segunda-feira, 1 de junho de 2026

Livro do Nordeste II, André Heráclio do Rego, Múcio Aguiar (orgs.); resenha de Paulo Roberto de Almeida


Será lançado, no Instituto Histórico e Geográfico do DF o Livro do Nordeste II, comemorativo dos 200 anos do mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, o Diário de Pernambuco, nascido um ano depois da revolução federalista de 1824.
Abaixo uma resenha que fiz desse livro, e o convite para o seu lançamento em 2/06/2026.

Diário de Pernambuco, 200 anos: Livro do Nordeste II
 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Sobre o mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, e os livros comemorativos.


O ano em que o Diário de Pernambuco foi fundado, 1825, começou com o fuzilamento – à falta de verdugos que se dispusessem a enforcá-lo – do mais importante revolucionário da Confederação do Equador, frei Caneca, o autor intelectual das posições ilustradas defendidas por um movimento que já vinha da insurreição independentista de 1817 e que se prolongou na mais consistente tentativa, em 1824, de fundar o novo Estado brasileiro em bases institucionais mais amplamente democráticas e federais do que a monarquia unitária que se instalou sob a mesma dinastia que vinha explorando a maior colônia portuguesa desde a Restauração do Reino, no século XVII, e que continuava controlando-a desde a instalação da corte no Rio de Janeiro e sob o Reino Unido.
Aproximadamente um ano após o esmagamento da revolução, nascia em Recife, em novembro de 1825, o Diário de Pernambuco, ao início com pequenos anúncios de província, mas que em seguida se destacou na cobertura dos principais eventos locais e nacionais no país recém independente. Deu ampla cobertura à Revolução Praieira de 1848-49, assumiu uma precoce postura abolicionista, anos à frente da resiliência escravagista em outras províncias, lutou pela abolição com Joaquim Nabuco, congratulou-se com a Lei Áurea, assim como se alinhou ao novo regime no ano seguinte à abolição, pois sempre se colocou do lado das lutas cívicas relevantes. Sofreu censura em várias ocasiões, com empastelamento das impressoras, jornais queimados e depredação da sua sede; foi proibido de circular várias vezes, duas sob Hermes da Fonseca (1911-1912), novamente em 1931 e em 1945.
Em 1925, por ocasião dos primeiros cem anos do Diário de Pernambuco, seus diretores convidaram o jovem antropólogo Gilberto Freyre, recém retornado ao Brasil depois de anos de estudos nos Estados Unidos, para coordenar a elaboração de uma coletânea de ensaios em homenagem ao papel desempenhado pelo jornal no centenário decorrido desde 1825. Freyre tinha começado a colaborar com o Diário desde a época da Grande Guerra, e se manteve como articulista até sua morte, em 1987. O Livro do Nordeste, publicado em 1925 sob sua direção, ofereceu uma ampla gama de contribuições sobre a região e o próprio Brasil, começando com um artigo do maior historiador diplomático, Oliveira Lima, sobre os cem anos das relações internacionais do país desde a Independência.
Um ano depois, em fevereiro de 1926, Oliveira Lima assinava um artigo publicado no jornal argentino La Prensa, no qual ele tecia, com base no Livro do Nordeste, um laudatório aos cem anos do Diário de Pernambuco, começando pelo seguinte argumento: “o Diário de Pernambuco não nasceu como jornal de combate, caso em que haveria desaparecido com a causa que o trouxera à circulação”, mas como “pequeno agente de informações”, que em pouco tempo “se elevou a uma missão educativa”. Foi nesse contexto que se iniciou uma colaboração prática, que Oliveira Lima chama de “cooperação profunda”, entre o novo veículo impresso e a Faculdade de Direito, primeiro de Olinda, depois do Recife, já que, sem a contribuição dos alunos e professores,

“o Diário não teria podido resistir tão valentemente à decadência que nos trópicos segue tão de perto a florescência”. Concluindo, Oliveira Lima afirmava que “a ventura do Diário foi, todavia mais que tudo, não perder a tolerância e a moderação que são o segredo de sua juventude centenária”.

