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quinta-feira, 2 de abril de 2026

Marcelo Guterman tem dois alvos preferidos: Eliane Cantanhede e Eugenio Bucci: sempre acerta

Que se danem os dados

Nem tudo o que eu penso se transforma em um post aqui. Ocorre às vezes de eu ter uma ideia, começar a escrever e, na hora de pesquisar os dados para suportar a tese, não encontro evidências suficientes. Então, com dor no coração, decido descartar aquele texto tão bem amarrado (os textos são como filhos para os autores, é muito cruel abandoná-los).

Mas o professor Eugênio Bucci aparentemente não se dá ao trabalho de pesquisar os dados que usa para suportar suas teses. No seu caso, os dados se curvam à tese, e não o inverso.

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Para quem não tiver paciência, resumo aqui a tese do artigo de hoje: o mundo está mais violento hoje do que no passado, apesar das promessas do liberalismo do fim do século passado. E estamos à mercê de lunáticos como Trump, Putin e Netanyahu, que podem apertar o botão nuclear a qualquer momento. Com o artigo, Bucci endereça dois de seus fantasmas habituais, o liberalismo econômico e a extrema-direita, sob a capa da hecatombe nuclear.

Pois bem. A apoiar o seu diagnóstico sombrio, temos um dado concreto: em 2024, 129 mil pessoas morreram em conflitos armados, tendo sido o ano mais mortífero desde a 2a Guerra. Como sabem todos os calejados em analisar dados estatísticos, um número solto não quer dizer nada. No mínimo, a conta deveria ser feita em relação ao total da população global, de modo a medir a real letalidade. E também como sabem todos aqueles que lidam com dados, é sempre preciso ir até a fonte para verificar o contexto daquele dado. Há o dado, e há a interpretação do dado.

Apesar de Bucci não ter se dado ao trabalho de citar a fonte do dado que utilizou, fui atrás. Uma reportagem de O Globo afirma que 2024 foi o ano com o maior número de conflitos armados desde a 2a Guerra. Portanto, não o mais mortífero, palavra usada pelo colunista. A matéria cita exatamente esses 129 mil mortos, afirmando que é um número menor que os observados nos três anos anteriores. Portanto, novamente, 2024 não foi o ano mais mortífero.

Mas decidi aprofundar na pesquisa e fui atrás da fonte, um relatório da Universidade de Upsala. Foi de lá que retirei o gráfico abaixo. A linha preta mostra o número de mortos em conflitos, e o último ponto é justamente os 129 mil de 2024. Observe como, com exceção do pico de 2022 (provavelmente causado pela invasão da Ucrânia), vivemos hoje em um mundo muito menos violento do que foram as décadas de 60 e 80, mas mais violento do que as décadas de 90 e 2000.

A conclusão que eu tiraria ao observar esses dados é que vivemos em um mundo melhor do que era durante a Guerra Fria, mas pior do que quando os valores liberal-democráticos dominavam a cena global. Bucci, no entanto, não perdeu tempo analisando esses dados. Nem foi atrás deles. Pegou a manchete e encaixou em sua tese: o liberalismo é uma enganação e a extrema-direita é uma ameaça existencial. Os dados? Que se danem os dados.

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sexta-feira, 21 de março de 2025

Mein Kampf: cem anos de uma obra fatidica - Eugenio Bucci (Estadão)

 Cem anos dessa praga

Eugênio Bucci 

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP · 

O Estado de São Paulo, 20 mar. 2025

Mein Kampf’ não é página virada. O Terceiro Reich foi projetado por Hitler para durar mil anos. Como doutrina, já durou cem. E vem mais por aí

Em julho de 1925, o livro Mein Kampf ( Minha luta), de Adolf Hitler, foi lançado na Alemanha. No ano seguinte, 1926, chegou aos leitores um segundo volume, este mais dedicado ao tema da organização partidária. A partir daí, nas edições posteriores, os dois volumes foram reunidos num só e Mein Kampf fez sua carreira editorial dividido em duas partes: a primeira, com 12 capítulos, e a segunda, com 15. Nesse compêndio de horrores, o autor destila ódio, megalomania, ressentimento, antissemitismo, nacionalismo, xenofobia e apologia da violência para fixar o ideário nazista. Com êxito.

