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terça-feira, 26 de maio de 2020

Uma nação à deriva - Entrevista Alberto Aggio (Blog Germano Martiniano)

Importante entrevista de Alberto Aggio a um blog de política. Concordo no essencial e no particular. Sim, a nação está sob ataque e à deriva, os dois fenômenos simultaneamente e explico porque. 
O presidente e sua pequena tropa de alucinados querem implantar um regime autoritário, mas não têm capacidade para construir esse regime, por isso o presidente genocida está empenhado em DESTRUIR todos os seus adversários, em qualquer vertente do leque político, da extrema esquerda à própria direita e extrema-direita. 
Sua obsessão demencial é manter o poder, de modo exclusivo, como pretendem todos os ditadores e candidatos de tiranos. Apenas que o presidente é um boçal e rústico, e não tem planos precisos para o seu projeto, daí a legitimidade de se falar de "nação à deriva", conceito que já usei em trabalhos anteriores, ou comentários rápidos no meu blog.
Também concordo em que o PT já não tem mais o apoio popular que pretende ter, por absoluta corrupção e inépcia administrativa, com um presidente-tirano que já deveria estar na cadeia – e só não está por conivência de juízes do STF, alguns mais contra a Lava Jato do que pró-PT – e não pode liderar nenhum processo de impeachment e retomada do caminha democrático.
Mas, os "democratas" – sinceramente não sei quem são, a despeito de Alberto Aggio citar alguns verdadeiros liberais – não têm praticamente nenhum respaldo na sociedade ou nos meios políticos, este dominados por oportunistas (de todos os matizes, inclusive os direitistas que subiram na onda bolsonarista) que só pensam na mesma coisa: conquistar o poder, no Executivo ou outras esferas, em 2022.
Ou seja, continuamos no pântano, por ABSOLUTA INCAPACIDADE DAS ELITES de se unirem em torno da defesa de UM regime democrático – que NÃO PODE ser com Bolsonaro no poder – e em torno de um programa de governo com dupla tarefa: enfrentar a pandemia e assegura as condições mínimas de funcionamento da atividade econômica. 
Não acredito, sinceramente, que isto ocorrerá, pois essas "ELITES" são MEDÍOCRES, e aqui estou falando dos responsáveis pelos dois outros poderes e pelos chefes das FFAA, pois elas são – ao terem autorizados tantos militares a participarem do governo – as patrocinadoras diretas ou indiretas do regime celerado do capitão desmiolado e autoritário.
Infelizmente, acredito que a nação continuará à deriva, esperando que o próprio presidente genocida e demencial cometa ERROS suficientes para incitar essas "elites" a atuar, no sentido de IMPEACHMENT (o que no momento é difícil, dado o Centrão), ou no sentido de forçar a renúncia do celerado presidente. 
Acredito que essas elites deveriam "renunciá-lo", pois a nação não aguenta o descalabro, o desmonte, a desagregação das instituições. Elas o farão?
Não acredito, pelo menos não por enquanto.
Ou seja, a nação continuará à deriva, em desagregação, até algo de mais grave ocorrer.
Como todo acadêmico, sempre tenho meus "sonhos", que obviamente não vão se realizar.
Meu sonho é que o Brasil ultrapasse o "momento Alemanha 1933", ou seja, a montagem do fascismo (o que é exagerado, eu sei), e entre no "momento Ceausescu", que é quando a massa se revolta contra o líder (o que só pode ocorrer com o empilhamento de cadáveres como resultado da postura do capitão genocida). Isso vai ocorrer? Não sei...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 26 de maio de 2020

UMA NAÇÃO À DERIVA
Entrevista Alberto Aggio

Entrevista concedida a Germano Martiniano. 
Ao entrevistador interessava discutir a partir da caracterização do governo Bolsonaro e dos riscos à democracia. Partimos do seguinte ponto: Bolsonaro “fez uma opção estratégica pelo confronto e isso gera uma sensação de ameaça e insegurança permanentes em relação à manutenção da democracia”. Por todos os descaminhos do governo diante da pandemia da Covid-19, não há como não responsabilizar o presidente, uma vez que “Bolsonaro minimiza a epidemia, confronta governadores e prefeitos, mantem os ataques à mídia, demite dois ministros da saúde e outro que é símbolo da luta contra a corrupção”. 
Além dessas questões, ao final, falamos sobre Democracia Liberal, Social Democracia, Liberalismo além de outros temas. 
Confiram!

Como você avalia o governo Bolsonaro, antes da crise, e agora na forma como está lidando com o Covid-19?
Alberto Aggio – O governo Bolsonaro é resultado de uma eleição legítima, uma rotina em qualquer democracia. Contudo, desde o início, o presidente se pauta por uma estratégia de “destruição” de tudo o que o país construiu nos últimos 30 anos, ou seja, tudo que vem do processo de democratização assentado na Constituição de 1988. Bolsonaro diz que seu objetivo é acabar com a “esquerda”. Na sua versão, com as instituições sociais, politicas e culturais que deram curso à democratização do País. É um equívoco. A democratização foi compartilhada para além da esquerda. Com essa concepção, Bolsonaro expressa a visão da ala mais reacionária do regime militar (1964-1985), aquela que quer repor um regime autoritário por meio de mecanismos democráticos. A estratégia de Bolsonaro é a do confronto. Ele não governa, é um ativador de tensões que busca construir inimigos, muitas vezes imaginários (como a exumação do comunismo como ameaça). Ele instaura um clima de ameaça, afastando-se da ideia basilar de que numa democracia há adversários e não inimigos que precisam ser eliminados. É uma dinâmica que não pode ser parada só pode ir adiante. É o que chamei em um artigo de “guerra de movimento” (https://blogdoaggio.com.br/isso-e-bolsonaro/). 
A “obra de destruição” que busca Bolsonaro não pode ser realizada em apenas um mandato. Por isso, seu horizonte é a reeleição. Quando vem a crise sanitária provocada pelo coronavírus, tudo fica mais crispado pois suas consequências, principalmente econômicas, ameaçam sua reeleição. O que faz então Bolsonaro? Minimiza a epidemia, confronta governadores e prefeitos, mantem os ataques à mídia, demite dois ministros da saúde e outro que é símbolo da luta contra a corrupção, apoia e vai a manifestações públicas que pedem o fechamento do STF e do Congresso, ou seja, radicaliza sua “guerra de movimento”. O resultado é a queda de popularidade nas pesquisas. Começa-se a se falar em impeachment. Bolsonaro é obrigado a rever, pelo menos em parte, a estratégia de confronto. Move-se em direção ao Centrão no intuito de constituir uma base parlamentar para evitar o impedimento. 
É aí que estamos: incerteza, insegurança, preocupação com a continuidade da democracia no Brasil e com a licitude dos recursos públicos uma vez que, como disse Sérgio Abranches, Bolsonaro visa formar com o Centrão não uma “coalizão de governo” mas uma “colusão”, ou seja, um arranjo para enganar (http://www.fundacaoastrojildo.com.br/2015/2020/05/19/sergio-abranches-bolsonaro-em-modo-defesa/). 
Se o governo se sustenta na “ala ideológica” de extrema-direita mais a dos militares, agora Bolsonaro dá passos em direção a um campo que contradiz o seu discurso de campanha contra a alegada “velha política”, promovendo um claro “estelionato eleitoral”. Mas pode bloquear o impeachment, que é o objetivo da operação.


As mortes no Brasil estão crescendo, no entanto, proporcionalmente, por milhões de habitantes, estamos atrás de muitas nações desenvolvidas. Ou seja, mesmo países como Inglaterra, Espanha, Itália etc., não souberam lidar da melhor forma com o vírus. Neste ponto, você não acha que existe uma tentativa da oposição política e parte mídia em responsabilizar o governo Bolsonaro por um problema que tem sido difícil combater até mesmo nas nações mais avançadas?

