sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista - Paulo Roberto de Almeida

Combatendo a extrema-direita na diplomacia brasileira, partir de agora até as eleições...

    Posso ser liberal na economia, anarquista na cultura, democrático na política, conservador na diplomacia (ou seja, em defesa dos padrões tradicionais da diplomacia brasileira (contrário, portanto à política externa partidária, ideológica e personalista tal como praticada atualmente), mas uma coisa que não suportaria contemplar seria a destruição da diplomacia e da política externa tal como foi posta em prática pelo bolsolavismo diplomático, uma vergonha para o Brasil, dada a submissão abjeta, não só aos EUA, mas ao presidente desequilibrado que voltou ao poder em 2025, e já se ativa em destruir a ordem global e o multilateralismo.
    Vou dedicar-me a relembrar o horror que foram os anos de dominação do Itamaraty e da política externa por um bando de beócios amadores, ignorantes em política externa, subservientes ao império americano e partidários da degradação das instituições multilaterais (no que seguiam o antiglobalismo imbecil da extrema-direita americana) e da integração regional.
    Começo por relembrar um trabalho daquela época:

“Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista”. Incorporado como parte de um capítulo no livro Uma certa ideia do Itamaraty: a reconstrução da política externa e a restauração da diplomacia brasileira (2020).

Sete pecados capitais da diplomacia bolsolavista

Paulo Roberto de Almeida

A diplomacia bolsolavista, formulada em grande medida fora do Itamaraty e operada apenas formalmente por auxiliares da Casa, é feita de rupturas com respeito aos padrões históricos da política externa brasileira, que sempre foi tradicionalmente caracterizada pela busca de autonomia e comprometida, antes de mais nada, com o interesse nacional. Ela é tão bizarra no horizonte bissecular de nossa diplomacia que sequer pode ser assemelhada a uma espécie de desvio padrão numa linha de tendência da política externa nacional, pois ela se situa completamente fora do quadro. Observando-se cronologicamente seu desempenho em um ano e meio de esquisitices de inspiração bolsolavista, pode-se identificar os sete pecados capitais dessa diplomacia sui generis:

1) Ignorância: não parece haver dúvidas de que os que conduzem, de fato, as relações exteriores do Brasil são profundamente ignorantes sobre as relações internacionais e sobre a própria política externa do Brasil. O filho 03 do presidente, que exerce esse papel, não tem a menor ideia de quem foi, nem nunca ouviu falar de Henry Kissinger.

2) Irrealismo: esses “decisores” começam partindo de uma fantasmagoria, o tal de globalismo – que nunca demonstram existir empiricamente – e passam daí a atacar o método por excelência da diplomacia contemporânea: o multilateralismo.

3) Arrogância: como a anterior tribo dos lulopetistas, eles acham que tudo o que existia antes deles foi errado; o chanceler acidental vive apontando distorções na política externa dos últimos 30 anos (falou até “depois de Rio Branco”), não mencionando que serviu de forma obediente todas essas distorções até com entusiasmo (existem provas disso). Ele fez uma completa reforma do Itamaraty sem jamais consultar seus colegas de carreira: por cima.

4) Servilismo: a frase símbolo desse alinhamento automático é o famoso “I love you Trump”, disparado pelo presidente a seu colega americano em setembro de 2019 na ONU. Teve início no primeiro dia de governo quando se ofereceu uma base militar americana no Brasil, prontamente rejeitada pelos ministros militares; mas tem muitos outros exemplos.

5) Miopia: já manifestada numa alegada “ameaça globalista”, tem recusado a cooperação multilateral no combate a um desconhecido, até aqui, “comunavirus”; ela se manifestou em especial na animosidade em relação à China e numa adesão unilateral ao governo de Israel, desconhecendo a complexidade dessas relações e ameaçando negócios e investimentos extremamente relevantes para o presente e o futuro do Brasil.

6) Grosseria: Ela se manifestou sobretudo em direção de líderes estrangeiros que não pensam como o presidente, com ofensas a estadistas europeus comprometidos com a defesa do meio ambiente e também a dirigentes vizinhos de outras correntes políticas.

7) Inconstitucionalidade: a primeira já está comprometida no servilismo, ou seja, a renúncia à independência nacional, para subordiná-la a um dirigente estrangeiro, mas também existe a intervenção nos assuntos internos de outros países; a mais grave é o desconhecimento do Direito Internacional, manifestado no apoio às sanções unilaterais do governo americano, o que pode concretizar-se inclusive contra o próprio Brasil, como no caso das salvaguardas abusivas (e ilegais) contra exportações brasileiras de aço e alumínio.

Todos esses pecados se revelaram abertamente na recusa do multilateralismo, na negligência de normas consagradas do Direito Internacional, no abandono da formulação autônoma da política externa brasileira, na relativização da noção de interesse nacional, na substituição da diplomacia profissional pelos preconceitos de amadores ignorantes, assim como o desprezo pelos princípios constitucionais das relações internacionais. Dois exemplos, entre outros, da subordinação aos EUA: a aceitação do candidato americano à presidência do BID e a adesão ao veto de Trump à participação da empresa chinesa Huawei no leilão do 5G.

Vou dar continuidade a esta ofensiva contra os ignorantes da política externa e destruidores da qualidade de nossa diplomacia.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 23 janeiro 2026



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