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quarta-feira, 13 de maio de 2020

O Brasil dos generais? - Aylê-Salassié F. Quintão (Chimbo Gordo)

O COMANDO DOS GENERAIS

AYLÊ-SALASSIÊ QUINTÃO

Chumbo Gordo, 29/04/2020

… Agora, apesar dos sucessivos pedidos de impeachment contra o atual Presidente, o Palácio do Planalto, centro do Poder do Estado, tornou-se habitat de militares de alta patente, comandados por um capitão proscrito.  O capitão não dá vez aos generais. Demite-os sem mais, nem menos, e cobra alinhamento às suas loucas atitudes e pensamentos confusos. Parece mesmo uma desforra…
Um marechal? Não, não existe mais. É um capitão, que saiu pela porta dos fundos das forças armadas, quem agora   comanda generais de quatro estrelas no Brasil. Sua força vem dos 57 milhões de votos, mas a persistência, que nesse momento, diante de um cenário totalmente adverso, é o que conta. Parece ser a manifestação explícita de um Ego ferido pela interrupção compulsória da carreira militar, há 20 anos, por desobediência e insubordinação.
Fala mais alto um Ego inflado e, aparentemente, ressentido que a vitória nas urnas, em 2018, entregue de bandeja pelos concorrentes de oposição. No esforço de perpetuar-se no Poder, vinham confundindo a população com falsos candidatos, falsas retóricas e falsos programas sociais.  O viés permite inferir que a insistência nesse caminho conduziu o retorno dos militares.
Agora, apesar dos sucessivos pedidos de impeachment contra o atual Presidente, o Palácio do Planalto, centro do Poder do Estado, tornou-se habitat de militares de alta patente, comandados por um capitão proscrito.  O capitão não dá vez aos generais. Demite-os sem mais, nem menos, e cobra alinhamento às suas loucas atitudes e pensamentos confusos. Parece mesmo uma desforra, fruto de uma personalidade duvidosa.
Aliás, vale lembrar que esse encolhimento da autoridade dos generais, já vinha ocorrendo desde a criação do Ministério da Defesa, no governo do cientista presidente Fernando Henrique, seguida da designação de civis, antes condenados na Justiça, para dirigi-lo. A própria ex-presidente guerrilheira Dilma Rousseff, ordenou um general sair de um elevador no Planalto, porque ela queria descer sozinha para a garagem.
O quartel de comando do Exército no Planalto reúne, hoje, alguns dos principais  oficiais superiores das forças armadas : os generais  Braga Neto, ex-chefe da intervenção contra a violência no Rio de Janeiro, agora chefe da Casa Civil; o general da ativa Luiz Eduardo Ramos , chefe da Secretaria de Governo; o general da reserva Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional; o major da reserva da Polícia Militar, Jorge Oliveira, chefe da Secretaria Geral Presidência; o almirante Flávio Rocha, chefe da secretaria de Assuntos Estratégicos. Lá estão ainda o vice-presidente, general Hamilton Mourão, que hoje chefia um vazio Conselho da Amazônia Legal.
            A    nomeação, para o Ministério da Defesa, do general Fernando Azevedo, que passou um tempo assessorando a presidência do Supremo Tribunal Federal, pretende dar a impressão de que as Forças Armadas assumiram uma nova postura. Desde a posse do presidente capitão, os generais insistem em vender a versão de que este é um governo com militares, mas não dos militares. Com a chegada de Braga Netto, essa ilusão acabou. Ele, que gosta de planejamento, já apresentou até um plano estratégico de recuperação da economia, chamado Pró-Brasil, quase que desqualificando os esforços do Ministério da Fazenda.
… A questão é saber até quando os generais vão conviver neste cenário. Eles tem medo dos eleitores de Bolsonaro que, provavelmente, já não são mais 57 milhões de cidadãos. Mas o Congresso não tem esse constrangimento, porque também foi votado…
Esses oficiais no Poder entendem que é melhor tentar influenciar o governo Bolsonaro de dentro do que se omitir, e arcar com os ônus elevados à frente. A coisa assumiu tal proporção que, para alguns, o eventual fracasso do governo Bolsonaro cairia sobre os seus ombros, como ocorreu na queda do regime militar, em 1985. A presença do ex-juiz Moro no Ministério da Justiça ajudava a minimizar os ranços hierárquicos entre os militares, ao reforçar o carisma justiceiro do capitão Presidente, relação agora um pouco estremecida com a demissão de Moro.
Mas, o capitão está com tudo e não está prosa. Será?
A explicação não vem das forças armadas, nem do Tribunal Superior Eleitoral, mas de Freud: a interação do ser humano com a realidade que lhe cerca, expõe publicamente a psiquê do capitão: o Ego, com  seus instintos primitivos representados pelo Id , componente nato dos indivíduos, que administra vontades e pulsões, formadas pelos instintos e desejos rudimentares. A partir do ID, desenvolvem-se as outras partes da personalidade humana: o Ego e Superego. Este expressão da impulsividade, da racionalidade e da moralidade.
As frustrações pessoais estendem-se à família que, também aparentemente, administra a governabilidade com o suposto apoio de milicianos, e não de generais. A manifestação em frente ao Forte Apache não foi convocada pelo Exército, nem por supostos seguidores.
A questão é saber até quando os generais vão conviver neste cenário. Eles tem medo dos eleitores de Bolsonaro que, provavelmente, já não são mais 57 milhões de cidadãos. Mas o Congresso não tem esse constrangimento, porque também foi votado. O Supremo Tribunal não pode dizer a mesma coisa, nem alguns ministros. Distraída pelo coronavírus, a população assiste tudo abestalhada.
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Aylê-Salassié F. Quintão* – Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília



domingo, 3 de maio de 2020

Militares no apoio a Bolsonaro: teste de autonomia

Novo ato golpista de Bolsonaro torna obrigatória explicação de militares

Cúpula fardada havia se reunido com o presidente na véspera, levando a dúvidas sobre suas intenções



