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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional? - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional?

Guerra na Ucrânia

Guerra na Ucrânia

[Colaboração para a revista Será?]

O presidente da Finlândia Alexander Stubb formulou – tanto em seu artigo na Foreign Affairs de janeiro-fevereiro de 2026, “The West’s Last Chance: How to Build a New Global Order Before It’s Too Late”, quanto em seu livro The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order (2026) – algumas importantes propostas relativas à reorganização das relações internacionais, entre elas a incorporação de novos atores no órgão supremo das Nações Unidas, o CSNU, a supressão do direito de veto no mesmo órgão, assim como – e esta é a mais importante delas – a suspensão da participação na organização de países, quaisquer que sejam eles, que tenham violado princípios e disposições fundamentais da Carta da ONU, entre elas as que se referem ao seu CS.

Apresentei as propostas do presidente finlandês em artigo anterior na revista Será?“A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas” (n. 696, 13/02/2026), do qual este representa uma continuidade. Mas também disse que Stubb havia cometido um equívoco fundamental, ao pretender ver num idealizado “Sul Global” a “chave mágica” para uma nova conformação da ordem global, o que não me parece ser a resposta adequada ao problema colocado – a violação da Carta da ONU –, uma vez que um dos supostos componentes de sua tripartição “político-geográfica” do mundo, em Ocidente, Oriente e Sul Global, não possui o poder de ser essa chave fundamental, nem os três blocos são conceitualmente equivalentes.

A razão é simples: Stubb vê no BRICS o representante de um “multilateralismo do Sul Global”, que na verdade não existe, pois que esse grupo está a serviço de uma improvável, mas real, coalizão de grandes potências vinculadas ao mesmo problema que Stubb pretende resolver: a ruptura com a ordem global existente, para usar as palavras do primeiro-ministro do Canadá Mark Carney. A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia constitui o problema fundamental de nossa época, e quanto a isso o alegado “Sul Global multilateral” não tem absolutamente nada a dizer, como não teve nada a dizer em todas as suas declarações, ministeriais ou de cúpula, dos últimos meses.

O improvável “Sul Global” do BRICS não é parte da solução, pois que ele é parte do problema, como parece evidente aos que leem suas declarações e observam as posturas dos membros a respeito desse conflito, ao tão simplesmente refletirem as posições da parte agressora e violadora da Carta da ONU, desde o seu início. Não está provado, em qualquer configuração do atual “sistema” internacional, que essa entidade supostamente existente, o “Sul Global”, tenha existência efetiva, ou que o BRICS seria seu suposto representante, no método diplomático identificado ao multilateralismo. Ele não é nem uma coisa nem outra, pela simples razão de que as violações ao “sistema” da ONU, ao Direito Internacional não derivam do Sul Global, sim de duas superpotências.

A verdade é que a Ucrânia está lutando, quase que solitariamente, contra uma coalizão de três grandes potências – a Rússia, a China e os Estados Unidos –, contando apenas e tão somente com uma “meia-grande-potência”, que é a União Europeia, e um reduzido número de outras médias e pequenas “potências”, aparentemente dispostas a manter princípios e valores embutidos na mesma Carta da ONU que está sendo violada, conjuntamente, na sua letra e no seu espírito pelas três superpotências. Esta é a realidade embutida nos dizeres do primeiro-ministro canadense, que me parece ser mais realista do que o presidente da Finlândia no que concerne o conflito definidor de nossa época, a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, sendo que a potência agressora é, direta ou indiretamente, secundada pelas duas outras superpotências.

A outra verdade é que não existe uma conformação mundial consistindo apenas de um “Ocidente”, de um “Oriente” e de um pretenso “Sul Global”. O que existe são nações respeitadoras do Direito Internacional e da Carta da ONU, por um lado, e de nações, por outro lado, que não as respeitam, ou que são indiferentes às regras e normas penosamente construídas ao longo dos últimos cem anos, ou seja, desde a fracassada Liga das Nações, passando pela própria ONU e, secundariamente, pela organização de segurança e cooperação na Europa, evocada pelo presidente da Finlândia como a pretensa chave – Helsinque, não Yalta, junto com um inexistente “multilateralismo do Sul Global” – para a solução desse problema crucial de nossa época. O peso da Europa, vale dizer, ou de suas instituições, não é o mesmo que ela exibiu nos quatro ou cinco séculos precedentes, uma constatação que vem, aliás, de Paris, 1919.

A esse respeito, o primeiro-ministro canadense é mais realista, ao ver nas potências médias uma das possíveis chaves para a manutenção de um fiapo mínimo de esperança na eventual conformação de uma nova ordem global. Mas, essas potências médias não possuem uma geografia determinada, como aquela que pretensamente existiu desde a última grande guerra, um “Ocidente” e um “Oriente”, que são rótulos puramente geográficos que não denotam a realidade política implícita que se esconde atrás de palavras como Macht, Power, Puissance, para repetir conceitos explicitamente aronianos, para ficarmos com um filósofo da História bem mais realista e sóbrio. O que esteve em causa em 1939-1945 não foi um Ocidente e um Oriente, e sim o confronto entre Estados agressores e agredidos. Tampouco isso existiu durante a primeira Guerra Fria, a despeito dos rótulos geográficos: o confronto era da mesma natureza. Como reinterpretar, portanto, os fatos de nossa época segundo as lentes de Raymond Aron?

