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quarta-feira, 11 de março de 2026

Os novos eixos politicos em escala regional e mundial e como se alinha o Brasil do lulopetismo - Revista ID

A queda

A derrocada do populismo de esquerda na AL

Multidão caindo no abismo — Foto © sellingpixsellingpix #31417133


A derrocada do populismo de esquerda e das ditaduras socialistas na América Latina 

Lula e o PT já contaram, na condição de aliados na América Latina, com muitos neopopulistas de esquerda que parasitavam regimes eleitorais não-liberais e alguns ditadores ditos socialistas. Agora não contam mais. Vejamos.

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Antes

NEOPOPULISTAS

1 - Correa e Moreno (no Equador), 

2 - Lugo (no Paraguai), 

3 - Funes e Cerén (em El Salvador), 

4 - Cristina e Fernández (na Argentina), 

5 - Obrador (no México), 

6 - Manoel Zelaya e Xiomara (em Honduras), 

7 - Evo e Arce (na Bolívia), 

8 - Chávez (na Venezuela)

9 - Lula e Dilma (no Brasil)

DITADORES

10 - Os irmãos Castro (em Cuba), 

11 - Ortega (na Nicarágua),

12 - Maduro (na Venezuela). 

Agora

NEOPOPULISTAS

1 - Claudia (no México), 

2 - Lula (no Brasil)

3 - Petro (na Colômbia) - Mas seu candidato pode perder a próxima eleição. 

DITADORES

4 - Ortega e Murillo (na Nicarágua),

5 - Díaz-Canel (em Cuba) - Não se sabe por quanto tempo.

6 - Delcy Rodriguez (na Venezuela) - Não se pode contar mais com ela (pois virou refém de Trump).

Balanço na América Latina

De 12 que já foram (ainda que nem sempre simultaneamente) podem restar apenas 2 ou 3 (simultaneamente). Ou menos, se Lula perder a eleição de 2026. Eis a queda. Talvez a maior derrocada que já se viu na história em uma mesma região do mundo em tão pouco tempo.


No mundo

No plano mundial o lulopetismo está alinhado aos autocratas de esquerda (e socialistas) que estão em governos, como Xi Jinping (na China), Pham Minh Chinh (no Vietnã), Sonexay Siphadone (no Laos), Kim Jong-un (na Coreia do Norte), Lourenço (em Angola). Além disso, está alinhado aos neopopulistas de esquerda que parasitam regimes eleitorais não-liberais, como Subianto (na Indonésia) e Ramaphosa (na África do Sul). Por último, o lulopetismo é defensor de Putin (na Rússia) e de Lukashenko (na Bielorrússia) e seus demais satélites centro-asiáticos (como Cazaquistão, Uzbequistão etc.), de Khamenei pai e agora filho (no Irã) e não condena o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (IRGC) e seus braços terroristas (como Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah, Houthis etc.). 

O que há de comum a todos eles? São, todos, inimigos das democracias liberais ou plenas.

Conclusão

Dizer que Lula e o PT defendem a democracia ou é mentira pura e simples ou revela um profundo desconhecimento do que é democracia.

Bastaria perguntar por que os lulopetistas não se alinham, preferencialmente, aos regimes (democracias liberais ou plenas) vigentes nos seguintes países (não por acaso os mais desenvolvidos do mundo): Alemanha, Áustria, Bélgica, Chéquia, Dinamarca, Espanha, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Portugal, Suécia, Reino Unido, Noruega, Suíça, Islândia, Canadá, Barbados, Costa Rica, Suriname, Chile, Uruguai, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e Nova Zelândia.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Polarização e o Fim da Confiança: Um nó a ser desatado - DIOGO DUTRA Revista ID

 A Polarização e o Fim da Confiança

Um nó a ser desatado
DIOGO DUTRA
Revista ID, FEV 16, 2026

I. A polarização como sistema: da disputa ao aprisionamento
Muito já se escreveu sobre a polarização. Mas é necessário atualizar radicalmente nosso entendimento sobre esse fenômeno. A polarização política atual não é apenas uma intensificação de divergências ideológicas. Ela se transformou em um sistema de bloqueio social e político, uma estrutura complexa que aprisiona o debate público em dois polos rígidos e mutuamente reativos.

No passado, a polarização era vista como parte inerente da democracia. Um certo grau de confronto entre visões de mundo é saudável e necessário. O problema contemporâneo é que a polarização deixou de ser adversarial e passou a ser existencial: o outro não é apenas oponente, mas ameaça. E, como mostra a teoria dos sistemas complexos, quando um sistema entra em regime de lock-in por atratores binários, qualquer possibilidade de reorganização interna se torna cada vez mais difícil.

Essa configuração nos leva a um novo tipo de paralisia democrática. A existência de dois polos fixos e profundamente rejeitados impede que surjam alternativas. A política vira um jogo de eliminação, não de escolha. A sociedade passa a funcionar sob lógica de guerra preventiva.

II. O papel da rejeição: um novo eixo de análise política
Um dos fatores mais críticos, mas ainda pouco discutidos com a devida centralidade, é a lógica da rejeição como eixo estruturante da política polarizada. Em especial no contexto brasileiro, com sistema de dois turnos, os índices de rejeição passaram a ser tão ou mais relevantes que as intenções de voto.

Durante muito tempo, análises eleitorais tradicionais basearam-se unicamente em intenção declarada de voto. No entanto, o cenário atual exige outro tipo de lente. Uma candidatura viável hoje não é apenas aquela que agrega apoios, mas principalmente aquela que consegue reduzir sua taxa de rejeição a níveis sustentáveis. Essa inversão é decisiva: o que define o campo político não é mais o entusiasmo, mas o medo.

É nesse ponto que se revela a falsidade da ideia de que só existe um caminho para vencer “o outro”. A lógica “para tirar Lula, é preciso Bolsonaro” ou “para tirar Bolsonaro, é preciso Lula” é um sintoma do aprisionamento do pensamento público dentro da armadilha binária. Ela só se sustenta quando se ignora a variável da rejeição. Quando ela é incorporada, percebe-se que existem sim alternativas viáveis fora do binarismo, desde que a análise e a opinião pública estejam dispostas a reconhecê-las.

