terça-feira, 2 de junho de 2026

Paulo Baía se pronuncia sobre a dibersidade “racial” brasileira, num texto esclarecedor

Recomendo vivamente a leitura. PRA

Pardos, mestiçagem e a complexidade racial brasileira contemporânea

             * Paulo Baía

O Brasil entrou perigosamente numa fase de simplificação da sua complexidade racial. E toda simplificação da realidade brasileira costuma produzir violência simbólica, apagamentos históricos e novas formas de exclusão. O país que nasceu da mistura intensa entre matrizes africanas, indígenas, ibéricas, árabes, mediterrâneas, asiáticas e europeias diversas começa agora a ser reinterpretado por categorias rígidas que muitas vezes não conseguem compreender a própria densidade humana da formação nacional.

É preciso dizer isso com clareza intelectual e coragem política.

A categoria “negro”, consolidada institucionalmente pelo IBGE e pelo Estatuto da Igualdade Racial, não é originalmente uma categoria espontânea de autodeclaração popular no Brasil. Ela é uma categoria social, estatística e política construída pela agregação entre pretos e pardos. Esse ponto é decisivo para compreender o debate contemporâneo.

O IBGE pergunta às pessoas como elas se autodeclaram racialmente. E milhões de brasileiros continuam respondendo: preto, pardo, branco, indígena, amarelo. O brasileiro médio não responde espontaneamente “negro” da mesma maneira que responde “pardo” ou “preto”. A categoria “negro” emerge como formulação político-sociológica que unifica pretos e pardos numa mesma arquitetura demográfica e institucional.

Essa construção teve enorme importância histórica. Seria intelectualmente desonesto negar isso. Ela fortaleceu a luta contra o racismo estrutural brasileiro, ampliou a força estatística das reivindicações antirracistas e permitiu consolidar políticas afirmativas fundamentais para enfrentar séculos de exclusão social.

Mas toda construção política produz também tensões, contradições e zonas de sombra.

E a principal delas talvez seja o eclipse sociológico, simbólico e institucional dos pardos brasileiros.

Os pardos passaram a ser fundamentais para sustentar numericamente a maioria demográfica negra brasileira. Sem os pardos, o Brasil não teria uma maioria negra estatística de 56%. Essa maioria só existe porque pretos e pardos foram reunidos sob uma mesma categoria política. Entretanto, os pardos continuam frequentemente marginalizados dentro das próprias estruturas simbólicas e práticas das políticas afirmativas.

Vivem uma espécie de dupla exclusão.

Não são considerados pretos o suficiente para serem reconhecidos plenamente como pretos. E jamais foram brancos o bastante para serem tratados socialmente como brancos pelas elites brasileiras. Estão num território ambíguo, intensamente brasileiro, historicamente mestiço.

E é exatamente essa ambiguidade que começa a ser tratada como problema político por setores mais radicalizados do identitarismo contemporâneo.

Os pardos servem para conferir robustez estatística à maioria demográfica negra brasileira, mas muitas vezes são vistos com suspeita nos processos concretos de reconhecimento racial. Em determinados ambientes institucionais e universitários, cresce silenciosamente uma lógica fenotípica rígida que transforma a identidade racial quase num tribunal estético permanente.

O resultado é perverso.

Milhões de pardos que sofrem discriminação cotidiana, exclusão territorial, preconceito social, violência policial difusa, estigmatização cultural e marginalização econômica passam a viver também uma sensação de não pertencimento dentro das próprias políticas construídas em nome da igualdade racial.

Isso precisa ser dito sem medo.

Existe hoje um exagero identitário crescente no Brasil. E todo exagero identitário tende a produzir novas fronteiras de exclusão. Parte do radicalismo contemporâneo passou a enxergar a mestiçagem brasileira quase como um desvio ideológico, como uma espécie de diluição inconveniente da polarização racial desejada.

Mas o Brasil não nasceu da pureza racial. O Brasil nasceu exatamente da mistura.

Nasceu da violência colonial, sem dúvida. Nasceu da escravidão brutal, da exploração e da desigualdade histórica. Mas nasceu também do encontro humano, cultural, afetivo e biológico entre diferentes matrizes civilizatórias.