A.A. Não, não acho. Embora o enfrentamento da pandemia seja complicado porque se trata de algo desconhecido, não creio nem que o Brasil esteja se saindo melhor que países europeus, nem que a mídia atue contra o governo Bolsonaro. O exemplo europeu (e chinês, antes) mostra que a quarentena foi obrigatória, uma imposição, e não uma escolha. Os países europeus, agora, estão saindo dela enquanto o Brasil está entrando na pior fase, com o aumento expressivo do número de mortos. 
Cabe a pergunta: quem seria o principal responsável no combate à epidemia no Brasil? O governo Bolsonaro, quem mais seria? O Ministério da Saúde deveria fazer a mediação dos entes federativos para enfrentar a epidemia. Mas Bolsonaro atacou de saída os governadores que tinham que dar respostas imediatas à enfermidade. Criticou Mandetta quando o ex-ministro, em meados de março, esteve em São Paulo reunido com o governador João Doria discutindo providências diante da pandemia. Foi Bolsonaro quem politizou o combate a epidemia da Covid-19. Pensou que iria prejudicar sua reeleição, se sentiu ameaçado. Bolsonaro não fez outra coisa senão atrapalhar as ações da saúde, abandonando qualquer relação positiva com os governadores e prefeitos. 
Jamais convocou o país para juntos – congresso, sociedade civil, mídia, etc. –, enfrentar a epidemia. Ele não acredita nas indicações científicas, não aceita o isolamento social e se fixou obcessivamente nas supostas virtudes da cloroquina para curar os contaminados. Minimizou as mortes com o patético “E daí?”. Estimulou seus apoiadores a irem às ruas defender a volta ao trabalho, adotando a estratégia de opor economia e vida. E mais: na dantesca reunião de 22 de abril (como corretamente a definiu Vera Magalhães (https://gilvanmelo.blogspot.com/2020/05/vera-magalhaes-o-inferno-de-dante.html), Bolsonaro propôs um decreto para armar a população com o suposto intuito de enfrentar decisões de dirigentes eleitos democraticamente a respeito do isolamento social.  
E aqui estamos, ultrapassando a casa dos 22 mil mortos e isso vai se acelerar. Bolsonaro é sim o responsável por essas mortes provocadas pela Covid-19. Seria dele que os brasileiros deveriam esperar liderança, apreço e convicção na ciência além de compaixão nesse momento tão difícil. Mas ele só ofereceu deboche, desorientação e morte.


Aggio, a economia brasileira é marcada pela informalidade, milhares de pessoas não possuem nem CPF para receber o auxílio emergencial. Nossa realidade é bem distinta dos países mais avançados que permitem ações mais restritas quanto o isolamento social. Como lidar com essa situação na qual as pessoas necessitam, como diz o jargão popular, de vender o almoço para garantir a janta?
A.A. – Esse país conseguiu criar um “cadastro único” para os mais pobres receberem mensalmente as várias bolsas, desde FHC, e o bolsa família. Não conseguiria fazer algo similar nessa situação de emergência? É uma “desculpa deslavada”, como se diz popularmente. Isolamento social não é coisa de rico, como o discurso bolsonarista quer fazer crer. Inclusive, nenhum prefeito ou governador propôs isolamento total (lockdown). Atividades essenciais continuam a operar e por isso se fala que o ideal seria um isolamento entre 50% e 70%; ninguém falou em 100%. Claro que existem dificuldades, mas onde elas existem, como na favela Paraisópolis, em São Paulo (quer um lugar onde tenha mais pobreza e necessidades?), os moradores se organizaram para se ajudar e garantir algum isolamento. Recentemente se inaugurou um hospital de campanha na área para atender aquela população. 
E de Bolsonaro veio o quê? A noção de “isolamento vertical”, que é uma falácia: imagina-se que confinando os grupos de risco (idosos e quem tem comorbidades) se diminui o contágio e possíveis complicações. Isso não é verdade. As pessoas que convivem com eles levam o vírus para dentro das casas. Além disso, no Norte do país, no Amazonas, está morrendo gente jovem de coronavírus; perto de 40% ou mais não são de grupo de risco. Os problemas da pandemia podem ser enfrentados com solidariedade, ciência e espirito público. Mas isso o governo Bolsonaro parece que não carrega como uma de suas virtudes, se é que em alguma.

Aggio, embora Bolsonaro fale grandes bobagens e possua algumas ações que flertam com a ditadura brasileira, como ter comparecido em um movimento de rua que pedia a volta do AI-5, vemos que os poderes legislativo e judiciário continuam agindo de forma independente, nossas instituições parecem preservadas e a opinião pública livre e independente para se manifestar. Mediante ao que escrevi acima, para você, o governo Bolsonaro representa uma ameaça à democracia brasileira? Se sim, por que?


A.A. – Como eu disse acima, o governo Bolsonaro fez uma opção estratégica pelo confronto e isso gera uma sensação de ameaça e insegurança permanentes em relação à manutenção da democracia. As instituições da democracia só continuam funcionando em função de atores políticos, sociais e culturais que dão vigor a elas. Bolsonaro não apenas diz bobagens. Ele dirige e orienta ações contra a democracia. Vide suas posições em relação à imprensa (creio que não preciso mencioná-las), ao meio ambiente, à cultura, ao patrimônio histórico, às universidades, etc.. Está claro que é um governo extremista de direita, nada liberal e que atenta contra direitos básicos que estão da Constituição. 
Pior, ele isola o país internacionalmente, faz com que a sociedade regrida em inúmeras pautas civilizatórias e humanistas que tínhamos avançado em termos sociais e culturais, como as dimensões de gênero, a questão da violência, da solidariedade, da laicidade do Estado, etc. Uma das marcas de Bolsonaro é o seu antiintelectualismo e isso faz com que todo o governo seja impactado por essa visão. Contra a Constituição de 1988, Bolsonaro retira (ou expulsa) do Estado a sociedade organizada, que é um dos elementos de sua desoligarquização, ou seja, da ampliação do próprio Estado, pela via da democracia. Com Bolsonaro, a democracia está bloqueada e regride. E isso gera uma sensação de retrocesso que é sentida no conjunto da sociedade. Não é à toa que ele despenca nas pesquisas e mantem seu apoio apenas no núcleo mais radical, que o apoia cegamente.

Existem elementos suficientes que justifiquem um possível pedido de impeachment? Caso existam, você acredita que ele possa ocorrer?
A.A. – Inúmeros especialistas em direito constitucional já disseram que sobram elementos para o impedimento de Bolsonaro. Em geral, os crimes contra o decoro lideram a lista. Tentar utilizar, por exemplo, a Polícia Federal para defender a família e os amigos é prevaricação, ou seja, é mais do que intervenção, o que já é inconstitucional. Manter um sistema de informações privado (que não se sabe muito bem o que é) está fora das atribuições constitucionais de um presidente da República, é um outro exemplo. Contudo, a questão é política, antes de tudo. Olhando a situação com as lentes de hoje, creio que não existe maioria suficiente na Câmara dos Deputados para avançar um processo de impeachment. Lançá-lo poderia reforçar Bolsonaro ao invés de enfraquece-lo. 
A operação realizada em direção ao Centrão surtiu efeito. Por outro lado, a crise sanitária e a necessidade de isolamento social impedem que o sentimento de desencanto com o governo transborde para as ruas numa contestação massiva. Penso que a ameaça de existência ou de criação de uma “milícia armada” dentre os apoiadores de Bolsonaro é outra coisa preocupante. Ambos os fatores definem muito da situação complicada para o impeachment, em termos políticos. O processo de crime comum que seria encaminhado pela PGR ao STF, aparentemente mais rápido, tem outros obstáculos. É difícil dizer hoje por onde esse processo irá ser encaminhado ou se será encaminhado.

Aggio, em 2018 você participou do Ato do Polo Democrático Reformista, um movimento de políticos e intelectuais de centro que, naquela ocasião de eleições, visava combater os chamados extremos, Bolsonaro e o PT. Em recente artigo (https://gilvanmelo.blogspot.com/2020/05/mathias-alencastro-vida-e-morte-da.html), Mathias Alencastro, doutor em Ciência Política por Oxford, disse que na Europa partidos políticos, até de diferentes vertentes, têm se unido para combater o extremismo de direita, citando a “Geringonça” de Portugal. Pois bem, em 2018 e trazendo para os dias atuais, se os partidos de centro, e até mesmo o Polo Democrático Reformista, estavam tão preocupados em “salvar” a democracia dos considerados extremos, por que não houve uma união entre os nomes e partidos democráticos de centro, como Ciro, Alckmin e Marina?
A.A. – É difícil responder a isso. É claro que cada opção eleitoral feita deve se responsabilizar por suas consequências. Creio que houve muitos erros de encaminhamento e de opções. Havia um clima muito desfavorável à política. Eu mesmo escrevi sobre a antipolítica como um caldo de cultura antidemocrático naquela conjuntura. E todos nós perdemos. Mas mesmo assim, continuamos preocupados em “salvar” a democracia. A sua conquista no Brasil foi muito custosa e difícil. É justo que nós a defendamos. 
É verdade que na Europa existiram articulações que impediram, em alguns países, a ascensão da extrema-direita ao poder. Na Itália isso é bastante claro. Matteo Salvini imaginou que poderia conquistar “plenos poderes”, mas fez uma manobra desastrada que abriu a possibilidade de retirá-lo do poder. É um caso especifico. 
Na Espanha houve uma espécie de renascimento do PSOE e o Podemos, depois de muitas reviravoltas, moveu-se para uma aliança de “governo de esquerdas” e o VOX (extrema-direita) foi anulado. Creio que a Geringonça, em Portugal, pelas informações que tenho, nunca foi uma coalisão eleitoral e sim uma colisão de governo. Hoje ela não existe mais. Mas em Portugal, a extrema-direita é fraquíssima.


