Mostrando postagens com marcador Revista Será?. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Revista Será?. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de março de 2026

Revista Será?, n. 701, 13/03/2026, Índice

ANO XIV Nº701 - A SEMANA NA REVISTA SERÁ?
Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº701

Recife, 13 de março de 2026.
Caro leitor,

Nesta nova edição da Revista Será?, reunimos reflexões que atravessam a política internacional, os dilemas da democracia brasileira e os impasses morais do nosso tempo. São textos que convidam o leitor a pensar com independência, a duvidar das narrativas fáceis e a confrontar as tensões que moldam o presente. Entre guerras distantes, crises diplomáticas, polarizações domésticas e memórias políticas, nossos autores ajudam a iluminar os fios que conectam poder, verdade e responsabilidade pública.

Abrimos com “O alucinado no Salão Oval”, editorial da Revista Será?, que examina os impactos da política externa de Donald Trump sobre a ordem internacional, destacando o desmonte de acordos multilaterais, o aumento das tensões geopolíticas e as implicações dessas escolhas para a América Latina e para o Brasil.

Em “A Guerra Distante”, Johnny Jara Jaramillo mostra como conflitos aparentemente remotos — como um ataque ao Irã — revelam as engrenagens do sistema internacional, expondo a fragilidade das instituições globais e os efeitos econômicos e estratégicos que alcançam países periféricos como o Brasil.

Em “O Brasil precisa de uma alternativa à mediocridade”, Sérgio C. Buarque analisa como a polarização entre lulismo e bolsonarismo empobrece o debate público e bloqueia reformas estruturais necessárias ao desenvolvimento, defendendo a construção de uma agenda política mais ousada, capaz de recolocar o país no caminho da educação, da inovação e do crescimento.

Em “A submissão ao império: da envergonhada à declarada”, Paulo Roberto de Almeida revisita a história das relações entre Brasil e Estados Unidos, discutindo as ambiguidades do alinhamento brasileiro e os riscos de uma política externa capturada por lideranças personalistas e interesses alheios à soberania nacional.

No ensaio “A Excitação das Guerras e a Frase de Clausewitz”, Paulo Gustavo retorna à famosa tese de que a guerra seria a continuação da política por outros meios para questioná-la à luz da experiência humana, sugerindo que os conflitos armados frequentemente negam a própria política ao substituir o diálogo pela força.

Em “A Arte de Mentir”, José Paulo Cavalcanti Filho examina a mentira em suas dimensões ética e jurídica, tomando o escândalo Watergate como referência para discutir como a falsidade no poder corrói instituições e pode tornar um governante indigno do cargo.

Já em “Triste Sina do Partidão”, Abraham B. Sicsú percorre a trajetória do histórico PCB, o “Partidão”, entre memória pessoal e reflexão política, iluminando sua influência sobre intelectuais e movimentos sociais e os dilemas enfrentados pela esquerda brasileira após o colapso do comunismo soviético.

Última Página, a Charge de Elson

Sobre o barril,
dois sorrisos se equilibram —
o mar guarda mortos.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

O alucinado no Salão Oval - Editorial
A Guerra Distante - Johnny Jara Jaramillo
O Brasil precisa de uma alternativa à mediocridade - Sérgio C. Buarque
A submissão ao império: da envergonhada à declarada - Paulo Roberto de Almeida
A Excitação das Guerras e a Frase de Clausewitz - Paulo Gustavo
A Arte de Mentir - José Paulo Cavalcanti Filho
Triste Sina do Partidão - Abraham B Sicsú
Última Página, a charge de Elson

A submissão ao império: da envergonhada à declarada - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

A submissão ao império: da envergonhada à declarada

Submissão

Submissão

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Logo ao início do governo militar, em junho de 1964, o primeiro general-presidente do regime militar, Castelo Branco, resolveu enviar o “último tenente”, Juracy Magalhães, como seu embaixador em Washington. Perguntado por um jornalista com que espírito assumia seu novo posto, o embaixador designado foi cândido: “O Brasil fez duas guerras como aliado dos Estados Unidos e nunca se arrependeu. Por isso eu digo que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.” (Cf. Juracy Magalhães, em depoimento a J. A. Gueiros, O Último Tenente. 3ª ed., Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 325). Ele foi, quase de imediato, devidamente “massacrado” por todos, não só pela esquerda antiamericana, como um vil entreguista, sabujo dos interesses americanos.

Sua frase infeliz passou à história, como a própria confirmação da subserviência do governo militar à política do Império. Cabe, contudo, restabelecer o devido copyright da frase, que nunca foi, exatamente, de Juracy Magalhães, mas provinha da afirmação do novo presidente da General Motors, em 1946, Charles Wilson, ao inverter a famosa declaração de um antigo dirigente, Alfred Sloan, entre 1923 e aquele ano, segundo quem “what was good for our country was good for General Motors”, acrescentando Wilson, “and vice-versa”.

A frase se tornou um ícone da suposta colusão de interesses entre a grande indústria e o governo dos EUA e, após sua recuperação infeliz por Juracy Magalhães, um exemplo entre outros, ainda que envergonhado, da colusão de interesses entre os governos do regime militar brasileiro inaugurado em 1964 e os interesses da grande potência americana. Assim foi, pelo menos durante algum tempo, mas a corporação do Itamaraty soube restabelecer, em pouco tempo, os saudáveis princípios da diplomacia brasileira. Já no segundo governo da “Revolução”, sob o pouco instruído Costa e Silva, os “itamaratecas” conseguiram, sob o medianamente instruído chanceler Magalhães Pinto, retomar as grandes linhas da “Política Externa Independente” em praticamente todas as ações empreendidas doravante.

A propósito dessa frase, venho agora a um episódio ao qual assisti pessoalmente, pois que, exercendo o cargo de ministro-conselheiro na embaixada em Washington, em 2002, acompanhei a primeira visita a Washington, ainda como presidente eleito, de Lula, a convite de George Bush. Ao ser confrontado, no National Press Club, a uma pergunta marota de um jornalista, Lula utilizou-se dessa frase infeliz para revertê-la em seu favor. Perguntado por qual razão o PT havia estabelecido uma parceria com o Partido Comunista da China, ele saiu-se da seguinte maneira, tendo sido muito aplaudido, durante e após sua resposta: “Eu não conhecia a China muito bem, até que o governo americano fez da China seu parceiro comercial preferencial. E eu pensei comigo mesmo: ‘se é bom para os americanos, deve ser bom para os brasileiros.’ Nós vamos trabalhar muito estreitamente com a China, porque ela é um parceiro importante para os nossos objetivos comerciais.” (Transcrição parcial da seção de perguntas e respostas ocorrida no National Press Club, Washington, em 10/12/ 2002)

Não tenho certeza de que essa resposta tenha sido ensaiada pelo presidente eleito ou se ela foi espontânea, mas vários observadores brasileiros registraram a recuperação, de modo inteligente, da antiga frase infeliz de Juracy Magalhães. A pergunta tinha sido dirigida ao relacionamento político entre o PT e o Partido Comunista Chinês, e ela foi respondida em sua vertente puramente comercial, o que não estava em causa na indagação feita em Washington (que incluía igualmente uma referência ao Foro de São Paulo). Não pude, entretanto, deixar de reconhecer a notável capacidade do presidente eleito em adaptar de maneira simpática, e com bastante bom-humor, uma frase colocada no índex da “sabujice imperialista” ao novo contexto do relacionamento entre os dois maiores países do hemisfério.

