segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O dominio imperial do dólar e sua gradual substituição- Threads, PRA

 Copiado de cecinestpasuntour no Threads:


“Não tenho estado em Portugal e tenho seguido as notícias dos canais nacionais através da aplicação da MEO. Ainda não ouvi nenhum comentador - atenção, pode ter acontecido, mas eu não apanhei - a explicar o PORQUÊ.

Muitos falam do petróleo, e dos EUA quererem o petróleo da Venezuela. Mas porquê, de os EUA têm petróleo ao pontapé? Se são os maiores produtores? Assim, decidi fazer aqui uma linha de tempo para se compreender melhor. Tenham paciência - vai ser longo.

Vamos recuar no tempo. 🧶

Em Julho de 1944 firnou-se o Acordo de Bretton Woods, que, entre outros detalhes, firmava que o dólar Valéria uma quantidade fixa de ouro. Alavancava-se, assim o dólar do ouro, tornando-o a moeda-forte. Menos de um ano depois, a bordo do USS Quincy Roosevelt e o Rei Ibn Said, fundador da então jovem Arábia Saudita, fazem também um acordo o Acordo de Quincy, a 14 de Fevereiro de 1945. Este acordo bilateral era simples: os EUA garantiriam a segurança da Arábia Saudita e em troca teriam acesso 🧶

Ao petróleo saudita em exclusivo. Ora com o ouro a ser o lastro do dólar e a vender petróleo saudita, o dólar americano era e foi extremamente sólido durante as duas décadas seguintes.

Mas os EUA metem a pata na poça. Com a Guerra do Vietnam, esse desastre que dá filmes bem jeitosos, imprimiram tanto dólar que não havia ouro que lastrasse a moeda. É então que Nixon lança uma bomba tão ruidosa como as da guerra: a 15 de Agosto de 1971, anuncia que os EUA não trocariam mais dólar por ouro. 🧶

O dólar passava a ser aquilo que se chama uma moeda fiduciária, sem qualquer lastro ou garantia além da confiança internacional nela. O rei Faisal da Arábia Saudita ficou de pé atrás e não gostou da história, e começou a pedir para se rever o acordo. É então que outro evento apressa a acção saudita. 

Em Outubro de 1973 dá-se a Guerra do Yom Kippur; Egipto, Israel e Síria ffdam ao tabefe e, apesar do rei saudita informar os EUA que não permitiria qualquer acção de defesa a Israel, os EUA fazem🧶

 Ouvidos de mercador. Criam uma ponte aérea de escala estratosférica e vão em socorro de Israel. O rei Faisal considera isto uma quebra do acordo de Quincy, de 1945, e fecha as torneiras, que é como quem diz, decreta um embargo de petróleo aos EUA e seus aliados. Tendo uma posição de grande força da OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo), consegue um embargo brutal, que lança o caos.

Era necessário acabar com o embargo. Os EUA tinham interesse nisso, e a Arábia Saudita queria 🧶


Uma solução a médio e longo prazo - e o embargo só resultaria a curto prazo. E quem é que vai negociar isto com o rei saudita? Um cavalheiro algo famoso, chamado Kissinger. Depois de muita valsa e muito tango, os dois criam um sistema de circuito fechado: em primeiro lugar, o petróleo saudita seria vendido exclusivamente em dólares, e a Arábia Saudita levaria os outros membros da OPEP a fazer o mesmo. Em segundo lugar, os dólares que os sauditas recebessem seriam reinvestidos nos EUA em compra🧶

De dívida, títulos do Tesouro e investimento em universidades e nos projetos das mesmas - onde se encontram projetos de todo os género, desde médico-clínicos, farmacêuticaos, diagnóstico, tecnologia, armamento, e muitos etecetras.

O dólar deixava de ser uma moeda fiduciária e passava a ter o petróleo como base. É o nascimento do petrodólar, com todo o sistema económico baseado na necessidade energética e controlado pelos EUA.

Ora isto leva a um problema: quem queira mijar fora do penico. 🧶

Todo e qualquer país que tentasse vender os seus bens energéticos - seja petróleo ou gás natural - fora deste circuito seria imediatamente marcado como um alvo a abater, pois era uma ameaça a este sistema.

Ora vejamos. No início dos anos 2000, Hussein já tinha o Iraque com sanções até ojólhos - porque também era a peça que se sabia -, mas pisa o risco: decide entrar no programa Petróleo por Alimentos, programa esse que era da ONU, em que o petróleo seria trocado em euros. Em 2003 são 🧶

Invadidos (armas de destruição maciça, hehehe), e a primeira coisa que os EUA fazem é reverter esse processo e colocar o petróleo a ser comercializado em dólar novamente, e pelo caminho desaparecem as reservas de ouro. Vamos saltar até 2011, até à Líbia. Khadaffi queria criar uma moeda, o dinar de ouro africano, e comercializar o petróleo nessa moeda. Acabou como acabou, o projeto foi pelo cano, e curiosamente começamos a ter um padrão: o petróleo volta a ser comercializado em dólares e as 🧶

Reservas de ouro também se eclipsaram.

Chegamos a 2026 e à Venezuela, um país pequeno, com pouco menos de 30 milhões de habitantes mas com as maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo. Não só já tinham sanções até aos cabelos como comercializavam o petróleo em rublos e Yuan's. E, horror dos horrores, criaram a PETRO em 2018, uma criptomoeda baseada nas suas próprias reservas.

É aqui que entram duas coisas essenciais: o BRICS E a transição energética. O BRICS inclui países que são 🧶

Demasiado grandes para invadir - além de ser má ideia, como a Rússia e a China. A única forma de combater esses países é com sanções. Mas o BRICS criou o seu próprio banco, tem acordos diretos e usa as suas moedas, ignorando por completo o sistema que comandou o mundo durante décadas. 

Já a transição energética - e por isso tantas ganas com as chamadas "terras raras" - é a chave mestra de tudo isto. É o fim da dependência mundial do petróleo, e se isso acontecer, a âncora do sistema 🧶. 

Vigente desaparece, levando ao próprio sistema a colapsar.

Por isso tanto silêncio. Porque só há dois caminhos com o mesmo desfecho, e muitos países estão expectantes a tentar perceber qual vai ser o caminho. Está inércia, apesar de condenável, não é só inércia. É estratégia e cautela.

Todos os impérios caem. Todas as superpotências caem, e são substituídas por outras - Portugal que o diga.

Desculpem por ser tão longo mas espero que ajude a perceber melhor o enquadramento, e pelos erros.”

Comentário por PRA:

“Excelente resumo: o que vem depois? Países começam a comercializar petróleo em outras moedas. Já não se precisa manter tantos dólares em reservas nacionais. Elas começam a acumular outras divisas. O dólar passa a ser, não eliminado, mas substituído gradualmente. É o fim de um grande império.”

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