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terça-feira, 27 de agosto de 2019

Oliveira Lima e a longa história da Independência - USP, 10-11/09


SEMINÁRIO OLIVEIRA LIMA E A (LONGA) HISTÓRIA DA INDEPENDÊNCIA 10 e 11 de setembro, Auditório István Jancsó 
Biblioteca Brasiliana Guita E José Mindlin


Oliveira Lima é, seguramente, o grande historiador da Independência do Brasil. 
Tratou do tema em vários livros de sua vasta obra, numa perspectiva que hoje poderíamos qualificar de longue durée, de longa duração. 
Com efeito, escreveu sobre os antecedentes mais notáveis do processo independentista e sobre suas consequências mais duradouras, num arco temporal que atingiria, grosso modo, um século e meio. 
Entre esses antecedentes, destaque-se a crescente preponderância do Brasil sobre Portugal, cujo ápice se concretizou com um fato inusitado e singular da história da humanidade: a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1807, primeira vez em que um monarca europeu em funções atravessou a linha do equador. 
Ao contrário do que afirma uma certa historiografia mais superficial, não se trata aqui de uma simples e precipitada fuga das tropas napoleônicas, conquanto tenha havido certa precipitação na operação logística propriamente dita (cabe lembrar a frase atribuída à rainha dona Maria: “nem tão depressa que pareça fuga, nem tão devagar que pensem que queremos ficar”), mas de projeto estratégico acalentado desde o século XVII, com o padre Antônio Vieira, e do século XVIII, com o diplomata dom Luís da Cunha. 
Há inclusive quem retroceda essa ideia para o século XVI, quando uma das causas apontadas para a desdita de dom Antônio, prior do Crato, na sua disputa pelo trono português com o poderoso rei de Espanha, Filipe II, teria sido o fato de ter-se ido abrigar nas ilhas atlânticas de Portugal, e não no Brasil.

Entre as consequências duradouras da Independência, destaque-se o estabelecimento no Novo Mundo de uma monarquia de características europeias, também fato único e inusitado. 
Segundo Oliveira Lima, essa seria uma monarquia híbrida, mestiça, adaptada ao meio tropical, tanto no que se refere ao equilíbrio entre tendências conservadoras e autoritárias, de um lado, e democráticas e liberais, de outro, que caracterizou o Império do Brasil, sobretudo na sua segunda fase, quanto ao que diz respeito à própria natureza mestiça da sociedade tropical.
Oliveira Lima, entre esses antecedentes e essas consequências, descreveu com maestria a sociedade brasileira e a portuguesa; desvendou as intrigas políticas e diplomáticas que caracterizaram o movimento da Independência e o reconhecimento do Império; deixou retratos definitivos de grandes personagens da época, a começar por dom João VI; traçou, enfim, um magnífico panorama, um excelente mural de Brasil e Portugal no século XIX, sobretudo no período que vai de 1808 a 1834.

Programação completa em: www.bbm.usp.br/3x22


quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Oliveira Lima e a história da independência do Brasil - Biblioteca Mindlin-USP

SEMINÁRIO OLIVEIRA LIMA E A (LONGA) HISTÓRIA DA INDEPENDÊNCIA

DATA: 10 e 11 setembro de 2019
EXPOSIÇÃO: 10/9 a 1/11 de 2019
LOCAL: Auditório István Jancsó - Biblioteca Brasiliana Guita E José Mindlin

