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domingo, 13 de setembro de 2026

A grande mídia e o pequeno STF: editoriais FSP, Estadão, Globo (+ resenha de Madame IA ao final)

A grande mídia e o pequeno STF: editoriais
13/09/2026 

O Supremo diante da História 

O Globo
Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias
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É preciso dizer não à tentativa de sabotar sessão do STF 

Folha de S. Paulo
Grupo de ministros aliados de Moraes aposta nas chicanas para adiar julgamento
Ele precisa ocorrer na 3ª e ser aberto ao público; se magistrado entende que relatório da PF é insuficiente para abrir inquérito, que vote contra
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Lula é isso aí 

O Estado de S. Paulo
Os petistas se convenceram de que a crise no STF prejudica o presidente. Mas o problema de Lula não é Moraes, e sim que sua candidatura representa cada vez mais o Brasil que não queremos

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O Supremo diante da História 

O Globo, 13/09/2026

 
Corte tem de autorizar já investigação de Moraes — e repelir as manobras protelatórias
Na sessão plenária de terça-feira, dia 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a História. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, a Corte decidirá se a lei vale para todos ou se existe alguém acima dela. Na pauta, a decisão sobre se o ministro Alexandre de Moraes pode ser investigado — não julgado, nem sequer processado, apenas investigado. O motivo: 52 mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no telefone celular de Daniel Vorcaro, possivelmente o maior fraudador da História do sistema financeiro nacional.
Nelas, o banqueiro, já sob intensa investigação e prestes a ser preso, além de jurar lealdade, pede conselhos e ajuda ao ministro e, pelo que se pode depreender da conversa, parece receber dele informações sob segredo de Justiça. Há, ainda, indícios mais graves: encontros entre o fraudador e o ministro fora da agenda oficial e um contrato de R$ 130 milhões celebrado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, sem qualquer contrapartida à altura.
Passados muitos meses desde que as primeiras denúncias chegaram ao conhecimento público, Moraes não foi capaz de apresentar nenhuma explicação plausível. Talvez exista alguma, e ele possa demonstrar que não violou a lei. Como deveria ocorrer com qualquer brasileiro sob quem paire uma suspeita, ele tem direito ao devido processo legal e a ampla defesa. Pode constituir advogado, acompanhar as investigações, apresentar os argumentos que desejar e usufruir todos os recursos disponíveis no Direito processual brasileiro, seja na fase de investigação ou na eventual ação penal. O que não pode é estar acima da lei. Nossa Constituição, que os ministros do Supremo juraram respeitar e seguir, dispõe que todos são iguais perante a lei. Diante da robusta evidência apurada pela PF, para ser igual aos demais brasileiros, Moraes precisa ser investigado, com isenção e respeito à lei, mas sem privilégios.
Respondamos a uma das perguntas do banqueiro agora preso na correspondência enviada ao ministro: não, não dá para bloquear a investigação. Apesar das torcidas apaixonadas, não tem qualquer relevância que Moraes seja um símbolo da resistência democrática durante os momentos críticos do governo Jair Bolsonaro. Um passado honrado não apaga nenhum crime posterior.
A politização de nossa mais alta Corte, que vem provocando muitos desarranjos institucionais e culminou com a anarquia judicial que se viu nas últimas semanas, confunde a população e faz parecer que a discussão é política. Não é. O STF não é uma arena política. É um tribunal —e a ele só deve interessar que sejam cumpridas a Constituição e a lei.
E o ministro é apenas um brasileiro sujeito às leis de seu país. Costuma-se dizer que as instituições são fortes no Brasil. Até aqui, tem sido realidade. Mas as sociedades são organismos vivos, sujeitos a oscilações, e isso pode mudar a qualquer momento. O STF deve decidir que agora, sem postergação, sem pedidos de vista protelatórios, é o momento de se redimir e iniciar a restauração da dignidade do país pela via institucional.
A sessão de terça não julgará Moraes no mérito, mas, repitamos, apenas autorizará que seja investigado. Por isso, as manobras do decano Gilmar Mendes e do próprio Moraes não fazem sentido — são subterfúgios para confundir. Agiu bem, portanto, mais uma vez Fachin, ao afastar o pedido de adiamento e, em vez disso, marcar para o dia 23 a apreciação do relatório que Moraes encomendou à PF com denúncias frágeis contra Mendonça.
Os ministros que votarem pela abertura da investigação sobre o envolvimento de Moraes no caso Master optarão pelo caminho da dignidade. Os outros contribuirão para a corrosão do tribunal como instituição e receberão dos brasileiros e da História a merecida reciprocidade no julgamento de suas biografias.
 

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É preciso dizer não à tentativa de sabotar sessão do STF 

Folha de S. Paulo13/09/2026

 
Grupo de ministros aliados de Moraes aposta nas chicanas para adiar julgamento
Ele precisa ocorrer na 3ª e ser aberto ao público; se magistrado entende que relatório da PF é insuficiente para abrir inquérito, que vote contra
Até prova em contrário, o ministro Alexandre de Moraes não é culpado. O que estará em tela no julgamento da terça-feira (15) é se o plenário do Supremo Tribunal Federal autorizará a abertura de um inquérito para apurar indícios que lhe concernem, levantados em relatório pericial pela Polícia Federal.
Se for iniciada, a investigação permitirá aos policiais, sob a condução do presidente Edson Fachin, tentar verificar se era mesmo Moraes o interlocutor dos pedidos desesperados de ajuda e informações do mafioso Daniel Vorcaro à véspera de sua primeira prisão —e, em caso afirmativo, quais foram as respostas do juiz.
Inspetores poderão indagar investigados e testemunhas e recolher outras evidências acerca do teor do relacionamento com Vorcaro. Era distanciado e alheio aos interesses do fraudador ou se confundia com papéis de advogado, informante e conselheiro?
O contrato de R$ 131 milhões do escritório da família Moraes com o Banco Master vai se expor à averiguação da PF. Quais foram os serviços prestados? Eles justificam a faustosa remuneração?
O inquérito, frise-se, não implica determinação de culpa. Trata-se de uma etapa técnica incipiente. Ao seu final caberá à Procuradoria-Geral da República, à luz do que terá sido apurado, decidir se denuncia o investigado ou se pede o arquivamento do caso.
Na hipótese de haver denúncia e ela ser aceita pelo plenário do STF, só a partir de então haveria processo penal propriamente dito, sujeito à ampla defesa do réu.
Convicto de sua inocência, como tem se mostrado, Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro a incentivar a abertura do inquérito. Sem ela, a sua convicção jamais terá oportunidade de materializar-se como verdade pública.
Causa espécie, portanto, o tumulto processual promovido por um grupo de ministros —Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin— na tentativa de sabotar e adiar o julgamento desta terça-feira. A algazarra alveja Edson Fachin com um sem-número de petições e ameaças veladas carentes de propósito que não seja apostar na confusão.
Esse clube de juízes comporta-se como uma turma de maus alunos atazanando o professor para cancelar a prova iminente, atitude imatura e lamentável para integrantes da corte constitucional.
Existe um relatório pericial da Polícia Federal para ser julgado e ponto —juízo de que não podem participar Dias Toffoli e Moraes, conflitados. Se um magistrado entende que o que vai ali impresso não justifica a abertura de uma simples investigação, que vote para enterrá-la em sessão pública, sob o escrutínio da sociedade e da própria história.
A procrastinação embalada em chicanas e cochichos de corredor desonra o Supremo Tribunal Federal. Transforma a instituição em joguete de raposas da politicagem. Juízes que agem à sombra para desviar-se da sua obrigação transmitem à sociedade desconfiança na corte que representam.
A crise do STF chegou a este ponto em razão da leniência dos ministros com indícios de má conduta de colegas. É preciso dar um fim a esse período de trevas.
 