Você enxerga a necessidade de uma união dos partidos para vencer Bolsonaro e/ou o PT, assim como colocou Mathias Alencastro?
A.A. – Mais do que união de partidos, creio que será necessário unir todos os democratas, da direita à esquerda, para vencer Bolsonaro. O PT não está no governo. Ele já foi derrotado. O PT representa setores importantes das classes populares, mas não é um sujeito democrático confiável, além de ter um passivo terrível no que se refere à corrupção e ao aparelhamento do Estado. Além de uma liderança ancilosada, que é o Lula. 
O problema do Brasil hoje é Bolsonaro e não o PT, que está em declínio, enfraquecido, embora tenha alcançado um bom desempenho nas majoritárias de 2018. De qualquer forma, a sociedade reconhece a polarização entre Bolsonaro e o PT. 
O problema é superar esse reconhecimento, indicar que a situação hoje é outra. Bolsonaro nos leva para o precipício. O vídeo revelando a reunião ministerial de 22 de abril é pavoroso, nos enche de vergonha, demonstra que o Brasil precisa ultrapassar o erro de 2018 e voltar a pensar em novas possibilidades, novas lideranças, que sejam capazes de unir o país e voltar a pensar no seu futuro.

Aggio, quando você vê a ascensão de grupos denominados de extrema direita no mundo, como um todo, você acredita que isso é parte da democracia, dar voz a pluralidade de ideias políticas, ou você analisa como uma ameaça ou crise “DA” democracia liberal?
A.A. – Essa extrema-direita que está aí é iliberal. Foi Viktor Orban, primeiro ministro da Hungria, que criou a expressão “democracia iliberal” para caracterizar esse movimento. D. Trump e J. Bolsonaro a representam à sua maneira e em seus países. Isso é público e insofismável. Essa corrente política é contra o pluralismo que caracteriza a democracia liberal que conhecemos. Contradita também as diversas correntes do liberalismo democrático que vicejou no final do século XX nos países mais avançados e que ainda está aí. Essa extrema-direita é visceralmente contra a democracia como civilização. 
A ascensão da extrema-direita não é resultado do pluralismo, justamente o contrário, é resultado de uma fragilidade e de equívocos que permitiram que isso ocorresse. A virtude da democracia aponta para a ampliação da emancipação humana e não para um projeto de individualismo exacerbado e de guerra de todos contra todos. 
Penso que o crescimento dessas forças políticas expressa uma crise da e na democracia ocidental; uma coisa não exclui a outra, como pensam alguns. E se prende a conflitos políticos e econômicos da nossa contemporaneidade e não a batalhas ideológicas simplesmente. É um problema que tem que se abordado pela política e não pela gramática da ideologia.




Viktor Orban e Jair Bolsonaro

Admitindo a radicalidade desses extremos, qual autocritica que os democratas liberais poderiam fazer e quais mudanças poderiam realizar para contornar este cenário?
A.A. – Creio que autocrítica devemos fazer todos, pois perdemos eleitoral e politicamente. Mas devemos continuar a defender a democracia. Estamos num momento defensivo e para melhor defendê-la é preciso também avançar. A democracia não é um sistema ou regime político que possa existir sem uma defesa intransigente dos seus princípios e valores: liberdade, emancipação, deveres e direitos, compromisso político, institucionalidade, transparência, justiça social, etc… Dois pontos são importantes. 
Primeiro, pensar a democracia como complexidade. Ela não se materializa, não se concretiza, não se torna real, a partir da simplificação, uma visão branco e preto, com todas as perversões do pensamento binário. Essa visão da política, no nosso caso, leva rapidamente para as ideias sempre estúpidas de um “salvador da pátria” ou de um “mito” que muitos seguem cegamente. 
Segundo, que a democracia só se vitaliza, só avança com “mais democracia” ou, em outros termos, democratizando a democracia. Essa é uma formulação presente nos liberais progressistas que se aproxima bastante de formulas progressistas da esquerda democrática, socialdemocrática e reformista.

Aggio, a analista econômica, Renata Barreto, em artigo para o InfoMoney, disse para “não confundirmos o modelo nórdico com socialista”. Durante o artigo, ela discorre que apesar das altas taxas de impostos cobradas pelo governo, a Dinamarca, por exemplo, tem várias características de um país liberal. Pois bem, este debate Liberalismo versus Social Democracia ainda existe? Os países nórdicos são, de fato, sociais democratas?

A.A. – Tem que se olhar o liberalismo do ponto de vista histórico. Lembro que Harold Lask, historiador inglês, dizia, que o socialismo seria uma consequência natural da aplicação do liberalismo. Muito pouca gente sabe que o liberal G. Mazzini, um dos líderes da unificação italiana e o comunista K. Marx, publicavam seus escritos pela mesma editora londrina, por volta de 1846/48, a “Northern Star”, que se notabilizou pelos debates sobre democracia e o movimento operário às vésperas das revoluções de 1848. 
Os socialdemocratas que, no final do século XIX, começaram a participar das eleições e ascenderam ao governo em países que cada vez mais se tornavam democracias liberais, como E. Beirstein e K. Kautsky, foram criticados como liberais e traidores de classe. Por conta deles e de outros, passou-se a se falar em “socialismo liberal”. 
Veja, são exemplos históricos que anulam a versão de que há uma contradição antagônica entre liberalismo e socialdemocracia. O liberalismo é uma concepção de mundo enquanto a socialdemocracia foi e é uma política de massas no contexto do Estado Ampliado. Para finalizar, a noção de “regulação” nasce nos países nórdicos com os socialdemocratas entre as duas guerras e era uma alternativa tanto ao fascismo quanto ao comunismo nos anos 30. Não há dúvida que os países nórdicos são socialdemocratas e que o liberalismo não seja algo estranho àquela construção histórica. O que é certo é que eles não permanecerão congelados historicamente.

O nacional desenvolvimentismo petista trouxe grandes prejuízos ao Brasil, sem falar do grande “projeto” de corrupção descortinado pela Lava-Jato. Depois do petismo, do excesso de Estado e funcionalismo público, temos visto muitas pessoas (inclusive eu) defendendo menos Estado e mais mercado. Como você avalia as ideias liberais, hoje até mais representadas pelo Partido Novo e pelo ministro Guedes, na sociedade brasileira como um todo?
A.A. – Veja, o PT não adotou o nacional-desenvolvimentismo durante todo período dos seus governos. O primeiro governo Lula e o último de Dilma são completamente distintos nesse sentido.  A questão da hipertrofia do Estado em nossa história é muito anterior a isso. 
O nosso estatismo forma parte de uma espécie de tradição que nos acompanha deste a colonização portuguesa, se acentuou no Império e não pode ser excluída de nenhuma fase de nossa história republicana. 
O regime militar foi ao mesmo tempo estatista e liberal, dando vazão aos apetites empresariais no período do chamado milagre brasileiro (1968-1973), o tal “espirito animal” ou “selvagem” do empresariado a que se referia Delfim Neto, ex-ministro da Fazenda do regime militar. Contudo, nos dias de hoje, pensar de forma apartada e até oposta os conceitos de Estado e mercado talvez não faça mais sentido e nem seja produtivo. 
O pensamento neoliberal quer mantê-los apartados. Mas não tenho dúvidas que as ideias liberais no Brasil vão muito além das referências ao partido Novo ou a Paulo Guedes. Aconselho a se visitar as páginas de um grande jornal liberal, O Estado de São Paulo, para ver como uma das mais importantes linhagens do nosso liberalismo avalia o país sob Bolsonaro. 
Por outro lado, há diversos liberais que pensam de forma independente e são muito críticos tanto ao Novo e mais ainda ao Guedes, um neoliberal que, formado em Chicago e inspirado no caso chileno do período pinochetista, distancia-se da tradição das linhagens mais importantes e relevantes do liberalismo aqui no Brasil, que podem ir de Pedro Malan, Bolivar Lamounier até Monica de Bolle e Elena Landau, para citar apenas alguns da boa cepa que esse país já produziu.

