Mostrando postagens com marcador PRA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PRA. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O dominio imperial do dólar e sua gradual substituição- Threads, PRA

 Copiado de cecinestpasuntour no Threads:


“Não tenho estado em Portugal e tenho seguido as notícias dos canais nacionais através da aplicação da MEO. Ainda não ouvi nenhum comentador - atenção, pode ter acontecido, mas eu não apanhei - a explicar o PORQUÊ.

Muitos falam do petróleo, e dos EUA quererem o petróleo da Venezuela. Mas porquê, de os EUA têm petróleo ao pontapé? Se são os maiores produtores? Assim, decidi fazer aqui uma linha de tempo para se compreender melhor. Tenham paciência - vai ser longo.

Vamos recuar no tempo. 🧶

Em Julho de 1944 firnou-se o Acordo de Bretton Woods, que, entre outros detalhes, firmava que o dólar Valéria uma quantidade fixa de ouro. Alavancava-se, assim o dólar do ouro, tornando-o a moeda-forte. Menos de um ano depois, a bordo do USS Quincy Roosevelt e o Rei Ibn Said, fundador da então jovem Arábia Saudita, fazem também um acordo o Acordo de Quincy, a 14 de Fevereiro de 1945. Este acordo bilateral era simples: os EUA garantiriam a segurança da Arábia Saudita e em troca teriam acesso 🧶

Ao petróleo saudita em exclusivo. Ora com o ouro a ser o lastro do dólar e a vender petróleo saudita, o dólar americano era e foi extremamente sólido durante as duas décadas seguintes.

Mas os EUA metem a pata na poça. Com a Guerra do Vietnam, esse desastre que dá filmes bem jeitosos, imprimiram tanto dólar que não havia ouro que lastrasse a moeda. É então que Nixon lança uma bomba tão ruidosa como as da guerra: a 15 de Agosto de 1971, anuncia que os EUA não trocariam mais dólar por ouro. 🧶

O dólar passava a ser aquilo que se chama uma moeda fiduciária, sem qualquer lastro ou garantia além da confiança internacional nela. O rei Faisal da Arábia Saudita ficou de pé atrás e não gostou da história, e começou a pedir para se rever o acordo. É então que outro evento apressa a acção saudita. 

Em Outubro de 1973 dá-se a Guerra do Yom Kippur; Egipto, Israel e Síria ffdam ao tabefe e, apesar do rei saudita informar os EUA que não permitiria qualquer acção de defesa a Israel, os EUA fazem🧶

 Ouvidos de mercador. Criam uma ponte aérea de escala estratosférica e vão em socorro de Israel. O rei Faisal considera isto uma quebra do acordo de Quincy, de 1945, e fecha as torneiras, que é como quem diz, decreta um embargo de petróleo aos EUA e seus aliados. Tendo uma posição de grande força da OPEP (Organização de Países Exportadores de Petróleo), consegue um embargo brutal, que lança o caos.

Era necessário acabar com o embargo. Os EUA tinham interesse nisso, e a Arábia Saudita queria 🧶


Uma solução a médio e longo prazo - e o embargo só resultaria a curto prazo. E quem é que vai negociar isto com o rei saudita? Um cavalheiro algo famoso, chamado Kissinger. Depois de muita valsa e muito tango, os dois criam um sistema de circuito fechado: em primeiro lugar, o petróleo saudita seria vendido exclusivamente em dólares, e a Arábia Saudita levaria os outros membros da OPEP a fazer o mesmo. Em segundo lugar, os dólares que os sauditas recebessem seriam reinvestidos nos EUA em compra🧶

De dívida, títulos do Tesouro e investimento em universidades e nos projetos das mesmas - onde se encontram projetos de todo os género, desde médico-clínicos, farmacêuticaos, diagnóstico, tecnologia, armamento, e muitos etecetras.

O dólar deixava de ser uma moeda fiduciária e passava a ter o petróleo como base. É o nascimento do petrodólar, com todo o sistema económico baseado na necessidade energética e controlado pelos EUA.

Ora isto leva a um problema: quem queira mijar fora do penico. 🧶

Todo e qualquer país que tentasse vender os seus bens energéticos - seja petróleo ou gás natural - fora deste circuito seria imediatamente marcado como um alvo a abater, pois era uma ameaça a este sistema.

Ora vejamos. No início dos anos 2000, Hussein já tinha o Iraque com sanções até ojólhos - porque também era a peça que se sabia -, mas pisa o risco: decide entrar no programa Petróleo por Alimentos, programa esse que era da ONU, em que o petróleo seria trocado em euros. Em 2003 são 🧶

Invadidos (armas de destruição maciça, hehehe), e a primeira coisa que os EUA fazem é reverter esse processo e colocar o petróleo a ser comercializado em dólar novamente, e pelo caminho desaparecem as reservas de ouro. Vamos saltar até 2011, até à Líbia. Khadaffi queria criar uma moeda, o dinar de ouro africano, e comercializar o petróleo nessa moeda. Acabou como acabou, o projeto foi pelo cano, e curiosamente começamos a ter um padrão: o petróleo volta a ser comercializado em dólares e as 🧶

Reservas de ouro também se eclipsaram.

Chegamos a 2026 e à Venezuela, um país pequeno, com pouco menos de 30 milhões de habitantes mas com as maiores reservas de petróleo conhecidas do mundo. Não só já tinham sanções até aos cabelos como comercializavam o petróleo em rublos e Yuan's. E, horror dos horrores, criaram a PETRO em 2018, uma criptomoeda baseada nas suas próprias reservas.

É aqui que entram duas coisas essenciais: o BRICS E a transição energética. O BRICS inclui países que são 🧶

Demasiado grandes para invadir - além de ser má ideia, como a Rússia e a China. A única forma de combater esses países é com sanções. Mas o BRICS criou o seu próprio banco, tem acordos diretos e usa as suas moedas, ignorando por completo o sistema que comandou o mundo durante décadas. 

Já a transição energética - e por isso tantas ganas com as chamadas "terras raras" - é a chave mestra de tudo isto. É o fim da dependência mundial do petróleo, e se isso acontecer, a âncora do sistema 🧶. 

