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sexta-feira, 10 de julho de 2026

O Estado-nação pode não ser a forma mais evoluída, ou atualizada, de organização social e política de uma comunidade - Augusto De Franco

 Um texto interessante, cientificamente embasado, sobre a evolução estatal da humanidade, nos últimos cinco mil anos. O Estado pode ser um cerceamento da liberdade individual, não necessariamente um promotor de democracia. Mas o debate é bem mais complexo. PRA

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A resiliência da anacrônica forma Estado-nação

E o exemplo da educação


Soberania de Vestfália – Wikipédia, a enciclopédia livre

Todos os problemas e todas as medidas para enfrentar esses problemas são pensadas como se o sujeito único fosse a forma atual de Estado, o Estado-nação (ou o que chamamos de país). A sociedade não é sujeito (um modo de agenciamento autônomo, ao lado do mercado e, sobretudo, do Estado): é um epifenômeno, não raro é encarada (sem que quem assim a encare, não o declare) como dominium do Estado (no sentido quase feudal mesmo do termo).

Na maior parte (proporcionalmente quase a totalidade) da caminhada humana sobre a Terra não existiu Estado. O gênero Homo surgiu há 2,8 milhões de anos e a espécie Homo Sapiens há cerca de 300 mil anos. Somente de uns 6 a 5 milênios para cá tivemos, ao longo do tempo, várias formas de Estado. Os proto-Estados associados às hordas de predadores e senhores que apareceram, talvez, nas margens setentrionais do mar Cáspio (ou com o surgimento dos kurgans ou da cultura Yamna ou Yamnaya e da sociedade proto-indo-europeia ou, ainda, da estepe pôntico-cáspia, aproximadamente entre 4000 e 3000 a.C., onde podem ser exploradas as raízes ancestrais da tirania - mas nada disso se sabe ao certo), o Estado-Templo-Palácio sumeriano, a cidade-Estado antiga, os Estados pseudo-feudais antigos, as formas de Estado teocrático associadas ao chamado “modo de produção asiático” (ou ao “despotismo hidráulico”), os Estados feudais medievais (e. g. europeus e japoneses), os Estados principescos e reais do Renascimento e do pós-Renascimento, até chegar à forma Estado-nação surgida no século 17 (e sob a qual ainda estamos): um fruto da guerra, da paz de Vestfália. Como se sabe, a paz de Vestfália (assinada em 1648), encerrou a devastadora Guerra dos Trinta Anos na Europa. Ao permitir que cada governante local escolhesse a religião de seu próprio território, os Tratados de Münster e Osnabrück inauguraram o formato de Estado-nação.

Como definir a forma Estado-nação?

A forma vestfaliana de Estado (o Estado-nação moderno) é o modelo de organização política e soberania territorial que estabelece que cada Estado possui autoridade exclusiva e jurisdição absoluta sobre o seu próprio território, população e assuntos internos, sem interferência ou subordinação a potências externas. Esse modelo - que moldou o sistema internacional moderno - teve como pilares fundamentais:

Soberania Exclusiva. O poder supremo dentro de um território pertence ao Estado, eliminando a autoridade de poderes supranacionais (como a Igreja ou Impérios antigos).

Não Intervenção. Um Estado não deve interferir nos assuntos políticos ou religiosos internos de outro. 

Territorialidade. As fronteiras geográficas definem os limites exatos onde o poder do Estado é aplicado e onde suas leis são válidas.

Igualdade Jurídica. Em teoria, todos os Estados soberanos são reconhecidos como juridicamente iguais perante o direito internacional, independente do seu tamanho ou poder militar.

Qual o principal problema do protagonismo exclusivo do Estado-nação?

O principal problema é que cidades (o sistema dinâmico complexo, quase um “ser vivo”, onde boa parte da humanidade vive, não propriamente o Estado sub-nacional) e comunidades (idem, mutatis mutandis) também são sujeitos do desenvolvimento (que é, na verdade, um metabolismo da rede social que chamamos genericamente de sociedade). 

