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segunda-feira, 30 de março de 2026

Augusto de Franco desmonta os argumentos da esquerda na guerra de agressão dos EUA contra o Irã (Revista ID)

 

Narrativas iliberais sobre a guerra do Irã

Há uma guerra: é a guerra do Irã


Masih Alinejad's American Enemies | National Review

A narrativa dos jornalistas simpáticos a Lula e ao PT que se apresentam como analistas internacionais chega a ser uma ofensa ao bom-senso e um insulto à inteligência. Mas é pior do que isso: é desonesta. Ela é repetida diariamente nos meios de comunicação, sobretudo nas TVs alinhadas ao governo Lula. Nem todos que replicam tais narrativas iliberais endossam os dez pontos abaixo, mas com certeza concordam com a maioria deles. É mais ou menos assim:

1 - As violações dos direitos humanos e a perseguição às mulheres no Irã é uma característica cultural de um país milenar. Não podem ser condenadas a partir da cultura ocidental. Ou, se condenáveis do nosso ponto de vista, não justificam os ataques bárbaros que os iranianos vêm sofrendo.

2 - O regime teocrático do Irã é também a expressão de sua cultura milenar. Querer que o Irã copie o modelo ocidental de democracia é não entender a complexidade da sociedade iraniana e seu direito soberano de construir seu próprio tipo de regime político.

3 - O Irã é um país pacífico. Só está em guerra porque foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, de modo covarde, pois isso aconteceu enquanto estava empenhado de boa vontade em negociações com esses países. Ah! Mas e a repressão sangrenta aos manifestantes iranianos, que assassinou a sangue frio, no início deste ano, dezenas de milhares de pessoas nas ruas e nas prisões do regime? Ninguém sabe ao certo o número de vítimas. Isso é mais propaganda judaica colonialista e americana imperialista.

4 - O Irã era uma democracia plena. Mas o governo de Mossadegh foi derrubado em 1953 por um golpe militar promovido pela CIA (EUA) e pelo M16 (Reino Unido). Foi aí que começaram os ataques ocidentais ao Irã. Ah! Mas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo (como o V-Dem) atestam que nessa época o Irã era uma autocracia (e que nunca houve democracia por lá). Não importa: essas instituições devem estar mentindo (ou são expressões da visão parcial do Ocidente). Mossadegh era socialista e nacionalista, logo era um democrata, pois defendia a soberania do Irã contra o imperialismo e o colonialismo.

5 - O Hezbollah, o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis, as milícias xiitas no Iraque, na Síria e em outros países do Oriente Médio - grupos jihadistas coordenados pelo Corpo da Guarda da Revolução Islâmica - não são entidades terroristas, mas apenas integrantes do "eixo da resistência" ao colonialismo de Israel e ao imperialismo dos EUA. Ah! Mas os ataques terroristas sangrentos que esses grupos cometeram em Israel e em outros países? Não importa. Se eles não resistissem aos ataques do Ocidente seriam liquidados ou violados em seus legítimos direitos de expressão e organização.

6 - O Irã só quer explorar recursos nucleares para fins pacíficos, de geração de energia e de construção de artefatos médicos. É mentira que seu programa nuclear visava a construção de armas. Ah! Mas e a quase meia tonelada de urânio enriquecido a 60%? Isso é mentira, assim como era mentira que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Ou, se não é mentira, 60% não permitem a construção de uma bomba atômica.

7 - Israel ataca o Líbano e não o Hezbollah. Aliás, sempre atacou o país para colonizá-lo, inclusive quando o Hezbollah não existia. Ah! Mas e a OLP no Líbano não era um grupo terrorista? Não era e sim legítima resistência aos ataques ocidentais. O Hezbollah está apenas se defendendo dos ataques colonialistas e imperialistas.

8 - Israel ataca os palestinos para genocidá-los (na base da limpeza étnica) e não o Hamas. A prova é que o Hamas continua organizado e armado, controlando cerca de 40% da Faixa de Gaza. Israel está mantendo um apartheid dos palestinos para impedir que construam seu próprio Estado. A prova disso é a ocupação crescente da Cisjordânia por colonos judeus supremacistas que cometem crimes diários contra as populações tradicionais da Judeia e da Samaria.

