, dono do Master, afirmou que conversou "algumas vezes" com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a venda da instituição financeira ao Banco Regional de Brasília (BRB) e pontuou que o governador já esteve em sua casa. Ibaneis é o primeiro político citado pelo banqueiro nas investigações que tramitam no Supremo Tribunal Federal. 

À reportagem do Estadão, o governador, que não é investigado no caso, disse que esteve apenas uma vez na residência de Vorcaro. "Fui em um almoço, quando conheci ele. Entrei mudo e saí calado". 

A Polícia Federal e o Ministério Público Federal apontaram indícios de que o Master vendeu R$ 12,2 bilhões em carteiras inexistentes ao banco estatal, que hoje tem rombo estimado em R$ 4 bilhões.

Com o avanço do escândalo Master, Fabiano Lana aponta que as revelações envolvendo o ministro do Supremo Dias Toffoli são tantas que o silêncio do magistrado se tornou uma espécie de confissão de culpa: "São suspeitas de ser proprietário oculto de resort via uso de laranjas (confira a reportagem do Estadão), sociedades com parentes de gente ligada à instituição financeira, tráfico de influência e algo a mais. Tudo somado com uma tentativa desesperada, na aparência, de controlar a investigação que o envolve por meio de decretação de sigilo e limites à ação da PF. Ainda não temos o chamado 'outro lado' de Toffoli". 

PRA: Nunca imaginei que pudesse ser diferente, ou seja, que um diretor de banco estatal decidisse sozinho uma compra de 12 bilhões.


domingo, 2 de novembro de 2025

Lula e o comércio internacional - Rolf Kuntz (Estadão)

ESTADÃO
Opinião

Lula entre Jacarta e a luta pelo voto
Num quadro de polarização política, a disputa eleitoral do próximo ano poderá ser mais dura e mais custosa, do que talvez se calcule neste momento

Por Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo, 26/10/2025 | 03h00

O mundo terá de recuar milênios, voltando talvez à fase inicial do comércio entre gregos e fenícios, para ficar ao gosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Guiado em assuntos internacionais por ideias singularíssimas, ele consegue misturar no mesmo discurso a defesa do multilateralismo e a pregação do comércio com moedas emitidas pelos parceiros — ou até sem moedas, como se fazia na aurora da civilização mediterrânea. Essa arenga foi retomada em Jacarta, em cerimônia com o presidente indonésio Prabowo Subianto, na reunião de líderes da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).

Com o fortalecimento da União Europeia e com a crescente importância comercial da China, talvez o sistema de pagamentos evolua para novas formas de operação e para a consolidação de novas moedas de uso global. Mas essas transformações, normalmente complexas, podem ser lentas, envolvem a combinação de interesses variados e muito dificilmente — talvez nunca — se resolverão no interior de grupos como o Brics.

Diverso e formado por países com interesses nem sempre convergentes, o Brics, inicialmente Bric, nasceu como sigla inventada em 2001 pelo economista britânico Jim O’Neill, do Goldman Sachs, para indicar quatro países com grande potencial de crescimento – Brasil, Rússia, Índia e China. O ministro brasileiro Guido Mantega decidiu levar a sério a ideia de um grupo. Os governos dos três outros países simplesmente aceitaram a iniciativa e também concordaram, mais tarde, com a admissão de um quinto participante, a África do Sul. Do nome inglês South Africa veio a letra “s” no final da sigla.

O grupo cresceu, com a adesão de vários países convidados, incluídas nações árabes produtoras de petróleo, e seu associado mais influente é obviamente a China, embora o mais barulhento seja o Brasil. O conjunto pouco tem feito para tornar a ordem global mais cooperativa e mais equitativa. Tem servido principalmente como palanque antiamericano e como afirmação de um poder paralelo ao do capitalismo tradicional, aquele representado principalmente por Estados Unidos, Europa Ocidental e, de modo mais discreto, pelo Japão. O velho capitalismo continua poderoso, seus padrões comerciais se mantêm predominantes e acumular dólares é ainda um objetivo normal na maior parte do mundo avançado, emergente e em desenvolvimento.

Qualquer viajante pode, é claro, desembarcar na Europa com reais, pesos argentinos ou rúpias indonésias, mas só poderá circular, consumir ou investir depois de converter seu dinheiro na moeda local, aceitando uma taxa de câmbio talvez pouco atraente. A mesma limitação ocorrerá se for utilizado um cartão de crédito. Essa restrição dificilmente será eliminada por meio de protestos contra os padrões monetários dominantes.

Além do mais, nem no Brasil a oposição do presidente Lula ao predomínio da moeda americana tem produzido efeitos. Com resultados positivos no intercâmbio internacional, o País detinha no início de outubro reservas avaliadas em US$ 357 bilhões. No mês anterior, correspondiam a US$ 350,8 bilhões. Neste século, o País tem mantido um razoável padrão de segurança cambial, com benefícios dificilmente avaliáveis por quem nunca viveu tempos de crise nas contas externas. Crises desse tipo ainda têm ocorrido, de forma recorrente, na economia argentina, embora o país seja importante exportador de matérias-primas e ocupe uma posição destacada no mercado internacional da carne.

O presidente Lula enfrentou a fase final de uma crise desse tipo em seu primeiro mandato. Conseguiu superá-la sem dificuldades muito grandes porque havia herdado uma situação fiscal e monetária razoável, muito diferente das condições vividas no Brasil nos anos 1980 e em parte da década seguinte.

Na primeira metade do atual mandato, foi mantido um quadro fiscal favorável, graças à gestão prudente das finanças públicas. As contas do poder federal pioraram recentemente, mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem procurado evitar uma evolução desastrosa nos próximos anos. O interesse do presidente Lula nas eleições programadas para 2026 tem complicado a ação preventiva do ministro.

A tentação da gastança e das bondades fiscais tende a crescer quando se aproximam eleições. Como o presidente Lula anunciou a intenção de concorrer mais uma vez no próximo ano, parece razoável — sem antecipar um julgamento — dar atenção especial, a partir de agora, ao tratamento das contas públicas. A prudência do ministro Haddad pode ser insuficiente para os cuidados fiscais, se a competição eleitoral afetar a condução do governo e prejudicar a gestão financeira. Vale a pena, também, dar atenção às possíveis tentativas partidárias de influenciar as ações do poder federal.

Num quadro de polarização política, a disputa eleitoral do próximo ano poderá ser mais dura e mais custosa, do que talvez se calcule neste momento. Quem já está no poder, no entanto, parte normalmente de uma situação vantajosa. Isso pode tornar menos necessária uma gastança especial.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Guerra na fronteira do Brasi? - Sergio Eduardo Moreira Lima (Estadão)

 O embaixador Sergio Eduardo Moreira Lima, amigo e colega na carreira diplomática, meu chefe na Fundação Alexandre de Gusmão - FUNAG, quando eu dirigia o IPRI, o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, entre 2016 e 2019, acaba de publicar um artigo no Estadão, no qual resume os pontos centrais da postura internacional do Brasil, os padrões principais de sua diplomacia, e os valores e princípios de sua política externa, no tocante às ameaças recentes vindas de um presidente instável e ignorante sobre as relações internacionais, com a agravante de tocar numa fronteira próxima do Brasil, a da Venezuela.




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Muitas diferenças, uma semelhança… - Paulo Roberto de Almeida

Paulo Roberto de Almeida  Lula não se parece em quase nada com Trump, ou nada mesmo. Para ser mais preciso, eles estão nas antípodas, em ext...