China

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Em 1933, o escritor britânico H. G. Wells, já famoso por ter escrito, desde o final do século XIX, romances futuristas bastante inquietantes – A Máquina do Tempo (1895), O Homem Invisível (1897) e o mais assustador A Guerra dos Mundos (1898) –, publicou um novo livro de crônicas sobre coisas mais terrenas: The Shape of Things to Come (1933), traduzido e publicado alguns anos depois por Monteiro Lobato, sob o título de História do Futuro (1940). A obra ainda era futurista, mas de feitura menos fantástica, embora relativamente pessimista, pois que combinando eventos do seu tempo, como o fascismo e o comunismo, com projeções para o século XXI: As duas primeiras partes, “Hoje e Amanhã: prenúncios do desapontamento”, seguida de “Depois de Amanhã: a era do desapontamento”, já tratavam de uma Grande Guerra, com a “interrupção do progresso”, a “falência dos velhos governos”, o “marasmo da velha educação”, e até da “liquidação da América”. As três partes finais eram resolutamente pessimistas: “Nascimento do Estado moderno” (profetas, fanáticos e assassinos); “O Estado moderno militante” (interlúdio dramático) e “O Estado moderno no controle da vida”, com algo parecido a “manejamento geogônico” (sic).

Se os três primeiros romances tinham sido publicados na era relativamente otimista da belle époque, muitos anos antes da Grande Guerra, as crônicas fantásticas de 1933 de certa forma anteciparam uma guerra ainda mais terrível, com a destruição do domínio dos grandes impérios europeus sobre os destinos do mundo. Se ele estivesse vivo no pós-segunda guerra, qual seria sua opinião sobre os últimos 80 anos? Talvez ele escrevesse que esta segunda Guerra Fria está sendo mais turbulenta do que a primeira, que foi até relativamente estável, com a “dissuasão mutuamente assegurada” entre as duas grandes potências nucleares e até acordos de contenção da proliferação entre elas.

Ainda não estamos, exatamente, numa repetição dos anos 1930, quando as três potências militaristas expansionistas deram início às preliminares de um novo conflito global: o Japão na Manchúria (1931) e depois na China inteira (1937), a Itália tentando conquistar a Abissínia (1935) e a Alemanha se expandindo na própria Europa (de 1938 em diante), já tendo estas duas testado armas e técnicas na guerra civil espanhola (1936-1939). Em outros termos, os preparativos dos anos 1930 já apontavam para uma nova conflagração global, o que ainda não está totalmente nos cenários atuais traçados por planejadores geopolíticos, generais de estados maiores, ou romancistas à la H. G. Wells.

As incertezas sobre os próximos desenvolvimentos geopolíticos derivam não tanto dos cálculos estratégicos e dos potenciais bélicos das respectivas “esferas de influência” das três superpotências, mas justamente do fato que elas não parecem propensas a guerrear entre si. Senão vejamos. Os três “donos do poder” não aparentam hostilidade entre eles, ao contrário: o Hegemon em declínio se dá tão bem com o neoczar que até parece disposto a servir seus interesses, e não apenas na Ucrânia; por sua vez, o novo “Imperador do Meio” tem interesses “universais” no plano comercial, mas, geopoliticamente, seu foco é bem mais restrito: apenas uma “província rebelde”. O fato é nenhum deles pode ser considerado um pensador estratégico. O primeiro nem de longe exibe qualquer coerência em suas confusas alocuções; o tirano de Moscou está dissipando a capacidade do “segundo exército mais poderoso do mundo” numa guerra de agressão mal concebida, mal executada, cujo resultado mais provável é a destruição econômica do seu país; o “imperador” tem, sob seu comando todo um exército de mandarins tecnocráticos, mas acaba de demitir o comandante do Exército Popular de Libertação, o que deve atrasar e pode comprometer a liberação de uma “formosa ilha”.