Faz um século – e não passou. A coisa nunca mais arredou pé. Em 30 de janeiro de 1933, Hitler foi nomeado chanceler pelo presidente Paul von Hindenburg. Ato contínuo, transformou seu país numa ditadura totalitária. Logo que chegou ao poder, foi saudado por passeatas noturnas em que jovens fardados carregavam tochas em formação militar. Eram as Fackelzug. No documentário O Fascismo de Todos os Dias, de 1965, dirigido pelo russo Mikhail Romm, podemos ver esses rios ígneos apavorantes.

O espetáculo piromaníaco não se acomodou nas tochas notívagas. Logo evoluiu para rituais macabros, dentro das universidades, em que livros amontoados no pátio ardiam em fogueiras sacrificiais. Os nazistas cremaram páginas de Tolstói, Maiakovski, Thomas Mann, Anatole France, Jack London e outros gênios. Mais adiante, não satisfeitos com incinerar papel, passaram a queimar pessoas. Holocausto.

Na abertura do trecho em que as chamas devoram a literatura, o cineasta soviético projeta na tela uma frase atribuída ao próprio Hitler: “Qualquer cabo pode ser um professor, mas não é qualquer professor que pode ser um cabo”. O totalitarismo alemão acreditava que havia mais virtudes num quepe de milico do que numa beca de docente. O pior é que, na atualidade, alguns ainda acreditam nisso. Há relatos de que, num país remoto, que não fala alemão, as autoridades tomaram para si a tarefa de implantar as assim chamadas “escolas cívico-militares”. Na visão desses governantes, o coturno se sai melhor do que o quadro negro na missão de educar as crianças. O eleitorado aplaude.

O nazismo original sumiu de Berlim em 1945, derrotado pelas tropas aliadas. Em 30 de abril daquele ano, Hitler se matou. Sua mulher, Eva Braun, foi junto. O ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, também cometeu suicídio ao lado da esposa, depois de assassinar os seis filhos com cianeto. O velho Estado maior veio abaixo, mas as teses hediondas do Mein Kampf seguem atormentando o mundo.

A palavra “propaganda” aparece 173 vezes nos 27 capítulos (quem primeiro me chamou a atenção para isso foi o professor Edgard Rebouças, da Universidade Federal do Espírito Santo). Os chefes do Terceiro

Reich arrancaram a investigação da verdade do campo da Filosofia, do método científico, da reportagem jornalística e dos estudos conduzidos por historiadores. Tudo isso deixou de ser fonte confiável. A Justiça e seus peritos também perderam o posto de verificadores da realidade. O nazismo monopolizou essa função, como num monoteísmo profano – aliás, em seus diários, Goebbels anotou seu sonho de fazer do partido a grande religião do povo. Quase conseguiu. Interditando a Filosofia, encabrestando a ciência, dizimando a imprensa, subjugando a Justiça e esvaziando a espiritualidade de cada um, o império da suástica fez da propaganda o único critério da verdade.

Em que se deve acreditar? Ora, naquilo que a propaganda repete mil vezes. O Mein Kampf determina que ela deve “estabelecer o seu nível espiritual ( cultural) de acordo com a capacidade de compreensão do mais ignorante dentre aqueles a quem ela pretende se dirigir”. Como se vê, a história de “nivelar por baixo” começou aí.

Hitler usou com malignidade inédita os meios de comunicação da indústria cultural. Manipulou até a morte as multidões sedentas de dominação. Hoje, podemos ver as mesmas técnicas no modo como a extrema direita instrumentaliza as plataformas sociais. As mídias digitais são o prolongamento da escola nazista: rompem com o registro dos fatos e promovem a substituição da política pelo fanatismo. O negacionismo contra as vacinas, contra o aquecimento global, contra as evidências históricas e contra a esfericidade do nosso planeta não é uma exceção, mas a regra.

Segundo o Führer, “a grande massa do povo ( é) sempre propensa a extremos”. Antes de muitos pesquisadores, ele notou que o público esclarecido pode até apreciar o equilíbrio do centro, mas a turba enfurecida prefere abertamente a falta de modos. Seus seguidores, declarados ou não, continuam a operar exatamente assim. Vide a aliança de Donald Trump e Elon Musk. Vide o triângulo rosa, com o qual os nazistas estigmatizavam os homossexuais, que o presidente dos Estados Unidos usou agora numa postagem. Vide como ele ataca as universidades e deporta inocentes.

Não, o Mein Kampf não é página virada. O Terceiro Reich foi projetado por Adolf Hitler para durar mil anos. Como doutrina, já durou cem. E vem mais por aí. •


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