terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

A China e a América Latina (e o Brasil) - Rubens Barbosa ( OESP)

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Opinião: A China e a América Latina

No caso do Brasil, a nova política externa dos EUA não colocou em questão as políticas do governo brasileiro em relação a Pequim

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Por Rubens Barbosa

10/02/2026 | 03h00

Em novembro passado, poucos dias depois da divulgação da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA – na qual a América Latina aparece como a principal prioridade de Washington, o governo chinês anunciou uma nova política para a região.

O documento apresenta três aspectos: 1) a América Latina como uma terra cheia de vigor e esperança; 2) as relações da China com a América Latina em desenvolvimento vigoroso; e 3) o trabalho conjunto para implementar os “programas para a formação de uma comunidade com futuro compartilhado”.

Os programas mencionados visam à ampliação da cooperação, tendo como objetivo o “desenvolvimento, a implementação de civilização, da paz e da conectividade entre povos”.

O programa de desenvolvimento busca a implementação da Iniciativa para o Desenvolvimento Global, que inclui ações conjuntas em áreas como o Cinturão e Rota e cooperação nas áreas de comércio e investimento, financeira, campo de energia e de recursos, na infraestrutura, na indústria de manufatura, na indústria agrícola, em inovação e tecnologia, espacial, marítima, inspeção e quarentena aduaneiras, entre agências de promoção de comércio e investimento, associações empresariais na proteção ambiental, mudanças climáticas e redução de desastres naturais, fiscal e regulamentação de mercado.

O programa de civilização proposto pelo governo chinês visa à implementação da Iniciativa para a Civilização Global, que significa o aprofundamento do intercâmbio e aprendizagem mútua entre civilizações da China e da América Latina e do Caribe, educação e formação de recursos humanos, esporte, intercâmbio e cooperação nas áreas de imprensa, publicação, rádio, filme e televisão, intercâmbio acadêmico e de think tanks. O programa de paz busca levar adiante a Iniciativa para a Segurança Global, intercâmbio e cooperação militares, cooperação judiciária e policial, ações contra a corrupção e de repatriação de fugitivos, recuperação de ativos, segurança cibernética, não proliferação e controle de exportação. O programa de conectividade entre os povos prevê ações para fortalecer a governança e o desenvolvimento sociais, cooperação na redução da pobreza, saúde, consular, turística, intercâmbios entre entidades subnacionais e entre os povos.

Enquanto a China oferece uma proposta visando a uma diplomacia independente de paz e cooperação, sugere a prática de valores comuns da humanidade e apresenta uma ampla plataforma inclusiva de aproximação em praticamente todas as áreas com a América Latina, buscando a melhoria de suas condições de vida e a presença da região no mundo, na Estratégia de Segurança Nacional, Washington coloca os EUA em primeiro lugar. E, para a defesa de seus interesses, dá prioridade às relações com a América Latina sobre todas as outras regiões. A preocupação com a China na região está presente quando o documento acentua que qualquer tipo de ajuda dos EUA aos países da região deve estar condicionado à redução gradual da influência externa adversária, mencionando especificamente instalações militares, portos, infraestrutura e mesmo a aquisição de ativos estratégicos, entre outros, e com ameaça velada aos países do hemisfério ao afirmar que “a escolha que todos os países devem enfrentar é se querem viver num mundo liderado pelos EUA, com países soberanos e economias livres, ou num mundo paralelo no qual são influenciados por países do outro lado do mundo”.

Considerando a América Latina como seu “quintal”, a Estratégia de Segurança Nacional dos EUA afirma, de acordo com a teoria do realismo flexível, “queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça razoavelmente estável e bem governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa para os EUA; queremos um hemisfério cujos governos cooperem conosco contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais; queremos um hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou da apropriação de ativos-chave, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes. Em outras palavras, vamos afirmar e fazer cumprir um ‘Corolário Trump’ à Doutrina Monroe”. Para as Américas, trata-se da volta da Doutrina Monroe (1823 – América para os Americanos), com a clara intenção de exercer seu poder em uma área que consideram sua zona de influência.

No caso do Brasil, levando em conta sua dependência comercial e econômica da China e o viés antiamericano do PT ao longo dos 20 anos em que o partido exerceu o poder, a nova política externa dos EUA, que começou a ser desenvolvida na Venezuela, em Cuba e no Panamá para afastar a influência da China, até aqui, não colocou em questão as políticas do governo brasileiro em relação a Pequim. Os entendimentos sobre terras raras com o Brasil colocam desafios concretos à política externa. Em março próximo, depois de visitar a Ásia, o presidente Lula deverá visitar oficialmente os EUA e manter entendimentos com Trump. A preocupação do governo do PT é manter o melhor diálogo com Trump e evitar possível interferência do governo norte-americano nas eleições presidenciais de novembro.

 

Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), foi embaixador do Brasil em Londres (1994-99) e em Washington (1999-2004)

 

https://www.estadao.com.br/opiniao/rubens-barbosa/a-china-e-a-america-latina/

 

 

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