quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Grã-Bretanha e a integração europeia depois do Brexit: de volta a 1971, a 1967 ou a 1959? (2016) - Paulo Roberto de Almeida

 Aos dez anos do Brexit, em 23 de junho de 2016, vejamos o que eu escrevi sobre esse infausto acontecimento deplorável, num império (mais linguístico do que outra coisa) que estava se recuperando relativamente bem de suas glórias passadas:


3001. “A Grã-Bretanha e a integração europeia depois do Brexit: de volta a 1971, a 1967 ou a 1959?”, Brasília, 24 junho 2016, 2 p. Nota sobre o contexto histórico dos processos negociados da GB em esquemas de integração europeus, notadamente o MCE-CEE e Efta (1960), e o retrocesso atual, a ser complementado por nova nota sobre o estado atual de indecisão entre Londres e Bruxelas.

Eis a nota feita um dia depois da votação do Brexit, uma estupidez inacreditável feita pela própria maioria conservadora que estava no comando do país:

A Grã-Bretanha e a integração europeia depois do Brexit: de volta a 1971, a 1967 ou a 1959?

Paulo Roberto de Almeida

        O voto do povo britânico quanto à (não) permanência do país na União Europeia remete a Grã-Bretanha algumas décadas atrás, várias décadas. Quão atrás, isso ainda resta decidir, nas próximas semanas, em discussões que certamente serão empreendidas entre o governo conservador (ou algum outro) e as lideranças do “outro lado da Mancha”, como os britânicos chamavam, no passado, os demais europeus continentais.
        Poderia ser 1971, ou seja, um ano antes que o Reino Unido (junto com a Dinamarca e a Irlanda) integrava o primeiro alargamento, de seis a nove membros, da então Comunidade Econômica Europeia, depois que o General De Gaulle tinha deixado a presidência da França, ele que se opunha à entrada do Reino Unido no projeto europeu de integração, por achar que os ingleses não possuíam, decididamente (e talvez acertadamente), um “espírito integracionista”. Como Napoleão, o General De Gaulle tinha uma certa noção de geografia e de psicologia política, talvez com razão.
        Poderia ser então, 1967, justamente, quando o General De Gaulle confirmava, talvez pela terceira vez, sua oposição à demanda de ingresso dos britânicos, quando eles haviam oficialmente solicitado adesão à aparentemente exitosa Comunidade Econômica Europeia, a caminho de consolidar sua união aduaneira, dez anos depois da assinatura dos tratados de Roma. O governo britânico tentava reconsiderar a decisão tomada nos anos 1950, quando franceses e alemães ensaiavam os primeiros passos — primeiro na CECA, de 1951, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, depois no MCE, o mercado comum europeu, aprovado em Roma em 1957 — do longo, lento, difícil e ambicioso processo que levou o mosaico de países europeus ao mais extraordinário experimento supranacional da história mundial (ainda em construção).
        Mas talvez eles estejam recuando a 1959, quando, uma vez os tratados de Roma ratificados e no início da construção do mercado comum europeu, os britânicos comandaram as negociações dos “outsiders” da nascente comunidade econômica das quais resultou a criação da EFTA, a Associação Europeia de Livre Comércio (em 1960), que tinha muito mais membros do que os seis originais da CEE.
        Os britânicos, e seus companheiros nesse primeiro empreendimento livre-cambista –seguido logo em seguida pela formação da Alalc, a Associação Latino-Americana de Livre Comércio –, pretendiam fazer parte de algo não tão ambicioso quanto um mercado comum, preferindo ficar num simples esquema livre-cambista, ao qual talvez retornem agora. Mas a quase totalidade dos demais sócios da EFTA, com poucas e raras exceções, já aderiu ao processo europeu de união econômica.
        Em qual ano prefeririam se situar, hoje, os britânicos do Brexit? Provavelmente em nenhum deles: o formato de seu relacionamento começa agora a ser discutido.

Brasília, 24 de junho de 2016.

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