            Oliveira Lima é, seguramente, o grande historiador da Independência do Brasil. Tratou do tema em vários livros de sua vasta obra, numa perspectiva que hoje poderíamos qualificar de longue durée, de longa duração. Com efeito, escreveu sobre os antecedentes mais notáveis do processo independentista e sobre suas consequências mais duradouras, num arco temporal que atingiria, grosso modo, um século e meio. Entre esses antecedentes, destaque-se a crescente preponderância do Brasil sobre Portugal, cujo ápice se concretizou com um fato inusitado e singular da história da humanidade: a transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1807, primeira vez em que um monarca europeu em funções atravessou a linha do equador. Ao contrário do que afirma uma certa historiografia mais superficial, não se trata aqui de uma simples e precipitada fuga das tropas napoleônicas, conquanto tenha havido certa precipitação na operação logística propriamente dita (cabe lembrar a frase atribuída à rainha dona Maria: “nem tão depressa que pareça fuga, nem tão devagar que pensem que queremos ficar”), mas de projeto estratégico acalentado desde o século XVII, com o padre Antônio Vieira, e do século XVIII, com o diplomata dom Luís da Cunha. Há inclusive quem retroceda essa ideia para o século XVI, quando uma das causas apontadas para a desdita de dom Antônio, prior do Crato, na sua disputa pelo trono português com o poderoso rei de Espanha, Filipe II, teria sido o fato de ter-se ido abrigar nas ilhas atlânticas de Portugal, e não no Brasil.
            Entre as consequências duradouras da Independência, destaque-se o estabelecimento no Novo Mundo de uma monarquia de características europeias, também fato único e inusitado. Segundo Oliveira Lima, essa seria uma monarquia híbrida, mestiça, adaptada ao meio tropical, tanto no que se refere ao equilíbrio entre tendências conservadoras e autoritárias, de um lado, e democráticas e liberais, de outro, que caracterizou o Império do Brasil, sobretudo na sua segunda fase, quanto ao que diz respeito à própria natureza mestiça da sociedade tropical.
            Oliveira Lima, entre esses antecedentes e essas consequências, descreveu com maestria a sociedade brasileira e a portuguesa; desvendou as intrigas políticas e diplomáticas que caracterizaram o movimento da Independência e o reconhecimento do Império; deixou retratos definitivos de grandes personagens da época, a começar por dom João VI; traçou, enfim, um magnífico panorama, um excelente mural de Brasil e Portugal no século XIX, sobretudo no período que vai de 1808 a 1834.

PROGRAMAÇÃO
PRIMEIRO DIA (10.09.2019)
9h: Abertura oficial
9h30: Conferência de abertura. Oliveira Lima e a historiografia da Independência.  Carlos Guilherme Mota
11h-13h: Antecedentes da Independência: a crescente importância do Brasil e a definição das fronteiras: Alexandre de Gusmão (Secretário del Rei).Janice Teodoro, Ricardo Souza de Carvalho, Synesio Sampaio Goes
13h: Abertura da exposição Oliveira Lima e a (longa) história da Independência (Sala Multiuso – BBM/USP)
14h-16h: A consagração de uma realidade: a mudança da Corte e a fundação de um Império no Novo Mundo (Dom João VI no Brasil). Guilherme Pereira das Neves, Teresa Malatian, Nathalia Henrich
16h-18h: Entre ruptura e continuidade: o processo da Independência I – A outra independência (Comentários de Oliveira Lima à História da Revolução de 1817, de Muniz Tavares). Maria de Lourdes Viana Lyra, André Heráclio do Rêgo, George Felix Cabral de Souza
SEGUNDO DIA (11.09.2019)
9h-11h: Entre ruptura e continuidade: o processo da Independência II – O grito do Ipiranga (O Movimento da Independência, O Reconhecimento do Império, O papel de José Bonifácio no movimento da Independência). João Paulo Pimenta, Lucia Bastos Pereira das Neves, Guilherme de Paula Costa Santos
11h-13h: Dom Pedro, monarca em dois continentes: o Portugal brasileiro (Dom Pedro e dom Miguel – a querela da sucessão, Dom Miguel no trono).Lúcia Paschoal, Cecilia Helena de Salles Oliveira, Guilherme Freitas
14h-16h: As consequências: uma monarquia mestiça no Novo Mundo (O Império brasileiro). Paulo Roberto de Almeida, Angela Alonso, Júlio Cesar Vellozo
16h-18h: Conferência de encerramento: o legado historiográfico de Oliveira Lima. Arno Wehling

Comissão organizadora
André Heráclio do Rêgo
Guilherme Carvalho Souza da Rocha Freitas
Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron
Alexandre Macchione Saes


