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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Tobias Barreto insurreto: discurso de posse no IHG-DF (14/08/2019)


Tobias Barreto: um intelectual em sua própria escola de inteligência

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: ensaio sobre Tobias Barreto; finalidade: texto para posse no IHG-DF]


Tobias Barreto foi uma personalidade múltipla: latinista, poeta, jornalista, jurista, orador, político, filósofo, sociólogo, darwinista, feminista, panfletário, abolicionista, polemista, adepto do culturalismo, anticlerical, um dos raros germanistas brasileiros e uma capacidade rara de combinar todas essas qualidades numa inteligência aberta aos mais variados conhecimentos disponíveis em sua época, tudo isso num período finalmente bastante curto, praticamente as últimas duas décadas e meia do regime monárquico, em que pese sua precocidade como poeta e jornalista. Impossível cingir a enormidade de sua produção num ensaio breve como este que se oferece, daí a seleção de alguns traços apenas de sua contribuição intelectual, a que mais apresenta persistência e relevância na perspectiva diacrônica que é a nossa, aos 180 anos de seu nascimento, em 1839, e aos 130 anos de seu falecimento, em 1889.
Na apresentação de um de seus biógrafos, um jornalista sergipano da primeira metade do século XX, em obra publicada no exato centenário de seu nascimento, pode-se ler uma síntese magistral do que ele representou para o pensamento brasileiro:
Tobias Barreto ocupa no mapa geral da cultura brasileira um lugar do mais alto relevo. A sua obra é uma espécie de linha divisória entre duas épocas. A sua vida, com as circunstâncias em que ela decorreu, apenas em parte explica o seu pensamento. Este, realmente, muito raro descia até aquela. Enquanto a vida estava mergulhada num ambiente de miséria, de incompreensão, de necessidade, o pensamento estava entregue às cogitações mais altas do estudo, divulgação e análise do que o espírito humano vinha realizando. Foi um homem que, na falta de ambiente em que pudesse desenvolver-se, construiu um ambiente particular onde lhe fosse possível respirar à vontade. [Omer Mont’Alegre, Tobias Barreto. Rio de Janeiro: Vecchi Editor, 1939]

Sua principal característica intelectual é precisamente esta: a de ter sido único, absolutamente solitário no panorama da inteligência nacional, a ponto de podermos dizer que ele era a sua própria escola de pensamento, jamais igualada posteriormente. Nasceu na monarquia, ao final das regências, converteu-se em republicano, mas faleceu antes da derrocada do Segundo Reinado, em 26 de junho de 1889, e a despeito de ser originário do Sergipe, onde se formou precocemente em Latim e exerceu suas primeiras armas na poesia e no jornalismo em sua terra natal, fez-se famoso no Recife, onde se exerceu como professor, depois de uma vida atribulada, sempre em meio a dificuldades materiais. Como germanista, nos planos da filosofia, da sociologia, do direito, foi um dos poucos no Brasil, talvez único no Nordeste. Mas, como ressaltou Arnaldo Godoy, autor da melhor biografia intelectual sobre o “insurreto sergipano”:

 “Tobias era um germanista que jamais fora à Alemanha, nem mesmo saíra do Nordeste...”. Quando residente em Escada, cidade próxima do Recife, fundou um jornal em alemão, “do qual era provavelmente o único leitor”. [Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy. Tobias Barreto: uma biografia intelectual do insurreto sergipano e sua biblioteca com livros alemães no Brasil do século XIX. Curitiba: Juruá, 2018, p. 30 e 53; nessa magnífica obra, um capítulo de 50 páginas é inteiramente dedicado a examinar os autores alemães constantes da biblioteca de Tobias Barreto ou referidos em sua atividade intelectual.]
Como mulato e abolicionista não foi o único, nem o maior, dessa pequena tribo de lutadores pela emancipação dos escravos, mas foi, provavelmente, o mais agitado dos agitadores literários e políticos numa conjuntura de agitação social no Brasil, um intelectual dotado de grande densidade intelectual quando comparado a outros homens de letras e de pensamento no Brasil do Segundo Império, bem mais dominado pelo francesismo literário e político da belle époque. Numa época em que o catolicismo romano era a religião oficial do Estado, não hesita em entrar em polêmica contra a Igreja e contra os dogmas religiosos do catolicismo, não uma única vez, mas várias. Abolicionista, democrata, libertário, republicano, contra o patrimonialismo tradicional da sociedade escravocrata – que aliás perdurou na República –, Tobias Barreto pode ser considerado como situado na vanguarda do pensamento brasileiro, e não apenas ao final do regime monárquico, mas exercendo influência em direção ao futuro da República, que ele todavia não chegou a conhecer.
É propriamente incrível a intensidade, a variedade, a profundidade de sua produção intelectual em pouco mais de três décadas de vida ativa, o que se reflete nos dez volumes de suas “obras completas”, editadas sob a responsabilidade do governo do Sergipe, 1925-26, reeditados em sete volumes meio século mais tarde, ademais dos muitos volumes esparsos, organizados por admiradores tão distinguidos quanto Silvio Romero, Graça Aranha, Paulo Mercadante e Antonio Paim. Em sua vida, apenas uma dúzia de seus escritos, dos quais dois em alemão, vieram a público, mas as obras póstumas e edições posteriores cobrem uma biblioteca inteira, numa volumetria quase tão importante quanto sua famosa “biblioteca alemã”, objeto de um artigo de Vamireh Chacon, na Revista Acadêmica, da Faculdade de Direito do Recife (1971), da qual Tobias Barreto foi professor, mas apenas por pouco mais de sete anos.
Clovis Beviláqua, o redator final do Código Civil (que levava vários anos em preparação) e o mais longevo consultor jurídico do Itamaraty, escreveu sobre o papel de Tobias Barreto como renovador dos estudos jurídicos no Brasil: “Em Filosofia do Direito, Tobias Barreto adotara a escola de [Rudolf von] Jhering e Hermann Post, que refletiam no Direito, a teoria genealógica de [Charles] Darwin e [Ernest] Haeckel. Não era, porém, espírito que se limitasse a reproduzir as lições dos mestres. Filiado ao monismo, sabia extrair desse sistema filosófico a interpretação exata do fenômeno jurídico.” Beviláqua considera que a campanha que Barreto dirigiu contra o Direito Natural, em seus Estudos de Direito, e em Questões Vigentes (Obras Completas, vol. IX, 1926), constitui uma das partes mãos brilhantes de sua obra; transcreve ele: “É preciso bater cem vezes e cem vezes repetir: o Direito não é filho do céu, é, simplesmente, um fenômeno histórico, um produto cultural da humanidade.” [Clovis Beviláqua, “Tobias Barreto e a renovação dos estudos jurídicos no país”, in: Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro, Tobias Barreto (1839-1889): bibliografia e estudos críticos. Salvador, 1990, p. 38-44; cf. pp. 39 e 40] Barreto lia e escrevia em alemão, além de dominar várias outras línguas, entre elas inglês, francês, italiano, russo, grego e, obviamente, latim.
Antonio Paim, no mesmo volume de estudos críticos, apresenta a trajetória filosófica de Tobias Barreto, do “surto de ideias novas” do final dos anos 1860, que buscava argumentos em Comte, Renan e Taine, chega ao culturalismo dos anos finais, passando pela recusa do comtismo e da “religião da humanidade” e pela fase monista (haeckeliana) da constituição da Escola do Recife, que evolui para o neokantismo. O germanismo de Tobias Barreto constitui o objeto de um estudo de Paulo Mercadante, que ele atribui ao seu naturalismo científico e não a qualquer subserviência acrítica aos grandes filósofos e juristas alemães de sua época. Este pensador, autor de um famoso estudo sobre a consciência conservadora no Brasil, coordenou com Antonio Paim dois volumes de estudos de filosofia de Tobias Barreto, publicados pelo Instituto Nacional do Livro, do MEC, em 1966, reeditados em 1977. Mercadante ainda se debruçou sobre uma reavaliação de Barreto na cultura brasileira (1972) e Paim a ele dedicou vários de seus escritos, tanto em seu livro de História das Ideias Filosóficas no Brasil (1967), quanto um volume inteiro sobre A filosofia da Escola do Recife (1966).
Arnaldo Godoy enfatiza, em seu capítulo sobre a biblioteca alemã de Tobias Barreto, e baseado no volume de Estudos de Direito, de suas Obras Completas, como ele chegou ao darwinismo pela via dos juristas alemães que ele mais admirava:
Tobias citou recorrentemente Ernest Haeckel, especialmente quanto ao tema da dificuldade de se construir uma ciência social de natureza substancialmente descritiva. Haeckel era admirador de Charles Darwin (1809-1882), que Tobias também assimilou ao estudar Rudolf von Jhering (1818-1892). Tobias foi um veiculador do darwinismo social no Brasil, resultado de sua admiração intelectual perene que o pensador sergipano tinha para com autores como Haeckel e Jhering, introdutores de Darwin nas ciências sociais aplicadas. [Godoy, op. cit., pp. 204-5]

