Mostrando postagens com marcador FSP. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador FSP. Mostrar todas as postagens

sábado, 3 de outubro de 2026

Peça de Brecht sobre Galileu interroga o exercício do poder e os limites da ciência - Juliana de Albuquerque (FSP)

Peça de Brecht sobre Galileu interroga o exercício do poder e os limites da ciência
Juliana de Albuquerque
Folha de S. Paulo, sexta-feira, 2 de outubro de 2026

'A Vida de Galileu' parte da biografia do físico italiano para promover reflexão sobre a defesa da verdade.
Questões levantadas por Brecht fazem pensar em temas contemporâneos como a regulação da IA.

 
        Concluí recentemente a leitura de "A Vida de Galileu", do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956).
        Escrita originalmente no final da década de 1930, durante o exílio de Brecht na Dinamarca, a peça narra a trajetória do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642). Galileu foi julgado pela Inquisição em Roma por defender, com base nas suas observações astronômicas, o modelo heliocêntrico de Nicolau Copérnico (1473-1543) e levado a abjurar as suas posições.
        A peça de Brecht parte de elementos da biografia de Galileu não apenas para reconstruir certos eventos com alguma fidelidade, mas também para fazer o público refletir sobre questões urgentes do seu próprio tempo, como o papel social da ciência e a problemática relação entre indivíduo e autoridade.
        Não por acaso, a primeira versão do drama, concebida em meio à perseguição nazista, passou por mais duas revisões. A primeira, entre 1944 e 1947, período em que o autor vivia nos Estados Unidos, foi marcada pelo impacto das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki e pela crescente preocupação com as consequências da instrumentalização do conhecimento científico. Já a segunda, realizada em Berlim Oriental nos seus últimos anos de vida, deu origem à versão final da obra, que serve de base para a minha leitura.
        Hoje, as questões levantadas por Brecht, embora pertençam a outro contexto histórico, permanecem relevantes. Basta pensarmos, por exemplo, no atual debate sobre a necessidade de uma regulamentação mais rígida da inteligência artificial ou na maneira como a desinformação foi explorada politicamente no Brasil durante a pandemia de Covid-19, dificultando a resposta a uma crise sanitária que resultou em mais de 700 mil mortes.
        A esse respeito, vale a pena recuperar algumas das falas do Galileu de Brecht. Por exemplo, na cena em que o físico se irrita com a visita de um ex-aluno que contesta as teorias de Copérnico e o coloca para fora da sua casa: "Quem não sabe a verdade é estúpido, e só. Mas quem sabe e diz que é mentira é criminoso!".
        Outra fala importante ocorre quando o Pequeno Monge teme que novas descobertas científicas abalem as crenças que aparentam dar sentido à vida dos camponeses. Ele pergunta a Galileu se a verdade não seria capaz de se afirmar por conta própria, sem o auxílio de terceiros, ao que o cientista retruca: "Não, não, não. Só se afirma a verdade que nós afirmamos; a vitória da razão só pode ser a vitória dos homens racionais [...]. Como pode alguém pensar que o interesse [dos camponeses] possa ser contrariado pelo teorema da soma dos ângulos de um triângulo! Porém, se eles não se põem em movimento e não aprendem a pensar, mesmo o mais engenhoso sistema de irrigação não lhes adiantará de nada."
        O Galileu de Brecht, no entanto, é um personagem complexo e contraditório, no qual a ardente defesa da verdade convive com o apego aos sentidos e aos prazeres da vida. Por medo do sofrimento físico, o personagem renega publicamente as próprias ideias, mas continua trabalhando na surdina.
        Na peça, Galileu tem consciência de que a sua postura diante da Inquisição contribuiu para dificultar a difusão do saber científico na região ("Eu traí a minha profissão. Um homem que faz o que eu fiz não pode ser admitido nas fileiras da ciência").
        Tanto é assim que, na última cena, o seu discípulo de uma vida inteira, Andrea Sarti, parte para a Holanda e leva escondida debaixo do casaco uma cópia do novo manuscrito de Galileu. Antes da despedida, o mestre se queixa: "Se eu houvesse resistido! [...]. Durante alguns anos, a minha força era igual à da autoridade. Entretanto, entreguei o meu saber aos poderosos, para que eles usassem, abusassem, não usassem, conforme lhes conviesse."
        Em carta enviada a Brecht em 1939, Einstein elogiou o texto e destacou a riqueza com que o dramaturgo havia apreendido a personalidade de Galileu e a importância da sua figura para a história do pensamento.
        A peça, portanto, não é uma hagiografia do físico italiano —"Infeliz é a terra que precisa de heróis"— nem uma defesa ingênua da ciência. É, sobretudo, uma celebração do espírito crítico diante do poder e da autoridade, do exercício da razão e da reflexão sobre nossos próprios limites. Recomendo a leitura.  

 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O Itamaraty não pode ter medo de mudar - Marcos Degaut (FSP)

 CRÉDITO EDITORIAL: Folha de S.Paulo

SEÇÃO: Opinião

AUTOR: Marcos Degaut

DATA DE PUBLICAÇÃO: 1º.out.2026 às 13h42

O Itamaraty não pode ter medo de mudar

Política externa não é mera administração da conjuntura; exige antecipação, prioridades e articulação

Não se trata de promover uma suposta 'Reforma Rubio', mas de reconstrução orientada pelos interesses do Brasil

Marcos Degaut

Ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2017-18, governo Temer), ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa (2019-22, governo Bolsonaro) e ex-secretário-executivo da Camex (2019)

O Brasil não precisa de um Itamaraty menor, mas de um mais forte, mais estratégico e mais valorizado. Uma instituição capaz de antecipar transformações, formular opções para o Estado e converter a diplomacia brasileira em influência, mercados, investimentos, tecnologia, segurança e prosperidade.

Esse deveria ser o debate. Em vez disso, tenta-se enquadrar qualquer proposta de modernização em narrativas políticas preconcebidas.

Antes de se conhecerem as ideias, escolhem-se os rótulos. Antes de discutir seu conteúdo, atribuem-se intenções. Constrói-se controvérsia artificial na qual fortalecer a instituição é apresentado como ameaça; rever procedimentos, tentativa de desmonte; questionar disfunções, ataque à carreira. Isso não protege o Itamaraty. Apenas empobrece o debate e favorece os que veem qualquer mudança como ameaça ao status quo.

O mundo mudou. Comércio, tecnologia, defesa, inteligência, energia, minerais críticos e infraestrutura tornaram-se instrumentos de poder. A fronteira entre geopolítica e geoeconomia desapareceu. Política externa não pode ser mera administração da conjuntura. Exige antecipação, prioridades e articulação dos instrumentos do poder nacional.

É nesse contexto que defendo a modernização do Ministério das Relações Exteriores (MRE), uma das instituições mais qualificadas do Estado. Tenho contribuído com ideias e reflexões sobre o tema. Não falo por Flávio Bolsonaro (PL) nem por sua campanha à Presidência da República, e essas ideias não constituem programa fechado ou proposta oficial de governo.

A modernização necessária possui quatro dimensões. A funcional deve recuperar a capacidade de formular, antecipar e propor, fortalecendo análise prospectiva, inteligência estratégica e avaliação de riscos. A administrativa deve simplificar processos, reduzir burocracia e ampliar a delegação de competências. A organizacional deve dar maior centralidade à diplomacia econômica, comércio, investimentos, tecnologia e defesa.

A quarta é profissional. Não existe diplomacia de excelência sem carreira valorizada. As promoções precisam reduzir o peso de critérios subjetivos e ampliar critérios objetivos e verificáveis de mérito, desempenho, experiência e qualificação. É preciso rever o vínculo entre promoção e remoção, criar horizontes profissionais mais previsíveis e reduzir o peso de relações pessoais e grupos de influência na progressão funcional.

Diplomatas mais jovens podem assumir responsabilidades maiores muito antes de alcançarem o topo da carreira. Instituições modernas não desperdiçam experiência esperando que a antiguidade autorize alguém a pensar, decidir e liderar.