Temos no mundo, talvez, mais de 4 milhões de cidades e assentamentos urbanos (embora esse número pareça exagerado se não incluirmos aí localidades habitadas não tipicamente urbanas). Além disso, temos milhares de culturas linguísticas (mais de 7 mil linguas vivas). Tudo isso não pode ser representado por (ou aprisionado em) cerca de apenas 200 países (Estados-nações).

Além disso, existiram múltiplas cidades que ficaram milênios sem-Estado, perduraram e se desenvolveram enquanto isso. Os exemplos mais antigos, conhecidos até agora, são Jericó (desde cerca de 10.000 anos a.C.), Çatalhöyük (há cerca de 7.000 anos a.C.) e Göbekli Tepe (embora não se saiba se foi mesmo uma cidade ou um sítio ritual-cerimonial de caçadores-coletores erigido há mais de 9.000 anos) e, inclusive, Damasco (habitada há 6.000 a.C.). 

Significativa também nesse sentido é a hipótese do arqueólogo brasileiro Eduardo Goes Neves (USP), de que populações amazônicas, há 8 mil anos, construíram sociedades densas e complexas sem evoluir para Estados, “vislumbrando o Estado, mas dele fugindo sempre que puderam”. Neves declara em recente entrevista:

“As evidências nos dizem que o Estado não aconteceu não por causa de alguma deficiência ou elemento que conduziria a esse estágio ‘superior’, mas de fato como uma ação política positiva, que tem a ver com a evitação da centralização política como alternativa, como maneira de se viver. Temos evidências que nos permitem tratar o Estado como uma anomalia, e não a ausência do Estado como anomalia. Aparentemente não tem Estado porque eles não quiseram”.

O Estado não surgiu porque era incompatível com um determinado modo-de-vida não-verticalizante. E isso é fascinante! 

Hannah Arendt (1958), em A condição humana, já havia percebido que “a polis não era Atenas e sim os atenienses”. Ou seja, não era a Cidade-Estado e sim a koinonia, a comunidade política. Na cidade-Estado, por exemplo, jamais teria sido inventada a democracia. Ela não nasceu como regime político e sim como modo-de-vida. Nasceu na sociedade, ou seja, na comunidade de conversantes que emergiu na praça do mercado (a ágora).

Como fica o Estado-nação em uma sociedade-em-rede?

Jean-Marie Guehenno (1993) e Manuel Castells (1996), que anunciaram o advento de uma sociedade em rede, que iria acarretar grandes mudanças no mundo (e nas ordens internacionais pretéritas), não estavam errados. A sociedade em rede está aí. O que eles não contavam era com a imensa reação do Estado-nação, que moveu uma contra-ofensiva brutal para não ser desabilitado como fulcro do sistema (universal) de governança. Aliás, essa ofensiva está associada à atual recessão democrática e inaugurou uma terceira onda de autocratização que está varrendo o mundo. Tudo isso foi acompanhado por um reflorescimento temporão-reacionário do nacionalismo e uma exarcebação do patriotismo - e como disse Shlomo Sand (2012) em A invenção da Terra de Israel, “a pátria se mostraria uma das mais supreendentes e talvez a mais destrutiva das criações da era moderna”.

A chamada crise da democracia dos modernos é, na verdade, a crise do Estado-nação, essa anacrônica forma de governança inadequada para uma sociedade-em-rede. Mas democracia dos modernos (a segunda democracia) foi coetânea ao surgimento do Estado-nação. Um azar.

Há razões de sobra para suspeitar que muitos dos nossos problemas não são adequadamentge solucionados porque insistimos no caminho centralizador de resolvê-los a partir do protagonismo exclusivo do Estado-nação e ignoramos o que as pessoas, as cidades e comunidades, podem fazer.

O exemplo da educação

Um desses problemas é o da chamada educação, como já foi explicado no final do artigo Inteligência Artificial e Inteligência Humana que vamos transcrever, em parte, abaixo:

Até hoje todas as análises apontam a insuficiência de capital humano (a ser suprida por robustas políticas educacionais) como responsável por baixo desenvolvimento e pouca produtividade. A saída para tudo é mais educação. E isso é pensado centralizadamente para todo o país. O Estado-nação é praticamente o único sujeito que pode tomar providências para combater déficits de capital humano (ou melhorar a educação).