folha de SÃO PAULO, 3/05/2020

O presidente Jair Bolsonaro fez seu novo ataque ao Legislativo e ao Judiciário exaltando o papel das Forças Armadas, que segundo ele estão “ao lado do povo”.
Não seria novidade, exceto por um detalhe: na véspera, o presidente havia se reunido com os três comandantes de Forças, o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, e o chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos.
No cardápio posto, segundo a assessoria de Azevedo, “uma avaliação do emprego das Forças Armadas na Operação de Combate ao Coronavírus, além de avaliação de determinados aspectos da conjuntura atual”.
O demônio mora nos detalhes, no caso os tais determinados aspectos. Segundo a Folha ouviu de interlocutores de pessoas presentes ao encontro, o Supremo Tribunal Federal foi duramente criticado pelos presentes.
O motivo, a decisão provisória de Alexandre de Moraes que inviabilizou a indicação de um amigo da investigada família Bolsonaro, Alexandre Ramagem, para a direção da Polícia Federal.
Isso significa que os generais deram amparo à nova intentona retórica do presidente? Aqui há divergências nos relatos disponíveis.
A versão majoritária apontou a crítica fardada, que de resto já tinha sido feita ao considerar Judiciário e Congresso como forças a cercear o Executivo, mas nega que o presidente tenha sido encorajado a novamente desafiar os Poderes.
Uma leitura alternativa diz que o presidente se sentiu autorizado a ultrapassar o sinal novamente.
No ato de 19 de abril, Dia do Exército, o simbolismo era óbvio, mas velado.
Neste domingo (3), Bolsonaro encheu a boca para colocar as Forças Armadas no mesmo bloco que pedia a cabeça do presidente a Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ataques ao Supremo e, de quebra, espancava jornalistas no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.
Isso abraçando na rampa do Planalto as bandeiras de Israel e dos EUA, além da brasileira, numa cacofonia caótica emulada pelas carreatas da morte vistas em algumas cidades do país.
A terceira leitura, aí feita por políticos, é a especulação acerca do entusiasmo dos militares com aventuras totalitárias.
Isso hoje é improvável. Não se imagina a atual cúpula militar brasileira apoiando fechamento de Poderes, para ficar na caracterização de golpe.
Além disso, não há apoio maciço ao governo na elite econômica, na imprensa e mesmo entre todos os ramos das Forças: Força Aérea e Marinha não têm o mesmo senso de comprometimento com a figura de Bolsonaro que o Exército, fiador de um capitão reformado e renegado.
Pior, os aviadores podem perder o único quinhão a que têm direito no governo, o Ministério da Ciência e Tecnologia, para o PSD, dentro da barganha comandada por Bolsonaro para afastar o fantasma do impeachment.
Ainda assim, a contemporização feita por alguns oficiais ouvidos pela reportagem, de que Bolsonaro se excede sem consequências, fica cada dia mais difícil de ser aceita.
Um oficial-general disse confiar que a população em geral não vê os militares como radicais do bolsonarismo. Talvez, mas a fronteira está cada vez mais turva: ele mesmo admite que a associação é provável.
Para complicar o enredo, um item altamente explosivo no cenário voltou a circular entre os observadores do panorama militar: a substituição do comandante do Exército, general Edson Leal Pujol.
O assunto foi discutido por Bolsonaro em sua reunião no sábado com os comandantes.
Nem tanto por uma troca em si, de resto estranha com o comandante tendo pouco mais de um ano no posto, mas por quem seria o indicado por Bolsonaro: Luiz Eduardo Ramos.
O general, que segue na ativa enquanto exerce a função no Palácio do Planalto, era talvez o mais bolsonarista dos integrantes do Alto Comando do Exército, a elite da elite militar.
Amigo de Bolsonaro quando ambos eram cadetes, dividindo dormitórios, ele sempre foi o número 2 de Azevedo, hoje ministro da Defesa e pivô da ala militar do governo.
Mas sua vinculação sempre foi especial com Bolsonaro. Sua eventual ida para o comando criaria exatamente o oposto do que o general otimista relatou: a ideia de um Exército liderado por uma aliado ideológico do presidente.
Procurado, Ramos negou veementemente a informação. “Não sei de onde isso saiu. Tem uns seis generais mais longevos do que eu na fila”, disse à Folha.
De fato, o general só entra no quesito longevidade para poder assumir a Força no ano que vem. Isso não foi problema no passado: Eduardo Villas Bôas não era o mais longevo ao ser escolhido comandante do Exército por Dilma Rousseff (PT) em 2015.
A retórica inflamada do presidente também tem a ver com o momento específico de seu governo, acumulando 7.000 mortos pelo novo coronavírus e sentindo a brisa do impeachment no ar.
Espectro esse que ronda o Planalto, para ficar na figura de linguagem marxista tão ao gosto do bolsonarismo raiz.
Como disse um almirante, há incertezas demais para garantir que o presidente não será alvo de um processo de impedimento, apesar de seu um terço de apoio no eleitorado.
O nome da equação se chama Sergio Moro. O depoimento de quase nove horas do ex-ministro da Justiça a ouvintes bastante familiarizados com os métodos do ex-juiz da Lava Jato apavora os bolsonaristas.
Qualquer pessoa que já tenha trocado uma mensagem de WhatsApp com Bolsonaro sabe que vulgaridades e sem-cerimônia são o padrão.
Provas que o incriminem talvez estejam no rol também, a depender de como forem interpretadas as conversas.
Isso, somado aos sortilégios que apurações sobre milícias e fake news insinuam sobre o clã presidencial, além do comportamento na condução da crise do coronavírus, alimentam o discurso de Bolsonaro.
O uso feito por Bolsonaro dos militares, ainda mais depois de estar cercado deles, explicita o real drama para a os fardados: a intrínseca conexão com a política, algo que conseguiram evitar durante boa parte do período pós-redemocratização.
O preço de imagem ainda é insondável, mas apenas o fato de serem questionados acerca de seus desígnios evidencia o tamanho do gênio que permitiram sair da garrafa ao se alinhar a Bolsonaro. Os militares terão de responder sobre o discurso golpista do presidente.

sábado, 2 de maio de 2020

Sobre a responsabilidade das FFAA e de MILITARES na atual crise de governança no Brasil - Paulo Roberto de Almeida

Sobre a responsabilidade das FFAA e de MILITARES na atual crise de governança no Brasil