A valorização deve alcançar igualmente oficiais de chancelaria e demais servidores com melhores perspectivas de carreira, capacitação, reconhecimento e responsabilidades compatíveis com sua experiência.

Há ainda questão que não deve ser tratada como promessa eleitoral, mas problema estrutural: a remuneração. A diplomacia brasileira perdeu posição relativa em relação a outras carreiras típicas de Estado e acumulou defasagens que precisam ser enfrentadas. Recomposição remuneratória, quando necessária, não é privilégio nem favor, mas instrumento de valorização e retenção de quadros.

Também é preciso desfazer o mito de que servir no exterior significa vida de conforto financeiro. Em muitos postos, custos de moradia, instalação, educação, câmbio e limitações profissionais impostas às famílias tornam os vencimentos insuficientes para uma vida digna e compatível com as responsabilidades de representar o Estado. Valorizar o serviço exterior custa recursos; permitir sua deterioração custa muito mais.

É precisamente diante dessa agenda que causa estranheza reduzir o debate a uma suposta "Reforma Rubio", como noticiou esta Folha. Nunca se discutiu projeto com esse nome nem se defendeu transplantar para o Brasil a reforma do Departamento de Estado americano. O enquadramento desvirtua um debate institucional e transforma ideias de modernização em instrumento de disputa eleitoral.

Não se trata de desmontar a Casa, mas de fortalecê-la; de marginalizar diplomatas, mas de lhes devolver tempo, responsabilidade e protagonismo; de politizar a carreira, mas de reduzir subjetividades; de romper com a tradição, mas de preservar sua excelência preparando-o para um mundo diferente.

Modernizar também significa avaliar resultados. Uma embaixada deve ser avaliada por sua contribuição para abrir mercados, remover barreiras, atrair investimentos, incorporar tecnologia, apoiar empresas brasileiras, produzir informação estratégica e ampliar a influência nacional, não pelo número de recepções ou evento.

O Brasil possui ativos de potência, mas carece de arquitetura capaz de transformá-los sistematicamente em poder, influência e prosperidade. O Itamaraty é peça central dessa reconstrução.

Não se trata, portanto, de importar modelo americano algum, muito menos de promover suposta "Reforma Rubio". Trata-se de pensar uma reforma brasileira para uma instituição brasileira, orientada pelos interesses do Brasil.

Inventar um nome, atribuí-lo a terceiros e depois construir uma narrativa em torno dessa invenção pode produzir uma manchete chamativa, mas não transforma ficção em fato e expõe um problema elementar: quando a premissa é fictícia, todo o edifício construído sobre ela perde sustentação.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Para não perder o direito de não gostar - José César Martins (FSP)

 Transcrevo abaixo a divulgação, por um colega do grupo da Revista Será?, da qual sou colaborador, sobre o estado mental daqueles muito preocupados com o resultado, os resultados, da próxima eleição presidencial, talvez em um turno, talvez em dois. PRA

"Transcrevo abaixo artigo publicado hoje na Folha de SP de autoria do sociólogo Zeca Martins, coordenador do Derrubando Muros, grupo do qual faço parte. Subscrevo sua declaração de voto e as razões que a embasam. OT

Opinião
Para não perder o direito de não gostar
•⁠ ⁠Meu voto não absolve o governo Lula, que de fato é muito ruim, com desempenho desastroso
•⁠ ⁠A questão é impedir que Flávio Bolsonaro ameace a liberdade que tenho de dizer o que penso
José César Martins
Folha de S. Paulo, 17/09/2026

Considero muito ruim o governo Lula (PT). Na política, na ciência e tecnologia e na segurança pública, o desempenho é desastroso. Na educação e na saúde, medíocre. No conjunto, ruim. E com suspeitas que continuam a exigir respostas. A proximidade da eleição não absolve esse governo.
Há, porém, uma circunstância decisiva: posso combatê-lo. Posso escrever o que penso, atacar suas escolhas, levantar da cadeira para dizer isso na cara de qualquer ministro. Minha família não precisa entrar no cálculo das consequências. Quem aprendeu do jeito mais difícil o preço de enfrentar uma ditadura sabe o tamanho dessa diferença.
É desse lugar que escrevo. Faltam poucos dias para as eleições. Considero mais provável a vitória de Flávio Bolsonaro (PL), em 4 de outubro ou no segundo turno. Um sujeito com moral de miliciano, disposto a sabotar a democracia, seguindo a tradição da família. Confundir esse risco com mais uma alternância de governo exige uma distração que nenhum democrata tem o direito de cultivar.
O grupo Derrubando Muros tem o privilégio de acesso aos principais institutos de pesquisas eleitorais. Conhecemos nuances e correlações que escapam aos leigos. Isso ajuda a saber antes. Mas nenhuma sutileza estatística é condição necessária para reconhecer o intolerável quando ele se apresenta. Nem nos dispensa de fazê-lo. Nem de reagir diante disso.
Em 2022, votei em Lula no segundo turno. Nunca havia votado no PT, assim como a maioria dos que fizeram aquela escolha comigo. Foi uma decisão de risco político e reputacional, diante de uma ameaça maior. Não pedi reconhecimento, não negociei contrapartidas, não condicionei o voto. Votei para impedir o pior.
Quatro anos de gestão não melhoraram minha avaliação do governo. A do PT, menos ainda. O precipício, o apego à democracia, este cresceu. E eu me pergunto o que farei com minha coleção de críticas corretas se outro da dinastia familiar dos Bolsonaros ocupar a Presidência da República também por minha omissão. Vou apresentar meu muxoxo como prova de coerência?
Há tempo para exigir mudança, confrontar e fazer oposição. Há também a hora de separar o que nos desagrada do que pode destruir nossa vida em comum. Família, amigos, valores, democracia: não ponho nada disso na mesa de apostas para preservar o conforto de uma posição.
Um governo ruim pode ser enfrentado e substituído. A destruição das instituições que permitem enfrentá-lo cobra outro preço. É aí que passa a fronteira. Para enxergá-la, não preciso gostar de Lula, absolver o PT ou recolher uma única crítica. Preciso distinguir um desempenho medíocre de uma ameaça ao direito de combatê-lo.
Levo semanas amadurecendo essa posição. É pessoal, desconfortável e clara. Considero uma obrigação torná-la pública. Quero continuar podendo fazer oposição de cabeça erguida, sem hesitação, sem ter de escolher entre a palavra e a segurança dos meus.
Não escolho as circunstâncias em que preciso decidir. Mas respondo pelo que permito por omissão. Prefiro continuar fazendo oposição a um governo ruim a ser impedido de enfrentar o próximo. Meu voto não absolve o governo atual. É uma escolha para impedir que Flávio Bolsonaro chegue ao poder e ameace a liberdade que tenho de dizer o que penso.

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/09/para-nao-perder-o-direito-de-nao-gostar.shtml

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O bobo da corte e o freio nos dentes (Executivo Fraco, Legislativo Forte, STF politizado) - Marcus André Melo (FSP)

   O bobo da corte e o freio nos dentes

Marcus André Melo

Folha de S. Paulo, segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

No 'modo sobrevivência', a relação com a base parlamentar e com o judiciário engendra erosão institucional disruptiva

Não nos depararemos com a morte da democracia, mas com sua crescente degradação institucional

 

Na sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento".

A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

A revista The Economist acaba de publicar matéria intitulada: A grande democracia em que os parlamentares são mais poderosos que o Executivo. A revista parte de um paradoxo. Na última década, candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam poder por meio do chamado executive aggrandizement: a expansão unilateral do Executivo em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo o Legislativo.

Mas isto não é novidade para os leitores desta coluna. Como argumentamos em 2024, em "Por Que a Democracia Brasileira Não Morreu?" (Cia. da Letras), escrito em coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária, o presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário. O desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos demais poderes.