9 - O Irã está vencendo a guerra porque está resistindo bravamente aos ataques criminosos de Israel e dos Estados Unidos. Já era hora de alguém dar um basta nesses agressores.

10 - É admirável o que o Irã está fazendo, enfrentando Trump e Netanyahu. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo dos EUA estava nas mãos dos democratas Clinton, Obama e Biden. Não importa, é tudo a mesma coisa: imperialismo. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo de Israel estava nas mãos dos trabalhistas Rabin, Peres e Barak. Não importa, é tudo a mesma coisa: colonialismo. 

Essa é mais ou menos a narrativa do PT. Essa é mais ou menos a narrativa dos governos Lula, que sempre apoiaram a ditadura do Irã, cuja entrada no BRICS foi comemorada pelo PT. E tanto é assim que Lula se aproximou de Ahmadinejad - um notório fraudador de eleições, como aquele seu outro amigo Maduro.

O que esses propagandistas iliberais nos meios de comunicação não enxergam é que o fato de Trump e Netanyahu serem populistas-autoritários muito ruins não torna aceitável (ou justificável) a teocracia assassina e terrorista dos aiatolás iranianos. Como escreveu Masih Alinejad (na foto: jornalista iranana e presidente do WL Congress):

“A República Islâmica é um regime terrorista. Deixou uma coisa brutalmente clara: a vida do seu próprio povo não lhe vale nada. Ela os mata. Depois exige dinheiro de suas famílias para devolver os corpos. E se essas famílias ousarem expressar seu luto, ousarem exigir justiça, são ameaçadas de estupro coletivo e depois presas. Há anos venho dizendo claramente: a República Islâmica não é um governo normal. É uma força de ocupação terrorista que só responderá à força e à pressão decisiva”. 

Mesmo assim, parece óbvio que Trump, aliado a Netanyahu, não tinha razões fortes para desfechar a atual contra-ofensiva ao Irã. Errou na forma e no conteúdo. Desvairou. Já quer voltar atrás e não sabe como. 

Mas o fato é que - independentemente do presidente americano ser o Belzebu em pessoa e de Bibi ser a encarnação de Asmodai - o Irã não pode continuar financiando e coordenando uma dezena de organizações terroristas ativas (capazes de cometer atentados em qualquer lugar do mundo). O Irã não pode continuar com seu programa de mísseis (com cada vez maior alcance e capacidade de destruição). O Irã não pode retomar seu programa nuclear. E o Irã não pode manter controle completo sobre o Estreito de Ormuz. Finalmente, o Irã não pode se estabelecer como o valentão e o manda-chuva do Oriente Médio (daqui a pouco vai passar cobrar proteção dos países da região, com o IRGC atuando como máfia estatal). 

Todavia, não foram os erros crassos de Trump e Bibi que levaram o Irã a fazer tudo isso. Era o plano. Trump e Bibi só deram a chance do Pásdárán(o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica) começar a executá-lo. 

Há uma guerra em curso. Não só no Oriente Médio, mas no mundo. É a guerra do Irã, que não começou em 2026, mas já dura quase meio século.


Uma nota sobre o programa Globo News Internacional

A crítica é própria da democracia. Então vamos lá. O Globo News Internacional do último domingo (22/03/2026) ultrapassou todos os limites. Pareceu um Pravda, ou melhor, um Granma. Chamou uma pessoa para comentar a guerra no Líbano que parecia (não estou afirmando que é) uma militante do "eixo da resistência" (a retórica é a mesma) ou uma funcionária de relações públicas do Hezbollah. Depois, entre tantas e descabidas parcialidades, tratou de Cuba, chamando o embargo de bloqueio (no passado, não agora, replicando exatamente a mesma narrativa surrada - e falsa - do regime). Chamou uma historiadora pró-cubana para dizer que está havendo, há muito tempo, uma transição em Cuba, conduzida pelo partido único (mas isso é só um detalhe pouco importante), confundindo solertemente medidas econômicas com abertura política. Nem vou falar da narrativa da guerra do Irã. É como se um país pacífico, enquanto estava negociando com a melhor das boas intenções, tivesse sido covardemente atacado pelos imperialistas e colonialistas. Ou seja, a guerra que a teocracia do Irã trava há décadas, por meios de seus braços terroristas (Hezbollah, Houthis, milícias xiitas no Iraque e na Síria, Jihad Islâmica, Hamas), seria somente uma demonstração de… paz! Sinceramente, isso não é jornalismo. Depois se assustam quando as pessoas, em sua maioria, não confiam mais nos meios de comunicação profissionais.

