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sábado, 7 de março de 2026

Guerra dá lucro - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

Opinião

Guerra dá lucro

Os Estados Unidos são um país que vive em guerra. Seu dispositivo militar determina a política externa e provoca conflitos que, para eles, são rentáveis.

Verbas para gastos militares dos EUA deverão alcançar US$ 1,5 trilhão em 2027.

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF — jornalista

Correio Braziliense, 7/03/2026

https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2026/03/7370012-guerra-da-lucro.html


As duas bombas atômicas que os Estados Unidos jogaram sobre Hiroxima e Nagazaki, no Japão, em 1945, acabaram com a Segunda Guerra Mundial, na sua fase asiática. Mas também serviram para avisar à União Soviética do poder devastador de suas forças armadas. Os russos explodiram sua bomba em 1949 e devolveram o aviso. Agora, a inesperada ação militar combinada de Estados Unidos e Israel contra o Irã tem por objetivo defender a nação judia e avisar a China que o país está cercado por eficientes equipamentos de ataque. É a advertência de que a guerra continua e o Império do Meio enfrenta concorrentes poderosos.

Os Estados Unidos detêm a liderança da economia mundial segundo a medição do Produto Interno Bruto. São US$ 33 trilhões contra US$ 22 trilhões da China. Os dois maiores são seguidos, nesta ordem, por Japão, Alemanha e Índia, que, nos próximos anos, deverá chegar ao terceiro lugar entre as maiores economias do mundo. O desempenho do Brasil é decepcionante. Cresceu 2,3% no último ano e desceu para o décimo primeiro entre as maiores economias do planeta. Já foi o sexto maior. Agora, está atrás de Canadá, Rússia e até da Itália. Desempenho muito fraco para quem pretende ter diplomacia influente.

O desenvolvimento econômico espetacular da China assustou o mundo e, particularmente, os norte-americanos. Eles já foram vencidos em várias áreas da alta tecnologia. No campo da inteligência artificial (IA), os chineses estão longe. A China transformou-se numa fábrica do mundo. Há produto chinês em quase tudo que o consumidor utiliza aqui, nos Estados Unidos e nos países europeus. O governo de Washington assiste a tudo isso com muita preocupação. Sua liderança está ameaçada. Enquanto as forças armadas norte-americanas massacravam o povo no Iraque durante nove anos, os chineses avançavam sobre os mercados de todo o mundo. 

Mas há um detalhe que explica a liderança dos Estados Unidos. É seu formidável poder bélico, sem paralelo no mundo. É um país que vive em guerra. Seu dispositivo militar determina a política externa e provoca conflitos que, para eles, são rentáveis. Seja pela venda contínua de novos equipamentos, seja pela obrigação de persistir nas pesquisas para aprimorar as máquinas de matar e de dominar áreas rentáveis, como são os campos de petróleo na Venezuela, no Iraque e no Irã. 

Não há objetivo estratégico na guerra contra a antiga Pérsia. Existe a preocupação de defender Israel e tomar os apetitosos campos de petróleo daquele país. Foi o que os ingleses fizeram em 1953, quando o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh nacionalizou a empresa de petróleo Anglo-Iranian Oil Company. Um golpe militar derrubou o regime e colocou no poder o Xá da Pérsia, Reza Pahlevi, que entregou o ouro negro aos ocidentais e deu início, com apoio de Washington, ao programa de enriquecimento de urânio, agora contestado pelos próprios norte-americanos.

O governo dos Estados Unidos mantém 750 bases militares fora do seu território continental, com presença em 80 países e territórios. Algumas instalações são pequenas (estações de radar, depósitos, centros logísticos), outras são temporárias ou secretas. Eles possuem bases militares no Japão, com 50 mil militares, baseados em Okinawa. Na Alemanha, onde funciona importante centro de logística com 35 mil militares. Na defesa da Coreia do Sul, contra o inimigo do norte, com 28 mil militares. Em Itália, Reino Unido, Espanha, Portugal (base de Lajes nos Açores). No Oriente Médio, em Bahrein, Catar, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Turquia. Além dessas, nas Filipinas e na Austrália.

O governo dos Estados Unidos mantém cerca de 1,3 milhão de militares na atividade. A reserva e a Guarda Nacional adicionam outros 800 mil militares. O total combinado indica 2,1 milhões de homens e mulheres preparados para a guerra. No exterior ficam, de maneira permanente, 177 mil militares. A comparação entre quantidades de militares das grandes potências resulta no seguinte: Estados Unidos, 2,1 milhões (total mobilizável); China, 2 milhões; Índia, 1,4 milhão; e Rússia, 1 milhão na ativa. O Orçamento de Defesa aprovado para 2026 é de US$ 901 bilhões. O planejamento indica que, em 2027, as verbas para gastos militares dos Estados Unidos deverão alcançar US$ 1,5 trilhão.