A vida concreta de Tobias Barreto não foi das mais fáceis, para não dizer que foi das mais dificultosas. Sylvio Romero, num depoimento sobre a sua vida, conta que, quando ele morou pela primeira vez no Recife, abriu uma escola secundária para ter “meios de subsistência”, lecionando ao mesmo tempo “francês, latim, história, retórica, filosofia e matemáticas elementares.” Numa segunda fase, já admitido como professor na Faculdade de Direito, “regeu as cadeiras de filosofia do direito, direito público, direito criminal, economia política e prática do processo.” [“Tobias Barreto: breve notícia de sua vida”, na mesma obra de bibliografia e estudos críticos, pp. 86 e 88] Esse volume se conclui pela homenagem que lhe presta Graça Aranha, num ensaio intitulado “O Milagre de Tobias”, sobre o concurso feito para a Faculdade, que vale transcrever pela emoção daquele momento tão bem captada por Aranha:
Abrira-se o concurso para professor substituto da Faculdade. (...) Esperávamos, inconscientes, a coisa nova e redentora. (...) Era dos primeiros a chegar ao vasto salão da Faculdade e tomava posição junto à grade, que separava a Congregação da multidão dos estudantes. Imediatamente Tobias Barreto se tornou ou nosso favorito. Para estimular essa predileção havia o apoio dos estudantes baianos ao candidato Freitas, baiano e cunhado do lente Seabra. Tobias, mulato desengonçado, entrava sob o delírio das ovações. Era para ele toda a admiração da assistência, mesmo a da emperrada Congregação. O mulato feio, desgracioso, transformava-se na arguição e nos debates do concurso. Os seus olhos flamejavam, da sua boca escancarada, roxa, móvel, saía uma voz maravilhosa, de múltiplos timbres, a sua gesticulação transbordante, porém sempre expressiva e completando o pensamento. O que ele dizia era novo. Profundo, sugestivo. Abria uma nova época na inteligência brasileira e nós recolhíamos a nova semente, sem saber como ela frutificaria em nossos espíritos, mas seguros que por ela nos transformávamos. Esses debates incomparáveis eram pontuados pelas contínuas ovações que fazíamos ao grande revelador. Nada continha o nosso entusiasmo. A Congregação, humilhada em seu espírito reacionário, curvava-se ao ardor da mocidade impetuosa. Prosseguíamos impávidos, certos de que, conduzidos por Tobias Barreto, estávamos emancipando a mentalidade brasileira, afundada na teologia, no direito natural, em todos os abismos do conservantismo. Para mim, era tudo isto delírio. (...) Quando terminou, recebeu a mais grandiosa manifestação dos estudantes, a cujo entusiasmo aderiram os lentes unânimes. (...) À noite, eu estava em sua casa... Nunca mais me separei intelectualmente de Tobias Barreto. (...)
As nossas afinidades eram principalmente nos problemas sociais, abolição e república. A esses movimentos fui seguramente levado mais pelo sentimento do que pelas ideias. (...)
Foi o milagre de Tobias Barreto em mim. O milagre da libertação [idem, pp. 96 e 98]

O concurso de teses compreendia praticamente todo um amplo espectro de disciplinas que eram ensinadas nas duas escolas de direito do Brasil, a do Recife e a de São Paulo, grade disciplinar que por sua vez refletia, em grande medida, as disciplinas inscritas na Universidade de Coimbra, segundo informa Godoy com base num pesquisador da área. [Godoy, Tobias, op. cit., p. 85] Tobias teria também falado sobre o direito autoral, tema até então inédito no Brasil, se esse assunto tivesse sido arguido na ocasião, embora possa ser argumentado que essa categoria já era conhecido no Brasil e no exterior sob o nome de “propriedade literária”. Omer Mont’Alegre informa em sua biografia sobre a variedade de disciplinas que entraram na lista das arguições a Tobias, então com 42 anos:
Foi grande o número de teses que Tobias apresentou para participar desse concurso. Temas de Direito Natural, Direito Romano, Direito Público, Direito Constitucional, Direito das Gentes [Internacional], Diplomacia, Direito Eclesiástico, Direito Civil, Direito Criminal, Direito Comercial, Direito Marítimo, Hermenêutica Jurídica, Processo Civil, Processo Criminal, Economia Política, Direito Administrativo. [op. cit., p. 249]