O projeto 3 vezes 22

            Ao completar o bicentenário da Independência e o centenário da Semana de Arte Moderna no ano de 2022, abre-se oportunidade para refletir e redimensionar a história da nossa formação – do Estado e da Sociedade, assim como da cultura histórica brasileira. O projeto 3 vezes 22 não será apenas a celebração de duas datas canônicas, mas uma tentativa de entrecruzar temporalidades, a saber: a Independência (1822), o Modernismo (1922) e a história do nosso tempo presente (2022). As duas efemérides provocam uma reflexão não somente sobre a constituição da Nação no plano político, mas também com relação à definição da comunidade imaginada ou identidades de pertencimento.
            A Independência, como acontecimento, conjuga-se com o processo mais amplo de formação do Estado nacional, materializado pela soberania política, econômica e cultural, tanto do ponto de vista interno, por intermédio da busca por um repertório comum, como também na perspectiva de uma afirmação da singularidade nacional perante as demais nações. Como sabemos, no caso brasileiro, a emancipação política não coincidiu com a afirmação da nacionalidade. Como alertou Sergio Buarque de Holanda, a nação precedeu o nacionalismo, não constituindo um desdobramento natural do último: a construção de heróis, de símbolos e, inclusive, da própria narrativa de uma história nacional deu-se ao longo do século XIX e XX. Numa certa perspectiva, o modernismo esteve imbricado com os dilemas culturais suscitados pela ruptura colonial.
            A geração modernista encampou a tarefa de refletir sobre esse momento decisivo, rompendo com a tradição estética legada do romantismo, e produzindo uma influente, duradoura e nova interpretação da história do Brasil. Mas, como toda narrativa sobre o passado, a “reescrita da história” estabeleceu um novo panteão por meio da seleção de personagens, de eventos e de conceitos que, se por um lado, iluminaram uma determinada versão da História do Brasil; por outro, obscureceram narrativas e personagens. O entrecruzamento das narrativas históricas de 1822 e 1922 supõe também enfrentar a dialética entre memória e esquecimento para que seja possível revelar personagens, acontecimentos e processos obliterados. Assim, 3 vezes 22 procurará indicar novos horizontes, evidenciando interpretações e autores que, por razões diversas, se tornaram renegados. Compreender a formação dos cânones e dos panteões em sua plena historicidade e temporalidade será um dos desafios propostos pela programação.
            O projeto 3 vezes 22, nesse sentido, pretende promover o confronto de três 22s: o da Independência, o da Semana de Arte Moderna e aquele que nossa geração vivenciará. A reflexão crítica mediada pelos desafios do presente contemplará o legado deixado pelas narrativas sobre o movimento modernista, revisitando, portanto, o patrimônio cultural acumulado, mas também trazendo à tona as zonas de sombra dos “tempos renegados”. A BBM possui um acervo valioso para auscultar territórios de pesquisa bibliográfica e documental ainda pouco palmilhados, e rever essas duas datas a partir dos desafios do tempo presente será nosso principal intento. Assim, o projeto 3 vezes 22 vale-se do rico material conservado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin para encontrar nos documentos, nos livros e nos autores esquecidos e renegados pelas vertentes dominantes de nossa historiografia as evidências, as perspectivas e as interpretações que possam contribuir para a análise de nossa história, projetando questões que possam nortear a construção de um horizonte de autonomia, ao menos no plano da cultura e da ciência.

Site do projeto: www.bbm.usp.br/3x22

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Seminario Oliveira Lima, Biblioteca Mindlin-USP, 10-11/09/2019

Deverei participar de um seminário na Biblioteca Mindlin, da USP, sobre a longa história da independência, sob a ótica do historiador Oliveira Lima, projeto concebido por meu colega do Itamaraty, historiador André Heráclio do Rego.
Vejam o link: https://www.bbm.usp.br/3x22
Paulo Roberto de Almeida

3 vezes 22

Logo 3 vezes 22Ao completar o bicentenário da Independência e o centenário da Semana de Arte Moderna no ano de 2022, abre-se oportunidade para refletir e redimensionar a história da nossa formação – do Estado e da Sociedade, assim como da cultura histórica brasileira. O projeto 3 vezes 22 não será apenas a celebração de duas datas canônicas, mas uma tentativa de entrecruzar as temporalidades da Independência (1822), do Modernismo (1922) e da história do nosso tempo presente (2022). A reflexão crítica mediada pelos desafios do presente contemplará o legado deixado pelas narrativas sobre o movimento modernista e os projetos de construção da nação. O projeto 3 vezes 22, portanto, vale-se do rico material conservado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin para encontrar nos documentos, nos livros e nos autores esquecidos e renegados pelas vertentes dominantes de nossa historiografia as evidências, as perspectivas e as interpretações que possam contribuir para a análise de nossa história, projetando questões que possam nortear a construção de um novo horizonte de autonomia, ao menos no plano da cultura e da ciência.

https://www.bbm.usp.br/3x22

Seminário e exposição buscam contar 

"A (Longa) História da Independência" 

em Setembro

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin recebe nos dias 10 e 11 de setembro o seminário "Oliveira Lima e a (Longa) História Da Independência", com idealização e coordenação do diplomata e historiador André Heráclio do Rêgo. Em complemento ao seminário, haverá uma exposição para "ilustrar" e contextualizar a trajetória de Oliveira Lima e seus grandes feitos.