A inversão histórica é extraordinária. O Executivo brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em "His Majesty the President of Brazil", publicado em 1936, o diplomata britânico Ernest Hambloch descreveu o Congresso como "destituído de poderes vis-à-vis o Executivo" e os tribunais como "invariavelmente flácidos, dependendo demasiado do Executivo que os nomeia". O presidente da República conservava poderes quase imperiais.

Mas o poder formal da Presidência nunca contou toda a história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em "Razões da Crise", de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial: "Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal, impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso toma o freio nos dentes".

Escasso poder partidário é só parte da explicação, como mostrei aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade de gestão. No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos três Poderes.

Isso não torna equivalentes um autocrata que captura as instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais que abusam de poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo produz corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; o terceiro, a perda de legitimidade e degradação institucional.

 

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Depois da saúva-inseto, cem anos atrás, aparece a saúva-humana, personificada no perigo Bolsonaro - Conrado Hübner Mendes (FSP), Paulo Roberto de Almeida

 PRA: cem anos atrás, o maior risco para o Brasil, segundo Monteiro Lobato, era a saúva, essa formiga destruidora de plantações e colheitas. Sendo o Brasil um país "essencialmente agrícola", como se afirmava até a segunda metade do século XX, "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil", dizia o escritor paulista, autor do ciclo infantil do Pica-Pau amarelo (e de muitas outras obras adultas também).
Atualmente, o risco maior para a democracia e para o próprio Brasil está identificado com a família Bolsonaro, uma praga aparentemente mais resistente do que a saúva, e que vem consumindo uma parte importante da energia liberal e democrática da população brasileira, ao lado dos cultos evangélicos extratores da riqueza em favor de pastores negocistas, das bets e da casta de políticos adeptos do estupro orçamentário das emendas impositivas. São muitas pragas ao mesmo tempo, mas a ameaça momentânea é mesmo o bolsonarismo, como argumenta Conrado Hübner Mendes em artigo na Folha de S. Paulo de ontem. PRA

NENHUM RISCO É MAIOR QUE O RISCO-BOLSONARO
Dez lições sobre como atacar a vida, a liberdade, a economia e o país

Conrado Hübner Mendes
Prof FDUSP
FSP 26/08/2025, p. A16

A atenção da liga internacional da extrema direita se concentra hoje no Brasil. A liga tem sido laboratório de produção e exportação de técnicas para esvaziar regimes democráticos dos resquícios de autogoverno coletivo, eleições livres, proteção das liberdades. Essa época histórica não se esgotará em dois ou três ciclos eleitorais.
Quem tenta se posicionar eleitoralmente nos moldes da antiga normalidade, entre esquerda e direita, entre mais ou menos Estado, mais ou menos política social, precisa se dar conta da enormidade de nosso tempo.
O Brasil tem um sócio master na liga internacional: os Bolsonaros. Nenhuma outra candidatura, por maiores que sejam seus riscos econômicos e sociais, tem a dimensão vital e existencial como o risco-Bolsonaro.
As provas são documentadas. Foram vividas por cidadãos nos últimos anos. Estão na memória do corpo e das emoções de quem conseguiu manter consciência humanista e autonomia do juízo no período.

Resumo as dez lições do risco-Bolsonaro.

A primeira está no curriculum vitae do pai e dos filhos. Note a onipresença de milicianos, 'rachadinhas', de dinheiro vivo, do interesse nacional subordinado a interesse familiar. O filho-candidato foi um dos dois votos contra a CPI das milícias. O outro foi do mandante do assassinato de Marielle Franco. Flávio nunca explicou seu conceito de "legalização das milícias".
A segunda foi o uso da incivilidade performática não como grosseria e quebra de etiqueta pública, mas como autorização da violência numa sociedade de grupos tão vulneráveis como os de meninas forçadas à prostituição.
A terceira toca soberania nacional. Membro da família abandonou o cargo eletivo e vive nos EUA para trabalhar contra a economia nacional. Vivemos inédito regime de sanção econômica e na fila por nova intervenção de Trump. A família recusa a não-subalternidade global.
A quarta é a Amazônia. A família optou por ausência do Estado, estímulo ao desmatamento e liberou crime organizado. Abdica da soberania territorial e renuncia à nossa maior riqueza para o século 21. E turbina a mudança climática. Empobrecimento coletivo com enriquecimento privado de economias ilícitas.
A quinta foi o ataque a minorias sociais e a vozes dissidentes de professores, cientistas e jornalistas. A sala de aula gelou. A sexta é a ruína da capacidade estatal: o negacionismo, a desprofissionalização da burocracia e a volta ao Mapa da Fome são exemplos traduzidos em mortes. Eclipse institucional é obra familiar.
A sétima foi o repertório de ilegalismos autoritários. Buscou desinstitucionalizar o que pôde, vencer instituições de controle pela ameaça e pela fadiga. Estimulou desrespeito a lei e assegurou leniência fiscalizatória.
A oitava foi a instrumentalização da fé. Converte disputa política numa guerra entre o bem e o mal, promove pânico moral e viola liberdade religiosa. Mas oferece contratos públicos, renúncia fiscal e perdão de dívidas a corporações eclesiásticas.
A nona é o desempenho econômico. As lições anteriores já impactam por si o potencial do PIB e do PIBB (Produto Interno da Brutalidade Brasileira), índices de correlação inversa. Procure saber.
A décima é a lição democrática. Se você duvida do golpe porque desconfia das provas do STF, leia as memórias do ex-comandante que disse não.
Um futuro melhor, hoje, começa pelo voto de redução de danos.

sábado, 2 de maio de 2026

Fernando Novais, um historiador marxista - Naief Haddad (FSP)

 Morre Fernando Novais, 93, um dos maiores historiadores do país

Intelectual paulista se consagrou com a publicação de 'Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial'

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, lecionou na USP e Unicamp, além de universidades europeias e americanas

Naief Haddad

Folha de São Paulo, 1/05/2026

Um dos principais historiadores do Brasil na segunda metade do século 20 e início do 21, Fernando Novais morreu no início da tarde desta quinta-feira (30), aos 93 anos, em São Paulo.

Professor emérito da USP, Novais escreveu "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)", uma obra da década de 1970 que se tornou clássica na historiografia do país ao associar a colonização com a formação do capitalismo comercial, uma visão que influenciou gerações de intelectuais e estudantes nos anos seguintes.

Ao longo de mais de 60 anos de carreira, lecionou na USP e na Unicamp, deu cursos em universidades europeias e americanas e coordenou a coleção História da Vida Privada, publicada pela Companhia das Letras. Firmou-se ainda como um nome-chave entre os acadêmicos de pensamento marxista.

Novais havia sofrido um infarto durante o Carnaval. Mais fragilizado, foi diagnosticado dias depois com pneumonia e, mais adiante, uma infecção renal, que o levou à morte. Estava internado em uma unidade da rede Prevent Senior, em São Paulo.

Em nota, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) lamentou a morte de Novais, docente do departamento de história de 1961 a 1986. "Ele construiu uma nova interpretação da história do Brasil", diz Iris Kantor, professora de história da USP e aluna de Novais no mestrado e no doutorado. "Era muito rigoroso e, ao mesmo tempo, de uma generosidade infinita."

O Instituto de Economia da Unicamp, no qual trabalhou de 1986 a 2003, também lamentou a morte do historiador.

O velório será realizado nesta sexta, dia 1º, de meio-dia às 16h no cemitério do Araça (av. Dr. Arnaldo, 666, Cerqueira César, São Paulo).

Nascido em Guararema, em 1933, morou com a família nesta e em outras cidades do interior paulista até se mudar na adolescência para São Paulo, cidade onde viveu desde então. Na USP, onde se graduou em 1958, foi especialmente influenciado por Eduardo d’Oliveira França (1917-2003), professor de história moderna. "Eu me considero seu discípulo até hoje", disse à revista Pesquisa Fapesp em 2022.

