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sexta-feira, 3 de abril de 2026

Interrogações sobre o fenômeno Trump - Diogo Dutra (revista Identidade Democrática)

O campo que permitiu o excesso

I. O sintoma e o campo: para além da singularidade de Trump

Parto de uma reflexão provocada por um artigo recente do amigo e colega da Revista Inteligência Democrática, João Lobato, que realiza uma leitura particularmente instigante sobre a singularidade do fenômeno Trump, não no sentido de tratá-lo como mais um episódio dentro da longa tradição de lideranças autoritárias, autocráticas, teocráticas ou populistas — sejam elas de esquerda ou de direita — mas justamente ao deslocar o olhar para algo que me parece decisivo: Trump como sintoma, e não como exceção, como expressão de uma transformação mais profunda do campo político contemporâneo, e não como um desvio isolado que poderia ser explicado por categorias simplificadoras como “ascensão da extrema-direita” ou como mero efeito colateral de crises econômicas ou até mesmo de uma suposta crise estrutural do capitalismo.

Essa leitura, que considero correta e ao mesmo tempo provocadora, abre uma questão que me parece ainda mais relevante e que serve como ponto de partida para este ensaio: se estamos diante de um fenômeno que pode ser tratado como acidente histórico ou se, ao contrário, estamos diante de algo que foi sendo progressivamente produzido por dinâmicas coletivas do próprio campo político ao longo do tempo, isto é, se a emergência dessas figuras não deve ser compreendida apenas como resultado de condições externas — crises econômicas, instabilidades institucionais ou transformações tecnológicas — mas como consequência de um modo específico de operação do próprio campo, que, ao se reorganizar em torno de determinadas lógicas, passou a permitir não apenas o surgimento, mas sobretudo a legitimação dessas lideranças.

E aqui está o ponto central, que muitas vezes escapa às análises mais apressadas: o problema não é que figuras como Trump existam — elas sempre existiram, em diferentes formas e intensidades — mas o fato de que hoje elas são legitimadas a ponto de alcançarem estruturas de poder e, uma vez nelas, expandirem o campo do aceitável, fazendo com que ações, discursos e práticas que antes seriam imediatamente rejeitados como absurdos passem a ser progressivamente tolerados, depois relativizados e, por fim, incorporados como parte de uma racionalidade política legítima, muitas vezes sob a justificativa de que são respostas necessárias a um outro lado que teria, previamente, rompido os limites.

Essa legitimação não ocorre de forma súbita, nem como resultado de uma conversão ideológica massiva, mas como efeito acumulativo de um processo no qual o próprio campo político vai sendo tensionado, deslocado e, em certa medida, reconfigurado, e é nesse ponto que se torna impossível sustentar a ideia de que estamos apenas diante de uma reação unilateral, pois o que se observa é uma dinâmica muito mais complexa, na qual diferentes forças — inclusive dentro do campo progressista — passam a operar sob uma lógica que transforma a política em guerra, uma lógica que, embora tenha raízes em tradições de pensamento que entendem o conflito como motor da transformação social, vai além de seu enquadramento original e passa a se manifestar como postura permanente, como forma dominante de atuação, na qual o outro deixa de ser um adversário e passa a ser um inimigo a ser combatido, neutralizado ou, em última instância, eliminado do espaço legítimo da política.

E quando essa lógica se estabiliza, mesmo que parcialmente, ela produz efeitos que vão muito além das intenções iniciais de qualquer campo específico, pois ao operar continuamente sob a gramática da guerra, o campo político passa a gerar, quase inevitavelmente, as condições para o surgimento daquilo que ele próprio afirma combater, criando um ambiente no qual o excesso deixa de ser uma exceção e passa a ser percebido como resposta legítima ao excesso do outro, instaurando um ciclo que tende não à correção, mas à intensificação.


