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sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O protetorado bolivariano de Trump – Editorial Revista Será?

 O protetorado bolivariano de Trump – Editorial

Venezuela

Venezuela

Os pronunciamentos de Trump e da nova presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, após o sequestro de Nicolás Maduro, contêm indícios de uma humilhante capitulação do bolivarianismo venezuelano à pirataria política do presidente dos Estados Unidos. Em troca do domínio sobre o petróleo venezuelano, Trump não interferiria na estrutura de poder montada pelo chavismo, agora dirigida pela presidente encarregada. Ao menos por enquanto, o prepotente presidente estadunidense estaria satisfeito com a implantação de uma espécie de protetorado bolivariano.

Ou seja, os herdeiros de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro permaneceriam no poder sob a tutela de Washington, de modo que, como anunciado pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, as decisões da presidente Delcy estariam — e continuariam estando — sob orientação direta dos Estados Unidos. Trump tem repetido que os EUA governarão o país e tomarão conta das reservas de petróleo venezuelanas, e já estaria convidando empresas petrolíferas norte-americanas para explorar o petróleo da Venezuela.

Ao mesmo tempo, o secretário de Energia afirmou, esta semana, que os Estados Unidos controlarão indefinidamente a venda de petróleo e que pretendem adquirir entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo cru venezuelano. “Este petróleo — disse Trump — será vendido a preço de mercado, e o dinheiro será controlado por mim, como presidente dos EUA, para garantir que seja usado em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos.” Além disso, os recursos provenientes da venda só poderiam ser utilizados para a compra de produtos norte-americanos.

Como os Estados Unidos pretendem tomar conta da Venezuela e de seu petróleo sem o envio de tropas ao território para ocupar os principais centros de poder do país? Apenas no grito, por meio do cerco econômico? Ou através de um grande acordo com os novos ditadores bolivarianos? O que Trump anuncia seria mais um blefe do megalomaníaco presidente ou, de fato, a Venezuela caminha para se tornar um protetorado dos Estados Unidos?

Esse acordo parece ganhar verossimilhança quando os herdeiros de Maduro no poder, apesar das bravatas nacionalistas — “não há agente externo que governe a Venezuela”, afirmou a presidente — não refutaram as declarações do governo estadunidense e chegaram a confirmar a venda de milhões de barris de petróleo aos Estados Unidos. A presidente Delcy Rodríguez manifestou ainda a intenção de “trabalhar conjuntamente com os Estados Unidos”, o mesmo país que atacou a Venezuela, sequestrou seu presidente e deixou mais de cem mortos.

Uma invasão direta da Venezuela para implantar um poder externo reacenderia o anti-imperialismo na América Latina e conduziria os Estados Unidos a um atoleiro político e militar semelhante a outras experiências desastrosas de ocupação, além de provocar elevado desgaste político-eleitoral para Trump nas eleições de meio termo.

Por outro lado, um eventual acordo da ditadura venezuelana com Trump, nos termos por ele anunciados, tende a provocar uma fissura profunda entre os dirigentes bolivarianos, além de intensificar a repressão interna para conter protestos e resistências. É difícil imaginar que o bolivarianismo difundido pela propaganda chavista ao longo de anos aceite, sem maiores rupturas, uma dominação tão humilhante por parte do arqui-inimigo agora comandado por Trump.

Também não parece plausível que milhares de militares comprometidos com a ditadura de Maduro, ocupando postos-chave na economia, renunciem a tudo para se submeter à força dos Estados Unidos. O futuro da Venezuela torna-se cada vez mais incerto, e uma explosão de violência não é improvável. O retorno à democracia não se encontra no horizonte e tampouco integra os planos de Trump para o protetorado que pretende implantar no país latino-americano.


O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Consequências geopolíticas do ataque trumpista à Venezuela.