Algum tempo antes desse triunfo na capital de Pernambuco, Tobias Barreto tivera de se refugiar de uma primeira incursão frustrada em Recife, em Escada, no seu Sergipe natal. Lá decidiu criar, em 1877, um Clube de Cultura Popular, pronunciando ali o seu célebre Discurso em Mangas de Camisa, publicado dois anos depois em um opúsculo, no qual divulga o programa do clube, reproduzido pouco depois num jornal do Recife. Hermes Lima, em sua apresentação a uma reedição de 1970 desse famoso discurso, declara de pronto que se trata de “obra prima da sociologia brasileira”, e especula que “se toda a obra de Tobias Barreto houvesse desaparecido e dela só houvesse restado o Discurso, por ele se poderia levantar o perfil intelectual do chefe da Escola do Recife.” [Tobias Barreto. Um Discurso em Mangas de Camisa. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1970, p. 13] Hermes Lima então destaca um dos trechos mais claramente sociológicos desse opúsculo:
Entre nós, o que há de organizado é o Estado, não é a Nação; é o governo, é a administração, por seus altos funcionários na Corte, por seus sub-rogados nas províncias, por seus ínfimos caudatários nos municípios; não é o povo, o qual permanece amorfo e dissolvido, sem outro liame entre si, a não ser a comunhão da língua, dos costumes e do servilismo. [p. 13]

Tal atitude, praticamente revolucionária naquele ambiente canhestramente conservador, logo levanta contra ele problemas e animosidades que são destacados na biografia de Omer Mont’Alegre: “a sua indisposição com o meio vinha do choque com a aristocracia açucareira; tornou-se logo em advogado dos humildes contra o poderia dos ricos; e nos seus jornais não poupava a pele dos que lhe caiam em desagrado. Tinha bastante razões, pois, para se indispor com o meio...” [op. cit., p. 191] Continua esse biógrafo: “Examina [Barreto] a situação particular do município, dividido em classes, em castas, cheio de privilégios; e prevê: o município, a província, o país inteiro, anseia a vinda de qualquer grande acontecimento: ‘não sei qual seja, mas ele há de vir’.” [p. 192]
Nesse mesmo discurso feito no Clube Popular Escadense, depois de tecer considerações sobre a célebre trilogia da Revolução Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade –, Barreto revela uma percepção já meridianamente clara sobre a tensão natural entre os dois primeiros conceitos:
A liberdade entregue a si mesma, à sua própria ação, produz naturalmente a desigualdade, da mesma forma que a igualdade, tomada como princípio prático, naturalmente produz a escravidão. (...) A igualdade é aquele estado da vida pública, no qual não se confere ao indivíduo predicado algum particular, como não se lhe confere particular encargo. Igual dependência de todos, ou igual sujeição de todos. O mais alto grau imaginável da igualdade – o comunismo, – porque ele pressupõe a opressão de todas as inclinações naturais, é também o mais alto grau da servidão. A realização da liberdade satisfaz ao mais nobre impulso do coração e da consciência humana; a realização da igualdade só pode satisfazer ao mais baixo dos sentimentos: a inveja. Que uma e outra não se harmonizam, que são exclusivas e repugnantes entre si, prova-o de sobra a revolução francesa, que tendo começado em nome da liberdade, degenerou no fanatismo da igualdade, e reduziu-se ao absurdo nas mãos de um déspota. [Tobias Barreto. Um Discurso em Mangas de Camisa, op. cit., pp. 22-23]

O Partido Liberal inclui o seu nome, em 1878, na composição da chapa para deputados estaduais, e ele resulta eleito; o Partido Conservador, após longo domínio, havia sido apeado do poder, e com isso a verificação dos poderes também mudara de lado. Mas ele foi um liberal contra o partido, pois lutava pelos direitos da mulher, pela reforma das instituições. Um de seus artigos, no jornal que ele mesmo fundou, chamado Contra a Hipocrisia, revela-se especialmente contundente naquele contexto:
Eu desejo a abolição de todas as instituições caducas, que são outras tantas afrontas à dignidade do homem; desejo a extinção de todas as excrescências, de todos os órgãos rudimentares e deturpantes da sociedade humana. Neste caso, está sem dúvida a escravidão. Porém, entendamo-nos, neste caso também está a monarquia. [Mont’Alegre, p. 205]

Num dos discursos na Assembleia de Pernambuco, em 22 de março de 1879, Tobias luta pela educação das mulheres, pregando a sua admissão nas faculdades de medicina, a exemplo do que já ocorria em determinados países:
É de esperar, e eu espero da assembleia, eu comece desta vez a abrir a porta da ciência ao belo sexo de Pernambuco, que muito necessita de instrução: e talvez seja esta mesma a mais urgente necessidade da província. [“Educação da Mulher”, in: Tobias Barreto, Estudos de Sociologia. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1962; p. 87]

Um dos projetos apresentados em sua rápida carreira parlamentar visava justamente a criação no Recife de um estabelecimento de ensino dedicado especialmente ao sexo feminino. Segundo ressalta Godoy, em relação a esse debate:
Em passo interessante de nossa história parlamentar, Tobias adiantou uma reflexão comparativa entre homens e mulheres, concluindo que mulheres deteriam mais disposições naturais do que os homens para a dedicação aos estudos. Afirmava que não negava que nas mulheres havia predomínio da sentimentalidade, mas justificava a assertiva justamente porque, alegava, a educação feminina era essencialmente uma educação sentimental. Por isso, era o argumento de Tobias, a sentimentalidade feminina era o resultado da educação, e não uma predisposição natural. [Godoy, Tobias Barreto, op. cit., p. 65]

Não surpreende que, nas eleições seguintes, o Partido Liberal o tenha excluído da chapa; não voltou mais à política. O mesmo Arnaldo Godoy discute amplamente as posturas políticas de Tobias Barreto, assim como seu suposto republicanismo:
Tobias enfrentava os chefes políticos de Recife que impunham listas fechadas a todo o interior. Os caciques da política pernambucana deixavam poucas opções para os eleitores. No caso de Escada, domicílio eleitoral de Tobias, os nomes já vinham prontos da capital. Havia uma disciplina partidária que incomodava Tobias, que defendia maior discricionariedade do eleitorado, no sentido de escolher efetivamente os políticos com os quais queria se comprometer. Ainda que essa forma autoritária de fazer política não fosse exclusiva de Escada, era mesmo nacional. Criticava os chefes do partido, as imposições que se faziam aos eleitores, ainda que sua ascensão se tenha dado exatamente dentro dessa moldura, então denunciada.
Curiosamente, não discutia a troca de regime. Definitivamente, Tobias não era um republicano. [idem, pp. 69-70]

