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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Livro do Nordeste II, André Heráclio do Rego, Múcio Aguiar (orgs.); resenha de Paulo Roberto de Almeida


Será lançado, no Instituto Histórico e Geográfico do DF o Livro do Nordeste II, comemorativo dos 200 anos do mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, o Diário de Pernambuco, nascido um ano depois da revolução federalista de 1824.
Abaixo uma resenha que fiz desse livro, e o convite para o seu lançamento em 2/06/2026.

Diário de Pernambuco, 200 anos: Livro do Nordeste II
 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Sobre o mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, e os livros comemorativos.


O ano em que o Diário de Pernambuco foi fundado, 1825, começou com o fuzilamento – à falta de verdugos que se dispusessem a enforcá-lo – do mais importante revolucionário da Confederação do Equador, frei Caneca, o autor intelectual das posições ilustradas defendidas por um movimento que já vinha da insurreição independentista de 1817 e que se prolongou na mais consistente tentativa, em 1824, de fundar o novo Estado brasileiro em bases institucionais mais amplamente democráticas e federais do que a monarquia unitária que se instalou sob a mesma dinastia que vinha explorando a maior colônia portuguesa desde a Restauração do Reino, no século XVII, e que continuava controlando-a desde a instalação da corte no Rio de Janeiro e sob o Reino Unido.
Aproximadamente um ano após o esmagamento da revolução, nascia em Recife, em novembro de 1825, o Diário de Pernambuco, ao início com pequenos anúncios de província, mas que em seguida se destacou na cobertura dos principais eventos locais e nacionais no país recém independente. Deu ampla cobertura à Revolução Praieira de 1848-49, assumiu uma precoce postura abolicionista, anos à frente da resiliência escravagista em outras províncias, lutou pela abolição com Joaquim Nabuco, congratulou-se com a Lei Áurea, assim como se alinhou ao novo regime no ano seguinte à abolição, pois sempre se colocou do lado das lutas cívicas relevantes. Sofreu censura em várias ocasiões, com empastelamento das impressoras, jornais queimados e depredação da sua sede; foi proibido de circular várias vezes, duas sob Hermes da Fonseca (1911-1912), novamente em 1931 e em 1945.
Em 1925, por ocasião dos primeiros cem anos do Diário de Pernambuco, seus diretores convidaram o jovem antropólogo Gilberto Freyre, recém retornado ao Brasil depois de anos de estudos nos Estados Unidos, para coordenar a elaboração de uma coletânea de ensaios em homenagem ao papel desempenhado pelo jornal no centenário decorrido desde 1825. Freyre tinha começado a colaborar com o Diário desde a época da Grande Guerra, e se manteve como articulista até sua morte, em 1987. O Livro do Nordeste, publicado em 1925 sob sua direção, ofereceu uma ampla gama de contribuições sobre a região e o próprio Brasil, começando com um artigo do maior historiador diplomático, Oliveira Lima, sobre os cem anos das relações internacionais do país desde a Independência.
Um ano depois, em fevereiro de 1926, Oliveira Lima assinava um artigo publicado no jornal argentino La Prensa, no qual ele tecia, com base no Livro do Nordeste, um laudatório aos cem anos do Diário de Pernambuco, começando pelo seguinte argumento: “o Diário de Pernambuco não nasceu como jornal de combate, caso em que haveria desaparecido com a causa que o trouxera à circulação”, mas como “pequeno agente de informações”, que em pouco tempo “se elevou a uma missão educativa”. Foi nesse contexto que se iniciou uma colaboração prática, que Oliveira Lima chama de “cooperação profunda”, entre o novo veículo impresso e a Faculdade de Direito, primeiro de Olinda, depois do Recife, já que, sem a contribuição dos alunos e professores,

“o Diário não teria podido resistir tão valentemente à decadência que nos trópicos segue tão de perto a florescência”. Concluindo, Oliveira Lima afirmava que “a ventura do Diário foi, todavia mais que tudo, não perder a tolerância e a moderação que são o segredo de sua juventude centenária”.

Suas palavras, contudo, ficaram perdidas por mais cem anos num jornal estrangeiro, e só vieram a lume porque foram incluídas, como a primeira colaboração, na edição dos 200 anos de aniversário do Diário de Pernambuco, o Livro do Nordeste II, organizado e editado por dois legítimos sucessores de Gilberto Freyre: o historiador e diplomata André Heráclio do Rêgo e o jornalista e arqueólogo Múcio Aguiar, com vinte ensaios de especialistas renomados, “um para cada dez anos de existência do Diário de Pernambuco”, como explicitado na contracapa desta bela obra (Recife: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025). André Heráclio, por sinal, acaba de também publicar um abrangente estudo de história intelectual sobre os escritos de Gilberto Freyre em torno do século XIX brasileiro: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Letra Capital, 2026).
Nesse segundo volume do Livro do Nordeste, tive o privilégio de suceder, cem anos depois, a Oliveira Lima, o “D. Quixote Gordo” do Itamaraty (como o chamou o próprio Gilberto Freyre), contribuindo, a convite de meu colega André Heráclio, com o ensaio “Cem anos de relações internacionais do Brasil, 1925-2025” (p. 141-157), no qual começo, aliás, por um resumo do artigo de Oliveira Lima, tratando da trajetória diplomática do Brasil nos cem anos anteriores. De forma geral, este Livro do Nordeste II reproduz o espírito e os focos do primeiro livro, concentrando-se, como seria natural, no próprio Diário de Pernambuco e nos assuntos do estado, mas também nos temas regionais do Nordeste, sem descurar uma devida homenagem ao organizador do primeiro, Gilberto Freyre, que estaria completando 125 anos na publicação do segundo livro.
     André Heráclio, em seu artigo “Gilberto Freyre e o Diário de Pernambuco” (p. 87-105), traça o perfil do seu antecessor nas centenas de artigos publicados por ele no jornal pernambucano, começando por enfatizar a metodologia própria do grande mestre da sua terra, que fazia um trabalho meticuloso de historiador começando justamente pela leitura detalhada dos jornais, inclusive nos pequenos anúncios “comerciais”. Como comentou Edson Nery da Fonseca (O Grande Sedutor: escritos de Gilberto Freyre de 1945 até hoje, 2011):