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Lula é isso aí 

O Estado de S. Paulo, 13/09/2026

 
Os petistas se convenceram de que a crise no STF prejudica o presidente. Mas o problema de Lula não é Moraes, e sim que sua candidatura representa cada vez mais o Brasil que não queremos
Consta que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preocupado. Os petistas parecem convencidos de que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) está prejudicando as chances do Grande Timoneiro na disputa contra o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
O raciocínio é simples: como o encalacrado ministro do STF Alexandre de Moraes é o símbolo maior da condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, é natural que Moraes seja associado a Lula, em tese o maior beneficiário da derrocada do ex-presidente. Há muito tempo o STF tem sido tratado pelo bolsonarismo como inimigo; Lula, por outro lado, aproximou-se de Moraes e encheu o STF de dedicadíssimos fâmulos, o que converteu o tribunal de vez em poder político, não raro a serviço do governo petista, que o usa para se contrapor a um Congresso que lhe é rotineiramente hostil.
Pior: com as confabulações secretas entre ministros e com os abundantes desvios éticos que horrorizam a sociedade, mas que são tratados com arrogante indiferença por quem deveria se preocupar em ao menos parecer honesto, o Supremo passou a figurar como centro cintilante da crise moral brasileira. É um desastre para a democracia, considerando que o Judiciário só se legitima quando dele não se duvida.
Esse colapso pegou os petistas no contrapé, pois a Lula nunca interessou fazer do Supremo o centro de sua campanha, diferentemente de seus principais adversários. Ao que parece, os marqueteiros de Lula entendem que o presidente agora não pode mais ausentar-se do debate, e ultimamente ele andou dando seus pitacos sobre “reforma do Judiciário” e outras platitudes.
O problema de Lula, contudo, não é o Supremo Tribunal Federal nem o milionário ministro Alexandre de Moraes. O problema é sua própria candidatura.
O mau humor do eleitorado com o presidente é evidente. Como incumbente, Lula deveria ter, a três semanas do primeiro turno, uma margem um pouco maior de vantagem em relação a Flávio Bolsonaro – um candidato que é apenas um boneco de ventríloquo do ex-presidente Jair Bolsonaro e que, além de tudo, tem um longo histórico de suspeitas as mais diversas no terreno da corrupção. O próprio escândalo do Banco Master, que envolve o ministro Alexandre de Moraes, envolve também, e até o pescoço, o candidato Flávio. E no entanto Flávio sobe consistentemente nas pesquisas de intenção de voto, enquanto Lula, que não está diretamente ligado ao escândalo do Master, cai.
Isso certamente tem muitas explicações, mas somente uma é suficiente: o pântano de Brasília, cada vez mais viscoso, serve para o eleitorado como símbolo do profundo divórcio entre os poderosos e os cidadãos comuns, no momento em que a maioria absoluta dos brasileiros não está confortável nem com seu trabalho nem com sua qualidade de vida – enquanto assistem, estupefatos, ao enriquecimento desavergonhado de um punhado de cortesãos.
Lula não apenas foi incapaz de entregar a “picanha barata” que prometeu na campanha eleitoral de 2022, como não inspira junto aos eleitores o sonho de um Brasil que os esfole menos e que lhes dê condições sustentáveis de uma vida um pouco melhor, sem depender dos caraminguás que vertem do Estado como esmolas.
A despeito de tudo isso, Lula ainda aparece como favorito à reeleição não por seus méritos, mas porque do outro lado do ringue está um completo desqualificado, que representa uma família de oportunistas e que nada consegue propor ao Brasil a não ser destruição e cizânia. Mas o cansaço dos brasileiros em relação a Lula e a tudo o que ele representa – a visão antediluviana de país, a ausência de perspectiva, a demagogia barata – veio a juntar-se ao cansaço e à irritação com quem hoje exerce o poder de um modo geral.
Os petistas podem até se empenhar em desvincular Lula de Alexandre de Moraes e da crise no STF, mas dificilmente vão conseguir, porque permanecerá o sentimento difuso de que o presidente é parte importante desse todo que os eleitores cada vez mais deploram. 

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 E agora, Madame IA se pronuncia sobre os editoriais: 

   

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/a-grande-midia-e-o-

pequeno-stf.html

O link enviado direciona para uma postagem do blog Diplomatizzando, mantido

pelo diplomata e acadêmico Paulo Roberto de Almeida. O texto reproduz e analisa

os editoriais publicados em 13 de setembro de 2026 pelos três principais jornais do

país (O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo). O tema central é uma

grave crise institucional envolvendo o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF),

Alexandre de Moraes, que enfrenta a iminência de uma votação plenária para

abertura de inquérito investigativo.

O veredito sobre a natureza do link é: FATO. O conteúdo espelha fielmente a

posição editorial da grande imprensa brasileira na data citada, refletindo o debate

político e jurídico real do período.

Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica do cenário exposto no

documento, confrontando-o sob diversas perspectivas conceituais.

🔍 Análise Crítica: A Crise do STF e os Editoriais da Imprensa

Os editoriais expõem um ponto de inflexão na relação entre a mídia corporativa e o

STF. Alexandre de Moraes, amplamente respaldado pela imprensa nos anos

anteriores como bastião da resistência democrática, passa a sofrer forte pressão

pública após a Polícia Federal (PF) apontar indícios de vazamento de informações

sigilosas e vantagens financeiras ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao Banco

Master.

1. Perspectiva Jurisdicional e Constitucional

A Isonomia Perante a Lei: O editorial de O Globo ancora-se no princípio

constitucional fundamental de que "todos são iguais perante a lei". Sob essa

ótica jurídica clássica, a abertura de um inquérito não representa uma

condenação prévia, mas a aplicação do devido processo legal. Impedir a

investigação sob o pretexto de blindagem institucional configuraria um privilégio

aristocrático incompatível com a República.

As "Chicanas" Processuais: A Folha de S. Paulo denuncia o uso de manobras

protelatórias (pedidos de adiamento e pressões internas) por parte de um bloco

de ministros (Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin) para blindar o

colega. Jurisdicionalmente, essa conduta corrói a previsibilidade do rito legal,

transformando o baluarte da Constituição em uma arena de autodefesa

corporativista.

2. Perspectiva Política e EleitoralO Impacto na Sucessão Presidencial: O Estadão desloca o eixo analítico para

o cenário eleitoral de 2026. A três semanas do primeiro turno, o escândalo atinge

diretamente as candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva e de seu principal

oponente, Flávio Bolsonaro. Politicamente, ocorre uma ironia trágica: Moraes,

que simbolizou o freio ao bolsonarismo, agora submerge em um escândalo

(Caso Banco Master) que "envolve até o pescoço" o candidato da própria família

Bolsonaro, mas cujo desgaste moral respinga na candidatura governista devido à

percepção pública de aliança entre o PT e a cúpula do Judiciário.

3. Perspectiva Econômica e Financeira

O Capitalismo de Compadrio (Crony Capitalism): O fulcro da denúncia

envolve um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de

advocacia da esposa do ministro Moraes. Sob a ótica da economia política, o

caso ilustra as disfunções do mercado financeiro brasileiro quando capturado por

esferas de influência do poder estatal. A contratação de escritórios de parentes

de magistrados sem contrapartida técnica clara funciona, na prática, como uma

"taxa de blindagem" ou captura regulatória, distorcendo a livre concorrência e

penalizando o sistema de crédito e investimentos.

