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domingo, 1 de fevereiro de 2026

O poder dos sem poder – Hubert Alquéres (Revista Será?)

O poder dos sem poder

Hubert Alquéres

 Revista Será? ANO XIV

Em um sistema internacional cada vez mais assimétrico e instável, Hubert Alquéres analisa o dilema das potências médias diante da erosão das regras e do avanço do poder bruto. Inspirado em Václav Havel, o autor mostra que, para países como Canadá e Brasil, o verdadeiro poder não está na força, mas na defesa persistente da institucionalidade, do multilateralismo e da previsibilidade. Um texto lúcido sobre prudência estratégica, autonomia e realismo num mundo em ruptura.

Seque o link para o artigo.

https://bit.ly/4roWpvB


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Estaríamos, outra vez, em face de um novo “fim da História”? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Estaríamos, outra vez, em face de um novo “fim da História”?

Por Paulo Roberto de Almeida
Revista Será?, jan 30, 2026
https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/

Reflexões sobre algumas dúvidas do tempo presente.


A proposta de Fukuyama sobre o “fim da História” (“The End of History?”, The National Interest (Summer 1989), apresentada com um suporte teórico vagamente hegeliano, e formulada, cabe enfatizar, no início de 1989 – bem antes da queda do muro de Berlim e muito antes da implosão final do socialismo –, foi de fácil aceitação pelas correntes já convertidas ao liberalismo político e partidárias das democracias de mercado, assim como ela foi quase que universalmente rejeitada pelas esquerdas, que se apressaram em indicar que ela era desprovida de qualquer importância explicativa justamente no plano da História, tanto do ponto de vista intelectual, quanto do ponto de vista prático. Nenhuma dessas correntes prestou muita atenção ao ponto de interrogação ao final do título, que parecia oferecer, na roupagem puramente acadêmica do artigo, um excelente terreno de manobras para as divagações “inocentes” do autor sobre o “triunfo definitivo” do liberalismo ocidental.

Pois bem, na confusa conjuntura teórico-prática do início de 2026, cabe perguntar se já não estamos, outra vez, em face de um “novo final da História”, não exatamente no seu sentido hegeliano, mas na concretude das ações – não coordenadas, mas conjugadas – de três novos “Napoleões” em manobras geopolíticas, provavelmente dispostos a colocar um termo à ordem inaugurada em 1945 pelo quase império universal americano daquela conjuntura de final de um grande conflito global, e pretendendo, esses Napoleões nouvelle manière, estabelecer as bases práticas do funcionamento de um novo esquema que substitua a força do Direito pelo direito da Força. Se quisermos permanecer no raciocínio hegeliano original, ele se baseava na derrota das monarquias absolutas da velha Europa pela nova ordem racional-burocrática napoleônica (direitos do homem e do cidadão, igualdade formal dos cidadãos, exército nacional), assim como Fukuyama interpretou a crise final do socialismo nos anos 1980 como sendo a inauguração de uma nova ordem baseada nas democracias de mercado, dado o triunfo prático do modo capitalista de produção.

Para ser honesto com Fukuyama, sua tese é basicamente correta em sua aparente simplicidade propositiva: não há mais contestação ideológica possível – de origem socialista, entenda-se bem – à hegemonia econômica das economias de mercado, quase todas elas ocidentais. Os antigos impérios socialistas se converteram todos em adeptos desse modo egoísta de produção, ainda que mantendo o “despotismo oriental” de seus respectivos modos políticos de governança. Se Fukuyama fosse, contudo, mais um adepto das teses de filosofia da História de Raymond Aron do que das manipulações filosóficas hegelianas, ele teria reconhecido como altamente improvável que Aron aceitasse aquele estado de coisas – a crise final do socialismo – como sendo a vitória definitiva de um liberalismo fin-de-siècle. Relativamente pessimista — dotado de um scepticisme serein, preferiria dizer ele mesmo — no que se refere às realidades dos Estados e dos sistemas de poder existentes, Aron não alimentaria nenhuma ilusão quanto a que o alegre “enterro do socialismo” operado na última década do século XX pudesse conduzir a uma “primavera das democracias”, razoavelmente estável, ou a uma versão atualizada da “paz universal” prometida em meados do século XVIII por um prelado francês, tese repetida depois por Kant.

Em todo caso, observando-se a anarquia política característica da desordem interestatal contemporânea, protagonizado pelos três “Napoleões” (que ainda não tiveram a oportunidade de uma nova Yalta), bem como registrando os enormes diferenciais de recursos e de poder entre os Estados, no quadro de um sistema internacional ainda fortemente hierarquizado, tudo leva a crer que estamos em face de um novo “fim da História” bem movimentado, ainda indefinido em seus contornos principais, mas já distante da ordem criada nos estertores da Segunda Guerra Mundial. Paradoxalmente, ela vem sendo mais sabotada pela potência imperial que a criou do que pelos dois outros atores que surgiram no cenário “pós-socialista” de seus respectivos impérios.

Os dois “déspotas orientais” falam vagamente de uma “nova ordem global multipolar” – sem jamais definir seus contornos, ou dizer como ela se instalaria, precisamente –, ao passo que o autocrata ocidental se empenha, ruidosamente, em torpedear os fundamentos da ordem política multilateral criada em San Francisco e os do sistema multilateral de comércio inaugurado pouco depois pelo Gatt. Ele é o principal agressor da ordem global existente, não em favor de um império hegemônico reabilitado em seu antigo potencial supremacista, mas em benefício dos seus próprios negócios pessoais e familiares.

Entendamo-nos bem. Aron certamente não se surpreenderia em que os acasos da História conduzissem a Humanidade a um début-de-siècle ainda aroniano, isto é, livre aparentemente da ameaça de um holocausto nuclear, mas não isento de conflitos: “paz impossível, guerra improvável”, disse ele em 1948, um prognóstico ainda confirmado ao final de sua vida. Mas, para ele, a superação da Machtpolitik da primeira era bipolar não significava em absoluto que as relações internacionais contemporâneas — e presumivelmente as do futuro em construção — passassem a ser desprovidas, mesmo num cenário multipolar, de todo e qualquer elemento de “política de poder”. A despeito da crescente afirmação, durante a paz quase universal onusiana, do primado do direito internacional – ou seja, da “força da Razão” – sobre as soluções baseadas na violência primária, a Machtpolitik continuará a existir por largo tempo ainda, inclusive em seus aspectos mais elementares de exercício puro e simples da “razão da Força”. É justamente o que nos prometem os três já citados candidatos a novos Napoleões (ainda aguardando a sua nova Yalta).