Paulo Roberto de Almeida

1. Questões gerais do contexto político atual
Não pretendo, neste breve comentário, dar lições de história do Brasil em geral, sequer de história militar, e muito menos lições de moral, às FFAA enquanto corporação, ou aos militares, individualmente. Minha intenção é apenas de aprofundar, desta vez de forma conjuntural, e de maneira absolutamente impressionista, reflexões que já fiz sobre o papel da FFAA e dos militares na história política do Brasil. Agora eu o faço em relação à situação política atual, que não hesito em classificar como sendo uma crise de governança, uma das mais graves de nossa história, e isso em função exclusivamente do inepto e despreparado, e até desequilibrado chefe de Estado e de governo (para nossa infelicidade).
Acho que já deixei bastante clara, ao final do parágrafo precedente, minha opinião sobre a figura inacreditável que aflige o país e entristece a nação, pela sua total incapacidade de atuar como chefe de governo, e muito menos como chefe de Estado, e como comandante das FFAA, uma vez que não possui as qualidades mínimas para exercer tais papeis. Pode-se, eventualmente, comparar a situação atual com a crise de governança que antecedeu e sucedeu a crise anterior, aquela que se desenvolveu entre 2013 e 2016, e que até contaminou a fase seguinte de transição política, isto é, o período eleitoral e de campanha, entre 2017 e 2018.
No terceiro governo do lulopetismo, o Brasil descobriu que também tinha uma inepta na presidência da República, mas este não foi o motivo das manifestações de 2013, que começaram estimuladas pela esquerda radical, em torno da mensagem demagógica (e mentirosa) da recusa do aumento dos transportes em R$ 0,20 (os famosos vinte centavos). Os protestos logo se desdobraram em manifestações da classe média contra a corrupção no governo, que em seguida se retraiu em face das intervenções violentas de grupos organizados, ao lado de um processo eleitoral, o de 2014, altamente marcado por falcatruas, mentiras, patifarias e grande corrupção, tendo por origem o próprio partido no poder. O quarto governo estava assim comprometido desde o início, sendo inútil discutir agora se o impeachment foi, ou não, um “golpe” contra uma governante legitimamente eleita. Pode ter sido uma espécie de “golpe parlamentar” contra um dirigente inepto, e incapaz de se relacionar normalmente com o Legislativo, como foram todos os demais processos de impeachment na nossa história.
O fato é que o impeachment – sustentado em provas cabais de crimes políticos, de responsabilidade e de outras naturezas – se desenrolou no contexto da mais grave crise econômica de toda a nossa história econômica, ainda mais grave do que a recessão que se seguiu à crise de 1929, que atingiu fortemente o Brasil em 1930-31 (mas logo superada por políticas “keynesianas”, avant la lettre, do governo provisório). O que se tem hoje, depois da Grande Destruição lulopetista da economia – inteiramente determinada pela inépcia e corrupção dos incompetentes dirigentes, e não por qualquer crise internacional –, é um nova Grande Destruição, em parte determinada pelas consequências daquele legado desastroso, mas basicamente potencializada pela pandemia, com efeitos talvez ainda mais devastadores do que a anterior Grande Depressão dos anos 1930.

2. Sobre o papel das FFAA e dos militares nas crises políticas brasileiras
Não pretendo retornar ao que já escrevi em dois textos anteriores, nos quais tentei explicar-me sobre uma distinção que costumo fazer em minha visão do papel político dos militares em nossa história, uma abordagem talvez diferente do que se encontra usualmente nas análises políticas ou nos trabalhos de historiografia brasileira. Estes são os trabalhos: 
3442. “Sobre as intervenções de militares na política brasileira”, Brasília, 31 março 2019, 5+6 p. Introdução histórica e política e comentários de Mario Sabino (Crusoé, n. 48, 31/03/2019) ao texto da Ordem do Dia das FFAA a propósito do dia 31 de março. Publicado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/03/para-ler-os-militares-em-1964-e-em-2019.html). Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/s/f60c55b452/sobre-as-intervencoes-de-militares-na-politica-brasileira).
3607. “Sobre intervenções DE militares e DAS Forças Armadas na política”, Brasília, 26 março 2020, 6 p. Retomada do trabalho 3442, para atualizar em função das circunstâncias. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2020/03/sobre-intervencoes-de-militares-e-das.html).

Resumidamente posso repetir que só reconheço três, e apenas três, intervenções das FFAA na política brasileira: em 1930, em 1945 e em 1969, sendo todas as demais intervenções – 1889, revoltas militares dos anos 1920, golpe do Estado Novo de 1937, 1954-55, novas revoltas militares da era JK, e mesmo 1961 e 1964, e mais enfaticamente 1968 – foram intervenções no quadro de crises político-militares, nas quais as FFAA e militares se envolveram ou foram envolvidos, em função de dados específicos a cada conjuntura. Esta visão pode ser disputada, em bases historiográficas e de ciência política, mas eu a defendo, com base em meus critérios analíticos e minha percepção sobre a história do Brasil e sobre o papel de militares, individualmente, e das FFAA, consensualmente ou coletivamente, nessas crises que precipitaram desenlaces e rupturas constitucionais. O Brasil é mais um dos países da América Latina que apresenta notável estabilidade na instabilidade, mas sempre com uma tradição bastante diferente do caudilhismo hispano-americano, dado o legalismo dos nossos militares, que sempre procuraram cercar-se de bacharéis do Direito para legitimar suas intervenções, com raras exceções. O AI-5 é um desses exemplos de “legalismo truculento”, sendo que o “golpe” de 1969 é pura truculência, com um simulacro de legalismo (Emenda Constitucional n. 1, à Constituição de 1967).
Depois da redemocratização de 1985, os militares e as FFAA tiveram uma postura profissional e comportamentos individuais relativamente corretos, com algumas exceções, ao início e em determinados episódios, que transpareceram alguma forma disfarçada de tutela, nos primeiros anos, e depois uma atitude absolutamente profissional, mesmo em face de mudanças que podem tê-los desgostado eventualmente, como a criação do ministério da Defesa, por exemplo, ou determinadas tentativas de se examinar, e documentar, atos de militares e das FFAA na repressão da guerrilha e da oposição em geral durante o regime militar. Eles não gostaram, em outra ocasião, da aceitação do Tratado de Não Proliferação Nuclear (1968; recusado por militares e diplomatas durante 30 anos), e não sei se estavam entusiasmados, ao início, com a missão de paz no Haiti, mas a ela aderiram até com certo entusiasmo, por razões que não cabe aprofundar neste momento. Eles certamente não apreciaram o fato de terem sido deixados “à míngua” durante os dois mandatos de FHC, sem aumento de soldos ou orçamentos generosos (como aliás já tinha ocorrido durante o próprio regime militar), razão pela qual devem ter descarregado muitos votos no candidato petista em mais de uma ocasião, rejeitando os “tucanos traidores”. 
Nas crises sucessivas, de distintas naturezas, entre 2013 e 2018, tiveram, como instituição e sob responsabilidade individual, um comportamento quase inatacável, ao se dobrarem ao estrito cumprimento da lei e da Constituição, com um ou outro extravasamento do comandante do Exército naqueles episódios que poderiam configurar um agravamento da crise política (aqui sob ataque de juristas, de militantes de certos partidos, de observadores do cenário político, por interferência indevida em questão não adstritas às FFAA). Considero, pessoalmente, que esses “deslizes” políticos foram feitos em total boa-fé, e justamente na intenção de preservar a institucionalidade em horas de grande alarido político (como, por exemplo, na demanda por “lei e ordem”, quando de manifestações a favor ou contra a chefe do governo, e no decorrer do processo de impeachment) ou de graves decisões a serem tomadas pela Suprema Corte em relação ao relaxamento de um delinquente político.
Mesmo sem exibir grandes “ideólogos” – e tomo este conceito num sentido eminentemente positivo, como convém em certos contextos –, como as FFAA já tiverem em etapas anteriores (por exemplo, Castelo Branco, Golbery ou o próprio Geisel), as FFAA da atualidade apresentam uma excepcional qualidade intelectual, mercê da dedicação do próprio corpo, assim como de militares individualmente, aos estudos profissionais ou acadêmicos, o que aperfeiçoou enormemente a capacidade de reflexão e de planejamento dos documentos fundamentais da corporação: a END e seus “filhotes” demonstram essa grande qualidade intelectual (com alguns senões que já tive oportunidade de observar em textos dispersos). Não estranha, assim, que as FFAA e os militares tenham sido contemplados com altos graus de reconhecimento por parte da opinião pública, sendo legitimamente reconhecidos como uma das instituição de mais alta credibilidade no precário ranking de avaliação crítica de todas elas pela sociedade em geral. Pessoalmente, eu reconheço as FFAA e a maior parte dos militares como uma das forças mais democráticas e responsáveis dentre as instituições do Estado e dentre as burocracias públicas do país.