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quinta-feira, 19 de março de 2026

A queda do V-Dem - Augusto De Franco (Revista ID)

A queda do V-Dem

A esquerda acadêmica está capturando o instituto

O V-Dem vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo dos institutos que monitoram os regimes políticos no mundo

O V-Dem (Varieties of Democracy), da Universidade Gotemburgo, tão admirado por todos nós, democratas, entrou numa trajetória decadente de perda de credibilidade. 

Agora acabou de lançar seu relatório de 2026, intitulado “Unraveling The Democratic Era?”. Felizmente corrigiu, nesse relatório, o erro crasso (cometido no ano passado) de classificar a África do Sul como democracia liberal. Agora ela voltou para seu lugar: de democracia (apenas) eleitoral (quer dizer, não-liberal). 

No relatório de 2006, o V-Dem desclassificou os EUA como democracia liberal (o que parece estar correto, considerados os ataques do MAGA e de Donald Trump à democracia americana e às democracias liberais do mundo inteiro - embora a classificação do V-Dem seja de regimes políticos, não de governos). A The Economist Intelligence Unit, mais coerente, já há muitos anos, classifica dos EUA como flawed democracy (quer dizer, não como full democracy). 

Há vários problemas com o V-Dem. O principal deles é ter montado uma rede de consultores acadêmicos, espalhados por diversos países, predominantemente simpáticos a uma faixa do espectro político. Isso introduz um viés nas análises e distorce as avaliações. Por exemplo, eles sustentam que a democracia no Brasil está melhorando num ritmo mais acelerado do que o de todos os demais países, talvez porque Bolsonaro, que não era democrata, saiu do governo e está preso - o que é verdade; mas, novamente, regime não é governo. 

De fato a democracia brasileira se recuperou de uma tentativa desastrada (e mal-articulada) de golpe, promovida pelo governo anterior, mas pelos próprios critérios metodológicos do V-Dem ela não continuou melhorando depois disso, pelo contrário. Basta ver a crise institucional que se instalou a partir da aliança do governo com a suprema corte para compensar o fato de ser minoria no parlamento.

Considere-se que, de acordo com a pesquisa “Brasil no espelho”, a confiança no Brasil (mais do que uma medida, a própria definição de capital social) anda baixíssima. O brasileiro não confia nem mesmo em seus vizinhos. Apenas 6% dos entrevistados concordaram com a frase segundo a qual se pode confiar na maioria das pessoas, o que colocou o país à frente apenas à frente do Zimbábue em um ranking sobre esse tema. Na Noruega, esse índice era de 72%. Felipe Nunes, coordenador da pesquisa, conclui que esse déficit de confiança não é um mero estado de ânimo conjuntural. Ele interpreta isso como uma manifestação da “infraestrutura invisível da sociedade”. Ele não disse, mas está falando do capital social. Pois bem, com esse nível de capital social como é que o Brasil pode estar melhorando seus índices de democratização (mais intensa e rapidamente do que qualquer outro país do mundo) como se aventura a sustentar o V-Dem)? Entendam que há um erro grave aí.