II. Ressentimento, espelhamento e a captura dos razoáveis

Esse processo se torna ainda mais evidente quando observamos o papel do ressentimento como força organizadora do campo político contemporâneo, não apenas como uma reação localizada a condições específicas, mas como um elemento difuso que atravessa diferentes grupos, classes e identidades, sendo constantemente ativado por narrativas que operam a partir da identificação de injustiças — reais ou percebidas — e da atribuição de responsabilidade a um outro claramente definido, e é nesse ponto que o ressentimento deixa de ser apenas um afeto e passa a se tornar uma estrutura, uma lente através da qual a realidade política é interpretada e organizada.

Nos últimos dez ou quinze anos, esse ressentimento foi sendo alimentado por uma combinação de fatores — entre eles, sim, crises econômicas, transformações tecnológicas e mudanças culturais profundas — mas o que parece decisivo não é a existência desses fatores em si, e sim a forma como eles foram politicamente mobilizados dentro de um campo já tensionado por uma lógica de confronto permanente, de modo que, ao invés de serem canalizados para processos de reconstrução institucional ou de elaboração coletiva, eles foram incorporados a uma dinâmica de intensificação do conflito, na qual cada lado passa a justificar suas próprias radicalizações a partir das radicalizações do outro.

É nesse contexto que se produz aquilo que talvez seja um dos fenômenos mais relevantes — e menos compreendidos — desse processo: a captura dos razoáveis, isto é, o momento em que indivíduos que, em outras circunstâncias, tenderiam a posições mais moderadas ou equilibradas passam a ser gradualmente absorvidos por esse ciclo de escalada, não necessariamente por adesão consciente a posições extremas, mas por um processo de normalização progressiva no qual aquilo que antes era inaceitável passa a ser percebido como necessário, ou ao menos inevitável, diante do comportamento do outro lado.

E essa captura não ocorre sem ambivalência, nem sem consequências, pois ela frequentemente se acompanha de uma espécie de descompasso entre expectativa e realidade, no qual indivíduos que contribuíram para a legitimação de determinadas lideranças ou discursos se veem, posteriormente, confrontados com ações que não haviam previsto, gerando uma reação de surpresa, de espanto ou mesmo de arrependimento, como se aquilo que agora se manifesta de forma explícita não fosse, na verdade, a continuação lógica de um processo que já estava em curso.

Mas, nesse ponto, o sistema já se encontra em um estado de reforço positivo, um lock-in, no qual cada movimento reforça o padrão anterior e torna cada vez mais difícil qualquer retorno a uma condição anterior de equilíbrio, porque a própria estrutura do campo passa a punir comportamentos moderados e a recompensar posições mais extremas, criando um ambiente no qual a escalada não apenas se torna provável, mas funcional, isto é, ela passa a ser percebida como a única forma eficaz de atuação política.

E é precisamente nesse ambiente que fenômenos como o trumpismo deixam de ser compreendidos como exceções e passam a ser vistos como produtos, não de um desvio isolado, mas de uma reorganização mais ampla do campo político, na qual a lógica da guerra, ao ser continuamente reiterada, acaba por produzir as condições para a emergência de lideranças que operam no limite — ou além dele — das normas democráticas, ao mesmo tempo em que encontram, paradoxalmente, respaldo suficiente para sustentar sua legitimidade.


III. Radicalidade democrática e a interrupção da escalada

Se esse diagnóstico estiver, ao menos em parte, correto, então a questão que se impõe não é apenas a de compreender como chegamos até aqui, mas sobretudo a de pensar como interromper essa dinâmica antes que seus efeitos se tornem ainda mais difíceis de reverter, e nesse ponto parece insuficiente apostar em uma simples moderação ou em um retorno espontâneo a formas anteriores de convivência política, porque o sistema, uma vez capturado por essa lógica de reforço, não tende a se corrigir por si mesmo, mas a se intensificar, exigindo, portanto, uma ação consciente, deliberada e, em certo sentido, contraintuitiva em relação à própria dinâmica que hoje organiza o campo.

O que se torna necessário, portanto, não é uma posição equidistante entre os polos, nem uma tentativa de neutralidade que frequentemente é percebida — e muitas vezes corretamente — como omissão, mas algo que poderíamos chamar de uma radicalidade democrática, isto é, uma posição ativa que afirma de forma clara e inequívoca as condições que tornam a democracia possível, ao mesmo tempo em que deslegitima práticas e discursos que operam fora dessas condições, independentemente de sua origem ideológica, o que implica não apenas um posicionamento discursivo, mas uma reorganização concreta das formas de participação política.