Projeto 3X22: Entrevista com o Prof° Dr. João Paulo G. Pimenta

O Prof° Dr. João Paulo G. Pimenta leciona no departamento de História da USP e foi professor visitante do Colegio de México (2008) e da Universitat Jaume I, na Espanha. No vídeo, comenta sobre o processo de Independência nas diferentes regiões do Brasil, destacando a chegada da família real portuguesa, o processo de integração dentro do território nacional e a constituição do Império.

3X22: Entrevista com a Profª Dra. Cecilia Helena de Salles Oliveira

A Profª Dr. Cecilia Helena de Salles Oliveira leciona no Programa de Pós-Graduação em História Social da USP e é professora titular no Museu Paulista da USP. No vídeo, ela comenta sobre o processo de Independência, citando os conflitos entre Brasil e Portugal. Ela também fala sobre a construção de símbolos nacionais, como o Palácio do Ipiranga e a Estátua Equestre de D. Pedro I.

Projeto 3X22: Entrevista com o Prof° Dr. Alexandre Macchione Saes

O Prof° Dr. Alexandre Macchione Saes leciona História Econômica na FEA-USP e é coordenador do projeto 3X22 na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. No vídeo, ele comenta o contexto econômico em 1822 e em 1922, traçando paralelos com a economia atual e destacando os desafios que o país vai enfrentar até 2022.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Oliveira Lima: um historiador das Américas: IPRI, 28/11, 10hs


Oliveira Lima: um historiador das Américas 
Paulo Roberto de Almeida, André Heráclio do Rêgo 
(Recife: CEPE, 2017, 175 p.; ISBN: 978-85-7858-561-7). 

Debate sobre o papel do diplomata-historiador na política externa brasileira e na historiografia nacional, com os dois autores, no Anexo II do Itamaraty.

1. História diplomática. 2. Relações internacionais. 3. Política externa. 4. História do Brasil. 5. Cultura brasileira. 6. Itamaraty. 7. Manuel de Oliveira Lima. 8. Américas 9. Brasil. 10. América Latina.

Índice

  
Apresentação: O maior historiador diplomático brasileiro
       Paulo Roberto de Almeida, André Heráclio do Rêgo

1. O Barão do Rio Branco e Oliveira Lima: vidas paralelas itinerários divergentes
       Paulo Roberto de Almeida

2. Oliveira Lima, intérprete das Américas
       André Heráclio do Rêgo

3. O império americano em ascensão, visto por Oliveira Lima
       Paulo Roberto de Almeida   

Apêndice: O Brasil e os Estados Unidos antes e depois de Joaquim Nabuco
       Paulo Roberto de Almeida   

