Erico Veríssimo, falecido há muitos anos, acaba de adentrar o STF. Se fosse vivo, teria material para mais um romance do absurdo:
Distopia do STF lembra o realismo fantástico de 'Incidente em Antares'
Luiz Carlos Azedo
Correio Braziliense, Quarta-feira, 9 de setembro de 2026
Treze ex-ministros do STF classificam o episódio como a 'mais aguda crise' do tribunal; defendem apuração rigorosa dos fatos e respeito ao devido processo legal
Antares, a estrela mais brilhante da constelação de Escorpião, é uma supergigante vermelha situada a cerca de 550 anos-luz da Terra. Seu nome vem do grego e significa “rival de Ares”, devido à semelhança de sua coloração com a de Marte, o planeta associado ao deus da guerra. Tem massa estimada entre 11 e 16 vezes a do Sol, raio centenas de vezes maior e luminosidade próxima de 100 mil sóis.
Entretanto, Antares está consumindo rapidamente o combustível que ainda sustenta seu equilíbrio. Quando esse processo terminar, seu núcleo entrará em colapso e a estrela explodirá como uma supernova, provavelmente dentro de alguns milhões de anos. Na literatura brasileira, é o nome da cidade fictícia criada por Erico Verissimo em seu último romance, “Incidente em Antares”, publicado em 1971. O autor recorre ao realismo fantástico, ao humor macabro e à sátira política para fazer a autópsia de uma sociedade dominada pela hipocrisia e pelos acordos entre seus poderosos.
Na fronteira com a Argentina, desde o século 19, a cidade gaúcha é controlada por duas oligarquias, os Vacariano e os Campolargo, adversárias durante gerações, mas capazes de se unir quando seus privilégios são ameaçados. O verdadeiro incidente ocorre em 13 de dezembro de 1963, quando uma greve geral paralisa a cidade, com adesão dos coveiros.
A matriarca Quitéria Campolargo, o advogado Cícero Branco, o sapateiro anarquista Barcelona, o pianista Menandro Olinda, o operário João Paz, o bêbado Pudim de Cachaça e a prostituta Erotildes ficam sem sepultura. Diante disso, levantam-se dos caixões, marcham até a praça e ocupam o coreto. Como já morreram, não temem processos, ameaças, perda de emprego nem retaliações sociais. Do alto do coreto, revelam adultérios, negociatas, corrupção, exploração, covardia e violência.
A elite antarense desacredita os denunciantes, tenta interditar a praça, mobiliza a polícia e procura apagar o acontecimento. Depois que os mortos finalmente são enterrados, começa a “Operação Borracha”, destinada a eliminar documentos, fotografias e testemunhos do episódio. A ordem é converter um fato presenciado por toda a cidade numa alucinação coletiva. A podridão revelada pelos defuntos precisa ser apagada para que tudo volte à normalidade.
O Brasil vive um espécie de “Incidente em Antares”. Às vésperas das eleições gerais, o Supremo Tribunal Federal (STF), instituição fiadora da Constituição, que deveria ser o ponto de equilíbrio entre os Poderes, enfrenta uma crise intestina sem precedentes. O caso Banco Master deixou de ser apenas uma investigação sobre fraudes financeiras bilionárias. Transformou-se numa disputa aberta entre ministros, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República.
Togas em transe
O relatório encaminhado por André Mendonça ao presidente do STF, Edson Fachin, aponta indícios de proximidade entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. Moraes reagiu pedindo que Mendonça fosse investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Para fundamentar a acusação, apresentou um relatório de inteligência da Polícia Federal que atribuía ao colega possíveis direcionamentos na condução do inquérito.
O documento, porém, não tinha assinatura e trazia a ressalva de conter conjecturas “sem valor probatório”. Diante disso, Mendonça trucou: nesta terça-feira, determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada. A Segunda Turma formou maioria para referendar a decisão e só não concluiu o julgamento porque o ministro Gilmar Mendes, aliado de Moraes, pediu vista do processo. A crise, antes restrita aos gabinetes, alcançou o comando da PF e provocou uma reação em cadeia dentro da instituição.
Como no romance de Veríssimo, já não se discute somente o conteúdo das denúncias, mas quem pode investigá-las, quem controla os documentos e quem tem competência para tornar públicos os fatos. A PGR pediu a anulação do relatório liberado por Mendonça, sob o argumento de que apenas o plenário poderia autorizar uma investigação contra integrante da Corte. O problema é que o próprio procurador-geral Paulo Gonet aparece citado no material, o que amplia a percepção de conflito de interesses.