3. As FFAA no quadro da atual crise de governança: especulações pessoais
Se estivéssemos em 1903, Lênin perguntaria: “O que fazer?”; mas, certamente não é o caso. Não se trata de um partido dotado de um programa político claro de conquista do poder, e sim de uma força absolutamente comprometida com a manutenção da legalidade constitucional e com a manutenção de sua missão institucional. Em alguns momentos, alertas e advertências já foram veiculadas – como o comandante do Exército, por exemplo –, mas num ambiente negativamente toldado por uma atroz crise de governança, que é inteiramente determinada pela incapacidade – ou intenção deliberada e malévola – do próprio chefe de governo, sobre cujo papel e sobre cuja personalidade já me pronunciei desde a abertura deste texto. Esta é a realidade inescapável: TODAS as crises políticas criadas desde o início do presente governo – mais parecido com um desgoverno – o foram por iniciativa desse personagem totalmente inadequado para assumir com responsabilidade as prerrogativas do cargo para o qual foi eleito, mas em função de circunstâncias e de condições absolutamente excepcionais (que já não existem mais, e não mais vão se reproduzir futuramente).
Não as FFAA, institucionalmente, mas militares certamente, possuem alguma dose de responsabilidade pela ascensão do nefando personagem, uma vez que, direta ou indiretamente, deixaram transparecer, de forma explícita ou discreta, algum apoio ao candidato. Reputo que as razões – assim como no caso de largas frações da classe média – se devem bem mais ao repúdio da era petista anterior e à ameaça de um retorno da organização criminosa que dominou boa parte do cenário político brasileiro nos primeiros três lustros do século, do que propriamente a uma crença lúcida de que se tratava do personagem ideal para corrigir os desmazelos do cenário até então existente. Seja por erro de cálculo, ou por ilusão compartilhada com largos números de apoiadores circunstanciais na campanha eleitoral de 2018, as FFAA e os militares aparentaram algum patrocínio institucional ao candidato, o que, junto com os “lavajatistas” e outras correntes e movimentos em ação desde 2013, foram decisivos em sua vitória eleitoral em outubro daquele ano.
Mesmo que argumentem contra essa visão que os vincula ao candidato e, agora, ao já presidente em exercício, proclamando a continuidade de sua missão institucional, as FFAA e os militares não podem evitar uma espécie de “colusão” com o responsável principal pelo atual desgoverno e pela crise de governança que já é visível sob diferentes critérios. Isso se dá pelo número anormalmente elevado de militares da ativa e reformados em funções de governo, ainda que se alegue a assunção de tarefas públicas sob a escusa da governabilidade. Um governo tecnocrático confiaria aos militares tarefas precípuas às suas especializações profissionais, o que não é necessariamente o caso atual, em diversos exemplos verificáveis. 
Uma constatação superficial, aberta ao escrutínio de qualquer observador isento da atual realidade política brasileira, não hesitaria em classificar a situação atual como de um desgoverno, uma vez que não se tem, desde o início da presente administração, um programa de governo claramente explicitado, explicado, defendido e implementado. O que se tem, em seu lugar, são os instintos primitivos do chefe de governo, dos conselheiros despreparados e dos seus familiares igualmente desprovidos de requerimentos mínimos de governança. Tal situação compromete gravemente a imagem e a credibilidade das FFAA e dos militares em razão desse aparente apoio, que é a communis opinio da sociedade, nestas circunstâncias.
Não vou expressar minha opinião sobre o quê as FFAA e os militares deveriam fazer ante o quadro de desgovernança cabal, que não parece poder ser revertido, uma vez que a minha opinião não tem importância alguma no cenário político mais amplo, e no quadro das forças políticas em movimentação na atualidade. Eu só me permitiria recomendar aos chefes das FFAA e aos militares em geral que fizessem algum esforço de reflexão sobre o quadro futuro de sua credibilidade junto à população, ao aparentarem patrocínio a um governo que, manifestamente, não tem condições de conduzir o país à superação das atuais dificuldades.
Mais adiante poderei me expressar a esse respeito. Vale!

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 3661: 2 de maio de 2020

sábado, 11 de janeiro de 2020

Os militares e o governo Bolsonaro - Entrevista João Roberto Martins Filho (BBC)

Militares se desgastaram muito no 1º ano do governo Bolsonaro, diz cientista político

O cientista social João Roberto Martins FilhoCapes/Divulgação
O cientista social João Roberto Martins Filho, que estuda as Forças Armadas desde os anos 1980, se diz "desiludido e preocupado" com o comportamento de militares no primeiro ano de governo do presidente Jair Bolsonaro.
Apoiadores da candidatura presidencial do capitão reformado, militares formam uma ala importante do governo e conseguiram, por meio da reforma da Previdência, a aprovação de uma reestruturação de carreira que lhes trouxe benefícios — principalmente para o alto escalão. Mas eles sofreram reveses e perderam respeitabilidade ao se associarem ao governo de Bolsonaro, opina o pesquisador.

"Gostaria de acreditar que, 35 anos depois (do fim do governo militar), teríamos uma corrente democrática nas Forças Armadas que percebesse os danos que podem vir dessa associação com a política partidária. Mas não vejo isso", diz o pesquisador. 
Para ele, neste primeiro ano de forte presença militar no governo, ficou evidente a influência de fatores como corporativismo, conservadorismo e ideologia no comportamento das Forças Armadas.
"Tem gente que acha que havia um objetivo material (conseguir a reestruturação da carreira por meio da reforma da Previdência). Eu acho que o principal objetivo era voltar à política, mostrar que poderiam ajudar o governo e discretamente voltar à política. Essa era a grande aposta. Não aceitavam aquela situação prevista na Constituição de não interferir na política. O segundo ponto era retirar do governo o máximo que pudessem em termos de melhorias materiais", diz ele. 