... poucos escritores se associaram tanto a um jornal como Gilberto Freyre ao Diário de Pernambuco, do qual foi colaborador semanal de 1918 até sua morte em 1987: mais de meio século de artigos nos quais abordou diferentes matérias, como literatura, belas artes, urbanismo, religião, política, culinária etc. (p. 629, citado no ensaio de André Heráclio, p. 93)

        André Heráclio ainda assina uma segunda contribuição, na imediata sequência deste, “Gilberto Freyre, o Recife e Olinda nas páginas do Diário de Pernambuco” (p. 107-121), na qual traça a intensa e íntima relação afetiva do antropólogo com essa conurbação, ao passo que Gilberto Freyre Neto, ex-secretário estadual da Cultura, aborda, em “Dois personagens da cultura brasileira: Gilberto Freyre e Ariano Suassuna” (p. 123-128), as relações entre o cofundador do Centro Regionalista do Nordeste, em 1924 – promotor do 1º Congresso Brasileiro do Regionalismo, onde nasceria o seu “Manifesto Regionalista de 1926” –, e o autor do Auto da Compadecida (1955), artífice do Brasil Armorial, movimento fundado em 1970. Freyre Neto concluiu:

“Gilberto encantou-se em 18 de julho de 1987. Ariano no dia 23 de julho de 2014. Ambos aos 87 anos.” (p. 128)

O economista Gustavo Maia Gomes, em seu muito bem pesquisado ensaio sobre “Secas e Desertificação” (p. 221-225), evidencia como a palavra seca foi utilizada, nos primeiros vinte anos da vida do jornal, como adjetivo,

“para se referir à escrava seca de corpo que fugira, à ama seca que alguém queria alugar, ao carregamento de carne-seca chegado ao porto do Recife, à pólvora seca usada em tentativas de controlar revoltas. Eram secas adjetivo.” (p. 221)

Mas ele continua informando, com base no diário bicentenário:
Só a partir de 1845, a seca-substantivo – estiagem prolongada causando fome e morte de gente e/ou gado e destruição de lavouras – passou a ganhar mais espaço. Com efeito, entre 1825 e 2025, o jornal fez uma extensa crônica das secas que atingiram o Nordeste brasileiro. Dessas, as mais importantes aconteceram em 1824-25, 1845-47, 1877-79, 1888-89, 1898-99, 1815, 1951-52, 1958, 1970, 1979-83, 19980-99 e 2012-17.

Gustavo Maia traça, a partir daí, o impacto de cada uma dessas grandes secas na demografia regional e na literatura, com uma plêiade de romances nos quais se distinguiram grandes nomes das letras nacionais, fazendo um relato das secas mais impactantes, cobertas pelo Diário de Pernambuco, do qual ele transcreve trechos das reportagens mais relevantes e representativas dessas tragédias humanas:

“de um lado, os horrores da seca [de 1878] ... fazendo vítimas cotidianamente e em grande escala; de outro lado, a formação de grupos de roubadores e assassinos...” (p. 226). Teve a “Seca dos Dois Setes (1877)” e a “Seca dos Três Oitos (1888), que foi quase tão devastadora” (p. 227).

Todas as colaborações são riquíssimas de informações antigas – por vezes mais do que os cem anos do volume II –, algumas poeticamente afetivas; um dos ensaios que mais apreciei foi o de João Palmeiro, sobre o Nordeste como a “Memória do Mundo”, sobre a cooperação luso-brasileira (p. 159-168). Todo o livro é permeado de fotos de páginas de uma história rica, de mapas e, sobretudo, de reproduções dos muitos artigos de Gilberto Freyre ao longo de uma vida que se confunde com a importância do jornal para a nossa historiografia. A Biblioteca Nacional possui todos os exemplares, mas o próprio Diário vem digitalizando suas páginas e é possível efetuar buscas indexadas, o que é um aporte inestimável para todos os pesquisadores (não apenas os do Nordeste ou trabalhando sobre questões regionais).
Os dois volumes comemorativos estão agora à disposição dos leitores “tradicionais”, pois que o primeiro volume foi objeto de uma reedição: “Gilberto Freyre e outros. Livro do Nordeste, comemorativo do 1º centenário do Diário de Pernambuco (2ª ed., fac-similada; Recife: Secretaria da Justiça, Arquivo Público Estadual, 1979)”; foi lá que eu busquei o “meu” Oliveira Lima de 1925: “Um século de relações internacionais (1825-1925)”. A edição do segundo volume é ricamente ilustrada, com muitas fotos de Gilberto Freyre, que foi tão original no primeiro volume, quanto o foi em quase todas as suas obras; Freyre, praticamente, perpassa todas as páginas desta edição.

