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quarta-feira, 15 de abril de 2026

Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo - Paulo Roberto de Almeida


5281. “Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo”, Brasília, 15 abril 2026, 3 p. (Introdução). Consolidação de meus escritos em torno do grande antropólogo e sociólogo pernambucano. Introdução e transcrição dos trabalhos n. 918, 4436, 4915 e 5108. Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165703160/5281_Eu_e_Gilberto_Freyre_ou_Gilberto_Freyre_e_este_modesto_sociologo_2026_ ); divulgado via blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/eu-e-gilberto-freyre-ou-gilberto-freyre.html).


Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo

Paulo Roberto de Almeida, diplomata e professor.
Consolidação de meus escritos em torno do grande sociólogo pernambucano.

        Não sou pernambucano, mas paulistano, mas conhecendo a história do Brasil, e o papel que nela tiveram os pernambucanos, desde a invasão holandesa nas costas do Nordeste, no século XVII – positiva em alguns aspectos, mas se tivesse continuado a dominação da Companhia das Índias Ocidentais holandesas sobre aquelas bandas do Brasil, o país nordestino assim recortado estaria bem mais parecido com o Suriname de hoje do que com os Países Baixos europeus –, passando pela insurreição de 1817 e pelas revoluções de 1824 e de 1848-49, não tenho dúvidas em afirmar que a nação resultante desses precoces impulsos republicanos e federalistas poderia ter evoluído numa direção bem mais interessante, do ponto de vista econômico, social e político, do que o Império escravocrata do século XIX e a República oligárquica do século XX, embora tudo isso seja mera especulação e não uma história do tipo contrafatual.
        Também acho que se o Brasil imperial e republicano, tivesse sido mais paulista do que baiano (a maioria dos presidentes dos gabinetes do Império), ou mineiro (onde esteve a riqueza no século XVIII, onde estalou a revolta contra os colonizadores, em 1789), ou carioca (ou melhor, com o poder concentrado nas elites encasteladas na capital do país de 1763 até 1960), talvez a nação pudesse ter se desenvolvido de uma forma mais compatível com os requerimentos de uma população mestiça e deseducada. Reconheço que os barões do café e os oligarcas políticos do final do Império e do início da República, inclusive seus primeiros presidentes, foram, em certa medida paulistas, que combinaram a espúria aliança do “café com leite” com mineiros e cariocas nos primeiros anos do novo regime para deixar o Brasil parado no tempo, até chegarem os gaúchos castilhistas e autoritários da era Vargas, no breve período de 1930 a 1945 (e depois voltaram para mais alguns anos).
        Bem, todo esse regionalismo déplacé apenas para dizer que, sinceramente, eu acho, por pura imaginação especulativa, que o Brasil poderia ter tido melhor fortuna com as virtudes democráticas, até iluministas, dos pernambucanos. Isso para confessar que li poucas obras do maior pernambucano de todos os tempos, mas as que li me foram impactantes. Já tinha ouvido falar desse sociólogo – a profissão que escolhi para mim desde o colegial – bem antes de ingressar no curso de Ciências Sociais da USP, na famosa Fefelech, de mudança da Maria Antônia para os barracões da Cidade Universitária, quando prestei vestibular para ingressar na USP, no segundo semestre de 1968, pouco antes do fatídico AI-5, que acabou aposentando justos os meus professores da Escola Paulista de Sociologia, quando eu recém comecei no curso, ao início de 1969: sofreram a raiva dos gorilas da ditadura militar Florestan Fernandes (o mais perigoso de todos), Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, ademais de muitos outros mestres de outros cursos e especialidades. Só fui ler Gilberto Freyre no exílio, a partir de 1971, já inscrito no curso de Ciências Sociais da Universidade Livre de Bruxelas.
        Encontrei, na biblioteca do Instituto de Sociologia – onde passei meses, anos inteiros – a versão francesa de Casa Grande e Senzala, na tradução do brasilianista Roger Bastide (que tinha dado aulas na USP, livro publicado em 1952 sob o título de Maîtres et esclaves. Também li, em francês, pela primeira vez, na mesma biblioteca, Os Sertões, de Euclides da Cunha, traduzido como Hautes terres: la guerre de Canudos. O livro de Gilberto Freyre foi muito mais agradável na leitura, e na descrição dos modos de vida, costumes do Brasil colonial, do que a prosa rebarbativa de Euclides, um livro difícil e chato de ler, no seu cientificismo duvidoso e nos comentários militares. Como sociólogo aprendiz, li e gostei muito de um dos livros de Gilberto Freyre editado pela Universidade de Brasília, isso quando eu já tinha me mudado para a capital, quando vim em 1977, ao me tornar diplomata de carreira: Como e porque sou e não sou sociólogo (Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1968).
        Gostei tanto do livro, e da postura do sociólogo pernambucano, que adotei o modelo do mestre dos mestres da minha disciplina de formação que, ao compilar diversos escritos de natureza política e reuni-los para um livro em torno da transição política de 2002-2003, já pronto bem antes do final de 2002, mas só publicado no final do ano, com data de 2003. O prefácio já estava escrito desde meados de 2002, como registrado em minha ficha, abaixo reproduzida, e que dá a partida a meus poucos escritos “freyreanos” (embora eu tenha lido bem mais coisas dele e sobre ele do que escrevi a respeito do grande intelectual, em parte combatido pela Escola Paulista de Sociologia pela sua adesão ao tropicalismo salazarista, pela sua suposta tese sobre a “democracia racial” do Brasil).
        Vou, portanto, simplesmente coletar os poucos trabalhos que mencionam, explicitamente, o nome do sociólogo pernambucano no título, embora existam diversos outros trabalhos de história ou de sociologia, em francês ou em português, nos quais eu me referi às ideias e contribuições do mestre de Apipucos (solar que visitei numa de minhas idas ao Recife, preservado como ele o deixou), inclusive por ter uma grande admiração pela sua postura de intelectual rebelde, nunca enquadrado por nenhuma instituição – acadêmica ou outra –, sempre original e livre em seus métodos de trabalho e em sua atração por questões fora do habitual costumeiro.                     Nessa admiração pelo mestre sou ultrapassado em muitas léguas por meu amigo e colega André Heráclio do Rêgo, historiador e diplomata (nessa ordem, como eu sou sociólogo e diplomata), que conhece profundamente a vida e a obra do seu conterrâneo de sete instrumentos disciplinares.
        Aliás, além de meu prefácio “gilbertiano”, os poucos trabalhos registrados na pequena lista abaixo se referem na verdade à produção de André, com quem também compartilho uma grande admiração intelectual por outro historiador pernambucano, e diplomata como nós dois (mas muito maior): Oliveira Lima (a quem dediquei muitos trabalhos, inclusive um livro com o André, sobre o Historiador das Américas (2017).
        Alinho primeiro as minhas fichas, depois transcrevo o teor do desses trabalhos, apenas para consolidar meu lado “freyreano”.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5281: 15 abril 2026, 3 p. (introdução)