4. Perspectiva Filosófica e Sociológica

O Julgamento das Biografias diante da História: Filosoficamente, o debate

invoca o conceito de "razão de Estado" versus "moralidade institucional". O

Globo pontua de forma pragmática: "Um passado honrado não apaga nenhum

crime posterior". Há aqui uma severa crítica à arrogância do poder (a hubris

grega), na qual agentes públicos acreditam que a importância de seu papel

histórico os torna imunes à ética ordinária.

O Divórcio entre Elite e Cidadão: O Estadão capta o sentimento de

esgotamento da sociedade diante do "pântano de Brasília". Sociologicamente, o

enriquecimento desmedido de cortesãos em contraste com a perda do poder de

compra e da qualidade de vida da população alimenta o cinismo democrático.

Esse abismo moral é o principal catalisador para a ascensão de discursos

extremistas e de deslegitimação das próprias instituições.

💡 Conclusão do Julgamento

Os editoriais reunidos no blog de Paulo Roberto de Almeida revelam que a imprensa

tradicional brasileira decidiu retirar a blindagem política do STF em nome da

autopreservação de sua própria credibilidade perante a opinião pública. Ao exigir de

forma uníssona que o ministro Alexandre de Moraes seja investigado, os jornais

tentam forçar o Supremo a realizar uma autofagia corretiva para estancar o colapso

moral do Poder Judiciário.

 END

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Diplomacia em tempos de mudança - Rubens Barbosa (Estadão)

 Opinião: Diplomacia em tempos de mudança

A diplomacia é que deve respaldar a política externa

 

Por Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 25/08/2026

 

Em tempos de grandes mudanças e transformações geopolíticas, econômicas e comerciais, a diplomacia, como instrumento para a promoção da paz, da ordem e da estabilidade internacional, tem perdido espaço relativo nas relações internacionais.

Essas novas realidades, porém, não significam que a diplomacia tenha deixado de ser importante. Apesar dessas transformações e limitações, os diplomatas têm funções importantes justamente em momentos de crise: negociar discretamente, interpretar posições do outro país, evitar mal-entendidos, preservar canais de diálogo e construir compromissos. Quanto maiores as tensões entre países, mais necessária pode ser a atuação diplomática para evitar conflitos e construir acordos.

Vários fatores podem ser apontados como responsáveis pelo papel menos relevante que a diplomacia e os diplomatas passaram a desempenhar nos últimos anos:

1) Ascensão da comunicação direta: presidentes e ministros negociam diretamente por telefone, reuniões, redes sociais e videoconferências, reduzindo a intermediação dos diplomatas;

2) Personalização da política externa: decisões passam a depender mais da relação pessoal entre líderes e de seus interesses políticos;

3) Velocidade das crises: redes sociais e meios de comunicação exigem respostas imediatas, enquanto a diplomacia tradicional costuma depender de análise e negociação cuidadosas;

4) Maior influência de outros atores: empresas multinacionais, organizações internacionais, ONGs, bancos e grupos de pressão também participam das negociações internacionais;

5) Polarização política: governos podem priorizar discursos e demonstrações de força para seu público interno em vez de negociações discretas;

6) Diplomacia econômica e tecnológica: comércio, investimentos, energia, tecnologia e sanções ganharam enorme importância, fazendo com que negociações internacionais envolvam cada vez mais ministérios e atores além das chancelarias;

7) Redes sociais: líderes podem falar diretamente com a população de outros países, tornando a diplomacia pública mais importante e, às vezes, substituindo negociações reservadas.

O que ocorre hoje é que a diplomacia, além de ceder espaço ao uso da força, como expressão de poder para a defesa dos interesses nacionais, passou a ser exercida por outros agentes, não funcionários diplomáticos. O exemplo mais paradigmático dessa tendência é o que está ocorrendo nos EUA, desde o início do segundo mandato de Donald Trump. O Departamento de Estado, o ministério do exterior dos EUA, perdeu espaço na formulação e execução da política externa norte-americana. Mais de 25% dos membros do serviço exterior dos EUA saíram, se aposentaram, foram afastados de seus postos ou viram agências vinculadas à chancelaria serem extintas. Marco Rubio, secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional, escreveu que deseja reorganizar o departamento e sua força de trabalho para “responder aos imensos desafios do século 21 e colocar a América em primeiro lugar”.

Em 1997, George Kennan, diplomata, conhecido por ter sido o arquiteto da política de contenção dos EUA na guerra fria, já havia observado a transformação do serviço exterior norte-americano desde o início do século 20, influenciado por novas forças que moldaram e restringiram a ação dos diplomatas, fazendo com que o Departamento de Estado perdesse seu papel tradicional de porta-voz e coordenador da política externa, como está sendo acentuado nos dias de hoje.

Os negociadores dos EUA nas guerras do Irã, na guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza e nas conversações com a Rússia, no tocante à guerra na Ucrânia, não são diplomatas, mas o genro de Trump, que não é nem funcionário do governo, e um empresário do setor imobiliário. Com o Departamento de Estado alijado do processo decisório e dos entendimentos, centrados na Casa Branca – com o presidente Trump – , as dificuldades do governo americano para a defesa de seus interesses via negociações estão cada vez mais evidentes.

A situação nos EUA, como superpotência e um dos atores na atual competição bipolar com a China, tem influência determinante nos rumos da diplomacia global. Reconhecendo os novos desafios, algumas chancelarias ao redor do mundo começam a se ajustar a essas realidades, procurando defender da melhor forma possível seus interesses. O exemplo e a experiência de outros países para reforçar o papel das chancelarias e melhorar a eficiência de sua diplomacia nos tempos de mudança são relevantes. Surgem soluções inovadoras, como postos virtuais, aprimora-se a política de pessoal, modernizam-se os métodos de trabalho, ultrapassados pela rapidez das comunicações, sofisticam-se a aplicação das tecnologias de informação e o treinamento adequado às novas demandas e redefinem-se os meios oferecidos no exterior aos diplomatas.

A diplomacia é que deve respaldar a política externa. Quando a política externa passa a depender excessivamente dos líderes políticos e pouco dos canais diplomáticos profissionais, cresce a possibilidade de decisões baseadas em considerações ideológicas – que pouco têm de ver com o interesse nacional – sem uma visão estratégica de médio e longo prazo.

 

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/diplomacia-em-tempos-de-mudanca/ 


sábado, 15 de agosto de 2026

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura - Pedro S. Malan (Estadão)

 Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa:

O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura

Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do Brasil

Por Pedro S. Malan

Estadão, 09/08/2026 

Na raiz de nossos problemas de pobreza e de desigualdade de renda e riqueza está a questão fundamental a ser atacada: a desigualdade de oportunidades, que surge já no nascimento. É função de políticas públicas nas áreas de educação (e de saúde) procurar reduzir estes diferenciais nos anos iniciais de vida das crianças, como é hoje amplamente reconhecido por especialistas em educação no Brasil e no mundo.


Em 1981, por iniciativa de Deng Xiaoping, o Banco Mundial aprovou um empréstimo para a China no montante de US$ 200 milhões, equivalentes a cerca de US$ 750 milhões de hoje. Era inteiramente destinado à ciência e educação, e seus objetivos eram claros: formar gente qualificada em ciência, tecnologia, engenharia, matemática, computação; enviar estudantes chineses às melhores universidades dos EUA e da Europa; promover interação entre universidades chinesas e estrangeiras na área científica. Metade dos recursos vinha da International Development Association, braço concessional do grupo do Banco Mundial para países mais pobres, o que era a China à época. A operação contou com a aprovação dos EUA, que tinham (e ainda têm) poder de veto na instituição.


