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sábado, 17 de janeiro de 2026

O fim da inocência (Opinião) - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

 O fim da inocência

 Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia

PRI-1701-OPINI -  (crédito: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
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ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista

Correio Braziliense, 17/01/2026

Mas há uma vantagem nesse novo cenário. Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio, que foi um ponto central e básico na argumentação norte-americana de como os países deveriam organizar seu mercado interno. Os chineses são mais ágeis, produzem mais e com menor preço. Se houver concorrência livre e aberta, os americanos perdem. Então, o melhor é recorrer ao poder dos formidáveis porta-aviões. Cada um com mais de 50 aviões de última geração, helicópteros maravilhosos e tripulação de 5 mil marinheiros. Essa brincadeira custa mais de US$ 1 bilhão por mês. O governo dos Estados Unidos mantém 11 porta-aviões, com suas respectivas defesas navais, em operação no mundo, ao mesmo tempo. É muito dinheiro para manter abertas as trilhas do comércio internacional.

O mundo está de joelhos diante da formidável demonstração de força, agilidade, capacidade de articulação em território inimigo ocorrida na Venezuela. Os aviões norte-americanos desligaram os radares do inimigo, apagaram a luz de Caracas, neutralizaram os sinais de geolocalização e mataram, com incrível rapidez, os cubanos que defendiam Nicolás Maduro. Material de última geração chinês e russo foi silenciado. Tudo ocorreu em questão de minutos. Vale a comparação: a poderosa Rússia está há longos e tortuosos quatro anos tentando dominar a pequena Ucrânia. Perdeu uma quantidade enorme de soldados, aviões, carros de combate, navios e até submarinos. No entanto, Volodymyr Zelensky continua no poder negociando a improvável paz. Putin não conseguiu demonstrar qualquer tipo de eficiência na sua guerra. Ele é um perdedor perante a história.

A conclusão é simples. Acabou a era da inocência. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia. No caso brasileiro, talvez os observadores acordem da letargia histórica e abram os olhos para a realidade. Os americanos estão na Venezuela. Dentro em breve, estarão na Colômbia. Muito perto da tão discutida Margem Equatorial. E de frente para a Amazônia, região que tem tudo o que eles mais desejam: terras raras, minérios em profusão, ouro em grandes quantidades, diamantes e, também, petróleo em generosos e extensos lençóis. É o paraíso capitalista na terra. 

O longo debate sobre a utilização da Amazônia, a preservação da floresta, a manutenção da grande faixa verde, tudo isso perde importância diante da possibilidade de traduzir o vasto cenário em dólares. Os norte-americanos têm larga experiência em exterminar povos originários, devastar o meio ambiente em busca do minério precioso. Nada os detém. Eles chegaram às margens da Amazônia. O Brasil não possui poder militar. O país depende da negociação possível dos diplomatas, o chamado soft power. Ocorre que a conversa agora perde espaço para bombardeios seletivos e manobras militares específicas. O sonho acabou. O Brasil desembarcou na realidade. A América Latina, que era a terra de grandes prosadores, poetas geniais, e de traficantes abusados, agora está no centro da disputa do capitalismo internacional.

A eleição presidencial que deverá ocorrer neste ano vai se processar dentro desse novo cenário. Um superpoder emergiu no Norte. Silenciou tudo o que havia ao seu redor. Ele determina o futuro no Irã, em Israel, na Ucrânia, na Groenlândia e em toda política internacional com virulência, objetividade e despreparo de um adolescente frente ao mundo. As relações de Washington com Brasília são, no mínimo, tensas. Um não gosta do outro. Americanos, que há muito namoram com a ideia de manter uma base militar no Brasil, gostariam de ter aqui um governo mais favorável a seus objetivos. Não é impossível que eles movimentem meios e modos para influenciar no resultado da eleição. Não é preciso consultar os astros para prever possível interferência estrangeira no pleito nacional.

Não é o fim do mundo. E também não é novidade. Os americanos já andaram por aqui em outros tempos. Agora, sem a fantasia e sem a alegada defesa dos princípios democráticos, a interferência poderá ser mais explícita. O jogo é objetivo e claro. É preciso ter olhos abertos. Olhos de ver. E descer das ideologias para o território da realidade. 


segunda-feira, 20 de maio de 2024

Petrobras: Sucesso e fracasso - André Gustavo Stumpf (Correio Braziliense)

 Petrobras: Sucesso e fracasso

Agora, o presidente Lula demonstra sua inclinação a repetir as políticas de seus dois primeiros governos e o de sua sucessora do Planalto. A Petrobras está segurando o preço dos combustíveis para aliviar a inflação e, ao mesmo tempo, favorecer seus candidatos na eleição de novembro.

