Eu e a Ucrânia
Paulo Roberto de Almeida
Comecei a seguir os assuntos da Ucrânia desde o início dos anos 2000, depois que o Congresso brasileiro recusou aprovação ao acordo de salvaguardas Brasil-Estados Unidos para o lançamento de satélites contendo tecnologia americana – vetores e componentes – a partir da base de Alcântara. Na época, petistas nacionalistas e outros companheiros aliados fizeram oposição ao acordo, concebido pelo ministro de Ciência e Tecnologia do governo Fernando Henrique Cardoso, embaixador Ronaldo Mota Sardenberg, a pretexto de que seria uma subordinação inaceitável ao imperialismo americano, pois preservava tecnologia restrita dos EUA, que não estaria aberta ao Brasil. Um acordo substituto entre o Brasil e a Ucrânia foi assinado pelo governo Lula, mas nunca produziu resultados práticos, um pouco pelos mesmos motivos – cuidados com segredos tecnológicos – e também por outras causas mais prosaicas. Depois de gastar centenas de milhões de dólares, e nada de lançamento brasilo-ucraniano, o acordo bilateral (que também tinha salvaguardas) foi encerrado no governo Dilma, deixando possíveis pendências financeiras e contratuais.
Mas na mesma época, minha atenção às questões ucranianas foi novamente chamada pelas revoltas políticas e reviravoltas governamentais que se processavam no país desde a revolução "laranja", uma década antes, mas, obviamente, bem mais em 2013-2014, por uma nova revolução, na qual estava em questão a possível adesão da Ucrânia à União Europeia e, possivelmente, à Otan. Foi a janela encontrada por Putin para invadir a península ucraniana da Crimeia e anexá-la ilegalmente à Rússia, em fevereiro de 2014. Lembro-me que o governo Dilma Rousseff sequer se pronunciou sobre a questão, com a alegação de que se tratava de assunto interno à Ucrânia. A realização de uma cúpula do BRICS no meio do ano de 2014, em Fortaleza, talvez explique melhor as razões do silêncio complacente do Brasil para com a Rússia ante esse gesto claramente violador da Carta da ONU, contrário, portanto, às tradições, valores e princípios da postura diplomática do Brasil. Nunca aceitamos usurpações territoriais pela forças, antes mesmo da Carta da ONU, ainda no Estado Novo varguista, suspeito de simpatias com as forças nazifascistas europeias.
Quando Hitler invadiu a Polônia, em 1939, não reconhecemos a anexação violenta de seu território pela Alemanha nazista. O mesmo ocorreu em 1940, quando Stalin invadiu e anexou os três países bálticos, com os quais mantínhamos relações diplomáticas, desde seu surgimento como Estados independentes.
A partir de 2014, eu passei, portanto, a seguir mais de perto os assuntos ucranianos, tanto por interesse na situação em si da paz e segurança na Europa central, tendo em vista outras movimentações de Putin naquela região (Georgia, Moldova), quanto pelo fato de a diplomacia brasileira permanecer estranhamente silenciosa, em face de uma grave violação do direito internacional.
Natural, assim, que nos últimos meses de 2021 e nas primeiras semanas de 2022, eu tenha passado a seguir diariamente os anúncios de uma possível invasão russa da Ucrânia, inclusive porque o presidente americano Joe Biden não cessava de falar nisso, praticamente todos os dias desde setembro-outubro de 2021 e de modo ainda mais enfático em janeiro e fevereiro de 2022.
Apenas para demonstrar meu grau de interesse pelo assunto, transcrevo abaixo todas as postagens que efetuei em meu blog Diplomatizzando em janeiro e fevereiro de 2022, que devem ser consideradas na ordem inversa, obviamente, as mais antigas abaixo, em cima as mais recentes:
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Depois vou dar destaque a algumas dessas postagens, como aliás já nesta aqui:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/quatro-anos-completos-de-guerra-de.html
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 24 de fevereiro de 2026
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