E aqui há um ponto adicional, talvez ainda mais difícil, porque não se trata apenas de se desvincular de fluxos informacionais, redes sociais ou circuitos simbólicos que operam sob a lógica da guerra e da captura afetiva, mas também de não participar, mesmo quando determinadas ações parecem, isoladamente, legítimas ou justificáveis, de movimentos coletivos que, na prática, funcionam como vetores de captura, isto é, que mobilizam pessoas em torno de causas aparentemente válidas, mas que, estruturalmente, acabam redirecionando esse fluxo para dinâmicas de radicalização, reforço de polarização e aprofundamento do conflito.

Isso exige uma vigilância política mais sofisticada, porque a captura não se dá apenas pela adesão direta a discursos extremos, mas muitas vezes por meio de engajamentos parciais, pontuais ou aparentemente neutros, que acabam sendo incorporados por estruturas mais amplas que operam segundo essa lógica, de modo que resistir, nesse contexto, não é apenas reagir, mas escolher cuidadosamente os espaços, os meios e as formas de atuação, evitando reforçar dinâmicas que, no limite, se alimentam justamente da resistência que pretendem combater.

Nesse sentido, trata-se de construir uma forma de resistência que não possa ser capturada, ou que, ao menos, minimize essa possibilidade, o que implica, por exemplo, estabelecer condições claras de participação, recusar enquadramentos que transformem qualquer mobilização em instrumento de polarização adicional e, sobretudo, reconhecer rapidamente os momentos em que determinadas iniciativas passam a operar fora do campo democrático, interrompendo a participação e retirando o suporte antes que a captura se consolide, e, mais do que isso, criando mecanismos — formais ou informais — que dificultem que esses mesmos fluxos sejam reutilizados de maneira recorrente pelos mesmos grupos.

Mas essa recusa, por si só, não é suficiente, porque o vazio deixado pela não participação tende a ser rapidamente ocupado pelas forças que já operam dentro dessa lógica, e por isso a radicalidade democrática precisa se traduzir também em ação positiva, em mobilização concreta, em organização política efetiva, seja na esfera pública — por meio da formação de opinião, da construção de narrativas e da ampliação de espaços de debate — seja nas esferas privadas, nas conversas cotidianas, nos processos de convencimento e de ativação política que, embora menos visíveis, são decisivos para a formação de maiorias.

Isso implica também um engajamento mais direto com a política institucional, seja incentivando o surgimento de candidaturas que operem fora da lógica da polarização, seja participando ativamente de campanhas, articulações partidárias ou mesmo de estruturas meta-partidárias que tenham como objetivo reconfigurar o campo político a partir de uma lógica distinta, capaz de interromper a dinâmica de reforço dos extremos e de reconstruir, ainda que gradualmente, as condições de um espaço comum minimamente funcional.

E talvez esse seja, ao mesmo tempo, o ponto mais exigente e o mais necessário dessa proposta, porque ele exige reconhecer que o imperativo do momento não é apenas escolher entre alternativas dadas dentro de um campo já deteriorado, mas atuar para modificar o próprio campo, criando as condições para que outras alternativas possam emergir, o que implica aceitar um grau maior de incerteza, de esforço e de responsabilidade, mas também a possibilidade real de interromper um processo que, se deixado à sua própria lógica, tende a produzir consequências cada vez mais graves.

Fenômenos como Trump, portanto, não devem ser compreendidos como acidentes, nem como meros reflexos de crises externas, mas como expressões de um processo no qual o próprio campo político foi, ao longo do tempo, permitindo — e, em certa medida, produzindo — as condições para sua emergência, e a pergunta que permanece, diante disso, não é apenas como esses fenômenos surgem, mas o que estamos dispostos a fazer, individual e coletivamente, para deixar de produzi-los, antes que aquilo que hoje ainda nos surpreende se torne, definitivamente, a norma.