Se conseguiram essa segunda demanda, não foram tão bem sucedidos na primeira, diz Martins Filho. "Os militares não conseguiram moderar o presidente (como esperavam), não conseguiram conter a piora da imagem externa ao Brasil."
Além disso, afirma, tiveram seus membros e seus valores atacados por colegas de governo. 
"Logo ficou claro que havia um conflito entre o bolsonarismo civil, ligado ao Olavo de Carvalho, e os generais que tinham ajudado a eleger o Bolsonaro. (...) Os generais que estavam no começo do governo foram demitidos, marginalizados ou xingados por alguém do governo. O único que ficou, e mesmo assim foi ofendido, foi Heleno [general Augusto Heleno, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional], porque se adaptou ao bolsonarismo civil. (...) Também temos casos do bolsonarismo civil atacando valores das Forças Armadas", diz ele.
O professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) é referência em pesquisas sobre o governo militar, especialmente no que diz respeito a disputas internas entre militares nesse período. Criou o Arquivo de Política Militar Ana Lagôa e foi o primeiro presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (2005-2008). 
Passou a acompanhar e escrever sobre o governo atual após a vitória de Bolsonaro, quando entendeu que sua candidatura vinha sendo gestada entre militares por cerca de dois anos. 
"Nós, que estudamos os militares, percebemos isso tudo tardiamente. (...) Assim como não previmos a politização das Forças Armadas, não previmos que o Bolsonaro trataria militares como tratou", diz o pesquisador.
Bolsonaro rodeado por repórteresREUTERS/ADRIANO MACHADO
"Militares tiveram que reconhecer que o presidente era incontrolável. Talvez pensassem que, por serem generais e ele, capitão, teriam alguma ascendência sobre ele", opina pesquisador
BBC News Brasil - O senhor é referência no estudo do governo militar. Quando e por que começou a se dedicar a acompanhar e escrever sobre o governo atual?
João Roberto Martins Filho - Com a vitória do Bolsonaro, que foi de certa maneira imprevista, fomos ver o que tinha acontecido nas Forças Armadas nos anos anteriores e ficou claro que, uns dois anos antes, as Forças Armadas passaram a considerá-lo como uma opção para uma vitória da centro-direita e começaram a se politizar.
BBC News Brasil - O que aconteceu, na sua opinião?
Martins Filho - Nós, que estudamos os militares, percebemos isso tudo tardiamente. Víamos o Villas Bôas (general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército) como um homem que achava que as Forças não deviam interferir na política. Mas não percebemos dois processos importantes. Havia generais que desafiavam a disciplina com manifestações políticas, principalmente o Heleno (general Augusto Heleno, hoje ministro do Gabinete de Segurança Institucional), mas não só ele. Então o general Villas Bôas foi mudando de posição para ficar no comando da situação, ele mesmo assumindo um discurso de crítica aos governos do PT, coisa que ele não fazia. 
Além disso, começaram a chamar Bolsonaro para participar de formaturas da Academia Militar das Agulhas Negras (escola de ensino superior do Exército que forma oficiais), onde ele fazia propaganda política e começou a ser visto como um modelo para os cadetes, o que ele nunca havia sido. Não percebemos isso no momento.
general Carlos Alberto dos Santos CruzREUTERS/ADRIANO MACHADO
General Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido do comando da Secretaria Geral da Presidência da República, um dos cargos-chave no governo, em junho
BBC News Brasil - Passado um ano, quais são suas impressões da situação dos militares no governo?
Martins Filho - Assim como não previmos a politização das Forças Armadas, não previmos que o Bolsonaro trataria militares como tratou. Logo ficou claro que havia um conflito entre o bolsonarismo civil, ligado ao Olavo de Carvalho, e os generais que tinham ajudado a eleger o Bolsonaro — eles chegaram a ter uma lista de 2 milhões de pessoas, membros das Forças Armadas e policiais, que recebiam regularmente mensagens por Whatsapp em apoio ao Bolsonaro. Não ganharam sozinhos, mas apoiaram ativamente. Então achávamos que haveria desgaste, mas não um confronto aberto. 
O que aconteceu? Eles tiveram que reconhecer que o presidente era incontrolável. Talvez pensassem que, por serem generais e ele, capitão, teriam alguma ascendência sobre ele. Os generais que estavam no começo do governo foram demitidos, marginalizados ou xingados por alguém do governo. O único que ficou, e mesmo assim foi ofendido, foi Heleno, porque se adaptou ao bolsonarismo civil. 
O Santos Cruz (general Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido do comando da Secretaria Geral da Presidência da República, um dos cargos-chave no governo, em junho), que era quem dava prestígio por causa de sua carreira, foi demitido sumariamente e de forma vergonhosa pelo presidente. Temos inúmeros casos de demissões. 
Também temos casos do bolsonarismo civil atacando valores das Forças Armadas. Olavo de Carvalho disse que a última colaboração das escolas militares foram as obras do escritor Euclides da Cunha (1866-1909), e desde então "foi só cabelo pintado e voz empostada". O ano fechou com o ministro da Educação atacando diretamente o Deodoro da Fonseca [marechal que participou da proclamação da República e foi seu primeiro presidente], que é um grande símbolo para os militares, e comparando ele a Lula. Sofreram inúmeros reveses. 
No plano internacional, o estilo de governo de Bolsonaro comprou briga com França, Alemanha, se alinhou incondicionalmente aos EUA, quase comprou briga com a China e mundo árabe ao aventar passar a embaixada para Jerusalém. Isso tudo foi colocando militares numa situação ruim porque são associados ao governo, mas é um governo muito imprevisível.
Foi um ano muito agitado. Nós que estudamos as Forças Armadas estamos profundamente desiludidos e preocupados com o que aconteceu. 
BBC News Brasil - Eles próprios foram surpreendidos?
Martins Filho - Sim, e ficaram cada vez mais comprometidos. Depois da demissão do Santos Cruz, nomearam Luiz Eduardo Ramos, general da ativa, licenciado e ex-comandante militar do Sudeste. Quando ele foi perguntado o que pensava das eleições, disse que o Exército não tem lado, que seu candidato é a pátria. Seis meses depois, disse que uma dobradinha entre Bolsonaro e Moro seria imbatível. Qualquer criança percebe que é uma declaração partidária, pela eleição do Bolsonaro. Como um general da ativa se mistura de tal forma à articulação política? Não há como dizer que o Exército não se queimaria numa situação como essa.
BBC News Brasil - Como vê a relação do Alto-Comando com o governo um ano depois?
Martins Filho - Não temos detalhes sobre isso, mas é possível dizer que havia uma grande esperança, manifestada pelo próprio Villas Bôas, mas depois da demissão do Santos Cruz, ficou muito difícil. É nítido que o Alto-Comando sentiu o baque. Há alguns sinais sutis disso. Etchegoyen [general da reserva Sérgio Etchegoyen, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência no governo de Michel Temer] disse que militares não se envolveriam mais profundamente com o governo. 
Foi nomeado como sucessor do general Ramos [para o Comando Militar do Sudeste] um general que foi chefe da segurança da Dilma, o que certamente desagradou Bolsonaro. O general Rêgo Barros [Otávio Rêgo Barros, atual porta-voz da Presidência] se candidatou para ganhar uma quarta estrela e entrar para o Alto-Comando, mas isso não aconteceu. Era esperado que, por ser próximo do presidente, estaria na lista, mas não estava. São indícios sutis de uma insatisfação no Alto-Comando. O problema é que não chegam à opinião pública. O que fica é a imagem das Forças Armadas intimamente vinculadas com o governo. 
BBC News Brasil - O que acha que eles queriam e, disso, o que conseguiram?