Para encerrar, falando em projeto de poder para o Brasil e frente a este debate de mais ou menos Estado, o que você considera ser essencial para o nosso país mediante toda a nossa realidade socioeconômica?
A.A. – Este talvez seja um tema para uma outra entrevista de tão complexo que é elaborar um projeto aqui, em poucas linhas. De qualquer forma, creio que temos que ultrapassar essa situação terrível que estamos vivendo, acossados por uma pandemia e submetidos à deriva que nos é imposta por um governo como o de Bolsonaro. 
Temos que resgatar a nossa capacidade de diálogo, de nos atualizarmos ao mundo e de olharmos para as nossas particularidades enquanto país que se modernizou carregando inúmeros déficits que expressam a nossa dramática desigualdade bem como nossa miséria cultural e moral, sérios obstáculos à democracia. 
Não há salto a ser dado nem “fuga para frente” a ser seguida, como se pensou no passado. O nosso destino está dado aqui e agora. Esse é o desafio.

Fonte:


sexta-feira, 22 de maio de 2020

A descida do Brasil para o abismo - entrevista com OC por Mariana Sanches (BBC-Brasil)

Sobre esta entrevista, meus comentários abaixo:

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52733746

A propósito da entrevista feita pela jornalista Mariana Sanches (BBC-Brasil, Washington) com o Rasputin de subúrbio, o subsofista da Virgínia que possui preeminência total sobre o chanceler acidental— que ele indicou e sustenta politicamente, para maior rebaixamento da política externa brasileira— meus comentários indignados já feitos em transcrição dessa matéria dolorosa de ser lida, e que posto novamente, com a seguinte pergunta: até quando os cidadãos de bem serão obrigados a conviver com o cenário deprimente que nos é oferecido diariamente pelo desgoverno instalado em Brasília?
Paulo Roberto de Almeida

“Uma entrevista CONSTRANGEDORA, para quem fez, para quem prestou, para quem lê, para TODOS os personagens PÚBLICOS citados, para TODOS os brasileiros e também para a imagem do Brasil no mundo. Ela revela, se ainda fosse necessário, a que grau de INDIGÊNCIA MENTAL, a que nível de REBAIXAMENTO MORAL, a que escala de INDIGNIDADE VERBAL, e a qual BAIXEZA CONCEITUAL o Brasil dos Bolsonaros foi levado, pela ação deletéria, influência perversa e instintos doentios promovidos por um tresloucado sem quaisquer condições para servir de CONSELHEIRO PRESIDENCIAL, em especial na área de POLÍTICA EXTERNA.
A imagem do Brasil no mundo, já ridicularizada no mais alto grau, sofre mais um rude golpe com o espetáculo HORROROSO que está sendo oferecido por um sujeitinho sem qualquer qualificação ética ou política para servir como referência à formulação de políticas para o país.
Inquieta-me saber que os mais altos escalões da sociedade brasileira, os demais dirigentes políticos, os líderes empresariais, os oficiais de alta patente permaneçam INDIFERENTES à demonstração de INDIGNIDADE que transparece a cada linha desta entrevista com personagem tão nefasto para o presente e o futuro do Brasil.
Assusta-me que continuem passivos ante esta descida desastrosa da nação ao precipício de uma decadência intelectual jamais vista em nossa história.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 22/05/2020”

terça-feira, 12 de maio de 2020

Política externa e diplomacia brasileira no século XXI: 37 questões em pauta – Entrevista com o Embaixador Paulo Roberto de Almeida - Interfaces Brasil/Canadá

Meu mais recente trabalho publicado: 


3620. “Política externa e diplomacia brasileira no século XXI: 37 questões em pauta”, Brasília, 5 abril 2020, 18 p. Respostas a questões colocadas por Gunter Axt. Publicado, sob o título de “Política externa e diplomacia brasileira no século XXI: 37 questões em pauta – Entrevista com o Embaixador Paulo Roberto de Almeida”, Interfaces Brasil/Canadá, Revista Brasileira de Estudos Canadenses(Florianópolis/Pelotas/São Paulo; publicação oficial da Associação Brasileira de Estudos Canadenses - ABECAN, v. 20, n. 1, 2020; 1-20, e20.04; ISSN eletrônico: 1984-5677; ISSN impresso: 1519-0994; link para a revista: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/interfaces/issue/view/956 ; link do artigo: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/interfaces/article/view/18527 ; pdf: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/interfaces/article/view/18527/11396 ou https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/interfaces/article/download/18527/11396 ; DOI:HTTP://DX.DOI.ORG/10.15210/INTERFACES.V20I0.18527). Relação de Publicados n. 1346. 

Política externa e diplomacia brasileira no século XXI: 37 questões em pauta

Paulo Roberto de Almeida
Perguntas formuladas por Gunter Axt 

1)  Em sua opinião, quais foram os principais problemas das gestões Lula e Dilma? Nas redes sociais, fala-se muito nos empréstimos do BNDES a projetos executados em países como Cuba, Venezuela, Moçambique... Qual a responsabilidade da política exterior sobre esses casos? Como você viu a proximidade de Lula com ditadores como Maduro, Kadafi, Robert Mugabe, Denis Nguesso e Teodoro Obiang? O Brasil chegou a perdoar a dívida do Congo... 

PRA: Um (existem vários outros) dos principais problemas da política externa e da diplomacia brasileira sob o lulopetismo foi a preservação de uma visão do mundo tipicamente Norte-Sul, ou seja, uma divisão das relações internacionais entre países ditos hegemônicos, de um lado – antigos impérios coloniais, e novas potências imperialistas – e países dependentes, ou periféricos, de outro, e uma atuação diplomática no sentido de fazer do Brasil, ainda e sempre, um líder dos países do Sul, adotando divisões anacrônicas que poderiam ter algum sentido na criação da ONU, em 1945, mas sem muita sustentação prática mais de 70 anos depois. Daí decorreu uma ofensiva em direção aos “não-hegemônicos”, como se estes, apenas pela “virtude” de não terem sido grandes potências teriam necessariamente uma identidade comum e interesses convergentes. A tentativa de liderar um bloco sul-americano foi pronta e devidamente sabotada pelos vizinhos, embora o Brasil, como grande economia, tenha tido grande sucesso na África, inclusive porque a aproximação vinha com promessas de ajuda, ou oferecimento de benesses desse tipo. O presidente Lula cancelou a dívida bilateral do Gabão, à época dirigido há quase meio século pelo mesmo ditador, de um país exportador de petróleo e, portanto, provido de recursos em divisas. Outros países também foram contemplados com o mesmo benefício que, cabe registrar, se fez em detrimento do Tesouro e, portanto, das contas públicas nacionais. Tratou-se de um típico caso de imposição autoritária por um presidente, sem consulta aos técnicos do Tesouro ou aos diplomatas do setor. Típica medida de populismo demagógico.

2)   Dilma consumiu oito ou nove meses para receber credenciais de diplomatas (levou tempo semelhante para escolher ministros do STF e do STM) e desfeiteou no último minuto o Embaixador da Indonésia. O que isso significa e termos diplomáticos, no curto e no longo prazo? É questão plenamente superada?

PRA: A presidente Dilma tinha especial prazer em desconsiderar as normas e costumes diplomáticos, assim como ela tinha desprezo pelos diplomatas e pelo Serviço Exterior. Esse atraso no recebimento de credenciais representa uma descortesia monumental no plano das relações bilaterais, assim como em conexão com normas usualmente seguidas nas relações internacionais, reguladas, nesse plano, pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas (1961). São atitudes arrogantes e sem qualquer sustentação no quadro da simples civilidade.

3)  Um dos temas mais controversos do período foi a venda da refinaria da Petrobras na Bolívia por U$D 112 milhões, valor que muitos consideraram abaixo do mercado e aquém dos investimentos lá realizados pela petroleira. Depois da ocupação militar das refinarias por Evo Morales, Lula chegou a dizer que o Acre fora trocado por um cavalo, o que parece injusto com Plácido de Castro, Joaquim Francisco de Assis Brasil e Rio Branco. O Embaixador Rubens Barbosa chegou na época a falar (em tom crítico) em uma “diplomacia da generosidade”. Por outro lado, uma crise diplomática com um vizinho com baixa autoestima foi contornada. O que ficou desse episódio? Houve prejuízo, foi menos significativo que os ganhos? Há casos onde nossos prejuízos foram maiores?