Cabe reconhecer, contudo, que tanto as propostas do presidente finlandês quanto o diagnóstico do primeiro-ministro canadense constituem reações ou respostas a problemas colocados frontalmente aos “aliados” europeus e norte-americanos pelo unilateralismo original de dois transgressores do Direito Internacional, em 2025 de forma mais imediata pelos presidente americano, e alguns anos antes pelo presidente da Rússia, país objeto de sanções ditas “unilaterais” – pela diplomacia brasileira, mas inteiramente em conformidade com o espírito e a letra da Carta da ONU, ainda que sem a aprovação de seu CS, pelo uso abusivo e moralmente indevido do direito de veto do Estado agressor –, embora ajudado, este segundo país, pela terceira grande potência, contando ainda com a indiferença, quando não com a complacência, de diversos outros membros da ONU, entre eles diversos do assim chamado Sul Global.

O problema de fundo, tanto em 2014-2022, por iniciativa da Rússia, quanto a partir das ações unilaterais dos EUA, em 2025, parte de diagnósticos equivocados e de prescrições erradas, na verdade ilegais e contrárias ao direito internacional. A Ucrânia, ou antes a Georgia e a Moldávia, jamais ameaçaram a segurança da Rússia, ou a Otan o fez; bem mais o contrário. Por outro lado, desindustrialização extensiva, imigrações maciças, ou tráfico de drogas e outros crimes transnacionais não ameaçam a segurança do “Ocidente”, sequer da cristandade. Reindustrialização via tarifaços não vai trazer de volta velhas indústrias, da segunda revolução industrial (junto com carvão e petróleo); a expulsão mandatória de imigrantes ilegais – tidos como criminosos ou estupradores em série – não vai resolver os problemas demográficos de certos países; a repressão, pela via militar, da oferta de drogas não vai estancar a demanda contínua pelos opiáceos.

Diagnósticos errados levam a prescrições, e ações, equivocadas, sobretudo se vindas de paranoicos ignorantes, atuando com base em obsessões pessoais, não contidas por assessores servindo de forma submissa personalidades megalomaníacas, que não se guiam pelas suas próprias constituições nacionais ou pelo Direito Internacional. Esta é a base das atuais transgressões à ordem internacional, que não está errada, nem necessita de uma nova ordem, alternativa ou substitutiva. Ela apenas carece de ajustes, que estão justamente vinculados à sua incapacidade de conter os poderosos, que se colocam à margem das regras e dos princípios que eles próprios impuseram aos demais.

E quem são esses demais, e quais os seus problemas? Ao que parece, nenhum dos outros atores internacionais buscou desmantelar o sistema multilateral de comércio, nem algum deles violou a proibição de guerras de agressão unilaterais e não provocadas. A Carta da ONU e as regras do Gatt-OMC continuaram servindo aos interesses e às necessidades da enorme maioria dos membros da comunidade internacional, apenas que eles não encontram meios de se precaverem contra seus atuais transgressores, ou de defenderem essas regras multilaterais pela vontade unida de seus dirigentes nacionais.

E quais seriam os dirigentes dessas potências médias potencialmente voltados à preservação da ordem internacional tal qual existente, mas necessitando de ajustes nas partes que justamente violam seus princípios e valores? A partir das considerações já feitas por dois estadistas lúcidos sobre os problemas da atualidade, não da ordem internacional, mas de sua transgressão por duas superpotências, secundadas por uma terceira, e que trazem enormes problemas para a condução normal dos negócios econômicos, assim como para a cooperação internacional em prol do desenvolvimento de países mais pobres ou temporariamente em dificuldades, pode-se sugerir a seguinte lista de potências médias propensas a aderirem às propostas do primeiro ministro do Canadá e às do presidente finlandês: Canadá, Noruega, Reino Unido, Japão e União Europeia, pelo assim chamado “Ocidente”, que é mais uma ideia, democrática e humanista, do que propriamente uma entidade uniforme; Brasil, Chile e México, democracias relativamente sólidas, pela América Latina; África do Sul, Nigéria e Argélia, pelo continente africano, ainda que isso não cubra toda a sua diversidade antropológica; Índia, Indonésia, Coreia do Sul, Austrália, no Índico, Pacífico e Oceania.

Nem todos esses países exibem a mesma postura em relação aos problemas enfrentados pela Ucrânia, pelo povo palestino, por determinadas nações da África ou do Oriente Médio, em meio a guerras larvares ou persistentes. Mas, acredita-se que todos eles sejam potencialmente a favor do Direito Internacional, de um sistema de comércio multilateral previsível e estável, de um respeito mínimo pelas cláusulas fundamentais da Carta da ONU, em vista das grandes destruições já conhecidas ao longo do século XX, ou de outras ainda mais catastróficas e indescritíveis que podem advir neste século, em virtude da arrogância, da prepotência ou da vontade de poder de poucos autocratas.

Paulo Roberto de Almeida

[Brasília, 5221, 18 fevereiro 2026, 4 p.]

Revista Será?, n 698, 20/02/2026: Artigo de Paulo Roberto de Almeida, sobre a ordem global

ANO XIV Nº698 - A SEMANA NA REVISTA SERÁ?
Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº698

Recife, 20 de fevereiro de 2026.

Caro leitor,

Nesta semana, a Revista Será? convida seus leitores a atravessar um território denso, inquietante e indispensável: o da reflexão crítica sobre instituições, democracia, poder, cultura e memória. Em tempos de desinformação, pressa e simplificações, oferecemos textos que apostam na complexidade, no rigor intelectual e na coragem de pensar — não como exercício estéril, mas como gesto público, necessário e transformador.

Abrimos a edição com o editorial “Quem mancha a imagem do STF?”, um exame severo das condutas e decisões que ameaçam a autoridade moral da Suprema Corte e, com ela, a própria confiança na democracia. Em “Segurança pública e o impasse brasileiro”, Hubert Alquéres mostra como o medo se tornou experiência estruturante da vida nacional, resultado do avanço do crime organizado, da crise prisional e da fragilidade das políticas públicas. Já Paulo Roberto de Almeida, em “As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional?”, desloca o olhar da geopolítica tradicional para questionar se a defesa da ordem internacional poderá depender, cada vez mais, de países comprometidos com o Direito Internacional e a Carta da ONU.