Entre 1981 e 2020, cerca de 6 milhões de chineses estudaram no exterior, dos quais 20 a 30% cursaram pós-graduação. Estima-se que entre 300 mil e 500 mil tenham obtido o título de doutor em universidades dos EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália, Alemanha, Japão e Singapura, nas áreas de engenharia, matemática, ciência da computação, física, química e ciências biomédicas. Antes de 2000, menos da metade retornava à China; naquele ano foram criados programas de incentivo ao retorno, e após 2010, mais de 80% passavam a retornar ao país em algum momento da carreira.


A política foi um extraordinário sucesso. Em 2025, segundo o índice global de inovação da World Intellectual Property Organization (Wipo), das 100 principais clusters de inovação no mundo, a China tinha 24 e os EUA 22. O Brasil, 1. O ex-presidente Barack Obama, que tinha profundo interesse nesse processo, afirmou repetidas vezes ao longo dos anos que educação de qualidade mundial era pré-requisito para o sucesso de qualquer país. “Countries that out-educate us today will out-compete us tomorrow” (“os países que hoje investem mais e melhor em educação amanhã serão mais competitivos do que nós”, em tradução livre), explicava.


A rivalidade EUA/China continuará impulsionando a competição geopolítica global. Os EUA lideram na inovação de ponta, especialmente em semicondutores e (ainda) na fronteira de inteligência artificial (IA), enquanto a China se destaca na implementação de IA em larga escala, na manufatura e no controle de cadeias de suprimentos, de minerais críticos e de outros insumos industriais. Mas não é menos certo que aos dois rivais interessa aquilo que os chineses chamam de “estabilidade estratégica construtiva”, expressão que é manifestação de ambiguidade construtiva da China enquanto segue na disputa por esferas de influência no mundo. Em entrevista recente, Xi Jinping ofereceu sua própria definição da armadilha de Tucídides: “We all need to work together to avoid the Thucydides Trap – destructive tensions between an emerging power and established powers” (“Todos precisamos trabalhar juntos para evitar a Armadilha de Tucídides – tensões destrutivas entre uma potência emergente e as potências estabelecidas”, em tradução livre).


É possível fazer um paralelo entre aquele amplo programa de financiamento à ciência e educação, do qual a China foi beneficiária, com a ambiciosa iniciativa que agora põem em marcha os chineses. Em meados de julho, realizou-se em Xangai uma conferência que reuniu outros 29 países, ao cabo da qual foi criada a World Artificial Intelligence Cooperation Organization (Waico), descrita por Xi Jinping na abertura oficial do encontro como um importante marco na história do desenvolvimento da inteligência artificial no mundo. Companhias chinesas deverão tornar a IA amplamente disponível por meio de open source models, e o governo chinês propõe-se a treinar países a capacitar milhares de pessoas na aplicação de IA. Foram anunciados a oferta de “5 mil oportunidades” de treinamento, programas e seminários nos próximos cinco anos, e o desenvolvimento de International AI Applications Centres (IAICC). Xi apresentou a organização como instrumento para ampliar a participação dos países do Sul Global na definição das normas internacionais de IA – por meio da adoção de código aberto, cooperação tecnológica e acesso amplo às capacidades de IA.


Respondendo em 1995 a uma pergunta sobre desenvolvimento tecnológico, Celso Furtado afirmou: “O que interessa no progresso tecnológico é a qualidade do fator humano, o que não se improvisa. Não basta investir, botar mais dinheiro. Toma tempo formar de verdade gente qualificada. (...) O progresso tecnológico depende da qualidade de material humano”.


Pena que educação e saúde não pareçam constituir, como deveriam, áreas de obsessivo e construtivo interesse por parte das lideranças políticas do País. Talvez o debate público em 2026 ainda possa levar candidatos a procurar, em prazo hábil, agregar equipes competentes nessas áreas. E a promover discussão apta a permitir diagnóstico claro para a sociedade sobre a situação atual, como a ela chegamos e, principalmente, a descortinar como avançar com a necessária visão de longo prazo sobre nosso futuro nesta área.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

“Eu Disse Não!” Livro do comandante da Aeronáutica que se opôs ao golpe de Bolsonaro (Estadão)

 Eu Disse Não!’; ex-comandante da FAB revela bastidores da crise que levou ao 8/1

Em livro que será publicado em setembro, Baptista narra como formou a "trincheira antigolpista" e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional

Estadão. 03/08/2026

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, decidiu contar, em livro, o que viveu por dentro de um dos períodos mais delicados da história recente do País. Comandante da Força Aérea Brasileira entre abril de 2021 e janeiro de 2023, ele enfrentou uma etapa de forte tensão e uma atmosfera hostil protagonizada por Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas – um período em que a manutenção da ordem democrática dependeu, em parte, de decisões tomadas nos quartéis.

Em Eu Disse Não, que sai em setembro – publicação da Autêntica Editora -, Baptista Junior narra em primeira pessoa como formou a “trincheira antigolpista” e resistiu às pressões para que os militares aderissem a uma ruptura institucional, tentativa que teria seu desfecho nos atos golpistas do 8 de Janeiro de 2023. É a primeira vez que um integrante da alta cúpula militar daquele período expõe, em livro, os bastidores da crise.

Piloto de caça com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea, que iniciou em 1975, Baptista Junior fala com a segurança e autoridade de quem esteve na sala de decisão – não como espectador, mas como um dos atores que, segundo seu próprio relato, ajudou a manter as Forças Armadas longe do rompimento.

O testemunho do oficial foi crucial nos autos da ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que impôs ao ex-presidente a pena de 27 anos e três meses de reclusão. O julgamento foi concluído em setembro do ano passado.

Baptista Junior indicou com detalhes três momentos em que a tentativa de golpe acabou frustrada. Ele confirmou encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que se discutiram medidas de exceção e os termos de uma minuta golpista – da qual se recusou a receber cópia. Contou que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que ele seria preso se insistisse no golpe para impedir a posse de Lula.

E, ainda, revelou que o almirante Almir Garnier, então chefe da Marinha, colocou tropas da Força à disposição do plano golpista.

Eu Disse Não mostra em suas páginas que a resiliência das instituições em 2022 não foi automática, mas resultado de escolhas individuais de oficiais de alta patente em posições estratégicas.

‘Páginas muito importantes da nossa história’

“A decisão de escrever este livro consolidou-se a partir da percepção de um fenômeno social ainda mais inquietante, revelado por duas pesquisas do Instituto AtlasIntel”, disse Baptista Junior ao Estadão.

Segundo ele, o primeiro levantamento, realizado entre 6 e 9 de janeiro de 2023 – período que compreendeu a invasão das sedes dos Três Poderes -, revelou que 39,7% da população não acreditava na vitória de Lula sobre Bolsonaro.

“Em um dado ainda mais preocupante, 36,8% dos entrevistados declararam ser favoráveis a uma intervenção militar que anulasse o resultado das eleições de 2022”, diz o oficial.

Dois anos e meio depois, destaca Baptista Junior, ao comentar uma nova pesquisa sobre a confiança da população nas instituições, o presidente do AtlasIntel, Andrei Roman, foi enfático, durante uma entrevista no programa WW, da CNN Brasil.

“Uma boa parcela da população não entende que, nas investigações sobre o golpe de Estado, na postura do Bolsonaro, na possibilidade, por exemplo, de ele ter declarado estado de sítio para, com isso, cancelar o resultado da eleição, uma boa parcela da população não entenderia isso [como] um ataque à democracia.”

Roman afirmou que o porcentual dos que assim pensavam estaria em torno de 30%.

