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segunda-feira, 30 de março de 2026

Augusto de Franco desmonta os argumentos da esquerda na guerra de agressão dos EUA contra o Irã (Revista ID)

 

Narrativas iliberais sobre a guerra do Irã

Há uma guerra: é a guerra do Irã


Masih Alinejad's American Enemies | National Review

A narrativa dos jornalistas simpáticos a Lula e ao PT que se apresentam como analistas internacionais chega a ser uma ofensa ao bom-senso e um insulto à inteligência. Mas é pior do que isso: é desonesta. Ela é repetida diariamente nos meios de comunicação, sobretudo nas TVs alinhadas ao governo Lula. Nem todos que replicam tais narrativas iliberais endossam os dez pontos abaixo, mas com certeza concordam com a maioria deles. É mais ou menos assim:

1 - As violações dos direitos humanos e a perseguição às mulheres no Irã é uma característica cultural de um país milenar. Não podem ser condenadas a partir da cultura ocidental. Ou, se condenáveis do nosso ponto de vista, não justificam os ataques bárbaros que os iranianos vêm sofrendo.

2 - O regime teocrático do Irã é também a expressão de sua cultura milenar. Querer que o Irã copie o modelo ocidental de democracia é não entender a complexidade da sociedade iraniana e seu direito soberano de construir seu próprio tipo de regime político.

3 - O Irã é um país pacífico. Só está em guerra porque foi atacado por Israel e pelos Estados Unidos, de modo covarde, pois isso aconteceu enquanto estava empenhado de boa vontade em negociações com esses países. Ah! Mas e a repressão sangrenta aos manifestantes iranianos, que assassinou a sangue frio, no início deste ano, dezenas de milhares de pessoas nas ruas e nas prisões do regime? Ninguém sabe ao certo o número de vítimas. Isso é mais propaganda judaica colonialista e americana imperialista.

4 - O Irã era uma democracia plena. Mas o governo de Mossadegh foi derrubado em 1953 por um golpe militar promovido pela CIA (EUA) e pelo M16 (Reino Unido). Foi aí que começaram os ataques ocidentais ao Irã. Ah! Mas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo (como o V-Dem) atestam que nessa época o Irã era uma autocracia (e que nunca houve democracia por lá). Não importa: essas instituições devem estar mentindo (ou são expressões da visão parcial do Ocidente). Mossadegh era socialista e nacionalista, logo era um democrata, pois defendia a soberania do Irã contra o imperialismo e o colonialismo.

5 - O Hezbollah, o Hamas, a Jihad Islâmica, os Houthis, as milícias xiitas no Iraque, na Síria e em outros países do Oriente Médio - grupos jihadistas coordenados pelo Corpo da Guarda da Revolução Islâmica - não são entidades terroristas, mas apenas integrantes do "eixo da resistência" ao colonialismo de Israel e ao imperialismo dos EUA. Ah! Mas os ataques terroristas sangrentos que esses grupos cometeram em Israel e em outros países? Não importa. Se eles não resistissem aos ataques do Ocidente seriam liquidados ou violados em seus legítimos direitos de expressão e organização.

6 - O Irã só quer explorar recursos nucleares para fins pacíficos, de geração de energia e de construção de artefatos médicos. É mentira que seu programa nuclear visava a construção de armas. Ah! Mas e a quase meia tonelada de urânio enriquecido a 60%? Isso é mentira, assim como era mentira que o Iraque possuía armas de destruição em massa. Ou, se não é mentira, 60% não permitem a construção de uma bomba atômica.

7 - Israel ataca o Líbano e não o Hezbollah. Aliás, sempre atacou o país para colonizá-lo, inclusive quando o Hezbollah não existia. Ah! Mas e a OLP no Líbano não era um grupo terrorista? Não era e sim legítima resistência aos ataques ocidentais. O Hezbollah está apenas se defendendo dos ataques colonialistas e imperialistas.

8 - Israel ataca os palestinos para genocidá-los (na base da limpeza étnica) e não o Hamas. A prova é que o Hamas continua organizado e armado, controlando cerca de 40% da Faixa de Gaza. Israel está mantendo um apartheid dos palestinos para impedir que construam seu próprio Estado. A prova disso é a ocupação crescente da Cisjordânia por colonos judeus supremacistas que cometem crimes diários contra as populações tradicionais da Judeia e da Samaria.