Abordando, agora, a essência do relacionamento entre os Estados Unidos e o Brasil, não se pode deixar de reconhecer que, entre um império de um lado e uma potência média do outro, os interesses dos dois países podem coincidir em grande medida, e assim voltamos à frase paradigmática. Com efeito, o que é bom para os EUA – uma ordem internacional aberta aos fluxos de bens, capitais, serviços e pessoas, dotada de estabilidade e caracterizada por valores comuns compartilhados, como parecem ser a democracia, os direitos humanos e a defesa do meio ambiente – também o é para o Brasil, sem qualquer exclusivismo nesse plano mais geral das relações internacionais (ou pelo menos deveria ser, mas obviamente menos na era Trump). Logo depois da visita de Lula, as políticas externas dos dois países começaram a desalinhar rapidamente, começando pela invasão do Iraque e tudo o que se seguiu.

Registro mais uma curiosidade, antes de chegar o título deste artigo, a submissão ao Império, que foi e voltou ao longo do tempo. A historiografia do golpe de 1964 é consensual quanto ao apoio dos Estados Unidos à intervenção militar, sobretudo se ela resultasse numa guerra civil, caso houvesse “resistência”, com o apoio direto dos americanos aos golpistas, por parte da frota deslocada ao Atlântico Sul. Mas, existe ainda pouca adesão à “tese” – que modestamente é minha – de que os Estados Unidos interviram uma segunda vez no processo político brasileiro, desta vez a favor da democracia e contra um novo golpe, mais exatamente pelo envio, feito pelo presidente Joe Biden, de dois dos seus assessores, com o objetivo precípuo de garantir a continuidade das eleições brasileiras em 2022, na devida forma.

Primeiro foi o diretor da CIA, William Burns, que veio ao Brasil em meados de 2021 para um encontro sigiloso e de alto nível com o próprio Bolsonaro, além de outros generais: algumas informações confidenciais revelam que Burns teria dito a Bolsonaro que os EUA confiavam inteiramente no sistema de votação do Brasil, então em fase de aberta contestação pelo presidente brasileiro. Depois, no auge dos preparativos de um golpe, mal preparado pelo golpista covarde e incompetente, foi a vez do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, no início de dezembro de 2022, que se reuniu com o presidente eleito, Lula, convidando-o, novamente, para uma visita a Washington. Ambos devem ter deixado muito claro, aos generais, que os EUA não tolerariam um golpe que interrompesse o processo democrático no Brasil. Desta vez, os gringos acertaram.

Volto ao passado, mas mais recente, para ressaltar o quanto a tradicional aliança do Brasil com os Estados Unidos, inquestionável durante dois séculos, transmutou-se numa declarada submissão, não ao país, mas ao seu bizarro presidente, durante os mandatos parcialmente coincidentes de Trump 1 e Bolsonaro, de 2019 a 2020. Aliás, desde antes de 2019, pois que a partir da campanha de 2018, Bolsonaro e os olavetes já prometiam total submissão a Trump e aos interesses exclusivamente unilaterais dos Estados Unidos, a começar por uma hostilidade ímpar à China “comunista” e uma adesão doentia às “teses” da franja lunática da extrema-direita americana. Elas eram propagadas no Brasil, nessa fase, pelo guru preferencial dos bolsonaristas, Olavo de Carvalho, que indicou ao governo o patético chanceler acidental, aquele que quase destruiu nossa diplomacia, e que não se envergonhava de converter o Brasil num “pária internacional”.

Não vou retomar aqui todas as críticas que formulei, assim que exonerado de meu cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty (Funag), contra a inacreditavelmente submissa política externa pró-trumpista, em pelo menos cinco livros, começando por Miséria da Diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty(2019) até Apogeu e Demolição da Política Externa (2021), passando por O Itamaraty num labirinto de Sombras, Uma certa ideia do Itamaraty e O Itamaraty Sequestrado (2020-2021). O que cabe ressaltar, neste momento de início de uma nova campanha eleitoral presidencial, é o perigo latente de uma nova recaída numa diplomacia submissa tão destruidora das diretrizes fundamentais, e históricas, de nossa política externa, como foi aquela, sobretudo durante a gestão do chanceler acidental (até março de 2021), mas continuada, de forma mais atenuada, sob a administração de seu sucessor, mas ainda submetido ao chefe da nação, felizmente contido, pelo menos parcialmente, pelo governo Joe Biden, a partir de 2021.

Os impulsos intervencionistas de Trump 2 são ainda mais poderosos, e não contidos por assessores também submissos, do que já tinham sido de 2017 a 2020, quando ocorreram os primeiros passos do protecionismo comercial, mas ainda sem a destruição completa do sistema multilateral de comércio, e do próprio multilateralismo político onusiano, como vem sendo o caso desde janeiro de 2025, culminando em agressões armadas contra os supostos inimigos do Império, espelhando, aliás, a guerra de agressão de seu amigo Putin contra os infelizes vizinhos do finado império soviético. Aquele que se crê “imperador do mundo” já enviou um inquisidor ao Brasil para se encontrar com o golpista fracassado e encarcerado, provavelmente dando início a uma nova fase de intervenção na política brasileira, desta vez em favor de uma direita talvez menos “carnívora”, e disfarçadamente “herbívora”.

O que Trump conseguiu obter numa Venezuela pós-madurista, ou seja, sua tutela sobre dirigentes complacentes, ele gostaria de lograr num Brasil novamente bolsonarista, embora ele tenha muito pouca chance de impor alguma “Delcy Rodriguez iraniana” na sua atual guerra de agressão contra a ditadura dos aiatolás e da Guarda Revolucionária Islâmica. O Brasil certamente não tem nada a ver com a trajetória da Venezuela chavista, da revolução à submissão, mas a rendição dos bolsonaristas a Trump, pessoalmente, promete se manter num eventual retorno dessa extrema-direita ao poder, o que representaria um novo episódio de sujeição de nossa política externa aos interesses, não essencialmente americanos, mas basicamente trumpistas. Tudo ainda é uma hipótese, mas em minha condição de diplomata comprometido com a dignidade de nossa credibilidade internacional, sinto-me terrivelmente preocupado com a possibilidade de que o Brasil de Rio Branco, de Oswaldo Aranha e de San Tiago Dantas possa vir a integrar-se ao “Escudo das Américas”, o novo órgão de controle imperial sobre seu “quintal” latino-americano, o que certamente ocorreria com o retorno dos bolsonaristas ao governo, em 2027.