“Em suma – avalia o tenente-brigadeiro – já com a ação penal que levaria Jair Bolsonaro à condenação por golpe de Estado em sua fase final, com todos os depoimentos de testemunhas e réus já encerrados, cerca de um terço dos brasileiros ainda não interpretava que Bolsonaro se manter no poder após o dia 1.º de janeiro de 2023 seria um ataque à democracia.”

“Juntei todos esses fatos e decidi dar minha contribuição para que os acontecimentos fossem disponibilizados mais claramente a toda a população e, principalmente, às gerações futuras”, anota Baptista Junior. “Concluí que este livro seria a melhor opção.”

O militar conta que, após 12 horas de depoimento na Polícia Federal nos autos do inquérito que culminou na ação penal 2662, conversou com dois jovens agentes federais que acompanhavam a audiência. “Ao acabar, eles me sugeriram que tudo aquilo deveria ficar registrado para as gerações futuras, como páginas muito importantes da nossa história.”

Leia abaixo um trecho exclusivo do texto de Baptista Junior sobre o episódio de 1.º de novembro de 2022:

“Encerrava-se, assim, o primeiro de uma série de encontros decisivos entre Bolsonaro, seu ministro da Defesa e os comandantes militares, que marcaram aquele fim de ano – momentos de alta tensão que detalharei mais adiante.

Pouco depois, diversos ministros e aliados passaram a ingressar na biblioteca para prestar apoio e sugerir que ele reconhecesse oficialmente a vitória do oponente, dada a expectativa da imprensa reunida no hall de entrada do Palácio. Alguém já havia preparado um texto. Bolsonaro o pegou e, ali, pareceu-nos dar o caso por encerrado.

Houve uma sugestão para que fôssemos todos juntos à entrada do Alvorada para o breve discurso, mas decidimos que, como comandantes militares, não deveríamos ser envolvidos naquele evento político. Permanecemos na biblioteca, preservando a neutralidade institucional das Forças.

Ladeado por diversos ministros, pelo general Braga Netto, por seu filho Eduardo e alguns parlamentares, o presidente sacou da sua caneta BIC, fez alguma anotação no papel e iniciou um breve discurso de dois minutos:


‘Quero começar agradecendo os 58 milhões de brasileiros que votaram em mim, no último dia 30 de outubro.

Os atuais movimentos populares são fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral. As manifestações pacíficas sempre serão bem-vindas, mas os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedades, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.

A direita surgiu de verdade em nosso país. Nossa robusta representação no Congresso mostra a força dos nossos valores: Deus, pátria, família e liberdade.

Formamos diversas lideranças pelo Brasil.

Nossos sonhos seguem mais vivos do que nunca. Somos pela ordem e pelo progresso.

Mesmo enfrentando todo o sistema, superamos uma pandemia e as consequências de uma guerra.

Sempre fui rotulado como antidemocrático e, ao contrário dos meus acusadores, sempre joguei dentro das quatro linhas da Constituição.

Nunca falei em controlar ou censurar a mídia e as redes sociais.

Enquanto presidente da República e cidadão, continuarei cumprindo todos os mandamentos da nossa Constituição.

É uma honra ser o líder de milhões de brasileiros que, como eu, defendem a liberdade econômica, a liberdade religiosa, a liberdade de opinião, a honestidade e as cores verde e amarela da nossa Bandeira.

Muito Obrigado.’


As repercussões foram imediatas e dividiram o país em duas interpretações distintas.

No mundo político e diplomático, houve um suspiro de alívio protocolar; afinal, o presidente não havia contestado diretamente o resultado, permitindo ao TSE e a líderes estrangeiros consolidarem o rito de transição. Contudo, para a imprensa e os analistas de bastidores, o semblante fechado de Bolsonaro e a ausência de uma felicitação direta ao vencedor indicavam que não havia uma pacificação real. O reconhecimento foi técnico, mas não emocional, ou, como me ensinou um professor na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena, ‘houve acomodação ao fato, mas não assimilação’.

Nas ruas e nas redes sociais, o efeito foi ainda mais complexo. Ao atribuir as manifestações à ‘indignação e sentimento de injustiça’, Bolsonaro evitou desmobilizar seus apoiadores. Suas palavras, longe de encerrar o episódio, deixaram aberta a possibilidade de questionamentos futuros, funcionando como um sinal para que bloqueios em rodovias e concentrações em frente a quartéis ganhassem fôlego. Para nós, que deixávamos a biblioteca do Alvorada naquela tarde, ficou claro que o discurso não representava um ponto final, mas reticências potencialmente perigosas, capazes de transferir às Forças Armadas um peso político que não lhes cabia.

Como piloto, aquele momento deveria marcar para mim o início da aproximação final para um pouso seguro, dali a dois meses, com a transição institucional do país. Não podia imaginar que a fase final desse voo exigiria tamanha destreza e firmeza de convicções. Esses desafios não fizeram parte das noites insones que antecederam minha assunção ao cargo de comandante da Força Aérea Brasileira.

Aquele turbulento pouso de 2022, no entanto, só pode ser plenamente compreendido se voltarmos ao momento da decolagem. Para entender como as engrenagens de uma crise que atingiria o meio militar em 2021 se moveram até o silêncio do Alvorada, é preciso retornar ao dia em que recebi o chamado que mudaria minha vida: 28 de março de 2021, quando decolei de São Paulo rumo a Brasília para assumir uma responsabilidade cuja dimensão, naquele momento, eu ainda não compreendia.”


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Aula de Democracia, pela Fundação FHC, por Simon Schwartzman (Estadão)

 

Aula de Democracia

(publicado em O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2026)

(publicado em O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2026)

Viver em Democracia, publicação da Fundação Fernando Henrique Cardoso e Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, de distribuição gratuita e voltada para escolas do ensino médio, é uma demonstração concreta de como suprir um grande vazio no currículo escolar brasileiro, a educação para a democracia. Os autores, Bernardo Sorj e Sérgio Fausto, começam com uma narrativa histórica da evolução das formas de governo, dos sistemas tribais aos estados modernos. e evoluem para a apresentação e análise de temas centrais e prementes como a divisão e conflitos de poderes, a importância das constituições, o funcionamento dos partidos e sistemas eleitorais, as relações entre capitalismo e democracia, e os desafios concretos de viver em regimes democráticos imperfeitos e permanentemente ameaçados. Não se furtam à defesa explícita de valores — liberdade, igualdade e fraternidade — a serem exercidos por meio de sistemas representativos eficazes e comprometidos com o bem comum. Mostram como a democracia não é um estado de coisas dado, mas uma conquista histórica carregada de disfuncionalidades e disputada por forças autoritárias que procuram corrompê-la por dentro ou destruí-la frontalmente.

Na segunda parte, Alice Noujaim, Maura Marzocchi e Renata Capovilla propõem treze atividades pedagógicas cuidadosamente estruturadas, pelas quais os estudantes podem vivenciar, como que em um laboratório, as virtudes e dificuldades da democracia, da elaboração de normas de convivência na sala de aula a simulações legislativas e trabalhos de pesquisa comunitária.

O tema da democracia não está totalmente ausente da Base Nacional Curricular Comum brasileira que inclui, para estudantes de nível médio, a necessidade de desenvolver competências sobre sistemas de governo, autoritarismo, populismo e participação política. Mas esses conteúdos aparecem fragmentados, sem sequência pedagógica coerente, e não de forma direta e sistemática, baseada nas ciências do direito e da ciência política propriamente ditas. Em um ano eleitoral como o que estamos vivendo, é impressionante pensar que não exista no currículo escolar um espaço onde os estudantes aprendam, de forma organizada, como o sistema político representativo brasileiro funciona, qual o papel dos três poderes, como se organiza o federalismo, que são ou deveriam ser os partidos políticos e, mais geralmente, porque é importante ter uma sociedade governada pelas regras do direito, e não pelo arbítrio e o poder individual ou de grupos.