9 - O Irã está vencendo a guerra porque está resistindo bravamente aos ataques criminosos de Israel e dos Estados Unidos. Já era hora de alguém dar um basta nesses agressores.

10 - É admirável o que o Irã está fazendo, enfrentando Trump e Netanyahu. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo dos EUA estava nas mãos dos democratas Clinton, Obama e Biden. Não importa, é tudo a mesma coisa: imperialismo. Ah! Mas ele já fazia isso quando o governo de Israel estava nas mãos dos trabalhistas Rabin, Peres e Barak. Não importa, é tudo a mesma coisa: colonialismo. 

Essa é mais ou menos a narrativa do PT. Essa é mais ou menos a narrativa dos governos Lula, que sempre apoiaram a ditadura do Irã, cuja entrada no BRICS foi comemorada pelo PT. E tanto é assim que Lula se aproximou de Ahmadinejad - um notório fraudador de eleições, como aquele seu outro amigo Maduro.

O que esses propagandistas iliberais nos meios de comunicação não enxergam é que o fato de Trump e Netanyahu serem populistas-autoritários muito ruins não torna aceitável (ou justificável) a teocracia assassina e terrorista dos aiatolás iranianos. Como escreveu Masih Alinejad (na foto: jornalista iranana e presidente do WL Congress):

“A República Islâmica é um regime terrorista. Deixou uma coisa brutalmente clara: a vida do seu próprio povo não lhe vale nada. Ela os mata. Depois exige dinheiro de suas famílias para devolver os corpos. E se essas famílias ousarem expressar seu luto, ousarem exigir justiça, são ameaçadas de estupro coletivo e depois presas. Há anos venho dizendo claramente: a República Islâmica não é um governo normal. É uma força de ocupação terrorista que só responderá à força e à pressão decisiva”. 

Mesmo assim, parece óbvio que Trump, aliado a Netanyahu, não tinha razões fortes para desfechar a atual contra-ofensiva ao Irã. Errou na forma e no conteúdo. Desvairou. Já quer voltar atrás e não sabe como. 

Mas o fato é que - independentemente do presidente americano ser o Belzebu em pessoa e de Bibi ser a encarnação de Asmodai - o Irã não pode continuar financiando e coordenando uma dezena de organizações terroristas ativas (capazes de cometer atentados em qualquer lugar do mundo). O Irã não pode continuar com seu programa de mísseis (com cada vez maior alcance e capacidade de destruição). O Irã não pode retomar seu programa nuclear. E o Irã não pode manter controle completo sobre o Estreito de Ormuz. Finalmente, o Irã não pode se estabelecer como o valentão e o manda-chuva do Oriente Médio (daqui a pouco vai passar cobrar proteção dos países da região, com o IRGC atuando como máfia estatal). 

Todavia, não foram os erros crassos de Trump e Bibi que levaram o Irã a fazer tudo isso. Era o plano. Trump e Bibi só deram a chance do Pásdárán(o Corpo da Guarda da Revolução Islâmica) começar a executá-lo. 

Há uma guerra em curso. Não só no Oriente Médio, mas no mundo. É a guerra do Irã, que não começou em 2026, mas já dura quase meio século.


Uma nota sobre o programa Globo News Internacional

A crítica é própria da democracia. Então vamos lá. O Globo News Internacional do último domingo (22/03/2026) ultrapassou todos os limites. Pareceu um Pravda, ou melhor, um Granma. Chamou uma pessoa para comentar a guerra no Líbano que parecia (não estou afirmando que é) uma militante do "eixo da resistência" (a retórica é a mesma) ou uma funcionária de relações públicas do Hezbollah. Depois, entre tantas e descabidas parcialidades, tratou de Cuba, chamando o embargo de bloqueio (no passado, não agora, replicando exatamente a mesma narrativa surrada - e falsa - do regime). Chamou uma historiadora pró-cubana para dizer que está havendo, há muito tempo, uma transição em Cuba, conduzida pelo partido único (mas isso é só um detalhe pouco importante), confundindo solertemente medidas econômicas com abertura política. Nem vou falar da narrativa da guerra do Irã. É como se um país pacífico, enquanto estava negociando com a melhor das boas intenções, tivesse sido covardemente atacado pelos imperialistas e colonialistas. Ou seja, a guerra que a teocracia do Irã trava há décadas, por meios de seus braços terroristas (Hezbollah, Houthis, milícias xiitas no Iraque e na Síria, Jihad Islâmica, Hamas), seria somente uma demonstração de… paz! Sinceramente, isso não é jornalismo. Depois se assustam quando as pessoas, em sua maioria, não confiam mais nos meios de comunicação profissionais.