Retomando a frase fatídica, pode ser que o que é bom para os Estados Unidos talvez seja igualmente bom para o Brasil – como argumentou instintivamente o presidente-eleito Lula em seu primeiro périplo americano, em 2002, ao mencionar a relação dos EUA com a China, ainda relativamente convergente naquele começo de século –, mas cabe aos brasileiros examinar atentamente, não o lado puramente formal da relação bilateral, mais distante ou mais próxima, segundo os governos, mas a substância desse quê, uma vez que soberania e dignidade nacionais passam na frente de qualquer modalidade de interação diplomática.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5240, 11 março 2026, 4 p.

sábado, 7 de março de 2026

Revista Será? n. 700, 6/03/2026: artigos de primeira qualidade

ANO XIV Nº700 - A SEMANA NA REVISTA SERÁ?

Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº700 

Recife, 06 de março de 2026.

Caro leitor,

Vivemos um tempo em que os acontecimentos se aceleram, as tensões internacionais se ampliam e o debate público muitas vezes se empobrece. É justamente nesses momentos que se torna ainda mais necessário olhar os fatos com atenção, reflexão e espírito crítico. Nesta edição da Revista Será?, reunimos análises, ensaios e narrativas que ajudam a compreender melhor o mundo que estamos vivendo — suas tensões geopolíticas, dilemas democráticos, desafios educacionais e inquietações culturais. Esperamos que cada texto seja também um convite ao leitor para pensar o presente com mais calma e profundidade.

Abrimos a edição com o editorial “A diplomacia de Trump: destrói para depois negociar”, no qual analisamos a lógica de uma política externa baseada na força antes da negociação e os riscos que essa estratégia representa para o direito internacional e para a estabilidade global. Na sequência, Rui Martins, em “Aiatolá Khamenei, herói ou tirano?”, examina a figura do líder supremo do Irã e as ambiguidades de seu legado político, levantando uma pergunta que atravessa o debate internacional: por que, tantas vezes, a tirania é relativizada conforme os interesses geopolíticos em jogo?

Voltando o olhar para o cenário brasileiro, Abraham B. Sicsu, em “Na Política, Terceira Via?”, questiona o significado e a consistência dessa proposta no atual contexto político do país. Seu texto problematiza se essa alternativa representa de fato um caminho político estruturado ou se pode acabar funcionando como instrumento de barganha e fator adicional de instabilidade.

No campo da educação e do desenvolvimento nacional, Hubert Alquéres, em “O Brasil produz conhecimento, mas ainda não ensina a si mesmo”, chama atenção para um paradoxo pouco discutido: o país construiu importantes núcleos de excelência científica e tecnológica, mas essas conquistas raramente aparecem como referência na formação das novas gerações. O autor propõe aproximar educação, ciência e inovação como condição para um desenvolvimento mais consistente.

A cultura contemporânea entra em debate com Eurico Pincovsky, que em “Lacração – a onda do momento” examina o fenômeno da chamada “lacração” na indústria cultural, discutindo como certas escolhas narrativas e estéticas podem ser influenciadas por agendas políticas ou estratégias de impacto midiático, levantando uma reflexão sobre os limites entre arte, inclusão e instrumentalização cultural.

A dimensão literária da edição aparece no conto “A vingança do coronel”, de Sérgio C. Buarque, que revisita, com ironia e forte carga simbólica, o universo do coronelismo sertanejo. A narrativa revela como o poder, a autoridade e o temor que cercavam o velho coronel continuam a produzir efeitos mesmo após sua morte, expondo contradições morais e sociais de uma cultura política marcada pela reverência e pela hipocrisia.

Encerrando o conjunto de textos, Paulo Gustavo, em “‘Bunkers’, os ‘Santuários’ do Fim do Mundo”, oferece uma reflexão irônica e provocadora sobre um fenômeno curioso da contemporaneidade: a corrida de bilionários por refúgios subterrâneos diante do temor de catástrofes globais. O artigo sugere que esses “santuários” revelam não apenas o medo do futuro, mas também as profundas desigualdades que marcam o mundo atual.

E, como sempre, a edição se conclui com o olhar crítico e bem-humorado de Elson, cuja charge na Última Página sintetiza, em poucos traços e com fina ironia, algumas das inquietações do nosso tempo.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

  1. A diplomacia de Trump: destrói para depois negociar - Editorial
  2. Aiatolá Khamenei, herói ou tirano? - Rui Martins
  3. Na Política, Terceira Via? - Abraham B Sicsú
  4. O Brasil produz conhecimento, mas ainda não ensina a si mesmo - Hubert Alquéres
  5. Lacração – a onda do momento - Eurico Pincovsky 
  6. A vingança do coronel - Sérgio C. Buarque
  7. “Bunkers”, os “Santuários” do Fim do Mundo - Paulo Gustavo
  8. Última Página, a charge de Elson.

 

Revista Será?
Por um diálogo crítico, independente e transformador.

Uma organização sem fins lucrativos.

Leia, Compartilhe e Apoie!
Apoie nosso projeto, seja um doador

Nosso PIX  pix@eticademocracia.org

www.revistasera.info

© Revista Será? – Instituto Ética e Democracia (IED). Todos os direitos reservados.

terça-feira, 3 de março de 2026

Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional 

Paulo Roberto de Almeida 

 Revista Será? ANOXIV, 27/02/2026

Paulo Roberto de Almeida revisita o histórico discurso de Rui Barbosa, em 1916, para refletir sobre o princípio da não neutralidade diante da violação do direito internacional. Em diálogo com a guerra na Ucrânia, o artigo examina a tradição diplomática brasileira e questiona a atual postura do país frente a agressões unilaterais. Um texto instigante sobre coerência moral, legalidade internacional e os fundamentos da política externa brasileira.

Segue o link para o artigo.

https://bit.ly/4l0zNj7


Revista Será?

Por um diálogo crítico, independente e transformador.

 Leia, Compartilhe e Apoie! 

Apoie nosso projeto, seja um doador

Nosso PIX pix@eticademocracia.org


©️ Revista Será? – Instituto Ética e Democracia (IED). Todos os direitos reservados.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Revista Será? – Artigos publicados por Paulo Roberto de Almeida

Revista Será? – Artigos publicados por Paulo Roberto de Almeida
Compilação efetuada em 27/02/2026
(dos mais recentes aos mais antigos)
Postada no blog Diplomatizzando (28/02/2026, link: ). Também disponíveis no site da Revista Será? (link: https://revistasera.info/author/paulo-roberto-de-almeida/).

1626. “Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional”, Revista Será? (xiv, n. 699, 27/02/2026, link: https://revistasera.info/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso-memoravel-sobre-o-direito-internacional/); republicado no blog Diplomatizzando (27/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/rui-barbosa-110-anos-de-um-discurso.html). Relação de Originais n. 5227.