Fachin concentrou em procedimento próprio os documentos e as manifestações dos envolvidos. Pode levar o conflito ao plenário, convocar uma reunião reservada ou decidir sobre a abertura das investigações. O risco é que uma solução interna concebida apenas para pacificar os gabinetes seja interpretada pela sociedade como uma Operação Borracha, como em Antares. Ou seja, uma marmelada.
Treze ex-ministros e ex-presidentes do STF já classificaram o episódio como a “mais aguda crise” da história do tribunal, defenderam apuração rigorosa dos fatos e respeito ao devido processo legal. As acusações precisam ser provadas. A presunção de inocência vale para todos, porém, o devido processo legal não é pretexto para o silêncio corporativo do Supremo. A autoridade da Corte depende da confiança pública, da sua coerência e do respeito às regras que aplicam aos demais.

Para celebrar a produção intelectual e o aniversário de 120 anos do ex-senador, deputado federal e diplomata Afonso Arinos de Melo Franco, o jornalista Rogério Faria Tavares e o professor Arno Wehling, membro da Academia Brasileira de Letras, organizaram a coletânea Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco. Dividido em 17 ensaios, escritos por estudiosos e contemporâneos de Arinos, o livro passa pelas diferentes áreas de atuação do intelectual.
Durante a carreira política, Afonso Arinos foi deputado federal por Minas Gerais e senador pelo Rio de Janeiro. Entre os feitos do político, Rogério Faria Tavares destaca a Lei Afonso Arinos, de 1951, que transformou a discriminação de caráter étnico-racial em infração criminal. "É considerada um marco divisor de águas na história do antirracismo no Brasil. Isso foi muito importante. Por essa proposta, Afonso Arinos recebeu várias ameaças de morte e trotes e foi muito ofendido por conta da sua defesa do antirracismo", diz Tavares.
Como chanceler do governo de Jânio Quadros, em 1961, foi um dos elaboradores da Política Externa Independente, marco da diplomacia brasileira. "Até 1960, a política externa brasileira se alinhava muito aos interesses norte-americanos, afinal, nós vivíamos no tempo da Guerra Fria", explica Tavares. "Arinos enuncia a Política Externa Independente, que o Brasil agora se alinha sobretudo aos seus próprios interesses nacionais, que são aqueles que guiam as ações do Brasil na sociedade internacional."
Arinos defendeu a maior aproximação entre o Brasil e os países africanos, asiáticos e latino-americanos e foi ainda o primeiro chanceler brasileiro a visitar o continente africano. Após sair do Itamaraty, foi chefe da delegação brasileira na Assembleia Geral das Nações Unidas e professor da UERJ e UFRJ.
A produção intelectual de Arinos passa ainda pelo direito constitucional, ciência política e crítica literária. Para o livro, os organizadores elencaram as áreas de atuação de Arinos e convidaram autores que pudessem escrever sobre cada uma dessas facetas. "Formamos um grupo muito qualificado de autores que conviveram com Afonso Arinos e que puderam dar depoimentos pessoais, como José Sarney, Bernardo Cabral, Joaquim Falcão e seu neto Cesario Mello Franco", diz Tavares. "Encontramos autores contemporâneos como Christian Lynch, Airton Cerqueira Leite Seelaender e Luiz Feldman que são da geração jovem, mas que têm uma grande condição de analisar o que Afonso Arinos fez."
Tavares exalta o legado do intelectual como defensor da educação, cultura e escrita. "Um homem que defendia o poder das ideias, dos pensamentos e a importância de que todo cidadão tenha acesso à cultura, ao conhecimento, à educação, aos estudos e ao ensino. Ele foi um intelectual na política, um homem de reflexão, mas também de ação", afirma.
Como político, lutou contra o autoritarismo e o fanatismo. "Ele teve adversários políticos de quem discordava e até de forma veemente, como Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas. Mas a situação de ter adversários políticos jamais fez com que ele elevasse esses adversários à condição de inimigos", afirma. "E esta é uma lição que Afonso Arinos deixa para nós. É possível discordar e divergir, isso faz parte do jogo político e democrático, mas não é necessário berrar, gritar, ofender, insultar ninguém."
*Estagiária sob supervisão de Nahima Maciel