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.

quinta-feira, 19 de março de 2026

A queda do V-Dem - Augusto De Franco (Revista ID)

A queda do V-Dem

A esquerda acadêmica está capturando o instituto

O V-Dem vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo dos institutos que monitoram os regimes políticos no mundo

O V-Dem (Varieties of Democracy), da Universidade Gotemburgo, tão admirado por todos nós, democratas, entrou numa trajetória decadente de perda de credibilidade. 

Agora acabou de lançar seu relatório de 2026, intitulado “Unraveling The Democratic Era?”. Felizmente corrigiu, nesse relatório, o erro crasso (cometido no ano passado) de classificar a África do Sul como democracia liberal. Agora ela voltou para seu lugar: de democracia (apenas) eleitoral (quer dizer, não-liberal). 

No relatório de 2006, o V-Dem desclassificou os EUA como democracia liberal (o que parece estar correto, considerados os ataques do MAGA e de Donald Trump à democracia americana e às democracias liberais do mundo inteiro - embora a classificação do V-Dem seja de regimes políticos, não de governos). A The Economist Intelligence Unit, mais coerente, já há muitos anos, classifica dos EUA como flawed democracy (quer dizer, não como full democracy). 

Há vários problemas com o V-Dem. O principal deles é ter montado uma rede de consultores acadêmicos, espalhados por diversos países, predominantemente simpáticos a uma faixa do espectro político. Isso introduz um viés nas análises e distorce as avaliações. Por exemplo, eles sustentam que a democracia no Brasil está melhorando num ritmo mais acelerado do que o de todos os demais países, talvez porque Bolsonaro, que não era democrata, saiu do governo e está preso - o que é verdade; mas, novamente, regime não é governo. 

De fato a democracia brasileira se recuperou de uma tentativa desastrada (e mal-articulada) de golpe, promovida pelo governo anterior, mas pelos próprios critérios metodológicos do V-Dem ela não continuou melhorando depois disso, pelo contrário. Basta ver a crise institucional que se instalou a partir da aliança do governo com a suprema corte para compensar o fato de ser minoria no parlamento.

Considere-se que, de acordo com a pesquisa “Brasil no espelho”, a confiança no Brasil (mais do que uma medida, a própria definição de capital social) anda baixíssima. O brasileiro não confia nem mesmo em seus vizinhos. Apenas 6% dos entrevistados concordaram com a frase segundo a qual se pode confiar na maioria das pessoas, o que colocou o país à frente apenas à frente do Zimbábue em um ranking sobre esse tema. Na Noruega, esse índice era de 72%. Felipe Nunes, coordenador da pesquisa, conclui que esse déficit de confiança não é um mero estado de ânimo conjuntural. Ele interpreta isso como uma manifestação da “infraestrutura invisível da sociedade”. Ele não disse, mas está falando do capital social. Pois bem, com esse nível de capital social como é que o Brasil pode estar melhorando seus índices de democratização (mais intensa e rapidamente do que qualquer outro país do mundo) como se aventura a sustentar o V-Dem)? Entendam que há um erro grave aí.

Por último, para classificar um regime político - como democracia liberal, democracia eleitoral, autocracia eleitoral ou autocracia fechada - o V-Dem não leva em conta a orientação do país em política externa, o que é absurdo. E ainda há aqui uma grave deformação. Se um governo implanta uma política externa de apoio à ditaduras anti-imperialismo norte-americano - como Cuba, Venezuela, Nicarágua, Angola, Rússia, China, Irã - isso não afeta em nada sua classificação como democracia. Mas se um governo apoia Trump, Bukele, Modi, Orbán, Erdogan, Netanyahu, aí, sim, significa: esse governo passa a ser encarado como parte da "internacional fascista" e isso conta, subjetivamente, para fazer decair o regime político do país nos rankings mundiais de democracia.