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Listagem dos trabalhos:

918. “Como e Por quê Sou e Não Sou Diplomata: (à maneira de Gilberto Freyre)”, Washington, 4 julho 2002, 2+6 p. Introdução, baseada no prefácio elaborado pelo escritor Gilberto Freyre para o seu livro Como e porque sou e não sou sociólogo (Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1968), a um volume de ensaios concebido como compilação de textos de caráter pessoal e institucional. Seguida de Posfácio (ou addendum): “O que sou, então?”, onde resumo o sentido de minha “antidiplomacia” e meu caráter de “escrevinhador” político. Texto revisto em 8 de julho e incorporado como prefácio e posfácio ao livro (trabalhos n. 976) A Grande Mudança: consequências econômicas da mudança política no Brasil (São Paulo: Editora Códex, 2003, ISBN: 85-7594-005-8). Relação de Publicados n. 399.

4436. “Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração”, Brasília, 16 julho 2023, 4 p. Apresentação ao livro de André Heráclio do Rêgo: Entre o Império e a República: o século XIX na obra de Gilberto Freyre. Revisto em 17/07/2023. Publicado na obra de André Heráclio do Rêgo: Entre o Império e a República: o século XIX na obra de Gilberto Freyre (Brasília: Senado Federal, 2025, p. 11-12; ISBN: 978-65-5676-616-4). Divulgado no blog Diplomatizzando (5/06/2025; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/06/gilberto-freyre-um-intelectual-na-longa.html). Relação de Publicados n. 1577.

4915. “Gilberto Freyre, um escritor; Paulo Roberto de Almeida, um escrevinhador”, Brasília, 3 maio 2025, 3 p. Transcrição de parte de meu prefácio ao livro A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil (2003). Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/05/gilberto-freyre-sobre-ele-mesmo-um.html).

5108. “Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil”, Brasília, 8 novembro 2025, 6 p. Prefácio ao livro de André Heráclio do Rêgo: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026; ISBN: 978-65-5252-277-1; p. 7-15). Relação de Publicados n. 1623.

Ler os trabalhos neste link:
https://www.academia.edu/165703160/5281_Eu_e_Gilberto_Freyre_ou_Gilberto_Freyre_e_este_modesto_sociologo_2026_ ou aqui:

O Livro do Nordeste II - André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar; capítulo de Paulo Roberto de Almeida


Livro do Nordeste II

Participei, em 2025, com um capítulo no Livro do Nordeste II, uma homenagem aos 200 anos de vida do mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, o Diário de Pernambuco, fundado em 1825, um ano e meio depois da revolução de 1824.

Um primeiro Livro do Nordeste, em 1925, aos cem anos do Diário, tinha um artigo de Oliveira Lima, discorrendo sobre as relações internacionais do Brasil de 1825 a 1925. Tive a honra de ser convidado pelo meu colega historiador, diplomata e editor, André Heráclio do Rêgo, a fazer o mesmo que Oliveira Lima, escrevendo sobre as relações internacionais do Brasil de 1925 a 2025, conforme este registro:

1615. “Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025”, in: André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025, p. 141-157; ISBN: 978-85-5726-003-0).
Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/164473055/4840_Um_seculo_de_relacoes_internacionais_do_Brasil_1925_2025 ) e no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/um-seculo-de-relacoes-internacionais-do_7.html ). Relação de Originais n. 4840.