Este vazio não se dá por acaso. O Estado brasileiro se organizou, desde o Império, como uma sociedade profundamente desigual, coberta por um tênue véu de ordem constitucional que conviveu tanto com a escravidão quanto com décadas de poder oligárquico. José Murilo de Carvalho, em A Formação das Almas (Companhia das Letras, 1990) e Cidadania no Brasil (Civilização Brasileira, 2020), mostra como intelectuais e políticos tentaram construir um Brasil imaginário, povoado de heróis e mitos cívicos que moldaram currículos escolares e monumentos nacionais, talvez na esperança de que assim este imaginário se tornasse realidade. O abismo entre o Brasil ideal e o Brasil real provocou, ao longo do século 20, reações de sentidos opostos. De um lado, as ideologias autoritárias, que defendiam a supremacia da ordem e da hiearquia, que entraram nas escolas através da Educação Moral e Cívica da ditadura militar e que tiveram continuidade, mais recentemente, no movimento das escolas sem partido e das escolas cívico-militares. De outro, a reação dos movimentos que defendiam o fortalecimento da sociedade em contraposição ao poder tradicional e ao formalismo das normas abstratas e das instituições. Esta segunda reação ganhou força nos documentos pedagógicos mais recentes, onde os temas da pobreza, identidades e direitos sociais passaram ao primeiro plano, em detrimento dos temas mais amplos do desenvolvimento econômico e social e da ordem democrática.

Para ambos, a democracia era uma tema menor, subordinado a outras prioridades. No século passado, estas reações podiam fazer sentido. No século 21, os temas da democracia e do funcionamento da ordem institucional não podem continuar sendo tratados como secundários. Assim como o direito positivo ficou fora das escolas, a economia também ficou. Sem compreender minimamente como funcionam o sistema político, os mercados, o orçamento público e o mundo do trabalho, os jovens chegam à vida adulta sem ferramentas para entender estes processos antes que seus efeitos desabem sobre suas cabeças.

Não é que a introdução do direito e da economia nos currículos escolares possa, por si só, resolver a má qualidade da educação brasileira e os problemas institucionais e econômicos com que vivemos. Não estavam errados os que, vinte anos atrás, entenderam que a coluna dorsal da educação deve ser o ensino da língua portuguesa e da matemática, e criaram todo um sistema de acompanhamento do desempenho escolar nessas matérias. Mas tanto a língua quanto a matemática são instrumentos que só ganham sentido quando aplicados para entender o funcionamento da vida em todos os seus aspectos, dos quais as formas de convivência democrática e os processos de produção, circulação e apropriação da riqueza são fundamentais.

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terça-feira, 12 de maio de 2026

Erro histórico do governo do PT: a recusa do ingresso na OCDE - Rubens Barbosa (Estadão)

Opinião: 

Erro histórico do governo do PT

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação

Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo, 12/05/2026

Um dos aspectos mais relevantes da política externa do governo Lula é a defesa do multilateralismo, visto que, como potência média regional, o fortalecimento das instituições multilaterais é considerado fundamental pelo PT para a defesa dos interesses brasileiros.

A realidade, porém, aponta para uma crescente dificuldade quanto ao ressurgimento do multilateralismo para o ordenamento das relações internacionais. O enfraquecimento dessas instituições fica evidente quando se sabe do limitado papel da Organização das Nações Unidas (ONU), nas questões da paz e da segurança globais, e da Organização Mundial do Comércio (OMC), na regulamentação, negociação e solução de controvérsias no comércio internacional. Enquanto outras instituições multilaterais desaparecem ou são enfraquecidas pela ação dos EUA, uma das organizações preservadas, sem sofrer qualquer restrição, foi a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que tem sido fortalecida e prestigiada.

Nesse contexto, a suspensão pelo governo Lula dos entendimentos, iniciados por Dilma Rousseff e apoiados por Temer, com vistas ao acesso do Brasil à OCDE só pode ser explicado por restrições ideológicas superadas, visto que o ingresso do Brasil traria benefícios de natureza política, econômica, institucional, estratégica e de cooperação regional e internacional. Não se pode ignorar, como faz Brasília, que existe uma forte convergência de princípios com a OCDE. O Brasil consagra, em sua Constituição federal e ordenamento institucional, os mesmos princípios fundamentais que os membros da OCDE procuram promover, notadamente democracia, direitos humanos, livre empreendimento e economia de mercado, bem como de Estado comprometido com a governança pública pautada em transparência, prestação de contas, combate à corrupção e ilícitos e busca contínua – e sob escrutínio internacional – das melhores políticas públicas – econômicas e sociais, em particular – para o cidadão.

O ingresso na OCDE aumentaria a influência e projeção política do Brasil num mundo em transformação. Como membro pleno da organização, o Brasil participaria das deliberações estratégicas e políticas da organização. Por meio dessa atuação, o Brasil influenciaria os consensos internos, construiria pontes com diferentes grupos de países e promoveria os processos de reforma da OCDE, segundo seus interesses. Contribuiria também para a crescente consideração da perspectiva de países em desenvolvimento, trabalhando em conjunto com países da América Latina e de outras regiões em desenvolvimento, com países já membros, em processo de acessão ou com crescente engajamento nos trabalhos da OCDE. Nesses termos, o Brasil poderia melhor projetar não só seus interesses, mas também suas visões sobre variados temas.

Hoje, quase todos os ministérios e agências regulatórias brasileiras atuam na OCDE e conhecem cada vez mais a natureza e os mecanismos de trabalho da organização. O Brasil é visto pelo secretariado da OCDE como o País em desenvolvimento mais preparado para ingressar na organização em toda a sua história, tendo o País ampliado de modo progressivo sua atuação e convergência nas últimas três décadas. Esse esforço está amadurecido, mesmo nas áreas mais sensíveis na adesão, como tributação e movimento de capitais, objeto de recomendações e dos chamados Códigos de Liberalização da OCDE. Ademais, a pedido do Brasil, a própria OCDE tem contribuído para as reformas no País, como nas atualizações sucessivas da legislação de concorrência e na recente reforma tributária. Esse gênero de convergência é promovido com base em diálogos com o secretariado e com os países-membros, que promovem a internalização e a racionalização das circunstâncias nacionais, bem como o exame da pluralidade de soluções cabíveis, em particular, na medida em que a organização se torna mais diversa no quadro de seus membros.

A participação plena e regular do Brasil na OCDE serviria de sinal significativo sobre a qualidade da regulação doméstica e dos padrões adotados pelo País em áreas como tributação, concorrência, comércio, agricultura, investimentos, serviços, governança pública, combate à corrupção, supervisão financeira, mercados de capitais e governança corporativa, empresas estatais e multinacionais, educação, saúde, emprego e trabalho. A OCDE mantém códigos técnicos também nas áreas de tratores, sementes, químicos e créditos à exportação. Muitos dos padrões da OCDE são reconhecidos internacionalmente, inclusive por países não membros, e sua adoção facilita a compreensão das práticas empregadas pelo país em avaliações e decisões comerciais, financeiras, de investimentos e negócios em geral. O ingresso do Brasil seria um elemento adicional de convergência regional. A América Latina, com México, Chile, Colômbia e Costa Rica, é a região em desenvolvimento que mais tem participado dos trabalhos da OCDE. A Argentina reviu sua posição e voltou a se interessar pelo ingresso. Outros países da região têm manifestado interesse em considerar a adesão futura à OCDE, como Paraguai, Panamá e República Dominicana.