O alinhamento do V-Dem é tão escandaloso que ele chegou a escrever no seu relatório em tela:

“A autocratização do Brasil começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e acelerou após a eleição do populista de direita Jair Bolsonaro em 2018. Ataques à mídia, tentativas de minar as eleições, o legislativo e o judiciário se seguiram. A reviravolta ocorreu quando Luís Inácio “Lula” da Silva, apoiado por uma coalizão de nove partidos, venceu as eleições de 2022. Contudo, a sociedade brasileira permanece profundamente polarizada, e as eleições de 2026 serão decisivas para o futuro”. 

Essa é uma narrativa típica da esquerda populista (lulopetista). O V-Dem está insinuando que se Lula não for reeleito mais uma vez (a quarta) o Brasil entrará novamente em processo de autocratização? Vamos falar sério: o Brasil não se autocratizou após o impeachment de Dilma, que foi legítimo - dado o desarranjo que seu governo populista de esquerda instalou no país - e perfeitamente legal.

Os consultores acadêmicos, sempre eles: puxando, retorcendo, distorcendo. Fizemos, com a ajuda da IA, um levantamento dos acadêmicos com vínculos com o V-Dem no Brasil. Não vamos divulgar a lista com os vinte e dois nomes encontrados, é claro. Alguns são bem conhecidos como intelectuais militantes do PT. Vale apenas dizer que se fizermos uma pesquisa de intenção de voto nesse universo, Lula vencerá com um resultado que será muito parecido com o daquelas eleições na Coreia do Norte.

Ainda vamos nos debruçar mais longamente sobre o relatório do V-Dem que colocou Canadá e Reino Unido como democracias apenas eleitorais com tendência de democratização inferior a do Brasil. E que também não incluiu Grécia, Portugal e Suriname como democracias liberais.

Segundo o relatório do V-Dem 2026, temos 31 democracias liberais no mundo atual (1), um número semelhante ao dos seus relatórios anteriores. O problema são as inclusões e exclusões especiosas (e abruptas, como o foi o caso da África do Sul) da lista. Será que alguém disse que a África do Sul deveria entrar porque era do BRICS (pelo menos um dos consultores brasileiros do V-Dem se dedica ao BRICS) e depois outros técnicos viram que manter isso era insustentável? Será que o V-Dem está se preparando para promover o Brasil à condição de democracia liberal no próximo relatório? É o que tudo indica. Se Lula vencer a próxima eleição, é óbvio.

Assim o V-Dem (Varieties of Democracy, da Universidade de Gotemburgo) vai se afastando das mais reconhecidas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo, como a Freedom House e a The Economist Intelligence Unit. Vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo desses institutos.

Nota

(1) Democracias Liberais V-Dem 2026 (note-se que o Reino Unido foi retirado da lista):

1. Australia

2. Belgium

3. Costa Rica

4. Czechia

5. Denmark

6. Estonia

7. Finland

8. Germany

9. Iceland

10. Ireland

11. Japan

12. Latvia

13. Luxembourg

14. Netherlands

15. New Zealand

16. Norway

17. Seychelles

18. South Korea

19. Spain

20. Sweden

21. Switzerland

22. Taiwan

23. Austria

24. Barbados

25. Chile

26. Cyprus

27. France

28. Italy

29. Lithuania

30. Trinidad and Tobago

31. Uruguay

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Não há soberania legítima sem democracia - AUGUSTO DE FRANCO (Inteligência Democrática)

Não há soberania legítima sem democracia

AUGUSTO DE FRANCO

Inteligência Democrática, Jan 9, 2026

Os democratas deveriam tomar muito cuidado com o abuso do termo soberania. A soberania nacional (dos Estados-nações) é importante: sem ela não seria possível uma ordem internacional baseada em regras. Um país (mais forte) avançaria sobre o território de outro país (mais fraco). Por mais importante que seja, porém, a soberania não pode estar acima da democracia como valor universal e nem dos direitos humanos, que também são universais. Um Estado não pode massacrar seu próprio povo e rejeitar qualquer crítica ou sanção de outros países com base na alegação de que é soberano. Esse é um conceito ilegítimo de soberania.

O conceito de soberania, tal como o entendemos na modernidade, não surgiu de um único estalo criativo, mas de uma construção histórica e jurídica complexa. No entanto, o pensador universalmente reconhecido como o sistematizador ou "teórico da soberania" é o francês Jean Bodin, no século 16.