Vigente desaparece, levando ao próprio sistema a colapsar.

Por isso tanto silêncio. Porque só há dois caminhos com o mesmo desfecho, e muitos países estão expectantes a tentar perceber qual vai ser o caminho. Está inércia, apesar de condenável, não é só inércia. É estratégia e cautela.

Todos os impérios caem. Todas as superpotências caem, e são substituídas por outras - Portugal que o diga.

Desculpem por ser tão longo mas espero que ajude a perceber melhor o enquadramento, e pelos erros.”

Comentário por PRA:

“Excelente resumo: o que vem depois? Países começam a comercializar petróleo em outras moedas. Já não se precisa manter tantos dólares em reservas nacionais. Elas começam a acumular outras divisas. O dólar passa a ser, não eliminado, mas substituído gradualmente. É o fim de um grande império.”

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A Short History on a K-like style - PRA, seguido da intrusão da Inteligência Artificial

 Eu nem posso mais me divertir reservadamente, no meu estilo habitualmente discreto, que logo vem um expert em IA para destrinchar meus textos crípticos, como se fosse um bisturi eletrônico abrindo alguma cobaia de laboratório. Eis o resultado mais recente dessas exegeses aparentemente sérias. PRA


Entra ADL:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/a-short-history-on-k-like-style-by-pra.html

" Z é um menino malvado. Está impedindo o titio T de ganhar um merecido prêmio por uma paz mais hobbesiana do que tolstoiana. Tudo isso porque P tropeçou em excesso de maquiavelismo de baixa extração e também porque esqueceu de ler direito seu Sun Tzu, o Clausewitz e o Aron. Ele pensou que seria um novo Napoleão e descobriu que seu Waterloo está mais próximo do que você pensa. Sua Santa Helena pode ser na Sibéria ou, pior, num país que já foi conquistado por um dos seus modelos de triste figura, um tal de H, que admirava seu colega S por ser mais duro de roer do que ele. E tudo isso a despeito da grande ajuda de seu amigo e devoto servidor T, que acaba de publicar um manual muito comentado: An Idiot's Guide about Practical Lessons on How to Destroy an Empire in Less Than Twelve Months (written with a little help from M and X). Os entendidos entenderão… (mas faltou um L) ".

ANALISE O TEXTO ACIMA, CONSIDERANDO O CENÁRIO GEOPOLÍTICO RECENTE.
O texto apresentado é uma análise geopolítica alegórica e codificada, que utiliza iniciais e referências históricas e filosóficas para comentar a atualidade, com foco na guerra entre Rússia e Ucrânia. A "análise" a seguir decodifica os personagens e conceitos à luz do cenário recente.

Decodificação dos Personagens e Conceitos

P: Refere-se a Vladimir Putin, presidente da Rússia. É descrito como alguém com excesso de "maquiavelismo de baixa extração" e ambições napoleônicas.
Z: Refere-se a Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia, ou, de forma mais ampla, à resistência ucraniana. É caracterizado (ironicamente, na perspectiva do autor da citação original, que parece ser crítica a T e P) como o "menino malvado" que impede a paz.
H: Refere-se a Adolf Hitler, líder da Alemanha Nazista, um "modelo de triste figura" para P.
S: Refere-se a Josef Stalin, líder da União Soviética, admirado por H por ser mais "duro de roer".
T: É uma figura próxima a P, um "amigo e devoto servidor", que busca um "merecido prêmio por uma paz mais hobbesiana". A paz hobbesiana (de Thomas Hobbes) implica ordem e segurança através de um poder soberano absoluto e incontestável (neste caso, a subjugação da Ucrânia pela Rússia). A identidade exata de T é menos óbvia, mas pode representar um falcão russo proeminente ou talvez um aliado externo (como Donald Trump, que frequentemente fala em "paz" na Ucrânia e tem ligações com Putin) cuja visão de paz é alinhada com a força russa.
M e X: Possivelmente referem-se a figuras de influência ou conselheiros, talvez Maquiavel e Xi Jinping, ou talvez apenas figuras retóricas na composição do título do livro. [ERROU no M]
L: A letra que falta no final ("mas faltou um L") pode ser interpretada de várias maneiras: Lenin, Liderança, Lógica ou Luck (sorte).
[ERROU no L]

Análise do Cenário Geopolítico Recente

O texto sugere que:
A Invasão foi um Erro de Cálculo: P (Putin) tropeçou em sua própria estratégia falha ("maquiavelismo de baixa extração") e não aplicou corretamente os princípios de mestres da estratégia militar como Sun Tzu, Clausewitz e Raymond Aron. A referência a Napoleão e Waterloo indica que P superestimou suas capacidades e que uma grande derrota é iminente.
O Objetivo da Guerra: O "prêmio" que T e P buscam é uma "paz mais hobbesiana do que tolstoiana". Isso contrasta a paz pela força e submissão (hobbesiana) com a paz pela não-violência ou reconciliação (tolstoiana, de Leo Tolstoy, autor de "Guerra e Paz"). Z (Zelenskyy/Ucrânia) resiste a essa imposição.
Destino de P: A "Santa Helena" (local de exílio de Napoleão) de P pode ser na Sibéria, ou pior, em um país que H (Hitler) já conquistou (sugerindo a própria Ucrânia, numa ironia de destino, embora historicamente H não "conquistou" a Ucrânia inteira de forma permanente, mas invadiu grande parte dela durante a Segunda Guerra Mundial).
A "Ajuda" de T: O "manual" satírico publicado por T, An Idiot's Guide about Practical Lessons on How to Destroy an Empire in Less Than Twelve Months, sugere que as ações conjuntas de P e T, longe de fortalecerem o império russo, estão na verdade a destruí-lo rapidamente.
A Peça que Falta: A falta do "L" indica uma falha crítica na operação ou na liderança de P e T, que pode ser a ausência de uma liderança eficaz, lógica ou mesmo sorte.
Em resumo, o texto é uma crítica mordaz e intelectualizada à estratégia e liderança russas na guerra da Ucrânia, prevendo um desfecho desastroso para Putin e seus aliados.