            Capa e sumário deste magnífico livro, sobretudo para os nordestinos e os pernambucanos, encontram-se nesta postagem do blog Diplomatizzando (https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/o-livro-do-nordeste-ii-andre-heraclio.html

        Minha recomendação aos editores é que não se espere outros cem anos para preparar um terceiro volume, mas sim que se comece a preparar, desde já, um volume para 1933, os cem anos da publicação de Casa Grande e Senzala, por um antropólogo de apenas 33 anos, o livro que ensinou aos franceses como fazer uma “nova História”. Curiosamente, tendo saído do Brasil no segundo ano do curso de Ciências Sociais na USP, escapando do regime militar, ao final de 1970, fui ler esse grande panóptico freyreano da formação da família brasileira na biblioteca do Instituto de Sociologia, da Universidade de Bruxelas, numa edição em francês de 1952, Maîtres et esclaves, tradução de sociólogo brasilianista Roger Bastide. Já vou avisando aos “editores” que gostaria de escrever sobre essa edição no futuro livro de 1933.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5280, 15 abril 2026, 4 p.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo - Paulo Roberto de Almeida


5281. “Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo”, Brasília, 15 abril 2026, 3 p. (Introdução). Consolidação de meus escritos em torno do grande antropólogo e sociólogo pernambucano. Introdução e transcrição dos trabalhos n. 918, 4436, 4915 e 5108. Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165703160/5281_Eu_e_Gilberto_Freyre_ou_Gilberto_Freyre_e_este_modesto_sociologo_2026_ ); divulgado via blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/eu-e-gilberto-freyre-ou-gilberto-freyre.html).


Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo

Paulo Roberto de Almeida, diplomata e professor.
Consolidação de meus escritos em torno do grande sociólogo pernambucano.

        Não sou pernambucano, mas paulistano, mas conhecendo a história do Brasil, e o papel que nela tiveram os pernambucanos, desde a invasão holandesa nas costas do Nordeste, no século XVII – positiva em alguns aspectos, mas se tivesse continuado a dominação da Companhia das Índias Ocidentais holandesas sobre aquelas bandas do Brasil, o país nordestino assim recortado estaria bem mais parecido com o Suriname de hoje do que com os Países Baixos europeus –, passando pela insurreição de 1817 e pelas revoluções de 1824 e de 1848-49, não tenho dúvidas em afirmar que a nação resultante desses precoces impulsos republicanos e federalistas poderia ter evoluído numa direção bem mais interessante, do ponto de vista econômico, social e político, do que o Império escravocrata do século XIX e a República oligárquica do século XX, embora tudo isso seja mera especulação e não uma história do tipo contrafatual.
        Também acho que se o Brasil imperial e republicano, tivesse sido mais paulista do que baiano (a maioria dos presidentes dos gabinetes do Império), ou mineiro (onde esteve a riqueza no século XVIII, onde estalou a revolta contra os colonizadores, em 1789), ou carioca (ou melhor, com o poder concentrado nas elites encasteladas na capital do país de 1763 até 1960), talvez a nação pudesse ter se desenvolvido de uma forma mais compatível com os requerimentos de uma população mestiça e deseducada. Reconheço que os barões do café e os oligarcas políticos do final do Império e do início da República, inclusive seus primeiros presidentes, foram, em certa medida paulistas, que combinaram a espúria aliança do “café com leite” com mineiros e cariocas nos primeiros anos do novo regime para deixar o Brasil parado no tempo, até chegarem os gaúchos castilhistas e autoritários da era Vargas, no breve período de 1930 a 1945 (e depois voltaram para mais alguns anos).
        Bem, todo esse regionalismo déplacé apenas para dizer que, sinceramente, eu acho, por pura imaginação especulativa, que o Brasil poderia ter tido melhor fortuna com as virtudes democráticas, até iluministas, dos pernambucanos. Isso para confessar que li poucas obras do maior pernambucano de todos os tempos, mas as que li me foram impactantes. Já tinha ouvido falar desse sociólogo – a profissão que escolhi para mim desde o colegial – bem antes de ingressar no curso de Ciências Sociais da USP, na famosa Fefelech, de mudança da Maria Antônia para os barracões da Cidade Universitária, quando prestei vestibular para ingressar na USP, no segundo semestre de 1968, pouco antes do fatídico AI-5, que acabou aposentando justos os meus professores da Escola Paulista de Sociologia, quando eu recém comecei no curso, ao início de 1969: sofreram a raiva dos gorilas da ditadura militar Florestan Fernandes (o mais perigoso de todos), Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, ademais de muitos outros mestres de outros cursos e especialidades. Só fui ler Gilberto Freyre no exílio, a partir de 1971, já inscrito no curso de Ciências Sociais da Universidade Livre de Bruxelas.
        Encontrei, na biblioteca do Instituto de Sociologia – onde passei meses, anos inteiros – a versão francesa de Casa Grande e Senzala, na tradução do brasilianista Roger Bastide (que tinha dado aulas na USP, livro publicado em 1952 sob o título de Maîtres et esclaves. Também li, em francês, pela primeira vez, na mesma biblioteca, Os Sertões, de Euclides da Cunha, traduzido como Hautes terres: la guerre de Canudos. O livro de Gilberto Freyre foi muito mais agradável na leitura, e na descrição dos modos de vida, costumes do Brasil colonial, do que a prosa rebarbativa de Euclides, um livro difícil e chato de ler, no seu cientificismo duvidoso e nos comentários militares. Como sociólogo aprendiz, li e gostei muito de um dos livros de Gilberto Freyre editado pela Universidade de Brasília, isso quando eu já tinha me mudado para a capital, quando vim em 1977, ao me tornar diplomata de carreira: Como e porque sou e não sou sociólogo (Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1968).
        Gostei tanto do livro, e da postura do sociólogo pernambucano, que adotei o modelo do mestre dos mestres da minha disciplina de formação que, ao compilar diversos escritos de natureza política e reuni-los para um livro em torno da transição política de 2002-2003, já pronto bem antes do final de 2002, mas só publicado no final do ano, com data de 2003. O prefácio já estava escrito desde meados de 2002, como registrado em minha ficha, abaixo reproduzida, e que dá a partida a meus poucos escritos “freyreanos” (embora eu tenha lido bem mais coisas dele e sobre ele do que escrevi a respeito do grande intelectual, em parte combatido pela Escola Paulista de Sociologia pela sua adesão ao tropicalismo salazarista, pela sua suposta tese sobre a “democracia racial” do Brasil).
        Vou, portanto, simplesmente coletar os poucos trabalhos que mencionam, explicitamente, o nome do sociólogo pernambucano no título, embora existam diversos outros trabalhos de história ou de sociologia, em francês ou em português, nos quais eu me referi às ideias e contribuições do mestre de Apipucos (solar que visitei numa de minhas idas ao Recife, preservado como ele o deixou), inclusive por ter uma grande admiração pela sua postura de intelectual rebelde, nunca enquadrado por nenhuma instituição – acadêmica ou outra –, sempre original e livre em seus métodos de trabalho e em sua atração por questões fora do habitual costumeiro.                     Nessa admiração pelo mestre sou ultrapassado em muitas léguas por meu amigo e colega André Heráclio do Rêgo, historiador e diplomata (nessa ordem, como eu sou sociólogo e diplomata), que conhece profundamente a vida e a obra do seu conterrâneo de sete instrumentos disciplinares.
        Aliás, além de meu prefácio “gilbertiano”, os poucos trabalhos registrados na pequena lista abaixo se referem na verdade à produção de André, com quem também compartilho uma grande admiração intelectual por outro historiador pernambucano, e diplomata como nós dois (mas muito maior): Oliveira Lima (a quem dediquei muitos trabalhos, inclusive um livro com o André, sobre o Historiador das Américas (2017).
        Alinho primeiro as minhas fichas, depois transcrevo o teor do desses trabalhos, apenas para consolidar meu lado “freyreano”.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5281: 15 abril 2026, 3 p. (introdução)

