Nem tudo o que eu penso se transforma em um post aqui. Ocorre às vezes de eu ter uma ideia, começar a escrever e, na hora de pesquisar os dados para suportar a tese, não encontro evidências suficientes. Então, com dor no coração, decido descartar aquele texto tão bem amarrado (os textos são como filhos para os autores, é muito cruel abandoná-los).
Mas o professor Eugênio Bucci aparentemente não se dá ao trabalho de pesquisar os dados que usa para suportar suas teses. No seu caso, os dados se curvam à tese, e não o inverso.
Para quem não tiver paciência, resumo aqui a tese do artigo de hoje: o mundo está mais violento hoje do que no passado, apesar das promessas do liberalismo do fim do século passado. E estamos à mercê de lunáticos como Trump, Putin e Netanyahu, que podem apertar o botão nuclear a qualquer momento. Com o artigo, Bucci endereça dois de seus fantasmas habituais, o liberalismo econômico e a extrema-direita, sob a capa da hecatombe nuclear.
Pois bem. A apoiar o seu diagnóstico sombrio, temos um dado concreto: em 2024, 129 mil pessoas morreram em conflitos armados, tendo sido o ano mais mortífero desde a 2a Guerra. Como sabem todos os calejados em analisar dados estatísticos, um número solto não quer dizer nada. No mínimo, a conta deveria ser feita em relação ao total da população global, de modo a medir a real letalidade. E também como sabem todos aqueles que lidam com dados, é sempre preciso ir até a fonte para verificar o contexto daquele dado. Há o dado, e há a interpretação do dado.
Apesar de Bucci não ter se dado ao trabalho de citar a fonte do dado que utilizou, fui atrás. Uma reportagem de O Globo afirma que 2024 foi o ano com o maior número de conflitos armados desde a 2a Guerra. Portanto, não o mais mortífero, palavra usada pelo colunista. A matéria cita exatamente esses 129 mil mortos, afirmando que é um número menor que os observados nos três anos anteriores. Portanto, novamente, 2024 não foi o ano mais mortífero.
Mas decidi aprofundar na pesquisa e fui atrás da fonte, um relatório da Universidade de Upsala. Foi de lá que retirei o gráfico abaixo. A linha preta mostra o número de mortos em conflitos, e o último ponto é justamente os 129 mil de 2024. Observe como, com exceção do pico de 2022 (provavelmente causado pela invasão da Ucrânia), vivemos hoje em um mundo muito menos violento do que foram as décadas de 60 e 80, mas mais violento do que as décadas de 90 e 2000.
A conclusão que eu tiraria ao observar esses dados é que vivemos em um mundo melhor do que era durante a Guerra Fria, mas pior do que quando os valores liberal-democráticos dominavam a cena global. Bucci, no entanto, não perdeu tempo analisando esses dados. Nem foi atrás deles. Pegou a manchete e encaixou em sua tese: o liberalismo é uma enganação e a extrema-direita é uma ameaça existencial. Os dados? Que se danem os dados.