E aí surgem sempre os exemplos da Coréia do Sul e, em alguns casos, da Finlândia (que seria mais inovadora). Caberia aos governos implantar políticas semelhantes e esperar que sejam alcançados os mesmos resultados desses países. Há, porém, vários problemas com essa abordagem.

O primeiro problema é que a sociedade não é sujeito do processo educacional e sim objeto, melhor dizendo, paciente da ensinagem estatal. A oferta de políticas educacionais é centralizada e não se modifica diante das diferentes demandas de pessoas e comunidades que compõem a população.

O segundo problema é que o baixo desenvolvimento não é resultado apenas de capital humano insuficiente, mas também - e principalmente - de déficits de capital social.

O terceiro problema é o que se entende por ‘educação’. Quando se fala genericamente “a educação” isso é uma abstração que abrange (e homogeneiza) diversos processos de aprendizagem.

Além disso ‘a educação’ é entendida como o conjunto dos processos de ensinagem (e não propriamente de aprendizagem), baseados sempre em escola (mais bem organizada, com melhores e maiores recursos e distribuída em todo o território nacional) e professor (melhor preparado, bem remunerado, mais vocacionado e incentivado). Não se pergunta se devemos melhorar a educação que temos ou mudar essa educação.

O quarto problema é que, com o surgimento da Inteligência Artificial, a escola não sabe mais o que deve ensinar, nem como deve se comportar.

O que a escola está ensinando hoje será útil para o mundo em que as crianças de 2026 e os jovens de 2036 irão viver daqui a duas ou três décadas? Ou seja, poucos questionam se a escola sabe realmente o que está fazendo (se ela sabe quais serão as habilidades e os conhecimentos que serão requeridos pelo mercado e pela sociedade em 2046 ou em 2056).

A sociedade tem de assumir responsabilidades pela educação, não apenas atuando como auxiliar o Estado; por exemplo, vigiando as famílias para ver se os pais estão colocando seus filhos na escola (e denunciando os desviantes). Não apenas os governos, mas as empresas, as organizações da sociedade civil e as comunidades de vizinhança, de prática e de projeto, têm que ser também comunidades de aprendizagem.

Para superar esse problema, que já se arrasta por décadas, será necessário um novo movimento, não promovido por uma organização centralizada, mas por uma rede distribuída de iniciativas convergentes. Agentes de educação, atuando de baixo para cima, podem fazer o netweaving dessa rede e podem cumprir, em cada comunidade de aprendizagem, o papel de catalisadores desse processo educativo distribuído.

Não é necessário substituir a escola, mesmo porque isso não vai resolver os problemas da sociedade escolarizada (que se reproduz em todo lugar, inclusive nas famílias, nas igrejas, nas empresas e em outras organizações governamentais ou não-governamentais). Não adianta nada substituir a escola para montar em casa uma burocracia do ensinamento semelhante, substituindo o professor/a-patrão/troa pelo pai-patrão (ou pela mãe-patroa).

O que adiantaria é substituir o ambiente de ensinagem por ambientes de aprendizagem (no plural): isso pode ser feito em casa ou em qualquer comunidade (de vizinhança, de prática, de projeto); e pode ser feito, inclusive, em escolas (que tenham abertura suficiente para inovar). Homeschooling e communityscooling - ou, de preferência, homeunschoolinge communityunscholing - devem ser permitidos, sem que isso signifique abrir uma guerra com as escolas. 