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Listagem dos trabalhos:

918. “Como e Por quê Sou e Não Sou Diplomata: (à maneira de Gilberto Freyre)”, Washington, 4 julho 2002, 2+6 p. Introdução, baseada no prefácio elaborado pelo escritor Gilberto Freyre para o seu livro Como e porque sou e não sou sociólogo (Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1968), a um volume de ensaios concebido como compilação de textos de caráter pessoal e institucional. Seguida de Posfácio (ou addendum): “O que sou, então?”, onde resumo o sentido de minha “antidiplomacia” e meu caráter de “escrevinhador” político. Texto revisto em 8 de julho e incorporado como prefácio e posfácio ao livro (trabalhos n. 976) A Grande Mudança: consequências econômicas da mudança política no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003, ISBN: 85-7594-005-8). Relação de Publicados n. 399.

4436. “Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração”, Brasília, 16 julho 2023, 4 p. Apresentação ao livro de André Heráclio do Rêgo: Entre o Império e a República: o século XIX na obra de Gilberto Freyre. Revisto em 17/07/2023. Publicado na obra de André Heráclio do Rêgo: Entre o Império e a República: o século XIX na obra de Gilberto Freyre (Brasília: Senado Federal, 2025, p. 11-12; ISBN: 978-65-5676-616-4). Divulgado no blog Diplomatizzando (5/06/2025; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/06/gilberto-freyre-um-intelectual-na-longa.html). Relação de Publicados n. 1577.

4915. “Gilberto Freyre, um escritor; Paulo Roberto de Almeida, um escrevinhador”, Brasília, 3 maio 2025, 3 p. Transcrição de parte de meu prefácio ao livro A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil (2003). Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/05/gilberto-freyre-sobre-ele-mesmo-um.html).

5108. “Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil”, Brasília, 8 novembro 2025, 6 p. Prefácio ao livro de André Heráclio do Rêgo: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026; ISBN: 978-65-5252-277-1; p. 7-15). Relação de Publicados n. 1623.

Ler os trabalhos neste link:
https://www.academia.edu/165703160/5281_Eu_e_Gilberto_Freyre_ou_Gilberto_Freyre_e_este_modesto_sociologo_2026_ ou aqui:

O Livro do Nordeste II - André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar; capítulo de Paulo Roberto de Almeida


Livro do Nordeste II

Participei, em 2025, com um capítulo no Livro do Nordeste II, uma homenagem aos 200 anos de vida do mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, o Diário de Pernambuco, fundado em 1825, um ano e meio depois da revolução de 1824.