A literatura e a filosofia atravessam a edição como chaves de interpretação do presente. Em “Sem saudade do século XX”, Helga Hoffmann relê O Americano Tranquilo, de Graham Greene, para revelar como os dilemas do imperialismo, da neutralidade e da violência seguem vivos. Johnny Jara Jaramillo, em “A rebelião permanente”, retorna a Ortega y Gasset para refletir sobre o “homem-massa” e a naturalização da autossuficiência intelectual em tempos de algoritmos e reações instantâneas. No campo da economia política, Sérgio C. Buarque, em “Jornada de trabalho e tempo livre”, analisa os limites e possibilidades da redução da jornada à luz da produtividade, do progresso técnico e das desigualdades brasileiras. E Paulo Gustavo, em “O Cinza das Horas e a Despedida do Carnaval”, transforma um ritual recifense em meditação poética sobre tempo, finitude e memória, fazendo do Carnaval metáfora da própria condição humana.

Os três últimos artigos da edição compõem um bloco especial em homenagem ao cientista político José Álvaro Moisés, cuja trajetória marcou profundamente o pensamento democrático brasileiro. Em “A Última Mensagem”, Cristiane Lucena oferece um relato comovente sobre a generosidade intelectual, a escuta atenta e a dimensão humana do pesquisador. Lourdes Sola, em “Moisés: a qualidade da democracia como compromisso e utopia”, reconstrói seu percurso intelectual e institucional, ressaltando sua obra sobre confiança política, cultura democrática e representação. E Maria Tereza Aina Sadek, em “Moisés: sempre vivo!”, celebra sua vida, seu rigor acadêmico e sua militância cívica, afirmando que ideias, valores e ensinamentos permanecem vivos naqueles que os incorporam.

Na Última Página, a charge de Elson fecha a edição com o traço crítico que, muitas vezes, diz em imagens o que as palavras custam a formular.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

Quem mancha a imagem do STF? – Editorial
Segurança pública e o impasse brasileiro - Hubert Alquéres
As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional? - Paulo Roberto de Almeida
Sem saudade do século XX - Helga Hoffmann
A rebelião permanente - Johnny Jara Jaramillo
Jornada de trabalho e tempo livre - Sérgio C. Buarque
O Cinza das Horas e a Despedida do Carnaval - Paulo Gustavo
A Última Mensagem - Cristiane Lucena
Moisés: a qualidade da democracia como compromisso e utopia. – Lourdes Sola
Moisés: sempre vivo! - Maria Tereza Aina Sadek
Última Página, a charge de Elson


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Homenagem a José Álvaro Moisés - Marco Aurélio Nogueira, Tibério Canuto (Revista Será?)

 ANO XIV Nº697 Especial - A SEMANA NA REVISTA SERÁ?

Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº697 Especial
Recife, 17 de fevereiro de 2026.

Carta aos Leitores,
Edição Especial | Em homenagem a José Álvaro Moisés

A Revista Será? dedica esta edição especial à memória de José Álvaro Moisés, um dos mais importantes cientistas políticos brasileiros, cuja obra, trajetória e presença pública ajudaram a moldar, por décadas, o debate sobre democracia, representação política, instituições e cultura cívica no país. Sua partida deixa um vazio que não se mede apenas pela ausência física, mas pelo silêncio que se abre quando se perde uma consciência crítica de alta estatura.

Reunimos, nesta edição, dois textos que, em registros distintos e complementares, prestam homenagem a esse intelectual que fez da democracia não apenas um objeto de estudo, mas um compromisso existencial.
No artigo “José Álvaro Moisés (In Memoriam)”, Marco Aurélio Nogueira reconstrói, com densidade analítica e delicadeza memorialística, a trajetória intelectual e política de Moisés. Do engajamento inicial às formulações maduras sobre qualidade da democracia, emerge o retrato de um pensador rigoroso, formador de gerações, atento às ambiguidades da política e fiel à ideia de que a democracia precisa ser permanentemente cuidada, criticada e aprimorada.
Segue o link para o artigo
https://revistasera.info/2026/02/jose-alvaro-moises-in-memoriam/

Já em “Moisés, o intelectual orgânico da democracia”, Tibério Canuto destaca a rara capacidade de José Álvaro Moisés de articular teoria e práxis, universidade e espaço público, pesquisa acadêmica e militância cívica. Seu percurso aparece como o de um intelectual que soube combinar exigência científica, sensibilidade histórica e responsabilidade política, sempre em busca de caminhos de moderação, diálogo e fortalecimento institucional.
Segue o link para o artigo
https://revistasera.info/2026/02/moises-o-intelectual-organico-da-democracia/

Ao publicar estes dois textos, a Revista Será? reafirma sua vocação: ser um espaço de reflexão crítica, plural e comprometido com os valores democráticos. Homenagear José Álvaro Moisés é, ao mesmo tempo, reconhecer uma herança intelectual e assumir a responsabilidade de mantê-la viva.
Que esta edição especial seja lida não apenas como tributo, mas como convite: a continuar pensando, debatendo e defendendo a democracia com a mesma seriedade, coragem e rigor que marcaram a vida de José Álvaro Moisés.
Boa leitura.
Os Editores
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Jessé Souza e Epstein - Rui Martins (Revista Será?)

Jessé Souza e Epstein

Por Rui Martins |
Revista Será?, fev 13, 2026 | Artigos

A revelação de três milhões de documentos extraídos dos arquivos de Jeffrey Epstein relança a teoria de complôs e já atingiu duas personalidades importantes. O ex-ministro francês Jack Lang, por uma questão de evasão de divisas e criação de uma empresa off-shore, já se demitiu da presidência do Instituto do Mundo Árabe, enquanto, na Inglaterra, quem pode cair é o primeiro-ministro Keir Starmer, por ter nomeado Peter Mandelson, amigo próximo de Epstein, predador sexual, como embaixador nos Estados Unidos.

