sábado, 28 de fevereiro de 2026

Eleições presidenciais: Flávio jogando parado e Lula na zona de rebaixamento - André Régis (Folha de Pernambuco)

Eleições presidenciais: Flávio jogando parado e Lula na zona de rebaixamento

André Régis
Folha de Pernambuco, sábado, 28 de fevereiro de 2026

Como explicar que, num cenário de primeiro turno, o candidato que lidera entre os mais pobres não seja Lula, mas Flávio Bolsonaro? A Atlas/Bloomberg de fevereiro de 2026 obriga o país a encarar esse dado sem filtros ideológicos. No recorte de renda familiar até R$ 2.000, Flávio aparece com 46,8%, enquanto Lula marca 32,5%. No extremo oposto, acima de R$ 10.000, o desenho se inverte com nitidez: Lula lidera com 57,8% e Flávio fica em 26,7%. É esse cruzamento — fragilidade onde Lula sempre foi mais forte, vigor onde raramente foi hegemônico — que dá ao quadro atual caráter de forte complexidade, não de simples oscilação.
A novidade, porém, não está apenas no patamar: está na velocidade. Flávio salta de 29,3% em dezembro para 37,9% em fevereiro no mesmo cenário de primeiro turno — alta de 8,6 pontos em janela curta, grande demais para caber no mero ruído. E, quando se observa a rejeição (“não votaria de jeito nenhum”), o dado consolida a viabilidade: Lula registra 48,2% e Flávio 46,4%. São taxas elevadas para ambos, mas há um ponto crucial: Flávio não carrega um teto de rejeição superior ao do presidente, um marcador clássico de competitividade em segundo turno.

O paradoxo se torna ainda mais nítido quando se olha a avaliação do governo por renda. Entre os que vivem com até R$ 2.000, a percepção é majoritariamente negativa: 51,7% avaliam a gestão como ruim ou péssima, contra 31,5% que a consideram ótima ou boa. Já entre os que ganham acima de R$ 10.000, a fotografia se inverte: 54,3% classificam como ótimo/bom, enquanto 38,2% dizem ruim/péssimo. Em termos eleitorais, a implicação é severa: Lula, que sempre construiu vitórias com ampla vantagem na base de renda mais baixa, hoje enfrenta ali um terreno áspero — e encontra seu melhor desempenho justamente no segmento mais abastado.

Esse deslocamento ajuda a entender por que o governo passou a concentrar energia em medidas de recomposição de vínculo popular e juvenil. O Pé-de-Meia, a promessa de isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil e a retórica anti-ricos — acompanhada de iniciativas de aumento de carga tributária — soam menos como agenda espontânea e mais como reação a uma perda de aderência no cotidiano, sobretudo onde preço, segurança e serviços pesam mais do que discurso. E, no recorte etário, o sinal é igualmente incômodo: entre 16 e 24 anos, no mesmo cenário de primeiro turno, Flávio aparece à frente (29,4% contra 24,2%).

Nesse ponto entram os temas que costumam decidir eleições quando o humor social endurece. No bloco comparativo de confiança para “administrar” problemas do país, Flávio aparece à frente exatamente em agendas que hoje dominam a conversação pública: criminalidade e tráfico (49% a 47%), equilíbrio fiscal e controle de gastos (47% a 45%) e combate à corrupção (46% a 45%). Lula lidera em geração de empregos e promoção da democracia (49% a 45% em ambos), mas, na prática eleitoral, segurança, corrupção e disciplina fiscal funcionam como gatilhos: comprimem o tempo do eleitor e amplificam a percepção de competência.

A ascensão de Flávio chama atenção por outro motivo: ela ocorreu sem a movimentação típica de pré-campanha capaz de “fabricar” curva. Não houve, até aqui, o roteiro usual de grandes viagens, anúncios e alianças exibidas em vitrine. A alta tem cara de migração espontânea — um eleitorado que procura alternativa e encontra, por ora, um nome que ocupa espaço sem se expor demais. Mário Covas resumiu isso com precisão: às vezes, na política, é melhor jogar parado. O contraste com Lula é desconfortável. Seus movimentos recentes renderam mais custo do que dividendos: discurso áspero na Bahia e uma passagem infeliz pelo desfile das escolas de samba no Rio — com o símbolo ingrato do rebaixamento da escola — reforçaram a impressão de descompasso. Em disputa nivelada, pequenos erros custam caro; a ausência deles, por si só, vira vantagem.

Há ainda um ativo silencioso no campo adversário: a decisão de Tarcísio de Freitas de não entrar na disputa nacional, diante da perspectiva de uma reeleição acachapante em São Paulo, organiza o tabuleiro para Flávio. Reduz dispersão, evita fraturas e oferece um polo estadual poderoso sem competição doméstica pelo mesmo espaço. Para uma candidatura que precisa parecer viável e governável, isso vale muito.

Se Flávio resistir à tentação de aparecer demais e seguir “jogando parado”, a tendência é de ganhos adicionais. Os desdobramentos do escândalo do INSS e a crise do Banco Master — que, em maior ou menor grau, vêm tensionando a imagem do Supremo — tendem a comprimir a margem de manobra de Lula: cada gesto vira risco, cada exposição vira convite a novas narrativas adversas. E a crise reputacional do STF tem um efeito colateral previsível: amplia, em parcelas do público, a percepção de que o julgamento de Jair Bolsonaro não foi justo — reabrindo o argumento de perseguição e convertendo indignação em voto potencial para Flávio.

O risco maior para Lula, portanto, pode não estar apenas na pesquisa, mas na política real. Presidentes não perdem só votos; perdem gravidade. Quando a expectativa de vitória se dissolve, o centrão — movido por cálculo e sobrevivência — tende a se afastar, encurtando governabilidade e acelerando o ciclo de fraqueza. Se a fotografia de fevereiro for o começo de uma tendência, o rebaixamento não será apenas da Escola Acadêmicos de Niterói: será de toda a esquerda brasileira, que poderá suportar o naufrágio sem preparar o futuro — e, pior, sem a Presidência e com bancadas menores no Congresso Nacional.

André Régis, Cientista Político, UFPE.

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