Além disso, é importante observar que os chamados “núcleos duros” de cada campo político — o lulopetismo e o bolsonarismo — provavelmente representam uma fatia minoritária da sociedade, estimada em algo entre 15% e 20% do eleitorado cada. A maior parte da população transita por identificações parciais, motivações circunstanciais e, sobretudo, por rejeição ao outro campo, e não por engajamento afirmativo. No entanto, as pesquisas e análises políticas raramente conseguem distinguir com clareza essas camadas, o que gera a falsa impressão de que “está tudo dominado” por um dos lados. Essa sensação de impotência generalizada intensifica o cinismo, o medo e o radicalismo defensivo.

Sistemas eleitorais mais sofisticados (como votações preferenciais, votação condicional ou sistemas de segundo turno instantâneo) incorporam esse fator. No Brasil, mesmo que o modelo oficial não o faça, a cidadania ativa pode e deve fazê-lo. É uma escolha política e cultural deliberada — e talvez a mais urgente que tenhamos diante de nós.

III. Confiança em ruínas: Fukuyama e a anatomia do colapso
Para entender o enraizamento da polarização, é essencial retornar ao conceito de confiança como infraestrutura invisível da democracia. Francis Fukuyama, em seu livro Trust, desenvolve uma teoria poderosa: as sociedades que conseguem gerar confiança entre cidadãos — para além da família, do clã ou do partido — são aquelas que criam instituições resilientes e economias inovadoras. Já as sociedades de baixa confiança dependem de mediações formais ou autoritárias e se tornam presas fáceis de rupturas.

Quando aplicamos essa leitura ao Brasil e a outros países em processo de polarização avançada, o quadro é claro: o tecido da confiança se dissolveu. Não se confia mais nas instituições (Congresso, STF, imprensa), não se confia mais nos dados (pesquisas eleitorais, estatísticas públicas), não se confia sequer na palavra do outro. Isso tem efeitos profundos: sem confiança mínima, todo o espaço democrático se transforma em trincheira.

Como Fukuyama propõe, a confiança não é uma crença ingênua. Ela é um bem cultural, produzido ao longo do tempo por experiências de reciprocidade e previsibilidade social. Quando essas experiências são sistematicamente rompidas por crises, fake news, oportunismo institucional ou guerras culturais, não sobra base para o funcionamento coletivo. O resultado é o isolamento, a radicalização e a tentação do autoritarismo.

IV. O desbloqueio possível: repactuar ou afundar
Diante desse cenário, não há solução mágica. Mas há um caminho: trabalhar deliberadamente pelo desbloqueio da polarização como prioridade nacional. Isso significa reconhecer que qualquer tentativa de reforma — tributária, educacional, climática, institucional — será sabotada enquanto a polarização seguir como regime dominante.

O centro político, frequentemente acusado de irrelevância ou oportunismo, precisa assumir o papel estratégico de ser o vetor de desbloqueio. Isso exige responsabilidade, mas também pragmatismo: abrir mão de projetos pessoais, rearticular convergências, aceitar imperfeições. Mais do que liderar, é necessário desarmar.

Mas não basta esperar que esse movimento venha das elites. A cidadania também precisa operar sob nova lógica. Isso implica, entre outras coisas:

abandonar a ideia de “voto moral” puramente identitário;
aceitar que a democracia exige negociação e impureza;
votar estrategicamente, levando em conta não só afinidade ideológica, mas o efeito sistêmico do voto sobre o ciclo de polarização.
Nesse processo, é importante abandonar a fantasia de que um herói solitário irá resolver o impasse. O desbloqueio da polarização não será feito por uma única figura carismática, mas por uma engenharia política ampla, composta por uma chapa equilibrada, por uma equipe de governo com capacidade de diálogo entre espectros diversos e por lideranças intermediárias capazes de construir pontes. Esse movimento de coalizão e arquitetura política é que pode oferecer as bases de um novo ciclo democrático, mais plural e menos reativo.

Talvez este primeiro ciclo de governo seja ainda limitado. Talvez seu principal papel seja criar condições mínimas para que, no próximo ciclo, possamos voltar a discutir projeto de país com alguma racionalidade. Mas esse recomeço só será possível se formos capazes de desarmar o atual regime de desconfiança e medo.

Despolarizar não é um projeto de poder. É um projeto de sobrevivência democrática. Não se trata de apagar diferenças, mas de permitir que outras possibilidades possam emergir, fora da lógica do medo e da eliminação. A polarização não é o destino. É o sintoma. E todo sintoma pode ser tratado, desde que nomeado com precisão.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O mundo "sem regras" de Celso Amorim - Thiago Padovan (Revista ID)

 

O mundo "sem regras" de Celso Amorim

Um manifesto da hipocrisia diplomática

Não vejo como aceitar", diz Celso Amorim sobre convite do "Conselho da Paz"  de Trump

Em seu recente artigo para a The Economist, intitulado “How can we live in a world without rules?”, o Assessor Especial da Presidência, Celso Amorim, pergunta retoricamente como podemos sobreviver em um cenário geopolítico onde as normas internacionais parecem ter colapsado.

O texto, escrito na esteira de uma intervenção em Caracas em janeiro de 2026, é uma peça de retórica refinada, mas intelectualmente desonesta.

Ao analisarmos o texto, o cinismo de Amorim salta aos olhos em quatro incoerências fundamentais.

1. A soberania como escudo para tiranos

Amorim inicia seu lamento comparando a “abdução forçada” do presidente venezuelano à captura de Saddam Hussein, classificando o ato como “tragicamente surreal”.

Aqui, é preciso deixar claro que a ação unilateral ordenada por Trump é, de fato, condenável. Trata-se de mais uma uma operação de “cowboy diplomacy” executada sem qualquer planejamento para o “day after”, sem consulta aos organismos multilaterais e, claramente, sem o bem-estar do povo venezuelano como prioridade criando mais um precedente perigosíssimo de que a lei do mais forte substitui a diplomacia.

No entanto, a crítica de Amorim não nasce dessa preocupação legítima com a ordem global ou com a vida dos venezuelanos. Se nascesse, ele teria condenado com a mesma veemência a invasão russa à Ucrânia.

O cinismo de Amorim reside no uso seletivo da indignação:

  • Para Amorim, a “tragédia” não é a fome, a tortura sistemática ou o êxodo de 8 milhões de venezuelanos sob o regime que ele protege; para ele, a “tragédia” é o momento em que um aliado ideológico perde o poder, mesmo que pelas mãos de outro agente irresponsável.