Um primeiro Livro do Nordeste, em 1925, aos cem anos do Diário, tinha um artigo de Oliveira Lima, discorrendo sobre as relações internacionais do Brasil de 1825 a 1925. Tive a honra de ser convidado pelo meu colega historiador, diplomata e editor, André Heráclio do Rêgo, a fazer o mesmo que Oliveira Lima, escrevendo sobre as relações internacionais do Brasil de 1925 a 2025, conforme este registro:

1615. “Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025”, in: André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025, p. 141-157; ISBN: 978-85-5726-003-0).
Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/164473055/4840_Um_seculo_de_relacoes_internacionais_do_Brasil_1925_2025 ) e no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/um-seculo-de-relacoes-internacionais-do_7.html ). Relação de Originais n. 4840.

Livro do Nordeste II

organização André Heráclio do Rêgo , Múcio Aguiar.

1. ed. -- Recife, PE: AIP, 2025; ISBN 978-85-5726-003-0

O indice é o seguinte:

INTRODUÇÃO, 9
O CENTENÁRIO DE UM DIÁRIO AMERICANO, 21
DIARIO DE PERNAMBUCO: UM JORNAL COMO ESPAÇO DE LIBERDADE, 27
O DIARIO DE PERNAMBUCO: UM LEGADO E SUA RELEVÂNCIA HISTÓRICA, 33
UM SÉCULO DE JORNALISMO EM PERNAMBUCO, 41
UM SÉCULO DE VIDA LITERÁRIA EM PERNAMBUCO, 53
O SUPLEMENTO LITERÁRIO DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 63
MEMÓRIAS DE MÃOS GIGANTES, 73
GILBERTO FREYRE E O DIARIO DE PERNAMBUCO, 87
GILBERTO FREYRE, O RECIFE E OLINDA NAS PÁGINAS DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 107
DOIS PERSONAGENS DA CULTURA BRASILEIRA:
GILBERTO FREYRE E ARIANO SUASSUNA, 123
O VIGOR DAS CONVICÇÕES: BARBOSA LIMA SOBRINHO, UM NACIONALISTA, 131
CEM ANOS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO BRASIL, 1925-2025, 141
MEMÓRIA DO MUNDO, 159
O NORDESTE DE DOM PEDRO II, 171
1925–2025: UM SÉCULO DE POLÍTICA NO NORDESTE, 187
OS “SANTOS” DO NORDESTE NAS PÁGINAS DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 209
SECAS E DESERTIFICAÇÃO, 221
SABORES DO NORDESTE, 237
OS NOVOS MASCATES, 259
COMPLEXO INDUSTRIAL PORTUÁRIO DE SUAPE: O HUB LOGÍSTICO NO NORDESTE BRASILEIRO, 271


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025 (in Livro do Nordeste II) - Paulo Roberto de Almeida

 


1615. “Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025”, in: André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025, p. 141-157; ISBN: 978-85-5726-003-0). Relação de Originais n. 4840.

My contribution to the work organized by André Heráclio do Rego and Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025), dealing with the international relations of Brazil from 1925 to 2025, in praise of the 200th anniversary of Diário de Pernambuco, a continuity to a related chapter written by the famous Brazilian historian Oliveira Lima, for the first 100 years of continuous publication of the oldest newspaper in Brazil (and probably in Latin America), 1925.

Texto integral disponível neste arquivo de Academia.edu:
https://www.academia.edu/164473055/4840_Um_seculo_de_relacoes_internacionais_do_Brasil_1925_2025





terça-feira, 11 de novembro de 2025

Cumprimentos ao Diário de Pernambuco, o mais antigo do Brasil, talvez da América Latina, Livro Nordeste, II - Paulo Roberto de Almeida

Cumprimentos ao Diário de Pernambuco, o mais antigo do Brasil, talvez da América Latina.

O Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal em circulação no Brasil, acaba de completar 200 anos.
No seu primeiro centenário, em 1925, o jovem sociólogo Gilberto Freyre organizou um livro comemorativo, Livro do Nordeste. Nele, o já maduro historiador Oliveira Lima, então já residente em Washington, onde era professor da Catholic University of America, escreveu um artigo sobre as relações internacionais do Brasil de 1825 (um ano após a Confederação do Equador) a 1925, concentrando-se mais no Império e um pouco na gestão Rio Branco, na segunda década da República. Oliveira Lima, que no Império era republicano, e que ingressou na diplomacia no início da República (aliás, até "empurrado" pelo presidente Floriano Peixoto), tinha se tornado monarquista a partir do Marechal Hermes da Fonseca, uma mula fardada, e saiu da carreira diplomática logo em 1913, entregando sua fabulosa biblioteca para a universidade americana.
Fui convidado pelo já maduro sociólogo e historiador André Heráclio do Rego, que organizou um segundo Livro do Nordeste, no segundo centenário de vida do Diário de Pernambuco, a escrever, como Oliveira Lima, um ensaio sobre os cem últimos anos das relações internacionais do Brasil.
Fiz o encomendado em diversas versões.
Apresento aqui o início da primeira versão, depois cortada da versão definitiva (ainda não publicada), que se limita ao estritamente pedido, isto é, as relações internacionais do Brasil de 1925 a 2025.

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Colaboração a livro comemorativo do Bicentenário do Diário de Pernambuco.
Organização: André Heráclio do Rego e Múcio Aguiar.