Por último, para classificar um regime político - como democracia liberal, democracia eleitoral, autocracia eleitoral ou autocracia fechada - o V-Dem não leva em conta a orientação do país em política externa, o que é absurdo. E ainda há aqui uma grave deformação. Se um governo implanta uma política externa de apoio à ditaduras anti-imperialismo norte-americano - como Cuba, Venezuela, Nicarágua, Angola, Rússia, China, Irã - isso não afeta em nada sua classificação como democracia. Mas se um governo apoia Trump, Bukele, Modi, Orbán, Erdogan, Netanyahu, aí, sim, significa: esse governo passa a ser encarado como parte da "internacional fascista" e isso conta, subjetivamente, para fazer decair o regime político do país nos rankings mundiais de democracia.

O alinhamento do V-Dem é tão escandaloso que ele chegou a escrever no seu relatório em tela:

“A autocratização do Brasil começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e acelerou após a eleição do populista de direita Jair Bolsonaro em 2018. Ataques à mídia, tentativas de minar as eleições, o legislativo e o judiciário se seguiram. A reviravolta ocorreu quando Luís Inácio “Lula” da Silva, apoiado por uma coalizão de nove partidos, venceu as eleições de 2022. Contudo, a sociedade brasileira permanece profundamente polarizada, e as eleições de 2026 serão decisivas para o futuro”. 

Essa é uma narrativa típica da esquerda populista (lulopetista). O V-Dem está insinuando que se Lula não for reeleito mais uma vez (a quarta) o Brasil entrará novamente em processo de autocratização? Vamos falar sério: o Brasil não se autocratizou após o impeachment de Dilma, que foi legítimo - dado o desarranjo que seu governo populista de esquerda instalou no país - e perfeitamente legal.

Os consultores acadêmicos, sempre eles: puxando, retorcendo, distorcendo. Fizemos, com a ajuda da IA, um levantamento dos acadêmicos com vínculos com o V-Dem no Brasil. Não vamos divulgar a lista com os vinte e dois nomes encontrados, é claro. Alguns são bem conhecidos como intelectuais militantes do PT. Vale apenas dizer que se fizermos uma pesquisa de intenção de voto nesse universo, Lula vencerá com um resultado que será muito parecido com o daquelas eleições na Coreia do Norte.

Ainda vamos nos debruçar mais longamente sobre o relatório do V-Dem que colocou Canadá e Reino Unido como democracias apenas eleitorais com tendência de democratização inferior a do Brasil. E que também não incluiu Grécia, Portugal e Suriname como democracias liberais.

Segundo o relatório do V-Dem 2026, temos 31 democracias liberais no mundo atual (1), um número semelhante ao dos seus relatórios anteriores. O problema são as inclusões e exclusões especiosas (e abruptas, como o foi o caso da África do Sul) da lista. Será que alguém disse que a África do Sul deveria entrar porque era do BRICS (pelo menos um dos consultores brasileiros do V-Dem se dedica ao BRICS) e depois outros técnicos viram que manter isso era insustentável? Será que o V-Dem está se preparando para promover o Brasil à condição de democracia liberal no próximo relatório? É o que tudo indica. Se Lula vencer a próxima eleição, é óbvio.

Assim o V-Dem (Varieties of Democracy, da Universidade de Gotemburgo) vai se afastando das mais reconhecidas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo, como a Freedom House e a The Economist Intelligence Unit. Vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo desses institutos.

Nota

(1) Democracias Liberais V-Dem 2026 (note-se que o Reino Unido foi retirado da lista):

1. Australia

2. Belgium

3. Costa Rica

4. Czechia

5. Denmark

6. Estonia

7. Finland

8. Germany

9. Iceland

10. Ireland

11. Japan

12. Latvia

13. Luxembourg

14. Netherlands

15. New Zealand

16. Norway

17. Seychelles

18. South Korea

19. Spain

20. Sweden

21. Switzerland

22. Taiwan

23. Austria

24. Barbados

25. Chile

26. Cyprus

27. France

28. Italy

29. Lithuania

30. Trinidad and Tobago

31. Uruguay

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segunda-feira, 16 de março de 2026

Eleições brasileiras 2026 - Diogo Dutra (Revista ID)

 

Quando o sistema trava

Polarização, atratores políticos e o lock-in da democracia brasileira

Introdução — um sistema que não conseguimos mais enxergar de dentro

Talvez estejamos nos aproximando do quinto ou sexto ciclo eleitoral consecutivo no qual o Brasil convive com um fenômeno que, no início, parecia episódico, mas que ao longo do tempo foi se consolidando como uma estrutura permanente da vida política: a polarização radicalizada. Passamos por momentos de enorme tensão pública. Assistimos a crises institucionais, a rupturas profundas no tecido social, a relações pessoais que se deterioraram sob o peso de disputas políticas cada vez mais agressivas. Famílias se dividiram, amizades se romperam, ressentimentos se acumularam silenciosamente em muitas camadas da sociedade.