No ano em que se formou, participou dos célebres seminários para estudar "O Capital", que se estenderam até 1964. Essas leituras coletivas de Marx reuniam nomes como a antropóloga Ruth Cardoso, os sociólogos Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, o filósofo José Arthur Giannotti, o crítico literário Roberto Schwarz e o economista Paul Singer.

"A maior parte dos integrantes do grupo de leitura de ‘O Capital’ deixou de ser marxista. Eu comentei outro dia com o Roberto Schwarz: somos os últimos que se mantêm. Sou e pretendo ser um historiador marxista", disse ele também à Fapesp.

A amizade entre os integrantes do grupo resistiu ao passar do tempo, mas sofreu abalos. "Sempre votei no Lula, o FHC ficou muito chateado comigo por isso", disse Novais em um encontro da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais), em 2002.

No mesmo evento, em Caxambu, afirmou que FHC havia "criado condições para que pudesse ocorrer um governo de centro-esquerda no Brasil", referindo-se à gestão de Lula, o sucessor do tucano no Planalto.

Mesmo aqueles que divergiam das interpretações fundamentadas em "O Capital", como o também historiador Boris Fausto (1930-2023), admiravam Novais. Para Fausto, tratava-se de um "marxista de qualidade".

No doutorado, sob influência de Eduardo França, Novais se dedicou à pesquisa sobre a política colonial de Portugal sobre o Brasil no fim do século 18 e início do 19. O resultado saiu em 1973 como tese e em 1979 como livro.

Em "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial", ele tomou como ponto de partida uma das formulações de "Formação do Brasil Contemporâneo". Nesse livro de 1942, Caio Prado Júnior havia sido o primeiro, segundo Novais, a mostrar a formação da colônia dentro do processo de constituição do capitalismo moderno.

Novais aprofundou essa abordagem de Caio Prado, detalhando como, no final do século 18, o sistema colonial havia se tornado uma expressiva fonte de acumulação para fortalecer a industrialização europeia e como esse sistema entrou em crise.

À Folha em 2019 Pedro Puntoni, professor de história da USP e ex-aluno de Novais, disse que Caio Prado "via a colonização como um ‘capítulo’ da expansão do capitalismo comercial, enquanto Novais a relaciona com o processo mesmo de formação deste capitalismo e as transformações vividas no centro do sistema".

Novais teve papel determinante como professor da USP de 1961 a 1986 e depois da Unicamp, onde se aposentou em 2003.

Em 1973, Laura de Mello e Souza, autora de livros como "O Diabo e a Terra de Santa Cruz", participou de um grupo de seminários conduzido por Novais, experiência fundamental para a carreira dela.

"Aqueles seminários mudaram a minha vida. Não era só história do Brasil, líamos também historiografia francesa, antropologia etc., o que me possibilitou pensar o objeto de estudo em uma chave muito mais alargada. Fernando é um homem extremamente generoso intelectualmente, com uma capacidade de reflexão teórica incomum", disse à Folha em 2024. Novais a orientou no mestrado e no doutorado.

Em 2000, ele examinou em tom crítico as celebrações dos 500 anos da chegada do português Pedro Álvares Cabral às terras do outro lado do oceano Atlântico. "Quando se fala ‘Descobrimento do Brasil’, o etnocentrismo está no Descobrimento, e o anacronismo, na palavra Brasil", afirmou naquele ano também ao jornal.

"O Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que por sua vez se organizou como Estado. Em 1500, não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil porque o Brasil não existia nem estava encoberto. O que naquele momento surgiram foram as bases da colonização portuguesa, a qual por sua vez é a base da nossa formação."

Com "Aproximações, Estudos de História e Historiografia", lançado em 2005, ele encerrou sua trajetória como autor. É um livro que reúne ensaios e artigos, além de entrevistas concedidas por ele.

Novais sempre dizia que escrevia pouco e gostava do que escrevia. Deixou uma obra concisa, mas incontornável.

Casado por décadas com Horieta, que morreu em 2024, Novais deixa os filhos Ana Lucia e Luis Fernando, além de netos e bisnetos.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/04/morre-fernando-novais-93-um-dos-maiores-historiadores-do-pais.shtml

============

Meio atrasado, mas sempre é tempo de reproduzir o registro do Estadão, sobre a morte de um dos grandes historiadores brasileiros:

Morre Fernando Novais, um dos maiores historiadores do Brasil, aos 93 anos
Referência na historiografia nacional, Novais publicou dezenas de artigos e livros sobre a história do Brasil e Portugal
Estadão, 30/04/2026

O historiador Fernando Novais, referência na historiografia nacional, morreu aos 93 anos. A notícia foi divulgada pela A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Novais foi docente do Departamento de História, entre 1961 e 1986, e Professor Emérito da FFLCH.
• Fernando Novais e o sentido da colonização
Ele nasceu em Guararema, em São Paulo, em 1933. Formou-se em História pela USP em 1958, onde também concluiu seu doutorado, em 1973.
Em 1957 iniciou sua carreira como professor na Faculdade de Economia da USP e em 1961 tornou-se professor na cadeira de História Moderna da FFLCH, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1986. Logo em seguida, transferiu-se para o Instituto de Economia da Unicamp, onde foi professor de História Econômica.
O historiador Fernando Novais morreu aos 93 anos
No final dos anos 1950, ao lado de nomes como José Arthur Giannotti e Fernando Henrique Cardoso, articulou o chamado Seminário Marx – movimento que inovou a leitura da obra de Karl Marx no Brasil.
Ele lecionou na Universidade do Texas duas vezes e participou de debates e seminários em outras universidades americanas, como a Universidade Columbia e a Universidade da Califórnia.
Novais publicou dezenas de artigos e livros sobre a história do Brasil e Portugal. Sua obra maior é Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808), publicada em 1979. Neste trabalho, ele analisou a política colonial portuguesa relativa ao Brasil nas suas últimas etapas.
“Todo historiador tem que lidar com o anacronismo. Para recriar um acontecimento em um determinado momento da história, a não ser que seja a história imediata, que ele esteja fazendo a história do que está acontecendo no presente vivo, o historiador precisa esquecer o que sabe que aconteceu depois, pois o protagonista que viveu o acontecimento não podia saber o que ainda não havia acontecido. Isso é o anacronismo, um pecado mortal”, disse Novais em 2008 durante entrevista à Revista Brasileira de Psicanálise.
Nos anos 1990, coordenou a equipe de profissionais que redigiu História da Vida Privada no Brasil, coleção publicada pela Companhia das Letras.
Em 2005, publicou uma coletânea com os seus principais artigos acadêmicos com o título Aproximações: Estudos de História e Historiografia.
A Companhia das Letras divulgou uma nota de pesar: “Fernando Novais influenciou inúmeros intelectuais e estudantes das gerações seguintes, como Lilia Moritz Schwarcz. A editora se solidariza com seus familiares, amigos, leitores e alunos”.
Novais deixa dois filhos, netos e bisnetos.


domingo, 26 de abril de 2026

UM SÉCULO DEPOIS DA FUNDAÇÃO DA USP FINALMENTE UM NEGRO NA REITORIA (FSP)

Confesso que nunca vi o professor Amancio como negro, apenas como um brasileiro. PRA

=========

UM SÉCULO DEPOIS DA FUNDAÇÃO DA USP FINALMENTE UM NEGRO NA REITORIA 

O professor titular da USP (Universidade de São Paulo) Folha de S. Paulo, 25/04/2026

Amâncio Jorge de Oliveira, 58, novo pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária, vê a chegada à administração da universidade como simbólica especialmente para os jovens negros que estão no ensino superior e que buscam uma carreira acadêmica.

A nomeação de Amâncio alça um homem negro ao alto escalão uspiano pela primeira vez em 92 anos de instituição. Para ele, após o ingresso de alunos e docentes negros, é necessário discutir a mobilidade nas carreiras e as oportunidades dentro dos espaços públicos.

