sábado, 21 de fevereiro de 2026

Petrolão e Banco Master: dois casos paradigmáticos na corrupção geral que infesta o sistema político - Marcelo Guterman e Marcelo Godoy

 


Misturando as bolas

Não é a primeira vez que vejo a comparação entre o caso Master e o Petrolão, com “vantagem” para o primeiro na corrida para ser eleito, no dizer do colunista, o “escândalo do século”. Essa comparação se dá no nível da grana envolvida: enquanto a Petrobras deu baixa de R$ 6 bilhões em seu balanço, o caso Master fará o FGC desembolsar mais de R$ 40 bilhões.

Mas não é comparando cifras (per si incomparáveis por tratar-se de realidades contábeis completamente diferentes) que poderemos avaliar a gravidade de cada um desses casos.

No Master, temos um banqueiro megalomaníaco (Vorcaro), associado a um empresário inescrupuloso (Tanure) usando o moral hazard oferecido pelo FGC para captar poupança popular para financiar negócios arriscados. Para evitar problemas com a lei quando o castelo de cartas começou a desabar, supostamente molhou a mão de um punhado de políticos e juízes, assim como o sujeito que é parado em uma blitz tenta subornar o guarda. Os volumes envolvidos são grandes, mas não passam da ordem de milhões de reais.

O Petrolão foi completamente diferente. Agentes do Estado, usando de suas prerrogativas de controle sobre uma empresa estatal, surrupiaram dinheiro dessa empresa para seus projetos de poder e benefício pessoal. Aqui, tivemos ressarcimentos da ordem de bilhões de reais.

Portanto, em temos de recursos que foram parar no bolso de agentes públicos, o Master é um escândalo muitas vezes menor que o Petrolão.

Mas a comparação espúria não para por aí.

O caso Master teve como agente principal um ente privado que supostamente subornou agentes públicos. Não há roubo propriamente dito, apenas a exploração de uma falha do sistema, e posterior tentativa de evitar a liquidação do banco via suborno. Já no Petrolão, temos o concurso apenas de agentes públicos, que efetivamente roubaram recursos de uma empresa pública para fins pessoais e de perpetuação no poder. No primeiro caso, temos supostamente um caso clássico de tentativa de suborno para escapar da lei. No segundo, o roubo protagonizado por agentes públicos em uma empresa pública para sustentar o seu projeto de poder.

No caso Master, não há ameaça ao regime democrático. No Petrolão, o próprio regime democrático foi conspurcado, ao dar maior poder financeiro aos partidos que dividiam o Poder, desbalanceando o jogo eleitoral. Além disso, o protagonismo de agentes públicos no caso do Petrolão muda completamente a natureza do escândalo.

Comparar o Master com o Petrolão, misturando bolas imiscíveis, não deixa de ser um modo de reduzir a importância da Lava Jato, que desvendou um verdadeiro assalto à democracia brasileira, muito além do simples dinheiro roubado.

Blog do Marcelo Guterman é uma publicação apoiada pelos leitores.

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