Notas aos capítulos
Sobre os autores 

Apresentação
O maior historiador diplomático brasileiro

Paulo Roberto de Almeida
André Heráclio do Rêgo

O Itamaraty, nos anos finais do século XIX e iniciais do XX, congregava três personalidades cuja atuação se espraiava desde as lides diplomáticas até a área cultural.
A primeira delas, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco, era, ademais do negociador e do chanceler que marcou época, historiador, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras. O segundo, Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, além de haver sido o paladino do pan-americanismo e nosso primeiro embaixador em Washington, já na idade madura, após uma juventude em que deixou sua marca na História do Brasil, ao dedicar-se à causa abolicionista, era também historiador e memorialista, considerado por Gilberto Freyre como um dos maiores estilistas da língua portuguesa.
Essas duas primeiras personalidades foram consagradas ainda em vida. Nabuco, desde a campanha abolicionista; Rio Branco, desde as questões de limites. Multidões acorreram aos respectivos enterros, o de Joaquim Nabuco no Recife, em 1910, o de Rio Branco no Rio de Janeiro, ao início de 1912, ocasião na qual inclusive o carnaval teve que ser adiado.
A terceira personalidade não teve consagração em vida, e ainda hoje não alcançou completamente nem a póstuma. Trata-se de Manuel de Oliveira Lima. Pernambucano como Nabuco, Oliveira Lima era bem mais jovem do que os outros dois. Além da diferença generacional, também não compartilhava com eles a formação nos cursos jurídicos de Olinda e de São Paulo. Ao contrário, graduou-se em Lisboa, no curso superior de Letras, tendo uma formação ‘profissional’ nas áreas de História e Literatura. Terá sido, pois, na sua época, o único grande historiador brasileiro que não foi autodidata. Também ao contrário de Nabuco e Rio Branco, foi republicano na juventude e na idade madura flertou com a monarquia.
Entrou no Itamaraty no princípio da última década do século XIX, numa época em que a situação política de Rio Branco e Nabuco não era das melhores. Paralelamente à carreira diplomática, logo se iniciou na escrita da História, tendo publicado ainda nesta década dois livros, que possibilitaram sua entrada na Academia Brasileira de Letras entre os 40 primeiros integrantes, ou seja, como membro fundador, glória que, se não pode ser comparada à de Nabuco, que além de fundador foi o idealizador da instituição, ao lado de Machado de Assis, foi bem superior à de Rio Branco, que teve de esperar a abertura de uma vaga para entrar no grêmio.
Oliveira Lima poderia ter sido um êmulo do barão do Rio Branco, nosso grande chanceler e modelo da diplomacia até hoje, se tivesse mais ‘diplomático’. Sua caracterização como ‘diplomata dissidente’ é adequada; em alguns casos terá sido também um “rebelde com causa”, que foi a de sua luta pelo desenvolvimento social, político e econômico e do Brasil, para ele espelhando, mas apenas parcialmente, os magníficos progressos da nação americana, em cuja capital ele trabalhou como jovem diplomata, mas já totalmente consciente das grandes diferenças que separavam o mundo anglo-saxão do errático universo ibero-americano que ele soube analisar tão bem numa fase já madura de sua vida.
Não sendo muito diplomático e não aceitando ficar à sombra do poderoso barão, voltou-se cada vez mais para os estudos históricos, contando para tanto com a ajuda do próprio chefe desafeto, que lhe propiciava longos períodos de inatividade diplomática. Graças a esses longos períodos em disponibilidade e às longas licenças que tirava – o que certamente não agradava à chefia superior, que paradoxalmente o punia com longos períodos em disponibilidade, teve tempo para pesquisar e escrever, erguendo uma obra historiográfica mais sistemática e consistente que as de Rio Branco e Nabuco. Nela, foi muitas vezes pioneiro e precursor: da história da vida privada, por exemplo, ao indicar a utilização de romances como fonte historiográfica; da utilização das obras de viajantes estrangeiros sobre o Brasil. Sua obra antecipou, de certa forma, os escritos de Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro e José Honório Rodrigues, entre outros. Se passarmos para o campo da patriotada, poderíamos dizer até que ele foi precursor de Norbert Elias e de Lucien Febvre, respectivamente nos conceitos de processo civilizatório e de instrumentos mentais, e até mesmo de Georges Duby, no que se refere à caracterização tripartite da sociedade. Além disso, Oliveira Lima foi pioneiro em estudos comparatistas, e era o historiador brasileiro que mais sabia da história de Portugal, dispondo para tanto de uma capacidade de síntese sem igual.
Ele, como Nabuco e Rio Branco, foi único e incontornável, mas a História lhe foi ingrata, algumas vezes por culpa sua, por ser corajosamente sincero, ao ponto de ser incômodo. Após um começo brilhante, sua vida profissional e intelectual passou a se caracterizar por um ressaibo amargo de incompletude e de frustração, no que se poderia considerar uma trajetória interrompida. Ao contrário de Rio Branco e de Nabuco, ao seu enterro não compareceram multidões, apenas a esposa, que compartilhava com ele o ‘exílio’ em Washington, e mais uns poucos.
Aos 150 anos de seu nascimento, no Recife, em dezembro de 1867, vale examinar alguns dos seus muitos escritos com o objetivo de constatar que ele foi, efetivamente um dos grandes, senão o maior dos historiadores diplomáticos brasileiros, pesquisador incansável dos arquivos, leitor das crônicas dos contemporâneos, colecionador de manuscritos, de livros e de obras de arte, leitor da literatura de cada época, dos jornais do momento e dos grandes historiadores do passado. Sua obra completa excede as possibilidades de um único estudioso e, talvez por isso, temos de nos contentar com uma Obra Seleta, e com vários outros trabalhos, reeditados de forma dispersa e errática, ao sabor do interesse de editores, de admiradores e de alguns poucos acadêmicos devotados ao estudo de uma imensa série de livros, resenhas, notas e artigos de revista e de jornais, que pode facilmente encher mais de uma estante de livros.
Sua biblioteca, depositada na Universidade Católica de Washington, oferece um testemunho de seu voraz interesse por toda a história das civilizações ocidentais desde os descobrimentos, com um grande foco no hemisfério americano, daí o título desta coletânea por dois estudiosos e admiradores de sua obra, que é especialmente relevante no plano pessoal, não apenas pela mesma condição profissional, a de diplomatas de carreira, mas igualmente pelo que ela oferece como interpretação significativa, e ainda válida, a despeito da passagem de um século, sobre o desenvolvimento comparado dos povos das Américas. Oliveira Lima não foi apenas historiador, mas também sociólogo, cientista político, fino psicólogo dos personagens estudados – como D. João VI, por exemplo – e também uma espécie de antropólogo cultural, como tal inspirador de uma outra rica obra construída pelo conterrâneo Gilberto Freyre, que com ele conviveu em sua fase iniciante e já na fase madura e derradeira do grande historiador pernambucano.
Os trabalhos aqui coletados não podem representar a justa homenagem que lhe é devida no 150o aniversário de seu nascimento, mas eles representam, ainda assim, um testemunho de apreço, nos planos sociológico e historiográfico, pelo valor intelectual da produção ímpar do historiador e diplomata Oliveira Lima. Não temos nenhuma dúvida de que nos próximos 150 anos essa obra continuará a ser lida e a servir de inspiração a novos historiadores e sociólogos das civilizações do hemisfério americano.