Há dinheiro suficiente para manter a máquina de matar funcionando. A morte de militares e civis é evento colateral desimportante diante do gigantismo dessa operação. O que importa é o lucro final. É ilusão imaginar que o presidente brasileiro poderá ter algum ganho na sua relação com o bronzeado chefe de governo em Washington. Sorte do Brasil que, além de pobre, é apenas um razoável produtor de petróleo.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O fim da inocência (Opinião) - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

 O fim da inocência

 Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia

PRI-1701-OPINI -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
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ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista

Correio Braziliense, 17/01/2026

Mas há uma vantagem nesse novo cenário. Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio, que foi um ponto central e básico na argumentação norte-americana de como os países deveriam organizar seu mercado interno. Os chineses são mais ágeis, produzem mais e com menor preço. Se houver concorrência livre e aberta, os americanos perdem. Então, o melhor é recorrer ao poder dos formidáveis porta-aviões. Cada um com mais de 50 aviões de última geração, helicópteros maravilhosos e tripulação de 5 mil marinheiros. Essa brincadeira custa mais de US$ 1 bilhão por mês. O governo dos Estados Unidos mantém 11 porta-aviões, com suas respectivas defesas navais, em operação no mundo, ao mesmo tempo. É muito dinheiro para manter abertas as trilhas do comércio internacional.

O mundo está de joelhos diante da formidável demonstração de força, agilidade, capacidade de articulação em território inimigo ocorrida na Venezuela. Os aviões norte-americanos desligaram os radares do inimigo, apagaram a luz de Caracas, neutralizaram os sinais de geolocalização e mataram, com incrível rapidez, os cubanos que defendiam Nicolás Maduro. Material de última geração chinês e russo foi silenciado. Tudo ocorreu em questão de minutos. Vale a comparação: a poderosa Rússia está há longos e tortuosos quatro anos tentando dominar a pequena Ucrânia. Perdeu uma quantidade enorme de soldados, aviões, carros de combate, navios e até submarinos. No entanto, Volodymyr Zelensky continua no poder negociando a improvável paz. Putin não conseguiu demonstrar qualquer tipo de eficiência na sua guerra. Ele é um perdedor perante a história.

A conclusão é simples. Acabou a era da inocência. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia. No caso brasileiro, talvez os observadores acordem da letargia histórica e abram os olhos para a realidade. Os americanos estão na Venezuela. Dentro em breve, estarão na Colômbia. Muito perto da tão discutida Margem Equatorial. E de frente para a Amazônia, região que tem tudo o que eles mais desejam: terras raras, minérios em profusão, ouro em grandes quantidades, diamantes e, também, petróleo em generosos e extensos lençóis. É o paraíso capitalista na terra. 

O longo debate sobre a utilização da Amazônia, a preservação da floresta, a manutenção da grande faixa verde, tudo isso perde importância diante da possibilidade de traduzir o vasto cenário em dólares. Os norte-americanos têm larga experiência em exterminar povos originários, devastar o meio ambiente em busca do minério precioso. Nada os detém. Eles chegaram às margens da Amazônia. O Brasil não possui poder militar. O país depende da negociação possível dos diplomatas, o chamado soft power. Ocorre que a conversa agora perde espaço para bombardeios seletivos e manobras militares específicas. O sonho acabou. O Brasil desembarcou na realidade. A América Latina, que era a terra de grandes prosadores, poetas geniais, e de traficantes abusados, agora está no centro da disputa do capitalismo internacional.

A eleição presidencial que deverá ocorrer neste ano vai se processar dentro desse novo cenário. Um superpoder emergiu no Norte. Silenciou tudo o que havia ao seu redor. Ele determina o futuro no Irã, em Israel, na Ucrânia, na Groenlândia e em toda política internacional com virulência, objetividade e despreparo de um adolescente frente ao mundo. As relações de Washington com Brasília são, no mínimo, tensas. Um não gosta do outro. Americanos, que há muito namoram com a ideia de manter uma base militar no Brasil, gostariam de ter aqui um governo mais favorável a seus objetivos. Não é impossível que eles movimentem meios e modos para influenciar no resultado da eleição. Não é preciso consultar os astros para prever possível interferência estrangeira no pleito nacional.

Não é o fim do mundo. E também não é novidade. Os americanos já andaram por aqui em outros tempos. Agora, sem a fantasia e sem a alegada defesa dos princípios democráticos, a interferência poderá ser mais explícita. O jogo é objetivo e claro. É preciso ter olhos abertos. Olhos de ver. E descer das ideologias para o território da realidade. 


segunda-feira, 20 de maio de 2024

Petrobras: Sucesso e fracasso - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

 Petrobras: Sucesso e fracasso

Agora, o presidente Lula demonstra sua inclinação a repetir as políticas de seus dois primeiros governos e o de sua sucessora do Planalto. A Petrobras está segurando o preço dos combustíveis para aliviar a inflação e, ao mesmo tempo, favorecer seus candidatos na eleição de novembro.