O pilar africano é absolutamente central na formação brasileira. Sem África não existe Brasil. Está na música, na língua, na culinária, nos corpos, nos ritmos, na religiosidade, na estética, no trabalho, nas formas de sociabilidade, no imaginário popular e na alma cultural brasileira.

Mas a formação brasileira não possui apenas uma centralidade. O fato sociológico racial brasileiro é multicentralizado. A experiência nacional foi sendo construída por várias centralidades históricas simultâneas que se cruzaram, se chocaram, se amaram, se violentaram e produziram uma civilização singular.

Existe a centralidade africana. Existe a centralidade indígena dos povos originários. Existe a centralidade ibérica. Existe a centralidade mediterrânea. Existe a centralidade árabe. Existe a centralidade europeia de diferentes matrizes migratórias. Existe a presença asiática. Todas elas deixaram marcas concretas nos afetos cotidianos, nos modos de falar, de amar, de comer, de rezar, de celebrar, de sofrer, de odiar e de sobreviver no Brasil.

O Brasil é multicentral porque sua formação nunca foi linear.

Ele nasce do encontro e também do conflito.

Nasce da ternura e da violência.

Nasce dos bons afetos e dos ressentimentos históricos.

Nasce dos amores improváveis entre mundos diferentes e também das hierarquias brutais produzidas pela escravidão, pelo colonialismo e pela desigualdade estrutural.

Mas o Brasil também foi moldado decisivamente pelos povos originários indígenas. O Brasil possui um chão indígena que antecede a própria colonização. A presença indígena atravessa o território, a alimentação, o vocabulário, os modos de ocupação do espaço, as relações com a natureza e a própria constituição biológica da população mestiça brasileira.

E existem ainda outros pilares frequentemente esquecidos nos simplismos raciais contemporâneos.

Os ibéricos, sobretudo portugueses, mas também espanhóis em várias regiões da América portuguesa e posteriormente brasileira, foram decisivos na formação social do país. Não apenas como colonizadores, mas como matriz linguística, jurídica, religiosa e cultural. A formação da família patriarcal, das cidades coloniais, das instituições administrativas, da estrutura agrária e até das formas de sociabilidade cotidiana brasileiras carregam forte marca ibérica.

Mas os próprios ibéricos que chegaram ao Brasil não eram homogêneos. A Península Ibérica foi durante séculos atravessada por influências árabes, judaicas, mediterrâneas e africanas. O português que desembarca no Brasil já era resultado de intensos cruzamentos civilizatórios anteriores. Trouxe consigo marcas mouriscas, sefarditas, mediterrâneas e atlânticas que também penetraram na formação brasileira.

Depois, ao longo do século XIX e início do século XX, o Brasil recebeu sucessivas ondas migratórias europeias que alteraram profundamente a composição social do país. Italianos, alemães, espanhóis, poloneses, ucranianos, russos, austríacos e portugueses de novas levas migratórias participaram vigorosamente da construção econômica, urbana e cultural brasileira. Misturaram-se intensamente à população local, sobretudo nas grandes cidades do Sudeste e do Sul, mas também em regiões interioranas.

Os árabes, especialmente sírios e libaneses, possuem presença marcante no Brasil desde o século XVIII, intensificada fortemente no final do século XIX e início do século XX. Misturaram-se intensamente à sociedade brasileira. Participaram da vida econômica, política, intelectual e cultural nacional. Entraram nos sertões, nas pequenas cidades, nas capitais, no comércio popular, nas universidades, na política e também na própria mestiçagem brasileira.

Da mesma forma, a presença asiática, especialmente japonesa, tornou-se parte inseparável da formação contemporânea do país. Em São Paulo, no Paraná e na Amazônia brasileira, comunidades japonesas construíram experiências humanas intensamente integradas ao tecido social nacional. Misturaram hábitos, culturas, modos de vida e também linhagens familiares.

O Brasil é uma civilização de cruzamentos.