  • Quando tanques russos violam a fronteira de uma democracia soberana (Ucrânia), matando civis e anexando território, Amorim e o governo Lula pedem “paz”, “diálogo” e evitam condenar o agressor, relativizando a soberania ucraniana em nome de “preocupações de segurança” da Rússia.

  • Mas quando uma intervenção — ainda que ilegal e temerária — remove um ditador sul-americano, Amorim subitamente se torna um purista da Carta da ONU.

A “soberania” defendida por Amorim, portanto, não é a do Estado ou a do povo, e muito menos a soberania das regras; é o habeas corpus do governante amigo. Em seu mundo, a soberania serve para blindar o ditador de interferências externas, enquanto o povo permanece refém tanto da tirania interna quanto dos jogos de poder externos.

Devemos rejeitar tanto a irresponsabilidade de Trump quanto a cumplicidade autocrática de Amorim.

2. O mito do “Continente de Paz”

Amorim afirma, com uma audácia que beira o delírio, que algo foi estilhaçado: “a certeza de que a América do Sul é, e continuará sendo, um continente de paz”.

Que paz é essa, Embaixador?

A “paz” das prisões políticas em Caracas? A “paz” da perseguição religiosa na Nicarágua? A “paz” das ameaças de anexação de Essequibo (Guiana) feitas pelo próprio regime que o senhor protegeu diplomaticamente por décadas?

Amorim ignora a tortura interna porque, para ele, a violência só conta se vier do Ocidente.

Sua definição de ‘paz’ é a estabilidade do cárcere.

3. A hipocrisia da “Incerteza de Heisenberg”

Amorim invoca o “Princípio da Incerteza” de Heisenberg para descrever o novo cenário global, onde “qualquer coisa pode acontecer”.

O cinismo aqui reside no fato de que o governo brasileiro, sob sua tutela intelectual, trabalhou ativamente para criar essa incerteza.

  • Quem ajudou a corroer as regras internacionais ao se aliar ao Irã, patrocinador global do terrorismo?

  • Quem enfraqueceu o sistema de direitos humanos da ONU ao se abster de condenar violações na Nicarágua e na China?

  • Quem trabalha para expandir o BRICS, transformando-o em um sindicato de autocracias que buscam reescrever as regras globais para favorecer as ditaduras?

Amorim reclama de um mundo sem regras, mas a política externa que ele desenhou dedicou-se a sabotar a “Ordem Baseada em Regras” (Rules-Based Order) liderada pelas democracias liberais, em favor de uma “multipolaridade” caótica onde a Rússia e a China ditam as normas.

4. O cinismo da “solução” via BRICS

Como remédio, Amorim sugere “diversificação de parcerias”, citando explicitamente o BRICS. É o ápice da contradição. Ele sugere que, para restaurar a ordem e o respeito ao direito internacional, devemos nos abraçar mais forte com a Rússia (que rasgou a Carta da ONU), a China (que ameaça Taiwan) e o Irã (que financia o caos no Oriente Médio).

Conclusão: o medo da accountability

A pergunta do título do artigo de Amorim — “Como podemos viver em um mundo sem regras?” — deve ser traduzida para o que ele realmente sente: “’Como nossos parceiros vão sobreviver num mundo onde os EUA decidiram ignorar a lei internacional com a mesma frieza que a Rússia?”

O lamento de Amorim na The Economist é o obituário de uma doutrina de política externa que escolheu, consistentemente, o lado errado da história.

O Brasil merece uma diplomacia que defenda valores, não ditadores.

Uma publicação convidada por
Thiago Padovan
Projeto Villa Global Village

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A mitificação da democracia americana - Augusto de Franco (Revista ID)

A mitificação da democracia americana

Os Artigos Federalistas: Guia de Discussão Nos. 1 – 8 (24 de agosto – 30 de  agosto de 2025) : r/greatbooksclub

Diz-se, com certa maledicência, que se a democracia americana fosse tão sólida como se costumava apregoar, não teria colocado, duas vezes, um charlatão para presidir a República. Essa vulnerabilidade revelaria uma fraqueza e isso teria a ver com a progressiva dilapidação do capital social acumulado pela sociedade americana. Faz sentido. Trump não é a causa da atual transição autocratizante do regime político americano: é apenas uma das consequências. 

Por quê?

Isso tem a ver com a conversão tardia do regime americano à democracia: os EUA foram o quarto grande regime eleitoral que surgiu na história (em 1796, logo depois de Inglaterra e Irlanda em 1790 e da França em 1792), mas só viraram uma democracia eleitoral em 1921 (atrás de outros quatorze países, começando com a Suíça em 1849 e terminando com o Uruguai em 1920) (1).

Tem a ver também com o medo da democracia por parte dos chamados pais fundadores, sobretudo Hamilton e Madison, que preferiam uma república governável top down como a romana mais do que uma democracia auto-governável bottom up como a ateniense dos séculos 5 e 4 a.C. 

Tem a ver com as disputas políticas que envolveram os Federalistas e John Adams contra Thomas Jefferson, o único democrata radical do pedaço. 

Tem a ver com a mentalidade autoritária, isolacionista e imperialista, de importantes presidentes americanos do início do século 19, como James Monroe e o celerado Andrew Jackson. 

Tem a ver com a morte no embrião do "governo civil" percebido por Alexis de Tocqueville na Nova Inglaterra na década de 30 do século 19. 

Tem a ver com a centralização em Washington, a recorrência sistemática aos tribunais para resolver qualquer dilema banal da vida coletiva e com o complexo científico-industrial-militar que se erigiu em meados do século 20. 

Cabe notar que a democracia eleitoral americana, já em si tardia, só adquire o status de democracia liberal em 1969, 120 anos depois da Suíça ter alcançado tal condição.

Então é bom baixar a bola nessa mitificação da democracia americana como a mais antiga, a mais perfeita e a mais consolidada do mundo.


Cada um dos pontos levantados acima precisaria ser analisado em profundidade: 

  • O medo (e o desconhecimento) da democracia por parte dos pais fundadores. 

  • A luta contra as concepções e práticas democráticas radicais de Thomas Jefferson, a recusa à sua reforma distrital baseada na instação das chamadas wards ou hundreds (repúblicas nos bairros) e a não compreensão do seu conceito de “common government” (2).