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segunda-feira, 16 de março de 2026

Eleições brasileiras 2026 - Diogo Dutra (Revista ID)

 

Quando o sistema trava

Polarização, atratores políticos e o lock-in da democracia brasileira

Introdução — um sistema que não conseguimos mais enxergar de dentro

Talvez estejamos nos aproximando do quinto ou sexto ciclo eleitoral consecutivo no qual o Brasil convive com um fenômeno que, no início, parecia episódico, mas que ao longo do tempo foi se consolidando como uma estrutura permanente da vida política: a polarização radicalizada. Passamos por momentos de enorme tensão pública. Assistimos a crises institucionais, a rupturas profundas no tecido social, a relações pessoais que se deterioraram sob o peso de disputas políticas cada vez mais agressivas. Famílias se dividiram, amizades se romperam, ressentimentos se acumularam silenciosamente em muitas camadas da sociedade.

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Ao longo desse período, muitos de nós experimentamos uma mistura estranha de indignação, cansaço e resignação. Houve momentos de raiva coletiva, momentos de medo real, momentos em que parecia que qualquer coisa poderia acontecer. Algumas das coisas que temíamos aconteceram; outras, felizmente, não aconteceram. Mas o que talvez seja mais intrigante — e, para mim, cada vez mais perturbador — é perceber que, mesmo depois de atravessarmos tantos ciclos dessa dinâmica, ainda parece não ter caído a ficha coletiva sobre o quão profundamente danoso é esse padrão de organização da vida política.

Observando o cenário que começa a se desenhar para mais uma eleição nacional, algo me impressiona profundamente: mesmo antes do primeiro turno acontecer, já estamos operando mentalmente dentro da lógica de um segundo turno polarizado. As pessoas discutem cenários eleitorais como se fosse inevitável que o sistema político brasileiro continue organizado em torno de dois polos que se antagonizam mutuamente. Comentários, análises e até conversas cotidianas parecem aceitar como natural que, ao final do processo, estaremos novamente diante da mesma estrutura binária que tem organizado a política brasileira nos últimos anos.

Esse fenômeno é tão naturalizado que raramente paramos para fazer uma pergunta fundamental: e se estivermos presos dentro de um sistema que reproduz continuamente essa estrutura?

É justamente essa pergunta que me levou a tentar observar o fenômeno político a partir de uma lente um pouco diferente daquela que costuma orientar o debate público. Em vez de interpretar eleições e disputas ideológicas apenas como fenômenos institucionais ou morais, tenho me interessado cada vez mais por compreendê-los como expressões de sistemas complexos. E quando olhamos a política dessa maneira — como um sistema dinâmico composto por milhões de interações entre indivíduos, instituições e fluxos de informação — alguns padrões começam a emergir.

Um desses padrões é o que a literatura sobre sistemas complexos chama de atrator: um estado relativamente estável para o qual o sistema tende a convergir repetidamente. E quando um sistema entra nesse tipo de configuração, ele pode permanecer ali por muito tempo, reproduzindo continuamente a mesma dinâmica [1].

Talvez seja exatamente isso que estejamos vivendo.

Talvez estejamos presos em um lock-in político.

Este ensaio é uma tentativa de dar um passo para trás e olhar para esse fenômeno sob a perspectiva de sistemas dinâmicos. Não para justificar a polarização, mas para compreender por que ela persiste, por que ela captura inclusive aqueles que não se identificam com os polos mais radicalizados e, sobretudo, por que ela só será superada se certas perturbações ocorrerem dentro do próprio sistema social.


I — Atratores, lock-in e sistemas sociais

Na literatura sobre sistemas complexos e economia evolucionária, o conceito de lock-in descreve uma situação em que um sistema entra em uma trajetória histórica que passa a se auto-reforçar. Uma vez estabelecida determinada configuração institucional, tecnológica ou organizacional, cada decisão subsequente tende a reproduzir as condições que mantêm essa estrutura em funcionamento. O conceito tornou-se particularmente conhecido a partir dos trabalhos de Brian Arthur, que demonstrou como tecnologias ou instituições podem tornar-se dominantes não necessariamente porque são superiores, mas porque um conjunto inicial de escolhas cria um caminho do qual se torna progressivamente mais difícil escapar [2].