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Ao longo desse período, muitos de nós experimentamos uma mistura estranha de indignação, cansaço e resignação. Houve momentos de raiva coletiva, momentos de medo real, momentos em que parecia que qualquer coisa poderia acontecer. Algumas das coisas que temíamos aconteceram; outras, felizmente, não aconteceram. Mas o que talvez seja mais intrigante — e, para mim, cada vez mais perturbador — é perceber que, mesmo depois de atravessarmos tantos ciclos dessa dinâmica, ainda parece não ter caído a ficha coletiva sobre o quão profundamente danoso é esse padrão de organização da vida política.

Observando o cenário que começa a se desenhar para mais uma eleição nacional, algo me impressiona profundamente: mesmo antes do primeiro turno acontecer, já estamos operando mentalmente dentro da lógica de um segundo turno polarizado. As pessoas discutem cenários eleitorais como se fosse inevitável que o sistema político brasileiro continue organizado em torno de dois polos que se antagonizam mutuamente. Comentários, análises e até conversas cotidianas parecem aceitar como natural que, ao final do processo, estaremos novamente diante da mesma estrutura binária que tem organizado a política brasileira nos últimos anos.

Esse fenômeno é tão naturalizado que raramente paramos para fazer uma pergunta fundamental: e se estivermos presos dentro de um sistema que reproduz continuamente essa estrutura?

É justamente essa pergunta que me levou a tentar observar o fenômeno político a partir de uma lente um pouco diferente daquela que costuma orientar o debate público. Em vez de interpretar eleições e disputas ideológicas apenas como fenômenos institucionais ou morais, tenho me interessado cada vez mais por compreendê-los como expressões de sistemas complexos. E quando olhamos a política dessa maneira — como um sistema dinâmico composto por milhões de interações entre indivíduos, instituições e fluxos de informação — alguns padrões começam a emergir.

Um desses padrões é o que a literatura sobre sistemas complexos chama de atrator: um estado relativamente estável para o qual o sistema tende a convergir repetidamente. E quando um sistema entra nesse tipo de configuração, ele pode permanecer ali por muito tempo, reproduzindo continuamente a mesma dinâmica [1].

Talvez seja exatamente isso que estejamos vivendo.

Talvez estejamos presos em um lock-in político.

Este ensaio é uma tentativa de dar um passo para trás e olhar para esse fenômeno sob a perspectiva de sistemas dinâmicos. Não para justificar a polarização, mas para compreender por que ela persiste, por que ela captura inclusive aqueles que não se identificam com os polos mais radicalizados e, sobretudo, por que ela só será superada se certas perturbações ocorrerem dentro do próprio sistema social.


I — Atratores, lock-in e sistemas sociais

Na literatura sobre sistemas complexos e economia evolucionária, o conceito de lock-in descreve uma situação em que um sistema entra em uma trajetória histórica que passa a se auto-reforçar. Uma vez estabelecida determinada configuração institucional, tecnológica ou organizacional, cada decisão subsequente tende a reproduzir as condições que mantêm essa estrutura em funcionamento. O conceito tornou-se particularmente conhecido a partir dos trabalhos de Brian Arthur, que demonstrou como tecnologias ou instituições podem tornar-se dominantes não necessariamente porque são superiores, mas porque um conjunto inicial de escolhas cria um caminho do qual se torna progressivamente mais difícil escapar [2].