É exatamente isso que autores como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Milton Santos, Abdias Nascimento, Guerreiro Ramos e Nunes Pereira perceberam, cada um à sua maneira. Nenhum deles ignorou o racismo estrutural brasileiro. Nenhum deles negou a brutalidade histórica da escravidão. Mas todos compreenderam que o Brasil não cabia em modelos raciais simplificados.

Milton Santos compreendia que o território brasileiro também era racializado e desigual. Abdias Nascimento denunciou com coragem histórica a violência estrutural sofrida pelos pretos brasileiros. Guerreiro Ramos buscou construir uma interpretação autenticamente brasileira da questão racial, recusando importações automáticas de modelos estrangeiros.

E hoje existem centenas de jovens pesquisadores brasileiros refletindo sobre a realidade racial e étnica do tempo presente. Jovens intelectuais pretos, pardos, indígenas, brancos, mestiços, amazônidas, nordestinos, sulistas e periféricos que tentam compreender um país cada vez mais complexo, mais fragmentado e mais tensionado.

E talvez seja justamente aí que esteja o centro da tensão contemporânea.

As dinâmicas demográficas e culturais brasileiras são radicalmente diferentes em cada região do país.

O Norte amazônico possui forte presença cabocla, indígena e mestiça. O Nordeste carrega a monumental herança africana intensamente entrelaçada com matrizes indígenas e ibéricas. O Sudeste urbano-industrial viveu grandes fluxos migratórios europeus, árabes e internos. O Sul possui forte marca europeia, mas também importantes populações negras e mestiças invisibilizadas historicamente. O Centro-Oeste expressa experiências híbridas produzidas pelas fronteiras agrícolas, migrações internas e presença indígena.

Não existe um único Brasil racial.

Existem muitos Brasis convivendo simultaneamente.

Falo desse lugar não como alguém externo ao movimento negro brasileiro, mas exatamente como alguém que participou dessa trajetória histórica desde muito cedo. Faço parte do movimento negro carioca desde os anos 1970. E antes disso, desde 1965, nos bailes da pesada realizados no Canecão, quando a Black Music começava a construir novos sentimentos de identidade, autoestima e pertencimento para a juventude preta e mestiça das periferias urbanas do Rio de Janeiro.

Vi nascer muitas dessas lutas.

Vi a importância histórica da afirmação racial preta no combate ao racismo brasileiro. Vi homens e mulheres pretos reconstruindo dignidade em uma sociedade intensamente desigual. Vi intelectuais, artistas, militantes e movimentos produzindo consciência crítica fundamental para o país.

Mas vejo também agora surgir uma nova tensão.

Uma tensão produzida justamente quando parte da complexidade mestiça brasileira começa a ser comprimida dentro de categorias excessivamente rígidas.

Os pardos brasileiros começam lentamente a perceber que são fundamentais para sustentar a maioria demográfica negra do país, mas frequentemente secundarizados nas experiências concretas de reconhecimento institucional. Muitos sentem que vivem numa espécie de cidadania racial incompleta.

E isso tende a crescer.

As tensões raciais, políticas e culturais do Brasil contemporâneo estão se adensando. Estão se sofisticando. Estão se tornando mais fragmentadas e mais delicadas. O país da mistura começa a enfrentar os limites de modelos identitários importados de sociedades historicamente diferentes da experiência brasileira.

Talvez o grande desafio intelectual e democrático do Brasil contemporâneo seja exatamente este: combater o racismo estrutural sem destruir a complexidade da formação nacional brasileira.

Reconhecer plenamente a centralidade africana na construção do Brasil não exige apagar os indígenas, os mestiços, os árabes, os asiáticos, os ibéricos, os europeus e as múltiplas formas de cruzamento humano que também constituem a experiência nacional.

Os pardos não são um detalhe estatístico entre pretos e brancos, são a maioria.

São uma das expressões centrais da própria história brasileira.

E ignorar isso pode produzir exatamente aquilo que a luta democrática deveria evitar: novas formas de invisibilidade, novos ressentimentos coletivos e novos processos de exclusão simbólica dentro de um país que sempre viveu, para o bem e para o mal, nas fronteiras ambíguas da mestiçagem.


          * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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