Numa época em que modernos ideólogos identificam, repetidas vezes, sinais de “fim das ideologias” (ou do próprio “fim da História”), perde-se facilmente a visão de como o elemento ideológico influenciou a construção do mundo contemporâneo. O Ocidente, durante setenta anos, e a Europa, durante trinta anos, viveram sob o signo das relações Leste-Oeste. Sua face mais habitual produziu o que ficou identificado sob o conceito de “Guerra Fria”. A primeira “Guerra Fria” entre as duas superpotências da época, que marcou indelevelmente a segunda metade do século XX, não foi, provavelmente, apenas um produto de ideologias conflitantes. Mas, foram certamente as racionalizações políticas e militares construídas a partir das “intenções malévolas” do concorrente estratégico que lhe deram uma dimensão jamais vista nas antigas disputas hegemônicas (seja entre os impérios da antiguidade clássica, seja entre os Estados-nacionais da era moderna).

A nova estratégia de segurança americana, que identifica no liberalismo europeu o verdadeiro inimigo da “nova ordem global multipolar”, pode representar a “espoleta ideológica” (uma espécie de Iskra leninista) de um novo “fim da História”, mas que encarnaria, de fato, uma “gaiola de ferro” pouco weberiana, e bem mais parecida com um triunvirato imperial dos três Napoleões (Césares?). A futura ordem global estaria agora se encaminhando para uma etapa de “não-guerra” – que não quer dizer uma era de paz – entre os três grandes impérios, dividindo entre eles os despojos das potências menores?

Descartando-se a permanência dos chamados conflitos regionais e das guerras locais conduzidas por motivos étnicos ou territoriais, é provável que sim, mas, isto tem pouco a ver com a inauguração de uma “nova ordem global”, pois guerras civis e conflitos interétnicos sempre existiram e vão continuar a existir. O que interessa, de verdade, aos três grandes, é uma espécie de convivência na tolerância recíproca, desde que eles possam se firmar em suas esferas respectivas de dominação. De certo modo, o abafamento das paixões bélicas nas sociedades contemporâneas é mais o resultado de mudanças substantivas na ordem econômica global do que devido a motivos de natureza política ou ideológica. A despeito da “desglobalização”, que tomou impulso na pandemia, a microglobalização – aquela que é feita pelos indivíduos e empresas – continua em sua marcha incontida, mesmo se a macroglobalização – que é aquela regulamentada e cerceada pelos Estados nacionais – pode perder espaço na agenda do multilateralismo econômico e comercial.

Examinando-se os casos concretos na pauta dos grandes impérios, parece improvável que eles venham a morrer por suas periferias respectivas: a “América para os americanos” parece ser o sinal que o “problema” da Venezuela é um assunto para o Trump, sem qualquer interferência dos outros dois; novos equilíbrios na Europa central e oriental podem ficar aos cuidados do neoczar; a “formosa ilha” na Ásia Pacífica, por sua vez, não terá nenhum poder imperial que se disponha a intervir em seu favor, e a única coisa que talvez impeça uma anexação violenta seja o fato de ser um grande porta-aviões de microchips, e não um eventual e incerto socorro do promotor de oito ou dez processos (inventados) de paz.

A Realpolitik da atualidade responde pelo nome de superioridade tecnológica, e o cenário de seu desenvolvimento é a própria Weltwirtschaft, num mundo cada vez mais borderless. Com efeito, assiste-se hoje em dia a um deslocamento de hegemonias, menos devido à força das canhoneiras do que ao peso dos navios cargueiros. Nesse cenário, o neoczar arruinado por uma “operação militar especial” que arruinou mais ainda o seu grande império, já não conta muito na tripartição imperial, a não ser por seus arsenais nucleares.

Ao fim e ao cabo, retornamos ao argumento orwelliano sobre a igualdade na fazenda dos animais, sendo que na “fazenda capitalista” dos impérios, alguns são manifestamente mais iguais do que os outros. Aparentemente, o mais “transacional” nessa confraria quer estabelecer as bases de uma convivência triplamente lucrativa, algo difícil num império em erosão comportamental. Ele será, provavelmente, confucianamente engolido pelo novo Hegemon, sendo que o déspota eslavo já terá se tornado um perfeito vassalo do imperador do novo Império do Meio, reconstruído em sua grandeza ancestral. A História não tem nenhuma possibilidade de algum fim previsível, mas a Geografia, está cada vez mais chegando ao ponto desejado por Fernão de Magalhães: chegar ao Oriente navegando sempre a Ocidente.

Se houver algum “fim da História”, ele não estará mais no Atlântico Norte, mas nos grandes espaços marítimos do Pacífico ao Índico, justamente onde se perdeu Magalhães. Camões, nos Lusíadas, o coloca nestes versos:

“O Magalhães, no feito com verdade / Português, porém não na lealdade.”

Não se pode esperar nenhuma lealdade no caso das grandes potências. O que o Brasil deveria fazer seria se manter alheio aos arranjos mesquinhos feitos pelas grandes potências e tratar de preservar sua tradicional postura de autonomia plena na sua política externa.


Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5172: 3 janeiro 2026, 4 p.; revisão: 28 janeiro 2026.
https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/

domingo, 25 de janeiro de 2026

Outra Grande Depressão? O império que aprendeu a não cair - Johnny Jara Jaramillo Revista Será?

Outra Grande Depressão? O império que aprendeu a não cair
Por Johnny Jara Jaramillo
Revista Será?, jan 23, 2026
https://revistasera.info/2026/01/outra-grande-depressao-o-imperio-que-aprendeu-a-nao-cair/

Cada época acredita viver uma crise inédita. E, no entanto, a história insiste em retornar — não como cópia, mas como eco. A pergunta que reaparece hoje — nos Estados Unidos e, por extensão, no mundo — não é se estamos diante de outra Grande Depressão, mas algo mais inquietante: o que acontece quando um sistema aprende a sobreviver até mesmo à própria ruína?