  • Os primeiros presidentes isolacionistas e imperialistas dos EUA (e a tentação de se comportarem como monarcas presidencialistas). 

  • A morte no embrião do “governo civil” percebido por Tocqueville na Nova Inglaterra ou o início da dilapidação do capital social acumulado pela sociedade americana, com a centralização em Washington, a recorrência sistemática aos tribunais e a ereção do complexo científico-industrial-militar.


Notas

(1) No quadro abaixo podemos ver claramente as datas mencionadas de conversão dos regimes eleitorais à democracia.

(2) Jefferson mereceria uma consideração adicional. Os principais adversários de Thomas Jefferson foram os membros do Partido Federalista, liderados por figuras proeminentes como Alexander Hamilton e John Adams. Jefferson via esses oponentes não apenas como rivais políticos, mas como ameaças à própria natureza da república, descrevendo o conflito entre eles como uma luta fundamental entre diferentes visões do governo.

Alexander Hamilton foi o seu rival intelectual e político mais constante. Hamilton defendia um governo central forte, o que Jefferson considerava uma “depravação” e uma ameaça à independência dos cidadãos. John Adams, embora tenham retomado a amizade na velhice, foi um adversário feroz de Jefferson durante a década de 1790. Jefferson criticava a administração de Adams, especialmente por medidas como as Leis dos Estrangeiros e do Tumulto (Alien and Sedition Acts), que ele via como tentativas de reprimir a liberdade de expressão e fortalecer o poder executivo de forma autoritária.

Jefferson se opunha ao que chamava de “elite monárquica” e classificava muitos de seus oponentes como homens que admiravam excessivamente a constituição britânica e desejavam estabelecer um governo “forte” através de métodos de corrupção ou influência para ganhar o apoio popular, em vez de confiar no senso comum do povo.

Em razão de sua rejeição à autoridade das igrejas, Jefferson foi frequentemente atacado por líderes religiosos que o denunciavam como um “ateu gálico” ou um “infiel”. Enquanto os federalistas acusavam Jefferson de ser um agente da Revolução Francesa e de promover a anarquia, ele os acusava de serem “Tories” que queriam restaurar o privilégio hereditário. 

Revista Inteligência Democrática não tem publicidade nem financiamento. É uma publicação apoiada pelos leitores. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Timothy Snider analisa e desmantela o "plano de paz russo" contra a Ucrânia - Revista ID

Timothy Snider analisa e desmantela o "plano de paz russo" contra a Ucrânia - Revista ID


 1. A soberania da Ucrânia será confirmada.

Isso é grotesco. A Rússia invadiu a Ucrânia. A soberania da Ucrânia foi violada. O que será feito para reafirmar essa soberania? Sobre isso, o texto é pior do que silencioso. Os pontos subsequentes demonstram que a soberania ucraniana será, de fato, deliberadamente minada.

Na verdade, todo o documento, tanto em sua origem quanto em seus objetivos, representa a visão russa padrão de que a Ucrânia, de alguma forma, não é um Estado da mesma maneira que outros Estados.

2. Um acordo abrangente de não agressão será concluído entre a Rússia, a Ucrânia e a Europa. Todas as ambiguidades dos últimos 30 anos serão consideradas resolvidas.

Assim, em algum momento futuro, uma varinha mágica será acenada e todos os problemas serão resolvidos, porque agora está tudo estipulado dessa forma.

O mais interessante nessa estranha disposição é o inglês. Parece algo traduzido do russo. Em termos de conteúdo, a ideia de que “ambiguidades” “serão consideradas resolvidas” (isso soa como inglês para você?) não é apenas bizarra, mas totalitária. Em que mundo, exatamente, um acordo poderia resolver todas as ambiguidades?

Outro problema: as partes mencionadas já assinaram, todas elas, acordos e tratados legais que proíbem a agressão. Isso vale para todas elas coletivamente, bem como para a Rússia e a Ucrânia enquanto díade. A existência desses acordos juridicamente vinculativos não impediu a Rússia de invadir a Ucrânia em 2014 e 2022. A assinatura de mais um acordo pela Rússia para não invadir a Ucrânia em meio à sua invasão parece, no mínimo, vazia e cínica.

Ao que tudo indica, se essa disposição tem algum propósito, é de natureza propagandística. Em vez de começar (como um tratado de paz faria) com a guerra que de fato está acontecendo, ela começa com o tema preferido da Rússia, que são todas as queixas das últimas três décadas.

3. Espera-se que a Rússia não invada os países vizinhos e que a OTAN não se expanda ainda mais.

Aqui temos um exemplo gritante de russicismo: “é de se esperar” é uma forma reflexiva bastante usada em russo justamente dessa maneira. Vou evitar as implicações filosóficas dessas formulações — de que ninguém realmente assume a responsabilidade por nada — e ir direto ao propósito propagandístico deste ponto.

Espera-se que a Rússia não invada os países vizinhos. De quem? O que deve ser feito para impedir isso? O que fazer em relação à invasão russa em curso na Ucrânia? Ao apresentar a questão de forma hipotética e passiva, o autor pretende que o leitor ignore a dura realidade que deveria estar no cerne de qualquer tratado de paz: a Rússia está, de fato, invadindo um país vizinho neste exato momento.

A expectativa de que a OTAN “não se expandirá mais” introduz um argumento russo velado. A OTAN é uma organização de Estados soberanos que solicitam adesão. São eles os atores significativos, não a própria OTAN. Na visão de mundo oficial russa, existem grandes potências, como a Rússia e os Estados Unidos, e nada mais importa. A OTAN é vista como uma emanação do poder estadunidense, uma visão que faz com que os outros membros pareçam insignificantes ou inexistentes, não verdadeiramente soberanos.

E é precisamente nessa tradição que a Rússia, neste ponto, nega a soberania da Ucrânia. Um país soberano tem o direito de escolher seus aliados como bem entender. Este argumento consegue, sem mencionar a Ucrânia e sem mencionar a soberania, negar que a Ucrânia seja soberana. Isso anula qualquer significado que se possa ter tido e promove um importante interesse russo e, de fato, toda a visão de mundo do Kremlin.

4. Será realizado um diálogo entre a Rússia e a OTAN, com a mediação dos Estados Unidos, para resolver todas as questões de segurança e criar condições para a desescalada, a fim de garantir a segurança global e aumentar as oportunidades de cooperação e desenvolvimento econômico futuro.