Mas o Estado-nação, enquanto puder, em vez de aproveitar esse fabuloso aporte de recursos, vai abrir uma guerra contra tais inovações. O que só evidencia seu caráter retrógrado

segunda-feira, 30 de março de 2026

Augusto de Franco desmonta os argumentos da esquerda na guerra de agressão dos EUA contra o Irã (Revista ID)

 

Narrativas iliberais sobre a guerra do Irã

Há uma guerra: é a guerra do Irã


Masih Alinejad's American Enemies | National Review

A narrativa dos jornalistas simpáticos a Lula e ao PT que se apresentam como analistas internacionais chega a ser uma ofensa ao bom-senso e um insulto à inteligência. Mas é pior do que isso: é desonesta. Ela é repetida diariamente nos meios de comunicação, sobretudo nas TVs alinhadas ao governo Lula. Nem todos que replicam tais narrativas iliberais endossam os dez pontos abaixo, mas com certeza concordam com a maioria deles. É mais ou menos assim:

1 - As violações dos direitos humanos e a perseguição às mulheres no Irã é uma característica cultural de um país milenar. Não podem ser condenadas a partir da cultura ocidental. Ou, se condenáveis do nosso ponto de vista, não justificam os ataques bárbaros que os iranianos vêm sofrendo.

2 - O regime teocrático do Irã é também a expressão de sua cultura milenar. Querer que o Irã copie o modelo ocidental de democracia é não entender a complexidade da sociedade iraniana e seu direito soberano de construir seu próprio tipo de regime político.

3 - O Irã é um país pacífico. Só está em guerra porque foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, de modo covarde, pois isso aconteceu enquanto estava empenhado de boa vontade em negociações com esses países. Ah! Mas e a repressão sangrenta aos manifestantes iranianos, que assassinou a sangue frio, no início deste ano, dezenas de milhares de pessoas nas ruas e nas prisões do regime? Ninguém sabe ao certo o número de vítimas. Isso é mais propaganda judaica colonialista e americana imperialista.

4 - O Irã era uma democracia plena. Mas o governo de Mossadegh foi derrubado em 1953 por um golpe militar promovido pela CIA (EUA) e pelo M16 (Reino Unido). Foi aí que começaram os ataques ocidentais ao Irã. Ah! Mas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo (como o V-Dem) atestam que nessa época o Irã era uma autocracia (e que nunca houve democracia por lá). Não importa: essas instituições devem estar mentindo (ou são expressões da visão parcial do Ocidente). Mossadegh era socialista e nacionalista, logo era um democrata, pois defendia a soberania do Irã contra o imperialismo e o colonialismo.

5 - O Hezbollah, o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis, as milícias xiitas no Iraque, na Síria e em outros países do Oriente Médio - grupos jihadistas coordenados pelo Corpo da Guarda da Revolução Islâmica - não são entidades terroristas, mas apenas integrantes do "eixo da resistência" ao colonialismo de Israel e ao imperialismo dos EUA. Ah! Mas os ataques terroristas sangrentos que esses grupos cometeram em Israel e em outros países? Não importa. Se eles não resistissem aos ataques do Ocidente seriam liquidados ou violados em seus legítimos direitos de expressão e organização.

6 - O Irã só quer explorar recursos nucleares para fins pacíficos, de geração de energia e de construção de artefatos médicos. É mentira que seu programa nuclear visava a construção de armas. Ah! Mas e a quase meia tonelada de urânio enriquecido a 60%? Isso é mentira, assim como era mentira que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Ou, se não é mentira, 60% não permitem a construção de uma bomba atômica.

7 - Israel ataca o Líbano e não o Hezbollah. Aliás, sempre atacou o país para colonizá-lo, inclusive quando o Hezbollah não existia. Ah! Mas e a OLP no Líbano não era um grupo terrorista? Não era e sim legítima resistência aos ataques ocidentais. O Hezbollah está apenas se defendendo dos ataques colonialistas e imperialistas.

8 - Israel ataca os palestinos para genocidá-los (na base da limpeza étnica) e não o Hamas. A prova é que o Hamas continua organizado e armado, controlando cerca de 40% da Faixa de Gaza. Israel está mantendo um apartheid dos palestinos para impedir que construam seu próprio Estado. A prova disso é a ocupação crescente da Cisjordânia por colonos judeus supremacistas que cometem crimes diários contra as populações tradicionais da Judeia e da Samaria.

9 - O Irã está vencendo a guerra porque está resistindo bravamente aos ataques criminosos de Israel e dos Estados Unidos. Já era hora de alguém dar um basta nesses agressores.