Difícil dizer, atualmente, quais cenários estão abertos às relações internacionais entre as grandes potências, entre elas, entre elas e as demais potências médias, entre as quais estão o Brasil, o Canadá e a Finlândia, e com todas as demais nações. Sabemos, contudo, que algumas pequenas disfunções nessa engrenagem complicada podem “empurrar” o mundo para qualquer trajetória aberta à arte e ao engenho de qualquer um daqueles três personagens complicados. Talvez não seja, exatamente, na direção da fatalidade dos anos 1930 – ou seja, uma nova guerra global entre as grandes potências – ou se ainda estamos na confusão demonstrada por H. G. Wells no seu livro de 1933.

Para sermos absolutamente vagos, como é a realidade atual, tudo é possível: Trump pode continuar destruindo o multilateralismo político e econômico até o ponto de uma difícil reversão depois de sua saída (mas ele vai sair); Putin pode continuar destruindo a Ucrânia por mais alguns meses, mas está destruindo igualmente o seu próprio país, até o ponto de algum gesto desesperado; o novo imperador pode aproveitar a “distração” oferecida pelos dois primeiros, e invadir a sua ilha rebelde, com desfecho ainda desconhecido. Nem tudo depende só dos três, mas muita coisa sim, depende.

Revisando rapidamente a lista dos atuais chefes de Estado e de governo (além e à parte desses três), só é possível identificar dois estadistas de estatura mundial, ambos de potências médias, modernas e educadas, que se situam na vanguarda de um pensamento estratégico fundamentado tanto num profundo conhecimento da história e do Direito Internacional, quanto numa antevisão esclarecida de uma nova arquitetura mundial de paz e segurança, voltadas para o desenvolvimento pacífico da humanidade, sem hegemonismos. São eles o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Vamos examinar o que, recentemente, eles andaram falando ou escrevendo.

Alexander Stubb acaba de publicar um pequeno livro no qual fornece algumas chaves para compreender os atuais cenários ainda em desenvolvimento: The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order(Nova York: Columbia Global Reports, 2026; disponível no Kindle Amazon por menos de 10 dólares). Um resumo de suas teses principais já tinha sido publicado como artigo na Foreign Affairs em dezembro de 2025: “The West’s Last Chance: How to Build a New Global Order Before It’s Too Late” (eu o li no URL: https://www.foreignaffairs.com/united-states/wests-last-chance; se não mais livremente disponível, tomei o cuidado de colocá-lo à disposição dos interessados: https://www.academia.edu/164575033/The_Wests_Last_Chance_Alexander_Stubb_Foreign_Affairs_).

O propósito principal do presidente da Finlândia é o de propugnar por um multilateralismo cooperativo, baseado num realismo dotado de valores, e suscetível de superar o atual triângulo de ferro de três superpotências que estão enredadas em seus interesses geopoliticamente restritos. Ele mesmo reconhece que a experiência de seu país – que enfrentou o ataque brutal da União Soviética em 1940 –, a “Finlandização” do pós-guerra, ou seja, a acomodação em face de um agressor brutal, não foi a melhor solução, pois o invasor pode sempre voltar à carga. Novo Por isso, o recurso à Otan foi o remédio encontrado para dissuadir o grande urso de um novo ataque, assim que teve início a nova guerra de agressão contra a Ucrânia (na verdade, a continuidade, pois dez anos antes já tinha ocorrido a intervenção no Donbas, seguida pela invasão da Crimeia).

Os pontos centrais de seus argumentos, tanto no artigo quanto no livro, se referem à situação atual do mundo, que caminha do multilateralismo, que é um sistema de cooperação global, baseado em regras comuns e instituições internacionais, em direção à multipolaridade, que é um oligopólio do poder. Eis um resumo de suas teses:

A competição entre os grandes poderes está de volta, à medida em que a rivalidade entre a China e os Estados Unidos estabelece o quadro da geopolítica. Mas esta não é a única força moldando a ordem global. Potências médias emergentes, inclusive Brasil, Índia, México, Nigéria, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia, se tornaram divisoras de águas. Conjuntamente, elas detêm os meios econômicos e o peso geopolítico para fazer adernar a ordem global em direção da estabilidade ou de maior turbulência. Elas também têm razão para demandar mudanças: o sistema multilateral do pós-Segunda Guerra Mundial não se adaptou adequadamente para refletir sua posição no mundo e permitir-lhes o papel que elas merecem. Uma competição triangular entre o que eu chamo de Ocidente global, de Oriente global e Sul global está tomando forma. Seja escolhendo fortalecer o sistema multilateral ou buscar a multipolaridade, o Sul global decidirá se a geopolítica da próxima era se inclinará em direção da cooperação, da fragmentação, ou da dominação. (artigo na Foreign Affairs)

Aqui, Stubb parece interpretar incorretamente o peso do que ele chama de Sul Global; para ele tanto o Ocidente, quanto o Oriente estão lutando pelos “corações e mentes” do Sul Global, pois que eles entendem que é o Sul Global é que vai decidir sobre a direção que tomará a nova ordem mundial. Se o Ocidente e o Oriente possuem objetivos divergentes, é o Sul Global que teria o que ele chama de “swing vote”, ou seja, a escolha decisiva. Acredito que ele exagera nessa visão, mas não vou desenvolver agora meus contra-argumentos. Vamos continuar com Alexander Stubb.

Ele acredita que uma reforma da ordem global precisa começar pelo topo, isto é, as Nações Unidas. A primeira reforma seria fazer com que todos os continentes estejam representados no Conselho de Segurança, o que parece ser uma proposta razoável, cujo efeito, contudo, será o de aumentar a cacofonia naquele órgão supremo. Em segundo lugar, nenhum estado deveria deter poder de veto no CSNU, pois ele acredita que no mundo atual, esse poder está incapacitando sua atuação (na verdade, sempre foi assim). Em terceiro, e mais importante lugar, Stubb afirma que se um membro permanente ou provisório do CSNU viola a Carta da ONU, seu pertencimento (não ao CSNU) à propria ONU deveria ser suspenso. Este é, provavelmente, sua mais importante proposta e a mais difícil: ela significa que a Rússia deveria ter sido suspensa imediatamente após a invasão total da Ucrânia, e esta seria uma decisão a ser tomada pela Assembleia Geral, não pelo próprio CSNU, o que seria virtualmente impossível, nas regras atuais. Stubb propõe que em lugar de Yalta, como modelo de organização do mundo, Helsinque seja tomada como exemplo, mas aqui a referência não possui grande relevância mundial, pois ele está se referindo à Conferência sobre segurança e cooperação NA EUROPA (ou seja, os resultados do diálogo, desde os anos 1970, entre “socialismo” e “capitalismo”).

Quanto ao primeiro-ministro Mark Carney, seu discurso em Davos provocou, com razão, uma recepção extremamente favorável nos mais diversos meios da política mundial. Suas teses são relativamente simples, e por isso mesmo, serão resguardas para uma discussão suplementar sobre suas outras implicações não imediatamente perceptíveis neste debate preliminar. Carney parte de uma constatação evidente: vivemos não uma transição, mas uma ruptura (o que é uma dedução especialmente relevante num país que parecia prestes a ser incorporado a um grande império ao Sul). Mas ele também levanta uma questão que é crucial para uma outra potência média, um pouco mais ao Sul, que é o Brasil, assim como o são pelo menos um terço das demais economias emergentes (em meio a uma vasta maioria de países mais “modestos”).

De fato, as potências médias são maioria no mundo, em termos de população, de PIB, de comércio, embora, individualmente, elas permaneçam muito aquém, em termos econômicos, financeiros ou militares, das três superpotências. Mas isso não tem nada a ver com essa repartição “geográfica-política” de Oeste, Oriente ou Sul, e sim com outras considerações. Alexander Stubb, por exemplo, comete o equívoco de colocar o BRICS como representante do “multilateralismo do Sul Global”, o que me parece uma enorme distorção conceitual e prática. Discutiremos essas questões num próximo artigo.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5213, 11 fevereiro 2026, 5 p.