Suas palavras, contudo, ficaram perdidas por mais cem anos num jornal estrangeiro, e só vieram a lume porque foram incluídas, como a primeira colaboração, na edição dos 200 anos de aniversário do Diário de Pernambuco, o Livro do Nordeste II, organizado e editado por dois legítimos sucessores de Gilberto Freyre: o historiador e diplomata André Heráclio do Rêgo e o jornalista e arqueólogo Múcio Aguiar, com vinte ensaios de especialistas renomados, “um para cada dez anos de existência do Diário de Pernambuco”, como explicitado na contracapa desta bela obra (Recife: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025). André Heráclio, por sinal, acaba de também publicar um abrangente estudo de história intelectual sobre os escritos de Gilberto Freyre em torno do século XIX brasileiro: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Letra Capital, 2026).
Nesse segundo volume do Livro do Nordeste, tive o privilégio de suceder, cem anos depois, a Oliveira Lima, o “D. Quixote Gordo” do Itamaraty (como o chamou o próprio Gilberto Freyre), contribuindo, a convite de meu colega André Heráclio, com o ensaio “Cem anos de relações internacionais do Brasil, 1925-2025” (p. 141-157), no qual começo, aliás, por um resumo do artigo de Oliveira Lima, tratando da trajetória diplomática do Brasil nos cem anos anteriores. De forma geral, este Livro do Nordeste II reproduz o espírito e os focos do primeiro livro, concentrando-se, como seria natural, no próprio Diário de Pernambuco e nos assuntos do estado, mas também nos temas regionais do Nordeste, sem descurar uma devida homenagem ao organizador do primeiro, Gilberto Freyre, que estaria completando 125 anos na publicação do segundo livro.
     André Heráclio, em seu artigo “Gilberto Freyre e o Diário de Pernambuco” (p. 87-105), traça o perfil do seu antecessor nas centenas de artigos publicados por ele no jornal pernambucano, começando por enfatizar a metodologia própria do grande mestre da sua terra, que fazia um trabalho meticuloso de historiador começando justamente pela leitura detalhada dos jornais, inclusive nos pequenos anúncios “comerciais”. Como comentou Edson Nery da Fonseca (O Grande Sedutor: escritos de Gilberto Freyre de 1945 até hoje, 2011):

... poucos escritores se associaram tanto a um jornal como Gilberto Freyre ao Diário de Pernambuco, do qual foi colaborador semanal de 1918 até sua morte em 1987: mais de meio século de artigos nos quais abordou diferentes matérias, como literatura, belas artes, urbanismo, religião, política, culinária etc. (p. 629, citado no ensaio de André Heráclio, p. 93)

        André Heráclio ainda assina uma segunda contribuição, na imediata sequência deste, “Gilberto Freyre, o Recife e Olinda nas páginas do Diário de Pernambuco” (p. 107-121), na qual traça a intensa e íntima relação afetiva do antropólogo com essa conurbação, ao passo que Gilberto Freyre Neto, ex-secretário estadual da Cultura, aborda, em “Dois personagens da cultura brasileira: Gilberto Freyre e Ariano Suassuna” (p. 123-128), as relações entre o cofundador do Centro Regionalista do Nordeste, em 1924 – promotor do 1º Congresso Brasileiro do Regionalismo, onde nasceria o seu “Manifesto Regionalista de 1926” –, e o autor do Auto da Compadecida (1955), artífice do Brasil Armorial, movimento fundado em 1970. Freyre Neto concluiu:

“Gilberto encantou-se em 18 de julho de 1987. Ariano no dia 23 de julho de 2014. Ambos aos 87 anos.” (p. 128)

O economista Gustavo Maia Gomes, em seu muito bem pesquisado ensaio sobre “Secas e Desertificação” (p. 221-225), evidencia como a palavra seca foi utilizada, nos primeiros vinte anos da vida do jornal, como adjetivo,

“para se referir à escrava seca de corpo que fugira, à ama seca que alguém queria alugar, ao carregamento de carne-seca chegado ao porto do Recife, à pólvora seca usada em tentativas de controlar revoltas. Eram secas adjetivo.” (p. 221)

Mas ele continua informando, com base no diário bicentenário:
Só a partir de 1845, a seca-substantivo – estiagem prolongada causando fome e morte de gente e/ou gado e destruição de lavouras – passou a ganhar mais espaço. Com efeito, entre 1825 e 2025, o jornal fez uma extensa crônica das secas que atingiram o Nordeste brasileiro. Dessas, as mais importantes aconteceram em 1824-25, 1845-47, 1877-79, 1888-89, 1898-99, 1815, 1951-52, 1958, 1970, 1979-83, 19980-99 e 2012-17.