Em entrevista para Radio France, a jornalista Perla Msika, do Conspiray Watch, dirigido pelo Observatório do Conspiracionismo, desmente a existência de uma conspiração mundial pedo-satanista, da qual Jeffrey Epstein seria o instigador “porque ele era judeu, rico e culpado de crimes sexuais”, como propagam redes sociais alternativas e mídias complotistas. Ao contrário, a divulgação dos arquivos Epstein assinala a entrada “numa época de transparência, que permitirá aos jornalistas fazer seu trabalho e saber exatamente do que se trata, mesmo porque existem diversos casos Epstein”.

Entretanto, as teorias antissemitas de complôs já se espalharam e de acordo com The Times of Israel envolvem o mundo judaico, por ter havido associações judaicas interessadas em obter doações de Epstein, ligações financeiras com yeshivas ortodoxas e com o ex-primeiro ministro Ehud Barak. No mais, tem havido um retorno às velhas teorias contra judeus, bem antes mesmo do nazismo.

Foi nesse clima de antissemitismo que o caso Epstein chegou ao Brasil, provocando numerosas reações na mídia convencional e nas redes sociais, depois da publicação de um vídeo na rede Instagram pelo sociólogo, escritor e professor Jessé Souza. Diante das primeiras reações negativas, o vídeo foi modificado, mas ficaram as reações ao vídeo original, segundo a Folha de SP, da qual transcrevemos os textos reproduzidos.

Na Folha de SP, a jornalista Laura Intrieri, definiu o vídeo como “ataque antissemita ao dizer que Epstein “é produto do sionismo judaico”. Sem provas e sem se basear no que tenha sido publicado sobre o caso, Jessé ajunta “a rede industrial de pedofilia só existia para servir depois para a chantagem de Israel em relação aos políticos bilionários, especialmente americanos, para ter o apoio às práticas assassinas de Israel no Oriente Médio e na Palestina”.

Na sequência, Jessé Souza deixou de ser um cientista social para ser um panfletário complotista: “o holocausto judeu foi cafetinado pelo sionismo, com a ajuda de Hollywood e de toda mídia mundial, dominada pelo lobby judaico para acusar de antissemitismo qualquer crítica a Israel.” E afirma seu antissemitismo: “Como Israel, Epstein matava e violava meninas e meninos, americanos e de outros lugares, por uma autorização tácita e às vozes explicita do poder do lobby judaico no mundo”.

Algumas referências:

Instagram Jessé Souza

https://www.instagram.com/reels/DUbFeRjETsR/

Radio France
https://www.youtube.com/watch?v=WEjSrnHnSxs

Le Monde
https://www.lemonde.fr/international/article/2026/02/09/affaire-epstein-tim-allan-directeur-de-la-communication-de-keir-starmer-demissionne-a-son-tour_6665987_3210.html

https://www.lemonde.fr/politique/article/2026/02/09/tout-le-monde-savait-qu-il-ne-payait-rien-comment-l-affaire-epstein-a-fini-par-faire-chuter-jack-lang_6666054_823448.html

Folha de SP
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/02/jesse-souza-diz-que-epstein-e-o-produto-mais-perfeito-do-sionismo-judaico.shtml

Estadão

https://www.estadao.com.br/politica/em-video-antissemita-sociologo-jesse-souza-diz-que-epstein-foi-financiado-pelo-lobby-judaico/

Globo

https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/02/jesse-souza-vira-alvo-no-mpf-apos-dizer-que-epstein-foi-financiado-por-lobby-judaico.ghtml

The Times of Israel
https://www.timesofisrael.com/release-of-latest-epstein-files-unleashes-online-wave-of-antisemitic-conspiracies/

CNN Brasil
https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/em-ataque-antissemita-jesse-souza-associa-caso-epstein-a-lobby-judaico/

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas – Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas

Paulo Roberto de Almeida

 Revista Será? ANOXIV, n. 696, 13/02/2026

No seu artigo, Paulo Roberto de Almeida oferece uma leitura densa e inquietante da atual desordem internacional, comparando o presente a momentos críticos do século XX sem cair em paralelos fáceis. 

Ao examinar a atuação errática das grandes potências e o papel ambíguo das potências médias, o autor revela um mundo sem estratégia clara, em que pequenas disfunções podem gerar grandes rupturas. Uma reflexão lúcida sobre incerteza, poder e os riscos de um futuro ainda em aberto.

Seque o link para o artigo.

https://bit.ly/469evtr

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A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor


Em 1933, o escritor britânico H. G. Wells, já famoso por ter escrito, desde o final do século XIX, romances futuristas bastante inquietantes – A Máquina do Tempo (1895), O Homem Invisível (1897) e o mais assustador A Guerra dos Mundos (1898) –, publicou um novo livro de crônicas sobre coisas mais terrenas: The Shape of Things to Come (1933), traduzido e publicado alguns anos depois por Monteiro Lobato, sob o título de História do Futuro (1940). A obra ainda era futurista, mas de feitura menos fantástica, embora relativamente pessimista, pois que combinando eventos do seu tempo, como o fascismo e o comunismo, com projeções para o século XXI: As duas primeiras partes, “Hoje e Amanhã: prenúncios do desapontamento”, seguida de “Depois de Amanhã: a era do desapontamento”, já tratavam de uma Grande Guerra, com a “interrupção do progresso”, a “falência dos velhos governos”, o “marasmo da velha educação”, e até da “liquidação da América”. As três partes finais eram resolutamente pessimistas: “Nascimento do Estado moderno” (profetas, fanáticos e assassinos); “O Estado moderno militante” (interlúdio dramático) e “O Estado moderno no controle da vida”, com algo parecido a “manejamento geogônico” (sic).
Se os três primeiros romances tinham sido publicados na era relativamente otimista da belle époque, muitos anos antes da Grande Guerra, as crônicas fantásticas de 1933 de certa forma anteciparam uma guerra ainda mais terrível, com a destruição do domínio dos grandes impérios europeus sobre os destinos do mundo. Se ele estivesse vivo no pós-segunda guerra, qual seria sua opinião sobre os últimos 80 anos? Talvez ele escrevesse que esta segunda Guerra Fria está sendo mais turbulenta do que a primeira, que foi até relativamente estável, com a “dissuasão mutuamente assegurada” entre as duas grandes potências nucleares e até acordos de contenção da proliferação entre elas.
Ainda não estamos, exatamente, numa repetição dos anos 1930, quando as três potências militaristas expansionistas deram início às preliminares de um novo conflito global: o Japão na Manchúria (1931) e depois na China inteira (1937), a Itália tentando conquistar a Abissínia (1935) e a Alemanha se expandindo na própria Europa (de 1938 em diante), já tendo estas duas testado armas e técnicas na guerra civil espanhola (1936-1939). Em outros termos, os preparativos dos anos 1930 já apontavam para uma nova conflagração global, o que ainda não está totalmente nos cenários atuais traçados por planejadores geopolíticos, generais de estados maiores, ou romancistas à la H. G. Wells.
As incertezas sobre os próximos desenvolvimentos geopolíticos derivam não tanto dos cálculos estratégicos e dos potenciais bélicos das respectivas “esferas de influência” das três superpotências, mas justamente do fato que elas não parecem propensas a guerrear entre si. Senão vejamos. Os três “donos do poder” não aparentam hostilidade entre eles, ao contrário: o Hegemon em declínio se dá tão bem com o neoczar que até parece disposto a servir seus interesses, e não apenas na Ucrânia; por sua vez, o novo “Imperador do Meio” tem interesses “universais” no plano comercial, mas, geopoliticamente, seu foco é bem mais restrito: apenas uma “província rebelde”. O fato é nenhum deles pode ser considerado um pensador estratégico. O primeiro nem de longe exibe qualquer coerência em suas confusas alocuções; o tirano de Moscou está dissipando a capacidade do “segundo exército mais poderoso do mundo” numa guerra de agressão mal concebida, mal executada, cujo resultado mais provável é a destruição econômica do seu país; o “imperador” tem, sob seu comando todo um exército de mandarins tecnocráticos, mas acaba de demitir o comandante do Exército Popular de Libertação, o que deve atrasar e pode comprometer a liberação de uma “formosa ilha”.
Difícil dizer, atualmente, quais cenários estão abertos às relações internacionais entre as grandes potências, entre elas, entre elas e as demais potências médias, entre as quais estão o Brasil, o Canadá e a Finlândia, e com todas as demais nações. Sabemos, contudo, que algumas pequenas disfunções nessa engrenagem complicada podem “empurrar” o mundo para qualquer trajetória aberta à arte e ao engenho de qualquer um daqueles três personagens complicados. Talvez não seja, exatamente, na direção da fatalidade dos anos 1930 – ou seja, uma nova guerra global entre as grandes potências – ou se ainda estamos na confusão demonstrada por H. G. Wells no seu livro de 1933.
Para sermos absolutamente vagos, como é a realidade atual, tudo é possível: Trump pode continuar destruindo o multilateralismo político e econômico até o ponto de uma difícil reversão depois de sua saída (mas ele vai sair); Putin pode continuar destruindo a Ucrânia por mais alguns meses, mas está destruindo igualmente o seu próprio país, até o ponto de algum gesto desesperado; o novo imperador pode aproveitar a “distração” oferecida pelos dois primeiros, e invadir a sua ilha rebelde, com desfecho ainda desconhecido. Nem tudo depende só dos três, mas muita coisa sim, depende.
Revisando rapidamente a lista dos atuais chefes de Estado e de governo (além e à parte desses três), só é possível identificar dois estadistas de estatura mundial, ambos de potências médias, modernas e educadas, que se situam na vanguarda de um pensamento estratégico fundamentado tanto num profundo conhecimento da história e do Direito Internacional, quanto numa antevisão esclarecida de uma nova arquitetura mundial de paz e segurança, voltadas para o desenvolvimento pacífico da humanidade, sem hegemonismos. São eles o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Vamos examinar o que, recentemente, eles andaram falando ou escrevendo.
Alexander Stubb acaba de publicar um pequeno livro no qual fornece algumas chaves para compreender os atuais cenários ainda em desenvolvimento: The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order (Nova York: Columbia Global Reports, 2026; disponível no Kindle Amazon por menos de 10 dólares). Um resumo de suas teses principais já tinha sido publicado como artigo na Foreign Affairs em dezembro de 2025: “The West’s Last Chance: How to Build a New Global Order Before It’s Too Late” (eu o li no URL: https://www.foreignaffairs.com/united-states/wests-last-chance ; se não mais livremente disponível, tomei o cuidado de colocá-lo à disposição dos interessados: https://www.academia.edu/164575033/The_Wests_Last_Chance_Alexander_Stubb_Foreign_Affairs_).
O propósito principal do presidente da Finlândia é o de propugnar por um multilateralismo cooperativo, baseado num realismo dotado de valores, e suscetível de superar o atual triângulo de ferro de três superpotências que estão enredadas em seus interesses geopoliticamente restritos. Ele mesmo reconhece que a experiência de seu país – que enfrentou o ataque brutal da União Soviética em 1940 –, a “Finlandização” do pós-guerra, ou seja, a acomodação em face de um agressor brutal, não foi a melhor solução, pois o invasor pode sempre voltar à carga. Novo Por isso, o recurso à Otan foi o remédio encontrado para dissuadir o grande urso de um novo ataque, assim que teve início a nova guerra de agressão contra a Ucrânia (na verdade, a continuidade, pois dez anos antes já tinha ocorrido a intervenção no Donbas, seguida pela invasão da Crimeia).
Os pontos centrais de seus argumentos, tanto no artigo quanto no livro, se referem à situação atual do mundo, que caminha do multilateralismo, que é um sistema de cooperação global, baseado em regras comuns e instituições internacionais, em direção à multipolaridade, que é um oligopólio do poder. Eis um resumo de suas teses:
A competição entre os grandes poderes está de volta, à medida em que a rivalidade entre a China e os Estados Unidos estabelece o quadro da geopolítica. Mas esta não é a única força moldando a ordem global. Potências médias emergentes, inclusive Brasil, Índia, México, Nigéria, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia, se tornaram divisoras de águas. Conjuntamente, elas detêm os meios econômicos e o peso geopolítico para fazer adernar a ordem global em direção da estabilidade ou de maior turbulência. Elas também têm razão para demander mudanças: o sistema multilateral do pós-Segunda Guerra Mundial não se adaptou adequadamente para refletir sua posição no mundo e permitir-lhes o papel que elas merecem. Uma competição triangular entre o que eu chamo de Ocidente global, de Oriente global e Sul global está tomando forma. Seja escolhendo fortalecer o sistema multilateral ou buscar a multipolaridade, o Sul global decidirá se a geopolítica da próxima era se inclinará em direção da cooperação, da fragmentação, ou da dominação. (artigo na Foreign Affairs)