        Começo por revisar o título deste artigo, dedicado às consequências para o Brasil da abdução trumpista do líder chavista da Venezuela, nos primeiros dias de 2026. O conceito de “geopolítica da desordem” tem sido geralmente aplicado ao desmantelamento da ordem construída a partir de Bretton Woods (1944), com seguimento em San Francisco (Carta da ONU, 1945) e em Genebra (acordo do Gatt, 1947), tendo como principal responsável o presidente Trump, desde o primeiro, mas sobretudo no seu atual mandato. Na verdade, essa ordem tem um destruidor bem mais efetivo do que o dirigente americano: Putin. O líder russo vem conduzindo, com especial ímpeto, a destruição dessa ordem política global vigente até há pouco. As sucessivas etapas desse processo desagregador podem ser indicadas.
        Sua obra revisionista começou por um discurso na Dieta russa em 2005, no qual Putin lamentou a dissolução da URSS como tendo sido “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. Ela continua por um outro, na Conferência sobre Segurança de Munique, em 2007, quando Putin contesta a ordem global ocidental, que teria pretensões à hegemonia universal, em detrimento, é claro, da Rússia. O projeto alternativo a essa ordem prossegue na prática, pela aliança com a China, na Organização de Cooperação de Xangai. Fundada imediatamente após os ataques terroristas de setembro de 2001 nos Estados Unidos, seu estatuto foi assinado em São Petersburgo, em 2002, tornando-se operacional a partir de 2003, com o objetivo de promover a segurança regional e a cooperação econômica entre seus membros: China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão na origem; vários outros países aderiram desde então, incluindo Índia e Paquistão (2017), Irã (2023) e Bielorrússia (2024).
        Independentemente desses vínculos, Putin começou a criar a sua própria geopolítica da desordem desde 2008, invadindo a Georgia (que tentava aderir à Otan), a Transnístria, em 2010, território da Moldova setentrional, e mais adiante, no seu golpe mais audacioso, aproveitando uma nova revolução na Ucrânia em 2013-14 para se apossar ilegalmente da península da Crimeia, ao mesmo tempo em que usou a população russa do Donbas (Ucrânia oriental) para promover um movimento separatista que levaria, mais adiante à proclamação de duas “novas repúblicas independentes” na região, Donetsk e Luhansk, que, obviamente, só a Rússia de Putin reconheceu. Foram etapas preparatórias à invasão da Ucrânia, o que sempre figurou em sua agenda revisionista, não obstante acordos de garantias firmados pela Rússia.
        Esses avanços agressivos da nova geopolítica de Putin não receberam a devida atenção por parte da comunidade internacional, a não ser, após a tomada da Crimeia, a imposição de sanções moderadas por poucos países ocidentais e sua expulsão do G7-G8, uma admissão feita em 1998, no otimismo da reintegração da Rússia ao mundo ocidental. O Brasil de Dilma Rousseff sequer se dignou a honrar a tradição diplomática brasileira de estrito respeito ao direito internacional, pois a presidente considerou a invasão russa uma “questão interna da Ucrânia”. A geopolítica da desordem já estava, portanto, criada desde meados dos anos 2010, antes até que Putin empenhasse ativamente seu apoio secreto na primeira eleição de Trump, em 2016, presumivelmente convertido em asset russo antes mesmo do fim da URSS.
        No seu primeiro mandato, Trump foi relativamente “moderado”, operando a conversão do Nafta – o tratado de livre comércio entre os EUA, Canadá e México – num acordo tripartite, com muitas restrições protecionistas, assim como a elevação unilateral de tarifas sobre aço e alumínio contra todos os fornecedores externos, inclusive o Brasil. Já tinha demonstrado, então, seu desprezo pelo sistema multilateral de comércio, assim como sua total ignorância do lado operativo do mecanismo aduaneiro, afirmando que milhões de dólares seriam pagos pelos estrangeiros ao Tesouro, quando o são pelos importadores e consumidores americanos. No segundo mandato, a despeito de um documento relativamente robusto, feito pela Heritage Foundation (Project 2025), continuou demonstrando que não possuía nenhuma noção clara de estratégia geopolítica, ainda que o documento fosse um roteiro expressamente preparado para iniciar uma nova ordem global a partir de janeiro de 2025. Todos os novos assessores, à diferença de 2017-2020, acatam sem contestação suas piores loucuras.
        Em 2025 se chegou, finalmente, não apenas a uma geopolítica da desordem, mas a uma verdadeira opção pelo caos, pois é isso o que vem resultando de todas as iniciativas de Trump, nos terrenos econômico, político e militar, nos planos bilateral, multilateral e dos blocos ou alianças nos quais os Estados Unidos participam de maneira mais ampla desde o final da Segunda Guerra Mundial. Observa-se uma curiosa convergência, provavelmente uma submissão pouco secreta, em relação ao primeiro destruidor da ordem mundial, Putin, o personagem mais influente na própria ascensão política de Trump. Isso explica, em grande medida, sua postura em relação à Ucrânia, feita de uma evidente opção pela sua derrota no terreno militar e por um favorecimento inequívoco das demandas russas.
        A opção de Trump por uma ruptura com a trajetória diplomática americana, sempre imperial, mas rigorosamente alinhada às tradições e valores ocidentais, é revelada por inteiro, por vezes de forma cabal, na nova Estratégia Americana de Segurança (2025), em clara oposição às orientações seguidas desde o imediato pós-guerra, em especial no contexto hemisférico e certamente no confronto com os aliados europeus, que são objeto não apenas de seu desdém, mas de uma virtual animosidade. Já efetuei, neste mesmo espaço, uma breve análise da estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental (Será?, 12/12/ 2025; https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/). Cabe agora examinar as implicações mais vastas dessa geopolítica do caos.