Na sua obra Os Seis Livros da República (1576), Bodin definiu a soberania como o poder "absoluto e perpétuo" de um Estado. Para ele, a soberania era a "pedra angular" que mantinha a unidade do corpo político.

Antes de Bodin, juristas medievais já haviam preparado o terreno. Eles buscavam justificar a independência dos reinos em relação ao Papa e ao Imperador através de fórmulas como superiorem non recognoscens (não reconhecer superior) e rex in regno suo imperator (o rei é imperador em seu próprio reino).

Hannah Arendt observa, entretanto, que Bodin utilizava originalmente o termo latino majestas (majestade), que foi posteriormente traduzido para o francês como souveraineté. É uma observação muito importante porque revela as raízes autocráticas do conceito.

Após Bodin, o conceito foi retrabalhado por outros autores. Thomas Hobbes radicalizou a ideia da exclusividade da força, enquanto Johannes Althusius propôs corretamente, ainda no século 17, que a soberania deveria residir no povo como um todo, e não em um governante individual.

Na perspectiva democrática, a soberania é um conceito que se aplica aos Estados-nações e não aos governantes, partidos ou instituições que eles controlam. Mesmo assim, onde há um poder soberano sempre haverá a tendência de encarar os cidadãos como súditos e a sociedade como dominium do Estado.

Por isso há uma tensão entre os conceitos de soberania e democracia. Se a soberania foi formulada inicialmente para justificar o poder absoluto e indivisível dos reis, não é fácil concilia-la com a ideia democrática de que o poder legítimo pertence a qualquer um — ou melhor, aos que "não têm título para governar".

Mesmo a ideia (aparentemente) democrática de ‘soberania popular’ é questionável. Pois a democracia, assim como não é poder de poucos (oligoi) - porque aí seria uma oligarquia; e nem dos melhores (aristoi) - porque aí seria uma aristocracia; também não é o poder de muitos ou de todos (“o povo”) e sim o poder de qualquer um.

Nos Estados democráticos de direito só a lei (democraticamente aprovada) deve ser encarada como soberana. Não os que fazem as leis, não os que interpretam as leis, não os que aplicam as leis. Isso significa que, nas democracias, os poderes não são soberanos - nem conjunta, nem separadamente.

Ditadores convocam manifestações em defesa da sua soberania para explorar, oprimir e dominar seu próprio povo. É como se dissessem: “Faço tudo isso mesmo e ninguém tem nada com isso. É minha soberania”. Governantes populistas, não raro, procedem da mesma maneira para obter dividendos eleitorais e se prorrogar no poder, bypassando o critério da rotatividade ou alternância democrática. Alguns desses últimos - como Claudia Sheinbaum, Gustavo Petro e Lula da Silva - ainda são cínicos. A defesa da soberania como um valor universal (acima até da democracia) vale para a Venezuela, mas não vale para a Ucrânia. Vale para Cuba, mas não vale para Taiwan. Soberania só vale para seus aliados, não para seus inimigos.

Toda essa conversa de soberania, entretanto, não vale muito num mundo autocrático. O que significa que só num mundo democrático, onde se valoriza o direito internacional, os acordos multilaterais e os órgãos compartilhados por Estados-nações para fazer valer tais acordos, a noção de soberania se sustenta legitimamente. Num mundo sem regras, onde a força faz a lei - como quer Trump e como quer Putin -, a chamada “soberania nacional” não existe de fato. Só é soberano de fato quem tem o poderio militar.

Para os democratas, esse é um conceito ilegítimo de soberania. Não há soberania legítima sem democracia.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Trump não quer um regima democrático na Venezuela - Augusto de Franco (Inteligência Democrática)

 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A mitificação da democracia americana - Augusto de Franco (Revista ID)

A mitificação da democracia americana

Os Artigos Federalistas: Guia de Discussão Nos. 1 – 8 (24 de agosto – 30 de  agosto de 2025) : r/greatbooksclub

Diz-se, com certa maledicência, que se a democracia americana fosse tão sólida como se costumava apregoar, não teria colocado, duas vezes, um charlatão para presidir a República. Essa vulnerabilidade revelaria uma fraqueza e isso teria a ver com a progressiva dilapidação do capital social acumulado pela sociedade americana. Faz sentido. Trump não é a causa da atual transição autocratizante do regime político americano: é apenas uma das consequências. 