O professor tem trajetória marcada por adaptações. Foi vice-diretor do Instituto de Relações Internacionais da universidade e vice-diretor do Museu do Ipiranga de 2020 a 2024, no bicentenário da Independência e quando o museu foi reinaugurado após anos em obras.

Agora, na administração central da maior instituição de ensino superior do país, diz que pretende intensificar a relação entre universidade e sociedade. Propõe aprimorar a contribuição em políticas públicas e em iniciativas de inovação, além de melhorar a comunicação com o contribuinte, maior financiador da USP.

Homem de meia-idade com barba e óculos, vestido com terno escuro e gravata, sentado em banco de madeira diante de parede de blocos vazados. Folhagens verdes aparecem acima da parede ao fundo.

Amâncio Jorge de Oliveira, pró-reitor de Cultura e Extensão Universitária da USP (Universidade de São Paulo), na capital paulista; ele também é professor titular do Instituto de Relações Internacionais - Karime Xavier - 25.mar.22/Folhapress

"A chegada de pessoas negras em posições institucionais de liderança, em qualquer segmento da sociedade, é carregada de grande força simbólica. Na universidade não é diferente. A ascensão na carreira carrega um peso simbólico porque indica, para os jovens que estão chegando, perspectivas possíveis", afirma o docente à Folha.

Ele ressalta que no grupo pequeno de docentes negros há discrepância entre os que estão na base e os do topo da carreira. Para ele, a inclusão precisa ser discutida não apenas no ingresso à universidade, mas deve incluir a progressão de carreira e a criação de oportunidades dentro das instituições de ensino.

"Façamos, por exemplo, um comparativo da proporção de docentes pretos, pardos e indígenas na base da carreira e no topo da carreira. O problema da mobilidade fica flagrante. Um estudo na USP mostrou que ocorre exatamente o mesmo quando falamos de equilíbrio de gênero na carreira acadêmica."

A dificuldade de progredir no mundo acadêmico é sintoma dos percalços para ingressar como docente na maior instituição da América Latina. Segundo o anuário estatístico da USP de 2025, são apenas 3,4% de docentes pretos e pardos. Entre os discentes, são 24,5% os autodeclarados negros.

As declarações ecoam outra entrevista ao jornal em 2022. O docente afirmou à época ter passado por diversos episódios de racismo, desde uma pichação após a mudança para Ribeirão Preto até situações veladas, já quando servidor da universidade.

"Da minha entrada na universidade à ascensão a professor titular, o que mais ouvi foi 'desista, não é para você, esse não é o seu lugar'. Escutava isso em conversas com colegas e em outras ocasiões", afirmou à época.

Amâncio afirma que a relação da USP com a sociedade é um dos principais desafios da instituição, especialmente em meio aos impactos da reforma tributária no modelo de financiamento das instituições de ensino superior públicas. O estado precisará alterar dispositivo constitucional que reserva um valor do ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços).

"Todos os indicativos políticos são positivos no sentido da manutenção do modelo de financiamento e do reconhecimento do papel das universidades públicas paulistas como elemento central para o desenvolvimento. Mas, ainda assim, é momento de 'prestações de contas'", atesta.

Por isso, argumenta ser fundamental um maior investimento em extensão, já que, segundo o professor, as universidades são instadas a demonstrar valor para a sociedade. Para ele, a USP precisa ser capaz de mostrar que produz inovação, tanto em tecnologia quanto no campo das políticas públicas, por exemplo.

"A criação do Escritório Ciência e Sociedade, no marco desta gestão, será também uma contribuição importante na interface entre a universidade e a sociedade", diz ele, citando novo órgão que pretende ser um espaço de compreensão das demandas da sociedade à instituição.

Ressalta ainda a importância dos museus como o primeiro ponto de contato entre a USP e a população, especialmente com crianças e adolescentes. Ele foi vice-diretor do Museu do Ipiranga de 2020 a 2024, período coincidente com o bicentenário da Independência e no qual o local foi reaberto ao público após nove anos em reforma.

Nascido no Recife e docente da universidade paulista desde 2002, ele fez graduação na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, mas guinou a carreira acadêmica para as humanidades. Titulou-se doutor em ciência política, estudando a relação entre o empresariado brasileiro e as negociações para a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), proposta americana de integração comercial do continente.

A mudança não se deu porque não gostava de medicina. Amâncio se viu, na verdade, mais interessado nas questões sociais que rondavam a área clínica. Queria conhecer o histórico e a experiência dos pacientes, e gostava de entender os aspectos sociais da vida humana– o que o fez ter contato com obras de sociologia e política e o levou a seguir as ciências sociais em definitivo.

Escolheu a ciência política, e mais especificamente as relações internacionais, diante do momento de consolidação da democracia brasileira. A efervescência das discussões sobre a integração do comércio nas Américas o fez mergulhar no estudo das negociações internacionais, suas técnicas e dinâmicas.

Essa intensificação da discussão acadêmica sobre política externa ganhou tração antes em Brasilia, com a UnB (Universidade de Brasília), e chegou depois em outros polos acadêmicos do Brasil. Na USP, o curso de relações internacionais foi criado em 2001, um ano antes de Amâncio ingressar na instituição.

Como docente e em meio ao momento de criação de uma nova área na universidade, colaborou para o aperfeiçoamento da graduação em RI e para a criação da pós-graduação na área. Fundou um centro de estudo e análise das negociações internacionais em 2005. Em 2019, foi a vez de lançar uma escola de diplomacia científica que estuda a relação entre o intercâmbio de pesquisa e desenvolvimento e colabora para o desenvolvimento das relações entre países ou regiões.

A experiência na chefia de uma unidade da USP o levou ao Museu do Ipiranga. Era mais uma mudança de rumos, já que não teve contato com a museologia. Foi convidado para uma chapa à diretoria do museu pela professora Rosaria Ono, da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo). Ela também estava interessada na capacidade de internacionalização do museu e interlocução com o setor privado.

Não foi fácil lidar com a importância do museu e com o fogo político em que a instituição estava envolvida —ele era mais um flanco da disputa entre o então governador de São Paulo, João Doria (ex-PSDB), e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

"Todo mundo sabe que o Museu do Ipiranga é um patrimônio cultural do país. Não vai pegar bem fazer uso político de maneira mesquinha, não vai colar", afirmou Amâncio em 2022 à Folha, sem citar nomes.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Caso Master: o Brasil entrou na era dos grandes crimes financeiros - Adriana Fernandes, Lucas Marxhesini (FSP)

Caso Master teve espionagem e envolveu uma teia de 216 fundos e 143 empresas

ADRIANA FERNANDES / LUCAS MARCHESINI

FSP 10.04.2026

Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes que envolveram a tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília).

Naquele dia, uma ação de hackers conseguiu acessar toda a documentação do caso, que estava no computador do procurador Gabriel Pimenta, então responsável pela investigação criminal aberta pelo MPF (Ministério Público Federal) contra o dono do Master.

Só Pimenta tinha acesso aos arquivos do processo que foram parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.

O acesso ilegal foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas pela área de tecnologia do MPF, mas o esquema de espionagem não parou por aí.

A despeito do nível 5, grau máximo de sigilo adotado pela Justiça, o ex-banqueiro também soube com antecedência que o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, havia assinado, por volta das 15h de 17 de novembro, o pedido para prendê-lo na primeira fase da operação Compliance Zero, que investigou a venda de R$ 12,1 bilhões de carteiras de crédito para o BRB.

O vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do time de Vorcaro, segundo relatos feitos à Folha, numa sucessão de eventos comparada por investigadores a um enredo de filme policial. A jogada final de Vorcaro na tentativa de sair ileso seria a fuga do país.

Ao mesmo tempo em que corria para conseguir autorização pelos órgãos de controle do tráfego aéreo para um plano de voo para Malta, no Mediterrâneo, a defesa dele apresentava uma petição ao juiz para revogar qualquer medida cautelar que fosse expedida para evitar a prisão.

No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.

Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro se reuniu, por videoconferência, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o seu adjunto, Paulo Sérgio de Souza. Os dois últimos foram afastados do banco e são investigados por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.

Na reunião, o dono do Master falou das iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato apresentado incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.

A fala acendeu a desconfiança no BC do risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro tinha pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado só para o fim daquela semana.

Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a PF monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa de fuga, alegando que ele estava embarcando para Dubai para contatos com compradores.

Integrantes da corporação avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria que ele tentava fugir do país e que foi abastecido por informantes, como mostraram depois mensagens retiradas do celular trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário".

Identificado pela PF como operador central de um grupo chamado "A Turma", ele coordenava atividades voltadas à obtenção de informações e monitoramento de pessoas e uso de violência.

Mourão morreu, no início de março, após tentativa de suicídio em uma cela da superintendência do órgão em Minas Gerais, segundo informações da PF, logo depois de ter sido preso na segunda fase da Compliance Zero.

ESTADO TERMINAL

A estratégia de Vorcaro não deu certo. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite do dia 17. O colegiado do BC já tinha aprovado a liquidação do Master, quase na mesma hora em que o juiz assinou a prisão.

O anúncio só foi feito no dia seguinte (18) depois que o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrou no prédio do Master em São Paulo. O BC concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que evoluiu para uma crise aguda e insustentável:

"As estratégias de negócios inadequadas, acompanhadas de graves irregularidades e ilícitos (incluindo cessão de créditos inexistentes e descumprimento reiterado de normas regulatórias), aliadas à composição de ativos de baixa liquidez e à frustração de soluções de mercado, justificaram a adoção imediata de medidas saneadoras", justificou o BC em relatório ao TCU (Tribunal de Contas da União).

Funcionários antigos do BC contaram à reportagem que nunca tinham visto tanta pressão sobre o órgão. Em depoimento à CPI do crime organizado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, relatou um episódio às vésperas da decisão de veto à operação com o BRB, em setembro, que retrata a situação:

"Na semana da rejeição da compra do BRB, eu me lembro de fazer o caminho da minha residência até o BC e não havia um ponto de ônibus em que não tivesse a foto de um diretor do BC [Renato Gomes] acusado por rejeitar a aquisição, [dizendo] que ele estava fazendo um trabalho político por estar rejeitando", contou.

Imagens com a foto do então diretor Renato Gomes, responsável pela área que analisou e recomendou o veto à operação, foram espalhadas em painéis luminosos gerenciados pelo Metrópoles em Brasília, apontando ele como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão disse recentemente à Folha que os painéis exibem, além de propagandas, reportagens jornalísticas.

"Conforme conhecimento público, diversos veículos de comunicação firmaram contratos de publicidade com a dupla Master/BRB", completou.

Na véspera da negativa, partidos do Centrão na Câmara assinaram requerimento de urgência para um projeto de lei permitindo ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC.

Os dois movimentos resultaram numa união maior no colegiado do BC, que no início do processo estava dividido. Essa fragmentação ficou representada pelos diretores Aquino, que defendia uma venda do banco, e Gomes, que era a favor de uma liquidação mais rápida.

No dia do anúncio da liquidação, o Master tinha em caixa R$ 4,8 milhões, enquanto os vencimentos de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) eram de R$ 48,6 milhões naquela data. Somando os vencimentos de toda aquela semana, o passivo era de R$ 123,8 milhões.

O banco de Vorcaro terminou com um déficit de liquidez imediato superior a 2.400%. Ao TCU, o BC disse que a liquidação reduziu os custos para a sociedade e o FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Procurada nesta quinta (9) e sexta-feira (10), a defesa de Vorcaro não se manifestou.

TEIA DE FUNDOS E EMPRESAS

As fraudes do Master contavam com pelo menos 216 fundos diferentes e 143 empresas, de acordo com levantamento da Folha, que começou a ser montado a partir de janeiro deste ano. Um software especial foi utilizado para montar as conexões como se fossem um sistema solar e seus satélites. A lista é abastecida regularmente.

O fio dessa rede começou a ser puxado com base nos seis fundos da Reag, identificados como suspeitos pelo BC na investigação sobre o Master: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. Juntos, eles tinham um patrimônio líquido de R$ 102,4 bilhões.

Nesses fundos estão os ativos usados por Vorcaro para operar as fraudes, como os papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), conhecidas como cártulas, e créditos de carbono.

Esses ativos de difícil avaliação tinham o seu valor estimado como bilionário pelos fundos. A partir daí, suas cotas se valorizavam.

O dinheiro obtido era injetado em outros fundos e empresas da ciranda de fraudes. Em um desses casos, o dinheiro serviu para comprar a mansão de R$ 36 milhões que Vorcaro usava quando estava em Brasília e que foi frequentada por autoridades.

LINHA DO TEMPO

3 de setembro de 2025

BC veta o pedido de autorização para venda de ativos do Master para o BRB. O indeferimento foi fundamentado no fato de que a operação não satisfazia o requisito de viabilidade econômica-financeira exigido para esse tipo de transação

23 de setembro de 2025

Vorcaro vende sua participação na seguradora Kovr para os sócios minoritários no negócio e tenta renovar a linha de assistência do FGC com promessa de venda de outros ativos pessoais

30 de setembro de 2025

Reportagem da Folha revela que a PF abriu inquérito sigiloso sobre o banco Master após o BC denunciar suspeitas de fraudes ao MPF. Com o inquérito, Vorcaro não tem mais chance de renovação de linha no FGC devido à cláusula das regras contratuais do fundo

Novembro de 2025

BC faz nova comunicação ao MPF após descobrir novos indícios de crimes de desvio de recursos e gestão fraudulenta

17 de novembro de 2025

Reunião entre Vorcaro e a supervisão do BC, entre 13h30 e 14h10, sem apresentação de propostas formais de solução. É protocolada no mesmo dia proposta de sócios da Fictor para aquisição do Master. Operação é anunciada no final da tarde

17 de novembro de 2025

Diretoria do BC aprova a liquidação extrajudicial dos bancos Master, Master de Investimentos, Letsbank, Master corretora e Raet (Regime de Administração Especial Temporária) para o Will Bank. Vorcaro é preso no Aeroporto Internacional ao tentar embarcar em jatinho particular ao tentar embarcar para Dubai.

18 de novembro de 2025

Anúncio da liquidação é feito na manhã do dia seguinte após liquidante entrar na sede do Master em São Paulo


domingo, 14 de dezembro de 2025

'Memórias', do embaixador Marcos Azambuja, é uma aula de diplomacia - Elio Gaspari (FSP)

 Itamaraty

 'Memórias', do embaixador Marcos Azambuja, é uma aula de diplomacia

Embaixador foi um grande contador de histórias, engraçado, irreverente e até picante

Azambuja fala mais de suas ideias e das ideias dos outros

Elio Gaspari, Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada"

Folha de S. Paulo. 14/12/2025

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) acaba de publicar "Memórias", do embaixador Marcos Azambuja (1935-2025). São 368 páginas de longas entrevistas dadas a Gelson Fonseca Jr., Monica Hirst e Alexandra de Mello e Silva.

É uma aula de diplomacia e serviço público, na voz de um diplomata, ex-secretário-geral do Itamaraty, embaixador em Buenos Aires e Paris. Quando os diplomatas rememoram, falam mais de si. Azambuja fala mais de suas ideias e das ideias dos outros. Faz isso com uma certa desembargadorização (palavra que ele usava).

O embaixador Marcos Azambuja durante palestra no Cebri, no Rio de Janeiro - Tomaz Silva - 18.jul.24/Agência Brasil

Azambuja foi um grande contador de histórias, engraçado, irreverente e até picante. Nas entrevistas fez poucas concessões à leveza. Tratando de Lula, disse:

"Eu acho que um dia o Lula, como se fosse um rei francês, deverá ser numerado: Lula 1º, Lula 2º, Lula 3º, Lula 4º. O Lula que chegou ao poder é o Lula 5º ou o Lula VI".