* Fonte (Gemini, a IA do Google):
https://www.google.com/search?q=%22+Z+%C3%A9+um+menino+malvado.+Est%C3%A1+impedindo+o+titio+T+de+ganhar+um+merecido+pr%C3%AAmio+por+uma+paz+mais+hobbesiana+do+que+tolstoiana.+Tudo+isso+porque+P+trope%C3%A7ou+em+excesso+de+maquiavelismo+de+baixa+extra%C3%A7%C3%A3o+e+tamb%C3%A9m+porque+esqueceu+de+ler+direito+seu+Sun+Tzu%2C+o+Clausewitz+e+o+Aron.+Ele+pensou+que+seria+um+novo+Napole%C3%A3o+e+descobriu+que+seu+Waterloo+est%C3%A1+mais+pr%C3%B3ximo+do+que+voc%C3%AA+pensa.+Sua+Santa+Helena+pode+ser+na+Sib%C3%A9ria+ou%2C+pior%2C+num+pa%C3%ADs+que+j%C3%A1+foi+conquistado+por+um+dos+seus+modelos+de+triste+figura%2C+um+tal+de+H%2C+que+admirava+seu+colega+S+por+ser+mais+duro+de+roer+do+que+ele.+E+tudo+isso+a+despeito+da+grande+ajuda+de+seu+amigo+e+devoto+servidor+T%2C+que+acaba+de+publicar+um+manual+muito+comentado%3A+An+Idiot%27s+Guide+about+Practical+Lessons+on+How+to+Destroy+an+Empire+in+Less+Than+Twelve+Months+%28written+with+a+little+help+from+M+and+X%29.+Os+entendidos+entender%C3%A3o%E2%80%A6+%28mas+faltou+um+L%29+%22.+ANALISE+O+TEXTO+ACIMA%2C+CONSIDERANDO+O+CEN%C3%81RIO+GEOPOL%C3%8DTICO+RECENTE.&rlz=1C2GCEA_enBR1094BR1098&sca_esv=834acf79ff0bb001&sxsrf=AE3TifNBn9ms6R8kKvJ5NAj92owICCrhNg%3A1765247990785&source=hp&ei=9os3ae_SLcPL1sQPpr_YgAw&iflsig=AOw8s4IAAAAAaTeaBsWopSb2btgjVqsjQFJr83X4BGl7&aep=22&udm=50&ved=0ahUKEwjvpbebva-RAxXDpZUCHaYfFsAQteYPCBI&oq=&gs_lp=Egdnd3Mtd2l6IgBIAFAAWABwAHgAkAEAmAEAoAEAqgEAuAEByAEAmAIAoAIAmAMAkgcAoAcAsgcAuAcAwgcAyAcAgAgA&sclient=gws-wiz&mstk=AUtExfA5yttBFuN12VsRqJVGxf3IXqLvq6YaPhkVRFi5vBboQ1H8AdEqBnxPfP3bRiZLf2itY0oiA8JCLobM4vvrGDvPW9DUN2BqS7hSxkUfqHmJ5zzPV87VN6l0xGgSdODm04kWK4hTdILFWEIJl6AfEUNE2vw2KG_k6FD8FxaopkvfOOme6VKZAEa-UufJYCswDUhef3P1Aj9aTNcpPvULmKCwwPRKnwhJXCPgjXbJQZi1iS9EN8Fnnf5IBCq9hdzdyGkMrKplHpK7liFnddZTwHf-cH77TnEh8_I&csuir=1&mtid=Qow3acijGozb1sQPxuPX-QY

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Economias abertas e fechadas: Prof. Celso Grisi, PRA e Airton Dirceu Lemmertz

 Do Professor Celso Hildebrando Grisi (FEA-USP):

Brasil uma economia ainda muito fechada

A propósito do retorno às mídias deste tema, vale lembrar que se considera fechada a economia que não realiza exportações nem importações de bens e serviços, não recebe nem envia capitais (investimentos estrangeiros ou empréstimos), e não participa de acordos internacionais de comércio ou finanças. Funciona praticamente isolada do resto do mundo. Claro que o país não é uma economia fechada, mas comparada ao resto do mundo, ela tem barreiras tarifárias e não tarifárias muito elevadas, ademais de outros elementos, e isso a faz uma economia pouco aberta ao comércio exterior. 

As causas desse problema podem ser atribuídas principalmente a:

1. Autossuficiência produtiva:

Procura produzir internamente tudo o que consome, reduzindo a dependência de insumos ou produtos externos.

2. Ausência de comércio exterior:

Há um grau reduzido exportações e importações, quando se calcula o valor dessas operações com o valor do PIB nacional.

3. Controles cambiais e restrições financeiras:

O governo intervém com muita frequência na entrada e saída de moeda estrangeira, nos investimentos e nos capitais.

4. Política econômica voltada para o mercado interno:

A produção, o consumo e o investimento são planejados, salvo em determinados produtos, e realizados de acordo com a demanda interna, não com as oportunidades externas.

5. Menor integração global:

A economia participa ainda modestamente das cadeias globais de valor, o que a torna relativamente protegida das flutuações internacionais, como crises ou choques de preço de commodities.

Conclusões

- Economias abertas geralmente crescem mais rápido porque se beneficiam do comércio internacional, dos investimentos externos, das transferência de tecnologia e da competição.

- Economias fechadas tendem a ficar atrasadas, pois não conseguem aproveitar as vantagens comparativas nem acessar os ganhos de produtividade globais.

- Em termos de política pública, o desafio é não ser nem totalmente fechada, nem totalmente aberta, mas encontrar um grau ótimo de abertura que proteja setores estratégicos e, ao mesmo tempo, garanta competitividade ao país.

- A economia mais aberta mostra que, além do PIB e da produtividade maiores, a renda per capita tende a ser mais elevada, assim como gera maior participação das exportações no PIB, o que conduz à integração internacional e à maior eficiência.”

