sábado, 27 de junho de 2026

Uma pequena nota rememorativa - Paulo Roberto de Almeida

Uma pequena nota rememorativa

Paulo Roberto de Almeida


Desde meu ingresso, não previsto e não planejado, na carreira diplomática,  num período já agonizante da ditadura militar, no final de 1977, eu não deixei de ser surpreendido sobre como certos traços daquele regime haviam sido incorporados ao mores diplomático, como aquele slogan especialmente perturbador, repetidamente lembrado pelos barões da Casa, da “hierarquia e disciplina”. Não que eu pensasse que uma corporação eficiente pudesse trabalhar sem ordem e regulação. Mas aquilo sempre me perturbou como uma espécie de impedimento a que aqueles encarregados do encaminhamento de assuntos específicos, do último escalão, pudessem argumentar a respeito de um assunto que poderia apresentar várias facetas, vistas sob ângulos diferentes.

Minha constante preocupação no jogo da diplomacia não era exatamente a diplomacia em si, a mecânica da coisa, mas seus efeitos concretos sobre o processo de desenvolvimento econômico e social do Brasil, visto numa perspectiva mais larga, que fui adquirindo ao longo de muitas leituras, estudo atento das experiências de outros povos, assim como observações recolhidas ao fio de muitas viagens exploratórias em diversos paises diferentes, desenvolvidos e em desenvolvimento.

A reflexão comparativa me induziu a reconsiderar certas políticas macro e setoriais em função de seus efeitos reais e concretos sobre os avanços logrados do ponto de vista da vida dos brasileiros mais humildes, aos quais eu mesmo pertenci em minha infância e juventude e me julgava pertencer.

Outro traço que chocou, talvez ainda mais profundamente, foi o grande conformismo e acomodação pessoal justamente em relação às ordens superiores, que poderiam mudar de forma visivel segundo certas opiniões vindas do alto, ou seja, do poder politico. O estilo autoritário, assimilado ao “centralismo democrático” de feição leninista, a partir de certo momento, foi algo chocante ao se pensar conviver num ambiente esclarecido, de grande desempenho intelectual, mas sujeito a certas orientações simplórias, ou defasadas no tempo, ou claramente inadequadas às novas circunstâncias da economia mundial.

O traço, porém, mais perturbador foi a aliança estreita com certas ditaduras execráveis, apenas que supostamente identificadas a certas causas do passado que tinham a ver com a resistência à arrogância imperial dos donos do mundo, em lugar de um exame ponderado dos novos requerimentos no plano econômico e educacional que poderiam impulsionar o país a um estilo diplomático inserido num ambiente democrático dos valores ocidentais derivados do Iluminismo kantiano.

Minha produção a partir de certa fase foi essencialmente didática e não mais executiva, mas nunca tive uma clara percepção do efeitos reais dessa produtividade puramente redacional, não dotada de outros canais de transmissão se não aqueles próprios.

A nação ainda não conheceu algum grande salto qualitativo nos padrões de vida da grande maioria dos cidadãos, talvez bem mais súditos do Estado do que seres livres e independentes. 

Em todo caso, persistirei nos meus esforços didáticos, que constituem uma ferramenta talvez benéfica no uso de minhas poucas vantagens relativas e comparativas.

Vale!

Paulo Roberto de Almeida

Brasilia, 27 de junho de 2026

(aniversário de Gabriel, 14 anos)


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