Gustavo Maia traça, a partir daí, o impacto de cada uma dessas grandes secas na demografia regional e na literatura, com uma plêiade de romances nos quais se distinguiram grandes nomes das letras nacionais, fazendo um relato das secas mais impactantes, cobertas pelo Diário de Pernambuco, do qual ele transcreve trechos das reportagens mais relevantes e representativas dessas tragédias humanas:

“de um lado, os horrores da seca [de 1878] ... fazendo vítimas cotidianamente e em grande escala; de outro lado, a formação de grupos de roubadores e assassinos...” (p. 226). Teve a “Seca dos Dois Setes (1877)” e a “Seca dos Três Oitos (1888), que foi quase tão devastadora” (p. 227).

Todas as colaborações são riquíssimas de informações antigas – por vezes mais do que os cem anos do volume II –, algumas poeticamente afetivas; um dos ensaios que mais apreciei foi o de João Palmeiro, sobre o Nordeste como a “Memória do Mundo”, sobre a cooperação luso-brasileira (p. 159-168). Todo o livro é permeado de fotos de páginas de uma história rica, de mapas e, sobretudo, de reproduções dos muitos artigos de Gilberto Freyre ao longo de uma vida que se confunde com a importância do jornal para a nossa historiografia. A Biblioteca Nacional possui todos os exemplares, mas o próprio Diário vem digitalizando suas páginas e é possível efetuar buscas indexadas, o que é um aporte inestimável para todos os pesquisadores (não apenas os do Nordeste ou trabalhando sobre questões regionais).
Os dois volumes comemorativos estão agora à disposição dos leitores “tradicionais”, pois que o primeiro volume foi objeto de uma reedição: “Gilberto Freyre e outros. Livro do Nordeste, comemorativo do 1º centenário do Diário de Pernambuco (2ª ed., fac-similada; Recife: Secretaria da Justiça, Arquivo Público Estadual, 1979)”; foi lá que eu busquei o “meu” Oliveira Lima de 1925: “Um século de relações internacionais (1825-1925)”. A edição do segundo volume é ricamente ilustrada, com muitas fotos de Gilberto Freyre, que foi tão original no primeiro volume, quanto o foi em quase todas as suas obras; Freyre, praticamente, perpassa todas as páginas desta edição.

            Capa e sumário deste magnífico livro, sobretudo para os nordestinos e os pernambucanos, encontram-se nesta postagem do blog Diplomatizzando (https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/o-livro-do-nordeste-ii-andre-heraclio.html

        Minha recomendação aos editores é que não se espere outros cem anos para preparar um terceiro volume, mas sim que se comece a preparar, desde já, um volume para 1933, os cem anos da publicação de Casa Grande e Senzala, por um antropólogo de apenas 33 anos, o livro que ensinou aos franceses como fazer uma “nova História”. Curiosamente, tendo saído do Brasil no segundo ano do curso de Ciências Sociais na USP, escapando do regime militar, ao final de 1970, fui ler esse grande panóptico freyreano da formação da família brasileira na biblioteca do Instituto de Sociologia, da Universidade de Bruxelas, numa edição em francês de 1952, Maîtres et esclaves, tradução de sociólogo brasilianista Roger Bastide. Já vou avisando aos “editores” que gostaria de escrever sobre essa edição no futuro livro de 1933.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5280, 15 abril 2026, 4 p.


Nenhum comentário:

Postagem em destaque

Livro do Nordeste II, André Heráclio do Rego, Múcio Aguiar (orgs.); resenha de Paulo Roberto de Almeida

Será lançado, no Instituto Histórico e Geográfico do DF o Livro do Nordeste II , comemorativo dos 200 anos do mais antigo jornal do Brasil ...