Em sistemas desse tipo, pequenas perturbações raramente são suficientes para alterar a trajetória dominante. O sistema tende a absorver essas variações e retornar à configuração anterior. Para que uma transformação estrutural ocorra, normalmente é necessário algum tipo de distúrbio suficientemente intenso para deslocar o sistema para outro atrator.

Essa dinâmica aparece em diversas áreas do conhecimento. Ilya Prigogine mostrou que sistemas físicos complexos frequentemente permanecem em estados metaestáveis até que flutuações internas ou externas criem condições para reorganizações estruturais profundas [3]. Na teoria de redes, pesquisadores observaram que interações sociais tendem a produzir agrupamentos densos — clusters — nos quais identidades coletivas e padrões de comportamento se reforçam mutuamente [4].

Quando aplicamos essa lente à política contemporânea, começamos a perceber que certos fenômenos aparentemente contingentes podem refletir estruturas sistêmicas relativamente estáveis. Polarização política intensa é um desses fenômenos.


II — A polarização como atrator político

Conflitos políticos sempre existiram. Divergências ideológicas, disputas eleitorais e confrontos de visões de mundo fazem parte da própria dinâmica das democracias. O que parece ter se alterado nas últimas décadas, no entanto, não é apenas a intensidade desses conflitos, mas a forma como eles estruturam o sistema político como um todo.

No Brasil — assim como em diversos outros países — a polarização deixou gradualmente de ser apenas uma característica episódica da competição política para tornar-se uma espécie de mecanismo organizador do próprio sistema político. A lógica que orienta a mobilização eleitoral passa a depender cada vez mais da criação de identidades antagônicas relativamente estáveis. Em vez de múltiplos projetos disputando preferências em um campo plural, o sistema passa a gravitar em torno de dois polos que se alimentam mutuamente.

A lógica desse processo é relativamente simples. Criar um campo de pertencimento emocional — o “nós” — e simultaneamente construir uma rejeição intensa ao “eles”. Essa estrutura reduz a complexidade do sistema político e torna a mobilização mais eficiente. Eleitores passam a tomar decisões menos com base em programas e mais com base em identidades.

Esse mecanismo tem um efeito curioso: cada lado passa a depender da existência do outro para sustentar sua própria mobilização. Ataques reforçam identidades. Conflitos ampliam o engajamento. Episódios de indignação coletiva aumentam a coesão interna dos grupos.

Com o tempo, essa dinâmica tende a produzir um verdadeiro atrator político. Uma configuração que passa a organizar grande parte das interações dentro do sistema.

Uma vez que esse padrão se estabelece, praticamente todas as forças institucionais começam a reforçá-lo. Estratégias de comunicação política privilegiam narrativas polarizadas. Redes sociais amplificam conteúdos que despertam emoções intensas. E até instrumentos que deveriam ajudar a compreender a realidade política — como pesquisas eleitorais — acabam frequentemente reforçando essa estrutura ao enquadrar o debate quase exclusivamente como uma disputa entre dois polos.

Talvez o dado mais relevante — e menos discutido — seja que, no caso brasileiro, os níveis de rejeição entre campos políticos atingiram patamares historicamente elevados. Ou seja, a polarização deixou de ser apenas competição eleitoral e passou a incorporar uma dimensão emocional de rejeição ao adversário.

Do ponto de vista sistêmico, esse é um indicador clássico de um sistema que entrou em lock-in.


III — Quando o centro é capturado pelo sistema

O aspecto mais intrigante dessa dinâmica talvez seja o seguinte: ela não depende apenas dos atores mais radicalizados do sistema político. Na verdade, sistemas polarizados tendem a capturar progressivamente também aqueles que inicialmente se posicionam fora dos polos.

Em termos de sistemas dinâmicos, quando um sistema possui dois atratores dominantes, elementos que se aproximam do campo tendem a ser puxados gravitacionalmente para uma dessas regiões de estabilidade. Traduzido para a política, isso significa que atores moderados frequentemente acabam sendo absorvidos pela lógica da polarização, mesmo quando não compartilham plenamente das posições ideológicas dos extremos.