PRA: O caso ainda está relativamente obscuro, pois pode ter sido precedido de entendimentos prévios, diretos, entre Lula e Morales, este instruído e animado por Chávez (e sustentado por Nestor Kirchner, que tinha raiva de Lula), aquele achando que estava construindo a sua liderança na região. O fato é que a Bolívia rasgou um tratado bilateral, sem atentar para os dispositivos de denúncia, e também um acordo entre o governo boliviano e a Petrobras. Um dia depois, não o Itamaraty, mas o governo brasileiro emitiu uma nota vergonhosa aprovando a atitude unilateral da Bolívia. Um mês depois, uma reunião bilateral para tratar da questão da indenização teve como presidente da delegação brasileira o assessor presidencial Marco Aurélio Garcia, que assumiu inteiramente a posição boliviana, para choque e estupor dos demais membros da delegação e sobretudo da Petrobras. Esta foi impedida de recorrer ao acordo de proteção de investimentos entre a Holanda e a Bolívia – pois que os investimentos da Petrobras tinham sido feitos por uma holding da empresa na Holanda, justamente por haver um acordo desse tipo, quando o PT opôs-se resolutamente a qualquer acordo desse tipo – e teve de aceitar um enorme prejuízo, uma vez que mesmo tendo feito investimentos adicionais, após a aquisição de patrimônio do governo boliviano, ela não recebeu nenhum pagamento, apenas entregas de gás, e num preço reajustado para cima, por concessão unilateral do governo Lula. Ou seja, o Lula atuou como um traidor da nação, como um violador da legislação brasileira, assim como Morales o foi do Direito Internacional. Os prejuízos materiais foram grandes para a Bolívia, mas aqueles que incidiram sobre a nossa diplomacia foram ainda maiores. Poucos dias depois da nacionalização, Lula compareceu a um vergonhoso encontro em Puerto Iguazu, na Argentina, onde foi humilhado por Chávez e Kirchner, ao ter de aceitar todas as condições impostas por Morales e sustentadas pelos dois outros, que não tinham nada a ver com a questão bilateral. Esse foi um momento vergonhoso para a nossa diplomacia.

4)  Por outro lado, no período Lula-Dilma o Brasil investiu como nunca no multilateralismo, gozou de prestígio internacional e seu soft Power nunca esteve tão vitaminado. Qual o legado positivo dessa época?

PRA: De fato, o Brasil teve uma grande projeção internacional, dada a diplomacia extremamente ativa de Lula e Celso Amorim; Dilma representou um ponto baixo nessa trajetória. Foi positiva para a imagem internacional do Brasil, mas muitas iniciativas foram puramente retóricas e de propaganda, com poucos efeitos práticos, como o IBAS (Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul ), por exemplo. Mesmo o BRICS trouxe efeitos de imagem, mas escassos resultados positivos, inclusive considerando o Banco: não é dinheiro que falta para impulsionar o desenvolvimento, e sim projetos solidamente construídos. Foram gastos milhões de dólares com passagens e diárias de burocratas e outros enviados (acadêmicos inclusive) sem qualquer benefício para o povo brasileiro, apenas efeito propaganda do presidente.


5)  Nossa história registra diplomatas que divergiram de governos. O caso mais emblemático talvez seja o de Souza Dantas e dos vistos a judeus em Vichy, durante ocupação nazista da França. Ele sofreu processo administrativo, mas hoje sua memória é reverenciada. Normalmente, contudo, espera-se de diplomatas (assim como de militares e juízes) que evitem emitir opiniões a respeito dos governos aos quais devem obediência. Você não é exatamente adepto dessa orientação, mantendo um blog, de resto, inclusive, como fazia o atual chanceler, Ernesto Araújo, antes de empossado no cargo. Em março de 2019 você foi desligado sem explicações do IPRI. Foi uma retaliação aos seus comentários e críticas? Por sua vez, não conheço avaliações críticas de Audo Araújo Faleiro, desligado quatro dias depois de ser nomeado para a chefia da Divisão de Europa do Itamaraty, por pressão das redes sociais, apenas porque teria, ao que se divulgou, trabalhado com Marco Aurélio Garcia, no exercício de função de estado. Qual o limite para a divergência de um diplomata? Os blogs de diplomatas na ativa vieram para ficar? Está havendo no Itamaraty perseguição ideológica? Algo assim já se passou no Ministério?

PRA: Como costumo dizer, o Itamaraty não é de esquerda, nem de direita, ele é feudal, no sentido de preservar a hierarquia com a dominação dos “barões da Casa” e o temor reverencial por parte dos “servos de gleba”, que dependem daqueles para sua ascensão funcional, para boas remoções e postos de chefia. Normalmente, diplomatas não são esquerdistas, nem direitistas, eles são carreiristas, alguns até oportunistas, em todos os sentidos da palavra. Na época lulopetista, ocorreu uma moderada seleção de assessores por simpatias pessoais ou afinidades ideológicas, ainda que alguns, como sempre, tenham construído essa identidade para objetivos momentâneos. Poucos foram hostilizados, mas muitos foram afastados ou desviados de postos importantes, em favor daqueles mais alinhados, pessoal ou politicamente, aos donos do poder naquele momento. O caso de Audo é típico da era lulopetistas, pois foi beneficiado pelo regime, enquanto este tinha proeminência; agora foi vergonhosamente discriminado pelos novos cruzados da direita. Meu caso é diferente, pois sempre pensei com minha própria cabeça e nunca me submeti ao ritual tradicional de submissão aos chefes da Casa, expressando minha própria opinião sobre todos os assuntos. Fui “censurado” na ditadura – tendo de escrever sob outros nomes – e na redemocratização – cortes de parágrafos em livros e artigos meus –, depois punido em pleno regime democrático de FHC, por ter publicado sem atentar para a famosa “Lei da Mordaça” – circular que impunha controle prévio de qualquer manifestação pública –, mas que simplesmente consistiu em telegramas de advertência, que vão para o maço pessoal. No regime lulopetista recebi a pior das punições, nada formalizada, simplesmente a não atribuição de cargos na SERE, durante todo o regime, tendo permanecido anos e anos na Biblioteca. Finalmente, o quadro se repete da pior maneira no novo regime bolsonarista, quando também fui afastado de qualquer cargo e formalmente lotado na Divisão do Arquivo, o que foi feito para me humilhar obviamente. Voltei a trabalhar na biblioteca, mas tive a surpresa de enfrentar descontos financeiros, por supostas faltas e atrasos em um trabalho que simplesmente não existe, o que me obrigou a introduzir uma medida judicial contra a União, no caso representada pelo Ministério das Relações Exteriores. Todas essas etapas e episódios estão amplamente documentados em minhas páginas de comunicação social. 

6)  Uma diretriz importante estabelecida por Rio Branco foi a abstenção nos assuntos internos das nações vizinhas, de modo a favorecer a estabilidade regional, prestigiando os governos constitucionais, quaisquer que fossem eles. Até 1904, o governo do Rio Grande do Sul resistiu a essa orientação, interferindo marginalmente na política uruguaia, mas a partir daí o modelo foi seguido por todos. Quando o Presidente se imiscui na campanha eleitoral argentina, precipita-se no reconhecimento de um autoproclamado presidente na Venezuela (emitindo, inclusive, por meio de seu chanceler, sinais de que poderia estar disposto a participar de uma intervenção armada nesse país), e o filho ex-futuro-embaixador em Washington insinua apoio à invasão da embaixada da Venezuela em Brasília, a diretriz de Rio Branco está sendo abandonada? Qual o significado disso para o país?

PRA: A diplomacia profissional brasileira, ao longo do século XX, construiu uma política de não intervenção nos assuntos internos de outros países – uma postura até/ constitucionalizada formalmente no Art. 4 da CF-1988 – que se tornou praticamente o padrão básico de nosso comportamento bilateral, regional e multilateral. Esse princípio foi amplamente violado na era Lula, pois ele sistematicamente imiscuiu-se na política interna dos vizinhos, apoiando candidatos de suas simpatias políticas, o que pode ser configurado como uma postura contrária às normas diplomáticas e anticonstitucional. Ao que parece, o governo Bolsonaro segue o mesmo padrão ilegal e ilegítimo, também por razões claramente ideológicas, que no caso são absolutamente estúpidas no plano das relações diplomáticas bilaterais.

7)  O atual chanceler tem sido apontado por analistas como personagem despreparado para o cargo e até lunático, não apenas no Brasil, mas no exterior, como escancarou recente matéria no The Guardian. Você concordaria com essa avaliação? Acredita que a contenção que militares se propuseram a fazer sobre ele no início do governo, contornando possíveis crises severas e desnecessárias, como com a Venezuela ou com os países árabes, esteja funcionando?