Livro do Nordeste II

organização André Heráclio do Rêgo , Múcio Aguiar.

1. ed. -- Recife, PE: AIP, 2025; ISBN 978-85-5726-003-0

O indice é o seguinte:

INTRODUÇÃO, 9
O CENTENÁRIO DE UM DIÁRIO AMERICANO, 21
DIARIO DE PERNAMBUCO: UM JORNAL COMO ESPAÇO DE LIBERDADE, 27
O DIARIO DE PERNAMBUCO: UM LEGADO E SUA RELEVÂNCIA HISTÓRICA, 33
UM SÉCULO DE JORNALISMO EM PERNAMBUCO, 41
UM SÉCULO DE VIDA LITERÁRIA EM PERNAMBUCO, 53
O SUPLEMENTO LITERÁRIO DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 63
MEMÓRIAS DE MÃOS GIGANTES, 73
GILBERTO FREYRE E O DIARIO DE PERNAMBUCO, 87
GILBERTO FREYRE, O RECIFE E OLINDA NAS PÁGINAS DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 107
DOIS PERSONAGENS DA CULTURA BRASILEIRA:
GILBERTO FREYRE E ARIANO SUASSUNA, 123
O VIGOR DAS CONVICÇÕES: BARBOSA LIMA SOBRINHO, UM NACIONALISTA, 131
CEM ANOS DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO BRASIL, 1925-2025, 141
MEMÓRIA DO MUNDO, 159
O NORDESTE DE DOM PEDRO II, 171
1925–2025: UM SÉCULO DE POLÍTICA NO NORDESTE, 187
OS “SANTOS” DO NORDESTE NAS PÁGINAS DO DIARIO DE PERNAMBUCO, 209
SECAS E DESERTIFICAÇÃO, 221
SABORES DO NORDESTE, 237
OS NOVOS MASCATES, 259
COMPLEXO INDUSTRIAL PORTUÁRIO DE SUAPE: O HUB LOGÍSTICO NO NORDESTE BRASILEIRO, 271


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025 (in Livro do Nordeste II) - Paulo Roberto de Almeida

 


1615. “Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025”, in: André Heráclio do Rego e Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025, p. 141-157; ISBN: 978-85-5726-003-0). Relação de Originais n. 4840.

My contribution to the work organized by André Heráclio do Rego and Mucio Aguiar (orgs.), Livro do Nordeste II (Recife, PE: Associação da Imprensa de Pernambuco, 2025), dealing with the international relations of Brazil from 1925 to 2025, in praise of the 200th anniversary of Diário de Pernambuco, a continuity to a related chapter written by the famous Brazilian historian Oliveira Lima, for the first 100 years of continuous publication of the oldest newspaper in Brazil (and probably in Latin America), 1925.

Texto integral disponível neste arquivo de Academia.edu:
https://www.academia.edu/164473055/4840_Um_seculo_de_relacoes_internacionais_do_Brasil_1925_2025





terça-feira, 11 de novembro de 2025

Cumprimentos ao Diário de Pernambuco, o mais antigo do Brasil, talvez da América Latina, Livro Nordeste, II - Paulo Roberto de Almeida

Cumprimentos ao Diário de Pernambuco, o mais antigo do Brasil, talvez da América Latina.

O Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal em circulação no Brasil, acaba de completar 200 anos.
No seu primeiro centenário, em 1925, o jovem sociólogo Gilberto Freyre organizou um livro comemorativo, Livro do Nordeste. Nele, o já maduro historiador Oliveira Lima, então já residente em Washington, onde era professor da Catholic University of America, escreveu um artigo sobre as relações internacionais do Brasil de 1825 (um ano após a Confederação do Equador) a 1925, concentrando-se mais no Império e um pouco na gestão Rio Branco, na segunda década da República. Oliveira Lima, que no Império era republicano, e que ingressou na diplomacia no início da República (aliás, até "empurrado" pelo presidente Floriano Peixoto), tinha se tornado monarquista a partir do Marechal Hermes da Fonseca, uma mula fardada, e saiu da carreira diplomática logo em 1913, entregando sua fabulosa biblioteca para a universidade americana.
Fui convidado pelo já maduro sociólogo e historiador André Heráclio do Rego, que organizou um segundo Livro do Nordeste, no segundo centenário de vida do Diário de Pernambuco, a escrever, como Oliveira Lima, um ensaio sobre os cem últimos anos das relações internacionais do Brasil.
Fiz o encomendado em diversas versões.
Apresento aqui o início da primeira versão, depois cortada da versão definitiva (ainda não publicada), que se limita ao estritamente pedido, isto é, as relações internacionais do Brasil de 1925 a 2025.

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Colaboração a livro comemorativo do Bicentenário do Diário de Pernambuco.
Organização: André Heráclio do Rego e Múcio Aguiar.