10 - É admirável o que o Irã está fazendo, enfrentando Trump e Netanyahu. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo dos EUA estava nas mãos dos democratas Clinton, Obama e Biden. Não importa, é tudo a mesma coisa: imperialismo. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo de Israel estava nas mãos dos trabalhistas Rabin, Peres e Barak. Não importa, é tudo a mesma coisa: colonialismo. 

Essa é mais ou menos a narrativa do PT. Essa é mais ou menos a narrativa dos governos Lula, que sempre apoiaram a ditadura do Irã, cuja entrada no BRICS foi comemorada pelo PT. E tanto é assim que Lula se aproximou de Ahmadinejad - um notório fraudador de eleições, como aquele seu outro amigo Maduro.

O que esses propagandistas iliberais nos meios de comunicação não enxergam é que o fato de Trump e Netanyahu serem populistas-autoritários muito ruins não torna aceitável (ou justificável) a teocracia assassina e terrorista dos aiatolás iranianos. Como escreveu Masih Alinejad (na foto: jornalista iranana e presidente do WL Congress):

“A República Islâmica é um regime terrorista. Deixou uma coisa brutalmente clara: a vida do seu próprio povo não lhe vale nada. Ela os mata. Depois exige dinheiro de suas famílias para devolver os corpos. E se essas famílias ousarem expressar seu luto, ousarem exigir justiça, são ameaçadas de estupro coletivo e depois presas. Há anos venho dizendo claramente: a República Islâmica não é um governo normal. É uma força de ocupação terrorista que só responderá à força e à pressão decisiva”. 

Mesmo assim, parece óbvio que Trump, aliado a Netanyahu, não tinha razões fortes para desfechar a atual contra-ofensiva ao Irã. Errou na forma e no conteúdo. Desvairou. Já quer voltar atrás e não sabe como. 

Mas o fato é que - independentemente do presidente americano ser o Belzebu em pessoa e de Bibi ser a encarnação de Asmodai - o Irã não pode continuar financiando e coordenando uma dezena de organizações terroristas ativas (capazes de cometer atentados em qualquer lugar do mundo). O Irã não pode continuar com seu programa de mísseis (com cada vez maior alcance e capacidade de destruição). O Irã não pode retomar seu programa nuclear. E o Irã não pode manter controle completo sobre o Estreito de Ormuz. Finalmente, o Irã não pode se estabelecer como o valentão e o manda-chuva do Oriente Médio (daqui a pouco vai passar cobrar proteção dos países da região, com o IRGC atuando como máfia estatal). 

Todavia, não foram os erros crassos de Trump e Bibi que levaram o Irã a fazer tudo isso. Era o plano. Trump e Bibi só deram a chance do Pásdárán(o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica) começar a executá-lo. 

Há uma guerra em curso. Não só no Oriente Médio, mas no mundo. É a guerra do Irã, que não começou em 2026, mas já dura quase meio século.


Uma nota sobre o programa Globo News Internacional

A crítica é própria da democracia. Então vamos lá. O Globo News Internacional do último domingo (22/03/2026) ultrapassou todos os limites. Pareceu um Pravda, ou melhor, um Granma. Chamou uma pessoa para comentar a guerra no Líbano que parecia (não estou afirmando que é) uma militante do "eixo da resistência" (a retórica é a mesma) ou uma funcionária de relações públicas do Hezbollah. Depois, entre tantas e descabidas parcialidades, tratou de Cuba, chamando o embargo de bloqueio (no passado, não agora, replicando exatamente a mesma narrativa surrada - e falsa - do regime). Chamou uma historiadora pró-cubana para dizer que está havendo, há muito tempo, uma transição em Cuba, conduzida pelo partido único (mas isso é só um detalhe pouco importante), confundindo solertemente medidas econômicas com abertura política. Nem vou falar da narrativa da guerra do Irã. É como se um país pacífico, enquanto estava negociando com a melhor das boas intenções, tivesse sido covardemente atacado pelos imperialistas e colonialistas. Ou seja, a guerra que a teocracia do Irã trava há décadas, por meios de seus braços terroristas (Hezbollah, Houthis, milícias xiitas no Iraque e na Síria, Jihad Islâmica, Hamas), seria somente uma demonstração de… paz! Sinceramente, isso não é jornalismo. Depois se assustam quando as pessoas, em sua maioria, não confiam mais nos meios de comunicação profissionais.