PRA: O governo Bolsonaro escolheu como chanceler um diplomata sem experiência e sem equilíbrio emocional suficiente para exercer o cargo. Está claro que ele forjou uma identidade olavista, e se submeteu a uma extraordinária submissão aos membros da família presidencial, para ganhar o seu cargo, o que o torna totalmente ilegítimo do ponto de vista da expressão das posturas mais técnicas por parte do corpo de diplomatas profissionais. São evidentes os sinais de desequilíbrio pessoal e de dúvidas e hesitações – dado o conflito interno entre sua trajetória diplomática anterior e as orientações claramente desajustadas do grupo no poder – no tratamento de diversos assuntos inscritos na agenda internacional do Brasil. O choque foi especialmente forte logo ao início do governo, quando o chanceler tentou forçar uma adesão indesejada pelos militares à aventura eleitoreira de Trump na Venezuela, o que foi objeto de um “cordão sanitário” em torno do chanceler. As fricções continuam, sobretudo em decorrência das orientações claramente equivocadas do presidente e sua família, o que obriga setores mais racionais – militares, agronegócio, empresários em geral – a se esforçarem para conter as medidas mais inadequadas do ponto de vista dos negócios.

8)  Como você interpreta o gesto do chanceler brasileiro que foi aos Estados Unidos discutir a minuta do discurso do Presidente Bolsonaro na ONU com Steve Bannon? Há precedentes disso em nossa história? Trata-se de um sinal de subserviência, de boicote à própria soberania? Não é contraditório com a narrativa nacionalista e ufanista, ao estilo “Brasil acima de tudo”?

PRA: Gesto absolutamente inédito nos anais da diplomacia brasileira e totalmente desprezível do ponto de vista da autonomia nacional na determinação de suas principais diretrizes externas. É a subserviência em seu estado puro, algo vergonhoso para nossa diplomacia profissional. 

9)  O Pacto Amazônico funciona? Não é uma proposta de internacionalização da gestão da floresta, uma parceria estratégica com os países da região? Ao invés de investirmos em uma narrativa paranoica em relação à Amazônia, não poderíamos estar atraindo investimentos e fortalecendo nossa imagem internacional com a floresta em pé e com um diálogo com o planeta sobre a sustentabilidade da região?

PRA: Sim, existe um Tratado de Cooperação Amazônica (1978) e existe uma organização para implementar os dispositivos do tratado (OTCA, cuja sede está em Brasília), mas ambos foram ignorados, inclusive porque o governo é autista, totalmente introvertido, e despreza o direito internacional e o multilateralismo. O soberanismo patriótico é absolutamente ridículo nesse contexto. 

10)          Como você avalia o desempenho do Brasil na COP-25? Foi produtivo retirar candidatura para sediar a conferência? O Brasil parece ter ido para lá exigindo dinheiro, depois de rifar o Fundo Amazônico e sem apresentar projetos... Até mesmo cientistas e lideranças indígenas, que sempre acompanharam nossa delegação, foram dessa vez credenciados por outros países. Isso não é uma vergonha para a imagem do país?

PRA: Desde o início do governo Bolsonaro, a postura ambientalista do Brasil é de um regressismo assustador, colocando o país na contramão das tendências mais aceitas no plano internacional. Essa postura deve acarretar prejuízos econômicos e comerciais.

11)          Nove estados da região amazônica celebraram um convênio com a França. Qual o sentido desse movimento? A paradiplomacia sai fortalecida? A União está perdendo o monopólio sobre a política externa? 

PRA: Na verdade, o que prevalece é uma grande confusão e uma total falta de liderança e de coordenação por parte do governo federal. Esse é o resultado de um presidente inapto, inepto, incapaz de formular ou dirigir políticas públicas racionais. 

12)          Qual o impacto que o conjunto da política brasileira para o Meio Ambiente pode ter sobre a retomada do crescimento da nossa economia, muito especialmente sobre a atração de investimentos externos?

PRA: O governo atual parece desconhecer que o “politicamente correto”, por mais exagerado e até inconveniente que possa parecer, tornou-se uma imposição crescente para atores públicos e privados, sobretudo e principalmente na área ambiental, o que significa que os contraventores, estados ou empresas, serão severamente punidos pela opinião pública, o que repercutirá nas relações comerciais e até de cooperação cultural, científica e política, de modo geral.

13)          Como você percebe a agressividade do Presidente Bolsonaro a dirigentes estrangeiros, como no seu discurso na ONU, mas também nos episódios envolvendo a ex-presidente Bachelet e a primeira-dama da França, sem mencionar os ataques à Alemanha, Noruega e Dinamarca?

PRA: Discurso totalmente ridículo, feito por assessores incompetentes, e apenas visto por um chanceler sem qualquer poder, absolutamente voltado para o público interno e desconhecendo totalmente as normas básicas das relações internacionais. Basta comparar esse discurso com todos os precedentes em todos os anos de AGNU, para evidenciar como ele está totalmente fora do padrão. Além de inadequado, foi grosseiro, descortês, rude.

14)          A prestigiosa revista alemã Der Spiegel mencionou que o Brasil estaria se tornando um pária global. Você entende que isso pode acontecer, ou já aconteceu? Qual o significado disso? Seria uma situação facilmente reversível, em termos diplomáticos, no futuro, ou algo muito custoso?

PRA: O Brasil infelizmente sofre as consequências de um presidente que é, sim, um pária internacional, com poucas exceções, apenas aquelas de “amigos”, ou aliados de extrema direita e claramente personalidades autoritárias como ele. Isso quer dizer, simplesmente, que ele não irá receber NENHUM convite para visita de Estado, ou mesmo de trabalho, dos mais importantes parceiros do Brasil – a não ser alguns, por interesse próprio –, e em consequência o Brasil e os brasileiros não mais poderão se beneficiar de eventuais acordos de cooperação. 

15)          Ataques a representações diplomáticas brasileiras são historicamente incomuns. Há um caso em 1893, em Montevidéu (protesto contra a invasão do país por tropas castilhistas com saldo então de vários mortos) e, em 2009, o cerco militar em Tegucigalpa, com corte de luz, água e telefone. Em 2019, tivemos ataques em Berlim, Wellington e Londres, além de manifestações em diversas cidades pelo mundo, em agosto. Como isso afeta a imagem do país? Seria algo passageiro? Como os diplomatas brasileiros têm lidado no dia-a-dia de trabalho com esse mau humor global contra nossas embaixadas?

PRA: Lamentável o espetáculo, de um lado e de outro. O presidente Bolsonaro, infelizmente, desperta total rejeição em amplos setores da opinião pública internacional e como tal projeta essa rejeição sobre nossas representações no exterior. Lamentável que os diplomatas tenham de assistir a um espetáculo de rejeição que simplesmente não existiria se o presidente fosse minimamente responsável. 

16)          Qual sua opinião sobre o tratado com a UE? Por que o Itamaraty demorou tanto para divulgar detalhes sobre os termos? As cotas para exportações brasileiras não ficaram muito baixas? A política ambiental brasileira não pode inviabilizar a aprovação do acordo nos parlamentos dos países europeus? 

PRA: Não é nem um acordo de livre comércio, e sim de liberalização parcial, administrada, de determinados fluxos de comércio, mais próximo do mercantilismo do que do verdadeiro livre comércio. Independentemente de cotas, exceções, delongas em setores específicos, o fato é que não se tem sequer certeza de que esse acordo poderá entrar em vigor, dado, por um lado, o protecionismo tradicional (dos dois lados), mas sobretudo em função da postura ambientalista do governo Bolsonaro, o que tem motivado alguns países, ou parlamentos, a rejeitar a sua aceitação (e todos os membros da EU precisam fazê-lo). Minha percepção de que enquanto Bolsonaro estiver no poder, esse acordo tem poucas chances de ser implementado. O acordo, aliás, só surgiu, finalmente, no contexto da chamada “guerra comercial” entre os EUA e a China, e se esse contexto for superado, pode ser que sua urgência se torne menor, do ponto de vista puramente político. 

17)          O Brasil ensaiou algumas vezes no passado alinhamentos automáticos com os Estados Unidos, como logo depois do golpe militar que instalou a República e durante parte do governo Dutra, quando uma das consequências foi a pulverização das reservas cambiais acumuladas durante a Segunda Guerra. A exumação dessa política está dando resultados ou já é um fragoroso desastre? Por quê? Como os outros países devem reagir a esse alinhamento automático do Brasil aos Estados Unidos?

PRA: Não é verdade que o Brasil adotou um alinhamento automático no campo diplomático, no seguimento do golpe militar de 1964, ao estilo tosco como isso se exerceu em alguns episódios do imediato pós-guerra, sob o governo Dutra. O atual adesismo idiota de vários personagens do governo – presidente, familiares e o próprio chanceler acidental – não tem precedentes na nossa história diplomática, e constituiu algo profundamente vergonhoso para a diplomacia e para o próprio país. Isso vai nos afastar de diversos outros países, não porque eles sejam necessariamente antiamericanos (o que alguns são), mas porque ninguém gosta de países que não possuam identidade própria em suas relações exteriores. Países caudatários, diplomacias submissas, são tratados com desprezo pela comunidade internacional. 