Aqui, Stubb parece interpretar incorretamente o peso do que ele chama de Sul Global; para ele tanto o Ocidente, quanto o Oriente estão lutando pelos “corações e mentes” do Sul Global, pois que eles entendem que é o Sul Global é que vai decidor sobre a direção que tomará a nova ordem mundial. Se o Ocidente e o Oriente possuem objetivos divergentes, é o Sul Global que teria o que ele chama de “swing vote”, ou seja, a escolha decisiva. Acredito que ele exagera nessa visão, mas não vou desenvolver agora meus contra-argumentos. Vamos continuar com Alexander Stubb.
Ele acredita que uma reforma da ordem global precisa começar pelo topo, isto é, as Nações Unidas. A primeira reforma seria fazer com que todos os continents estejam representeado no Conselho de Segurança, o que parece ser uma proposta razoável, cujo efeito, contudo, será o de aumentar a cacofonia naquele órgão supremo. Em segundo lugar, nenhum estado deveria deter poder de veto no CSNU, pois ele acredita que no mundo atual, esse poder está incapacitando sua atuação (na verdade, sempre foi assim). Em terceiro, e mais importante lugar, Stubb afirma que se um membro permanente ou provisório do CSNU viola a Carta da ONU, seu pertencimento (não ao CSNU) à propria ONU deveria ser suspenso. Este é, provavelmente, sua mais importante proposta e a mais difícil: ela significa que a Rússia deveria ter sido suspensa imediatamente após a invasão total da Ucrânia, e esta seria uma decisão a ser tomada pela Assembleia Geral, não pelo próprio CSNU, o que seria virtualmente impossível, nas regras atuais. Stubb propõe que em lugar de Yalta, como modelo de organização do mundo, Helsinque seja tomada como exemplo, mas aqui a referência não possui grande relevância mundial, pois ele está se referindo à Conferência sobre segurança e cooperação NA EUROPA (ou seja, os resultados do diálogo, desde os anos 1970, entre “socialismo” e “capitalismo”).
Quanto ao primeiro-ministro Mark Carney, seu discurso em Davos provocou, com razão, uma recepção extremamente favorável nos mais diversos meios da política mundial. Suas teses são relativamente simples, e por isso mesmo, serão resguardas para uma discussão suplementar sobre suas outras implicações não imediatamente perceptíveis neste debate preliminar. Carney parte de uma constatação evidente: vivemos não uma transição, mas uma ruptura (o que é uma dedução especialmente relevante num país que parecia prestes a ser incorporado a um grande império ao Sul). Mas ele também levanta uma questão que é crucial para uma outra potência média, um pouco mais ao Sul, que é o Brasil, assim como o são pelo menos um terço das demais economias emergentes (em meio a uma vasta maioria de países mais “modestos”).
De fato, as potências médias são maioria no mundo, em termos de população, de PIB, de comércio, embora, individualmente, elas permaneçam muito aquém, em termos econômicos, financeiros ou militares, das três superpotências. Mas isso não tem nada a ver com essa repartição “geográfica-política” de Oeste, Oriente ou Sul, e sim com outras considerações. Alexander Stubb, por exemplo, comete o equívoco de colocar o BRICS como representante do “multilateralismo do Sul Global”, o que me parece uma enorme distorção conceitual e prática. Discutiremos essas questões num próximo artigo.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5213, 11 fevereiro 2026, 5 p.
Reproduzido no blog Diplomatizzando (13/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas.html). Relação de Publicados n. 1622.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

 A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas

China

China

Em 1933, o escritor britânico H. G. Wells, já famoso por ter escrito, desde o final do século XIX, romances futuristas bastante inquietantes – A Máquina do Tempo (1895), O Homem Invisível (1897) e o mais assustador A Guerra dos Mundos (1898) –, publicou um novo livro de crônicas sobre coisas mais terrenas: The Shape of Things to Come (1933), traduzido e publicado alguns anos depois por Monteiro Lobato, sob o título de História do Futuro (1940). A obra ainda era futurista, mas de feitura menos fantástica, embora relativamente pessimista, pois que combinando eventos do seu tempo, como o fascismo e o comunismo, com projeções para o século XXI: As duas primeiras partes, “Hoje e Amanhã: prenúncios do desapontamento”, seguida de “Depois de Amanhã: a era do desapontamento”, já tratavam de uma Grande Guerra, com a “interrupção do progresso”, a “falência dos velhos governos”, o “marasmo da velha educação”, e até da “liquidação da América”. As três partes finais eram resolutamente pessimistas: “Nascimento do Estado moderno” (profetas, fanáticos e assassinos); “O Estado moderno militante” (interlúdio dramático) e “O Estado moderno no controle da vida”, com algo parecido a “manejamento geogônico” (sic).