        Desde os desafios colocados nos anos 1930, quando as potências fascistas europeias empreendiam uma ofensiva em direção da América do Sul – o que motivou uma reação do então hesitante império americano e do próprio regime varguista –, o Brasil e a América do Sul não enfrentavam desafios tão relevantes quanto esse projeto de reconquista hemisférica. Ele não tem precedentes na história do continente, desde a doutrina Monroe original (1823), passando pelo “corolário Roosevelt” (1903), o do Big Stick, empunhado sobretudo no Caribe e na América Central, chegando agora ao mal chamado “corolário Trump” à doutrina Monroe, quando ele é, efetivamente, um retorno à era da colonização do mundo pelas grandes potências. Não se trata apenas de impedir a ação de adversários ou competidores no “quintal hemisférico”, mas de redesenhar o mapa do mundo no sentido do “triunvirato”, projeto examinado em outro artigo aqui mesmo: “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial” (Será?, 7/11/2025: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/).
        O “ato fundador” da nova geopolítica trumpista pode ter sido a operação de abdução do ditador chavista, mas ela não se deterá provavelmente nesse simples episódio militar, ainda que seus desenvolvimentos sejam ainda imprecisos. Despiciendo examinar a evolução futura do triunvirato imaginado por Trump, que talvez sonhe com uma repetição de Yalta, para discutir as novas zonas de influência sobre o mundo (o que não ocorrerá, não por falta de vontade de Putin, mas por provável oposição de Xi Jinping). Cabe, sim, examinar a postura do Brasil em face dos complexos desafios lançados pelo imprevisível presidente americano. Essa postura pode ser guiada por nossas tradições diplomáticas, bastante bem representadas pelas orientações básicas de uma corporação profissional comprometida fundamentalmente com o interesse nacional, dentro dos parâmetros oferecidos pelo Direito Internacional. Mas ela também precisa levar em conta as novas realidades criadas pelos diktats de Trump.
        Na concepção trumpista, aliados são os países submissos, no continente americano ou na própria Europa, representada por vários iliberais, sem descartar evidentemente a Rússia de Putin, que precisaria ser reintegrada aos negócios do mundo, especialmente em favor da família Trump. Os “inimigos”, por outro lado, ademais dos europeus “decadentes”, são alguns rebeldes do Sul Global, sendo o grande adversário representado pela China. Na perspectiva desse “ato fundador” da geopolítica trumpista, cabe, portanto, examinar os principais atores dessa “novela” venezuelana e as relações do Brasil com cada um deles.
        Nesse campo concreto das relações exteriores do Brasil, os principais atores são, pela ordem: a Venezuela, os Estados Unidos, a China, a Rússia e Cuba. A China é, atualmente, o principal parceiro econômico não só da Venezuela, como do próprio Brasil. A China compra a maior parte do (pouco) petróleo produzido na Venezuela, tendo já investido fortes somas na restauração da sua capacidade produtiva, valores a serem amortizados em petróleo ao longo de décadas à frente. A Rússia é o principal fornecedor de armas ao país caribenho, tendo feito promessas não honradas de garantir sua segurança. O Brasil foi um dos principais parceiros da Venezuela, desde a preeminência chavista no governo e no país, mas perdeu espaços para essas duas grandes autocracias nos últimos anos; ela tem uma enorme dívida, não paga, para com o Brasil, que permanece ainda no limbo. Os EUA, desde o início de 2025, se tornaram o principal ator interno e externo, para o bem e para o mal, para a Venezuela e, também, para o próprio Brasil, sendo que a agenda das ações comerciais e outras, tomadas pelo Big Brother hemisférico, são unilaterais, podendo ser brutais. Cuba será apenas a próxima vítima na lista.
        Não parece haver qualquer perspectiva de alguma unidade na América Latina, no sentido dos países se contraporem aos atos abusivos tomados pelo império recolonizador, tendo em vista a total incapacidade de coordenação no âmbito da Celac, da OEA, ou sequer emergindo a partir de uma hoje inexistente capacidade de liderança brasileira na região. O primeiro gesto do presidente Lula, depois de protestar contra o “sequestro” do ditador venezuelano, foi telefonar para sua sucessora antes mesmo que ela tomasse posse. Sua proximidade política com as duas grandes autocracias do Brics, assim como as íntimas relações do PT com os líderes chavistas são fatores que pesam na falta de credibilidade do presidente brasileiro para qualquer esforço de mediador eventual no tratamento da novela venezuelana.
        Nem a China, nem a Rússia, ademais de protestos puramente retóricos, ousarão criar alguma contenda com os EUA por causa das agruras atuais do país caribenho. Mas a postura do Brasil para com a China e em relação ao drama venezuelano é um dos critérios pelos quais a diplomacia personalista de Lula será vista por Trump e pela equipe trumpista. O fato é que Lula e a diplomacia profissional, independentemente de defenderem, por interesse próprio ou por adesão aos fundamentos doutrinais de uma diplomacia que remonta a Rio Branco e a Rui Barbosa, o primado do Direito Internacional nas relações bilaterais e em foros multilaterais, terão de se haver, doravante, com as investidas da nova geopolítica trumpista da desordem.

