A Polarização e o Fim da Confiança
Um nó a ser desatadoDIOGO DUTRA
Revista ID, FEV 16, 2026
I. A polarização como sistema: da disputa ao aprisionamento
Muito já se escreveu sobre a polarização. Mas é necessário atualizar radicalmente nosso entendimento sobre esse fenômeno. A polarização política atual não é apenas uma intensificação de divergências ideológicas. Ela se transformou em um sistema de bloqueio social e político, uma estrutura complexa que aprisiona o debate público em dois polos rígidos e mutuamente reativos.
No passado, a polarização era vista como parte inerente da democracia. Um certo grau de confronto entre visões de mundo é saudável e necessário. O problema contemporâneo é que a polarização deixou de ser adversarial e passou a ser existencial: o outro não é apenas oponente, mas ameaça. E, como mostra a teoria dos sistemas complexos, quando um sistema entra em regime de lock-in por atratores binários, qualquer possibilidade de reorganização interna se torna cada vez mais difícil.
Essa configuração nos leva a um novo tipo de paralisia democrática. A existência de dois polos fixos e profundamente rejeitados impede que surjam alternativas. A política vira um jogo de eliminação, não de escolha. A sociedade passa a funcionar sob lógica de guerra preventiva.
II. O papel da rejeição: um novo eixo de análise política
Um dos fatores mais críticos, mas ainda pouco discutidos com a devida centralidade, é a lógica da rejeição como eixo estruturante da política polarizada. Em especial no contexto brasileiro, com sistema de dois turnos, os índices de rejeição passaram a ser tão ou mais relevantes que as intenções de voto.
Durante muito tempo, análises eleitorais tradicionais basearam-se unicamente em intenção declarada de voto. No entanto, o cenário atual exige outro tipo de lente. Uma candidatura viável hoje não é apenas aquela que agrega apoios, mas principalmente aquela que consegue reduzir sua taxa de rejeição a níveis sustentáveis. Essa inversão é decisiva: o que define o campo político não é mais o entusiasmo, mas o medo.
É nesse ponto que se revela a falsidade da ideia de que só existe um caminho para vencer “o outro”. A lógica “para tirar Lula, é preciso Bolsonaro” ou “para tirar Bolsonaro, é preciso Lula” é um sintoma do aprisionamento do pensamento público dentro da armadilha binária. Ela só se sustenta quando se ignora a variável da rejeição. Quando ela é incorporada, percebe-se que existem sim alternativas viáveis fora do binarismo, desde que a análise e a opinião pública estejam dispostas a reconhecê-las.
Além disso, é importante observar que os chamados “núcleos duros” de cada campo político — o lulopetismo e o bolsonarismo — provavelmente representam uma fatia minoritária da sociedade, estimada em algo entre 15% e 20% do eleitorado cada. A maior parte da população transita por identificações parciais, motivações circunstanciais e, sobretudo, por rejeição ao outro campo, e não por engajamento afirmativo. No entanto, as pesquisas e análises políticas raramente conseguem distinguir com clareza essas camadas, o que gera a falsa impressão de que “está tudo dominado” por um dos lados. Essa sensação de impotência generalizada intensifica o cinismo, o medo e o radicalismo defensivo.
Sistemas eleitorais mais sofisticados (como votações preferenciais, votação condicional ou sistemas de segundo turno instantâneo) incorporam esse fator. No Brasil, mesmo que o modelo oficial não o faça, a cidadania ativa pode e deve fazê-lo. É uma escolha política e cultural deliberada — e talvez a mais urgente que tenhamos diante de nós.
III. Confiança em ruínas: Fukuyama e a anatomia do colapso
Para entender o enraizamento da polarização, é essencial retornar ao conceito de confiança como infraestrutura invisível da democracia. Francis Fukuyama, em seu livro Trust, desenvolve uma teoria poderosa: as sociedades que conseguem gerar confiança entre cidadãos — para além da família, do clã ou do partido — são aquelas que criam instituições resilientes e economias inovadoras. Já as sociedades de baixa confiança dependem de mediações formais ou autoritárias e se tornam presas fáceis de rupturas.
Quando aplicamos essa leitura ao Brasil e a outros países em processo de polarização avançada, o quadro é claro: o tecido da confiança se dissolveu. Não se confia mais nas instituições (Congresso, STF, imprensa), não se confia mais nos dados (pesquisas eleitorais, estatísticas públicas), não se confia sequer na palavra do outro. Isso tem efeitos profundos: sem confiança mínima, todo o espaço democrático se transforma em trincheira.
Como Fukuyama propõe, a confiança não é uma crença ingênua. Ela é um bem cultural, produzido ao longo do tempo por experiências de reciprocidade e previsibilidade social. Quando essas experiências são sistematicamente rompidas por crises, fake news, oportunismo institucional ou guerras culturais, não sobra base para o funcionamento coletivo. O resultado é o isolamento, a radicalização e a tentação do autoritarismo.
IV. O desbloqueio possível: repactuar ou afundar
Diante desse cenário, não há solução mágica. Mas há um caminho: trabalhar deliberadamente pelo desbloqueio da polarização como prioridade nacional. Isso significa reconhecer que qualquer tentativa de reforma — tributária, educacional, climática, institucional — será sabotada enquanto a polarização seguir como regime dominante.
O centro político, frequentemente acusado de irrelevância ou oportunismo, precisa assumir o papel estratégico de ser o vetor de desbloqueio. Isso exige responsabilidade, mas também pragmatismo: abrir mão de projetos pessoais, rearticular convergências, aceitar imperfeições. Mais do que liderar, é necessário desarmar.
Mas não basta esperar que esse movimento venha das elites. A cidadania também precisa operar sob nova lógica. Isso implica, entre outras coisas:
abandonar a ideia de “voto moral” puramente identitário;
aceitar que a democracia exige negociação e impureza;
votar estrategicamente, levando em conta não só afinidade ideológica, mas o efeito sistêmico do voto sobre o ciclo de polarização.
Nesse processo, é importante abandonar a fantasia de que um herói solitário irá resolver o impasse. O desbloqueio da polarização não será feito por uma única figura carismática, mas por uma engenharia política ampla, composta por uma chapa equilibrada, por uma equipe de governo com capacidade de diálogo entre espectros diversos e por lideranças intermediárias capazes de construir pontes. Esse movimento de coalizão e arquitetura política é que pode oferecer as bases de um novo ciclo democrático, mais plural e menos reativo.
Talvez este primeiro ciclo de governo seja ainda limitado. Talvez seu principal papel seja criar condições mínimas para que, no próximo ciclo, possamos voltar a discutir projeto de país com alguma racionalidade. Mas esse recomeço só será possível se formos capazes de desarmar o atual regime de desconfiança e medo.
Despolarizar não é um projeto de poder. É um projeto de sobrevivência democrática. Não se trata de apagar diferenças, mas de permitir que outras possibilidades possam emergir, fora da lógica do medo e da eliminação. A polarização não é o destino. É o sintoma. E todo sintoma pode ser tratado, desde que nomeado com precisão.
Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.
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