André Gustavo Stumpf
Correio Braziliense, 20/05/2024

A Petrobras, empresa brasileira de petróleo, impressiona pelo seu tamanho, imenso valor (mais de US$250 bilhões), importância na economia brasileira e enorme capacidade de ser vítima da ação dos políticos. Seu sucesso é seu fracasso. No governo Lula 2, foi descoberto o fabuloso pré-sal que vai da costa do Espírito Santo até a de São Paulo com cerca de 15 bilhões de barris de petróleo. A descoberta permitiu que o Brasil assumisse a posição de importante exportador de petróleo. As necessidades do mercado interno foram atendidas, mas com o preço internacional.

No governo Dilma, a Petrobras foi para o centro do debate político por motivo inglório. Foi descoberto o rentável esquema de corrupção na petroleira. Diretores admitiram receber fortunas para beneficiar empresas que redistribuíam parte dos lucros para o Partido dos Trabalhadores. Em 2006, a Petrobras pagou 360 milhões de dólares por 50% da refinaria de Pasadena, no Texas. Em 2008, a petroleira brasileira e a empresa belga de petróleo se desentenderam e uma decisão judicial obrigou a Petrobras a comprar a parte de sua sócia. A aquisição da refinaria de Pasadena acabou custando 1,18 bilhão de dólares à Petrobras, mais de 27 vezes o que a Astra teve de desembolsar. Foi o começo da história cabulosa.

A Operação Lava-Jato da Polícia Federal, a partir de março de 2014, apurou um esquema de lavagem de dinheiro suspeito de movimentar mais de R$ 10 bilhões montante que, atualizado, alcança mais de R$ 20 bilhões. Até abril de 2014, a operação envolveu 46 pessoas indiciadas pelos crimes de formação de organização criminosa, crimes contra o sistema financeiro nacional, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e 30 foram presas, entre elas o doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa. Pedro Barusco disse que o esquema de pagamento de propinas na Petrobras começou em 1997. 

Em 14 de novembro de 2014, foram presos os presidentes e diretores de grandes empresas do Brasil, como OAS, Iesa Óleo e Gás, Camargo Corrêa, UTC Engenharia e Construtora Queiroz Galvão. A força-tarefa da Lava-Jato identificou R$ 10 bilhões em propinas, recuperou R$ 870 milhões, bloqueou outros R$ 2,4 bilhões e prendeu 105 envolvidos no escândalo. Em novembro de 2015, a PF estimou que o prejuízo da Petrobras com corrupção chega a R$ 42 bilhões, mas somente R$ 6 bilhões foram divulgados oficialmente pela empresa. A estimativa tem como base laudo da perícia criminal baseado em tabelas que mostram os pagamentos indevidos envolvendo 27 empresas apontadas como integrantes do cartel na Petrobras. 

O governo Temer, que sucedeu o de Dilma Rousseff, tratou a empresa como ente privado. Saneou as dívidas, proporcionou ótimos dividendos para os acionistas. A mesma fórmula foi repetida no governo Bolsonaro. Agora, o presidente Lula demonstra sua inclinação a repetir as políticas de seus dois primeiros governos e o de sua sucessora do Planalto. A Petrobras está segurando o preço dos combustíveis para aliviar a inflação e, ao mesmo tempo, favorecer seus candidatos na eleição de novembro. Ele entende que o lucro da empresa deve ser investido em projetos sociais que gerem empregos. O mais conhecido deles é o sonho da indústria naval, que foi tentado várias vezes e virou pesadelo na forma de prejuízos monumentais.

O presidente Lula tem exibido sua face analógica e a dificuldade em se situar no novo cenário globalizado e informatizado. Os novos negócios e os recentes caminhos do comércio internacional modificaram as referências no mundo moderno. Mas os dirigentes do PT ainda não perceberam. O chefe do governo custou a entender que ele precisaria definir uma pessoa para atuar em nome do governo federal no Rio Grande do Sul. Demorou muito. Escolheu o ministro Paulo Pimenta, que se tornou um evidente candidato ao governo daquele estado. Fez o anúncio em comício na cidade de São Leopoldo. O assembleísmo do PT ditou o rumo dos acontecimentos. Politizou o problema.

A substituição de Jean Paul Prates na presidência da Petrobras está dentro da moldura da política petista, que pretende botar a mão nos lucros da empresa. Magda Chambriard, que dirigiu a Agência Nacional do Petróleo durante o governo Dilma, foi funcionária da Petrobras por mais de 20 anos. Conhece bem o assunto e sabe das intenções do presidente Lula. Os presidentes da Petrobras não costumam ficar muito tempo no cargo. Eles estão sempre no meio de interesses multimilionários e da vontade política do partido que está no poder. A substituição na presidência da Petrobras é apenas mais um capítulo na luta entre acionistas privados e o governo federal. O perigo é que os dois terminem perdendo dinheiro e o cidadão brasileiro pague o prejuízo ao final.


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