18)          Qual a vantagem de nos tornarmos aliados preferenciais da OTAN? Isso dinamizaria nossa indústria bélica? Não há risco de sermos arrastados para conflitos dos Estados Unidos, como no Iraque?

PRA: Não há nenhum risco de nos envolvermos nas aventuras militares dos EUA, ou da própria OTAN, ao redor do mundo. Trata-se simplesmente de um expediente pelo qual nossos padrões e normas industriais se ajustam aos em vigor no âmbito da OTAN, o que sempre representa uma economia de escala (mas sem qualquer garantia de que benefícios advirão automaticamente para a indústria bélica do Brasil). O que se espera é uma ampliação das cadeias de valor nessa área, no caso de um país, como o nosso, que participa muito pouco de outras cadeias de valor. 

19)          Seria vantajoso para o Brasil ingressar na OCDE

PRA: Pode ser, mas não creio que seja necessário absolutamente. O Brasil pode adotar, voluntariamente, todos os padrões que são seguidos pelos países da OCDE sem precisar aderir à organização, e pode fazê-lo da maneira mais adequada ao seu próprio ritmo de integração progressiva à interdependência global. Ser independente, mas estar sempre avançando nos melhores padrões da indústria mundial é o que de melhor podemos esperar para o Brasil. Devemos fazer aquilo que é bom para nós, não o que determinam quaisquer outros países, mas devemos estar conectados a todos os padrões e requerimentos básicos da globalização. 

20)          Ganhamos algo em sair do OMC? A exigência de saída da OMC foi uma traição de Trump a Bolsonaro?

PRA: Não ocorreu, nem vai ocorrer nenhuma saída do Brasil da OMC, pois isso seria impossível. O que ocorreu foi uma renúncia, mas a pedido, do chamado tratamento especial e mais favorável para países em desenvolvimento, o que até pegou os “líderes” brasileiros de surpresa, na visita de Bolsonaro a Trump. Eles não tinham a menor ideia, pois são ineptos, sobre o significado da medida, que significa renunciar a certas rebaixas tarifárias e algumas outras disposições mais favoráveis em matéria de normas. Mas, esse episódio apenas revela como a atual equipe dirigente é inepta sob vários pontos de vista, inclusive devido ao seu adesismo idiota aos EUA e ao governo Trump. No seguimento dessa aceitação caolha, míope do ponto de vista dos interesses nacionais, diplomatas e economistas mais competentes se encarregaram de relativizar a aceitação e de jogá-la para um futuro indefinido, mas o mal já estava feito, pelo menos nas relações com os EUA e em eventuais novos acordos a serem negociados.

21)          O Brasil manteve sua posição no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Não é contraditório com os elogios que o Presidente tem feito a torturadores e a ditadores abomináveis, como Pinochet e Stroessner?

PRA: A maior parte das agências da ONU seguem esse “equilíbrio” regional, e principais aceitos mais ou menos mecanicamente de “rotação” entre os países, o que acaba redundando na “eleição” de alguns países com credenciais execráveis no plano dos direitos humanos e democracia. Apenas em casos excepcionais – um ditador que realmente pratica genocídio contra o seu próprio povo – ocorre uma “recusa política” do candidato, do contrário ele será eleito, inclusive com o voto de democracias plenas. Essa é uma hipocrisia conhecida nas relações internacionais, uma vez que os países acham que, se deixarem de seguir a alternância ou rotação, poderão ficar sem votos na próxima eleição, quando será a sua vez de ocupar tal vaga. Essa hipocrisia deve continuar. 

22)          Estamos desde abril de 2019 sem titular em Washington. Isso depois do Presidente anunciar (e depois recuar) seu filho como titular. Quais as consequências disso para as relações entre os dois países?

PRA: O espetáculo “diplomático” oferecido pelo atual governo é propriamente vergonhoso e jamais visto nos anais da nossa diplomacia. O presidente é um completo ignaro das normas e costumes mais elementares nas relações internacionais, e vai anunciando candidatos a postos diplomáticos em total descumprimento das normas usualmente seguidas nesse tipo de procedimento, quando confidencialidade e discrição são padrões seguidos antes da aceitação do designado pelo outro país. O rebaixamento determinado nas relações bilaterais também é inédito, pois normalmente se escolhe um diplomata experiente ou personalidade influente na vida internacional do Brasil, com conexões com parceiros atuando nas relações entre os dois países. Nestor Forster é um excelente funcionário diplomático, embora seja um embaixador recém promovido, e ainda vai ser testado no cargo que vai assumir na chefia da embaixada em Washington.

23)          O que significa a destruição da inteligência no Itamaraty, subtítulo de seu livro mais recente?

PRA: Na medida em que o chanceler se submete, servilmente, a um pessoal despreparado no campo das relações internacionais – como são o próprio presidente, seus filhos e o guru de todos eles, expatriado na Virgínia –, a única consequência é reduzir decisões importantes no campo da política internacional do Brasil a ineptos, e mais ainda, a pessoas que se guiam não pela racionalidade, mas pelos preconceitos e pela ideologia, ou seja, pela irracionalidade. 

24)          Trump logrou recentemente a reformulação do NAFTA. Ele tinha razão quando dizia que o tratado era injusto e precisava ser revisto? Foi uma vitória política dele?

PRA: Trump é um completo ignorante em matéria de economia e de comércio internacional. Ele tem a mesma disposição, depois demonstrada aqui por Bolsonaro, de destruir tudo o que havia antes, para colocar outras coisas, ou nada, no lugar. Foi assim com o Obamacare e com medidas no campo da sustentabilidade ou das energias renováveis. Começou denunciando o TPP, um virtual acordo de livre comércio entre 12 grandes e pequenas economias da franja do Pacífico, que ainda assim foi assinado, a 11, sem a participação dos EUA. Com o NAFTA foi a mesma coisa: denunciado, mas substituído por acordos bilaterais com Canadá e México, que preservam os objetivos, mas introduzem dispositivos mais mercantilistas e protecionistas da parte dos EUA, o que só vai prejudicar os consumidores e as indústrias dos EUA, na medida em que impõem custos adicionais aos produtores e um descolamento da interdependência simbolizada em cadeias de valor. Como seus eleitores são ignorantes, pode até ser uma vitória política de Trump, mas se trata claramente de uma derrota para a economia.

25)          O USMCA, na sua opinião, foi também uma vitória para os trabalhadores?

PRA: Esses acordos comerciais não são feitos para beneficiar em primeiro lugar os trabalhadores de determinadas indústrias ou setores da economia, que representam sempre uma determinada parcela da população. Eles são feitos para beneficiar TODA a população e, portanto, também os trabalhadores, com produtos e serviços mais baratos e de melhor qualidade. Trabalhadores e empresas serão deslocados, o que significa perdas setoriais, locais, temporárias; os ganhos de bem-estar, diluídos por toda a população, são bem maiores, mas menos visíveis do que essas “perdas” localizadas, que se tornam mais vocais no parlamento, na mídia. Consumidores beneficiados não se manifestam.

26)          No final dos anos 90 e início dos anos 2000, as relações diplomáticas entre Brasil e Canadá viveram seu pior momento, em razão da disputa entre Bombardier e Embraer e em função do comércio de carne bovina. Como fica essa relação agora que a Embraer foi absorvida pela Boeing e que a criação ganadeira tem sido responsabilizada pelo avanço do desmatamento na Amazônia, sobretudo considerando ser o Canadá um país zeloso com a questão ambiental?

PRA: Competição entre empresas é um dado incontornável de todas as economias de mercado, e nada muda nesse particular, a não ser que alguns concorrentes disponham ou de vantagens especiais – determinadas politicamente – ou de desvantagens criadas por outras normas e regulações, que não aquelas que emergem naturalmente da dinâmica dos mercados. Alegações ambientalistas podem ser usadas de má-fé por motivações protecionistas, ou de concorrência desleal. Cabe aos países atentar para normas e disposições existentes no cenário comercial internacional para não ter suas empresas indevidamente afetadas por acusações sem fundamento. 

27)           A transição e consolidação fiscal do Canadá no final dos anos 1990 serve de referência ao Brasil?

PRA: Não conheço particularmente esse aspecto das políticas econômicas do Canadá, mas, por princípio, por norma básica de qualidade das políticas econômicas dos países, qualquer consolidação fiscal é absolutamente indispensável para uma boa gestão das contas públicas. Os governos, os países, não precisam necessariamente apresentar orçamentos totalmente e sempre equilibrados, pois todos eles precisam administrar dívidas públicas, que podem crescer moderadamente ao longo do tempo, desde que feitas para fins de investimentos produtivos e para estímulo da produtividade, o que tornará o país mais rico no futuro. A construção da união monetária europeia se fez em torno de alguns princípios básicos, entre eles a imposição de um déficit orçamentário não maior do que 3% do PIB e uma carga total da dívida pública não maior de 60%, o que parece critérios razoáveis de solidez fiscal. Estes indicadores servem também para o Brasil e o Canadá, e só podem ser ultrapassados em circunstâncias excepcionais. 