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quinta-feira, 19 de março de 2026

A queda do V-Dem - Augusto De Franco (Revista ID)

A queda do V-Dem

A esquerda acadêmica está capturando o instituto

O V-Dem vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo dos institutos que monitoram os regimes políticos no mundo

O V-Dem (Varieties of Democracy), da Universidade Gotemburgo, tão admirado por todos nós, democratas, entrou numa trajetória decadente de perda de credibilidade. 

Agora acabou de lançar seu relatório de 2026, intitulado “Unraveling The Democratic Era?”. Felizmente corrigiu, nesse relatório, o erro crasso (cometido no ano passado) de classificar a África do Sul como democracia liberal. Agora ela voltou para seu lugar: de democracia (apenas) eleitoral (quer dizer, não-liberal). 

No relatório de 2006, o V-Dem desclassificou os EUA como democracia liberal (o que parece estar correto, considerados os ataques do MAGA e de Donald Trump à democracia americana e às democracias liberais do mundo inteiro - embora a classificação do V-Dem seja de regimes políticos, não de governos). A The Economist Intelligence Unit, mais coerente, já há muitos anos, classifica dos EUA como flawed democracy (quer dizer, não como full democracy). 

Há vários problemas com o V-Dem. O principal deles é ter montado uma rede de consultores acadêmicos, espalhados por diversos países, predominantemente simpáticos a uma faixa do espectro político. Isso introduz um viés nas análises e distorce as avaliações. Por exemplo, eles sustentam que a democracia no Brasil está melhorando num ritmo mais acelerado do que o de todos os demais países, talvez porque Bolsonaro, que não era democrata, saiu do governo e está preso - o que é verdade; mas, novamente, regime não é governo. 

De fato a democracia brasileira se recuperou de uma tentativa desastrada (e mal-articulada) de golpe, promovida pelo governo anterior, mas pelos próprios critérios metodológicos do V-Dem ela não continuou melhorando depois disso, pelo contrário. Basta ver a crise institucional que se instalou a partir da aliança do governo com a suprema corte para compensar o fato de ser minoria no parlamento.

Considere-se que, de acordo com a pesquisa “Brasil no espelho”, a confiança no Brasil (mais do que uma medida, a própria definição de capital social) anda baixíssima. O brasileiro não confia nem mesmo em seus vizinhos. Apenas 6% dos entrevistados concordaram com a frase segundo a qual se pode confiar na maioria das pessoas, o que colocou o país à frente apenas à frente do Zimbábue em um ranking sobre esse tema. Na Noruega, esse índice era de 72%. Felipe Nunes, coordenador da pesquisa, conclui que esse déficit de confiança não é um mero estado de ânimo conjuntural. Ele interpreta isso como uma manifestação da “infraestrutura invisível da sociedade”. Ele não disse, mas está falando do capital social. Pois bem, com esse nível de capital social como é que o Brasil pode estar melhorando seus índices de democratização (mais intensa e rapidamente do que qualquer outro país do mundo) como se aventura a sustentar o V-Dem)? Entendam que há um erro grave aí.

Por último, para classificar um regime político - como democracia liberal, democracia eleitoral, autocracia eleitoral ou autocracia fechada - o V-Dem não leva em conta a orientação do país em política externa, o que é absurdo. E ainda há aqui uma grave deformação. Se um governo implanta uma política externa de apoio à ditaduras anti-imperialismo norte-americano - como Cuba, Venezuela, Nicarágua, Angola, Rússia, China, Irã - isso não afeta em nada sua classificação como democracia. Mas se um governo apoia Trump, Bukele, Modi, Orbán, Erdogan, Netanyahu, aí, sim, significa: esse governo passa a ser encarado como parte da "internacional fascista" e isso conta, subjetivamente, para fazer decair o regime político do país nos rankings mundiais de democracia.