Esse fenômeno aparece de diversas maneiras. O medo do adversário leva eleitores moderados a votar estrategicamente. Candidatos que inicialmente tentam ocupar posições intermediárias acabam adotando discursos mais polarizados para sobreviver eleitoralmente. A própria narrativa pública passa a tratar posições centristas como ingenuidade, ambiguidade ou falta de coragem.

O resultado é um processo curioso e profundamente distorcedor. Mesmo quando existe uma parcela significativa da população que não se identifica plenamente com nenhum dos polos, o sistema continua produzindo segundos turnos cada vez mais radicalizados. Em vez de escolhas entre projetos consistentes de país, o eleitorado se vê diante de decisões motivadas principalmente pela tentativa de evitar aquilo que considera o pior cenário possível.

Esse fenômeno produz uma ilusão política perigosa. Governos eleitos dentro dessa dinâmica frequentemente parecem possuir legitimidade majoritária, quando na realidade foram escolhidos por um eleitorado fragmentado, que muitas vezes votou movido mais pelo medo do adversário do que pela adesão ao projeto vencedor.

É exatamente assim que sistemas em lock-in operam: empurrando todos os atores para dentro da estrutura existente.


IV — sair da inércia do sistema

Talvez o aspecto mais fascinante — e ao mesmo tempo mais inquietante — dos sistemas complexos seja o seguinte: quando estamos dentro de um atrator, frequentemente temos a impressão de que aquela configuração é inevitável. O sistema parece natural. Parece inevitável. Parece que sempre foi assim e que sempre continuará sendo assim.

Mas sistemas dinâmicos não funcionam dessa maneira.

Eles permanecem estáveis até que alguma perturbação relevante altere o padrão das interações. Pequenas mudanças acumuladas podem, em determinado momento, deslocar o sistema para outra região do espaço dinâmico.

O que me inquieta profundamente neste momento é perceber que talvez estejamos vivendo exatamente o oposto desse processo. Em vez de produzir perturbações capazes de alterar a dinâmica da polarização, muitos atores sociais parecem simplesmente aceitar sua inevitabilidade. Pessoas que não se identificam com os polos mais radicalizados continuam sendo puxadas para dentro dessa lógica pela força gravitacional do sistema.

E aqui está talvez o ponto mais importante deste ensaio.

Se existe hoje uma parcela significativa da sociedade que não deseja viver dentro dessa estrutura de antagonismo permanente, então essa parcela precisa compreender que a inércia também é uma forma de participação no sistema. Aceitar passivamente a lógica da polarização significa, na prática, reforçá-la.

É por isso que talvez seja urgente produzir um tipo diferente de movimento.

Não apenas institucional.

Mas social, cultural e relacional.

Pessoas que se identificam com posições mais moderadas ou que simplesmente rejeitam a lógica de inimização da política precisam começar a se posicionar de forma mais clara — nas conversas privadas, nos espaços públicos, nas redes sociais, nas organizações em que participam.

Isso significa recusar a lógica do “nós contra eles”.

Significa não amplificar narrativas que reforçam a polarização.

Significa defender explicitamente a existência de alternativas políticas fora desse binarismo.

Significa também, eventualmente, estimular alianças entre candidaturas que tentam ocupar esse espaço intermediário — em vez de contribuir para a fragmentação que frequentemente inviabiliza esse campo.

E, se mesmo assim o sistema insistir em reproduzir apenas escolhas polarizadas, talvez seja necessário sinalizar de forma clara que essa estrutura não é aceitável.

Mesmo que isso implique, em determinadas circunstâncias, recusar participar da lógica binária que o sistema tenta impor.

Não como gesto de indiferença política.

Mas como um sinal explícito de que parte da sociedade não aceita mais ser arrastada pela dinâmica de um sistema que produz continuamente inimigos políticos em vez de adversários democráticos.

Se existe algo que a teoria dos sistemas complexos nos ensina é que atratores não são eternos.

Mas eles também não desaparecem sozinhos.

Eles desaparecem quando novas interações começam a reorganizar o sistema.