1625. “As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional?”, Brasília, 18 fevereiro 2026, 4 p. Contribuição à revista Será? (ano xiv, n. 698, 20/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma-ordem-global-funcional/); reproduzido no blog Diplomatizzando (20/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/as-potencias-medias-podem-sustentar-uma.html). Relação de Originais n. 5221.

1622. “A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas”, revista Será? (ano xiv, n. 696, 13/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas-coisas-ainda-nao-resolvidas/); reproduzido no blog Diplomatizzando (13/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/a-conformacao-do-mundo-futuro-algumas.html). Relação de Originais n. 5213.

1621. “O lado mais constante da nação brasileira: o Estado extrator”, revista Será? (ano xiv, n. 695, 06/02/2026; link: https://revistasera.info/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao-brasileira-o-estado-extrator/); reproduzido no blog Diplomatizzando (06/02/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-lado-mais-constante-da-nacao.html). Relação de Publicados n. 5208.

1619. “Estaríamos outra vez em face de um novo “fim da História”?, revista Será? (ano xiv, n. 694, 30/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo-fim-da-historia/); reproduzido no blog Diplomatizzando (30/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/estariamos-outra-vez-em-face-de-um-novo.html). Relação de Originais n. 5172.

1618. “Da Geopolítica da Desordem à Opção pelo Caos: um ano de destruição da ordem mundial”, revista Será? (ano xv, n. 693, 23/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-a-opcao-pelo-caos-um-ano-de-destruicao-da-ordem-mundial/); reproduzido no blog Diplomatizzando (23/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/da-geopolitica-da-desordem-opcao-pelo.html). Relação de Originais n. 5195.

1617. “O Brasil e a morte do multilateralismo, tal como o conhecíamos”, revista Será? (ano xiv, n. 692, 16/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-e-a-morte-do-multilateralismo-tal-como-o-conheciamos/); reproduzido no blog Diplomatizzando (16/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/a-morte-do-multilateralismo-como-o.html). Relação de Originais n. 5183.

1616. “O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?”, Revista Será? (ano xiv, n. 691, 09/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica-da-desordem-de-trump/); reproduzido no blog Diplomatizzando (9/01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-que-muda-para-o-brasil-na-geopolitica.html). Relação de Originais n. 5175.

1615. “O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além”, revista Será? (ano xiv, n. 690, 02/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e-mais-alem/); reproduzido no blog Diplomatizzando (2//01/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e.html ). Relação de Originais n. 5155.

1612. “O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo”, revista Será? (ano xiv, n. 689, 26/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-brasil-em-2025-expectativas-para-2026-no-pais-e-no-mundo/). Relação de Originais n. 5153.

1611. “O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado?”, revista Será? (ano xiv, n. 688, 19/12/2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-marcha-para-a-direita-retornamos-cem-anos-no-passado/); republicado no blog Diplomatizzando (6/2/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/02/o-mundo-marcha-para-direita-retornamos.html). Relação de Originais n. 5138.

1608. “A estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental”, revista Será? ano xiv, n. 687, Recife, 12 de dezembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do.html). Relação de Originais n. 5133.

1607. “O mundo em três tempos: 1925, 1945, 2025”, revista Será? (ano xiv, n. 686, Recife, 5 de dezembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-e-2025/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/o-mundo-em-tres-tempos-1925-1945-2025.html). Relação de Originais n. 5128.

1603. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são e como podem ser, 2”, revista Será? (ano xiv, n. 685, Recife, 28 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil_28.html). Relação de Originais n. 5110.

1602. “Política externa e diplomacia do Brasil: como são, como podem ser, 1/2”, revista Será? (ano xiv, n. 684, Recife, 21 de novembro de 2025; link: https://revistasera.info/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil-como-sao-como-podem-ser-1-2/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/politica-externa-e-diplomacia-do-brasil.html). Relação de Originais n. 5109.

1601. “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial”, revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/; divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html). Relação de Originais n. 5104.

1600. “Trump, ou a diplomacia pelo método confuso”, revista Será? (ano xiv, n. 682, 31/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/trump-ou-a-diplomacia-pelo-metodo-confuso/); divulgado no blog Diplomatizzando (31/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/trump-ou-diplomacia-pelo-metodo-confuso.html). Relação de Originais n 5098.

1599. “Opções da diplomacia brasileira num mundo em desordem”, revista Será? (ano xiv, n. 681, 24/10/2025, link: https://revistasera.info/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num-mundo-em-desordem/); divulgado no blog Diplomatizzando (24/10/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/10/opcoes-da-diplomacia-brasileira-num.html). Relação de Originais n. 5097.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5210, 6/02/2026
Postado no blog Diplomatizzando (link: ).

A abstenção do Brasil na ONU - Rui Martins (revista Será?)

 Rui Martins analisa uma questão crucial, mas não condena a política externa presidencialista, mais que personalista, do governo Lula – não a diplomacia, que teria condenado a invasão russa com muito mais consistência – que não tem nenhum substrato doutrinal e nenhuma consistência moral, e sabemos porque: o cuidado de Lula em não melindrar o tirano de Moscou, o criminoso de guerra, pelos compromissos assumidos, equivocadamente, no âmbito do Brics. Paulo Roberto de Almeida

A abstenção do Brasil na ONU

 Por  | fev 27, 2026 |  | 0  |     

Ucrânia livre!

Ucrânia livre!

O Brasil ignorou uma longa tradição de pacifismo e de incentivador de soluções pacíficas para países em conflito ao se abster, nesta semana em Nova Iorque, na Assembleia da ONU, na votação por uma paz imediata e durável entre Rússia e Ucrânia.

Faz quatro anos a invasão russa da Ucrânia. Apesar da resistência ucraniana, os invasores já tomaram cerca de 20% do território. Embora o ex-presidente norte-americano Biden ajudasse a Ucrânia, desde a eleição de Trump essa ajuda foi cortada e apenas os europeus dão apoio aos ucranianos. Essa guerra está sacrificando um número importante de jovens desses dois países.

Calcula-se em 500 mil o número de mortos, incluindo-se soldados e a população civil. A perda maior, 350 mil, é entre os invasores. Entretanto, essa guerra não tem grande impacto na opinião pública e nem provoca manifestações.

O quadro é desolador, praticamente todos os dias, além dos combates nos fronts, drones russos bombardeiam a população civil. Essa invasão criou um clima de insegurança entre os países que decidiram se rearmar e alguns vão recriar o serviço militar obrigatório, temendo outras invasões russas. Quatro anos de reportagens na tevê, casas destruídas, mulheres idosas chorando vão se tornando cenas comuns e banais e fazem pensar na banalidade do mal, como escreveu Hannah Arendt.

