As razões da ganância de Trump pela Groenlândia
DANIEL GATENO
WILLIAM BRIZOLA
LUCAS KESKE
O Estado de S. Paulo, 19 de fev. de 2026
Presidente americano mira terras raras e usa argumentos militares
No meio do caminho entre Estados Unidos e Rússia, a Groenlândia virou objeto de cobiça de Donald Trump ainda em seu primeiro mandato. O presidente americano foi atraído pela posição estratégica do território, os minerais críticos e o potencial cada vez maior do Ártico por conta das mudanças climáticas. Apesar de a Dinamarca ter recusado a proposta de venda de Washington na primeira passagem de Trump pela Casa Branca, o republicano não esqueceu a ilha e parece irredutível em sua busca pelo território.
A tentativa de Trump em dominar uma parte ainda maior do Ártico adiciona mais tensão a uma região que se tornou mais disputada, militarizada e alvo de espionagem e sabotagem nos últimos anos. O Ártico é considerado um possível campo de batalha entre Rússia e o Ocidente, já que Washington, Moscou, Canadá e os países nórdicos possuem um flanco da região e o derretimento do gelo pode tornar os territórios mais acessíveis e próximos no futuro.
Segundo Trump, a disputa pelo Ártico é o que o motiva a tornar a Groenlândia parte dos Estados Unidos. “Existem barcos russos por todo lugar, barcos chineses por todo lugar – navios de guerra. Nós precisamos da Groenlândia”, afirmou o presidente americano em um discurso no Congresso no ano passado.
A alegação de Trump é rechaçada pelas autoridades locais da Groenlândia e por especialistas. “Não é útil para a China enviar navios militares tão ao norte e a Rússia não tem nenhuma razão para atacar a Groenlândia, já que o território faz parte do Reino da Dinamarca, que é da Otan”, opina Marc Lanteigne, professor de ciências políticas da Universidade de Tromso, na região do ártico norueguês.
Apesar disso, o especialista destaca que é necessário investir na segurança do Ártico porque a competição pelos recursos da região vai aumentar nos próximos anos. “Estima-se que em apenas 10 anos poderemos ver águas abertas sobre o Polo Norte no verão e os EUA acreditam que, se eles não conseguirem extrair os recursos do Ártico, outros países irão.”
ROTAS COMERCIAIS. As passagens estratégicas do Ártico também podem transformar o potencial comercial e geopolítico da região. As grandes potências já imaginam o dia em que os navios que viajam entre Ásia, Europa e América do Norte não precisarão mais seguir para os canais do Panamá e de Suez, e sim realizar rotas mais curtas pelo Ártico.
A chamada Passagem do Noroeste começa no Estreito de Davis, justamente entre a Groenlândia e o Canadá, enquanto a Passagem do Nordeste passa pela Rússia e termina no Estreito de Bering, que separa os EUA do território russo.
O derretimento cada vez mais rápido do gelo está abrindo outros caminhos, como a Rota Marítima do Norte, que se sobrepõe à Passagem do Nordeste e percorre a costa ártica da Rússia, da Europa à Ásia, e uma potencial rota ártica central, que pode ser viável através do Polo Norte no futuro relativamente próximo.
Em 2025, o navio porta-contêineres Istanbul Bridge se tornou o primeiro navio a viajar da China para a Europa pela Rota Marítima do Norte. O trajeto foi completado em cerca de 20 dias.
De acordo com a Marine Exchange of Alaska, uma organização de monitoramento marítimo, houve um aumento de 175% de navios que passaram pelo Estreito de Bering em 2024 em relação ao número registrado em 2010.
Em meio ao aumento de possibilidades comerciais e estratégicas, Rússia e China já deixaram claro que também querem expandir a sua presença no Ártico.
Pequim não possui território na região, mas sinalizou que deseja desenvolver a chamada “Rota da Seda Polar”, enquanto Moscou reativou bases navais e tem mísseis nucleares estacionados no Extremo Norte e na Península de Kola, perto da Noruega.
“O aumento da presença russa no Ártico abriu os olhos da Otan para uma possível rivalidade entre o Ocidente e Moscou na região”, avalia Lanteigne. Os movimentos da Rússia preocupam mais os países nórdicos, que sofrem com constantes casos de espionagem e sabotagem.
Para o professor da Universidade de Tromso, a região do Ártico central pode se transformar em uma zona de colisão entre Otan, Pequim e Moscou.