Mais adiante, na sua magnífica biografia intelectual daquele que foi chamado de “feiticeiro da tribo” – segundo a designação de Paulo Mercadante –, desta vez apoiado em biografia elaborada pelo jurista Hermes Lima, quando do centenário do nascimento de Tobias Barreto, Godoy retoma sua postura em relação aos dois grandes problemas do final do Império, a abolição e o regime republicano:
Lima... tocou [em seu livro Tobias Barreto: a época e o homem] no delicado assunto relativo às atitudes de Tobias para com a escravidão; lembrou que Tobias possuía escravos e que deliberadamente ignorou o problema social da escravidão. O filogermanismo de Tobias de igual modo chamou a atenção de Lima... (...) A força e a disciplina da cultura alemã teriam reforçado uma hostilidade que Tobias nutria para com os dogmas liberais. Tobias viveu os anos mais intensos da propaganda republicana; no entanto, também registra Hermes Lima, ‘(...) Tobias nada escreveu por onde se pudesse inferir, de sua parte, sequer uma vaga simpatia republicana.’
Comparado com Rui Barbosa, por exemplo, que era abolicionista e republicano, Tobias revela-se como absolutamente apático para com os dois grandes problemas de seu tempo, em relação aos quais seu filogermanismo não ofereceu nenhuma munição para expressar seus pontos de vista, se é que os tinha nesses delicados temas, ainda que, prossegue Lima, ‘nem a monarquia lhe pareceu signa de defesa, nem a república de adesão’. [Godoy, op. cit., pp. 183-84]

Arnaldo Godoy termina seu apelo à biografia de Tobias por Hermes Lima sintetizando os traços mais característicos da personalidade irreverente do germanista nordestino:
O Tobias da obra de Hermes Lima é cético, irreverente, diferente. De acordo com essa leitura, Tobias permanentemente rompia com as concepções dominantes, ‘insubmisso aos moldes vigentes, constituindo, por isso mesmo, um desaforo, quase um escândalo’. O desaforo e o escândalo são, de fato, características recorrentes na trajetória de Tobias. [idem, p. 185]

As críticas de Tobias Barreto à monarquia eram relativamente bem conhecidas dos contemporâneos, assim como suas diatribes contra representantes da Igreja católica, como refletidas num discurso de paraninfo, já como professor no Recife. Arnaldo Godoy, em sua biografia intelectual completíssima, sintetiza uma vez mais o lado crítico de Tobias Barreto:
Esse discurso acentuava as características iconoclastas de seu pensamento. Tobias era um destruidor de mitos e verdades pré-estabelecidas. Chama a atenção em Tobias a atitude iconoclasta e crítica que manifestou para com algumas instituições, a exemplo do poder moderador, bem como para com ilustres personalidades do Império, a exemplo de José de Alencar, Joaquim Nabuco, Zacarias de Goes e Vasconcelos, Visconde do Uruguai, Pimenta Bueno, Coelho Rodrigues, Tavares Bastos, aos ministros de D. Pedro II em geral, assim como ao próprio Imperador. [idem, p. 124]

Sua postura, durante todo o seu percurso intelectual, quer na política, quer na vida acadêmica, sempre foi invariavelmente crítica, seja em relação ao ambiente em que vivia, seja em relação aos próprios grandes mestres que analisava em suas obras. Como sublinha Godoy, mesmo antes de ingressar na Faculdade de Direito do Recife, “Tobias dividia as opiniões, provocando, ao mesmo tempo, uma crítica feroz e uma defesa apaixonada e radical” [idem, p. 75]. Invariavelmente, destoava do meio intelectual que lhe era dado contemplar. Por exemplo, na sua “Recordação de Kant”, incluída nas Questões Vigentes de Filosofia e de Direito – uma das poucas obras que publicou em vida, em 1888, ou seja, um ano antes de falecer –, começa por um argumento depreciativo sobre a pouca propensão de seus colegas pela reflexão filosófica:
Não há domínio algum da atividade intelectual, em que o espírito brasileiro se mostre tão acanhado, tão frívolo e infecundo, como no domínio filosófico.
É certo que todas as outras manifestações da nossa vida espiritual dão também testemunho de uma singular e incomparável fraqueza. Mas é sempre dar testemunho de alguma coisa. Um certificado de doença é em todo caso menos triste que um certificado de morte.
Assim, não temos poetas, nem artistas de merecimento; mas a poesia e as artes se cultivam entre nós. Não podemos lisonjear-nos de possuir um só jurista de estatura europeia, ...; porém ao menos é certo que o direito constitui uma das nossas mais constantes ocupações intelectuais.
Ciência, história, literatura – tudo isto é muito fútil; mas seria uma injustiça querer exprimir tudo isto por meio de uma fórmula absolutamente negativa. No fundo da crítica fica sempre algum resíduo, que ainda pode servir de fermento a mais sérias e mais dignas produções futuras.
Com a filosofia o caso é bem diverso. Se nas outras esferas do pensamento, somos uma espécie de antropoides literários, meio-homens e meio-macacos, sem caráter próprio, sem expressão, sem originalidade, – no distrito filosófico é ainda pior o nosso papel: não ocupamos lugar algum, não temos direito a uma classificação. [Tobias Barreto, Obras Completas, IX, Questões Vigentes. Rio de Janeiro: Edição do Estado de Sergipe, 1926, pp. 245-6]

Em todo caso, sua crítica não se dirige apenas aos brasileiros e sua pouca aptidão para a reflexão filosófica. Numa longa nota de rodapé ao mesmo ensaio “Recordação de Kant”, Barreto acusa Auguste Comte de nunca ter lido Kant e de, ainda assim, “falando de oitiva”, ousar interpretar equivocadamente o autor da Crítica da Razão Pura (op. cit., pp. 253-54). Tobias Barreto possuía uma predisposição natural para a polêmicas, tanto é assim que um volume inteiro de suas obras completas, o segundo da série, de 426 páginas, tem justamente por título Polêmicas. Arnaldo Godoy menciona duas outras peculiaridades de Tobias Barreto, que seriam a “vaidade incontida e soberba intelectual ilimitada”. [Godoy, Tobias Barreto, op. cit., p. 26]
Sua trajetória de professor, brilhante e também sujeita a várias polêmicas, foi precocemente interrompida pela doença, aparentemente de “lesão cardíaca” [Jornal do Recife, 27/06/1889; apud Godoy, p. 154]; ele vem a morrer aos exatos cinquenta anos, deixando na miséria sua mulher e nove filhos. O governo de Sergipe, desejoso, ainda que tardiamente, de homenagear tão distinto filho – depois de transladar, em 1920, seus restos mortais do cemitério Santo Amaro, no Recife, para uma praça de Aracaju, que recebeu o seu nome –, tratou de mandar editar, em 1923, as obras completas de Tobias Barreto. Arnaldo Godoy é quem oferece, nas Considerações Finais de sua estupenda biografia de Tobias, uma excelente avaliação sintética sobre um dos personagens mais extraordinários do pensamento político brasileiro, na verdade da inteligência e da cultura brasileira do último século e meio:
Definido como um Rousseau às avessas por um de seus biógrafos, Tobias foi um pessimista moldado por intenso realismo, o que somente ocorre com aqueles que conhecem as vicissitudes da vida e que sabem que entre as canduras das promessas da metafísica e os acidentes da vida real há uma distância que, percorrida, nos imprime dolorosamente o verdadeiro sentido da existência. Essa tensão é permanente nas ambiguidades que Tobias viveu com a religião. Incrédulo, era ao mesmo tempo um estudioso das sutilezas teológicas, um oponente de padres obtusos, um benemérito de ordens religiosas, um atento e disciplinado leitor das Escrituras.
Foi, enfim, como ele mesmo percebeu, a serpente que deveria matar a serpente: a força foi sua condição de existência, o meio hostil sua razão de luta pela sobrevivência, a autoimagem o resultado de sua insurgência. [p. 256]