O alinhamento do V-Dem é tão escandaloso que ele chegou a escrever no seu relatório em tela:

“A autocratização do Brasil começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e acelerou após a eleição do populista de direita Jair Bolsonaro em 2018. Ataques à mídia, tentativas de minar as eleições, o legislativo e o judiciário se seguiram. A reviravolta ocorreu quando Luís Inácio “Lula” da Silva, apoiado por uma coalizão de nove partidos, venceu as eleições de 2022. Contudo, a sociedade brasileira permanece profundamente polarizada, e as eleições de 2026 serão decisivas para o futuro”. 

Essa é uma narrativa típica da esquerda populista (lulopetista). O V-Dem está insinuando que se Lula não for reeleito mais uma vez (a quarta) o Brasil entrará novamente em processo de autocratização? Vamos falar sério: o Brasil não se autocratizou após o impeachment de Dilma, que foi legítimo - dado o desarranjo que seu governo populista de esquerda instalou no país - e perfeitamente legal.

Os consultores acadêmicos, sempre eles: puxando, retorcendo, distorcendo. Fizemos, com a ajuda da IA, um levantamento dos acadêmicos com vínculos com o V-Dem no Brasil. Não vamos divulgar a lista com os vinte e dois nomes encontrados, é claro. Alguns são bem conhecidos como intelectuais militantes do PT. Vale apenas dizer que se fizermos uma pesquisa de intenção de voto nesse universo, Lula vencerá com um resultado que será muito parecido com o daquelas eleições na Coreia do Norte.

Ainda vamos nos debruçar mais longamente sobre o relatório do V-Dem que colocou Canadá e Reino Unido como democracias apenas eleitorais com tendência de democratização inferior a do Brasil. E que também não incluiu Grécia, Portugal e Suriname como democracias liberais.

Segundo o relatório do V-Dem 2026, temos 31 democracias liberais no mundo atual (1), um número semelhante ao dos seus relatórios anteriores. O problema são as inclusões e exclusões especiosas (e abruptas, como o foi o caso da África do Sul) da lista. Será que alguém disse que a África do Sul deveria entrar porque era do BRICS (pelo menos um dos consultores brasileiros do V-Dem se dedica ao BRICS) e depois outros técnicos viram que manter isso era insustentável? Será que o V-Dem está se preparando para promover o Brasil à condição de democracia liberal no próximo relatório? É o que tudo indica. Se Lula vencer a próxima eleição, é óbvio.

Assim o V-Dem (Varieties of Democracy, da Universidade de Gotemburgo) vai se afastando das mais reconhecidas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo, como a Freedom House e a The Economist Intelligence Unit. Vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo desses institutos.

Nota

(1) Democracias Liberais V-Dem 2026 (note-se que o Reino Unido foi retirado da lista):

1. Australia

2. Belgium

3. Costa Rica

4. Czechia

5. Denmark

6. Estonia

7. Finland

8. Germany

9. Iceland

10. Ireland

11. Japan

12. Latvia

13. Luxembourg

14. Netherlands

15. New Zealand

16. Norway

17. Seychelles

18. South Korea

19. Spain

20. Sweden

21. Switzerland

22. Taiwan

23. Austria

24. Barbados

25. Chile

26. Cyprus

27. France

28. Italy

29. Lithuania

30. Trinidad and Tobago

31. Uruguay

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Não há soberania legítima sem democracia - AUGUSTO DE FRANCO (Inteligência Democrática)

Não há soberania legítima sem democracia

AUGUSTO DE FRANCO

Inteligência Democrática, Jan 9, 2026

Os democratas deveriam tomar muito cuidado com o abuso do termo soberania. A soberania nacional (dos Estados-nações) é importante: sem ela não seria possível uma ordem internacional baseada em regras. Um país (mais forte) avançaria sobre o território de outro país (mais fraco). Por mais importante que seja, porém, a soberania não pode estar acima da democracia como valor universal e nem dos direitos humanos, que também são universais. Um Estado não pode massacrar seu próprio povo e rejeitar qualquer crítica ou sanção de outros países com base na alegação de que é soberano. Esse é um conceito ilegítimo de soberania.