(Via Linkedin)

Comentário Paulo Roberto de Almeida:

China, Japão, Estados Unidos possuem coeficientes de abertura externa relativamente modestos, mas cabe reconhecer que só o Japão é relativamente protecionista, pois que China e EUA são grandes comerciantes globais, mas também possuem enormes mercados internos, o que diminui o peso do turnover comercial no PIB. Já o caso do Brasil é uma triste história de “nazismo econômico”, iniciado nos anos 1930, do qual nunca conseguimos nos desembaraçar. Os militares, que foram relevantes planejadores estatais desde antes da era Vargas, mas acentuadamente desde então, aderiram ao nacionalismo econômico dos anos 1930 e dele nunca se separaram; ao contrário, exacerbaram a deformação dirante a ditadura. Mas a “doença” vem de longe: em 1931, Roberto Simonsen, fundador do CIESP em 1928, fez traduzir o livro publicado nesse mesmo ano em Paris pelo romeno Mihail Manoilescu, Theorie du Protectionnisme et de l’Échsnge Inégal (uma versão modernizada das teses de Friedrich List de 1850 que sustentaram a industrialização alemã, e publicou-o em 1931: o livro se tornou a Biblia dos industriais brasileiros e dos economistas; no famoso debate Simonsen-Gudin em 1944-45 o economista clássico foi o vencedor teórico, mas o vencedor na prática foi Simonsen.

Paulo Roberto de Almeida 

==============

Airton Dirceu no teste de validade da IA:


"Economias abertas geralmente crescem mais rápido porque se beneficiam do comércio internacional, dos investimentos externos, das transferência de tecnologia e da competição. Economias fechadas tendem a ficar atrasadas, pois não conseguem aproveitar as vantagens comparativas nem acessar os ganhos de produtividade globais. Em termos de política pública, o desafio é não ser nem totalmente fechada, nem totalmente aberta, mas encontrar um grau ótimo de abertura que proteja setores estratégicos e, ao mesmo tempo, garanta competitividade ao país. A economia mais aberta mostra que, além do PIB e da produtividade maiores, a renda per capita tende a ser mais elevada, assim como gera maior participação das exportações no PIB, o que conduz à integração internacional e à maior eficiência.". Analise de modo detalhado e crítico o conjunto de informações do texto anterior, entre aspas.


A análise do texto fornecido revela uma perspectiva majoritariamente a favor da abertura econômica, alinhada com a teoria econômica dominante, mas a visão crítica exige a consideração de ressalvas e desafios.
* Análise Detalhada e Crítica
O texto apresenta uma visão geral e bastante positiva das economias abertas, destacando benefícios como maior crescimento, produtividade e renda per capita. Essas afirmações são amplamente apoiadas pela teoria econômica, que associa a abertura a ganhos de eficiência por meio do comércio internacional, do investimento externo e da competição. 
I) Pontos de Concordância:
Vantagens da Abertura: O texto acerta ao descrever os mecanismos pelos quais economias abertas prosperam. O aumento das exportações, por exemplo, eleva o Produto Interno Bruto (PIB) e melhora a eficiência produtiva. A abertura também pode atrair investimento estrangeiro direto.
Desvantagens do Fechamento: A premissa de que economias fechadas tendem a ficar para trás é validada por exemplos como o Brasil, que, por ser considerado relativamente fechado, é visto por alguns como prejudicado em seu crescimento. 
II) Críticas e Nuances:
O texto, no entanto, apresenta a abertura como um caminho quase sempre linearmente vantajoso, o que pode ser criticado por ignorar os seus riscos e a complexidade de sua implementação.
Impactos Negativos: A abertura econômica não é isenta de riscos. No caso do Brasil, a abertura da economia na década de 1990 gerou a dependência de importações e a redução da industrialização em alguns setores. Além disso, uma economia mais fechada pode ser menos vulnerável a choques externos, como flutuações de preços e crises financeiras globais.
O Desafio do "Grau Ótimo": A afirmação de que o desafio é encontrar um "grau ótimo de abertura" é um ponto crucial e complexo. O texto não especifica o que isso significa na prática, e a busca por esse equilíbrio pode ser uma questão de debate político e econômico. A proteção de setores estratégicos, mencionada no texto, é um argumento de política industrial que muitas vezes entra em conflito com a lógica de abertura total.
Abertura não é Garantia de Desenvolvimento: O texto sugere que a abertura leva automaticamente a ganhos. No entanto, o sucesso depende de outros fatores, como o nível de preparação tecnológica, a qualidade das instituições e a infraestrutura do país. Um estudo questiona "por que só abrir a economia não gera desenvolvimento econômico", indicando que a abertura é uma condição necessária, mas não suficiente, para o desenvolvimento.

Fonte (IA do Google):
https://www.google.com/search?q=%22Economias+abertas+geralmente+crescem+mais+r%C3%A1pido+porque+se+beneficiam+do+com%C3%A9rcio+internacional%2C+dos+investimentos+externos%2C+das+transfer%C3%AAncia+de+tecnologia+e+da+competi%C3%A7%C3%A3o.+Economias+fechadas+tendem+a+ficar+atrasadas%2C+pois+n%C3%A3o+conseguem+aproveitar+as+vantagens+comparativas+nem+acessar+os+ganhos+de+produtividade+globais.+Em+termos+de+pol%C3%ADtica+p%C3%BAblica%2C+o+desafio+%C3%A9+n%C3%A3o+ser+nem+totalmente+fechada%2C+nem+totalmente+aberta%2C+mas+encontrar+um+grau+%C3%B3timo+de+abertura+que+proteja+setores+estrat%C3%A9gicos+e%2C+ao+mesmo+tempo%2C+garanta+competitividade+ao+pa%C3%ADs.+A+economia+mais+aberta+mostra+que%2C+al%C3%A9m+do+PIB+e+da+produtividade+maiores%2C+a+renda+per+capita+tende+a+ser+mais+elevada%2C+assim+como+gera+maior+participa%C3%A7%C3%A3o+das+exporta%C3%A7%C3%B5es+no+PIB%2C+o+que+conduz+%C3%A0+integra%C3%A7%C3%A3o+internacional+e+%C3%A0+maior+efici%C3%AAncia.%22.+Analise+de+modo+detalhado+e+cr%C3%ADtico+o+conjunto+de+informa%C3%A7%C3%B5es+do+texto+anterior%2C+entre+aspas.&rlz=1C2GCEA_enBR1094BR1098&sca_esv=0f91083b974e5b77&sxsrf=AE3TifMuthn8_GyM-cjIUoOPBu5sIQYVCw%3A1762998153383&source=hp&ei=iTcVaaWuFY-T5OUP3f22gQM&iflsig=AOw8s4IAAAAAaRVFmdR6Hm0WAGa89U1tAZUkXjYQPWFb&aep=22&udm=50&ved=0ahUKEwjllq71_-2QAxWPCbkGHd2-LTAQteYPCBE&oq=&gs_lp=Egdnd3Mtd2l6IgBIAFAAWABwAHgAkAEAmAEAoAEAqgEAuAEByAEAmAIAoAIAmAMAkgcAoAcAsgcAuAcAwgcAyAcA&sclient=gws-wiz&mstk=AUtExfCqWwsFwih_XQPywnrs5lR2Y9Nm5OWGO1FV6R5nw4-Bi9h89NH7QBTvq1N7Mk9uPRtmTtHBCVgX0MYAFMgqFydjBDVzDFUF3qhwVNkE6Mf2JBUKPDREl9qY-c8Mur9rXLTe_k3rlZvu7KElxecZtx0CusKaS-r1lQIOTStaaX0Gxn2fOoQwQswsjBUP3SJHKhioaZXfaI248JyWDpzpR7DmPpYrdObgXMcnWhJPyYrygn43tU6gdMGfJ66vCOySjKhJiMlANm-Fr7AnCeP5xSGsAJunHrBSOSg&csuir=1&mtid=ADgVad-4DLHF5OUP7rOB4Ak 



segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Acordo Mercosul-UE: dois blocos protecionistas concluem um acordo protecionista - PRA e Jamil Chade

 O último parágrafo confirma o meu titulo:

Acordo Mercosul-UE prevê suspensão por violar pacto do clima e punição por ataques à democracia

Por Jamil Chade 

O acordo entre Mercosul e União Europeia estabelece a suspensão do pacto caso alguma das partes viole o Acordo de Paris sobre mudanças climáticas ou mesmo promova uma ruptura democrática. Mas o governo brasileiro conseguiu adiar a abertura do seu mercado de automóveis, que estará livre de tarifas apenas em 30 anos. Setores estratégicos que tinham sido abertos no governo de Jair Bolsonaro foram preservados.

Fechado na semana passada depois de 25 anos de negociações, o texto do acordo apenas está sendo divulgado nesta terça-feira no site da União Europeia e pelo governo brasileiro.

A publicação revela que o Itamaraty conseguiu desfazer concessões dadas por Jair Bolsonaro durante as negociações em 2019, preservando setores da economia nacional. Naquele ano, o ex-presidente ordenou que o pacto com a Europa fosse acelerado para que um anúncio fosse feito. No processo, abriu mão da proteção no setor automotivo, minérios e segmentos estratégicos como saúde e educação.

https://noticias.uol.com.br/colunas/jamil-chade/2024/12/10/acordo-mercosul-ue-preve-punicao-por-violar-pacto-do-clima-ou-democracia.htm?cmpid=copiaecola 

domingo, 22 de setembro de 2024

O futuro incerto da democracia americana em face da evolução racial do país- Steven Levitsky (FSP) ; Nota preliminar, PRA

Uma observação preliminar, PRA

Um importantíssimo arrigo de um dos autores deComo as Democracias Morrem” sobre a extrema dificuldade em democratizar a democracia nos EUA, deformada eleitoralmente pela minoria republicana que se radicalizou em face da perda de sua importância política num pais agora poderosamente influenciado por imigrantes não dotados, ainda, de influência cultural decisiva.

Eu não concordaria em chamar a sociedade americana de “multirracial” como faz Levitsky; os EUA são uma sociedade MULTINACIONAL, isto é, com variados e crescentes aportes estrangeiros, mas rles ainda não são uma sociedade MULTRRACIAL (o que é, exclusivamente, o caso do Brasil), pois sua maioria branca não se dispõe ainda a se misturar com  negos, latinos e asiáticos (indianos e levantinos), por enquanto. O “racismo estrutural” dos brancos impede uma evolução politica que INDEPENDE da vontade racional de legisladores, eventualmente motivados em corrigir os mecanismos criados pelos Founding Fathers para evitar a tirania das maiorias. O obstáculo é psicológico e motivacional, assim como cultural: os brancos do interior NÃO QUEREM se misturar com negros, latinos e asiáticos. O impasse vai continuar até que os “estranfeiros” se misturem entre si e adquiram poder político suficiente para mudar as instituições e o modo de votação.

Paulo Roberto de Almeida  (22/09/2024)


Sem reforma, minoria branca e cristã governará os EUA

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2024/09/sem-reformas-minoria-branca-e-crista-governara-os-eua.shtml

Steven Levitsky

Professor de ciência política da Universidade Harvard. Autor, entre outros livros, de "Como as Democracias Morrem" e "Como Salvar a Democracia", escritos com Daniel Ziblatt

A transição dos Estados Unidos em direção a uma democracia multirracial, marcada pela universalização de direitos individuais básicos, está ameaçada pela radicalização do Partido Republicano, que abandonou o compromisso com as regras do jogo. Autor sustenta que o ressentimento de eleitores brancos conservadores, que veem a perda do seu status dominante como risco existencial, e instituições contramajoritárias enviesadas a estados menos populosos e com poder excessivo explicam por que a democracia do país chegou ao ponto de ruptura.

A democracia dos Estados Unidos enfrenta hoje uma ameaça ainda maior que quando escrevemos "Como as Democracias Morrem", há seis anos. Em 2020, Donald Trump se tornou o primeiro presidente da história dos EUA a tentar roubar uma eleição e impedir a transferência pacífica de poder. Porém, ao contrário do que aconteceu no Brasil, as instituições americanas não conseguiram responsabilizar Trump. Por isso, ele está concorrendo à Presidência mais uma vez e tem boas chances de vencer.

Trump tem sido transparente sobre o que tentará fazer se voltar ao poder. Ele nos diz que usará o Departamento de Justiça para investigar e processar seus rivais, perseguirá a imprensa independente, usará o Exército para reprimir protestos e ordenará a deportação de 15 a 20 milhões de pessoas.