A pergunta que fica — e que talvez seja a pergunta política mais importante deste momento — é se estamos dispostos a produzir essas novas interações ou se continuaremos aceitando, ciclo após ciclo, a gravidade de um sistema que parece cada vez mais difícil de abandonar.


Notas

[1] Stuart Kauffman — At Home in the Universe (1995).

[2] W. Brian Arthur — “Competing Technologies, Increasing Returns, and Lock-In by Historical Events” (1989).

[3] Ilya Prigogine — Order Out of Chaos (1984).

[4] Duncan Watts — Six Degrees: The Science of a Connected Age (2003).

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quarta-feira, 11 de março de 2026

Os novos eixos politicos em escala regional e mundial e como se alinha o Brasil do lulopetismo - Revista ID

A queda

A derrocada do populismo de esquerda na AL

Multidão caindo no abismo — Foto © sellingpixsellingpix #31417133


A derrocada do populismo de esquerda e das ditaduras socialistas na América Latina 

Lula e o PT já contaram, na condição de aliados na América Latina, com muitos neopopulistas de esquerda que parasitavam regimes eleitorais não-liberais e alguns ditadores ditos socialistas. Agora não contam mais. Vejamos.

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Antes

NEOPOPULISTAS

1 - Correa e Moreno (no Equador), 

2 - Lugo (no Paraguai), 

3 - Funes e Cerén (em El Salvador), 

4 - Cristina e Fernández (na Argentina), 

5 - Obrador (no México), 

6 - Manoel Zelaya e Xiomara (em Honduras), 

7 - Evo e Arce (na Bolívia), 

8 - Chávez (na Venezuela)

9 - Lula e Dilma (no Brasil)

DITADORES

10 - Os irmãos Castro (em Cuba), 

11 - Ortega (na Nicarágua),

12 - Maduro (na Venezuela). 

Agora

NEOPOPULISTAS

1 - Claudia (no México), 

2 - Lula (no Brasil)

3 - Petro (na Colômbia) - Mas seu candidato pode perder a próxima eleição. 

DITADORES

4 - Ortega e Murillo (na Nicarágua),

5 - Díaz-Canel (em Cuba) - Não se sabe por quanto tempo.

6 - Delcy Rodriguez (na Venezuela) - Não se pode contar mais com ela (pois virou refém de Trump).

Balanço na América Latina

De 12 que já foram (ainda que nem sempre simultaneamente) podem restar apenas 2 ou 3 (simultaneamente). Ou menos, se Lula perder a eleição de 2026. Eis a queda. Talvez a maior derrocada que já se viu na história em uma mesma região do mundo em tão pouco tempo.


No mundo

No plano mundial o lulopetismo está alinhado aos autocratas de esquerda (e socialistas) que estão em governos, como Xi Jinping (na China), Pham Minh Chinh (no Vietnã), Sonexay Siphadone (no Laos), Kim Jong-un (na Coreia do Norte), Lourenço (em Angola). Além disso, está alinhado aos neopopulistas de esquerda que parasitam regimes eleitorais não-liberais, como Subianto (na Indonésia) e Ramaphosa (na África do Sul). Por último, o lulopetismo é defensor de Putin (na Rússia) e de Lukashenko (na Bielorrússia) e seus demais satélites centro-asiáticos (como Cazaquistão, Uzbequistão etc.), de Khamenei pai e agora filho (no Irã) e não condena o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC) e seus braços terroristas (como Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah, Houthis etc.). 

O que há de comum a todos eles? São, todos, inimigos das democracias liberais ou plenas.

Conclusão

Dizer que Lula e o PT defendem a democracia ou é mentira pura e simples ou revela um profundo desconhecimento do que é democracia.

Bastaria perguntar por que os lulopetistas não se alinham, preferencialmente, aos regimes (democracias liberais ou plenas) vigentes nos seguintes países (não por acaso os mais desenvolvidos do mundo): Alemanha, Áustria, Bélgica, Chéquia, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Portugal, Suécia, Reino Unido, Noruega, Suíça, Islândia, Canadá, Barbados, Costa Rica, Suriname, Chile, Uruguai, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Nova Zelândia.

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