A comparação com os anos 1930 não é arbitrária. Naquele momento, como agora, o capitalismo atravessava uma fase de concentração extrema de riqueza, uma fé quase teológica no mercado e uma desconexão alarmante entre a economia real e a vida da maioria. Wall Street prosperava enquanto o chão social se desfazia. Hoje, os índices bursáteis batem recordes enquanto milhões vivem endividados, precarizados, sem acesso real à moradia, à saúde ou a qualquer horizonte de futuro. O “sucesso econômico” volta a ser uma narrativa contada de cima.

Calvin Coolidge, um dos presidentes mais discretos — e talvez mais sinceros — do século XX norte-americano, disse sem pudor: “The business of America is business”. Não era metáfora; era confissão. Essa frase, pronunciada pouco antes do colapso de 1929, continua funcionando como chave moral do império. A política como extensão dos interesses corporativos; a democracia como cenário; a vida humana como dano colateral.

A Grande Depressão, porém, produziu uma ruptura. O colapso foi tão brutal que obrigou o sistema a se reformar para não ser destruído. O New Deal não nasceu da compaixão, mas do medo: medo da revolução, da desobediência, do colapso total. O Estado interveio não por convicção ética, mas para salvar o capitalismo de si mesmo.

Hoje, essa possibilidade parece mais distante. Não porque as injustiças sejam menores, mas porque o sistema desenvolveu mecanismos sofisticados para administrar a crise sem colapsar. Dívida infinita, emissão monetária permanente, financeirização extrema, guerras contínuas e um poderoso aparato de controle narrativo permitem adiar o estouro. O sofrimento não desaparece: ele se fragmenta, se normaliza, é exportado para o Sul global ou convertido em culpa individual.

Ao contrário dos anos 1930, vivemos numa era de vigilância digital, manipulação algorítmica e polarização dirigida. A raiva social já não se organiza facilmente contra o poder econômico; ela se dispersa em guerras culturais, identitárias, ou na fabricação constante de inimigos externos. O conflito é encenado para que jamais aponte para o centro.

Há ainda uma diferença decisiva: o contexto global. A Grande Depressão foi, em grande medida, uma crise do mundo ocidental. A atual é planetária — atravessada pela crise climática, pelo esgotamento dos recursos, por deslocamentos humanos massivos e por uma ordem multipolar que já não obedece docilmente a Washington. O império segue poderoso, mas deixou de ser indiscutível. E isso o torna mais agressivo.

Talvez, portanto, não estejamos diante de uma nova Grande Depressão no sentido clássico. O que vivemos se assemelha mais a uma depressão lenta, prolongada, administrada. Uma crise sem clímax, em que a exceção vira norma e a precariedade, paisagem. Um mundo cansado — não exatamente em colapso.

A pergunta decisiva não é econômica, mas política e moral: ainda existe um limite que o sistema tema atravessar?
Ou entramos numa fase em que o poder acredita poder sobreviver até mesmo ao desastre?

Aí reside a diferença mais inquietante em relação aos anos 1930. E também o desafio do nosso tempo: pensar, nomear e resistir num mundo em que a queda já não é necessária para que tudo continue igual. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial

Por Paulo Roberto de Almeida
Revista Será? (ano xiv, n. 693)
jan 23, 2026 | Artigos

Comentando o primeiro aniversário do mandato de um dos destruidores da ordem global.

Um ano transcorrido no segundo mandato; jornalistas e comentaristas estão fazendo balanços e análises sobre as “realizações” dos primeiros (talvez os últimos também) doze meses da mais bizarra presidência jamais vista, conhecida e registrada nos 250 anos de vida da primeira república do hemisfério ocidental. Vou me deter unicamente nos aspectos de política internacional que interessam mais especialmente ao Brasil e à América Latina.

Ainda em novembro de 2025, passados apenas 10 meses de uma administração imprevisível, tive a oportunidade de participar de um seminário, a convite do prof. Antônio Carlos Lessa, do Centro de Estudos Globais da UnB, organizado em duas etapas: o primeiro sobre o tema “O Mundo Segundo Trump e o ocaso da Ordem Liberal Internacional: Nacionalismo, Transacionalismo e o Futuro do Multilateralismo”, cabendo-me, no segundo, discorrer sobre a “Geopolítica da Desordem: A Rivalidade com a China e o Abandono da Segurança Coletiva”. Como sempre faço quando sou convidado a eventos de certa densidade intelectual, elaborei minhas ideias sobre ambas as vertentes do seminário, colocando meu texto previamente à disposição dos interessados (no meu blog Diplomatizzando, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/a-desordem-mundial-gerada-por-dois.html).

Na verdade, retifiquei ligeiramente a caracterização de “Geopolítica da Desordem”, optando pelo mais impactante julgamento de “Opção pelo Caos”, porque foi exatamente isso que o presidente americano introduziu no mundo, e em seu próprio país, desde janeiro de 2025. A Desordem já tinha sido iniciada bem antes, quando seu íntimo amigo russo passou a invadir países vizinhos, começando pela Georgia, em 2008. Não contente, deslocou soldados russos para uma franja setentrional da República da Moldávia, a Transnístria, por acaso na fronteira com a Ucrânia, conservando esse contingente nessa “região autônoma” desde 2010, supostamente para proteger certo número de russos que lá habitam. Imediatamente após deu a partida a seu plano mais ambicioso, o de incorporar a Ucrânia de volta na Federação Russa, por meio de agitação nas regiões russófonas do Donbas, Donetsk e Luhansk. Em 2014, aproveitou mais uma das várias revoluções políticas na Ucrânia, para invadir e anexar, ilegalmente, a península da Crimeia, primeira etapa da guerra de agressão ao país inteiro a partir de fevereiro de 2022. A anexação da Crimeia e a invasão da Ucrânia valeram à Rússia sanções adotadas por diversos países aderentes aos dispositivos pertinentes da Carta da ONU, entre os quais nunca esteve o Brasil (a pretexto de não serem “sanções multilaterais”, et pour cause: pelo uso abusivo do direito de veto pelo agressor, membro permanente do CSNU).