PRESENÇA MILITAR. Trump alega que os EUA são o único país com capacidade de garantir a segurança da Groenlândia.
Mas Washington não precisa ter soberania sobre a ilha se quiser reforçar a segurança do local.
Em 1951, Estados Unidos e Dinamarca firmaram um acordo de defesa que permitiu o estabelecimento de bases militares americanas na Groenlândia. Os EUA já tiveram mais de 20 bases na ilha e cerca de 10 mil soldados.
Durante a Guerra Fria, a Groenlândia se tornou peçachave no tabuleiro militar entre EUA e União Soviética, já que os possíveis ataques das duas partes seriam lançados pelo Círculo Polar Ártico.
Atualmente, Washington possui ali apenas a Base Espacial Pituffik, um dos pontos militares estrategicamente mais importantes do mundo, mas tem o poder de abrir mais bases militares quando quiser.
Apesar dos questionamentos aos argumentos trumpistas, a Dinamarca reconhece que pode fazer mais para defender a ilha e anunciou um pacote de US$ 2 bilhões em renovação militar para o Ártico, com a compra de novos navios, drones e satélites.
Segundo explica o professor da Universidade de Tromso, a Groenlândia precisa de mais bases para monitorar o chamado espaço GIUK (Groenlândia-Islândia-Reino Unido), ponto vital entre o Mar da Noruega e o Atlântico que fica entre os três países que compõem a sigla.
“Esse ponto é importante e precisa de monitoramento porque, se a Rússia quisesse enviar um navio de guerra ou submarino para o Atlântico, seria por essa rota que passa pela Groenlândia, Islândia e Reino Unido.”
TERRAS RARAS. A ilha semiautônoma da Dinamarca está entre os dez territórios com as maiores reservas de terras raras do mundo. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, a ilha tem 1,5 milhão de toneladas de minerais críticos.
A Groenlândia também abriga dois dos maiores depósitos conhecidos de terras raras, em Kvanefjeld e Tanbreez. A empresa chinesa Shenghe Resources é a segunda maior acionista do projeto Kvanefjeld, com uma participação de 6,5%.
A busca por minerais críticos tem sido um dos focos do presidente Trump para competir com a China. Pequim domina a extração e o refino de terras raras, controlando 50% das reservas mundiais e 70% da produção. “Na cabeça de Trump, o Ártico é visto como um lugar de recursos importantes para a nova economia: gás, petróleo e terras raras”, avalia Lanteigne.
APLICAÇÃO. As terras raras são importantes para a confecção de produtos de alto valor no mundo moderno, como carros elétricos, celulares, equipamentos médicos, turbinas eólicas e chips de computadores, além de terem, também, uso em maquinário militar.
Mas Trump não precisa comprar a Groenlândia para explorar as terras raras da ilha. O governo do território já deixou claro que está aberto a investimentos, mas poucas empresas se interessaram por conta dos custos da operação e problemas relacionados a infraestrutura, mão de obra e gelo.
“A Groenlândia poss ui uma grande riqueza mineral, mas a mineração na ilha é difícil e cara. É preciso esperar muito tempo até que uma empresa obtenha algum lucro”, disse o professor da Universidade de Tromso.
NEGOCIAÇÃO. Mesmo com os argumentos de especialistas sobre o poder que os Estados Unidos têm sobre a Groenlândia e sua segurança, Trump se mostra irredutível em sua vontade de anexar a ilha.
O presidente americano anunciou uma série de tarifas contra países europeus por conta de sua defesa da soberania da Dinamarca, mas voltou atrás depois de uma reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, em Davos, durante o Fórum Econômico Mundial.
De acordo com informações do jornal americano The New York Times, as negociações têm se concentrado em propostas para aumentar a presença da Otan no Ártico, conceder aos Estados Unidos uma reivindicação soberana sobre partes do território da Groenlândia e impedir que China e Rússia explorem os minerais da ilha.
A Dinamarca apontou que se opõe publicamente à cessão da propriedade de qualquer terra groenlandesa, mas está aberta a negociar outras áreas que não afetem a soberania da ilha.
“Existe a esperança de que algum tipo de acordo possa ser alcançado, mas que não afete a soberania da Groenlândia”, aponta Lanteigne. “Poderia ser um acordo militar ou algum memorando de preferência para a mineração de terras raras, existem muitos pontos possíveis.” •
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PRA: Grato a Walmyr Buzzatto pela transcrição.
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