Em sistemas desse tipo, pequenas perturbações raramente são suficientes para alterar a trajetória dominante. O sistema tende a absorver essas variações e retornar à configuração anterior. Para que uma transformação estrutural ocorra, normalmente é necessário algum tipo de distúrbio suficientemente intenso para deslocar o sistema para outro atrator.

Essa dinâmica aparece em diversas áreas do conhecimento. Ilya Prigogine mostrou que sistemas físicos complexos frequentemente permanecem em estados metaestáveis até que flutuações internas ou externas criem condições para reorganizações estruturais profundas [3]. Na teoria de redes, pesquisadores observaram que interações sociais tendem a produzir agrupamentos densos — clusters — nos quais identidades coletivas e padrões de comportamento se reforçam mutuamente [4].

Quando aplicamos essa lente à política contemporânea, começamos a perceber que certos fenômenos aparentemente contingentes podem refletir estruturas sistêmicas relativamente estáveis. Polarização política intensa é um desses fenômenos.


II — A polarização como atrator político

Conflitos políticos sempre existiram. Divergências ideológicas, disputas eleitorais e confrontos de visões de mundo fazem parte da própria dinâmica das democracias. O que parece ter se alterado nas últimas décadas, no entanto, não é apenas a intensidade desses conflitos, mas a forma como eles estruturam o sistema político como um todo.

No Brasil — assim como em diversos outros países — a polarização deixou gradualmente de ser apenas uma característica episódica da competição política para tornar-se uma espécie de mecanismo organizador do próprio sistema político. A lógica que orienta a mobilização eleitoral passa a depender cada vez mais da criação de identidades antagônicas relativamente estáveis. Em vez de múltiplos projetos disputando preferências em um campo plural, o sistema passa a gravitar em torno de dois polos que se alimentam mutuamente.

A lógica desse processo é relativamente simples. Criar um campo de pertencimento emocional — o “nós” — e simultaneamente construir uma rejeição intensa ao “eles”. Essa estrutura reduz a complexidade do sistema político e torna a mobilização mais eficiente. Eleitores passam a tomar decisões menos com base em programas e mais com base em identidades.

Esse mecanismo tem um efeito curioso: cada lado passa a depender da existência do outro para sustentar sua própria mobilização. Ataques reforçam identidades. Conflitos ampliam o engajamento. Episódios de indignação coletiva aumentam a coesão interna dos grupos.

Com o tempo, essa dinâmica tende a produzir um verdadeiro atrator político. Uma configuração que passa a organizar grande parte das interações dentro do sistema.

Uma vez que esse padrão se estabelece, praticamente todas as forças institucionais começam a reforçá-lo. Estratégias de comunicação política privilegiam narrativas polarizadas. Redes sociais amplificam conteúdos que despertam emoções intensas. E até instrumentos que deveriam ajudar a compreender a realidade política — como pesquisas eleitorais — acabam frequentemente reforçando essa estrutura ao enquadrar o debate quase exclusivamente como uma disputa entre dois polos.

Talvez o dado mais relevante — e menos discutido — seja que, no caso brasileiro, os níveis de rejeição entre campos políticos atingiram patamares historicamente elevados. Ou seja, a polarização deixou de ser apenas competição eleitoral e passou a incorporar uma dimensão emocional de rejeição ao adversário.

Do ponto de vista sistêmico, esse é um indicador clássico de um sistema que entrou em lock-in.


III — Quando o centro é capturado pelo sistema

O aspecto mais intrigante dessa dinâmica talvez seja o seguinte: ela não depende apenas dos atores mais radicalizados do sistema político. Na verdade, sistemas polarizados tendem a capturar progressivamente também aqueles que inicialmente se posicionam fora dos polos.