Sumário:
1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província
2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática
3. A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria
4. O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente
5. O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la
6. A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar
7. As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica

1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província
O ano em que o Diário de Pernambuco foi fundado, 1825, começou com o fuzilamento – à falta de verdugos que se dispusessem a enforcá-lo – do mais importante revolucionário da Confederação do Equador, Frei Caneca, o autor intelectual das posições ilustradas defendidas por um movimento que já vinha da insurreição independentista de 1817 e que se prolongou na mais consistente tentativa, em 1824, de fundar o novo Estado brasileiro em bases institucionais mais amplamente democráticas, federais, do que a monarquia unitária que se instalou sob a mesma dinastia que vinha explorando a maior colônia portuguesa desde a Restauração do Reino, no século XVII, e que continuava controlando-a desde a instalação da corte no Rio de Janeiro e sob o Reino Unido.
O ano também contemplou, em agosto, o tratado bilateral entre o Império do Brasil e o Reino de Portugal, que consolidou, não exatamente a independência, que já estava assegurada formalmente desde 1822 – na prática desde muito antes, como sugere Barbosa Lima Sobrinho, ao examinar a trajetória do Correio Braziliense, de Hipólito da Costa –, mas o reconhecimento do novo Estado pelas demais monarquias europeias, um processo que já tinha começado nas Américas dois anos antes, e até mesmo por um reino africano, como relatou o embaixador Alberto da Costa e Silva.
O ano também assistiu, em novembro, à fundação do Diário de Pernambuco, que passaria a seguir, a partir de então, os assuntos relevantes da província, do Brasil e do mundo no decorrer dos cem anos seguintes. Segundo os relatos historiográficos, o Diário relatou os episódios mais salientes da Revolução Praieira de 1848 e, na década seguinte, assumiu uma nítida postura abolicionista, anos à frente da resiliência escravagista em outras províncias: obviamente, se congratulou com a Lei Áurea, assim como se alinhou com o novo regime no ano seguinte à abolição. Seu primeiro centenário foi devidamente comemorado com a publicação do Livro do Nordeste, coordenado por um jovem sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre, recém retornado ao Brasil depois de vários anos de estudos nos Estados Unidos e na Europa. Ele tinha começado a colaborar com o Diário desde antes da Grande Guerra, e se manteve como articulista até sua morte, em 1986. Pouco mais de dez anos após estrear como colunista, Freyre foi naturalmente escolhido para coordenar as contribuições preparadas para o Livro do Nordeste, e naturalmente convidou quem já era o principal historiador diplomático do país para relatar os feitos internacionais ocorridos até então.
Manuel de Oliveira Lima, então professor na Catholic University of America, em Washington, assinou o capítulo intitulado “Um século de relações internacionais (1825-1925” (p. 9-10), examinando a trajetória exterior do Brasil no decorrer dos primeiros cem anos de vida do jornal. O grande historiador pernambucano destaca os três grandes objetivos do país em sua política externa no século transcorrido desde 1825:
... fixar as fronteiras com as nações herdeiras do domínio espanhol; salvar a economia de um golpe que se julgava de morte, vibrado pela abolição da instituição servil; sustentar a hegemonia no Prata, obstando a formação de outro império na costa oriental da América, para isso zelando um equilíbrio que n’outra face representava um desequilíbrio. (p. 9)

As fronteiras, escreveu ele, foram definitivamente assentadas já na República, “pela erudição e habilidade do Barão do Rio Branco, mas ampararam a sua especial competência a firmeza da diplomacia imperial e a segurança da anterior diplomacia portuguesa” (idem). Ele reconhece a política de intervenção platina – “o que lhe deu uma feição imperialista e provocou as duas guerras externas em que o Brasil se envolveu” –, mas entendia que “o maior erro diplomático do Império foi querer embargar o movimento centrípeto platino”, ou seja, a reconstituição do Vice-Reinado do Rio da Prata, sob o controle de Buenos Aires, ao mesmo tempo em que pretendia exercer sobre a Banda Oriental um “virtual protetorado”. Na questão da escravidão, Oliveira Lima entende que o império não foi muito efetivo na frente externa, “atraindo os raios britânicos do Bill Aberdeen”, mas que soube bem se conduzir na frente interna, levando o doloroso problema “gradualmente a cabo de modo ordeiro, honroso e modelar”, chegando mesmo a afirmar que, na questão abolicionista, “nunca contamos com partidários decididos da escravidão”. Termina por se referir aos principais casos diplomáticos das primeiras três décadas da República, celebrando a cordialidade da relação com os EUA.
(...)
2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática
3. A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria
4. O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente
5. O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la
6. A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar
7. As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica
(a ser publicado no segundo Livro do Nordeste)

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11 de novembro de 2025

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Diario de Pernambuco, 200 anos: 1825-2025 - Livro do Nordeste II, André Heráclio do Rego, Mucio Aguiar (orgs.) - Paulo Roberto de Almeida

 Recebi o honroso convite que agora reproduzo, para minha participação no Livro do Nordeste II, comemorativo dos 200 anos do mais antigo jornal da América Latina, o glorioso Diário de Pernambuco, cujo primeiro centenário foi comemorado cem anos atrás, em 1925, com o Livro do Nordeste, coordenado pelo então jovem sociólogo Gilberto Freyre, colaborador do jornal desde 1913 até sua morte, em 1987.