Novamente, a ideia de que qualquer diálogo possa “resolver todas as questões de segurança” não faz sentido. Nenhum diálogo jamais conseguiu tal feito. E a Rússia teve todas as oportunidades para dialogar nos anos anteriores à invasão da Ucrânia em 2014, após essa invasão e até mesmo após a invasão de 2022. O objetivo deste argumento é insinuar que os Estados Unidos e a Rússia podem, por si só, decidir todas as questões na Europa.

5. A Ucrânia receberá garantias de segurança confiáveis.

Isso é obviamente sem sentido. Uma garantia de segurança é confiável na prática, não no papel. Nesta situação específica, isso significaria uma ação institucional e militar que desfizesse a atual ocupação russa e impedisse uma futura. Nada disso está especificado neste documento; e veremos que a tendência de tudo o que se segue é na direção oposta: facilitar a ação militar russa, tanto atual quanto futura. Observe novamente o uso da voz passiva: nada será feito, e nem sequer sabemos por quem nada será feito.

6. O tamanho das Forças Armadas da Ucrânia será limitado a 600.000 militares.

Qualquer país soberano pode determinar o tamanho de suas próprias forças armadas. Este ponto constitui uma violação óbvia e direta da soberania ucraniana e revela (mais uma vez) que o primeiro ponto está ali essencialmente para fins hipnóticos: a afirmação vazia no início de que a soberania ucraniana “será confirmada” visa impedir o leitor de perceber que todo o documento é um ditame dirigido à Ucrânia, que, obviamente, não foi consultada em sua elaboração.

E observe que não há limite para o tamanho das forças armadas russas.

7. A Ucrânia concorda em consagrar em sua constituição que não aderirá à OTAN, e a OTAN concorda em incluir em seus estatutos uma disposição segundo a qual a Ucrânia não será admitida no futuro.

Um pouco de história recente pode ser útil aqui, antes de chegarmos ao ponto óbvio de que isso também viola a soberania ucraniana. A OTAN não era popular na Ucrânia até a invasão russa em 2014. Depois disso, a OTAN, compreensivelmente, tornou-se atraente. Tornou-se ainda mais popular após a Rússia empreender a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022. Em outras palavras, a OTAN nunca foi um problema até a Rússia torná-la um.

Algo semelhante pode ser dito sobre a Suécia e a Finlândia, que aderiram à OTAN porque a Rússia invadiu a Ucrânia.

Um país soberano tem a capacidade de escolher seus aliados. Desde a invasão de 2014, a Rússia tem feito repetidas e variadas exigências sobre o que a Ucrânia deveria incluir em sua constituição, o que tem sido uma das maneiras óbvias pelas quais a Rússia tem tratado a Ucrânia como algo menos que um Estado soberano.

Essa estrutura constitucional sugere uma origem russa. É difícil imaginar que um americano cogitaria interferir na constituição ucraniana.

8. A OTAN concorda em não estacionar tropas na Ucrânia.

Novamente, o ponto crucial aqui é a formulação. Observe que, mais uma vez, as coisas são feitas à Ucrânia, acontecem à Ucrânia, como se a própria Ucrânia não fosse soberana. É a Ucrânia que tem o direito soberano de decidir se países estrangeiros podem instalar tropas em seu território.

9. Caças europeus serão estacionados na Polônia.

Observe novamente a formulação peculiar. Quem os estacionará e por que exatamente na Polônia? E o que exatamente é um caça europeu? A Polônia fica na Europa e possui caças.

Mas provavelmente o que se quer dizer aqui é outra coisa: que os Estados Unidos não vão estacionar caças americanos na Polônia. Presumo que isso não tenha sido dito explicitamente para que os aliados da Rússia dentro do governo americano não tivessem que explicar por que os Estados Unidos estão fazendo essa concessão um tanto estranha.

O país invasor não está sendo solicitado a se conter de forma significativa. Não há nenhuma menção à Rússia cessar os combates, aos ataques a civis e à destruição de sua infraestrutura, à tortura ou à retirada da Ucrânia. Ucranianos, europeus e americanos estão sendo instruídos por uma Rússia que parece ter total liberdade de ação.

A direção do poder é extraordinária por si só. O que estamos lendo é uma exigência de capitulação por parte de um país que não está se saindo bem em uma guerra que ele mesmo iniciou. Jamais conseguiria obter algo sequer parecido com os termos deste acordo no campo de batalha. Para isso, precisa dos americanos.

10. A garantia dos EUA: Os EUA receberão compensação pela garantia; se a Ucrânia invadir a Rússia, perderá a garantia; se a Rússia invadir a Ucrânia, além de uma resposta militar decisiva e coordenada, todas as sanções globais serão restabelecidas, o reconhecimento do novo território e todos os outros benefícios deste acordo serão revogados; se a Ucrânia lançar um míssil contra Moscou ou São Petersburgo sem motivo, a garantia de segurança será considerada inválida.

Isso não faz sentido, já que a garantia de segurança americana não está definida. Observe, porém, que esse ponto pressupõe que as sanções contra a Rússia tenham sido revogadas. Em outras palavras, introduz a ideia de que todas as sanções econômicas contra a Rússia já terão sido removidas.

O que talvez seja mais significativo é a ideia, nova nas relações internacionais, de que os Estados Unidos são uma espécie de entidade mafiosa, paga para fornecer uma “proteção” indefinida, em vez de um Estado, um país ou um povo com interesses, aliados e amigos. Presumo que os russos tenham entendido o quão humilhante isso parece para os americanos.

11. A Ucrânia é elegível para adesão à UE e receberá acesso preferencial de curto prazo ao mercado europeu enquanto esta questão estiver sendo analisada.

A Ucrânia é elegível para adesão à UE independentemente de tudo.

O único sentido implícito neste ponto é a sugestão implícita (”está sendo considerado”, observe novamente a estranha construção passiva) de que países fora da União Europeia deveriam ter permissão para participar de algumas das considerações. Este documento, que é puramente russo ou russo com alguma contribuição de americanos, não reflete nenhuma consulta aos Estados-membros da União Europeia ou à Comissão Europeia.