Do ângulo geopolítico, o Brasil seria o único país membro do Brics e da OCDE. O futuro governo deveria reexaminar a decisão de manter o Brasil fora da OCDE, apenas por razões ideológicas, sem levar em conta o interesse nacional.

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Vida e Morte das Universidades - Simon Schwartzman (Estadão)

 

Vida e Morte das Universidades

By Simon Schwartzman on May 08, 2026 08:22 am

(Publicado em O Estado de São Paulo, 8 de maio de 2026)

Em artigo recente, os economistas David Cutler e Edward Glaeser tratam de explicar como as universidades têm sido capazes de existir por mais de mil anos, e o papel importante que elas desempenharam e ainda desempenham em várias partes do mundo (“How Have Universities Survived for Nearly a Millennium”, NBER Working Paper35079, 2026). O segredo, dizem eles, está na combinação entre uma cooperativa de professores, com autonomia substancial sobre ensino e pesquisa, e entidades externas de financiamento e controle — Igreja, governos, filântropos, empresários, doadores. Eles têm interesses diferentes, mas que convergem. Os professores querem um lugar onde tenham liberdade para exercitar sua curiosidade, desenvolver e expor suas ideias sem se preocupar com de onde vem o dinheiro; e os controladores querem um lugar para onde possam mandar seus jovens e os melhores profissionais sejam formados. Cada um precisa ceder um pouco. Os professores precisam gastar tempo dando aulas e não exagerar em suas liberdades, a ponto de os controladores cortarem seus recursos; e os controladores precisam se cuidar para não forçar os professores a fazer o que não querem, matando a galinha de ovos de ouro. Com o tempo, as universidades foram crescendo e se transformando pelos dois lados, instalando laboratórios e infraestrutura de pesquisa, organizando museus e atividades culturais, entrando em competições esportivas, e desenvolvendo pesquisas de interesse civil e militar. É esta multiplicidade de funções e interesses que faz com que as universidades se mantenham e floresçam.

Como às vezes acontece, os economistas redescobrem e organizam de forma elegante ideias que já eram conhecidas entre cientistas sociais que estudaram estas questões. Um deles, Burton R. Clark, desenvolveu um modelo também simples e elegante da coordenação das universidades que ficou conhecido como o “Triângulo de Clark” (Clark, B. R., The Higher Education System: Academic Organization in Cross-National Perspective, University of California Press, 1983). Neste modelo, as universidades contemporâneas vivem dentro de um triângulo com três vértices: o governo, a corporação acadêmica e o mercado, formado pelos estudantes e empresas que contratam seus serviços. Cada um puxa e pressiona para seu lado, e as universidades se aproximam de um ou outro vértice conforme a força de cada um. O interessante deste modelo é que ele permite entender como as universidades podem ser diferentes conforme o país e  se transformar ao longo do tempo, movendo-se conforme varia a força de cada polo. E, tal como Cutler e Glaeser, mostra que as melhores e mais duradouras universidades são as que conseguem não ser dominadas por nenhum dos polos, aproveitando as vantagens e recursos de cada um. Universidades autônomas não são as que são controladas por suas corporações internas, mas as que têm capacidade de se movimentar dentro do triângulo buscando onde possam maximizar os diferentes interesses sem perder a força vital de seus professores.

Nestas movimentações, muitas instituições criadas para fins práticos acabam se tornando mais acadêmicas, em um processo conhecido como academic drift, ou deriva acadêmica. Um autor inglês, Jonathan Harwood, explica este processo pela hierarquia de status que existe no campo acadêmico, que dá mais prestígio e recursos para os cientistas que fazem pesquisa básica do que para os que se dedicam ao ensino ou a trabalhos aplicados (“Understanding Academic Drift: On the Institutional Dynamics of Higher Technical and Professional Education”, Minerva, 48, 2010). Estes desvios de função podem ter resultados positivos, como por exemplo em centros de pesquisa em agricultura que se envolveram em pesquisas acadêmicas sobre genética, e acabaram por revolucionar o campo das ciências agrárias; ou negativos, como parece ter ocorrido com os antigos Centros Federais de Educação Tecnológica brasileiros, que, ao serem elevados à condição em institutos universitários em 2008, se transformaram, de boas escolas técnicas, em instituições que hoje se dedicam sobretudo a formar bacharéis e professores do ensino médio como tantas outras.

Muitas instituições, no entanto, nem sobrevivem nem se transformam, mas simplesmente decaem. Quem, olhando para a América Latina, descreveu este mecanismo meio século atrás foi o economista Albert Hirschman (Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in Firms, Organizations, and States, Harvard University Press, 1970). Quando instituições perdem eficiência e estão sujeitas às regras do mercado, as pessoas se afastam delas, e elas desaparecem. Quando elas são públicas e desempenham funções indispensáveis, as pessoas protestam, os governos vêm em seu socorro, e elas renascem. O pior é quando elas são públicas mas perdem o monopólio para outros concorrentes. Elas não morrem, mas definham. O exemplo de Hirschman eram as antigas ferrovias,  sufocadas pelas rodovias, e os exemplos atutais podem ser tanto os Correios quanto muitas universidades públicas da região, cujas greves e protestos se arrastam e cada vez menos se ouvem.


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sábado, 7 de março de 2026

Guerra no Irã é o momento mais imprevisível no Oriente Médio em 50 anos - Thomas Friedman (NYT, Estadão)

Guerra no Irã é o momento mais imprevisível no Oriente Médio em 50 anos

Ofensiva contra Teerã é chance de derrubar teocracia, mas carrega risco de colapso e fragmentação do país
Impacto econômico pode ditar ritmo, mas guerra não deve obscurecer pressões sobre democracia nos EUA e em Israel
Thomas Friedman
The New York Times, 3.mar.2026 às 15h34
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/thomas-l-friedman/2026/03/guerra-no-ira-e-o-momento-mais-imprevisivel-no-oriente-medio-em-50-anos.shtml