Em termos de sistemas dinâmicos, quando um sistema possui dois atratores dominantes, elementos que se aproximam do campo tendem a ser puxados gravitacionalmente para uma dessas regiões de estabilidade. Traduzido para a política, isso significa que atores moderados frequentemente acabam sendo absorvidos pela lógica da polarização, mesmo quando não compartilham plenamente das posições ideológicas dos extremos.

Esse fenômeno aparece de diversas maneiras. O medo do adversário leva eleitores moderados a votar estrategicamente. Candidatos que inicialmente tentam ocupar posições intermediárias acabam adotando discursos mais polarizados para sobreviver eleitoralmente. A própria narrativa pública passa a tratar posições centristas como ingenuidade, ambiguidade ou falta de coragem.

O resultado é um processo curioso e profundamente distorcedor. Mesmo quando existe uma parcela significativa da população que não se identifica plenamente com nenhum dos polos, o sistema continua produzindo segundos turnos cada vez mais radicalizados. Em vez de escolhas entre projetos consistentes de país, o eleitorado se vê diante de decisões motivadas principalmente pela tentativa de evitar aquilo que considera o pior cenário possível.

Esse fenômeno produz uma ilusão política perigosa. Governos eleitos dentro dessa dinâmica frequentemente parecem possuir legitimidade majoritária, quando na realidade foram escolhidos por um eleitorado fragmentado, que muitas vezes votou movido mais pelo medo do adversário do que pela adesão ao projeto vencedor.

É exatamente assim que sistemas em lock-in operam: empurrando todos os atores para dentro da estrutura existente.


IV — sair da inércia do sistema

Talvez o aspecto mais fascinante — e ao mesmo tempo mais inquietante — dos sistemas complexos seja o seguinte: quando estamos dentro de um atrator, frequentemente temos a impressão de que aquela configuração é inevitável. O sistema parece natural. Parece inevitável. Parece que sempre foi assim e que sempre continuará sendo assim.

Mas sistemas dinâmicos não funcionam dessa maneira.

Eles permanecem estáveis até que alguma perturbação relevante altere o padrão das interações. Pequenas mudanças acumuladas podem, em determinado momento, deslocar o sistema para outra região do espaço dinâmico.

O que me inquieta profundamente neste momento é perceber que talvez estejamos vivendo exatamente o oposto desse processo. Em vez de produzir perturbações capazes de alterar a dinâmica da polarização, muitos atores sociais parecem simplesmente aceitar sua inevitabilidade. Pessoas que não se identificam com os polos mais radicalizados continuam sendo puxadas para dentro dessa lógica pela força gravitacional do sistema.

E aqui está talvez o ponto mais importante deste ensaio.

Se existe hoje uma parcela significativa da sociedade que não deseja viver dentro dessa estrutura de antagonismo permanente, então essa parcela precisa compreender que a inércia também é uma forma de participação no sistema. Aceitar passivamente a lógica da polarização significa, na prática, reforçá-la.

É por isso que talvez seja urgente produzir um tipo diferente de movimento.

Não apenas institucional.

Mas social, cultural e relacional.

Pessoas que se identificam com posições mais moderadas ou que simplesmente rejeitam a lógica de inimização da política precisam começar a se posicionar de forma mais clara — nas conversas privadas, nos espaços públicos, nas redes sociais, nas organizações em que participam.

Isso significa recusar a lógica do “nós contra eles”.

Significa não amplificar narrativas que reforçam a polarização.

Significa defender explicitamente a existência de alternativas políticas fora desse binarismo.

Significa também, eventualmente, estimular alianças entre candidaturas que tentam ocupar esse espaço intermediário — em vez de contribuir para a fragmentação que frequentemente inviabiliza esse campo.

E, se mesmo assim o sistema insistir em reproduzir apenas escolhas polarizadas, talvez seja necessário sinalizar de forma clara que essa estrutura não é aceitável.

Mesmo que isso implique, em determinadas circunstâncias, recusar participar da lógica binária que o sistema tenta impor.

Não como gesto de indiferença política.

Mas como um sinal explícito de que parte da sociedade não aceita mais ser arrastada pela dinâmica de um sistema que produz continuamente inimigos políticos em vez de adversários democráticos.