Mas voltemos ao primeiro “aniversário” do transgressor americano, personagem que já foi diagnosticado, por psiquiatras, como sendo um “narcisista maligno” – caracterização feita pela primeira vez com respeito a Hitler por Erich Fromm, refugiado do nazismo –, um “psicopata”, além de “paranoico” e “sádico”. Como não sou especialista na matéria, dedico-me a analisar suas ações no plano das relações exteriores dos Estados Unidos. Já tivemos o registro de suas ações no primeiro mandato (2017-2020), a maior parte concentrada na “política comercial”, se o termo se aplica ao desmantelamento por completo da cláusula de nação mais favorecida, o núcleo central do sistema multilateral de comércio (embora bem mais do que isso, pois é um princípio de séculos, vindo da Lex Mercatoria).

Ele começou anulando o Nafta, o acordo de livre comércio da América do Norte (Canadá-EUA-México, 1994), continuando pela aplicação de sobretaxas unilaterais sobre importações de aço e alumínio de qualquer procedência. Suas medidas abusivas tiveram de ser “negociadas” – na base da imposição – com cada um dos fornecedores habituais. O Brasil foi fortemente atingido e aceitou cotas para o aço e uma sobretaxa no alumínio. Deslanchou uma guerra comercial contra a China – vista como inimiga preferencial – e exigiu que o país asiático importasse toneladas adicionais de soja americana, atingindo mais uma vez o Brasil. Ele também passou a atacar e perseguir os imigrantes, retirou os EUA do acordo de Paris (de 2015) e já anunciava pretender fazer o país retornar à era do carvão e reforçar o petróleo. Na área da segurança, já ameaçava deixar a Otan se os membros europeus não pagassem mais.

Se a Desordem foi a tônica do primeiro mandato, no segundo a Opção pelo Caos foi não apenas uma preferência pessoal, mas o método usado para implodir a ordem existente. Tudo o que ele não havia implementado no primeiro mandato, passou sistematicamente a praticar a partir de 20 de janeiro de 2025, começando pelo ímpeto selvagem imprimido às milícias de caça aos imigrantes, praticamente similares aos Einsatzgruppen, os esquadrões móveis da SS nazista, perseguindo judeus, ciganos e outros inimigos do regime extremista. No plano externo, como a comprovar a sua profunda ignorância econômica, apresentou, em abril, suposto “Dia da Libertação”, um tarifaço comercial sem qualquer base racional, pelo qual déficits bilaterais no intercâmbio registrado eram convertidos em alíquotas totalmente desproporcionais ao comércio efetivamente realizado, penalizando pequenos países.

O Brasil foi inicialmente “premiado” com uma sobretaxa modesta, a baseline de 10%, mas logo em seguida punido politicamente com uma cacetada de 40% adicionais sobre a quase totalidade da nomenclatura aduaneira, num ato de interferência direta na Justiça brasileira, a pedido da família golpista, visando a liberação do capo da tramoia que imitava o assalto ao Capitólio de janeiro de 2021, em favor do autor da carta acusatória. Ao mesmo tempo vieram sanções diretamente pessoais – Lei Magnitsky, cancelamento de vistos e outras ameaças – contra a soberania brasileira. O impacto do tarifaço em produtos de significativo consumo popular redundou mais adiante na redução ao baseline, mas não em toda a gama afetada pelas medidas unilaterais, claramente contra as regras da OMC. Mas esse tipo de retaliação passou a ser adotado praticamente contra todos os parceiros comerciais dos EUA, aliados ou adversários (salvo um, protegido da ira jupiteriana por segredos de inteligência).

Um dos atos mais exemplares da nova fúria imperial, extraordinariamente expandida desde o primeiro mandato, encontrou expressão documental na nova versão da Estratégia de Segurança nacional, divulgada em novembro de 2025, sintetizando a “visão do mundo” – se ela existe – de toda uma equipe voltada contra a Europa liberal, supostamente decadente, e indisfarçavelmente promotora de uma tripartição imperial da governança global. Nesse esquema, o destruidor primário da ordem onusiana, o tirano de Moscou, recebeu todas as deferências do imperador hemisférico, inclusive com uma recepção de verdadeira visita de Estado, em sua incursão à terra gelada que já tinha pertencido ao império czarista até meados do século XIX. Ao mesmo tempo, o impulso colonialista na parte do mundo considerada chasse gardée do renascido império hemisférico começou com ameaças ao Panamá, foi concretizado numa incursão direta para a captura do ditador da pátria chavista, cuja ditadura foi preservada, mas sob regime de tutela, até se estender à Groenlândia, considerada parte vital na arquitetura de segurança nacional, mas contra uma ameaça inexistente.

O lado mais obscuro e brutal das ações do narcisista maligno se revelou nas duas guerras terrivelmente mortíferas, mantidas em Gaza, pelo aliado israelense, e nas terras da Ucrânia, objeto de uma complacência cúmplice em relação ao morticínio especialmente cruel conduzido pelo seu amigo (e possível controlador) russo. Na Faixa de Gaza, a intenção inicial era a de expulsar toda a população palestina para fazer dela uma grande Riviera de luxo, na qual o especulador imobiliário provavelmente exploraria resorts para turistas milionários. A reação negativa das monarquias do Golfo operou uma mudança tática, até chegar numa mais do que duvidosa proposta de um “Conselho da Paz”, integrado por chefes de Estado e de governo, mas no qual o novo imperador possuiria poder absoluto.

Em relação à Ucrânia, a desfaçatez do personagem com respeito às propostas de cessar-fogo ou de armistício, todas elas favoráveis ao, quando não propostas diretamente pelo criminoso de guerra agressor, não tinha sequer uma aparência de equanimidade nas condições impostas ao lado agredido e em relação às amplas e inaceitáveis benesses e vantagens que eram concedidas gratuitamente ao criminoso de guerra iniciador do conflito. Nos dois casos, o desprezo total e integral ao Direito Internacional, o abandono completo de considerações humanitárias e o descarte evidente das instâncias multilaterais onusianas, assim como dos “parceiros” europeus, ficou evidente ao longo de todos os episódios lamentáveis registrados neste primeiro ano de arbítrio personalista em todos os azimutes visados pelo imperador.