12. Um pacote global robusto de medidas para a reconstrução da Ucrânia, incluindo, entre outras: a criação de um Fundo de Desenvolvimento da Ucrânia para investir em setores de rápido crescimento, como tecnologia, centros de dados e inteligência artificial; a cooperação dos Estados Unidos com a Ucrânia para reconstruir, desenvolver, modernizar e operar conjuntamente a infraestrutura de gás do país, incluindo gasodutos e instalações de armazenamento; esforços conjuntos para a reabilitação de áreas afetadas pela guerra, visando a restauração, reconstrução e modernização de cidades e áreas residenciais; desenvolvimento de infraestrutura; e extração de minerais e recursos naturais. O Banco Mundial desenvolverá um pacote de financiamento especial para acelerar esses esforços.

Essas promessas estão sendo feitas por um país (a Rússia) que destruiu grande parte da Ucrânia e por outro (os Estados Unidos) que destruiu as instituições de seu próprio governo que seriam capazes de implementar tais políticas.

Isso sugere fortemente que se trata de atores privados, o que em si não é algo ruim. Parte da reconstrução da Ucrânia — além da cooperação com o governo central, os governos regionais e a sociedade civil — certamente envolverá o setor privado.

Mas neste documento em particular, que parece estar menos associado ao governo americano em si do que a investidores americanos específicos, há motivos para preocupação – preocupação que será ampliada abaixo, nos pontos 13 e 14.

13. A Rússia será reintegrada à economia global: O levantamento das sanções será discutido e acordado em etapas e caso a caso. Os Estados Unidos firmarão um acordo de cooperação econômica de longo prazo para o desenvolvimento mútuo nas áreas de energia, recursos naturais, infraestrutura, inteligência artificial, centros de dados, projetos de extração de metais de terras raras no Ártico e outras oportunidades corporativas mutuamente benéficas. A Rússia será convidada a retornar ao G8.

É preocupante que os americanos envolvidos na elaboração deste documento, supondo que tenha havido algum, pareçam mais versados ​​em como se pode ganhar dinheiro com a Rússia do que em quaisquer questões substantivas relevantes para a busca da paz.

Do lado russo, observe a tentativa tipicamente dramática de ignorar a questão óbvia e fundamental: as reparações de guerra. Durante uma guerra completamente ilegal, a Rússia infligiu centenas de bilhões, ou mais provavelmente trilhões, de dólares em danos, sem mencionar quaisquer penalidades a serem pagas por todas as mutilações e mortes ilegais.

14. Os fundos congelados serão utilizados da seguinte forma: US$ 100 bilhões em ativos russos congelados serão investidos em iniciativas lideradas pelos EUA para reconstruir e investir na Ucrânia; os EUA receberão 50% dos lucros dessa iniciativa. A Europa contribuirá com US$ 100 bilhões para aumentar o montante de investimentos disponíveis para a reconstrução da Ucrânia. Os fundos europeus congelados serão descongelados. O restante dos fundos russos congelados será investido em um veículo de investimento conjunto EUA-Rússia que implementará projetos em áreas específicas. Esse fundo terá como objetivo fortalecer as relações e aumentar os interesses comuns, criando um forte incentivo para evitar o retorno ao conflito.

Chegamos ao ponto do documento, nos itens 13 e 14, em que a Rússia está sendo recompensada pela invasão; a intenção é que não percebamos que literalmente nada foi mencionado que pudesse influenciar o fim da guerra ou garantir que a Rússia não invadisse novamente imediatamente.

Os ativos russos foram congelados porque a Rússia empreendeu uma guerra criminosa. Até o momento, nada neste documento impede essa guerra. Não há menção à retirada de tropas russas da Ucrânia, nem à disposição das tropas russas dentro da Rússia, nem ao armamento russo, nem a qualquer informação relevante sobre o comportamento russo. Neste ponto, o que vemos são duas coisas: os ativos russos serão descongelados e alguns deles serão entregues aos americanos. Os leitores podem não saber que esses ativos estão, em sua maioria, localizados na Europa. Portanto, isso equivale a retirar dinheiro russo congelado de bancos europeus e entregá-lo aos americanos.

A linguagem usada em relação a um veículo de investimento europeu-russo tem um quê de suborno: os russos pegam dinheiro que estava congelado por causa de crimes horríveis, e que sem a ajuda americana eles nunca mais veriam, e o repassam aos americanos — em troca de muito mais dinheiro — e de uma vitória na guerra contra a Ucrânia que eles não teriam conseguido sem a ajuda americana.

Infelizmente, esse ponto sugere fortemente uma troca de favores em que a Ucrânia é traída por alguns indivíduos americanos.

15. Será criado um grupo de trabalho conjunto americano-russo sobre questões de segurança para promover e garantir o cumprimento de todas as disposições deste acordo.

Isso não tem significado nenhum. É só um papo furado para fazer o resto parecer mais normal.

16. A Rússia consagrará em lei sua política de não agressão em relação à Europa e à Ucrânia.

Isso não tem significado. A Rússia já o fez ao assinar tratados, os quais desrespeitou completamente. O único caminho para a não agressão russa é uma Ucrânia forte.

17. Os Estados Unidos e a Rússia concordarão em estender a validade dos tratados sobre a não proliferação e o controle de armas nucleares, incluindo o Tratado START I.

Isso é confuso. O primeiro tratado sobre redução de armas nucleares foi notável. Ele expirou há dezesseis anos. Talvez os autores russos estivessem apenas zombando de seus parceiros americanos, presumindo que nenhum deles saiba nada sobre a história das relações EUA-URSS ou sobre o controle de armas.

18. A Ucrânia concorda em ser um Estado não nuclear, em conformidade com o Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares.

Algo muito importante está acontecendo nesta frase. Precisamos dar um passo atrás para entendê-la. O mais fácil seria dizer que se trata apenas de mais um erro bobo sobre tratados, já que a Ucrânia, obviamente, já é membro do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Mas o Ponto 18 não é um erro. É uma tentativa deliberada de reformular talvez a questão mais importante da guerra, pelo menos para o mundo em geral: o risco de uma guerra nuclear.

Em resposta a qualquer disposição como esta, os ucranianos lembrarão ao mundo que, na verdade, concordaram em renunciar a todas as suas armas nucleares em 1994, em troca de garantias de segurança dos Estados Unidos, do Reino Unido e da Federação Russa. Assinaram o Tratado de Não Proliferação Nuclear como uma potência não nuclear. Entregaram à Rússia bombardeiros de longo alcance que a Rússia agora usa para matar ucranianos.