Se existe algo que a teoria dos sistemas complexos nos ensina é que atratores não são eternos.

Mas eles também não desaparecem sozinhos.

Eles desaparecem quando novas interações começam a reorganizar o sistema.

A pergunta que fica — e que talvez seja a pergunta política mais importante deste momento — é se estamos dispostos a produzir essas novas interações ou se continuaremos aceitando, ciclo após ciclo, a gravidade de um sistema que parece cada vez mais difícil de abandonar.


Notas

[1] Stuart Kauffman — At Home in the Universe (1995).

[2] W. Brian Arthur — “Competing Technologies, Increasing Returns, and Lock-In by Historical Events” (1989).

[3] Ilya Prigogine — Order Out of Chaos (1984).

[4] Duncan Watts — Six Degrees: The Science of a Connected Age (2003).

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Polarização e o Fim da Confiança: Um nó a ser desatado - DIOGO DUTRA Revista ID

 A Polarização e o Fim da Confiança

Um nó a ser desatado
DIOGO DUTRA
Revista ID, FEV 16, 2026

I. A polarização como sistema: da disputa ao aprisionamento
Muito já se escreveu sobre a polarização. Mas é necessário atualizar radicalmente nosso entendimento sobre esse fenômeno. A polarização política atual não é apenas uma intensificação de divergências ideológicas. Ela se transformou em um sistema de bloqueio social e político, uma estrutura complexa que aprisiona o debate público em dois polos rígidos e mutuamente reativos.

No passado, a polarização era vista como parte inerente da democracia. Um certo grau de confronto entre visões de mundo é saudável e necessário. O problema contemporâneo é que a polarização deixou de ser adversarial e passou a ser existencial: o outro não é apenas oponente, mas ameaça. E, como mostra a teoria dos sistemas complexos, quando um sistema entra em regime de lock-in por atratores binários, qualquer possibilidade de reorganização interna se torna cada vez mais difícil.

Essa configuração nos leva a um novo tipo de paralisia democrática. A existência de dois polos fixos e profundamente rejeitados impede que surjam alternativas. A política vira um jogo de eliminação, não de escolha. A sociedade passa a funcionar sob lógica de guerra preventiva.

II. O papel da rejeição: um novo eixo de análise política
Um dos fatores mais críticos, mas ainda pouco discutidos com a devida centralidade, é a lógica da rejeição como eixo estruturante da política polarizada. Em especial no contexto brasileiro, com sistema de dois turnos, os índices de rejeição passaram a ser tão ou mais relevantes que as intenções de voto.

Durante muito tempo, análises eleitorais tradicionais basearam-se unicamente em intenção declarada de voto. No entanto, o cenário atual exige outro tipo de lente. Uma candidatura viável hoje não é apenas aquela que agrega apoios, mas principalmente aquela que consegue reduzir sua taxa de rejeição a níveis sustentáveis. Essa inversão é decisiva: o que define o campo político não é mais o entusiasmo, mas o medo.

É nesse ponto que se revela a falsidade da ideia de que só existe um caminho para vencer “o outro”. A lógica “para tirar Lula, é preciso Bolsonaro” ou “para tirar Bolsonaro, é preciso Lula” é um sintoma do aprisionamento do pensamento público dentro da armadilha binária. Ela só se sustenta quando se ignora a variável da rejeição. Quando ela é incorporada, percebe-se que existem sim alternativas viáveis fora do binarismo, desde que a análise e a opinião pública estejam dispostas a reconhecê-las.

Além disso, é importante observar que os chamados “núcleos duros” de cada campo político — o lulopetismo e o bolsonarismo — provavelmente representam uma fatia minoritária da sociedade, estimada em algo entre 15% e 20% do eleitorado cada. A maior parte da população transita por identificações parciais, motivações circunstanciais e, sobretudo, por rejeição ao outro campo, e não por engajamento afirmativo. No entanto, as pesquisas e análises políticas raramente conseguem distinguir com clareza essas camadas, o que gera a falsa impressão de que “está tudo dominado” por um dos lados. Essa sensação de impotência generalizada intensifica o cinismo, o medo e o radicalismo defensivo.