No caso do Brasil, e do seu líder, situado nas antípodas ideológicas de concepções políticas e sociais, depois das manifestações de hostilidade ao início, uma suposta “química favorável” não esconde a hipocrisia de uma simpatia construída para evitar novos problemas com o maior país da América do Sul, num contexto de ameaças à Colômbia e mesmo ao México, os países mais diretamente envolvidos com o negócio da cocaína, dois infelizes fornecedores de uma demanda incessante e inesgotável a partir do próprio império. A nova doutrina formulada com base em duvidosa similaridade histórica não chega sequer a ser uma proposta de relacionamento diplomático, mas apenas um convite à submissão colonial, algo praticamente impossível no caso brasileiro, a menos de um improvável retorno eleitoral da mesma tropa de devotos adoradores do imperador hemisférico, que simplesmente conduziu o Itamaraty a um quadriênio inédito de subserviência e de docilidade jamais vistos na história já bissecular de nossa diplomacia profissional.

Impossível prever, dado o caráter errático do narcisista maligno, o que advirá nos dez meses precedendo as eleições intermediárias numa democracia já seriamente abalada e destroçada em seus fundamentos institucionais e, sobretudo, no tocante ao relacionamento do império visivelmente declinante com as demais potências grandes e médias que atuam nos cenáculos ainda abertos a um incerto e titubeante “diálogo”. Dentre os observadores mais atilados – presentes no Financial Times, na Economist, na Foreign Affairs, ou nos principais think tanks vinculados às relações internacionais – não surgiu alguma pitonisa de Delfos que seja capaz de visualizar o que pode ocorrer em 2026 e mais além. O fato é que o mundo já se encontra radicalmente transformado, primeiro pelas ações expansionistas do neoczar, agora pelas turbulências continuamente criadas pelo “psicopata paranoico e sádico” referido pelos psiquiatras. O Brasil e a América Latina estão singularmente expostos à sua bílis deletéria; pena que o cenário regional seja marcado por uma fragmentação também inédita na história.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5195, 21 janeiro 2026, 4 p.

sábado, 17 de janeiro de 2026

O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

 O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos

Multilateralismo

Multilateralismo

O multilateralismo tem raízes antigas, embora nem sempre formalizado em acordos derivados da vontade soberana de Estados estabelecidos. Bem antes dos acordos de Westfália (1648), que são considerados o ponto de partida do multilateralismo político nas relações entre as nações da era moderna, uma versão precoce do multilateralismo econômico existia sob a forma da cláusula de nação mais favorecida, ou seja, o entendimento, feito ao abrigo da Lex Mercatoria, de que a melhor forma de estimular o comércio era o tratamento igualitário para a maioria das nações, ou seja, sem discriminações aduaneiras excessivas entre elas.

Exemplos tentativos de um multilateralismo inicial podem ter surgido ao longo de conferências diplomáticas entre os Estados europeus, ao cabo de guerras entre eles, sendo a paz consolidada por meio de um tratado entre nações vencedoras, com a submissão dos vencidos (como o Congresso de Viena, de 1815, por exemplo, que também tratou de uma importante questão “multilateral”, que foi a proibição do tráfico escravo ao norte do Equador). No século XIX, exemplos práticos do multilateralismo nascente foram oferecidos pelas uniões setoriais surgidas no contexto do capitalismo disseminado geograficamente entre a primeira e a segunda revolução industrial: união postal, telegráfica, propriedade industrial, conexões ferroviárias na Europa do primeiro capitalismo etc.

O Brasil foi um participante precoce do multilateralismo da segunda revolução industrial, começando justamente pela União Postal Universal, pela convenção de Paris sobre patentes e por todos os demais acordos e arranjos internacionais envolvendo, por exemplo, cabos submarinos, direitos autorais, intercâmbio de informações aduaneiras e outras medidas práticas para estimular o comércio e facilitar os pagamentos. Ao final do Império, o Brasil estava participando de uma das primeiras iniciativas de multilateralismo regional, que foi o convite dos Estados Unidos para tentar conformar uma união aduaneira nas Américas, compreendendo inclusive alguma uniformização do padrão monetário baseado na prata (antes que a principal economia hemisférica se convertesse ao padrão ouro). Quando a conferência terminou, o Brasil já era uma República, mas acabou negociando pouco depois um tratado comercial com os Estados Unidos, que perdurou, porém, apenas alguns anos. Um escritório comercial para o intercâmbio de informações aduaneiras foi criado em Washington, sendo o marco inicial da União Americana dos anos 1920, a antecessora da Organização dos Estados Americanos (OEA), criada no pós-segunda guerra (1948).

Bretton Woods (1944) é o marco inaugural do multilateralismo econômico da era contemporânea, secundado um ano depois pela Carta de São Francisco, que sistematizou a ordem política multilateral prevalecente nos últimos 80 anos, aparentemente em fase de destruição pelos seus próprios “pais fundadores”. Na verdade, o processo de desrespeito às regras acordadas em São Francisco não é exclusivo do presente momento das relações internacionais, mas se desenvolve basicamente de modo contemporâneo ao próprio desenvolvimento das Nações Unidas, e toma impulso na violação dos princípios centrais do multilateralismo pelos próprios membros permanentes do seu Conselho de Segurança. O respeito à soberania dos Estados membros, a não interferência em seus assuntos internos, a não usurpação de territórios soberanos por agressões armadas unilaterais, tudo isso está consignado entre os princípios e valores da Carta das Nações Unidas.

No entanto, cada um desses mesmos princípios, artigos centrais da Carta da ONU, foram sistematicamente violados por grandes e médias potências, cada vez que decisões nesse sentido foram tomadas por seus dirigentes, de diferentes governos (democratas, socialistas, de esquerda ou de direita). Decisões do CSNU à parte – que, ao longo dos anos, concederam autorizações para missões de imposição da paz em casos específicos: guerra da Coreia; guerra civil no Congo belga; guerra do Golfo, contra a invasão do Kuwait; invasão do Afeganistão contra o governo talibã, depois dos ataques terroristas de 2001 –, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU.

Podemos listar apenas alguns exemplos dessas invasões, golpes e interferências patrocinadas pelas grandes potências: golpe anglo-americano contra o governo nacionalista do Irã, em 1953, simultaneamente a outro golpe, contra o governo legítimo da Guatemala pelos EUA; interferência e invasão da Alemanha oriental e da Hungria, por parte da União Soviética, em 1953 e 1956, em resposta a protestos contra os respectivos regimes comunistas; intervenção franco-britânica na península do Sinai em 1956, por ocasião da nacionalização, pelo Egito, do canal de Suez; intervenção dos Estados Unidos, no lugar da França, na guerra civil do Vietnã, nos anos 1960; invasão e derrocada do “socialismo de face humana” da Tchecoslováquia pela URSS, em 1968; invasão do Afeganistão pela mesma URSS em 1979; dezenas de golpes de Estado em muitos países da periferia pelas antigas potências coloniais, assim como pelos EUA, em vários golpes militares na América Latina, e assim por diante.