Falando do general João Baptista Figueiredo:

"O fim do governo Figueiredo é um dos momentos mais melancólicos da história do Brasil. Aquele homem fisicamente deteriorado, cercado de pessoas que o manipulam em certa parte. É um Brasil diminuído."

Sua irreverência impediu que fosse definido como um diplomata de vitrine. Suas memórias revelam o pensador que havia naquele personagem divertido.

Estranho às modas da Casa, via o Brasil à sua maneira:

"Vou tentar resumir tudo o que eu tenho pensado em política externa. Eu acredito que o Brasil tem poder suficiente para participar dos jogos exclusivos de desenho do mundo, mas não tem a capacidade de resistir a essas tendências. Em outras palavras, eu não creio que o Brasil tenha poder suficiente para criar um obstáculo a nada que vá nascer. O que ele tem é capacidade de influência de alguns aspectos daquilo que está nascendo. Portanto, não é de fora, se juntando a um coro que será inócuo, mas sim de dentro, influenciando num bom sentido."

Em 1982, o governo de Ronald Reagan queria invadir o Suriname.

O Brasil condenou a ideia, se ofereceu para acalmar o ditador local e avisou:

"O Brasil não gosta de tropas na sua fronteira".

Falando do prazer que teve na embaixada em Paris, matou a pau:

"Na França, quase todo brasileiro vai expressamente para não fazer nada".

 

·                https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2025/12/memorias-do-embaixador-marcos-azambuja-e-uma-aula-de-diplomacia.shtml

 

Comentários

Marcos BenassiHá 7 horas

Que diferença, hein, sêo Elio? Hoje, o Brasil põe algum limite no "soft Power" (que de mole, tem nada não) gringo, contendo suas biguitéquis e dá exemplo, falando "pra fora", à Austrália. Diplomacia é treco misteriosíssimo!

 

Maria LopesHá 9 horas

O embaixador Azambuja escreveu vários artigos para a Revista Piauí. Ótimos. As Memórias vão para a lista .

 

 

Com disputa entre Poderes, Brasil vive baderna institucional - CHRISTIAN LYNCH (FSP)

Com disputa entre Poderes, Brasil vive baderna institucional

CHRISTIAN LYNCH

FSP 13.12.2025 

[RESUMO] Em análise da conjuntura política do país, autor argumenta que reconstruir um modelo de governabilidade estável se tornou inviável, já que cada Poder busca reafirmar a sua supremacia sem um pacto mínimo de convivência. Enquanto o Executivo busca recuperar seu poder de agenda, o STF resiste a perder espaço, a extrema direita bolsonarista tenta voltar à Presidência e o centrão se empenha em consolidar sua hegemonia no Congresso.

O artigo 2º da Constituição afirma que os Poderes da República são "independentes e harmônicos entre si". Trata-se de uma quimera: se são independentes, não são automaticamente harmônicos e, se pretendem sê-lo, precisarão moderar essa independência.

A harmonia institucional não decorre do texto constitucional, mas de modelos de governabilidade criados a partir de sua interpretação — modelos capazes de coordenar expectativas, prerrogativas e ambições de cada Poder, criando previsibilidade em suas relações. Quando esses modelos existem, o regime constitucional respira; quando se desfazem, o país entra em espiral de instabilidade.

Ao longo de dois séculos, tais modelos variaram conforme conjunturas e correlações de força. O chamado modelo regressista ou saquarema, criado por Bernardo Pereira de Vasconcelos, estabilizou, nos anos 1840, um sistema parlamentar em que o Executivo imperial impunha direção ao nascente Estado nacional. A política dos governadores, inaugurada por Campos Sales em 1900, traduziu-se em um arranjo que garantiu ao Executivo republicano a governabilidade coordenando as oligarquias estaduais.

Já no período pós-1988, o presidencialismo de coalizão organizado por Fernando Henrique Cardoso ofereceu, a partir de 1994, uma estrutura relativamente estável de trocas institucionais e permitiu previsibilidade à condução política. Nenhum desses arranjos era idílico, mas todos domesticaram o conflito e contiveram a instabilidade.

Há dez anos, contudo, o Brasil vive sem modelo eficiente de governabilidade. O que funcionara desde os anos 1990 — o presidencialismo de coalizão com dominância do Executivo — entrou em colapso. Assistimos a Poderes que se digladiam, se sabotam e tentam se anular mutuamente, em um ambiente em que a possibilidade de golpe, alto ou baixo, reaparece sempre que um deles se percebe acuado.

A República funciona como uma permanente guerra de trincheiras, sem regras estáveis, arbitragem reconhecida ou horizonte de acomodação. Nenhum ator reconhece limites estáveis ao exercício de sua autoridade.

A instabilidade crônica explodiu com a Lava Jato, que inaugurou aquilo que chamei de revolução judiciarista: uma investida de inspiração neoconstitucionalista que atribuiu ao Judiciário um protagonismo sem precedentes, convertendo-o de árbitro em ator político central. O próprio modelo de governabilidade, o presidencialismo de coalizão, passou a ser combatido como intrinsecamente corrupto.

Desfeita a lógica que coordenava expectativas e administrava conflitos, instalou-se a luta institucional: decisões judiciais com pretensão de dirigir o país, um Ministério Público investido da missão de purificar a República e um sistema político acuado. O equilíbrio possível implodiu, e nada foi colocado no lugar.

O Legislativo dominado pelos partidos da direita institucional, vulgarmente chamados de centrão, reagiu, tentando neutralizar o Judiciário apoderando-se do Executivo. O impeachment de Dilma Rousseff deve ser compreendido nesse contexto, não como mero desdobramento de crise econômica ou dos protestos de rua, mas como operação de reposicionamento institucional do Congresso contra a preeminência do STF (Supremo Tribunal Federal) e da Lava Jato.

Apoiado por Gilmar Mendes, Michel Temer desmontou, gradualmente, os dispositivos de poder acumulados por Curitiba. Foi o "termidor" da revolução judiciarista. Não por acaso, o Tribunal Superior Eleitoral, então presidido por Gilmar, absolveu Temer e o manteve no poder: por "excesso de provas".

A eleição de Jair Bolsonaro representou um baque inicial nesse processo. Bolsonaro jamais compreendeu a máquina do Estado e nunca formulou diagnóstico realista da conjuntura. Seu populismo reacionário era guiado pela ignorância e pelo negacionismo, travestidos de senso comum conservador. Apostou em um bonapartismo retrógrado, que restauraria a ditadura militar por meio de um cesarismo de WhatsApp.

O fracasso o jogou no colo da classe política que dizia combater. Ao enterrar a Lava Jato e alugar o governo ao centrão para sobreviver, entregou-lhe as chaves do Orçamento, abrindo-lhe caminho para a captura do Executivo. Simultaneamente, a extrema direita declarou guerra ao STF, produzindo um ambiente de hostilidade permanente que o centrão soube instrumentalizar — ora como ameaça, ora como biombo.

Realizou-se então metade do sonho do centrão: estabelecer, no Brasil, por uma espécie de parlamentarismo bastardo, a hegemonia de uma oligarquia congressual autorreprodutível, financiada pelo Fundo Eleitoral e pelas emendas parlamentares. Nesse sentido, a eleição de Lula, em regime de governo minoritário, não foi má para o bloco. O centrão não queria a autocracia estúpida de Bolsonaro, que ameaçava inclusive seu espaço; queria um Executivo fraco, dependente, obrigado a negociar sua sobrevivência cotidiana com um Congresso hegemonizado por lideranças conservadoras.

A debilidade estrutural do governo, somada à distância ideológica entre a média do Executivo (social-democrata) e a média do Parlamento (conservadora), criou o ambiente ideal. Pôde ocupar metade da Esplanada e entregar apoio apenas seletivo, jamais estrutural, à agenda presidencial.