28)          Brasil e Canadá enfrentaram com mais tranquilidade que outros países a crise de 2008. No entanto os dois parecem cooperar pouco na área de regulação financeira. Por quê?

PRA: O Canadá é um país membro da OCDE e segue a coordenação que se desenvolve nesse âmbito nos temas da regulação financeira. Ambos, Brasil e Canadá, fazem parte do G-20 financeiro e são membros do BIS, o que indica que ambos seguirão padrões e normas de regulação financeira adequados a um número mais vast0 de países. Não há motivo para cooperar especialmente e bilateralmente nesse terreno da regulação financeira, a não ser para facilitar ainda mais as transações entre ambos.

29)          O Canadá foi um entusiasta da falecida ALCA, que o governo FHC viu com ceticismo e o governo Lula enterrou. Como você percebe a trajetória dessa proposta? A prudência de FHC e a rejeição de Lula eram justificáveis?

PRA: A ALCA era uma proposta americana que tinha aspectos positivos e outros negativos, como quaisquer acordos internacionais, ou até medidas econômicas internas. No geral, livre comércio é sempre, e em qualquer hipótese, positivo para todos os países, embora alguns se eximam da abertura ampla e preservem protecionismos setoriais, subsídios localizados e, portanto, um comportamento desleal em face de outros países que liberalizaram amplamente suas economias. Sob a justificativa de que os EUA não abririam substancialmente seus mercados agrícolas – terreno no qual o Brasil é amplamente competitivo –, mas também para proteger indústrias que são “infantes” eternamente, o Brasil e outros países sabotaram esse acordo, o que eu considero um erro estratégico.  Não que a ALCA no modelo americano fosse o mais perfeito dos acordos comerciais, mas ela era, de toda forma, uma aproximação ao livre comércio, o que sempre é positivo, ainda que deficiências subsistissem. 

30)          Um acordo de livre comércio entre o Brasil e os EUA, como está sendo prometido pelo atual governo, é viável, a médio prazo? Essa proposta não iria de encontro à orientação protecionista do governo Trump? Seria uma tentativa de ressuscitar a ALCA?

PRA: Não atribuo a menor credibilidade a esse tipo de anúncio político e, portanto, não discuto hipóteses improváveis na presente conjuntura. Seria um acordo bilateral, como os EUA já têm com quase todos os países da região, com exceção, justamente, dos membros do Mercosul, e os chamados “bolivarianos”. Depois que a ALCA foi sabotada por Brasil (Lula), Venezuela (Chávez) e Argentina (Kirchner), quase todos os demais países negociaram acordos bilaterais com os EUA.

31)          Brasil e Canadá tiveram em comum até 2018 a valorização do multilateralismo e do multiculturalismo. A despeito dessa convergência, as ações de cooperação efetivas entre os dois países seguiram tímidas. Por quê?

PRA: A interface econômica, comercial, cultural, científica, geral entre o Brasil e o Canadá ainda é limitada, e não se pode esperar um crescimento artificial em breve prazo. Diplomatas e empresários dos dois países, assim como acadêmicos e artistas, podem trabalhar para aumentar e expandir a outros setores essas relações. Multilateralismo é apenas um método aberto, e não um objetivo de diplomacia bilateral, ao passo que multiculturalismo é uma característica própria a cada país, mas cada um em bases diferentes. 

32)          Como você avalia os resultados da missão conjunta no Haiti?

PRA: Toda e qualquer assistência humanitária é sempre positiva em situações de extrema pobreza, como é o caso do Haiti. Mas não podemos nos iludir: a correção dos problemas de um país cabe, em primeiro lugar, aos seus próprios líderes, dirigentes e elites de uma forma geral. Nenhum país pode esperar melhorar vivendo de assistência pública internacional, como infelizmente parece ser o caso do Haiti (e de vários outros países ao redor do mundo, especialmente na África). Missões humanitárias podem, no máximo, remediar urgências absolutas, mas nunca conseguirão corrigir problemas e deficiências estruturais longamente existentes. 

33)           As posições do atual governo brasileiro no meio ambiente, na questão indígena, desarmamento e direitos humanos podem contribuir para afastar Brasil e Canadá?

PRA: Certamente: assim como o Brasil de Bolsonaro está sendo virtualmente rejeitado pelas sociedades e até governos da Europa ocidental, é provável que isso ocorra igualmente no caso do Canadá. Governos não costumam rejeitar a convivência de outros governos, por simples normas de cortesia diplomática e de simpática entre os povos, mas situações extremas podem levar ao afastamento entre governos e rejeição de novos acordos de cooperação entre agências públicas e até instituições acadêmicas, com grandes prejuízos para suas respectivas populações. 

34)          Como você percebe a proposta de um acordo entre Mercosul e Canadá? Está avançando, tem chances de prosperar?

PRA: Pode até ser que avance e se realize, o que sempre será positivo, mas haverá como em outros acordos exceções, delongas na liberalização, subsídios setoriais. Não obstante, seria certamente bem vindo no plano das relações bilaterais entre o Canadá e os países membros do Mercosul.

35)          Como você percebe a atual crise diplomática entre China e Canadá?

PRA: São pequenos incidentes, ou acidentes de percurso, envolvendo práticas desleais por parte de empresas, mas por vezes, também, armadilhas dos serviços de inteligência, atuando em benefício das companhias nacionais. Não tenho conhecimento suficiente para opinar nessa questão.

36)          O Canadá sempre defendeu o direito de suas empresas negociarem com Cuba. Isso representa ruído nas relações com os Estados Unidos, pode prejudicar as relações com o Brasil, considerando o extremismo ideológico do atual governo?

PRA: Canadá e Brasil sempre pautaram suas relações internacionais por princípio e normas do Direito Internacional, que geralmente rejeitam ações e medidas unilaterais que não estejam previstas na Carta da ONU ou nas resoluções de seu Conselho de Segurança. Os Estados Unidos têm esse péssimo hábito de atuarem unilateralmente, e se utilizam para tanto de seu enorme poder militar, econômico, financeiro, e sua capacidade de pressão sobre outros países. O governo Trump representa, aliás, uma exacerbação desse péssimo hábito. Canadá e Brasil deveriam continuar pautando sua diplomacia por uma adesão irretocável aos princípios do Direito Internacional, mas aparentemente o governo Bolsonaro se dispõe a seguir o governo Trump nesse tipo de desafio às relações internacionais, o que seria péssimo para os padrões historicamente observados pela diplomacia brasileira. O governo Bolsonaro já seguiu o governo americano e o de Israel, na questão das sanções unilaterais impostas a Cuba pelos EUA, o que é um registro lamentável, na medida em que significa o afastamento do Brasil do Direito Internacional. Posteriormente, a diplomacia brasileira, num gesto igualmente lamentável para nossa postura pregressa, aderiu imediatamente ao chamado “Plano Trump” para a “paz” na Palestina, o que nenhum outro parceiro dos EUA na OTAN o fez, pelo seu evidente desequilíbrio e injustiça para o povo palestino. Esse tipo de adesismo sabujo é algo deplorável nos anais da diplomacia brasileira.

37)          Nos EUA há certa euforia com o Brexit. Como o Canadá está reagindo a esse tema?

PRA: Eu não diria que nos EUA existe euforia com o Brexit. Como o presidente Trump é antiglobalista, antimultilateralista e, portanto, anticomunitário, ele se vangloria com a nova postura isolacionista e nacionalista da Grã-Bretanha, pois ela corresponde à sua própria postura em geral, no campo das relações internacionais. Suponho que o Canadá manterá a necessária discrição, como política de Estado, nessa questão, que cabe ao povo britânico e a seu governo encaminhar da melhor forma, sabendo, porém, que ocorrerão turbulências no comércio bilateral, antes reguladas no plano comunitário, e que terão de ser regidas por novas normas e princípios. Tudo isso é uma enorme perda de tempo e esforços, com a regulação burocrática dessas relações, que passam do plano multilateral ao estritamente bilateral. Suponho, mesmo sem saber a postura específica do governo canadense sobre o Brexit, que isso causará transtornos em toda a interface econômica, e até política e cultural, entre ambos países. O Brexit é, antes de mais nada, um imenso erro de cálculo dos governos conservadores, e tanto o Reino Unido quanto a União Europeia sairão enfraquecidos e diminuídos com a sua concretização. 

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5 de abril de 2020