Esse padrão de desrespeito a regras centrais do multilateralismo político, em desacordo com o Direito Internacional e contra dispositivos fundamentais do Direito Humanitário, foram uma constante durante todo o decorrer da primeira Guerra Fria. Ocorreu um breve intervalo, nos anos 1990, quando se pensava que a implosão do socialismo poderia combinar a globalização econômica em curso com a universalização dos direitos humanos, numa espécie de “nova ordem mundial”, como proclamada por George Bush (pai) e Boris Ieltsin, em 1992. Essa janela de oportunidade se fechou já a partir dos anos 2000, quando os ataques terroristas a Nova York e Washington alteraram não só a agenda de política externa dos EUA (em direção à “guerra ao terror”), como também as posturas internacionais das duas outras grandes potências, China e Rússia, descontentes com a atitude arrogante, unilateralista e sobranceira da principal potência ocidental.

Os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, e até se afastaram de organismos internacionais. O principal desrespeito ocorreu na invasão do Iraque de Saddam Hussein, em 2003, ao arrepio de decisão negativa do Conselho de Segurança, criando um desequilíbrio social e político no Oriente Médio que se prolongou durante décadas, estimulando o terrorismo fundamentalista e afetando gravemente a segurança regional. Guerras civis e tentativas de criação de um novo califado jogaram toda a região em terríveis turbulências, suscitando emigrações massivas que despertaram os espíritos xenófobos e racistas nas democracias avançadas do Atlântico Norte, abrindo espaço para o progresso eleitoral de partidos de extrema direita.

A China, de seu lado, após ser admitida na OMC, conheceu uma formidável expansão de seu comércio internacional, nem sempre atuando de acordo com todas as regras do sistema multilateral de comércio (sobretudo em subsídios e apoio às empresas privadas e estatais e no tocante à propriedade intelectual de companhias investidoras ocidentais). As ameaças mais importantes, porém, foram provenientes da nova atitude assertiva, na verdade mais agressiva, do seu novo líder, Putin, decidido a reconstruir a importância militar mundial da federação herdeira do império soviético, demonstrando uma clara postura expansionista em direção dos países saídos de sua esfera geopolítica ou já integrados à União Europeia ou à Otan.

A crise do multilateralismo ampliou-se com ações agressivas dos três grandes: Trump no contexto hemisférico, Putin na Europa central e Xi Jinping em direção de Taiwan. Esse quadro consolidou um novo padrão geopolítico que já foi equiparado a uma “segunda Guerra Fria”. Tal situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o próprio Brasil, cuja diplomacia sempre foi, historicamente, marcada pela defesa do Direito Internacional, pela busca intransigente de seus interesses nacionais, focados basicamente no desenvolvimento econômico e social, com plena autonomia decisória em sua política externa e virtual imparcialidade nos conflitos entre grandes potências que não digam respeito a ameaças à sua defesa e soberania nacionais. No entanto, escolhas ideológicas do lulopetismo diplomático parecem ter alterado esse padrão.

Esse é o caso quando o governo faz sinalizações (que não partem de sua diplomacia profissional) em favor de um vago projeto de “nova ordem global multipolar” impulsionado pelas duas grandes potências autocráticas, em clara oposição à ordem global prevalecente. Não ajuda a preservação necessária da tradicional imparcialidade diplomática brasileira a postura da grande potência ocidental, sob o governo Trump, que também ataca, diminui e despreza o multilateralismo político e econômico e se opõe a instituições e mecanismos favoráveis à cooperação internacional. No plano mais geral das relações internacionais, tornou-se evidente que as superpotências estão decididas a atuar unilateralmente, cada uma em seus espaços preferenciais de ação bélica, Trump no hemisfério americano, Putin nos antigos espaços soviéticos e Xi Jinping em direção de Taiwan, todas elas completamente indiferentes ao direito internacional e ao que é moralmente aceitável no plano humanitário.

O mundo ingressou definitivamente em uma nova era, que revive conflitos passados, produtores de desastres humanitários. A diplomacia brasileira não terá qualquer auxílio no contexto do multilateralismo internacional ou regional das últimas décadas, já inoperantes. Sua autonomia decisória em matéria de política externa só poderia ocorrer em coordenação com outras potências médias, independentemente de serem classificadas ao Sul ou ao Norte. Não se tem ainda claro que tal curso de ação possa ter viabilidade prática na atual orientação de uma diplomacia que, no passado não muito distante, adotou um alinhamento irrefletido com as duas grandes potências opositoras da atual ordem global, marcadamente ocidental.

O lulopetismo diplomático apostou num Bric importado a partir de uma ideia (não diplomática) de ganhos financeiros, foi confrontado a um Brics construído a partir das conveniências nacionais daquelas duas superpotências e acabou tendo de acomodar-se a um Brics+ ampliado em favor desses interesses exclusivos, o que produziu efeitos inesperados do ponto de vista dos interesses nacionais do Brasil. Não reconhecer essa involução no plano das relações exteriores do país significa continuar ignorando o saudável patrimônio diplomático acumulado por um planejamento cuidadoso da política externa, substituído por orientações ideológicas em nítido desacordo com as circunstâncias “orteguianas” de nossa geografia política, sempre vinculada à integração regional sul-americana. O novo Ícaro inconsciente do lulopetismo diplomático desprezou o “voo baixo” da integração sul-americana e, tentado pela aliança oportunista com duas superpotências nucleares, enveredou pelo “voo alto” do grande jogo da geopolítica mundial, uma trajetória que pode revelar-se ilusória em médio prazo.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 14 janeiro 2026, 4 p.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

 O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos

Por Paulo Roberto de Almeida

Revista Será?, jan 16, 2026 

O multilateralismo tem raízes antigas, embora nem sempre formalizado em acordos derivados da vontade soberana de Estados estabelecidos. Bem antes dos acordos de Westfália (1648), que são considerados o ponto de partida do multilateralismo político nas relações entre as nações da era moderna, uma versão precoce do multilateralismo econômico existia sob a forma da cláusula de nação mais favorecida, ou seja, o entendimento, feito ao abrigo da Lex Mercatoria, de que a melhor forma de estimular o comércio era o tratamento igualitário para a maioria das nações, ou seja, sem discriminações aduaneiras excessivas entre elas.