Nosso novo livro tenta entender por que a democracia americana chegou ao ponto de ruptura. Argumentamos que os EUA estão passando por uma transição inédita —uma transição para uma democracia verdadeiramente multirracial na qual uma maioria branca cristã, anteriormente dominante, está perdendo seu status dominante. Isso desencadeou uma reação autoritária entre uma minoria de americanos.

Isso, no entanto, não é tudo: a Constituição exacerbou o problema ao dar poder a essa minoria autoritária. Vejamos cada um desses problemas.

A democracia americana está em crise porque um dos seus dois principais partidos não está mais comprometido com as regras do jogo democrático. Os partidos que estão comprometidos com a democracia devem fazer três coisas. Em primeiro lugar, devem aceitar os resultados das eleições, ganhando ou perdendo. Em segundo lugar, devem rejeitar inequivocamente o uso da violência. Em terceiro lugar, devem romper com os extremistas antidemocráticos. O Partido Republicano violou todos esses três princípios desde 2020.

Donald Trump foi o primeiro presidente da história dos EUA a tentar anular uma eleição, e a maior parte do Partido Republicano o apoiou.

Os políticos republicanos também começaram a flertar com a violência. Trump e seus aliados abraçaram a insurreição de 6 de janeiro como heróis. Em 2022, o jornal The New York Times encontrou mais de cem anúncios republicanos em que os candidatos ostentavam ou disparavam armas. Não me lembro de nenhum outro grande partido em qualquer democracia estabelecida em que os candidatos abraçam a violência tão abertamente.

Por fim, os republicanos se recusam a romper com as forças antidemocráticas. Líderes não conseguem matar uma democracia sozinhos —eles precisam de cúmplices entre os políticos mainstream. Esses são o que o cientista político Juan Linz chamou de democratas semileais. Eles se parecem com os políticos comuns, mas diferem na forma como respondem às ameaças autoritárias em seu próprio campo político.

Quando extremistas antidemocráticos surgem em seu próprio campo, os democratas leais fazem três coisas: primeiro, condenam publicamente o comportamento antidemocrático; segundo, expulsam os extremistas antidemocráticos de suas fileiras, se recusando a indicá-los ou a apoiar suas candidaturas; terceiro, unem forças com rivais pró-democracia de todo o espectro político para isolar e derrotar os extremistas antidemocráticos.

Os democratas semileais não fazem nada disso. Em vez de repudiar publicamente o comportamento antidemocrático em seu próprio campo, eles minimizam ou justificam esse comportamento —ou simplesmente permanecem em silêncio. Em vez de expulsar os extremistas antidemocráticos, os toleram ou os acomodam. O que é crucial, os semileais se recusam a trabalhar com rivais ideológicos para derrotar os extremistas antidemocráticos, mesmo quando a democracia está em jogo.

Uma lição evidente dos colapsos democráticos na Europa nos anos 1930 e na América do Sul nas décadas de 1960 e 1970 é que, quando os principais políticos de centro-esquerda ou centro-direita flertam ou cooperam com extremistas antidemocráticos, as democracias têm problemas.

A semilealdade está agora disseminada no Partido Republicano.

Os líderes republicanos sabiam que Trump havia perdido a eleição de 2020 e muitos deles estavam preocupados com seu comportamento antidemocrático às vésperas do 6 de Janeiro, mas eles viabilizaram a invasão do Capitólio mesmo assim. Eles o protegeram ao recusar o impeachment e a condenação de Trump, bloquearam a criação de uma comissão independente para investigar a insurreição de 6 de janeiro e são quase unânimes em apoiar sua candidatura presidencial neste ano.

Por que isso está acontecendo? Por que um partido dominante como o Republicano poderia se afastar da democracia? Argumentamos que se trata de uma reação à democracia multirracial.

Para a democracia funcionar, os partidos políticos precisam ser capazes de tolerar a derrota. Isso geralmente acontece quando acreditam que têm chance de ganhar no futuro e que a derrota não trará consequências desastrosas. Contudo, quando os partidos ou seus apoiadores percebem que a derrota representa uma ameaça existencial, eles se radicalizam e, muitas vezes, se voltam contra a democracia.

No capítulo 3 do nosso livro, mostramos como isso aconteceu com a virada autoritária dos democratas sulistas durante a reconstrução pós-Guerra Civil, o primeiro experimento dos EUA com a democracia multirracial que trouxe uma ampla emancipação dos negros.

Os afro-americanos eram maioria ou quase maioria na maior parte dos estados do Sul. A emancipação deles, portanto, aterrorizou os democratas e seus apoiadores. O sufrágio dos negros não só ameaçava o domínio eleitoral dos democratas do Sul como também ameaçava toda a ordem racial.

Para muitos sulistas brancos, isso parecia uma ameaça existencial: eles se lançaram à violência e ao autoritarismo. Como declarou um democrata da Carolina do Norte: "Não podemos superar os negros numericamente. Então, temos que superá-los trapaceando, somando mais votos ou atirando neles". Foi isso o que fizeram.

Os democratas usaram o terror da violência e a fraude eleitoral para tomar o poder em todo o Sul. Em seguida, se entrincheiraram no poder por meio do registro de eleitores condicionado ao pagamento de impostos, de testes de alfabetização e de outras medidas para acabar com o direito de voto dos afro-americanos. Sem aceitar a derrota, os democratas eliminaram o direito ao voto de quase metade da população, dando início a quase um século de governo autoritário no Sul.

Tememos que algo semelhante esteja acontecendo com o Partido Republicano hoje.

As raízes desse fenômeno estão nas reformas por direitos civis da década de 1960, a segunda experiência dos EUA com a democracia multirracial. A revolução dos direitos civis gerou uma boa dose de ressentimento entre os eleitores brancos, principalmente no Sul, onde eram majoritariamente democratas. O Partido Republicano era minoritário na década de 1960, mas o ressentimento branco a respeito dos direitos civis criou uma oportunidade de expansão da sua base.

Os políticos republicanos calcularam que, se conseguissem conquistar os eleitores brancos revoltados, poderiam se tornar o partido majoritário e, durante uma geração, apelaram para o ressentimento branco.