O ponto 18 implica — insinua no subconsciente do leitor — a ideia de que a Ucrânia jamais fez algo assim. Isso é extremamente injusto para os ucranianos, que foram invadidos por um dos países que emitiram essas garantias de segurança.

Mas é pior do que injusto: empurra toda a questão para o reino do irreal, o que é outra especialidade russa. Se aceitarmos que vivemos num mundo em que a Ucrânia nunca assinou o tratado, então podemos esquecer o Memorando de Budapeste de 1994, em que a Ucrânia deu um passo histórico para a paz e foi terrivelmente punida por isso pelo seu vizinho russo.

E jamais levaremos em consideração uma das maneiras fundamentais pelas quais este documento é perigoso.

O leitor, ou um americano ingênuo, pode esquecer que a Ucrânia abdicou de suas armas nucleares, mas líderes do mundo todo sabem disso. Eles estão acompanhando esta guerra e tirando lições. Se a Ucrânia for vista como tendo se defendido e vencido esta guerra, então não haverá necessidade de os países não nucleares construírem armas nucleares. Mas se a Ucrânia for vista como tendo perdido a guerra, então países da Ásia e da Europa se sentirão compelidos a construir suas próprias armas nucleares.

Essa é a verdadeira questão nuclear em jogo quando consideramos o formato da paz na Ucrânia. Queremos gerar proliferação nuclear ou queremos desencorajá-la? Este ponto, habilmente, sufoca essa questão — mentalmente — antes mesmo que ela surja. Mas, se um acordo como esse for de fato concretizado, armas nucleares reais serão construídas em todo o mundo e uma guerra nuclear real se tornará mais provável.

19. A usina nuclear de Zaporizhzhia será inaugurada sob a supervisão da AIEA, e a eletricidade produzida será distribuída igualmente entre a Rússia e a Ucrânia — 50:50.

Novamente, o termo “lançada” sugere algum tipo de problema com a tradução do russo original. Uma usina nuclear não é algo que se lança. A disposição legal não significa muita coisa — a AIEA deveria supervisionar usinas nucleares em geral. A usina está sob ocupação russa. Essa ocupação, claro, é a questão central.

20. Ambos os países comprometem-se a implementar programas educativos nas escolas e na sociedade com o objetivo de promover a compreensão e a tolerância às diferentes culturas e eliminar o racismo e o preconceito: a Ucrânia adotará as normas da UE sobre tolerância religiosa e proteção das minorias linguísticas. Ambos os países concordam em abolir todas as medidas discriminatórias e garantir os direitos dos meios de comunicação e da educação ucranianos e russos. Toda a ideologia e as atividades nazistas devem ser rejeitadas e proibidas.

Novamente, é preciso dar um passo atrás para compreender toda a reformulação que está acontecendo aqui. A Rússia invadiu a Ucrânia. Durante essa invasão, roubou artefatos de museus ucranianos, queimou livros ucranianos e sequestrou crianças ucranianas. Ucranianos estão presos em prisões russas como prisioneiros políticos. Ucranianos feitos prisioneiros de guerra são forçados a lutar contra seu próprio país até serem mortos. Na Rússia, a própria palavra e o conceito de Ucrânia foram removidos dos livros escolares. A Rússia empreendeu um programa de violência abrangente para destruir a cultura ucraniana e tem sido bastante aberta sobre isso. Nada aqui aborda esses danos.

A referência à “ideologia nazista” também merece uma análise cuidadosa. A posição da Rússia é que tudo o que é ucraniano é nazista e que nada do que a Rússia faz pode ser interpretado como nazista. Isso, por si só, é indefensavelmente bizarro: a Rússia é o principal estado fascista do mundo, e a Ucrânia é uma democracia com um presidente judeu. Mas a palavra “nazista”, para as autoridades russas, é simplesmente uma arma usada para justificar a destruição da cultura ucraniana. “Todas as medidas discriminatórias” são presumivelmente uma tentativa de forçar a Ucrânia a permitir que o Estado russo transmita conteúdo da mídia russa dentro do país.

21. Territórios: A Crimeia, Luhansk e Donetsk serão reconhecidas como territórios russos de facto, inclusive pelos Estados Unidos. Kherson e Zaporizhzhia serão congeladas ao longo da linha de contato, o que implicará reconhecimento de facto nessa mesma linha. A Rússia renunciará a outros territórios acordados que controla fora das cinco regiões. As forças ucranianas se retirarão da parte do Oblast de Donetsk que atualmente controlam, e essa zona de retirada será considerada uma zona tampão neutra e desmilitarizada, reconhecida internacionalmente como território pertencente à Federação Russa. As forças russas não entrarão nessa zona desmilitarizada.

Aceitar e recompensar a agressão, que é a essência deste ponto, viola a letra do direito internacional e anula seus propósitos mais elementares.

O terceiro subponto não tem sentido, pois não foram especificados tais territórios.

Há algo maliciosamente errado na formulação dos dois primeiros subpontos. Reconhecer algo de facto não é realmente reconhecê-lo.

Por exemplo, se você roubar meu carro, de fato, você o possui. Mas seria um exagero me pedir para escrever uma carta reconhecendo que você, de fato, possui meu carro. Coisas que são de fato são coisas que não gostamos, mas que, por ora, não podemos mudar — embora possam ser ilegais. De jure, esse carro é meu. De jure, os territórios pertencem à Ucrânia. Incluir em um documento que a ocupação de fato é de alguma forma “reconhecida” provavelmente visa confundir a situação e criar a impressão de que, na verdade, a ocupação é de jure. Essas declarações sobre “reconhecido como russo de fato” são como eu dizer que meu carro é “reconhecido como sendo seu de fato”. Ao dizer isso, eu talvez não esteja renunciando ao meu direito legal — de jure — ao meu carro, mas seria estranho da minha parte. Isso parece já ocorrer no quarto subponto, que já caracteriza os territórios ucranianos como “internacionalmente reconhecidos” como russos.

Os territórios em questão também são importantes. A Ucrânia está sendo pressionada a se retirar de importantes áreas na região de Donetsk que, de fato, controla e que a Rússia não conseguiu tomar. A Rússia invadiu o Donbas há onze anos e ainda não controla toda a região. Grande parte do que não controla está fortemente fortificada. A simples entrega dessas terras à Rússia deixaria a Ucrânia muito mais vulnerável a uma futura invasão russa.