Sumário:
1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província
2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática
3. A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria
4. O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente
5. O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la
6. A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar
7. As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica

1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província
O ano em que o Diário de Pernambuco foi fundado, 1825, começou com o fuzilamento – à falta de verdugos que se dispusessem a enforcá-lo – do mais importante revolucionário da Confederação do Equador, Frei Caneca, o autor intelectual das posições ilustradas defendidas por um movimento que já vinha da insurreição independentista de 1817 e que se prolongou na mais consistente tentativa, em 1824, de fundar o novo Estado brasileiro em bases institucionais mais amplamente democráticas, federais, do que a monarquia unitária que se instalou sob a mesma dinastia que vinha explorando a maior colônia portuguesa desde a Restauração do Reino, no século XVII, e que continuava controlando-a desde a instalação da corte no Rio de Janeiro e sob o Reino Unido.
O ano também contemplou, em agosto, o tratado bilateral entre o Império do Brasil e o Reino de Portugal, que consolidou, não exatamente a independência, que já estava assegurada formalmente desde 1822 – na prática desde muito antes, como sugere Barbosa Lima Sobrinho, ao examinar a trajetória do Correio Braziliense, de Hipólito da Costa –, mas o reconhecimento do novo Estado pelas demais monarquias europeias, um processo que já tinha começado nas Américas dois anos antes, e até mesmo por um reino africano, como relatou o embaixador Alberto da Costa e Silva.
O ano também assistiu, em novembro, à fundação do Diário de Pernambuco, que passaria a seguir, a partir de então, os assuntos relevantes da província, do Brasil e do mundo no decorrer dos cem anos seguintes. Segundo os relatos historiográficos, o Diário relatou os episódios mais salientes da Revolução Praieira de 1848 e, na década seguinte, assumiu uma nítida postura abolicionista, anos à frente da resiliência escravagista em outras províncias: obviamente, se congratulou com a Lei Áurea, assim como se alinhou com o novo regime no ano seguinte à abolição. Seu primeiro centenário foi devidamente comemorado com a publicação do Livro do Nordeste, coordenado por um jovem sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre, recém retornado ao Brasil depois de vários anos de estudos nos Estados Unidos e na Europa. Ele tinha começado a colaborar com o Diário desde antes da Grande Guerra, e se manteve como articulista até sua morte, em 1986. Pouco mais de dez anos após estrear como colunista, Freyre foi naturalmente escolhido para coordenar as contribuições preparadas para o Livro do Nordeste, e naturalmente convidou quem já era o principal historiador diplomático do país para relatar os feitos internacionais ocorridos até então.
Manuel de Oliveira Lima, então professor na Catholic University of America, em Washington, assinou o capítulo intitulado “Um século de relações internacionais (1825-1925” (p. 9-10), examinando a trajetória exterior do Brasil no decorrer dos primeiros cem anos de vida do jornal. O grande historiador pernambucano destaca os três grandes objetivos do país em sua política externa no século transcorrido desde 1825:
... fixar as fronteiras com as nações herdeiras do domínio espanhol; salvar a economia de um golpe que se julgava de morte, vibrado pela abolição da instituição servil; sustentar a hegemonia no Prata, obstando a formação de outro império na costa oriental da América, para isso zelando um equilíbrio que n’outra face representava um desequilíbrio. (p. 9)

As fronteiras, escreveu ele, foram definitivamente assentadas já na República, “pela erudição e habilidade do Barão do Rio Branco, mas ampararam a sua especial competência a firmeza da diplomacia imperial e a segurança da anterior diplomacia portuguesa” (idem). Ele reconhece a política de intervenção platina – “o que lhe deu uma feição imperialista e provocou as duas guerras externas em que o Brasil se envolveu” –, mas entendia que “o maior erro diplomático do Império foi querer embargar o movimento centrípeto platino”, ou seja, a reconstituição do Vice-Reinado do Rio da Prata, sob o controle de Buenos Aires, ao mesmo tempo em que pretendia exercer sobre a Banda Oriental um “virtual protetorado”. Na questão da escravidão, Oliveira Lima entende que o império não foi muito efetivo na frente externa, “atraindo os raios britânicos do Bill Aberdeen”, mas que soube bem se conduzir na frente interna, levando o doloroso problema “gradualmente a cabo de modo ordeiro, honroso e modelar”, chegando mesmo a afirmar que, na questão abolicionista, “nunca contamos com partidários decididos da escravidão”. Termina por se referir aos principais casos diplomáticos das primeiras três décadas da República, celebrando a cordialidade da relação com os EUA.
(...)
2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática
3. A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria
4. O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente
5. O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la
6. A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar
7. As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica
(a ser publicado no segundo Livro do Nordeste)

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de novembro de 2025

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Diario de Pernambuco, 200 anos: 1825-2025 - Livro do Nordeste II, André Heráclio do Rego, Mucio Aguiar (orgs.) - Paulo Roberto de Almeida

 Recebi o honroso convite que agora reproduzo, para minha participação no Livro do Nordeste II, comemorativo dos 200 anos do mais antigo jornal da América Latina, o glorioso Diário de Pernambuco, cujo primeiro centenário foi comemorado cem anos atrás, em 1925, com o Livro do Nordeste, coordenado pelo então jovem sociólogo Gilberto Freyre, colaborador do jornal desde 1913 até sua morte, em 1987.



Minha colaboração já está escrita, mas estou revisando o texto, do qual reproduzo apenas o esquema das seções: 

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Colaboração a livro comemorativo do Bicentenário do Diário de Pernambuco.

Organização: André Heráclio do Rego e Múcio Aguiar.