Minha colaboração já está escrita, mas estou revisando o texto, do qual reproduzo apenas o esquema das seções: 

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Colaboração a livro comemorativo do Bicentenário do Diário de Pernambuco.

Organização: André Heráclio do Rego e Múcio Aguiar.

 

Sumário: 

Prolegômeno: a persistência de uma folha de província

A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática

A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria

O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente

O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la

A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar

As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica




terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Relações internacionais do Brasil: 1825-1925, Oliveira Lima; 1925-2025, Paulo Roberto de Almeida (Diário de Pernambuco, 1825-2025)

Relações internacionais do Brasil: 1825-1925, Oliveira Lima; 1925-2025, Paulo Roberto de Almeida (Diário de Pernambuco, 1825-2025)


         Acima a primeira página da colaboracão do historiador, acadêmico, professor na Catholic University of America, Oliveira Lima, sobre um século de relações internacionais do Brasil, no Livro do Nordeste, organizado pelo jovem sociólogo Gilberto Freyre para o Diário de Pernambuco, em comemoração dos primeiros cem anos de existência (e resistência) desse valente jornal pernambucano, de alcance regional.
        Fui encarregado, pelo meu amigo, colega diplomata e historiador André Heráclio do Rego de redigir a continuidade dessa colaboração, cobrindo os 100 anos seguintes, ou seja, as relações internacionais do Brasil entre 1925 e 2025, para comemorar o segundo centenário do Diário de Pernambuco.
        Já comecei a trabalhar, e a primeira coisa que fiz, foi conferir, na publicação original, como tinha sido a colaboração de meu ilustre colega do Itamaraty, já entrado no MRE, mas que tratou em grande medida da diplomacia da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros. Meu esquema e o início do trabalho seguem abaixo.

Um século de relações internacionais do Brasil, 1925-2025

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Colaboração a livro comemorativo do Bicentenário do Diário de Pernambuco.

Org. André Heráclio do Rego e Múcio Aguiar.

  

Sumário: 

1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província

2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática

3. A diplomacia da República de 1946: o alinhamento pragmático da Guerra Fria

4. O primeiro exercício de política externa independente: um padrão consistente

5. O ecumenismo responsável da política externa autônoma e orgulhosa de sê-la

6. A diplomacia da redemocratização: sem os tabus do regime militar

7. As relações internacionais do Brasil numa era de fragmentação geopolítica

 

 

1. Prolegômeno: a persistência de uma folha de província

        O ano em que o Diário de Pernambuco foi fundado, 1825, começou com o fuzilamento – à falta de verdugos que se dispusessem a enforcá-lo – do mais importante revolucionário da Confederação do Equador, Frei Caneca, o autor intelectual das posições ilustradas defendidas por um movimento que já vinha da insurreição independentista de 1817 e que se prolongou na mais consistente tentativa, em 1824, de fundar o novo Estado brasileiro em bases institucionais mais amplamente democráticas, federais, do que a monarquia unitária que se instalou sob a mesma dinastia que vinha explorando a maior colônia portuguesa desde a Restauração do Reino, no século XVII, e que continuava controlando-a desde a instalação da corte no Rio de Janeiro e sob o Reino Unido. 

        O ano também contemplou, em agosto, o tratado bilateral entre o Império do Brasil e o Reino de Portugal, que consolidou, não exatamente a independência, que já estava assegurada formalmente desde 1822 – na prática desde muito antes, como sugere Barbosa Lima Sobrinho, ao examinar a trajetória do Correio Braziliense, de Hipólito da Costa –, mas o reconhecimento do novo Estado pelas demais monarquias europeias, um processo que já tinha começado nas Américas dois anos antes, e até mesmo por um reino africano, como relatou o embaixador Alberto da Costa e Silva. 

        O ano também assistiu, em novembro, à fundação do Diário de Pernambuco, que passaria a seguir, a partir de então, os assuntos relevantes da província, do Brasil e do mundo no decorrer dos cem anos seguintes. Segundo os relatos historiográficos, o Diário relatou os episódios mais salientes da Revolução Praieira de 1848 e, na década seguinte, assumiu uma nítida postura abolicionista, anos à frente da resiliência escravagista em outras províncias: obviamente, se congratulou com a Lei Áurea, assim como se alinhou com o novo regime no ano seguinte à abolição. Seu primeiro centenário foi devidamente comemorado com a publicação do Livro do Nordeste, coordenado por um jovem sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre, recém retornado ao Brasil depois de vários anos de estudos nos Estados Unidos e na Europa.         Ele tinha começado a colaborar com o Diário desde antes da Grande Guerra, e se manteve como articulista até sua morte, em 1986. Pouco mais de dez anos após estrear como colunista, Freyre foi naturalmente escolhido para coordenar as contribuições preparadas para o Livro do Nordeste, e naturalmente convidou quem já era o principal historiador diplomático do país para relatar os feitos internacionais ocorridos até então.