Neste ponto, assim como em todo o documento, a Rússia está sendo recompensada por invadir a Ucrânia.

22. Após concordarem com os futuros arranjos territoriais, tanto a Federação Russa quanto a Ucrânia comprometem-se a não alterar esses arranjos pela força. Quaisquer garantias de segurança não serão aplicáveis ​​em caso de violação deste compromisso.

A primeira frase parece sugerir que a Rússia pode continuar a guerra até ficar satisfeita e, em seguida, obrigar a Ucrânia a não fazer nada a respeito. Observe a palavra “futuro”. Claro, é possível que aqui tenhamos novamente um problema de tradução do russo.

23. A Rússia não impedirá a Ucrânia de usar o rio Dnieper para atividades comerciais, e serão alcançados acordos sobre o livre transporte de grãos através do Mar Negro.

Em inglês, a grafia deste rio é Dnipro. Observe a grafia russa.

A primeira frase, se lida com atenção, não promete muito. A Ucrânia pode usar suas próprias vias navegáveis ​​em seu próprio território soberano da maneira que bem entender; a formulação sugere, em vez disso, que a Rússia tem algum tipo de influência sobre essa questão, o que não é verdade. O que essa frase realmente deveria nos lembrar é o seguinte: com exceção dessa promessa muito limitada no ponto 23, a Rússia não se compromete neste texto a fazer nada de específico para cessar as hostilidades ou torná-las menos prováveis ​​no futuro.

24. Será criado um comitê humanitário para resolver as questões pendentes: Todos os prisioneiros e corpos restantes serão trocados na proporção de “todos por todos”. Todos os civis detidos e reféns serão devolvidos, incluindo crianças. Um programa de reunificação familiar será implementado. Serão tomadas medidas para aliviar o sofrimento das vítimas do conflito.

Parte disso já está acontecendo. O restante seria desejável, é claro. Mas, obviamente, essa postura neutra é extremamente enganosa. A Rússia invadiu a Ucrânia e sequestrou dezenas de milhares de crianças.

25. A Ucrânia realizará eleições em 100 dias.

Novamente, observe que a Ucrânia precisa fazer algo, e que não há qualquer indício de que a Rússia também deva fazer algo.

A Rússia não realiza eleições livres há duas décadas. A Ucrânia, por outro lado, já teve uma série delas. Portanto, essa formulação sugere que existe um problema onde não existe, e ignora a questão central e bastante evidente da ditadura russa.

A Rússia vem argumentando, por vezes de forma antissemita, que o atual presidente ucraniano não é de fato legítimo, não é real, é apenas um fantoche, etc. Ele tem sido alvo de propaganda russa há anos. Mas, ao contrário do presidente russo, ele foi eleito em eleições livres e justas. Essa questão foi escolhida para que os russos pudessem ver esse conflito terminando com a vitória do seu candidato sobre o candidato do outro lado.

E a questão é tão básica que vale a pena repetir: a Ucrânia é um país soberano, com seus próprios mecanismos para eleições. Elas não podem ser realizadas legalmente agora, durante a lei marcial. Quando a lei marcial for suspensa — quando a guerra realmente terminar — elas serão realizadas.

Este acordo não porá fim à guerra e foi concebido para obrigar a Ucrânia a realizar eleições sob pressão russa durante uma guerra com a Rússia.

26. Todas as partes envolvidas neste conflito receberão anistia total por suas ações durante a guerra e concordam em não apresentar quaisquer reivindicações ou considerar quaisquer queixas no futuro.

Todas as partes envolvidas neste conflito? Isso parece conferir imunidade legal a todos na Rússia e na Ucrânia por tudo o que fizeram ao longo dos últimos onze anos. O que, por si só, é estranho.

Inúmeras vezes, crimes de guerra russos muito específicos foram documentados: a própria guerra como uma guerra de agressão, as deportações de ucranianos, especialmente crianças, o assassinato de civis e prisioneiros de guerra, a tortura. Esses são crimes de acordo com o direito internacional. É evidente que isso não deve ser esquecido. Na prática, a lei não é determinada por russos e americanos, que não podem conceder anistia em nome de organizações internacionais ou outros países.

27. Este acordo será juridicamente vinculativo. Sua implementação será monitorada e garantida pelo Conselho da Paz, presidido pelo Presidente Donald J. Trump. Sanções serão impostas em caso de violação.

Ainda não existe um Conselho de Paz, e não está claro como ele poderia monitorar e garantir essa massa de impossibilidades, contradições e ilegalidades.

Nenhuma pessoa sozinha pode ser nomeada chefe de uma instituição que se destina a ser permanente.

Vemos aqui, no entanto, uma sugestão do problema processual básico que mencionei no início: parece haver alguns americanos que pensam que fazer um “acordo” rápido e dar crédito ao presidente é uma maneira de atingir seus objetivos pessoais, e cuja ânsia em tudo isso os permitiu delegar o texto propriamente dito aos russos.

28. Assim que todas as partes concordarem com este memorando, o cessar-fogo entrará em vigor imediatamente após ambas as partes se retirarem para os pontos acordados para iniciar a implementação do acordo.

Que cessar-fogo? Literalmente nada foi dito sobre isso.

Não há clareza sobre como esse texto entraria em vigor, ou mesmo que tipo de status ele teria (o ponto anterior não fornece essa informação).

Grande parte do que teria de acontecer após um cessar-fogo exigiria a participação da Ucrânia e da Europa. Mas nenhum ucraniano ou outro europeu esteve envolvido na elaboração deste texto. Ucranianos e europeus teriam de ser partes em qualquer acordo concreto.

Chegamos ao fim, e as questões executivas fundamentais não foram abordadas. Quem são os partidos? Não sabemos.

Essas disposições violam dezenas de leis e tratados já em vigor. Como isso será resolvido?

Enquanto escrevo, europeus, ucranianos e americanos estão reunidos em Genebra. É importante compreender que este texto não pode ser visto como um quadro para um acordo de paz, mesmo que, para fins diplomáticos, possa ser apresentado dessa forma.

Mas talvez sirva de estímulo para algo muito melhor. E como um lembrete de como as políticas públicas não devem ser feitas.

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