Em 1925, o jornal O País, do Rio de Janeiro, transcreveu em sua edição de 7 de julho de 1925, o rascunho das “Notas a lápis”, que Barreto havia rabiscado num caderno de 1872, posteriormente incluídas em edições diversas de suas obras, algumas delas dignas de reflexão ainda em nossos dias:
Parece que cada povo deve ter sua liberdade política, isto é, que cada um deve entendê-la a seu modo.
Qualquer obra deve conter, para ser apreciada, ou fatos novos, ou novamente descobertos, ou princípios novos ou novas observações sobre princípios já conhecidos; brilhando em todos esses pontos a verdade.
A Alemanha ensina a pensar e a França a escrever.
Se a igreja ainda luta com a ciência, é que esta não chegou a uma altura bastante para impor silencio à sua adversária.
Um povo que ama a liberdade, infalivelmente há de produzir de si mesmo a forma sob a qual ela se lhe torne familiar.
O desgosto da vida não é mais do que a incapacidade de criar um ideal.
Os escritores que não têm ideias próprias são como os que não têm capital e tomam emprestado a um para negociar com outros.
O Estado quer saber se os meninos aprendem – e por que, antes, não procura saber se eles comem?
A razão é tão incompetente para corrigir as ilusões do coração como os ouvidos para corrigir as ilusões do olfato.
Eu não sou bastante forte para fazer à minha imagem e semelhança a sociedade em que vivo; mas esta, por sua vez, não é também bastante forte para me levar em sua corrente. Daí uma eterna irredutibilidade entre nós.
Um dia virá em que a escola dar-nos-á mães e esposas republicanas e reanimará o vigor dos costumes sem os quais não pode existir um povo verdadeiramente grande. [“Notas a lápis”, in: Tobias Barreto, Estudos de Sociologia, op. cit.; pp. 283-86]

Finalmente, numa coleção de avulsos, retirados de uma preleção feita em 5 de julho de 1884, e coletados no volume X de suas Obras completas: Vários escritos, pode-se ler esta pérola sintética que certamente fará pensar mais de um diplomata, mas recolhendo provavelmente o pleno assentimento de um soldado:
A soberania é um fato, não é um direito. [idem, op. cit., p. 277.]

Se ele foi, ou não, um dos fundadores de uma propalada “Escola do Recife” essa é uma questão a ser debatida entre especialistas, não apenas do Direito, mas da cultura, de modo amplo. A certeza que se pode ter, ao cabo deste exame perfunctório sobre sua extraordinária trajetória intelectual, é que Tobias Barreto constituiu, ele mesmo, uma escola singular no contexto da cultura brasileira do último terço do século XIX, um trabalhador intelectual que construiu, ele próprio, uma escola de inteligência em quase nenhum aspecto similar ao que se tinha no Brasil daquele época. Ele foi único naquele ambiente cultural e jurídico, mas de certa forma continua único, inclassificável na nossa “República das Letras”; um acadêmico dissidente, iconoclasta, que se insurgia contra a academia e contra o establishment de modo geral. Como bem resumiu Arnaldo Godoy no subtítulo de sua biografia, foi um intelectual insurreto. Sem dúvida! Tobias Barreto continua vivo, aos 180 anos do seu nascimento e aos 130 anos de sua morte.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 16 de junho de 2019

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Posse no Itamaraty: resumo da imprensa

Posse do novo Chanceler em 2/01/2019

Araújo critica globalismo na política externa brasileira
02/01/19 - 21h07
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O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou nesta quarta-feira, 2, ao assumir o cargo, que pretende implementar uma política comercial “adequada aos dias de hoje” e não presa ao “globalismo para agradar outras nações”.
“Os acordos comerciais que o Brasil acertou no passado ou que ainda está discutindo partem de um princípio de submissão. Devemos negociar (com outros países) a partir de uma posição de força”, afirmou. “O Itamaraty voltou porque o Brasil voltou.”
Na fala, Araújo fez mais um aceno à política externa americana, ao dizer que vai dar o apoio à reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC). O pleito é um dos principais de Donald Trump, que enviou seu secretário de Estado, Mike Pompeo, à posse de Jair Bolsonaro. No mesmo sentido, o chanceler disse que vai apoiar na ONU as agendas do Brasil e não das ONGs.
Elogios a Israel e Estados Unidos
Araújo elogiou no discurso de posse do seu cargo as políticas externas dos Estados Unidos, de Israel, e de países europeus, como a Itália, a Hungria e a Polônia.
Ao defender uma diplomacia brasileira preocupada com questões nacionais e contra o globalismo, Araújo disse que admira o “exemplo de Israel, que nunca deixou de ser nação mesmo quando não tinha solo”. Daí adiante, citou os Estados Unidos, do presidente Donald Trump, e os países latino-americanos que, segundo ele, se “livraram do Foro de São Paulo”. O novo chanceler disse também admirar a “luta do povo venezuelano contra a tirania de (Nicolás) Maduro”.
Araújo disse admirar ainda as chancelarias italiana, húngara e polonesa. Os três países têm em comum o fato de ter tido uma guinada à extrema-direita nos últimos anos. “Nós admiramos aqueles (países) que se afirmam”, comentou.
Mesmo sem citar nominalmente chanceleres anteriores a ele, Araújo disse que se arrisca a dizer que a “diplomacia brasileira estava fora de si mesma”. “O Itamaraty não pode achar que pode ser melhor que o Brasil. Estou certo de fazer o Itamaraty mais fiel a si mesmo e ao Brasil”, afirmou.
Araújo fez uma série de menções em seu discurso. Falou de Renato Russo, Raul Seixas, da emissora americana CNN e citou, em grego, o versículo bíblico “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, do Evangelho de São João. Além disso, ele leu, em tupi, a Ave Maria.
Na avaliação dele, as pessoas que apoiam o globalismo estão “tentando afastar o homem de Deus e é contra isso que nos insurgimos”. Araújo disse também que a luta pessoal dele é “pela família e pela vida”, consonante com os princípios do presidente Jair Bolsonaro.