        Manuel de Oliveira Lima, então professor na Catholic University of America, em Washington, assinou o capítulo intitulado “Um século de relações internacionais (1825-1925” (p. 9-10), examinando a trajetória exterior do Brasil no decorrer dos primeiros cem anos de vida do jornal. O grande historiador pernambucano destaca os três grandes objetivos do país em sua política externa no século transcorrido desde 1825:

        ... fixar as fronteiras com as nações herdeiras do domínio espanhol; salvar a economia de um golpe que se julgava de morte, vibrado pela abolição da instituição servil; sustentar a hegemonia no Prata, obstando a formação de outro império na costa oriental da América, para isso zelando um equilíbrio que n’outra face representava um desequilíbrio. (p. 9)

 

        As fronteiras, escreveu ele, foram definitivamente assentadas já na República, “pela erudição e habilidade do Barão do Rio Branco, mas ampararam a sua especial competência a firmeza da diplomacia imperial e a segurança da anterior diplomacia portuguesa” (idem). Ele reconhece a política de intervenção platina – “o que lhe deu uma feição imperialista e provocou as duas guerras externas em que o Brasil se envolveu” –, mas entendia que “o maior erro diplomático do Império foi querer embargar o movimento centrípeto platino”, ou seja, a reconstituição do Vice-Reinado do Rio da Prata, sob o controle de Buenos Aires, ao mesmo tempo em que pretendia exercer sobre a Banda Oriental um “virtual protetorado”. Na questão da escravidão, Oliveira Lima entende que o império não foi muito efetivo na frente externa, “atraindo os raios britânicos do Bill Aberdeen”, mas que soube bem se conduzir na frente interna, levando o doloroso problema “gradualmente a cabo de modo ordeiro, honroso e modelar”, chegando mesmo a afirmar que, na questão abolicionista, “nunca contamos com partidários decididos da escravidão”. Termina por se referir aos principais casos diplomáticos das primeiras três décadas da República, celebrando a cordialidade da relação com os EUA.

 

2. A primeira política externa republicana: fundamentos da doutrina diplomática

(...)



terça-feira, 25 de junho de 2024

Confederação do Equador, 200 anos, 1824-2024 - Seminário Comemorativo, IHGs de PE e CE

 Meu amigo e colega André Heráclio do Rego vai participar.


 

A Confederação do Equador como primeira revolução

constitucionalista do Brasil.

André Heráclio do Rêgo (IAGHP/IHGB).



segunda-feira, 17 de julho de 2023

Um livro em preparação: Gilberto Freyre sobre o longo século XIX, de André Heráclio do Rego - Prefácio de Paulo Roberto de Almeida

Acabo de colocar um ponto final no meu prefácio a este livro de meu colega e amigo, historiador pernambucano André Heráclio do Rego, do qual transcrevo apenas os primeiros parágrafos. O restante virá quando o livro for publicado...

Paulo Roberto de Almeida

ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA

O SÉCULO XIX NA OBRA DE GILBERTO FREYRE

André Heráclio do Rêgo

            (Edição de Autor)


ÍNDICE

 Prefácio: Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração, 5

       Paulo Roberto de Almeida                                                                                

Introdução, 11

Capítulo 1 – O Movimento da Independência, 33

Capítulo 2 – O processo revolucionário,  51

Capítulo 3 – As singularidades da Monarquia,  83

Capítulo 4 - Monarquia e República: continuidade e ruptura,  97

Capítulo 5 – O Império e a unidade nacional,  117

Capítulo 6 – O Oriente no Novo Mundo. Os três primeiros séculos da formação brasileira, 129

Capítulo 7 – Oriente X Ocidente: a Monarquia e a reeuropeização do Brasil no século XIX, 139

Considerações e sugestões,  149

Obras de Gilberto Freyre utilizadas,  163

Referências bibliográficas, 167 


Prefácio

Gilberto Freyre, um intelectual na longa duração

 

O presente livro de André Heráclio do Rêgo constitui um notável esforço de síntese interpretativa sobre um dos autores mais fecundos do pensamento social brasileiro. Junto com Manoel de Oliveira Lima e Manoel Bomfim, Gilberto Freyre foi um dos primeiros historiadores sociais do Brasil. Na verdade, ele foi bem mais do que isso: antropólogo de formação, tendo estudado com Franz Boas, na Universidade de Columbia (NY), ele veio a empreender um levantamento da cultura material e humana do Brasil colonial e imperial, compreendendo não apenas a sua análise da Casa Grande e [da] Senzala, o título de sua primeira grande obra (1933), como também tratou amplamente da miscigenação geral do povo brasileiro a partir de suas fontes étnicas, dos aportes estrangeiros à cultura material e espiritual, assim como da lenta emergência, a partir da sociedade patriarcal, de formações urbanas ao longo da costa atlântica e no interior próximo, tal como refletida em Sobrados e Mucambos (1936) e no seu outro clássico, Ordem e Progresso (1959). O extenso subtítulo dessa terceira grande obra, em 2 volumes, revela, aliás, a extensão de seu trabalho analítico: “Processo de desintegração da sociedade patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre: aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre; e da Monarquia para a República”. 