Por quê?

Isso tem a ver com a conversão tardia do regime americano à democracia: os EUA foram o quarto grande regime eleitoral que surgiu na história (em 1796, logo depois de Inglaterra e Irlanda em 1790 e da França em 1792), mas só viraram uma democracia eleitoral em 1921 (atrás de outros quatorze países, começando com a Suíça em 1849 e terminando com o Uruguai em 1920) (1).

Tem a ver também com o medo da democracia por parte dos chamados pais fundadores, sobretudo Hamilton e Madison, que preferiam uma república governável top down como a romana mais do que uma democracia auto-governável bottom up como a ateniense dos séculos 5 e 4 a.C. 

Tem a ver com as disputas políticas que envolveram os Federalistas e John Adams contra Thomas Jefferson, o único democrata radical do pedaço. 

Tem a ver com a mentalidade autoritária, isolacionista e imperialista, de importantes presidentes americanos do início do século 19, como James Monroe e o celerado Andrew Jackson. 

Tem a ver com a morte no embrião do "governo civil" percebido por Alexis de Tocqueville na Nova Inglaterra na década de 30 do século 19. 

Tem a ver com a centralização em Washington, a recorrência sistemática aos tribunais para resolver qualquer dilema banal da vida coletiva e com o complexo científico-industrial-militar que se erigiu em meados do século 20. 

Cabe notar que a democracia eleitoral americana, já em si tardia, só adquire o status de democracia liberal em 1969, 120 anos depois da Suíça ter alcançado tal condição.

Então é bom baixar a bola nessa mitificação da democracia americana como a mais antiga, a mais perfeita e a mais consolidada do mundo.


Cada um dos pontos levantados acima precisaria ser analisado em profundidade: 

  • O medo (e o desconhecimento) da democracia por parte dos pais fundadores. 

  • A luta contra as concepções e práticas democráticas radicais de Thomas Jefferson, a recusa à sua reforma distrital baseada na instação das chamadas wards ou hundreds (repúblicas nos bairros) e a não compreensão do seu conceito de “common government” (2).

  • Os primeiros presidentes isolacionistas e imperialistas dos EUA (e a tentação de se comportarem como monarcas presidencialistas). 

  • A morte no embrião do “governo civil” percebido por Tocqueville na Nova Inglaterra ou o início da dilapidação do capital social acumulado pela sociedade americana, com a centralização em Washington, a recorrência sistemática aos tribunais e a ereção do complexo científico-industrial-militar.


Notas

(1) No quadro abaixo podemos ver claramente as datas mencionadas de conversão dos regimes eleitorais à democracia.

(2) Jefferson mereceria uma consideração adicional. Os principais adversários de Thomas Jefferson foram os membros do Partido Federalista, liderados por figuras proeminentes como Alexander Hamilton e John Adams. Jefferson via esses oponentes não apenas como rivais políticos, mas como ameaças à própria natureza da república, descrevendo o conflito entre eles como uma luta fundamental entre diferentes visões do governo.

Alexander Hamilton foi o seu rival intelectual e político mais constante. Hamilton defendia um governo central forte, o que Jefferson considerava uma “depravação” e uma ameaça à independência dos cidadãos. John Adams, embora tenham retomado a amizade na velhice, foi um adversário feroz de Jefferson durante a década de 1790. Jefferson criticava a administração de Adams, especialmente por medidas como as Leis dos Estrangeiros e do Tumulto (Alien and Sedition Acts), que ele via como tentativas de reprimir a liberdade de expressão e fortalecer o poder executivo de forma autoritária.

Jefferson se opunha ao que chamava de “elite monárquica” e classificava muitos de seus oponentes como homens que admiravam excessivamente a constituição britânica e desejavam estabelecer um governo “forte” através de métodos de corrupção ou influência para ganhar o apoio popular, em vez de confiar no senso comum do povo.

Em razão de sua rejeição à autoridade das igrejas, Jefferson foi frequentemente atacado por líderes religiosos que o denunciavam como um “ateu gálico” ou um “infiel”. Enquanto os federalistas acusavam Jefferson de ser um agente da Revolução Francesa e de promover a anarquia, ele os acusava de serem “Tories” que queriam restaurar o privilégio hereditário. 

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