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Ernesto Araújo diz que parceria com EUA é 'por uma ordem internacional diferente'

O diplomata Ernesto Araújo, escolhido por Bolsonaro para o ministério das Relações Exteriores
Eduardo Rodrigues Brasília 02/01/2019 10h53

Após encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, disse há pouco que os chefes das diplomacias nos dois países conversaram sobre como trabalhar juntos por uma "ordem internacional diferente". Segundo ele, o Brasil se alinhará com países grandes e pequenos que comunguem dos mesmos ideais brasileiros. "Tive uma excelente conversa com Mike Pompeo sobre termos... –

Pompeo avaliou que as expectativas do povo brasileiro com o governo de Jair Bolsonaro são altas e disse que pode perceber isso ao ver milhares de pessoas acompanharem a posse presidencial ontem na Praça dos Três Poderes. "Estamos comprometidos para trabalhar ao lado do governo brasileiro na área econômica, mas também na área de segurança", disse Pompeo. Enquanto Araújo apontou que os dois governos irão trabalhar juntos "pelo bem e por uma ordem internacional diferente", Pompeo foi mais incisivo ao afirmar que a parceria se dará "contra os governos autoritários do mundo". Questionado sobre a mudança de alinhamento ideológico da diplomacia brasileira e se não haveria um "exagero" n... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2019/01/02/ernesto-araujo-ve-parceira-com-os-eua-por-uma-ordem-internacional-diferente.htm?cmpid=copiaecola


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Ernesto Araújo fala em “ordem internacional diferente”

Segundo o chanceler, o Brasil se alinhará com países grandes e pequenos que comunguem dos mesmos ideais brasileiros

Após encontro com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, disse há pouco que os chefes das diplomacias nos dois países conversaram sobre como trabalhar juntos por uma “ordem internacional diferente”. Segundo ele, o Brasil se alinhará com países grandes e pequenos que comunguem dos mesmos ideais brasileiros.
“Tive uma excelente conversa com Mike Pompeo sobre termos uma parceria mais intensa e elevada com os EUA. Temos várias ideias concretas que começamos a discutir sobre a parceira com o governo americano e vamos discutir nos próximos meses”, afirmou o chanceler brasileiro. “Estamos no começo de uma nova etapa nas relações com os EUA, que será muito produtiva. Iremos gerar empregos e oportunidades de negócios e novas iniciativas em todas as áreas”, completou.
Pompeo avaliou que as expectativas do povo brasileiro com o governo de Jair Bolsonaro são altas e disse que pode perceber isso ao ver milhares de pessoas acompanharem a posse presidencial ontem na Praça dos Três Poderes. “Estamos comprometidos para trabalhar ao lado do governo brasileiro na área econômica, mas também na área de segurança”, disse Pompeo.

Enquanto Araújo apontou que os dois governos irão trabalhar juntos “pelo bem e por uma ordem internacional diferente”, Pompeo foi mais incisivo ao afirmar que a parceria se dará “contra os governos autoritários do mundo”.
Questionado sobre a mudança de alinhamento ideológico da diplomacia brasileira e se não haveria um “exagero” na aproximação de alguns países em detrimento de outros, Araújo respondeu que é possível aliar diplomacia e interesses econômicos.
“O Brasil está se realinhando consigo mesmo, com seus valores e com o povo brasileiro. Nos aproximaremos de grandes e pequenos países que comungam dos nossos ideais. O Brasil tem que se colocar como um país grande, e um país grande não precisa renunciar aos seus valores para criar oportunidades comerciais”, considerou.
Para Pompeo, as nações tendem a trabalhar melhor juntas quanto compartilham valores, e o povo americano compartilha com o povo brasileiro os mesmos valores de democracia e liberdade. “Vi uma transição de governo pacífica ontem, e isso não acontece em todos os lugares do mundo. As pessoas em Cuba, Venezuela e Nicarágua não têm essa oportunidade”, afirmou, após dizer que deseja que a democracia retorne à Venezuela.
Perguntado sobre a afirmação de Donald Trump de que era “difícil” fazer negócios com o Brasil, Pompeu respondeu que o presidente norte americano considera importante que as relações econômicas sejam conduzidas de maneira transparente. “Transações comerciais devem se basear na economia e não serem direcionadas por razões políticas”, explicou.
A imprensa internacional ainda perguntou se o governo americano teria alguma preocupação com a possível redução da proteção aos direitos humanos no Brasil, dado o discurso de Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Pompeo deixou Araújo responder primeiro, e o chanceler brasileiro garantiu que não há razão para temer uma diminuição da proteção aos direitos humanos no Brasil.
“Isso é um resquício da campanha eleitoral. O compromisso do governo brasileiro com os direitos humanos é absoluto. Inclusive queremos aumentar a proteção a alguns direitos que não estão sendo defendidos”, enfatizou.
O secretário americano então acrescentou que os EUA são consistentes em defender os direitos humanos em todo o mundo. “A conversa na manhã de hoje mostrou que Brasil está comprometido com os direitos humanos”, concluiu.

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Análise: com Araújo, Bolsonaro faz uma de suas apostas mais arriscadas

Novo chanceler assume com discurso religioso e de alinhamento com Estados Unidos e Israel. Movimento quebra tradição do Itamaraty