Gilberto Freyre antecipou, de certa forma, a famosa escola francesa dos Annales, com sua forte ênfase no cotidiano das famílias, nos costumes do povinho miúdo, na alimentação e nas técnicas do trabalho humano. Mais de um acadêmico francês em estágio universitário no Brasil dos anos 1930 e 40, na recém fundada Universidade de São Paulo por exemplo, se declarou pronto a reconhecer certa dívida interpretativa em relação ao “mestre de Apipucos”, sua residência e escritório de trabalho no Recife senhorial. Os métodos e os grandes temas da nova historiografia francesa, em pleno florescimento nos anos seguintes à Segunda Guerra, já estavam presentes na obra de Freyre desde duas décadas antes, como facilmente constatável.

(...)

Segue por 3 páginas...


segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Três livros de pernambucanos ilustres: Oliveira Lima, Gilberto Freyre, André Heráclio do Rego, George Cabral de Souza

Em lançamento em Brasília, com a presença dos dois organizadores,  André Heráclio do Rego, George Cabral de Souza

Um grande historiador, um grande antropólogo, três livros que recuperam explicações essenciais de nossa formação histórica. Lançamento em Brasília, na Livraria Travessa, dia 7/12:














sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Oliveira Lima: um historiador das Américas: IPRI, 28/11, 10hs


Oliveira Lima: um historiador das Américas 
Paulo Roberto de Almeida, André Heráclio do Rêgo 
(Recife: CEPE, 2017, 175 p.; ISBN: 978-85-7858-561-7). 

Debate sobre o papel do diplomata-historiador na política externa brasileira e na historiografia nacional, com os dois autores, no Anexo II do Itamaraty.

1. História diplomática. 2. Relações internacionais. 3. Política externa. 4. História do Brasil. 5. Cultura brasileira. 6. Itamaraty. 7. Manuel de Oliveira Lima. 8. Américas 9. Brasil. 10. América Latina.

Índice

  
Apresentação: O maior historiador diplomático brasileiro
       Paulo Roberto de Almeida, André Heráclio do Rêgo

1. O Barão do Rio Branco e Oliveira Lima: vidas paralelas itinerários divergentes
       Paulo Roberto de Almeida

2. Oliveira Lima, intérprete das Américas
       André Heráclio do Rêgo

3. O império americano em ascensão, visto por Oliveira Lima
       Paulo Roberto de Almeida   

Apêndice: O Brasil e os Estados Unidos antes e depois de Joaquim Nabuco
       Paulo Roberto de Almeida   