 

Sumário: 

Prolegômeno: a persistência de uma folha de província

A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática

A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria

O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente

O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la

A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar

As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica




terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Relações internacionais do Brasil: 1825-1925, Oliveira Lima; 1925-2025, Paulo Roberto de Almeida (Diário de Pernambuco, 1825-2025)

Relações internacionais do Brasil: 1825-1925, Oliveira Lima; 1925-2025, Paulo Roberto de Almeida (Diário de Pernambuco, 1825-2025)


         Acima a primeira página da colaboracão do historiador, acadêmico, professor na Catholic University of America, Oliveira Lima, sobre um século de relações internacionais do Brasil, no Livro do Nordeste, organizado pelo jovem sociólogo Gilberto Freyre para o Diário de Pernambuco, em comemoração dos primeiros cem anos de existência (e resistência) desse valente jornal pernambucano, de alcance regional.
        Fui encarregado, pelo meu amigo, colega diplomata e historiador André Heráclio do Rego de redigir a continuidade dessa colaboração, cobrindo os 100 anos seguintes, ou seja, as relações internacionais do Brasil entre 1925 e 2025, para comemorar o segundo centenário do Diário de Pernambuco.
        Já comecei a trabalhar, e a primeira coisa que fiz, foi conferir, na publicação original, como tinha sido a colaboração de meu ilustre colega do Itamaraty, já entrado no MRE, mas que tratou em grande medida da diplomacia da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros. Meu esquema e o início do trabalho seguem abaixo.

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Colaboração a livro comemorativo do Bicentenário do Diário de Pernambuco.

Org. André Heráclio do Rego e Múcio Aguiar.

  

Sumário: 

1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província

2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática

3. A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria

4. O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente

5. O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la

6. A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar

7. As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica

 

 

1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província

        O ano em que o Diário de Pernambuco foi fundado, 1825, começou com o fuzilamento – à falta de verdugos que se dispusessem a enforcá-lo – do mais importante revolucionário da Confederação do Equador, Frei Caneca, o autor intelectual das posições ilustradas defendidas por um movimento que já vinha da insurreição independentista de 1817 e que se prolongou na mais consistente tentativa, em 1824, de fundar o novo Estado brasileiro em bases institucionais mais amplamente democráticas, federais, do que a monarquia unitária que se instalou sob a mesma dinastia que vinha explorando a maior colônia portuguesa desde a Restauração do Reino, no século XVII, e que continuava controlando-a desde a instalação da corte no Rio de Janeiro e sob o Reino Unido. 

        O ano também contemplou, em agosto, o tratado bilateral entre o Império do Brasil e o Reino de Portugal, que consolidou, não exatamente a independência, que já estava assegurada formalmente desde 1822 – na prática desde muito antes, como sugere Barbosa Lima Sobrinho, ao examinar a trajetória do Correio Braziliense, de Hipólito da Costa –, mas o reconhecimento do novo Estado pelas demais monarquias europeias, um processo que já tinha começado nas Américas dois anos antes, e até mesmo por um reino africano, como relatou o embaixador Alberto da Costa e Silva. 

        O ano também assistiu, em novembro, à fundação do Diário de Pernambuco, que passaria a seguir, a partir de então, os assuntos relevantes da província, do Brasil e do mundo no decorrer dos cem anos seguintes. Segundo os relatos historiográficos, o Diário relatou os episódios mais salientes da Revolução Praieira de 1848 e, na década seguinte, assumiu uma nítida postura abolicionista, anos à frente da resiliência escravagista em outras províncias: obviamente, se congratulou com a Lei Áurea, assim como se alinhou com o novo regime no ano seguinte à abolição. Seu primeiro centenário foi devidamente comemorado com a publicação do Livro do Nordeste, coordenado por um jovem sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre, recém retornado ao Brasil depois de vários anos de estudos nos Estados Unidos e na Europa.         Ele tinha começado a colaborar com o Diário desde antes da Grande Guerra, e se manteve como articulista até sua morte, em 1986. Pouco mais de dez anos após estrear como colunista, Freyre foi naturalmente escolhido para coordenar as contribuições preparadas para o Livro do Nordeste, e naturalmente convidou quem já era o principal historiador diplomático do país para relatar os feitos internacionais ocorridos até então.

        Manuel de Oliveira Lima, então professor na Catholic University of America, em Washington, assinou o capítulo intitulado “Um século de relações internacionais (1825-1925” (p. 9-10), examinando a trajetória exterior do Brasil no decorrer dos primeiros cem anos de vida do jornal. O grande historiador pernambucano destaca os três grandes objetivos do país em sua política externa no século transcorrido desde 1825:

        ... fixar as fronteiras com as nações herdeiras do domínio espanhol; salvar a economia de um golpe que se julgava de morte, vibrado pela abolição da instituição servil; sustentar a hegemonia no Prata, obstando a formação de outro império na costa oriental da América, para isso zelando um equilíbrio que n’outra face representava um desequilíbrio. (p. 9)

 