Martins Filho - Tinham uma pauta oculta que era conseguir a reestruturação da carreira por meio da reforma da Previdência. Isso eles conseguiram, com poucas críticas, apesar de terem afetado negativamente a economia que o governo vai fazer com a reforma, e de terem melhorado muito seus salários, principalmente aqueles que estão mais avançados na hierarquia, a partir de coronel e general.
BBC News Brasil - Essa era o principal objetivo?
Martins Filho - Tem gente que acha que sim, que havia um objetivo material. Eu acho que o principal objetivo era voltar à política, mostrar que poderiam ajudar o governo e discretamente voltar à política. Essa era a grande aposta. Não aceitavam aquela situação prevista na Constituição de não interferir na política.
O segundo ponto era retirar do governo o máximo que pudessem em termos de melhorias materiais. Isso foi uma vitória do corporativismo, uma espécie de prêmio pelo apoio ao Bolsonaro. 
BBC News Brasil - A reforma da Previdência privilegiou militares de alta patente em comparação aos de baixa patente. Houve bastante barulho sobre isso. Quais podem ser as consequências?
Martins Filho - Sim, houve tensão e até medidas no comando para impedir manifestações em redes sociais. Houve ordens de que nas redes sociais militares têm que respeitar disciplina e hierarquia. Houve desgaste, mas foi menor do que se esperava. O apoio ideológico a Bolsonaro entre praças e sargentos foi mais forte. Quem apostava numa rebelião apostou errado. Apesar da instatisfação, isso não ocorreu. A base dele nesses setores segue forte.
O escritor Olavo de CarvalhoBBC/JOÃO FELLET
O escritor Olavo de Carvalho, que tem influência sobre membros do governo e os filhos do presidente, critica militares frequentemente em suas redes sociais
BBC News Brasil - Em que esse apoio se baseia agora?
Martins Filho - Ele sempre foi eleito por esses setores, as chamadas famílias militares. Existe uma identidade muito forte e ambígua dele como militar e como líder sindical desses setores. Essa última é tão forte que permanece. Ideologia pesa muito. A alternativa para esses setores mais baixos seria aceitar uma aliança com os partidos da esquerda, e isso eles descartam totalmente (deputados do PSOL defenderam praças nas discussões sobre a reforma no Congresso). Está claro que estão insatisfeitos, mas não há possibilidade de aliança com a esquerda.
BBC News Brasil - O que os militares não conseguiram nesse primeiro ano?
Martins Filho - Não conseguiram moderar o presidente, não conseguiram conter a piora da imagem externa ao Brasil — hoje, o Brasil tem uma imagem que não tinha desde a ditadura. Conseguiram coisas pontuais — evitar a transferência da embaixada do Brasil em Israel para Jerusalém, evitar interferir na Venezuela. Eles deveriam ser contrários a essa deterioração da imagem do Brasil, mas hoje o conservadorismo entre eles não permite afirmar que houve um afastamento. Houve tensões, mas não afastamento.
BBC News Brasil - Qual foi o efeito da crise na Amazônia?
Martins Filho - Foi ambíguo. Em parte alguns militares ficaram preocupados com a briga com a França, mas também houve um surto de nacionalismo, alegações de que estrangeiros estavam tentando interferir na Amazônia. Essa crise beneficiou a aliança com Bolsonaro. Ele soube explorar isso bem porque houve uma espécie de reflexo nacionalista com relação a críticas internacionais. Acabou sendo favorável ao Bolsonaro.
BBC News Brasil - Quanto de influência os militares têm hoje?
Martins Filho - Menos do que achávamos no início do governo. Nunca achei que seriam o lado racional do governo, mas não esperava que fosse ser tão ruim para eles. Foi um desgaste muito grande. Ao mesmo tempo, o conservadorismo é muito forte e também o pragmatismo. Hoje, parecem ter uma visão mais curta, pensando no que podem tirar em termos de equipamentos militares dessa relação com os Estados Unidos, por exemplo. É um momento muito pobre em termos de pensamento das Forças Armadas. Estamos vivendo uma crise de prestígio que deveria preocupá-los.
BBC News Brasil - O sr. vê diferenças entre as gerações? Quem está hoje no governo se formou antes do retorno à democracia.
Trump e BolsonaroALAN SANTOS/PRESIDÊNCIA
Tentativa de aproximação do Brasil com os Estados Unidos foi grande guinada na política externa brasileira
Martins Filho - Não vejo diferença. Gostaria de acreditar que, 35 anos depois, teríamos uma corrente democrática nas Forças Armadas que percebesse os danos que podem vir dessa associação com a política partidária. Infelizmente, não vejo crítica deles ao que aconteceu durante o governo militar e vejo um discurso de anticomunismo que justifica, na visão deles, o apoio ao Bolsonaro.
BBC News Brasil - A política voltou aos quartéis?
Martins Filho - Sim, não como naquela época, onde tudo passava por eles, mas acho que sim. São mais de 2.000 cargos para militares no governo. São aspectos que tocam no bolso.
BBC News Brasil - Como manifestações do presidente Bolsonaro, de seus filhos e também de ministros do governo relacionadas à ditadura militar ressoam entre militares?
Martins Filho - Estamos falando de um governo de extrema-direita. Essas declarações deveriam provocar grande incômodo nos militares, que supostamente seriam mais racionais e menos ideológicos, mas não estou vendo isso.
BBC News Brasil - O senhor parece surpreso com a postura dos militares nesse primeiro ano…
Martins Filho - Fiquei no começo, mas somos realistas, percebemos o quão pouco as Forças se democratizaram em termos de ideias desde o regime militar.
BBC News Brasil - Quando o senhor começou a pensar assim?
Martins Filho - No começo do governo Temer, com a ascensão do general Etchegoyen. Há pouca informação sobre a participação militar no processo do impeachment, mas o papel desempenhado por ele foi o de fiador do novo governo, para o que contou com o prestígio que tinha e tem no Exército. Etchegoyen integrou o núcleo decisório do governo Temer e, com a recriação do GSI, reconstruiu o sistema militar de inteligência no coração do Estado. 
MilitaresTÂNIA RÊGO/AGÊNCIA BRASIL
O presidente da Associação Nacional dos Militares do Brasil chegou a dizer que militares de baixa patente haviam rompido com Bolsonaro por terem sido preteridos na reforma da Previdência, mas Martins Filho não vê sinais disso
BBC News Brasil - Como o senhor acha que pode ficar a relação no futuro?
Martins Filho - Como está hoje. Uma tentativa de negar o óbvio, que há essa relação forte entre militares e o governo. A não ser que aconteça algo muito grave na economia ou [no cenário internacional], a relação deve continuar em banho-maria. É como disse o próprio Etchegoyen, 'não devemos nos comprometer mais, mas o governo tem mais coisas positivas do que negativas'. Acho que é essa a visão, no Exército especialmente.
BBC News Brasil - E na Marinha e na Aeronáutica? Por que há essa diferença e como ela se manifestou nesse primeiro ano?
Martins Filho - O Exército é muito mais numeroso e ativo politicamente. Houve apoio ao Bolsonaro nas outras Forças, mas o desgaste é maior entre elas. Parece haver mais condescendência com o Bolsonaro no Exército do que na Marinha e na Aeronáutica.
Bolsonaro tem tido um papel de divulgar o que foi o governo militar. Ele acaba associando os militares atuais com a ditadura, que é algo que eles não querem. Ele recebeu duas vezes a viúva do Ustra [Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-CODI apontado pela Justiça como responsável por torturas e ídolo de Bolsonaro]. Que bem traz a eles lembrar a população que houve uma ditadura? O aniversário do golpe não foi comemorado na Marinha e na Aeronáutica. No Exército, sim, discretamente, mas chegou à primeira página dos jornais. Militares de outros países democráticos passaram a ver os militares brasileiros como politizados e de direita. Isso não pega bem. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Relações de Bolsonaro com seus miltares - Brian Winter (Americas Quarterly)