sábado, 17 de março de 2018

Centenario de Oliveira Lima - textos de 1967

Manoel de Oliveira Lima nasceu há mais de 150 anos atrás (25/12/1867), no Recife, e morreu, há quase 90 anos (24/03/1928) em Washington.
Foi, sem qualquer sombra de dúvida, o maior historiador diplomático brasileiro (até aqui, mas dificilmente será superado).
Aos cem anos de seu nascimento, em 1967, o Itamaraty, aliado à Academia Brasileira de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiros, instituições às quais o diplomata-historiador foi filiado, lhe prestavam uma homenagem, ao publicar uma série de conferências, palestras, discursos, ensaios preparados ou pronunciados especialmente para essa ocasião.
Tenho o prazer de colocar à disposição do público interessado o livro publicado 50 anos atrás, por meio deste arquivo em pdf carregado na plataforma Academia.edu. Bastante pesado (mais de 40MB), está na forma em que foi scannerizado, mas pode ser objeto de uma rotação no sentido do relógio em qualquer leitor de arquivos desse tipo.
Neste link:
https://www.academia.edu/36185370/Centenario_de_Oliveira_Lima_1867-1928_

Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 17 de março de 2018




quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Oliveira Lima: um diplomata diferente - artigo PRAlmeida

Na relação de meus artigos constantes da lista da Catholic University of America figura este aqui, do qual eu quase já tinha esquecido: 

Oliveira Lima e a diplomacia brasileira no início da República
Historia Actual Online. 2009;0(19):97-108

Esse artigo não integra o livro que recentemente publiquei com meu colega e amigo André Heráclio do Rêgo, sobre o qual já falei aqui:
Oliveira Lima: um historiador das Américas, Paulo Roberto de Almeida, André Heráclio do Rêgo (Recife: CEPE, 2017, 175 p.; ISBN: 978-85-7858-561-7). Anunciado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com.br/2017/12/oliveira-lima-um-historiador-das.html).
Journal Title: Historia Actual Online
ISSN: 1696-2060 (Print)
Publisher: Asociación de Historia Actual
Society/Institution: Asociación de Historia Actual
AUTHORS
Paulo Roberto de Almeida (Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República) 

Abstract:
En este artículo se trata la figura de Manuel de Oliveira Lima, como personaje clave en la diplomacia brasileña de finales del siglo XIX y principios del siglo XX. Siempre ocupó una posición especial, debido a sus características particulares, principalmente su intensa actividad como historiador y periodista. Tales rasgos no impidieron que sus valores tanto intelectuales como políticos quedaran oscurecidos por la figura incontestable de Barão do Rio Branco. Se estudian sus facetas como autor y formulador de la política exterior brasileña, tanto virtudes como defectos, en unos momentos de gran importancia para el país en su calidad de época de transición en los ámbitos político, económico y cultural.
In this article Manuel de Oliveira Lima's figure treats itself, as key personage in the Brazilian diplomacy of ends of the 19th century and beginning of the 20th century. Always he occupied a special position, due to his particular characteristics, principally his intense activity as historian and journalist. Such features did not prevent that his values so much intellectual as politicians were remaining got dark by the incontestable figure of Barão do Rio Branco. His facets are studied as author and formulador of the foreign Brazilian policy, both virtues and faults, in a few moments of great importance for the country in his quality of age of transition in the politically, economically and culturally.

Texto completo: pdf