Se os três primeiros romances tinham sido publicados na era relativamente otimista da belle époque, muitos anos antes da Grande Guerra, as crônicas fantásticas de 1933 de certa forma anteciparam uma guerra ainda mais terrível, com a destruição do domínio dos grandes impérios europeus sobre os destinos do mundo. Se ele estivesse vivo no pós-segunda guerra, qual seria sua opinião sobre os últimos 80 anos? Talvez ele escrevesse que esta segunda Guerra Fria está sendo mais turbulenta do que a primeira, que foi até relativamente estável, com a “dissuasão mutuamente assegurada” entre as duas grandes potências nucleares e até acordos de contenção da proliferação entre elas.

Ainda não estamos, exatamente, numa repetição dos anos 1930, quando as três potências militaristas expansionistas deram início às preliminares de um novo conflito global: o Japão na Manchúria (1931) e depois na China inteira (1937), a Itália tentando conquistar a Abissínia (1935) e a Alemanha se expandindo na própria Europa (de 1938 em diante), já tendo estas duas testado armas e técnicas na guerra civil espanhola (1936-1939). Em outros termos, os preparativos dos anos 1930 já apontavam para uma nova conflagração global, o que ainda não está totalmente nos cenários atuais traçados por planejadores geopolíticos, generais de estados maiores, ou romancistas à la H. G. Wells.

As incertezas sobre os próximos desenvolvimentos geopolíticos derivam não tanto dos cálculos estratégicos e dos potenciais bélicos das respectivas “esferas de influência” das três superpotências, mas justamente do fato que elas não parecem propensas a guerrear entre si. Senão vejamos. Os três “donos do poder” não aparentam hostilidade entre eles, ao contrário: o Hegemon em declínio se dá tão bem com o neoczar que até parece disposto a servir seus interesses, e não apenas na Ucrânia; por sua vez, o novo “Imperador do Meio” tem interesses “universais” no plano comercial, mas, geopoliticamente, seu foco é bem mais restrito: apenas uma “província rebelde”. O fato é nenhum deles pode ser considerado um pensador estratégico. O primeiro nem de longe exibe qualquer coerência em suas confusas alocuções; o tirano de Moscou está dissipando a capacidade do “segundo exército mais poderoso do mundo” numa guerra de agressão mal concebida, mal executada, cujo resultado mais provável é a destruição econômica do seu país; o “imperador” tem, sob seu comando todo um exército de mandarins tecnocráticos, mas acaba de demitir o comandante do Exército Popular de Libertação, o que deve atrasar e pode comprometer a liberação de uma “formosa ilha”.

Difícil dizer, atualmente, quais cenários estão abertos às relações internacionais entre as grandes potências, entre elas, entre elas e as demais potências médias, entre as quais estão o Brasil, o Canadá e a Finlândia, e com todas as demais nações. Sabemos, contudo, que algumas pequenas disfunções nessa engrenagem complicada podem “empurrar” o mundo para qualquer trajetória aberta à arte e ao engenho de qualquer um daqueles três personagens complicados. Talvez não seja, exatamente, na direção da fatalidade dos anos 1930 – ou seja, uma nova guerra global entre as grandes potências – ou se ainda estamos na confusão demonstrada por H. G. Wells no seu livro de 1933.

Para sermos absolutamente vagos, como é a realidade atual, tudo é possível: Trump pode continuar destruindo o multilateralismo político e econômico até o ponto de uma difícil reversão depois de sua saída (mas ele vai sair); Putin pode continuar destruindo a Ucrânia por mais alguns meses, mas está destruindo igualmente o seu próprio país, até o ponto de algum gesto desesperado; o novo imperador pode aproveitar a “distração” oferecida pelos dois primeiros, e invadir a sua ilha rebelde, com desfecho ainda desconhecido. Nem tudo depende só dos três, mas muita coisa sim, depende.

Revisando rapidamente a lista dos atuais chefes de Estado e de governo (além e à parte desses três), só é possível identificar dois estadistas de estatura mundial, ambos de potências médias, modernas e educadas, que se situam na vanguarda de um pensamento estratégico fundamentado tanto num profundo conhecimento da história e do Direito Internacional, quanto numa antevisão esclarecida de uma nova arquitetura mundial de paz e segurança, voltadas para o desenvolvimento pacífico da humanidade, sem hegemonismos. São eles o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney. Vamos examinar o que, recentemente, eles andaram falando ou escrevendo.

Alexander Stubb acaba de publicar um pequeno livro no qual fornece algumas chaves para compreender os atuais cenários ainda em desenvolvimento: The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order(Nova York: Columbia Global Reports, 2026; disponível no Kindle Amazon por menos de 10 dólares). Um resumo de suas teses principais já tinha sido publicado como artigo na Foreign Affairs em dezembro de 2025: “The West’s Last Chance: How to Build a New Global Order Before It’s Too Late” (eu o li no URL: https://www.foreignaffairs.com/united-states/wests-last-chance; se não mais livremente disponível, tomei o cuidado de colocá-lo à disposição dos interessados: https://www.academia.edu/164575033/The_Wests_Last_Chance_Alexander_Stubb_Foreign_Affairs_).