        As fronteiras, escreveu ele, foram definitivamente assentadas já na República, “pela erudição e habilidade do Barão do Rio Branco, mas ampararam a sua especial competência a firmeza da diplomacia imperial e a segurança da anterior diplomacia portuguesa” (idem). Ele reconhece a política de intervenção platina – “o que lhe deu uma feição imperialista e provocou as duas guerras externas em que o Brasil se envolveu” –, mas entendia que “o maior erro diplomático do Império foi querer embargar o movimento centrípeto platino”, ou seja, a reconstituição do Vice-Reinado do Rio da Prata, sob o controle de Buenos Aires, ao mesmo tempo em que pretendia exercer sobre a Banda Oriental um “virtual protetorado”. Na questão da escravidão, Oliveira Lima entende que o império não foi muito efetivo na frente externa, “atraindo os raios britânicos do Bill Aberdeen”, mas que soube bem se conduzir na frente interna, levando o doloroso problema “gradualmente a cabo de modo ordeiro, honroso e modelar”, chegando mesmo a afirmar que, na questão abolicionista, “nunca contamos com partidários decididos da escravidão”. Termina por se referir aos principais casos diplomáticos das primeiras três décadas da República, celebrando a cordialidade da relação com os EUA.

 

2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática

(...)



terça-feira, 25 de junho de 2024

Confederação do Equador, 200 anos, 1824-2024 - Seminário Comemorativo, IHGs de PE e CE

 Meu amigo e colega André Heráclio do Rego vai participar.


 

A Confederação do Equador como primeira revolução

constitucionalista do Brasil.

André Heráclio do Rêgo (IAGHP/IHGB).



segunda-feira, 17 de julho de 2023

Um livro em preparação: Gilberto Freyre sobre o longo século XIX, de André Heráclio do Rego - Prefácio de Paulo Roberto de Almeida

Acabo de colocar um ponto final no meu prefácio a este livro de meu colega e amigo, historiador pernambucano André Heráclio do Rego, do qual transcrevo apenas os primeiros parágrafos. O restante virá quando o livro for publicado...

Paulo Roberto de Almeida

ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA

O SÉCULO XIX NA OBRA DE GILBERTO FREYRE

André Heráclio do Rêgo

            (Edição de Autor)


ÍNDICE

 Prefácio: Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração, 5

       Paulo Roberto de Almeida                                                                                

Introdução, 11

Capítulo 1 – O Movimento da Independência, 33

Capítulo 2 – O processo revolucionário,  51

Capítulo 3 – As singularidades da Monarquia,  83

Capítulo 4 - Monarquia e República: continuidade e ruptura,  97

Capítulo 5 – O Império e a unidade nacional,  117

Capítulo 6 – O Oriente no Novo Mundo. Os três primeiros séculos da formação brasileira, 129

Capítulo 7 – Oriente X Ocidente: a Monarquia e a reeuropeização do Brasil no século XIX, 139

Considerações e sugestões,  149

Obras de Gilberto Freyre utilizadas,  163

Referências bibliográficas, 167 


Prefácio

Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração

 

O presente livro de André Heráclio do Rêgo constitui um notável esforço de síntese interpretativa sobre um dos autores mais fecundos do pensamento social brasileiro. Junto com Manoel de Oliveira Lima e Manoel Bomfim, Gilberto Freyre foi um dos primeiros historiadores sociais do Brasil. Na verdade, ele foi bem mais do que isso: antropólogo de formação, tendo estudado com Franz Boas, na Universidade de Columbia (NY), ele veio a empreender um levantamento da cultura material e humana do Brasil colonial e imperial, compreendendo não apenas a sua análise da Casa Grande e [da] Senzala, o título de sua primeira grande obra (1933), como também tratou amplamente da miscigenação geral do povo brasileiro a partir de suas fontes étnicas, dos aportes estrangeiros à cultura material e espiritual, assim como da lenta emergência, a partir da sociedade patriarcal, de formações urbanas ao longo da costa atlântica e no interior próximo, tal como refletida em Sobrados e Mucambos (1936) e no seu outro clássico, Ordem e Progresso (1959). O extenso subtítulo dessa terceira grande obra, em 2 volumes, revela, aliás, a extensão de seu trabalho analítico: “Processo de desintegração da sociedade patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da Monarquia para a República”. 

Gilberto Freyre antecipou, de certa forma, a famosa escola francesa dos Annales, com sua forte ênfase no cotidiano das famílias, nos costumes do povinho miúdo, na alimentação e nas técnicas do trabalho humano. Mais de um acadêmico francês em estágio universitário no Brasil dos anos 1930 e 40, na recém fundada Universidade de São Paulo por exemplo, se declarou pronto a reconhecer certa dívida interpretativa em relação ao “mestre de Apipucos”, sua residência e escritório de trabalho no Recife senhorial. Os métodos e os grandes temas da nova historiografia francesa, em pleno florescimento nos anos seguintes à Segunda Guerra, já estavam presentes na obra de Freyre desde duas décadas antes, como facilmente constatável.

(...)

Segue por 3 páginas...


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Três livros de pernambucanos ilustres: Oliveira Lima, Gilberto Freyre, André Heráclio do Rego, George Cabral de Souza

Em lançamento em Brasília, com a presença dos dois organizadores,  André Heráclio do Rego, George Cabral de Souza

Um grande historiador, um grande antropólogo, três livros que recuperam explicações essenciais de nossa formação histórica. Lançamento em Brasília, na Livraria Travessa, dia 7/12:














Postagem em destaque

Livro do Nordeste II, organizado por André Heráclio e Mucio Aguiar: 200 anos do Diario de Pernambuco

Artigo de Andre Heráclio do Rego, sobre os 200 anos do Diário de Pernambuco e a publicação do livro que ele organizou: Livro do Nordeste I...