Começando com Goldwater na década de 1960 e continuando com Nixon e Reagan, os republicanos miraram em eleitores brancos cristãos conservadores. Funcionou. Os sulistas brancos deixaram de ser majoritariamente democratas e passaram a ser majoritariamente republicanos.

O Partido Republicano virou o partido dos cristãos brancos. Como o país ainda era predominantemente branco e cristão nas décadas de 1970 e 1980, se tornar o partido dos eleitores brancos e cristãos ajudou a fazer do Partido Republicano majoritário. Os republicanos venceram todas as eleições presidenciais entre 1968 e 1988, com exceção da eleição do Watergate, em 1976.

A estratégia, no entanto, acabou enfrentando problemas, porque, enquanto os republicanos se tornavam o partido dos cristãos brancos, o país se tornava menos branco e menos cristão. A porcentagem de americanos que se identificavam como brancos e cristãos caiu de 80% em 1976 para 43% em 2016.

Isso representou uma grave ameaça eleitoral para os republicanos. Ficou cada vez mais difícil para um partido esmagadoramente branco e cristão conquistar maiorias nacionais no século 21. Os republicanos não vencem no voto popular para presidente desde 2004. Em 1980, Ronald Reagan recebeu 55% dos votos dos brancos e transformou isso em uma vitória avassaladora. Em 2012, Mitt Romney obteve 59% dos votos dos brancos, mas mesmo assim perdeu a eleição. Quando os republicanos perceberam que estavam vencendo entre os brancos mas perdendo no voto popular, começaram a entrar em pânico.

O problema, porém, ia além de perder eleições. Para grande parte da base republicana, a transição dos EUA para a democracia multirracial parecia uma ameaça existencial. Os cristãos brancos não eram um grupo qualquer. Durante dois séculos, eles ocuparam o primeiro escalão das hierarquias sociais, econômicas, políticas e culturais: eram os políticos, os juízes, os CEOs, os reitores das universidades, os editores de jornais e as celebridades da TV.

Até meados da década de 1980, todos os presidentes e vice-presidentes, todos os presidentes da Câmara, líderes da maioria no Senado, presidentes da Suprema Corte, governadores, CEOs da Fortune 500 e todas as Miss América eram brancos.

Tudo isso está acabando rapidamente agora, bem diante de nossos olhos. O número de políticos negros e latinos do Congresso mais que quadruplicou: de 28 em 1980 para 114 hoje. Pela primeira vez na história, a porcentagem de afro-americanos no Congresso agora é igual à porcentagem de afro-americanos na população em geral. Em 1965, todos os nove ministros da Suprema Corte eram homens brancos. Hoje, apenas quatro dos nove são homens brancos, e só seis dos nove são brancos.

A mudança vai além da política. Vemos isso na presença cada vez maior de famílias não brancas e multirraciais em anúncios, na televisão e nos filmes. Vemos isso na crescente rejeição social a atos racistas (pense nos protestos do Black Lives Matter) e nas contestações cada vez maiores (em Redações e salas de aula) a narrativas históricas que minimizam ou ignoram o passado racista dos EUA.

Esses passos em direção à democracia multirracial são essencialmente liberais: eles universalizam os direitos individuais básicos. A ideia de que indivíduos de todas as raças devem ter acesso igual ao Estado, ser igualmente protegidos pelo Estado e não ser desproporcionalmente perseguidos, encarcerados ou mortos pelo Estado não poderia ser mais liberal. Desprezar as demandas por direitos iguais como "identitarismo" é, além de enganoso, vergonhoso.

Estamos testemunhando um golpe sem precedentes nas hierarquias raciais dos EUA, mas, quando seu grupo está no topo de uma hierarquia social há 250 anos, contestações a essa hierarquia podem parecer uma ameaça. Perder o status social dominante é um acontecimento importante e pode gerar uma sensação de risco existencial. Muitos eleitores de Trump sentem que estão perdendo seu país: eles sentem que o país em que cresceram está sendo tomado deles.

Essa sensação de perda tem impulsionado muitos republicanos comuns em direção ao extremismo. Em uma pesquisa realizada em 2021, 56% dos republicanos concordaram com a afirmação de que "o modo de vida tradicional americano está desaparecendo tão rapidamente que talvez seja preciso usar a força para salvá-lo".

O SEGUNDO OBSTÁCULO: INSTITUIÇÕES CONTRAMAJORITÁRIAS

A radicalização dos republicanos representaria uma ameaça menor se os EUA fossem como outras democracias, em que as maiorias eleitorais governam. O trumpismo nunca representou a maioria dos americanos.

De fato, pela primeira vez na história, a maioria dos americanos abraça os princípios básicos da democracia multirracial no século 21. A maioria apoiou os protestos do Black Lives Matter em 2020. Mais de 60% dos americanos concordam com a afirmação de que a crescente diversidade social torna os EUA um lugar melhor para se viver. Uma pesquisa recente revelou que mais de 60% acha que escolas devem ensinar às crianças a história do racismo nos EUA, mesmo que isso as deixe desconfortáveis.

Isso é muito importante: pela primeira vez, no século 21, os EUA têm uma maioria democrática multirracial. Essa maioria democrática multirracial, contudo, se lançou contra algumas das instituições contramajoritárias mais poderosas do mundo.

É importante dizer que algumas instituições contramajoritárias são essenciais para a democracia. A democracia moderna exige a proteção dos direitos das minorias. Como disse o ex-ministro da Suprema Corte Robert Jackson, alguns domínios devem estar "fora do alcance das maiorias".

Dois domínios em particular devem permanecer fora do alcance das maiorias. O primeiro são os direitos civis: o direito ao voto, a liberdade de expressão e a liberdade de associação devem ser protegidos dos impulsos da maioria.

Um segundo domínio que deve estar fora do alcance das maiorias é o próprio processo democrático. Os governos eleitos não podem usar as maiorias populares ou parlamentares para se entrincheirar no poder, aprovando leis que enfraqueçam os oponentes ou prejudiquem a competição justa, por exemplo.

Esse é o tipo de tirania da maioria que vimos na Venezuela e na Hungria. Precisamos de mecanismos para proteger o sistema democrático de maiorias que o subverteriam.