Na impossibilidade ou na falta de desejo de assumir regime parlamentarista, o centrão limita-se a conservar e, quando possível, ampliar a hegemonia adquirida com a apropriação do Orçamento, o controle da agenda e a expansão da própria base parlamentar. Opera como polvo de múltiplos tentáculos, ajustando simultaneamente sua relação com três polos: a extrema direita bolsonarista, o STF e o Executivo fragilizado.

Apoia o STF contra o golpismo mais radical — porque o golpismo ameaça também o Congresso —, mas resiste à anistia ampla dos golpistas, porque não deseja recolocar Bolsonaro no jogo de 2026. O centrão quer a extrema direita como força útil, não dirigente. Por isso, deixa ao STF o serviço sujo de punir deputados golpistas, preservando-se do desgaste perante o eleitor radicalizado.

É nesse contexto que se compreende o acordo informal entre governo e STF. Separado do Congresso por distância ideológica incontornável e destituído dos instrumentos tradicionais de cooptação, Lula buscou no STF alguma compensação.

O tribunal, por sua vez, deseja punir os golpistas que tentaram destruí-lo e prevenir que um novo ciclo legislativo, especialmente no Senado, organize o impeachment de ministros em 2027. Daí o "judiciarismo de coalizão": recorrer ao tribunal, sobretudo aos ministros mais novos, como Flávio Dino, para conter perdas legislativas, preservar parte do poder orçamentário e impor limites ao apetite predatório do Congresso. É aliança de circunstância entre dois Poderes em posição defensiva: o Executivo, fragilizado, e o STF, desafiado.

Mas o centrão reage também a essa aproximação. Seu segundo grande objetivo — além de preservar a autonomia orçamentária que garante sua reeleição indefinida — é a absoluta impunidade de seus membros. Não basta controlar o Orçamento, é preciso controlar o alcance das decisões judiciais que atinjam deputados e senadores, golpistas ou corruptos. Para manter coesão e eminência, os líderes precisam assegurar aos parlamentares que seus mandatos dependerão exclusivamente deles. Ou seja, blindagem corporativa.

Quando a Câmara se recusa a cassar o mandato de Carla Zambelli, afrontando o STF, envia o recado: nenhum freio judicial será aceito quando tocar nas condições de autoproteção da oligarquia. A ordem de Alexandre de Moraes ao presidente da Câmara para cassar a deputada, no dia seguinte, evidencia o caráter particularmente agressivo da guerra entre Legislativo e Judiciário.

Em síntese, reconstruir um modelo tornou-se inviável porque cada Poder disputa supremacia. O Executivo tenta recuperar o poder de agenda do antigo presidencialismo de coalizão. O STF, fortalecido desde o mensalão, resiste a perder espaço. A extrema direita bolsonarista tenta voltar ao poder para destruir o sistema que a limita. O centrão empenha-se em consolidar sua hegemonia e neutralizar ou cooptar o Judiciário. Mais: quer recuperar o Executivo e a administração pública, não mais pelas mãos disfuncionais e golpistas do clã Bolsonaro, mas por meio de um candidato seu.

Essa assimetria impede um pacto mínimo de convivência: cada Poder tenta recuperar, preservar ou expandir seu espaço institucional.

A hegemonia parlamentar existe, mas não constitui modelo de governabilidade porque não é reconhecida como legítima pelos demais atores. Um regime pressupõe aceitação mútua, previsibilidade e deferência recíproca. Não foi o que vimos nos últimos dias — ao contrário.

Diante das eleições que se avizinham, o STF, o bolsonarismo e o governo atacaram o centrão quase simultaneamente e por motivos distintos. Contra o alijamento da família Bolsonaro de seus planos eleitorais, a extrema direita lançou a candidatura presidencial do filho mais velho do ex-presidente, agora presidiário. O STF também moveu suas peças: diante da ofensiva para promover impeachment de ministros em 2027, Gilmar Mendes alterou por liminar a interpretação da lei para blindar todo o tribunal. Já o governo fez o que pôde: segurou o pagamento de emendas, condicionando-o à aprovação de sua agenda.

Pressionado por todos os lados, o centrão distribuiu como prêmios de consolação seus presentes de fim de ano: ao bolsonarismo, a redução de penas dos envolvidos no golpismo, mas não a anistia; ao STF, o avanço da nova lei de impeachment, dificultando a remoção de ministros; ao Executivo, o andamento do projeto de redução da jornada laboral de seis para cinco dias e o restabelecimento do texto-base do projeto antifacção.

Em cada movimento, inclusive na proporção em que cedeu, porém, o centrão reafirmou sua condição a partir do Congresso como árbitro da política nacional. Montesquieu pode estar no inferno, mas não há dúvida sobre quem está no céu —ou quase: o centrão.

Reconstruir um modelo de governabilidade a partir do texto constitucional não é tarefa simples. É preciso algum consenso sobre o destino institucional —consenso distante, especialmente da extrema direita, empenhada em destruir a própria Constituição. O mero triunfo de qualquer dos três Poderes não parece oferecer automaticamente qualquer resolução duradoura da crise.

Do lado do Executivo, mesmo que Lula recuperasse parte das prerrogativas executivas do antigo presidencialismo de coalizão, isso não resolveria o problema: nenhum modelo anterior de governabilidade atribuía ao STF papel político de relevo. Embora o judiciarismo tenha sido constante na República, o tribunal jamais foi protagonista; tampouco atuou como poder moderador informal —papel, como se sabe, indevidamente exercido pelas Forças Armadas.

Por outro lado, a aceitação pura e simples da pretensão do STF como ator central não tem como resolver a situação. Há um problema de desenho institucional na Constituição, que torna o tribunal ao mesmo tempo órgão de cúpula do Judiciário e Corte constitucional. A Corte não pode ser árbitro e parte interessada ao mesmo tempo.

Para piorar, sua pretensão de supremacia tem sido aparentemente utilizada por determinados ministros para o exercício de práticas pouco republicanas, para não dizer corruptas. Daí que, por receio de punição ou simples arrogância dos honestos, muitos deles resistam a se submeter a códigos éticos de conduta e, principalmente, a qualquer possibilidade de controle externo.

Por fim, a formalização da hegemonia do centrão em sistema semipresidencial parece inteiramente inviável. O STF deseja a mudança do sistema, supostamente o bloco também, mas há resistência intransponível da esquerda hoje no governo, historicamente presidencialista.

Além disso, há dúvidas sobre a constitucionalidade de mudança sem plebiscito ou referendo, hipótese em que ela provavelmente seria novamente repelida, agora pela terceira vez. Na dúvida, a direita prefere ficar como está: mandando sem responsabilidade enquanto sonha em eleger seu próprio presidente.

Em um quadro como esse, a tendência sistêmica a longo prazo seria a estabilização oligárquica: o famoso acordão preconizado por um notório centrônico da década passada, "com o Supremo, com tudo". Em outras palavras, blindagem geral.

Mas essa estabilização tampouco garante estabilidade. A insatisfação crescente com a mais baixa qualidade da democracia fatalmente alimentará novas candidaturas antissistema: outro Bolsonaro, um Pablo Marçal, qualquer figura disposta a capitalizar o ressentimento acumulado. O arranjo oligárquico evitaria a quebra explícita, mas produziria uma erosão silenciosa que fragilizaria instituições, preparando terreno para novas aventuras antidemocráticas.

Avançamos, assim, para 2026. Nesse clima de baderna institucional e ideológica, chegam à mesa do eleitor os pratos do banquete eleitoral: o facho-reacionarismo da extrema direita, sempre pronto a vestir o manto da resistência à "tirania" do STF e do "comunismo", a democracia social da centro-esquerda, prometendo governar com poderes que já não possui, e o conservadorismo oligárquico centrônico, cada vez mais senhor do jogo.

Bom apetite.


Postagem em destaque

Itamaraty: Instituição ameaçada - Rubens Barbosa (Estadão)

Opinião  Itamaraty: Instituição ameaçada O novo chanceler prestaria um grande serviço ao País se adotasse pragmatismo responsável 2.0, com p...