Sistemas eleitorais mais sofisticados (como votações preferenciais, votação condicional ou sistemas de segundo turno instantâneo) incorporam esse fator. No Brasil, mesmo que o modelo oficial não o faça, a cidadania ativa pode e deve fazê-lo. É uma escolha política e cultural deliberada — e talvez a mais urgente que tenhamos diante de nós.

III. Confiança em ruínas: Fukuyama e a anatomia do colapso
Para entender o enraizamento da polarização, é essencial retornar ao conceito de confiança como infraestrutura invisível da democracia. Francis Fukuyama, em seu livro Trust, desenvolve uma teoria poderosa: as sociedades que conseguem gerar confiança entre cidadãos — para além da família, do clã ou do partido — são aquelas que criam instituições resilientes e economias inovadoras. Já as sociedades de baixa confiança dependem de mediações formais ou autoritárias e se tornam presas fáceis de rupturas.

Quando aplicamos essa leitura ao Brasil e a outros países em processo de polarização avançada, o quadro é claro: o tecido da confiança se dissolveu. Não se confia mais nas instituições (Congresso, STF, imprensa), não se confia mais nos dados (pesquisas eleitorais, estatísticas públicas), não se confia sequer na palavra do outro. Isso tem efeitos profundos: sem confiança mínima, todo o espaço democrático se transforma em trincheira.

Como Fukuyama propõe, a confiança não é uma crença ingênua. Ela é um bem cultural, produzido ao longo do tempo por experiências de reciprocidade e previsibilidade social. Quando essas experiências são sistematicamente rompidas por crises, fake news, oportunismo institucional ou guerras culturais, não sobra base para o funcionamento coletivo. O resultado é o isolamento, a radicalização e a tentação do autoritarismo.

IV. O desbloqueio possível: repactuar ou afundar
Diante desse cenário, não há solução mágica. Mas há um caminho: trabalhar deliberadamente pelo desbloqueio da polarização como prioridade nacional. Isso significa reconhecer que qualquer tentativa de reforma — tributária, educacional, climática, institucional — será sabotada enquanto a polarização seguir como regime dominante.

O centro político, frequentemente acusado de irrelevância ou oportunismo, precisa assumir o papel estratégico de ser o vetor de desbloqueio. Isso exige responsabilidade, mas também pragmatismo: abrir mão de projetos pessoais, rearticular convergências, aceitar imperfeições. Mais do que liderar, é necessário desarmar.

Mas não basta esperar que esse movimento venha das elites. A cidadania também precisa operar sob nova lógica. Isso implica, entre outras coisas:

abandonar a ideia de “voto moral” puramente identitário;
aceitar que a democracia exige negociação e impureza;
votar estrategicamente, levando em conta não só afinidade ideológica, mas o efeito sistêmico do voto sobre o ciclo de polarização.
Nesse processo, é importante abandonar a fantasia de que um herói solitário irá resolver o impasse. O desbloqueio da polarização não será feito por uma única figura carismática, mas por uma engenharia política ampla, composta por uma chapa equilibrada, por uma equipe de governo com capacidade de diálogo entre espectros diversos e por lideranças intermediárias capazes de construir pontes. Esse movimento de coalizão e arquitetura política é que pode oferecer as bases de um novo ciclo democrático, mais plural e menos reativo.

Talvez este primeiro ciclo de governo seja ainda limitado. Talvez seu principal papel seja criar condições mínimas para que, no próximo ciclo, possamos voltar a discutir projeto de país com alguma racionalidade. Mas esse recomeço só será possível se formos capazes de desarmar o atual regime de desconfiança e medo.

Despolarizar não é um projeto de poder. É um projeto de sobrevivência democrática. Não se trata de apagar diferenças, mas de permitir que outras possibilidades possam emergir, fora da lógica do medo e da eliminação. A polarização não é o destino. É o sintoma. E todo sintoma pode ser tratado, desde que nomeado com precisão.

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