Os direitos civis e o direito à competição justa são direitos essenciais das minorias. É por isso que precisamos da Declaração de Direitos dos EUA, do Judiciário independente e de barreiras relativamente altas para reformas constitucionais.

Muitas instituições contramajoritárias, porém, não são essenciais para a democracia. Lembre-se: as democracias devem dar poder às maiorias. Portanto, assim como alguns domínios devem ser colocados fora do alcance das maiorias, outros devem permanecer ao seu alcance.

As eleições são um deles. Aqueles com mais votos devem prevalecer sobre aqueles com menos votos no processo que determina os ocupantes de cargos políticos —nenhuma teoria de democracia liberal justifica qualquer outro resultado.

Outro domínio que deve permanecer ao alcance das maiorias é a legislação: as maiorias eleitorais devem ser capazes de governar. Uma minoria legislativa não deve poder vetar leis apoiadas pela maioria. As instituições que impedem que as maiorias eleitorais ganhem ou governem não são essenciais. Na verdade, são antitéticas à democracia.

Acontece que os EUA têm um número incomum de instituições contramajoritárias antidemocráticas: o Colégio Eleitoral, um Senado com representação extremamente desproporcional, a obstrução ("filibuster") no Senado e uma Suprema Corte com grandes poderes e composta de ministros com mandato vitalício.

Essas instituições começaram a subverter a democracia dos EUA. As concessões outorgadas a estados escravocratas e pequenos na Convenção Constitucional de 1787 criaram um viés no nosso sistema político —territórios poucos populosos têm representação excessiva. O Colégio Eleitoral os favorece, o Senado os favorece fortemente e, como o Senado aprova os indicados para a Suprema Corte, a Suprema Corte também é enviesada na direção dos estados pouco populosos.

Esse viés rural sempre existiu, mas nunca favoreceu seriamente um partido porque, durante a maior parte da nossa história, os dois principais partidos tinham ramificações urbanas e rurais. Hoje, porém, os partidos estão divididos entre áreas urbanas e rurais, com os democratas estabelecidos em centros metropolitanos e os republicanos em cidades pequenas e na zona rural. Isso dá aos republicanos uma vantagem no Colégio Eleitoral, no Senado e na Suprema Corte.

Os republicanos ganharam no voto popular para presidente apenas uma vez desde 1988 e, no entanto, ocuparam a Presidência durante a maior parte do século 21. A maioria popular não foi suficiente para Joe Biden vencer em 2020. O presidente teve de ganhar no voto popular por pelo menos quatro pontos percentuais —se tivesse ganhado por dois pontos, como Lula, Trump teria sido reeleito (Kamala Harris enfrenta o mesmo problema neste ano).

O Senado tem uma distorção semelhante. Mesmo que os democratas alcancem 51% ou 52% do voto popular, os republicanos controlarão o Senado. Os democratas venceram a votação popular em todos os ciclos de seis anos desde 2000, mas os republicanos controlaram o Senado por quase metade desse período.

Em 2016, os democratas ganharam no voto popular para a Presidência e o Senado e, mesmo assim, os republicanos ocuparam a Presidência e controlaram o Senado.

O governo da minoria é um problema exclusivamente americano. Em nenhuma outra democracia estabelecida as minorias partidárias podem impedir as maiorias eleitorais tão consistentemente quanto nos EUA. Por que isso acontece?

O excesso de contramajoritarismo era muito comum. A Europa tinha muitas instituições antidemocráticas no século 19 —monarquias, eleições indiretas e órgãos legislativos não eleitos ou com representação desproporcional. Com o passar do tempo, no entanto, outras democracias se desfizeram gradualmente de suas instituições pré-democráticas.

A Grã-Bretanha enfraqueceu a Câmara dos Lordes, retirando-lhe o poder de veto. Dinamarca, Suécia, Nova Zelândia e Portugal eliminaram suas câmaras altas não democráticas. Alemanha, Áustria e Bélgica democratizaram seus Senados, os tornando mais proporcionais à população. A Grã-Bretanha, o Canadá, a Austrália, a França e outras democracias estabeleceram regras que permitem que maiorias simples encerrem o debate parlamentar (portanto, não há obstrução por parte da minoria). Todas as democracias europeias e latino-americanas estabeleceram limites de mandato ou idade de aposentadoria para ministros das Cortes Supremas.

Todas as demais democracias presidencialistas do mundo se livraram de seus colégios eleitorais. A Argentina foi a última, em 1994.

Portanto, outras democracias se tornaram mais democráticas nos últimos cem anos, eliminando instituições dos séculos 18 e 19 que permitiam que as minorias impedissem sistematicamente a ação das maiorias. Somente os EUA mantiveram a maioria de suas instituições pré-democráticas.

DEMOCRATIZAR A DEMOCRACIA DOS EUA

Os EUA são a única democracia presidencial do mundo com um colégio eleitoral. Temos o Senado com representação mais desproporcional do mundo, com exceção da Argentina e do Brasil.

Nenhuma outra democracia permite que uma minoria do Congresso vete rotineiramente uma legislação regular apoiada pela maioria, e os EUA são a única democracia estabelecida em que ministros da Suprema Corte têm mandatos realmente vitalícios —todas as demais têm limites de mandato ou idade de aposentadoria obrigatória.

Precisamos democratizar a democracia americana.

No livro, propomos 15 reformas que dariam poder às maiorias e contribuiriam para deter o governo das minorias, incluindo o registro automático de eleitores, a abolição do Colégio Eleitoral, o fim do "filibuster", um Senado mais proporcional e limites de mandato para os ministros da Suprema Corte.

Essas não são reformas radicais —simplesmente colocariam os EUA em linha com outras democracias—, mas são importantes porque, se não tomarmos medidas para fortalecer a maioria democrática multirracial do país, seremos governados por uma minoria autoritária.

Os EUA estão em uma encruzilhada. Ou seremos uma democracia multirracial no século 21 ou não seremos uma democracia. Ambos os caminhos estão diante de nós e não há como voltar atrás.


Postagem em destaque

Livro Marxismo e Socialismo finalmente disponível - Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro – que não tem nada a ver com o governo atual ou com sua diplomacia esquizofrênica, já vou logo avisando – ficou final...