A chegada de Ernesto Araújo, com 51 anos, ao posto máximo da diplomacia brasileira representa uma das maiores apostas do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Pelas declarações e gestos feitos desde sua indicação, o novo chanceler tem a intenção de protagonizar uma das maiores guinadas da política externa do país.
No encontro que teve na manhã desta quarta-feira (2/1) com o secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, Araújo avançou na retórica da formulação de uma “ordem internacional diferente”. Nesse caminho, o Brasil se alinharia a “países grandes e pequenos que comunguem dos mesmos ideais brasileiros”.
Os rumos apontados pelo ministro das Relações Exteriores, pelo dito antes da posse, representam o rompimento com a tradição da diplomacia praticada desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Desde a década de 1950, quando o Itamaraty formulou a Política Externa Independente (PEI), prevalece a orientação de pluralismo nas relações internacionais.
No início da ditadura, o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco tentou adotar a “teoria dos círculos concêntricos”, idealizada pelo general Golbery do Couto e Silva, que privilegiava a aproximação com o bloco ocidental, encabeçado pelos Estados Unidos.
Em pouco tempo, a estratégia de Castelo Branco fracassou diante da realidade. O pragmatismo das relações comerciais das empresas brasileiras com países de todos os blocos prevaleceu frente aos interesses políticos dos militares.
No caso de Araújo, pesam as desconfianças por se tratar de um diplomata inexperiente no circuito internacional. Também soam exóticas suas declarações de cunho religioso, com a de que a “divina providência” teria unido o filósofo Olavo de Carvalho ao presidente Jair Bolsonaro. Pelo observado até agora, o viés religioso tem tudo para se transformar em um dos pontos de tensão dentro do Itamaraty.
O homem escolhido por Bolsonaro para comandar a política externa também promete “combater” o que chama de “marxismo cultural”, expressão com a qual define as concepções aplicadas pelos governos do PSDB, do PT e do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Também surgem como novidades intrigantes a aproximação ostensiva com os primeiros-ministros de Israel, Benjamin Netanyahu, e da Hungria, Viktor Orban, expoentes da direita internacional. Esse é uma opção que afasta o Brasil de países com quem o setor privado nacional mantém sólidas e lucrativas transações comerciais, principalmente no mundo árabe.
Araújo terá tempo para provar se é uma aposta acertada de Bolsonaro. Para isso, terá de se mostrar capaz de quebrar a tradição de pluralidade do Itamaraty e, mais importante, demonstrar que essa guinada é boa para o país.
Sob outro ângulo, a ascensão de Araújo provoca certa curiosidade sobre como será a atuação dos diplomatas e dos oficiais de chancelaria às novas orientações. Na época da ditadura, quando foram postos à prova de servir a um governo autoritário, muitos reagiram contra abusos e foram até punidos. Outros se adaptaram.
Agora, trata-se de uma democracia. Mas o choque cultural, com tom religioso, parece mais violento do que no golpe de 1964.
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Discurso ideológico de Bolsonaro contra o "socialismo" do Brasil

Presidente do Brasil reafirmou que quer "se libertar do socialismo", defender "a tradição judaico-cristã", conservar valores e "combater a ideologia de género".
António Rodrigues
antoniorodrigues@newsplex.pt

Michelle Bolsonaro quebrou o protocolo e discursou antes do presidente, em linguagem gestual, mas o seu vestido fazia lembrar o de Melania Trump na tomada de posse do presidente dos Estados Unidos e o discurso de Jair Bolsonaro assemelhava-se ao do seu ídolo Trump, afirmando-se não ideológico, mas sendo absolutamente ideológico: “É com humildade e honra que me dirijo a todos vocês como presidente do Brasil. E me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, se libertar da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”. Até não faltou, tal como com Trump, uma polémica à volta da quantidade de pessoas presentes. As informações que circulavam em Brasília davam conta de um número entre 250 mil e 500 mil pessoas, afinal, os números oficiais do Gabinete de Segurança Internacional falam em 115 mil pessoas. Mais do que Dilma Rousseff, mas inferior a Lula da Silva.
Quem estava à espera de um acalmar de ânimos, um discurso mais moderado e inclusivo agora que a campanha acabou e se torna mesmo presidente do Brasil, ouviu um Bolsonaro a falar mais para as massas que o elegeram: “Vamos unir o povo, valorizar a família, respeitar as religiões e nossa tradição judaico-cristã, combater a ideologia de género, conservando nossos valores. O Brasil voltará a ser um país livre das amarras ideológicas.”
Como escreve Juan Arias, na edição brasileira do “El País”, “é como afirmar que aqueles que defendem, em seu direito democrático, os valores que não são os da extrema direita, não cabem mais no Brasil”. Por isso, o novo presidente, “em vez de unir o país em uma esperança comum de convivência, ele o arrasta e incita a continuar não apenas dividido, mas a abrir uma guerra ideológica mais perigosa do que a que tenta combater”.
Desde Washington, Donald Trump foi rápido a reagir no Twitter, saudando Bolsonaro pelo seu “grande discurso de posse”, acrescentando um “os EUA estão contigo!” Mensagem que o presidente brasileiro se apressou a agradecer: “Juntos, com a proteção de Deus, traremos mais prosperidade e progresso a nossos povos”.
O novo ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, garantiu esta quarta-feira que o Brasil e os EUA iniciam uma nova etapa nas relações, como aliás deixou claro na reunião com o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, com quem se reuniu em Brasília.
“Estamos no começo de uma nova fase que será muito produtiva, tenho certeza, na relação entre Brasil e Estados Unidos”, afirmou Araújo. “Aproveitando muito trabalho que já foi feito, mas criando uma dimensão muito mais intensa na nossa relação”. Nas suas primeiras declarações como chefe da diplomacia brasileira, Araújo sublinhou que ele e Pompeo trocaram ideias sobre “como trabalhar juntos pelo bem, por uma ordem internacional diferente, que corresponda aos valores dos nossos povos”.
Se Trump não esteve presente na tomada de posse, para tristeza do novo chefe de Estado, a lista de presenças e de ausências na cerimónia da tomada de posse em Brasília, também serve de perceção sobre o futuro das relações entre este novo Brasil e o mundo. Sebastiãn Piñera, o presidente chileno de direita lá estava, mas faltava Mauricio Macri, outro homem da direita com quem Bolsonaro gostava de realinhar uma nova aliança latino-americana, só que o presidente argentino torce o nariz ao esvaziamento do Mercosul que o seu homólogo brasileiro pretende. Também estava Evo Morales, o presidente boliviano que, apesar de ser de esquerda, precisa de negociar a venda de gás boliviano com o novo mandatário.
Por falar em negócios, o alinhamento do Brasil com Israel, a possibilidade de Bolsonaro também mudar a embaixada para Jerusalém, seguindo o exemplo dos EUA, fez com que Benjamin Netanyahu passasse cinco dias no país em contactos de alto nível. O primeiro-ministro israelita até deu uma entrevista à Record, a televisão oficial do governo Bolsonaro, onde falou nos dois países como irmãos. Um alinhamento que pode custar caro a Bolsonaro e levantar muitos problemas: 32 milhões de brasileiros têm ascendência árabe, fruto de uma aliança tácita com o Médio Oriente desde a viagem do imperador Dom Pedro ao Líbano em 1870. Mas, mais importante, numa altura em que a diplomacia se tornou muito mais económica que política, o mundo árabe e o Irão são grandes compradores de produtos pecuários em geral e de carne de frango em particular. Ao contrário de Israel, que pretende vender mais do que comprar.
Para já, o clima de desconfiança ou de esperar para ver reina em termos internacionais. Segundo “O Estado de São Paulo”, estiveram presentes 46 delegações na tomada de posse, um número substancialmente inferior que as 130 na tomada de posse de Dilma Rousseff, 110 com Lula e 120 com Fernando Henrique Cardoso.