Para pensar com clareza sobre as guerras no Oriente Médio é preciso manter múltiplos pensamentos na cabeça ao mesmo tempo. É uma região complicada e caleidoscópica, onde religião, petróleo e política das grandes potências se entrelaçam em cada grande história. Se você está procurando uma narrativa preto no branco, talvez seja melhor jogar damas. Então, aqui estão meus quatro pensamentos sobre o Irã—pelo menos por hoje.
Primeiro: espero que esse esforço para derrubar o regime clerical em Teerã tenha sucesso. É um regime que assassina seu povo, desestabiliza seus vizinhos e destruiu uma grande civilização. Não há evento único que faria mais para colocar todo o Oriente Médio em uma trajetória mais decente e inclusiva do que a substituição do regime islâmico de Teerã por uma liderança focada exclusivamente em permitir que o povo iraniano realize seu pleno potencial com uma voz real em seu próprio futuro.
Segundo: isso não será fácil, porque esse regime está profundamente enraizado e dificilmente será derrubado apenas pelo ar. Israel não conseguiu eliminar o Hamas na Faixa de Gaza após mais de dois anos de uma guerra aérea e terrestre implacável
—e o Hamas está logo ali ao lado.
Dito isso, mesmo que esse ataque israelo-americano ao Irã não leve à revolta do povo iraniano que o presidente Donald Trump pediu, poderia ter outros efeitos benéficos não previstos, como produzir uma República Islâmica 2.0 muito menos ameaçadora para seu povo e vizinhos. Mas também poderia resultar em perigos não previstos, como a desintegração do Irã como uma única entidade geográfica.
Terceiro: devemos lembrar que o momento do fim desta guerra será determinado tanto pelos mercados de petróleo e pelos mercados financeiros quanto pela situação militar dentro do Irã.
O Irã está à beira do colapso econômico, com uma moeda que vale pouco mais que papel de parede. A Europa tornou-se muito mais dependente do gás natural liquefeito do golfo Pérsico para mover suas economias, desde que eliminou gradualmente as compras de gás natural da Rússia.
Uma explosão sustentada de inflação causada por preços mais altos de energia irritaria a base de Trump, muitos dos quais já não gostam de ser arrastados para outra guerra no Oriente Médio. Há muitas pessoas que vão querer que esta guerra seja curta, e isso impactará como e quando Trump e Teerã negociarão.
Quarto: não devemos deixar que esta guerra para trazer democracia e Estado de Direito ao Irã nos distraia das ameaças à democracia e ao Estado de Direito representadas por Trump nos EUA e pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu em Israel.
Trump quer promover esses ideais em Teerã, mesmo enquanto seus agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) operaram por dois meses com pouca consideração por restrições legais no meu estado natal de Minnesota e enquanto ele lança ideias sobre restringir quem pode votar em nossa próxima eleição.
Se a guerra no Irã permitir que Netanyahu vença as eleições israelenses planejadas para este ano, será um grande propulsor para seus esforços de anexar a Cisjordânia, enfraquecer a Suprema Corte israelense e transformar Israel em um estado de apartheid, o que seria um grande golpe aos interesses americanos na região além do Irã.
A vida como colunista de opinião seria fácil se toda guerra sobre a qual você tivesse que se posicionar fosse a Guerra Civil Americana e se todo líder fosse Abraham Lincoln. Mas não são, então vamos nos aprofundar um pouco mais nesses quatro pensamentos sobre o Irã.
Embora você nunca saberia disso se ouvisse a esquerda universitária nos últimos anos, a República Islâmica do Irã tem sido a maior potência imperialista na região desde 1979, cultivando representantes para controlar quatro Estados árabes —Síria, Líbano, Iraque e Iêmen— e minando reformistas liberais em todos os quatro ao promover divisões sectárias.
Apenas o enfraquecimento do regime de Teerã, graças aos golpes de martelo israelenses e americanos nos últimos dois anos, levou à queda do regime de Assad apoiado pelo Irã na Síria e permitiu que o Líbano escapasse do aperto da milícia Hezbollah apoiada pelo Irã, o que por sua vez deu espaço para o governo mais decente do Líbano em décadas —liderado pelo primeiro-ministro Nawaf Salam e pelo presidente Joseph Aoun. É por isso que a morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, está sendo celebrada silenciosa ou ruidosamente em toda a região.
Além disso, o povo iraniano está entre os mais naturalmente pró-Ocidente da região. Se esse impulso puder emergir e se espalhar, e substituir o veneno islamista radical e divisivo propagado pelo regime iraniano, temos a possibilidade de um Oriente Médio muito mais inclusivo.
Como o estrategista libanês-emiradense Nadim Koteich me disse: Não é por acaso que um dos gritos mais populares dos manifestantes antirregime no Irã tem sido: "Nem Gaza, nem Líbano. Minha vida pelo Irã".
Muitos iranianos ficaram enojados ao ver seus recursos desperdiçados em milícias lutando contra Israel. Também não é por acaso, observou Koteich, que o Irã acabou de lançar foguetes contra aeroportos, hotéis e portos dos Estados árabes do Golfo em modernização.
"Eles estão atacando a infraestrutura de abertura e integração e os Acordos de Abraão —foi o velho Oriente Médio atacando o novo Oriente Médio", acrescentou Koteich. A morte de Khamenei, esperançosamente, "é a morte da ideia de Khamenei de que o Oriente Médio deveria ser definido pela resistência e não pela inclusão e integração".
Esperançosamente, isso também acabará com o jogo duplo praticado por Khamenei e seus predecessores como Mahmoud Ahmadinejad —que serviu como presidente do Irã de 2005 até 2013 e também foi morto em um ataque aéreo israelo-americano— de que o Irã tem o direito de gritar abertamente "Morte à América" e "Morte a Israel" e depois alegar que também tem o direito de ser tratado como
a Dinamarca ou de enriquecer urânio para propósitos "pacíficos".
Trump e Netanyahu finalmente denunciaram esse jogo.
Quanto à ideia de que o povo iraniano agora se unirá e derrubará o regime, é difícil ver isso acontecendo tão cedo sem um líder claro e uma agenda comum.
Os analistas iranianos com quem converso dizem que o resultado mais provável é uma espécie de República Islâmica 2.0, onde reformistas proeminentes do regime—como Hassan Rouhani, que foi o sétimo presidente do Irã, de 2013 a 2021, e tem sido um crítico cada vez mais vocal da linha dura de Khamenei, ou o ex-ministro das Relações Exteriores e negociador nuclear Javad Zarif— pressionem a liderança sobrevivente a negociar um acordo com Trump.
Esse acordo poderia ser um que abandone o programa nuclear do Irã e aceite limites em suas guerras por procuração e mísseis balísticos —em outras palavras, o que Trump quiser— em troca do fim das sanções econômicas e da sobrevivência do regime.
Tal regime de República Islâmica 2.0 poderia então ser capaz de supervisionar uma transição para uma verdadeira democracia iraniana novamente. Mas Trump também poderia enfrentar acusações de jogar um salva-vidas para um regime moribundo que recentemente matou pelo menos 6.800 manifestantes, de acordo com a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos sediada nos EUA, e provavelmente muitos mais. Em outras palavras, começar esta guerra foi relativamente fácil. Terminá-la não será.
Tal acordo pode ser tentador para Trump, porém, para evitar uma guerra prolongada, uma recessão desencadeada por preços de petróleo disparados ou a desintegração do Irã. É por isso que não fiquei surpreso ao ouvir Trump dizer à The Atlantic: "Eles querem conversar, e eu concordei em conversar, então estarei conversando com eles".
No Oriente Médio o oposto da autocracia não é necessariamente a democracia. Frequentemente é a desordem. Porque quando ditaduras do Oriente Médio são decapitadas, uma de duas coisas acontece. Ou elas implodem, como a Líbia fez, ou explodem, como a Síria fez. Os persas são apenas cerca de 60% da população do Irã. Os outros 40% são um mosaico de minorias, principalmente azeris, curdos, lurs, árabes e balúchis. Cada um tem ligações com terras fora do Irã, especialmente azeris com o Azerbaijão e curdos com o Curdistão. O caos prolongado em Teerã poderia levar qualquer um deles a se separar e o Irã, na prática, explodir.
O Irã testemunhou o colapso de governos ou a queda de governantes ao longo de sua história. Em todas as vezes, "o Irã permaneceu intacto", disse Koteich.
"Pela primeira vez não tenho certeza de que permanecerá intacto."
Se você quiser ver petróleo a US$ 150 o barril, esse tipo de desintegração iraniana o levaria até lá. As exportações de petróleo do Irã de 1,6 milhão de barris por dia, que vão principalmente para a China, seriam completamente retiradas do mercado global de petróleo. Cerca de 20% de todo o comércio global de petróleo passa pelo Estreito de Hormuz, que o Irã pode fechar. As taxas de seguro para transportadores de petróleo já estão disparando, e cerca de 150 navios-tanque no Golfo estão supostamente paralisados.
Espero que até quarta-feira haja pelo menos mais três pontos competindo na minha cabeça para fazer sentido de tudo isso, porque este é o momento mais plástico e imprevisível no Oriente Médio desde a Revolução Islâmica em 1979. Tudo —e seu oposto— é possível.

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