Essa abstenção do Brasil, na ONU, numa votação em favor de uma paz imediata e duradoura entre Rússia e Ucrânia, é assim tão importante? Talvez não, porque hoje uma votação desse tipo na ONU funciona mais como uma mera sondagem de opinião entre países, sem condições para obter resultados práticos. Desgastada, sem recursos financeiros, depois de deserdada por Trump, fechando serviços, demitindo funcionários e agora sofrendo concorrência do Conselho da Paz de Trump, a ONU não tem condições de impor paz em lugar nenhum, só sugerir!

Mas, mesmo assim, votar pela paz, votar pelo fim de uma guerra, tem um valor moral.
No caso da guerra Rússia-Ucrânia não haveria nenhum problema em termos de direito internacional, porque o próprio assessor do presidente Lula para questões internacionais, Celso Amorim, já havia declarado, numa entrevista para o canal Brasil 247, ter havido invasão da Ucrânia pela Rússia – “você não seria coerente em condenar a invasão do Iraque pelos EUA e não condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia, disse Amorim. A Ucrânia é um país independente, você invadir um território independente, usar a força sem autorização da ONU é algo com o que não podemos concordar. A outra parte é a de se tentar uma solução pacífica, e essa solução só vem pela negociação”. Isso foi há três anos.

A sequência é lógica: para se garantir um bom clima de negociação é necessária uma cessação de hostilidades entre as partes. E nesse caso, a iniciativa da ONU de propor uma paz imediata ocorre no momento certo, pois existem negociações em curso. Essas negociações, envolvendo também interesses de Trump, disposto a negociar com a Rússia partes do território ucraniano sem autorização de Zelensky, podem demorar. Um clima de paz durante as negociações, mesmo hipotético, seria benéfico para a população e evitaria o sacrifício contínuo de jovens ucranianos e russos.

Mas o Brasil, agora presidente do Brics, se tornou praticamente um dos líderes da ideologia do pós-colonialismo e do Sul Global. A socialista Renée  Fregosi, filósofa e politóloga francesa, professora na Sorbonne, conhecedora do Brasil, já falava desse desejo do presidente Lula se tornar o principal líder do Sul Global. Outro professor, Gilles Kepel, especialista no mundo árabe, ex-Sciences Po, Paris, critica a própria estrutura do Sul Global e sua luta contra o Ocidente por se constituir, na sua maioria, de ditaduras.

Nesse contexto, Celso Amorim só poderia orientar o governo brasileiro para se abster da votação na ONU por uma paz durável na Ucrânia, para não desagradar os países do Brics e do Sul Global.

Algumas referências

Celso Amorim

Votation na ONU
https://press.un.org/fr/2026/ag12752.doc.htm

Roberto Freire
https://x.com/freire_roberto/status/2026691326436057364

Renée Fregosi
https://www.tribunejuive.info/2024/02/24/renee-fregosi-le-propalestinisme-de-lula-carburant-dans-sa-course-au-leadership-du-sud-global/

Gilles Kepel
https://www.lcrs-politica.com/research/gilles-kepel-le-sud-global-est-une-grande-imposture-ideologique-et-une-aberration-geopolitique

 

Revista Será? Desde 2012 acompanhando o fluxo da história. ANO XIV Nº699

 Revista Será?

Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº699

Recife, 27 de fevereiro de 2026.

Caro leitor:

Há edições que informam. Outras que inquietam. Esta faz as duas coisas — e algo mais: convida o leitor a pensar o Brasil e o mundo sem anestesia. Em tempos de normalização do absurdo, reunimos textos que recusam a acomodação intelectual e enfrentam, com rigor e coragem, os dilemas do presente.

Abrimos com “A banalização da tragédia – Editorial”, que interroga nossa capacidade de indignação diante da repetição anual de desastres anunciados. O texto expõe a omissão estrutural que transforma mortes evitáveis em rotina administrativa e sofrimento passageiro de noticiário.

Em “Democracia como desejo, preocupação e pesquisa”, Rachel Meneguello presta homenagem a José Álvaro Moisés ao mesmo tempo em que revisita décadas de investigação sobre confiança institucional, cultura política e qualidade democrática. O alerta é claro: quando a democracia passa a significar “liberdade sem controle”, algo essencial está em risco.

No plano internacional, Rui Martins, em “A abstenção do Brasil na ONU”, examina as implicações morais e diplomáticas da neutralidade brasileira diante da guerra entre Rússia e Ucrânia. Em diálogo histórico, Paulo Roberto de Almeida, em “Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional”, resgata a tradição jurídica e ética da diplomacia brasileira, lembrando que, entre o direito e a força, não há neutralidade possível.

A reflexão econômica surge em “Direito à preguiça”, de Sérgio C. Buarque, que revisita Lafargue e De Masi para discutir produtividade, consumo e tempo livre, questionando o paradoxo brasileiro de crescimento do consumo sem correspondente avanço produtivo.

No campo teológico e cultural, Johnny Jara Jaramillo, em “O Machismo e sua Raiz na Igreja Católica”, examina as bases metafísicas que sustentaram a exclusão feminina na tradição cristã, propondo uma revisão crítica das estruturas simbólicas do poder religioso.

Encerrando a sequência ensaística, Paulo Gustavo, em “Da Modéstia e suas Aparições”, oferece uma meditação literária sobre modéstia e narcisismo, transitando entre Thackeray, Proust e Pascal para refletir sobre identidade, vaidade e aparência num mundo saturado de autopromoção.

E, na Última Página, a charge de Elson nos recorda, com ironia aguda, que a política frequentemente revela mais sobre quem move os fios do que sobre quem aparenta estar no palco.

Esta edição percorre tragédia, democracia, guerra, trabalho, fé e caráter. Não são temas dispersos; são faces de um mesmo tempo histórico que exige discernimento.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

A banalização da tragédia - Editorial
Democracia como desejo, preocupação e pesquisa - Rachel Meneguello
A abstenção do Brasil na ONU - Rui Martins
Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional - Paulo Roberto de Almeida
Direito à preguiça - Sérgio C. Buarque
O Machismo e sua Raiz na Igreja Católica - Johnny Jara Jaramillo
Da Modéstia e suas Aparições - Paulo Gustavo
Última Página, a charge de Elson


Revista Será?
Por um diálogo crítico, independente e transformador.

Uma organização sem fins lucrativos.

Leia, Compartilhe e Apoie!
Apoie nosso projeto, seja um doador

Nosso PIX pix@eticademocracia.org

www.revistasera.info

© Revista Será? – Instituto Ética e Democracia (IED). Todos os direitos reservados.

Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Rui Barbosa: 110 anos de um discurso memorável sobre o direito internacional

Por Paulo Roberto de Almeida
Revista Será?, fev 27, 2026

Nota sobre a atualidade do discurso de Rui Barbosa em Buenos Aires, em 1916.