O propósito principal do presidente da Finlândia é o de propugnar por um multilateralismo cooperativo, baseado num realismo dotado de valores, e suscetível de superar o atual triângulo de ferro de três superpotências que estão enredadas em seus interesses geopoliticamente restritos. Ele mesmo reconhece que a experiência de seu país – que enfrentou o ataque brutal da União Soviética em 1940 –, a “Finlandização” do pós-guerra, ou seja, a acomodação em face de um agressor brutal, não foi a melhor solução, pois o invasor pode sempre voltar à carga. Novo Por isso, o recurso à Otan foi o remédio encontrado para dissuadir o grande urso de um novo ataque, assim que teve início a nova guerra de agressão contra a Ucrânia (na verdade, a continuidade, pois dez anos antes já tinha ocorrido a intervenção no Donbas, seguida pela invasão da Crimeia).

Os pontos centrais de seus argumentos, tanto no artigo quanto no livro, se referem à situação atual do mundo, que caminha do multilateralismo, que é um sistema de cooperação global, baseado em regras comuns e instituições internacionais, em direção à multipolaridade, que é um oligopólio do poder. Eis um resumo de suas teses:

A competição entre os grandes poderes está de volta, à medida em que a rivalidade entre a China e os Estados Unidos estabelece o quadro da geopolítica. Mas esta não é a única força moldando a ordem global. Potências médias emergentes, inclusive Brasil, Índia, México, Nigéria, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia, se tornaram divisoras de águas. Conjuntamente, elas detêm os meios econômicos e o peso geopolítico para fazer adernar a ordem global em direção da estabilidade ou de maior turbulência. Elas também têm razão para demandar mudanças: o sistema multilateral do pós-Segunda Guerra Mundial não se adaptou adequadamente para refletir sua posição no mundo e permitir-lhes o papel que elas merecem. Uma competição triangular entre o que eu chamo de Ocidente global, de Oriente global e Sul global está tomando forma. Seja escolhendo fortalecer o sistema multilateral ou buscar a multipolaridade, o Sul global decidirá se a geopolítica da próxima era se inclinará em direção da cooperação, da fragmentação, ou da dominação. (artigo na Foreign Affairs)

Aqui, Stubb parece interpretar incorretamente o peso do que ele chama de Sul Global; para ele tanto o Ocidente, quanto o Oriente estão lutando pelos “corações e mentes” do Sul Global, pois que eles entendem que é o Sul Global é que vai decidir sobre a direção que tomará a nova ordem mundial. Se o Ocidente e o Oriente possuem objetivos divergentes, é o Sul Global que teria o que ele chama de “swing vote”, ou seja, a escolha decisiva. Acredito que ele exagera nessa visão, mas não vou desenvolver agora meus contra-argumentos. Vamos continuar com Alexander Stubb.

Ele acredita que uma reforma da ordem global precisa começar pelo topo, isto é, as Nações Unidas. A primeira reforma seria fazer com que todos os continentes estejam representados no Conselho de Segurança, o que parece ser uma proposta razoável, cujo efeito, contudo, será o de aumentar a cacofonia naquele órgão supremo. Em segundo lugar, nenhum estado deveria deter poder de veto no CSNU, pois ele acredita que no mundo atual, esse poder está incapacitando sua atuação (na verdade, sempre foi assim). Em terceiro, e mais importante lugar, Stubb afirma que se um membro permanente ou provisório do CSNU viola a Carta da ONU, seu pertencimento (não ao CSNU) à propria ONU deveria ser suspenso. Este é, provavelmente, sua mais importante proposta e a mais difícil: ela significa que a Rússia deveria ter sido suspensa imediatamente após a invasão total da Ucrânia, e esta seria uma decisão a ser tomada pela Assembleia Geral, não pelo próprio CSNU, o que seria virtualmente impossível, nas regras atuais. Stubb propõe que em lugar de Yalta, como modelo de organização do mundo, Helsinque seja tomada como exemplo, mas aqui a referência não possui grande relevância mundial, pois ele está se referindo à Conferência sobre segurança e cooperação NA EUROPA (ou seja, os resultados do diálogo, desde os anos 1970, entre “socialismo” e “capitalismo”).

Quanto ao primeiro-ministro Mark Carney, seu discurso em Davos provocou, com razão, uma recepção extremamente favorável nos mais diversos meios da política mundial. Suas teses são relativamente simples, e por isso mesmo, serão resguardas para uma discussão suplementar sobre suas outras implicações não imediatamente perceptíveis neste debate preliminar. Carney parte de uma constatação evidente: vivemos não uma transição, mas uma ruptura (o que é uma dedução especialmente relevante num país que parecia prestes a ser incorporado a um grande império ao Sul). Mas ele também levanta uma questão que é crucial para uma outra potência média, um pouco mais ao Sul, que é o Brasil, assim como o são pelo menos um terço das demais economias emergentes (em meio a uma vasta maioria de países mais “modestos”).

De fato, as potências médias são maioria no mundo, em termos de população, de PIB, de comércio, embora, individualmente, elas permaneçam muito aquém, em termos econômicos, financeiros ou militares, das três superpotências. Mas isso não tem nada a ver com essa repartição “geográfica-política” de Oeste, Oriente ou Sul, e sim com outras considerações. Alexander Stubb, por exemplo, comete o equívoco de colocar o BRICS como representante do “multilateralismo do Sul Global”, o que me parece uma enorme distorção conceitual e prática. Discutiremos essas questões num próximo artigo.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5213, 11 fevereiro 2026, 5 p.


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