O conceito de soberania, tal como o entendemos na modernidade, não surgiu de um único estalo criativo, mas de uma construção histórica e jurídica complexa. No entanto, o pensador universalmente reconhecido como o sistematizador ou "teórico da soberania" é o francês Jean Bodin, no século 16.

Na sua obra Os Seis Livros da República (1576), Bodin definiu a soberania como o poder "absoluto e perpétuo" de um Estado. Para ele, a soberania era a "pedra angular" que mantinha a unidade do corpo político.

Antes de Bodin, juristas medievais já haviam preparado o terreno. Eles buscavam justificar a independência dos reinos em relação ao Papa e ao Imperador através de fórmulas como superiorem non recognoscens (não reconhecer superior) e rex in regno suo imperator (o rei é imperador em seu próprio reino).

Hannah Arendt observa, entretanto, que Bodin utilizava originalmente o termo latino majestas (majestade), que foi posteriormente traduzido para o francês como souveraineté. É uma observação muito importante porque revela as raízes autocráticas do conceito.

Após Bodin, o conceito foi retrabalhado por outros autores. Thomas Hobbes radicalizou a ideia da exclusividade da força, enquanto Johannes Althusius propôs corretamente, ainda no século 17, que a soberania deveria residir no povo como um todo, e não em um governante individual.

Na perspectiva democrática, a soberania é um conceito que se aplica aos Estados-nações e não aos governantes, partidos ou instituições que eles controlam. Mesmo assim, onde há um poder soberano sempre haverá a tendência de encarar os cidadãos como súditos e a sociedade como dominium do Estado.

Por isso há uma tensão entre os conceitos de soberania e democracia. Se a soberania foi formulada inicialmente para justificar o poder absoluto e indivisível dos reis, não é fácil concilia-la com a ideia democrática de que o poder legítimo pertence a qualquer um — ou melhor, aos que "não têm título para governar".

Mesmo a ideia (aparentemente) democrática de ‘soberania popular’ é questionável. Pois a democracia, assim como não é poder de poucos (oligoi) - porque aí seria uma oligarquia; e nem dos melhores (aristoi) - porque aí seria uma aristocracia; também não é o poder de muitos ou de todos (“o povo”) e sim o poder de qualquer um.

Nos Estados democráticos de direito só a lei (democraticamente aprovada) deve ser encarada como soberana. Não os que fazem as leis, não os que interpretam as leis, não os que aplicam as leis. Isso significa que, nas democracias, os poderes não são soberanos - nem conjunta, nem separadamente.

Ditadores convocam manifestações em defesa da sua soberania para explorar, oprimir e dominar seu próprio povo. É como se dissessem: “Faço tudo isso mesmo e ninguém tem nada com isso. É minha soberania”. Governantes populistas, não raro, procedem da mesma maneira para obter dividendos eleitorais e se prorrogar no poder, bypassando o critério da rotatividade ou alternância democrática. Alguns desses últimos - como Claudia Sheinbaum, Gustavo Petro e Lula da Silva - ainda são cínicos. A defesa da soberania como um valor universal (acima até da democracia) vale para a Venezuela, mas não vale para a Ucrânia. Vale para Cuba, mas não vale para Taiwan. Soberania só vale para seus aliados, não para seus inimigos.

Toda essa conversa de soberania, entretanto, não vale muito num mundo autocrático. O que significa que só num mundo democrático, onde se valoriza o direito internacional, os acordos multilaterais e os órgãos compartilhados por Estados-nações para fazer valer tais acordos, a noção de soberania se sustenta legitimamente. Num mundo sem regras, onde a força faz a lei - como quer Trump e como quer Putin -, a chamada “soberania nacional” não existe de fato. Só é soberano de fato quem tem o poderio militar.

Para os democratas, esse é um conceito ilegítimo de soberania. Não há soberania legítima sem democracia.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Trump não quer um regima democrático na Venezuela - Augusto de Franco (Inteligência Democrática)

 

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