Exemplos tentativos de um multilateralismo inicial podem ter surgido ao longo de conferências diplomáticas entre os Estados europeus, ao cabo de guerras entre eles, sendo a paz consolidada por meio de um tratado entre nações vencedoras, com a submissão dos vencidos (como o Congresso de Viena, de 1815, por exemplo, que também tratou de uma importante questão “multilateral”, que foi a proibição do tráfico escravo ao norte do Equador). No século XIX, exemplos práticos do multilateralismo nascente foram oferecidos pelas uniões setoriais surgidas no contexto do capitalismo disseminado geograficamente entre a primeira e a segunda revolução industrial: união postal, telegráfica, propriedade industrial, conexões ferroviárias na Europa do primeiro capitalismo etc.

O Brasil foi um participante precoce do multilateralismo da segunda revolução industrial, começando justamente pela União Postal Universal, pela convenção de Paris sobre patentes e por todos os demais acordos e arranjos internacionais envolvendo, por exemplo, cabos submarinos, direitos autorais, intercâmbio de informações aduaneiras e outras medidas práticas para estimular o comércio e facilitar os pagamentos. Ao final do Império, o Brasil estava participando de uma das primeiras iniciativas de multilateralismo regional, que foi o convite dos Estados Unidos para tentar conformar uma união aduaneira nas Américas, compreendendo inclusive alguma uniformização do padrão monetário baseado na prata (antes que a principal economia hemisférica se convertesse ao padrão ouro). Quando a conferência terminou, o Brasil já era uma República, mas acabou negociando pouco depois um tratado comercial com os Estados Unidos, que perdurou, porém, apenas alguns anos. Um escritório comercial para o intercâmbio de informações aduaneiras foi criado em Washington, sendo o marco inicial da União Americana dos anos 1920, a antecessora da Organização dos Estados Americanos (OEA), criada no pós-segunda guerra (1948).

Bretton Woods (1944) é o marco inaugural do multilateralismo econômico da era contemporânea, secundado um ano depois pela Carta de São Francisco, que sistematizou a ordem política multilateral prevalecente nos últimos 80 anos, aparentemente em fase de destruição pelos seus próprios “pais fundadores”. Na verdade, o processo de desrespeito às regras acordadas em São Francisco não é exclusivo do presente momento das relações internacionais, mas se desenvolve basicamente de modo contemporâneo ao próprio desenvolvimento das Nações Unidas, e toma impulso na violação dos princípios centrais do multilateralismo pelos próprios membros permanentes do seu Conselho de Segurança. O respeito à soberania dos Estados membros, a não interferência em seus assuntos internos, a não usurpação de territórios soberanos por agressões armadas unilaterais, tudo isso está consignado entre os princípios e valores da Carta das Nações Unidas.

No entanto, cada um desses mesmos princípios, artigos centrais da Carta da ONU, foram sistematicamente violados por grandes e médias potências, cada vez que decisões nesse sentido foram tomadas por seus dirigentes, de diferentes governos (democratas, socialistas, de esquerda ou de direita). Decisões do CSNU à parte – que, ao longo dos anos, concederam autorizações para missões de imposição da paz em casos específicos: guerra da Coreia; guerra civil no Congo belga; guerra do Golfo, contra a invasão do Kuwait; invasão do Afeganistão contra o governo talibã, depois dos ataques terroristas de 2001 –, o fato é que as grandes potências violaram, elas mesmas, os compromissos assumidos sob a Carta da ONU.

Podemos listar apenas alguns exemplos dessas invasões, golpes e interferências patrocinadas pelas grandes potências: golpe anglo-americano contra o governo nacionalista do Irã, em 1953, simultaneamente a outro golpe, contra o governo legítimo da Guatemala pelos EUA; interferência e invasão da Alemanha oriental e da Hungria, por parte da União Soviética, em 1953 e 1956, em resposta a protestos contra os respectivos regimes comunistas; intervenção franco-britânica na península do Sinai em 1956, por ocasião da nacionalização, pelo Egito, do canal de Suez; intervenção dos Estados Unidos, no lugar da França, na guerra civil do Vietnã, nos anos 1960; invasão e derrocada do “socialismo de face humana” da Tchecoslováquia pela URSS, em 1968; invasão do Afeganistão pela mesma URSS em 1979; dezenas de golpes de Estado em muitos países da periferia pelas antigas potências coloniais, assim como pelos EUA, em vários golpes militares na América Latina, e assim por diante.

Esse padrão de desrespeito a regras centrais do multilateralismo político, em desacordo com o Direito Internacional e contra dispositivos fundamentais do Direito Humanitário, foram uma constante durante todo o decorrer da primeira Guerra Fria. Ocorreu um breve intervalo, nos anos 1990, quando se pensava que a implosão do socialismo poderia combinar a globalização econômica em curso com a universalização dos direitos humanos, numa espécie de “nova ordem mundial”, como proclamada por George Bush (pai) e Boris Ieltsin, em 1992. Essa janela de oportunidade se fechou já a partir dos anos 2000, quando os ataques terroristas a Nova York e Washington alteraram não só a agenda de política externa dos EUA (em direção à “guerra ao terror”), como também as posturas internacionais das duas outras grandes potências, China e Rússia, descontentes com a atitude arrogante, unilateralista e sobranceira da principal potência ocidental.

Os Estados Unidos repudiaram, quando necessitavam ou queriam, as diretivas da ONU, e até se afastaram de organismos internacionais. O principal desrespeito ocorreu na invasão do Iraque de Saddam Hussein, em 2003, ao arrepio de decisão negativa do Conselho de Segurança, criando um desequilíbrio social e político no Oriente Médio que se prolongou durante décadas, estimulando o terrorismo fundamentalista e afetando gravemente a segurança regional. Guerras civis e tentativas de criação de um novo califado jogaram toda a região em terríveis turbulências, suscitando emigrações massivas que despertaram os espíritos xenófobos e racistas nas democracias avançadas do Atlântico Norte, abrindo espaço para o progresso eleitoral de partidos de extrema direita.