Notas aos capítulos
Sobre os autores 

Apresentação
O maior historiador diplomático brasileiro

Paulo Roberto de Almeida
André Heráclio do Rêgo

O Itamaraty, nos anos finais do século XIX e iniciais do XX, congregava três personalidades cuja atuação se espraiava desde as lides diplomáticas até a área cultural.
A primeira delas, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco, era, ademais do negociador e do chanceler que marcou época, historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras. O segundo, Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, além de haver sido o paladino do pan-americanismo e nosso primeiro embaixador em Washington, já na idade madura, após uma juventude em que deixou sua marca na História do Brasil, ao dedicar-se à causa abolicionista, era também historiador e memorialista, considerado por Gilberto Freyre como um dos maiores estilistas da língua portuguesa.
Essas duas primeiras personalidades foram consagradas ainda em vida. Nabuco, desde a campanha abolicionista; Rio Branco, desde as questões de limites. Multidões acorreram aos respectivos enterros, o de Joaquim Nabuco no Recife, em 1910, o de Rio Branco no Rio de Janeiro, ao início de 1912, ocasião na qual inclusive o carnaval teve que ser adiado.
A terceira personalidade não teve consagração em vida, e ainda hoje não alcançou completamente nem a póstuma. Trata-se de Manuel de Oliveira Lima. Pernambucano como Nabuco, Oliveira Lima era bem mais jovem do que os outros dois. Além da diferença generacional, também não compartilhava com eles a formação nos cursos jurídicos de Olinda e de São Paulo. Ao contrário, graduou-se em Lisboa, no curso superior de Letras, tendo uma formação ‘profissional’ nas áreas de História e Literatura. Terá sido, pois, na sua época, o único grande historiador brasileiro que não foi autodidata. Também ao contrário de Nabuco e Rio Branco, foi republicano na juventude e na idade madura flertou com a monarquia.
Entrou no Itamaraty no princípio da última década do século XIX, numa época em que a situação política de Rio Branco e Nabuco não era das melhores. Paralelamente à carreira diplomática, logo se iniciou na escrita da História, tendo publicado ainda nesta década dois livros, que possibilitaram sua entrada na Academia Brasileira de Letras entre os 40 primeiros integrantes, ou seja, como membro fundador, glória que, se não pode ser comparada à de Nabuco, que além de fundador foi o idealizador da instituição, ao lado de Machado de Assis, foi bem superior à de Rio Branco, que teve de esperar a abertura de uma vaga para entrar no grêmio.
Oliveira Lima poderia ter sido um êmulo do barão do Rio Branco, nosso grande chanceler e modelo da diplomacia até hoje, se tivesse mais ‘diplomático’. Sua caracterização como ‘diplomata dissidente’ é adequada; em alguns casos terá sido também um “rebelde com causa”, que foi a de sua luta pelo desenvolvimento social, político e econômico e do Brasil, para ele espelhando, mas apenas parcialmente, os magníficos progressos da nação americana, em cuja capital ele trabalhou como jovem diplomata, mas já totalmente consciente das grandes diferenças que separavam o mundo anglo-saxão do errático universo ibero-americano que ele soube analisar tão bem numa fase já madura de sua vida.
Não sendo muito diplomático e não aceitando ficar à sombra do poderoso barão, voltou-se cada vez mais para os estudos históricos, contando para tanto com a ajuda do próprio chefe desafeto, que lhe propiciava longos períodos de inatividade diplomática. Graças a esses longos períodos em disponibilidade e às longas licenças que tirava – o que certamente não agradava à chefia superior, que paradoxalmente o punia com longos períodos em disponibilidade, teve tempo para pesquisar e escrever, erguendo uma obra historiográfica mais sistemática e consistente que as de Rio Branco e Nabuco. Nela, foi muitas vezes pioneiro e precursor: da história da vida privada, por exemplo, ao indicar a utilização de romances como fonte historiográfica; da utilização das obras de viajantes estrangeiros sobre o Brasil. Sua obra antecipou, de certa forma, os escritos de Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro e José Honório Rodrigues, entre outros. Se passarmos para o campo da patriotada, poderíamos dizer até que ele foi precursor de Norbert Elias e de Lucien Febvre, respectivamente nos conceitos de processo civilizatório e de instrumentos mentais, e até mesmo de Georges Duby, no que se refere à caracterização tripartite da sociedade. Além disso, Oliveira Lima foi pioneiro em estudos comparatistas, e era o historiador brasileiro que mais sabia da história de Portugal, dispondo para tanto de uma capacidade de síntese sem igual.
Ele, como Nabuco e Rio Branco, foi único e incontornável, mas a História lhe foi ingrata, algumas vezes por culpa sua, por ser corajosamente sincero, ao ponto de ser incômodo. Após um começo brilhante, sua vida profissional e intelectual passou a se caracterizar por um ressaibo amargo de incompletude e de frustração, no que se poderia considerar uma trajetória interrompida. Ao contrário de Rio Branco e de Nabuco, ao seu enterro não compareceram multidões, apenas a esposa, que compartilhava com ele o ‘exílio’ em Washington, e mais uns poucos.
Aos 150 anos de seu nascimento, no Recife, em dezembro de 1867, vale examinar alguns dos seus muitos escritos com o objetivo de constatar que ele foi, efetivamente um dos grandes, senão o maior dos historiadores diplomáticos brasileiros, pesquisador incansável dos arquivos, leitor das crônicas dos contemporâneos, colecionador de manuscritos, de livros e de obras de arte, leitor da literatura de cada época, dos jornais do momento e dos grandes historiadores do passado. Sua obra completa excede as possibilidades de um único estudioso e, talvez por isso, temos de nos contentar com uma Obra Seleta, e com vários outros trabalhos, reeditados de forma dispersa e errática, ao sabor do interesse de editores, de admiradores e de alguns poucos acadêmicos devotados ao estudo de uma imensa série de livros, resenhas, notas e artigos de revista e de jornais, que pode facilmente encher mais de uma estante de livros.
Sua biblioteca, depositada na Universidade Católica de Washington, oferece um testemunho de seu voraz interesse por toda a história das civilizações ocidentais desde os descobrimentos, com um grande foco no hemisfério americano, daí o título desta coletânea por dois estudiosos e admiradores de sua obra, que é especialmente relevante no plano pessoal, não apenas pela mesma condição profissional, a de diplomatas de carreira, mas igualmente pelo que ela oferece como interpretação significativa, e ainda válida, a despeito da passagem de um século, sobre o desenvolvimento comparado dos povos das Américas. Oliveira Lima não foi apenas historiador, mas também sociólogo, cientista político, fino psicólogo dos personagens estudados – como D. João VI, por exemplo – e também uma espécie de antropólogo cultural, como tal inspirador de uma outra rica obra construída pelo conterrâneo Gilberto Freyre, que com ele conviveu em sua fase iniciante e já na fase madura e derradeira do grande historiador pernambucano.
Os trabalhos aqui coletados não podem representar a justa homenagem que lhe é devida no 150o aniversário de seu nascimento, mas eles representam, ainda assim, um testemunho de apreço, nos planos sociológico e historiográfico, pelo valor intelectual da produção ímpar do historiador e diplomata Oliveira Lima. Não temos nenhuma dúvida de que nos próximos 150 anos essa obra continuará a ser lida e a servir de inspiração a novos historiadores e sociólogos das civilizações do hemisfério americano.



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