“It’s Complicated”: Inside Bolsonaro’s Relationship with Brazil’s Military

This article is adapted from AQ's special report on Latin America's armed forces | Ler em português 

BRASÍLIA - In a military full of accomplished generals, Carlos Alberto dos Santos Cruz was considered one of the very finest.  
After an illustrious career in the Brazilian Army, the United Nations asked him in 2007 to lead its peacekeeping mission in Haiti. That went well enough that the UN turned to him again in 2013 with an even tougher assignment - command of 23,000 troops in the Democratic Republic of the Congo. Over the next two years, Santos Cruz led UN offensives against Congolese rebels while surviving multiple shootouts and an emergency helicopter landing. He proved such a clear-eyed strategist that the UN asked him to author a landmark report on how to better protect its troops. Its conclusion: That a “deficit of leadership” within the organization had directly resulted in higher fatalities in the field.
Given his experience and obvious backbone, many Brazilian politicians and investors sighed with relief in late 2018 when Jair Bolsonaro offered Santos Cruz a senior position in his incoming administration. The theory was that he, along with other retired officers in the government’s upper echelon including Vice President Hamilton Mourão, would offer administrative support to a president with few other allies - while also tempering Bolsonaro’s notoriously mercurial personality. “These guys are the best of the best,” a leading Brazilian investment banker told me at the time. “They’re a guarantee nothing crazy will happen in this government.”  
It didn’t last long. Just four months later, Santos Cruz was engulfed in a fusillade of friendly fire that, at least in its nastiness, rivaled anything he ever saw in Africa. Olavo de Carvalho, a Virginia-based philosopher and guru to the Bolsonaro family and their followers, called Santos Cruz a “piece of shit” and an “over-starched turd” on social media. Bolsonaro’s son Carlos also joined in the attacks, and the hashtag #foraSantosCruz (“get out Santos Cruz”) trended on Twitter. The specific cause of the fight is still disputed, but the bottom line was that a rupture had formed between the more pragmatic “military wing” of Bolsonaro’s government and “movement conservatives,” many of them evangelical Christians, who wanted more radical action on issues like gun laws and so-called gender ideology. In June 2019, Bolsonaro moved to please the second faction and fired Santos Cruz - plus two other retired generals who held government positions in the same week. 
By the time I spoke to Santos Cruz a few months later, he was in New York advising the UN again and seemed to have mostly moved on. But he did insist on one point: The notion that he or the other generals would control Bolsonaro was always “absurd.”
“You can’t even control a child after the age of 16. Good luck trying to control a 60-year-old president,” Santos Cruz told me. “This government is going to continue this way. It’s complicated.”
General Santos Cruz attends an event with President Bolsonaro before his departure from the administration.
Indeed, Santos Cruz’s story highlights the complex and ever-shifting relationship between Brazil’s armed forces and the Bolsonaro government after a year in power. On the one hand, the military remains more involved in politics than at any other point since the end of the 1964-85 dictatorship. It has recovered some of its historic role as a “moderating force” that sees itself as the enlightened guardians of Brazil’s long-term national interest, free of the self-serving needs of civilian politicians. Around a third of Bolsonaro’s Cabinet is composed of retired or active-duty military, with dozens more in key government positions elsewhere. They have exerted visible influence on policy issues including the management of recent fires in the Amazon and Brazil’s relations with China, the United States and the Middle East. 
But it’s also clear that the rift is real - and growing. Several others from the government’s “military wing” have been fired or otherwise marginalized in recent months. To report this story, I spoke to more than a dozen active-duty or retired members of the military, including six generals. Many expressed profound unease over Bolsonaro’s confrontational style and the constant sense of crisis that has characterized his government, even as Brazil’s economy starts to show signs of life. They also felt the military was in a clear Catch-22: While many of its representatives are being cast aside, the institution will still be held responsible if Bolsonaro ultimately fails. “We are always reminding the troops that this is not a military government,” one general told me. “But we also know that, if things don’t work out, it will be another 30 years before we participate in politics again.”
In and Out of Politics
The truth is that things between Bolsonaro and the military were always complicated - especially when he was a soldier himself.
An Army paratrooper from 1977-88, Bolsonaro did not rise beyond the rank of captain. In 1985, he gave an interview to Veja magazine denouncing low salaries for the military’s lower ranks; his commanders disliked the article enough that Bolsonaro spent 15 days in a penitentiary for insubordination. The following year, Veja published details of what it said were Bolsonaro’s plans to disrupt the water supply in Rio de Janeiro with explosives, again to protest low military wages. Bolsonaro was court-martialed but ultimately acquitted for lack of evidence. Soon thereafter General Ernesto Geisel, who led the dictatorship in the 1970s, publicly referred to Bolsonaro as a “bad soldier” and an “abnormal case” amid the military’s broader withdrawal from politics.   
Foreshadowing a pattern that would repeat itself 30 years later when he ran for president, all this negative attention garnered Bolsonaro quite a few fans. He was elected to Rio’s city council and then the national Congress in 1991, where he became an advocate for better military salaries and a lonely voice of nostalgia for the dictatorship itself. This made him popular with the rank and file, but the generals were moving in the opposite direction. Society as a whole was still angry about the human rights abuses and economic mismanagement of the dictatorship years, leaving the military leadership feeling like “scalded cats,” retired General Alberto Mendes Cardoso told me. “The shine of the military was lessened. There was a feeling that politics wasn’t worth it, that we should stay where we are under the Constitution.”  
But over time, three events would lure the military back to the political arena. 
The first was the massive corruption and disarray of the final years of the Workers’ Party, or PT, which ran Brazil from 2003-16. PT rule culminated in the worst recession in Brazil’s history, but it was the scandals that seemed to anger the military’s law-and-order-minded leadership the most. In April 2018, the then-commander of the Army, General Eduardo Dias da Costa Villas Boas, tweeted that the military was “attentive to its institutional mission” and “repudiates impunity.” The meaning was lost on no one: The next day, the Supreme Court was to make a ruling that could have prevented former President Luiz Inácio Lula da Silva from going to prison on graft charges. While it’s doubtful Villas Boas’ words influenced the Court’s decision, Lula ultimately spent more than a year in jail. The tweet “was the moment that announced the military’s return to politics,” one mid-level officer told me. “It was unfortunate, but necessary.”