A China, de seu lado, após ser admitida na OMC, conheceu uma formidável expansão de seu comércio internacional, nem sempre atuando de acordo com todas as regras do sistema multilateral de comércio (sobretudo em subsídios e apoio às empresas privadas e estatais e no tocante à propriedade intelectual de companhias investidoras ocidentais). As ameaças mais importantes, porém, foram provenientes da nova atitude assertiva, na verdade mais agressiva, do seu novo líder, Putin, decidido a reconstruir a importância militar mundial da federação herdeira do império soviético, demonstrando uma clara postura expansionista em direção dos países saídos de sua esfera geopolítica ou já integrados à União Europeia ou à Otan.

A crise do multilateralismo ampliou-se com ações agressivas dos três grandes: Trump no contexto hemisférico, Putin na Europa central e Xi Jinping em direção de Taiwan. Esse quadro consolidou um novo padrão geopolítico que já foi equiparado a uma “segunda Guerra Fria”. Tal situação coloca importantes desafios para potências médias e países excêntricos aos principais conflitos geopolíticos, como o próprio Brasil, cuja diplomacia sempre foi, historicamente, marcada pela defesa do Direito Internacional, pela busca intransigente de seus interesses nacionais, focados basicamente no desenvolvimento econômico e social, com plena autonomia decisória em sua política externa e virtual imparcialidade nos conflitos entre grandes potências que não digam respeito a ameaças à sua defesa e soberania nacionais. No entanto, escolhas ideológicas do lulopetismo diplomático parecem ter alterado esse padrão.

Esse é o caso quando o governo faz sinalizações (que não partem de sua diplomacia profissional) em favor de um vago projeto de “nova ordem global multipolar” impulsionado pelas duas grandes potências autocráticas, em clara oposição à ordem global prevalecente. Não ajuda a preservação necessária da tradicional imparcialidade diplomática brasileira a postura da grande potência ocidental, sob o governo Trump, que também ataca, diminui e despreza o multilateralismo político e econômico e se opõe a instituições e mecanismos favoráveis à cooperação internacional. No plano mais geral das relações internacionais, tornou-se evidente que as superpotências estão decididas a atuar unilateralmente, cada uma em seus espaços preferenciais de ação bélica, Trump no hemisfério americano, Putin nos antigos espaços soviéticos e Xi Jinping em direção de Taiwan, todas elas completamente indiferentes ao direito internacional e ao que é moralmente aceitável no plano humanitário.

O mundo ingressou definitivamente em uma nova era, que revive conflitos passados, produtores de desastres humanitários. A diplomacia brasileira não terá qualquer auxílio no contexto do multilateralismo internacional ou regional das últimas décadas, já inoperantes. Sua autonomia decisória em matéria de política externa só poderia ocorrer em coordenação com outras potências médias, independentemente de serem classificadas ao Sul ou ao Norte. Não se tem ainda claro que tal curso de ação possa ter viabilidade prática na atual orientação de uma diplomacia que, no passado não muito distante, adotou um alinhamento irrefletido com as duas grandes potências opositoras da atual ordem global, marcadamente ocidental.

O lulopetismo diplomático apostou num Bric importado a partir de uma ideia (não diplomática) de ganhos financeiros, foi confrontado a um Brics construído a partir das conveniências nacionais daquelas duas superpotências e acabou tendo de acomodar-se a um Brics+ ampliado em favor desses interesses exclusivos, o que produziu efeitos inesperados do ponto de vista dos interesses nacionais do Brasil. Não reconhecer essa involução no plano das relações exteriores do país significa continuar ignorando o saudável patrimônio diplomático acumulado por um planejamento cuidadoso da política externa, substituído por orientações ideológicas em nítido desacordo com as circunstâncias “orteguianas” de nossa geografia política, sempre vinculada à integração regional sul-americana. O novo Ícaro inconsciente do lulopetismo diplomático desprezou o “voo baixo” da integração sul-americana e, tentado pela aliança oportunista com duas superpotências nucleares, enveredou pelo “voo alto” do grande jogo da geopolítica mundial, uma trajetória que pode revelar-se ilusória em médio prazo.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 14 janeiro 2026, 4 p.

Revista Será?; um excelente veículo, democrático, plural, de reflexões sobre o Brasil e o mundo da atualidade. Colaborações Paulo Roberto de Almeida

Hoje é sexta-feira, dia de um novo número da revista Será?, com a qual colaboro desde o final de outubro de 2025. A revista mantém um design excelente e é em seu site que eu capturo a relação, e os links, de todos os artigos anteriores, como abaixo. Acho que a minha nota curricular está um pouco extensa (ao final); talvez seja o caso de diminuir um pouco. Agradeço aos editores, em especial João Rego, o convite para expressar minhas opiniões sobre temas de minhas pesquisas e trabalhos, em especial sobre a atualidade internacional e a política externa e diplomacia do Brasil.

Brasília, 16 de janeiro de 2026 (Dia do Quixote, aos 421 anos da publicação da primeira edição da obra imortal de Cervantes, em 1605), objeto de minha postagem imediatamente anterior).

https://revistasera.info/author/paulo-roberto-de-almeida/

Autor: Paulo Roberto de Almeida

Paulo Roberto de Almeida

Paulo Roberto de Almeida, é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1984) e mestre em Planejamento Econômico pela Universidade de Antuérpia (1977); diplomata de carreira de 1977 a 2021, tendo servido em diversos postos bilaterais (Berna, Belgrado, Paris, Washington) e multilaterais (Genebra, Montevidéu). Foi professor no Instituto Rio Branco, na Universidade de Brasília e nos programas de pós-graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub); é pesquisador sênior do Centro de Estudos Globais do Instituto de Relações Internacionais da UnB. Desempenhou-se como presidente do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), como vice-comissário do pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Xangai (2010) e como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), do Ministério de Relações Exteriores (2016- 2019). Publicou diversas obras de relações econômicas internacionais, de política externa e de história diplomática do Brasil. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e do seu Conselho Editorial. Entre suas obras estão: Vidas Paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas relações internacionais do Brasil (2025); Apogeu e Demolição da Política Externa: itinerários da diplomacia brasileira (2022); Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (2001; 2004; 2017).

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