“Entre os que destroem a lei e os que a observam não há neutralidade admissível.” - Rui Barbosa

        Em 1916, quando a Argentina comemorou o primeiro centenário de sua independência, o governo brasileiro designou o senador Rui Barbosa como seu representante nos festejos. Além de participar das cerimônias oficiais, Rui Barbosa foi convidado a palestrar na Faculdade de Direito de Buenos Aires, ali pronunciando uma das mais importantes alocuções da história do direito internacional do Brasil. Dada a contribuição de suas reflexões para a construção da doutrina jurídica que sustenta a essência da política externa brasileira, bem como para a afirmação de valores e princípios da diplomacia defendida pelo Itamaraty, vale relembrar alguns conceitos fundamentais dessa conferência, no momento em que a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia entra no seu quinto ano de destruições maciças e de um morticínio contra a população civil ucraniana, numa violação flagrante da Carta da ONU e de normas elementares do Direito Internacional.
        Em 1983 a Casa de Rui Barbosa publicou o texto definitivo, traduzido do espanhol, dessa palestra, “Os Conceitos Modernos do Direito Internacional”, durante muito tempo denominada como “O Dever dos Neutros”. Rui já era conhecido na Argentina, onde vivera entre 1893 e 1894, fugindo da perseguição que lhe movia o governo de Floriano Peixoto por sua posição em defesa dos revoltosos da Armada. Ele começou a parte substantiva de sua conferência de 1916 relembrando justamente esse episódio, defendendo a liberdade nas palavras de um de seus mais admirados promotores argentinos, Juan Batista Alberdi: “A civilização política é a liberdade. Mas a liberdade não é senão a segurança: a segurança da vida, da pessoa, dos bens.”
        Depois de repassar os episódios mais relevantes do itinerário independentista argentino – iniciado em 1806, avançando em 1810 e consagrado definitivamente no Congresso de Tucuman, em 9 de julho de 1816, quando se proclamou a autonomia do país em face da Espanha –, Rui Barbosa chegou ao cerne de sua exposição: a condenação formal do uso da força, representada pela violação da neutralidade da Bélgica por tropas do Império alemão, em total desrespeito aos princípios discutidos poucos anos antes na Segunda Conferência da Paz da Haia (1907), na qual Rui fora o chefe da delegação brasileira. Suas palavras, em defesa desse princípio, foram muito claras:

“Entre os que destroem a lei e os que a observam não há neutralidade admissível. Neutralidade não quer dizer impassibilidade; quer dizer imparcialidade; e não há imparcialidade entre o direito e a injustiça. (...) O direito não se impõe... com o peso dos exércitos. Também se impõe, e melhor, com a pressão dos povos. (...) Não há duas morais, a doutrinária e a prática. A moral é uma só: a da consciência humana, que não vacila em discernir entre o direito e a força.”

        Essa conferência de Rui Barbosa foi relembrada pelo chanceler Oswaldo Aranha, em 1942, no exato momento em que o Brasil se viu confrontado à extensão da guerra europeia ao continente americano, instando, então, o país a assumir suas responsabilidades no plano dos princípios do direito internacional e em consonância com os deveres da solidariedade hemisférica. A Alemanha tinha, mais uma vez, violado a neutralidade da Bélgica, para invadir a França. A postura de Oswaldo Aranha – que havia recepcionado Rui, como jovem estudante no Rio de Janeiro, quando o jurista desembarcou em sua volta ao Brasil –, foi decisiva para que, ao contrário da vizinha Argentina, então controlada pelo Grupo de Oficiais Unidos, de orientação simpática ao Eixo, o Brasil adotasse uma política externa compatível com a construção doutrinária iniciada por Rui e de acordo a seus interesses nacionais, nos contextos hemisférico e global, em face do desrespeito brutal ao direito internacional cometido pelas potências nazifascistas na Europa e fora dela.
        A palestra de Rui Barbosa em 1916 e seus argumentos foram fundamentais para que o então chanceler Oswaldo Aranha apoiasse a tomada de posição da diplomacia brasileira em favor da cessação da postura oficial de neutralidade em relação ao “conflito” então em curso, rompendo relações diplomáticas comas potências do Eixo (ou “Pacto de Aço”), a Alemanha nazista, a Itália fascista e o Japão militarista, e depois declarando guerra aos agressores (mas, também, só depois que submarinos nazistas afundaram navios brasileiros em nossas costas, com perdas humanas e materiais, além dos próprios crimes de guerra).
        Vinte anos depois da recuperação por Oswaldo Aranha da palestra de Rui em Buenos Aires, em 1916, para servir como orientação à postura do Brasil ao início de uma nova quebra da neutralidade no contexto da guerra na Europa, o chanceler San Tiago Dantas, um dos grandes tribunos do pensamento jurídico da diplomacia brasileira, defendeu em 1962 o respeito ao princípio da não intervenção nos assuntos internos de outros Estados, que estava então em causa nas conferências e reuniões panamericanas em torno do caso de Cuba. Outros juristas e diplomatas brasileiros, ao longo do século, a exemplo de Raul Fernandes, Afrânio de Melo Franco, Afonso Arinos, Araújo Castro e Celso Lafer, participaram dessa construção doutrinal e pragmática dos valores e princípios da diplomacia brasileira. A semente da postura do Brasil na questão da neutralidade em casos de guerra, e na formulação de uma resposta diplomática aos casos de violação do direito internacional, pode ser encontrada nessa palestra de Rui Barbosa em Buenos Aires, 110 anos atrás, o que o converteu em um dos principais responsáveis pela construção das grandes diretrizes políticas e jurídicas que hoje integram plenamente o patrimônio da diplomacia brasileira.
        A palestra de Rui Barbosa, assim como diversos dos seus outros discursos por ocasião da segunda Conferência da Paz da Haia, em 1907, sempre constituíram um marco conceitual relevante na formulação jurídica e na implementação prática da doutrina diplomática brasileira, integrando nosso patrimônio político e moral na tomada de posição em relevantes questões da agenda internacional, sobretudo em problemas atinentes à paz e a segurança internacionais, tal como modernamente regulamentadas pelos principais dispositivos da Carta das Nações Unidas (contra a guerra e a opressão, justamente), assim como em diversos outros instrumentos do Direito Internacional.
        Ou pelo menos constituíam, pois que desde a invasão violenta e a anexação ilegal, pela mesma Rússia, em 2014, da península ucraniana da Crimeia, tais princípios de Direito Internacional e do sistema político multilateral deixaram de fazer parte de nossa doutrina diplomática: o governo Dilma Rousseff não tomou oficialmente posição, mas declarou informalmente sua “neutralidade” em relação àquela violência perpetrada contra um Estado soberano, membro das Nações Unidas. Naquela ocasião, diversos estados membros da Organização das Nações Unidas, tomaram oficialmente posição na defesa dos princípios da Carta da ONU, acusando a violação do Direito Internacional e adotando sanções contra o agressor, sanções inteiramente conformes ao espírito e à letra dos artigos 41 e 42 da Carta. Essas sanções foram declaradas “unilaterais” pela diplomacia brasileira, mas isso apenas em virtude do uso abusivo do “direito de veto” pela Rússia, então como agora, em circunstâncias similares e até semelhantes, mas de natureza muito mais grave, pois que se estava falando da invasão unilateral, não provocada, do território soberano de um Estado parte por outro membro, inclusive em situação ainda mais ilegal, pois que formalmente responsável pela garantia da lei e da ordem, da paz e da segurança internacionais, em conformidade com os princípios que regem a atuação dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas, como é o caso da Rússia.
        Tal “neutralidade” distorcida, em relação ao que recomendam artigos da Carta das Nações Unidas em casos de guerras de agressão unilaterais, como a que ocorreu na Ucrânia duas vezes, 12 e 4 anos atrás, fez parte da política externa do governo Bolsonaro, em 2022, e como tal foi mantida, até com agravantes políticos e diplomáticos, pelo governo de Lula 3, a partir de 2023 até os dias que correm.                         Voltando ao tema da “neutralidade” brasileira, e retomando princípios e valores que já pareciam consagrados em nossa doutrina jurídico-diplomática desde Rui Barbosa, antes ignorados pelo governo de Bolsonaro, hoje aparentemente esquecidos pelo governo de Lula 3, cabe remeter a argumentos de natureza simplesmente moral, ou de cunho apenas humanos, expostos por um sobrevivente do Holocausto nazista, o judeu polonês Elie Wiesel, tal como transcritos abaixo:

“We must take sides. Neutrality helps the oppressor, never the victim. Silence encourages the tormentor, never the tormented. Sometimes we must interfere. When human lives are endangered, when human dignity is in jeopardy, national borders and sensitivities become irrelevant. Wherever men and women are persecuted because of their race, religion, or political views, that place must — at that moment — become the center of the universe.” (Elie Wiesel)

Tradução livre: “Precisamos tomar partido. A neutralidade ajuda o opressor, jamais a vítima. O silêncio encoraja o torturador, nunca o torturado. Em algumas ocasiões, precisamos interferir. Quando vidas humanas estão em perigo, quando a dignidade humana está sob ameaça, quando as fronteiras nacionais e as sensibilidades se tornam irrelevantes. Onde quer que homens e mulheres são perseguidos por causa de sua raça, religião ou posturas políticas, aquele lugar precisa — naquele momento — tornar-se o centro do universo.”

        Este é o caso, neste momento e nos últimos 4 anos, em relação à guerra de agressão, ilegal, desumana, contra o país e o povo da Ucrânia, violadora do Direito e da consciência universais: a Ucrânia é o centro do universo e o desafio fundamental de nossa época. Os princípios e valores da nossa tradição diplomática, as cláusulas de relações internacionais de nossa própria Constituição assim o pedem. Assim deveríamos fazer: tomar partido, como recomendava Rui Barbosa, como aquiesceu Oswaldo Aranha, como apelou Elie Wiesel.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5227, 24 fevereiro 2026; revisão 26/02/2026, 4 p.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional? - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

As potências médias podem sustentar uma ordem global funcional?

Guerra na Ucrânia

Guerra na Ucrânia

[Colaboração para a revista Será?]

O presidente da Finlândia Alexander Stubb formulou – tanto em seu artigo na Foreign Affairs de janeiro-fevereiro de 2026, “The West’s Last Chance: How to Build a New Global Order Before It’s Too Late”, quanto em seu livro The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order (2026) – algumas importantes propostas relativas à reorganização das relações internacionais, entre elas a incorporação de novos atores no órgão supremo das Nações Unidas, o CSNU, a supressão do direito de veto no mesmo órgão, assim como – e esta é a mais importante delas – a suspensão da participação na organização de países, quaisquer que sejam eles, que tenham violado princípios e disposições fundamentais da Carta da ONU, entre elas as que se referem ao seu CS.

Apresentei as propostas do presidente finlandês em artigo anterior na revista Será?“A conformação do mundo futuro: algumas coisas ainda não resolvidas” (n. 696, 13/02/2026), do qual este representa uma continuidade. Mas também disse que Stubb havia cometido um equívoco fundamental, ao pretender ver num idealizado “Sul Global” a “chave mágica” para uma nova conformação da ordem global, o que não me parece ser a resposta adequada ao problema colocado – a violação da Carta da ONU –, uma vez que um dos supostos componentes de sua tripartição “político-geográfica” do mundo, em Ocidente, Oriente e Sul Global, não possui o poder de ser essa chave fundamental, nem os três blocos são conceitualmente equivalentes.

A razão é simples: Stubb vê no BRICS o representante de um “multilateralismo do Sul Global”, que na verdade não existe, pois que esse grupo está a serviço de uma improvável, mas real, coalizão de grandes potências vinculadas ao mesmo problema que Stubb pretende resolver: a ruptura com a ordem global existente, para usar as palavras do primeiro-ministro do Canadá Mark Carney. A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia constitui o problema fundamental de nossa época, e quanto a isso o alegado “Sul Global multilateral” não tem absolutamente nada a dizer, como não teve nada a dizer em todas as suas declarações, ministeriais ou de cúpula, dos últimos meses.

O improvável “Sul Global” do BRICS não é parte da solução, pois que ele é parte do problema, como parece evidente aos que leem suas declarações e observam as posturas dos membros a respeito desse conflito, ao tão simplesmente refletirem as posições da parte agressora e violadora da Carta da ONU, desde o seu início. Não está provado, em qualquer configuração do atual “sistema” internacional, que essa entidade supostamente existente, o “Sul Global”, tenha existência efetiva, ou que o BRICS seria seu suposto representante, no método diplomático identificado ao multilateralismo. Ele não é nem uma coisa nem outra, pela simples razão de que as violações ao “sistema” da ONU, ao Direito Internacional não derivam do Sul Global, sim de duas superpotências.

A verdade é que a Ucrânia está lutando, quase que solitariamente, contra uma coalizão de três grandes potências – a Rússia, a China e os Estados Unidos –, contando apenas e tão somente com uma “meia-grande-potência”, que é a União Europeia, e um reduzido número de outras médias e pequenas “potências”, aparentemente dispostas a manter princípios e valores embutidos na mesma Carta da ONU que está sendo violada, conjuntamente, na sua letra e no seu espírito pelas três superpotências. Esta é a realidade embutida nos dizeres do primeiro-ministro canadense, que me parece ser mais realista do que o presidente da Finlândia no que concerne o conflito definidor de nossa época, a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, sendo que a potência agressora é, direta ou indiretamente, secundada pelas duas outras superpotências.