The second major factor was the military’s anger over the National Truth Commission, which Dilma Rousseff, another PT president, created in 2012 to investigate rights abuses during the dictatorship. This surprised me - I covered the commission extensively as a reporter, and the military was mostly silent in those years. Unlike in Argentina and Chile, there was no intent to jail its leaders for past crimes. But in interviews for this article, I repeatedly heard outrage over the commission - and the belief that the “insult to our honor,” as one general put it, would have contributed to the further deterioration of the military’s reputation, and possibly its budget, unless its leaders became more politically active again.
The final straw was a truckers’ strike in May 2018 that paralyzed delivery of food, fuel and medicine nationwide - and left commanders concerned the civilian leadership was losing control of power. In protests and outside several Army facilities, many Brazilians gathered to ask for the military to “save” the country; one poll showed 40% would have supported a coup. During the Cold War, the generals might have obliged. But polls were already showing a familiar face - Bolsonaro - leading the race for the presidential election that October. Bolsonaro emphasized his past in the military - the good parts, anyway - to shore up his credibility with voters. A deeper partnership began to take root, thanks in large part to General Augusto Heleno, another retired four-star general who had commanded the UN mission in Haiti. “There is an awareness among the public that the military can put this house in order,” Heleno said at the time. “We are fully aware a coup is not the way forward. The path will be the next election.”
There was not, and still is not, any formal role for the military in Bolsonaro’s government outside that specified by the democratic 1988 Constitution. But he did turn to numerous current and former members of the armed forces to fill key areas including education, infrastructure and more.
“There was a willingness to help because - modesty apart - we have good administrative ability,” retired General Marius Teixeira Neto, a former military commander of Brazil’s northeast region who is close to officers in Bolsonaro’s government, told me. “Our people don’t get corrupted, and we want what’s good for the country. We’re serious. And as everybody knows, you can’t govern alone.”
Allies - And Then a Rupture?
In the opening months of Bolsonaro’s government, the influence of the “military wing” was extremely clear. Its leaders did not act as a unified bloc, nor did they communicate regularly among themselves - “That’s a myth,” Santos Cruz said. But there was a convergence around key points, borne from teachings and ideological currents that have coursed through the institution for decades, namely an emphasis on Brazil’s national sovereignty and long-term interests over what they see as passing ideological fads. Meanwhile, some observers perceived an old dynamic: Even though Bolsonaro was president, some of the generals continued to treat him like a captain, unafraid of challenging him - even in public. 
During his first week as president, Bolsonaro floated the possibility of giving the U.S. military a base in Brazilian territory - but backpedaled following negative feedback from military leaders. Military officials also helped convince Bolsonaro not to withdraw from the Paris climate accord or immediately move Brazil’s Israeli embassy from Tel Aviv to Jerusalem, for fear both moves could alienate consumers of Brazil’s agribusiness exports. Vice President Mourão, another retired four-star general, openly contradicted the president on a number of issues - dismissing Bolsonaro’s tough talk on China as “campaign rhetoric” and insisting Brazil should leave anti-communist ideology aside when dealing with its biggest trading partner. 
In some cases - particularly on China - the military wing’s ideas seem to have endured. But as 2019 wore on, and Bolsonaro became more confident in power, he began to lash out more against those who sought to control him. This stance was encouraged by his three sons, who are closer to the base’s evangelical wing and feared Mourão in particular was not loyal. (In a strange twist, some close to the family encouraged Steve Bannon, Donald Trump’s former campaign manager, to criticize Mourão in the Brazilian press.) The military wing’s preference for gradual change also put it in increasing conflict with the other major power center in Bolsonaro’s government - the pro-market reformers led by Finance Minister Paulo Guedes.
In recent months military criticism has become increasingly strong - and public. After a reform cut retirement benefits for Brazilian soldiers, with particularly onerous terms for lower ranks, protests broke out in Congress and memes calling Bolsonaro a “traitor” and “liar” swept military circles. “The president is only in politics because, when he was a captain, he defended better salaries for (lower ranks). Now he’s given us a fatal stab in the back,” the head of an association representing the military rank and file said, calling the relationship permanently “broken.” Maynard Santa Rosa, a retired general who resigned from a top government position in November, said the top brass was “losing hope” in Brazil’s recovery. “I’m rooting for this government to go well,” he told an interviewer, “but if that happens it will be by accident.”
However, talk of a deeper split with Bolsonaro - or some kind of move against him - also seems premature for now. Mourão was dispatched to the inauguration of Argentina’s new president in December, an important and diplomatically sensitive mission. Heleno remains one of Bolsonaro’s most loyal aides - and even joined Twitter in August, where his attacks on the press and “radical left” often rival the president’s in tone. Bolsonaro gave the military a critical role in subduing the fires in the Amazon that generated international attention in mid-2019, and also recently announced that acquisitions of key military hardware would be exempt from budget cuts in 2020. Meanwhile, the incipient economic recovery, a sharp decline in nationwide homicide rates, and a reduced number of corruption scandals have allowed Bolsonaro’s approval rating to stabilize in the low 40s. Brazil has so far been spared from the mass protests and unrest hitting other South American nations such as Colombia and Chile. 
Several officers told me that, for all of Bolsonaro’s faults, and the pervasive sense they are losing power as his government progresses, they were still relieved Brazil escaped an even deeper crisis. “We were repeatedly put to the test (as a nation), and we passed,” Villas Boas, the former Army commander who sent the infamous 2018 tweet, recently told O Globo newspaper. Even Santos Cruz expressed hope, in our conversation, of a somewhat happy ending. “The best way to get rid of corruption is (for Bolsonaro) to have a good government,” he said. “Yes, I still think there’s a chance.”    
Brian Winter is editor-in-chief of Americas Quarterly and the vice president for policy at Americas Society/Council of the Americas. A best-selling author, analyst and speaker, Brian has been living and breathing Latin American politics for the past 20 years.