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Araújo cita Anchieta, Renato Russo e Ave Maria em tupi ao assumir Itamaraty
Novo chanceler faz discurso contra a ordem global e promete 'libertar a política externa brasileira', que está 'presa fora de si mesma'
Eliane Oliveira e André Duchiade
02/01/2019 - 18:57 / Atualizado em 02/01/2019 - 23:19

BRASÍLIA E RIO DE JANEIRO - Com citações em latim, grego e tupi, e menções a Renato Russo, Raul Seixas, Dom Sebastião, que combateu os muçulmanos e não voltou, e ao padre José de Anchieta — cuja Ave Maria em tupi recitou —, o novo chanceler, Ernesto Araújo, tomou posse ontem prometendo “libertar a política externa brasileira e o Itamaraty”.

— O Brasil está preso fora de si mesmo e a política externa está presa fora do Brasil — diagnosticou Araújo, que afirmou que trabalhará “pela pátria” e “não pela ordem global”. — Queríamos ser um bom aluno na escola do globalismo e achávamos que isso era tudo. Éramos um país inferior — afirmou, citando o termo usado pela direita americana para se referir, de modo pejorativo, às instituições globais, acusadas de intervir indevidamente na soberania dos países.

No seu primeiro discurso público desde a indicação ao cargo, Araújo seguiu a tônica de seus artigos e tuítes e fez uma fala com ares românticos e grandiosos, intercalando a exaltação da redescoberta de tradições supostamente esquecidas e críticas à globalização. O chanceler também se referiu indiretamente a seus críticos, e disse que irá provar que a condução efetiva da política exterior é compatível com a carga ideológica do seu discurso.
— Um dos instrumentos do globalismo é afirmar que para fazer comércio e negócio não se pode ter ideias e espalhar valores. Com um sentido de harmonia e missão, formularemos programas para desenvolver cada relação de maneira dinâmica.
No começo de seu discurso, Araújo citou, em grego, o evangelista João — “Conheceis a verdade e a verdade vos libertará”. Escritores, como Clarice Lispector, Cecília Meireles e José de Alencar, e músicos, como Renato Russo e Raul Seixas, também foram mencionados.
Ele também apresentou três conceitos gregos que conduziram a sua exposição: o conhecimento (“gnosis”), a verdade (“aleteia”) e a liberdade (eleutheria). O chanceler afirmou que o conceito de liberdade está desacreditado no Brasil, mas que, sob Bolsonaro,  adquire nova relevância. O presidente, afirmou, libertou o Brasil e revelou a verdade sobre o país.
Para Aráujo, Olavo de Carvalho "é o grande responsável pela transformação que o Brasil está vivendo". Ele comparou o guru da direita a Dom Quixote, que, "caído a beira do caminho, começou a conversar com os passantes sobre as próprias façanhas".

Críticas ao Itamaraty

O chanceler citou meios de comunicação estrangeiros, sugerindo a seus críticos:
— Vamos ler menos Foreign Affairs e mais Clarice Lispector. Menos New York Times e mais José de Alencar. Menos CNN e mais Raul Seixas.
Ele defendeu a aliança do Brasil com países que cultivam o nacionalismo. Citou Israel, Itália, Polônia e Hungria — todos governados hoje por ultraconservadores — como nações “amadas”, assim como vizinhos latino-americanos que “se libertaram do Foro de São Paulo”. Também afirmou que combaterá o que chamou de ódio a Deus e à pátria.
— O problema do mundo hoje não é a xenofobia, mas a “oikofobia”, a rejeição ao próprio lar, ao próprio passado — disse, explicando que o termo significa “ódio ao lar”.

Araújo fez várias críticas ao Itamaraty. Segundo ele, se o Brasil está ruim, o Itamaraty não pode achar que é melhor e não fazer parte do país.
— Não tenham medo de ser Brasil. Nossa política externa vem se atrofiando, com medo de ser criticada.
Araújo disse que o Ministério das Relações Exteriores, mais do que outras instituições brasileiras, salvaguarda tradições e valores sociais, mas que este papel de protetor perdeu-se em eras mais recentes. O ministro afirmou que a recuperação deste legado é sua missão.
— Fazemos parte de uma aventura magnífica. O Itamaraty voltou porque o Brasil voltou.
As referências a medidas concretas só vieram na parte final da fala. O modelo de negociação do Itamaraty baseia-se na década de 1990 e está desatualizado, não sendo “direcionado às potencialidades concretas”, afirmou:
— Investiremos em negociações multilaterais sobretudo para a OMC, onde o Brasil entrará com peso — disse. — Hoje negociamos em uma posição de fraqueza, quando deveríamos negociar em uma posição de força.

Guinada inédita

O ministro disse que irá “arejar o fluxo da carreira”, promovendo diplomatas mais novos para posições de comando do ministério, e não se esquivou do risco de ser acusado de militarista, afirmando diversas vezes que está em uma luta.
— Não escutem o globalismo quando diz que paz é não lutar. Cautela, prudência, pragmatismo não nos ensinam para onde ir.
Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília Thiago Galvão, o discurso trouxe três aspectos importantes. Um deles foi a mensagem de que Araújo é um intelectual que gostaria de resgatar a tradição de chanceleres que pensam a política externa. O segundo é uma retomada do ocidentalismo forte, que marcou períodos como o início do regime militar. O terceiro aspecto é uma associação do Itamaraty com o sagrado, em uma releitura do que existe nos Estados Unidos.
De acordo com o professor de Relações Internacionais da FGV Oliver Stuenkel, Araújo possivelmente representa a maior guinada da história da política externa brasileira.
— Ele traz um vocabulário totalmente novo para a política externa. E a grande pergunta é como ideias que estão muito fora do mainstream serão implementadas, porque ele tem falado muito de grandes conceitos, mas muitos são bastante abstratos — afirmou.
4 COMENTÁRIOS
Eliana Teixeira 
02/01/19 - 22:42
Foi o samba do diplomata louco!!!
Luciana Guerra Malta 
02/01/19 - 22:27
É inacreditável que o chanceler de um país diga que "A cautela, prudência, pragmatismo não nos ensinam para onde ir". Tudo que contraria qualquer cânone da diplomacia. Parece realmente alguém que não se encontra em seu juízo perfeito.
Daniel Filippi 
02/01/19 - 20:59
O Brasil tornou-se um exemplo fantástico para compreender a história do século XXI, sofreremos nós. Mas, a realidade é que estamos contemplando a possibilidade da pós-verdade no Estado, cada um molda o mundo como lhe interessa, tudo é possível e nada é razoável.
Jenny Raschle 
02/01/19 - 19:24
Este senhor tem uma mente irracionalmente doentia, pretende um projeto pessoal a partir de uma doutrinacao doentia , distante de uma politica de inserçao do pais harmonica e construtiva .