André Gustavo Stumpf
Correio Braziliense, 20/05/2024

A Petrobras, empresa brasileira de petróleo, impressiona pelo seu tamanho, imenso valor (mais de US$250 bilhões), importância na economia brasileira e enorme capacidade de ser vítima da ação dos políticos. Seu sucesso é seu fracasso. No governo Lula 2, foi descoberto o fabuloso pré-sal que vai da costa do Espírito Santo até a de São Paulo com cerca de 15 bilhões de barris de petróleo. A descoberta permitiu que o Brasil assumisse a posição de importante exportador de petróleo. As necessidades do mercado interno foram atendidas, mas com o preço internacional.

No governo Dilma, a Petrobras foi para o centro do debate político por motivo inglório. Foi descoberto o rentável esquema de corrupção na petroleira. Diretores admitiram receber fortunas para beneficiar empresas que redistribuíam parte dos lucros para o Partido dos Trabalhadores. Em 2006, a Petrobras pagou 360 milhões de dólares por 50% da refinaria de Pasadena, no Texas. Em 2008, a petroleira brasileira e a empresa belga de petróleo se desentenderam e uma decisão judicial obrigou a Petrobras a comprar a parte de sua sócia. A aquisição da refinaria de Pasadena acabou custando 1,18 bilhão de dólares à Petrobras, mais de 27 vezes o que a Astra teve de desembolsar. Foi o começo da história cabulosa.

A Operação Lava-Jato da Polícia Federal, a partir de março de 2014, apurou um esquema de lavagem de dinheiro suspeito de movimentar mais de R$ 10 bilhões montante que, atualizado, alcança mais de R$ 20 bilhões. Até abril de 2014, a operação envolveu 46 pessoas indiciadas pelos crimes de formação de organização criminosa, crimes contra o sistema financeiro nacional, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e 30 foram presas, entre elas o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Pedro Barusco disse que o esquema de pagamento de propinas na Petrobras começou em 1997. 

Em 14 de novembro de 2014, foram presos os presidentes e diretores de grandes empresas do Brasil, como OAS, Iesa Óleo e Gás, Camargo Corrêa, UTC Engenharia e Construtora Queiroz Galvão. A força-tarefa da Lava-Jato identificou R$ 10 bilhões em propinas, recuperou R$ 870 milhões, bloqueou outros R$ 2,4 bilhões e prendeu 105 envolvidos no escândalo. Em novembro de 2015, a PF estimou que o prejuízo da Petrobras com corrupção chega a R$ 42 bilhões, mas somente R$ 6 bilhões foram divulgados oficialmente pela empresa. A estimativa tem como base laudo da perícia criminal baseado em tabelas que mostram os pagamentos indevidos envolvendo 27 empresas apontadas como integrantes do cartel na Petrobras. 

O governo Temer, que sucedeu o de Dilma Rousseff, tratou a empresa como ente privado. Saneou as dívidas, proporcionou ótimos dividendos para os acionistas. A mesma fórmula foi repetida no governo Bolsonaro. Agora, o presidente Lula demonstra sua inclinação a repetir as políticas de seus dois primeiros governos e o de sua sucessora do Planalto. A Petrobras está segurando o preço dos combustíveis para aliviar a inflação e, ao mesmo tempo, favorecer seus candidatos na eleição de novembro. Ele entende que o lucro da empresa deve ser investido em projetos sociais que gerem empregos. O mais conhecido deles é o sonho da indústria naval, que foi tentado várias vezes e virou pesadelo na forma de prejuízos monumentais.

O presidente Lula tem exibido sua face analógica e a dificuldade em se situar no novo cenário globalizado e informatizado. Os novos negócios e os recentes caminhos do comércio internacional modificaram as referências no mundo moderno. Mas os dirigentes do PT ainda não perceberam. O chefe do governo custou a entender que ele precisaria definir uma pessoa para atuar em nome do governo federal no Rio Grande do Sul. Demorou muito. Escolheu o ministro Paulo Pimenta, que se tornou um evidente candidato ao governo daquele estado. Fez o anúncio em comício na cidade de São Leopoldo. O assembleísmo do PT ditou o rumo dos acontecimentos. Politizou o problema.

A substituição de Jean Paul Prates na presidência da Petrobras está dentro da moldura da política petista, que pretende botar a mão nos lucros da empresa. Magda Chambriard, que dirigiu a Agência Nacional do Petróleo durante o governo Dilma, foi funcionária da Petrobras por mais de 20 anos. Conhece bem o assunto e sabe das intenções do presidente Lula. Os presidentes da Petrobras não costumam ficar muito tempo no cargo. Eles estão sempre no meio de interesses multimilionários e da vontade política do partido que está no poder. A substituição na presidência da Petrobras é apenas mais um capítulo na luta entre acionistas privados e o governo federal. O perigo é que os dois terminem perdendo dinheiro e o cidadão brasileiro pague o prejuízo ao final.


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