A outra verdade é que não existe uma conformação mundial consistindo apenas de um “Ocidente”, de um “Oriente” e de um pretenso “Sul Global”. O que existe são nações respeitadoras do Direito Internacional e da Carta da ONU, por um lado, e de nações, por outro lado, que não as respeitam, ou que são indiferentes às regras e normas penosamente construídas ao longo dos últimos cem anos, ou seja, desde a fracassada Liga das Nações, passando pela própria ONU e, secundariamente, pela organização de segurança e cooperação na Europa, evocada pelo presidente da Finlândia como a pretensa chave – Helsinque, não Yalta, junto com um inexistente “multilateralismo do Sul Global” – para a solução desse problema crucial de nossa época. O peso da Europa, vale dizer, ou de suas instituições, não é o mesmo que ela exibiu nos quatro ou cinco séculos precedentes, uma constatação que vem, aliás, de Paris, 1919.

A esse respeito, o primeiro-ministro canadense é mais realista, ao ver nas potências médias uma das possíveis chaves para a manutenção de um fiapo mínimo de esperança na eventual conformação de uma nova ordem global. Mas, essas potências médias não possuem uma geografia determinada, como aquela que pretensamente existiu desde a última grande guerra, um “Ocidente” e um “Oriente”, que são rótulos puramente geográficos que não denotam a realidade política implícita que se esconde atrás de palavras como Macht, Power, Puissance, para repetir conceitos explicitamente aronianos, para ficarmos com um filósofo da História bem mais realista e sóbrio. O que esteve em causa em 1939-1945 não foi um Ocidente e um Oriente, e sim o confronto entre Estados agressores e agredidos. Tampouco isso existiu durante a primeira Guerra Fria, a despeito dos rótulos geográficos: o confronto era da mesma natureza. Como reinterpretar, portanto, os fatos de nossa época segundo as lentes de Raymond Aron?

Cabe reconhecer, contudo, que tanto as propostas do presidente finlandês quanto o diagnóstico do primeiro-ministro canadense constituem reações ou respostas a problemas colocados frontalmente aos “aliados” europeus e norte-americanos pelo unilateralismo original de dois transgressores do Direito Internacional, em 2025 de forma mais imediata pelos presidente americano, e alguns anos antes pelo presidente da Rússia, país objeto de sanções ditas “unilaterais” – pela diplomacia brasileira, mas inteiramente em conformidade com o espírito e a letra da Carta da ONU, ainda que sem a aprovação de seu CS, pelo uso abusivo e moralmente indevido do direito de veto do Estado agressor –, embora ajudado, este segundo país, pela terceira grande potência, contando ainda com a indiferença, quando não com a complacência, de diversos outros membros da ONU, entre eles diversos do assim chamado Sul Global.

O problema de fundo, tanto em 2014-2022, por iniciativa da Rússia, quanto a partir das ações unilaterais dos EUA, em 2025, parte de diagnósticos equivocados e de prescrições erradas, na verdade ilegais e contrárias ao direito internacional. A Ucrânia, ou antes a Georgia e a Moldávia, jamais ameaçaram a segurança da Rússia, ou a Otan o fez; bem mais o contrário. Por outro lado, desindustrialização extensiva, imigrações maciças, ou tráfico de drogas e outros crimes transnacionais não ameaçam a segurança do “Ocidente”, sequer da cristandade. Reindustrialização via tarifaços não vai trazer de volta velhas indústrias, da segunda revolução industrial (junto com carvão e petróleo); a expulsão mandatória de imigrantes ilegais – tidos como criminosos ou estupradores em série – não vai resolver os problemas demográficos de certos países; a repressão, pela via militar, da oferta de drogas não vai estancar a demanda contínua pelos opiáceos.

Diagnósticos errados levam a prescrições, e ações, equivocadas, sobretudo se vindas de paranoicos ignorantes, atuando com base em obsessões pessoais, não contidas por assessores servindo de forma submissa personalidades megalomaníacas, que não se guiam pelas suas próprias constituições nacionais ou pelo Direito Internacional. Esta é a base das atuais transgressões à ordem internacional, que não está errada, nem necessita de uma nova ordem, alternativa ou substitutiva. Ela apenas carece de ajustes, que estão justamente vinculados à sua incapacidade de conter os poderosos, que se colocam à margem das regras e dos princípios que eles próprios impuseram aos demais.

E quem são esses demais, e quais os seus problemas? Ao que parece, nenhum dos outros atores internacionais buscou desmantelar o sistema multilateral de comércio, nem algum deles violou a proibição de guerras de agressão unilaterais e não provocadas. A Carta da ONU e as regras do Gatt-OMC continuaram servindo aos interesses e às necessidades da enorme maioria dos membros da comunidade internacional, apenas que eles não encontram meios de se precaverem contra seus atuais transgressores, ou de defenderem essas regras multilaterais pela vontade unida de seus dirigentes nacionais.

E quais seriam os dirigentes dessas potências médias potencialmente voltados à preservação da ordem internacional tal qual existente, mas necessitando de ajustes nas partes que justamente violam seus princípios e valores? A partir das considerações já feitas por dois estadistas lúcidos sobre os problemas da atualidade, não da ordem internacional, mas de sua transgressão por duas superpotências, secundadas por uma terceira, e que trazem enormes problemas para a condução normal dos negócios econômicos, assim como para a cooperação internacional em prol do desenvolvimento de países mais pobres ou temporariamente em dificuldades, pode-se sugerir a seguinte lista de potências médias propensas a aderirem às propostas do primeiro ministro do Canadá e às do presidente finlandês: Canadá, Noruega, Reino Unido, Japão e União Europeia, pelo assim chamado “Ocidente”, que é mais uma ideia, democrática e humanista, do que propriamente uma entidade uniforme; Brasil, Chile e México, democracias relativamente sólidas, pela América Latina; África do Sul, Nigéria e Argélia, pelo continente africano, ainda que isso não cubra toda a sua diversidade antropológica; Índia, Indonésia, Coreia do Sul, Austrália, no Índico, Pacífico e Oceania.

Nem todos esses países exibem a mesma postura em relação aos problemas enfrentados pela Ucrânia, pelo povo palestino, por determinadas nações da África ou do Oriente Médio, em meio a guerras larvares ou persistentes. Mas, acredita-se que todos eles sejam potencialmente a favor do Direito Internacional, de um sistema de comércio multilateral previsível e estável, de um respeito mínimo pelas cláusulas fundamentais da Carta da ONU, em vista das grandes destruições já conhecidas ao longo do século XX, ou de outras ainda mais catastróficas e indescritíveis que podem advir neste século, em virtude da arrogância, da prepotência ou da vontade de poder de poucos autocratas.

Paulo Roberto de Almeida

[Brasília, 5221, 18 fevereiro 2026, 4 p.]

Postagem em destaque

O VERDADEIRO FAVORITISMO ESTÁ FORA DA POLARIZAÇÃO

 O VERDADEIRO FAVORITISMO ESTÁ FORA DA POLARIZAÇÃO _ a parte do jogo que não está nos pólos Tem uma coisa que muita gente ainda não se ligou...