Brasília, 7 de janeiro de 2026.
Relação de Publicados n. 1616.


Revista Será?, Editorial, artigo de Paulo Roberto de Almeida

Revista Será?
Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.
ANO XIV Nº691

Recife, 9 de janeiro de 2026.

Caros leitores,

2026 começa sob tensão, ruído e incerteza — e é precisamente por isso que seguimos adiante. Desde 2012, a Revista Será? mantém uma aposta deliberada na reflexão crítica, no rigor intelectual e na pluralidade de vozes. Em um mundo que acelera simplificações e flerta com o autoritarismo, reafirmamos, neste novo ano, nossa determinação em produzir conteúdo de qualidade, capaz de iluminar zonas obscuras do presente e oferecer instrumentos de compreensão, não slogans.

Abrimos a edição com “O protetorado bolivariano de Trump – Editorial”, no qual a revista analisa, sem concessões, os sinais de uma nova forma de dominação política e econômica na Venezuela. Na sequência, Paulo Roberto de Almeida, em “O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?”, amplia o foco e examina os dilemas estratégicos impostos ao Brasil por um cenário internacional em franca decomposição do multilateralismo.

Em “O ano 2026 começou muito mal – Crans Montana, Venezuela e Irã”, Rui Martins articula tragédias e conflitos para mostrar como a lei da força ameaça substituir, de vez, as normas internacionais. Paulo Gustavo, em “Medo e Fascismo”, desloca o olhar para o plano mais profundo da política, investigando o medo como ferramenta central das novas formas de autoritarismo e convocando à vigilância democrática.

O diagnóstico social brasileiro aparece com precisão em “Brasil, um país tradicionalista”, no qual Hubert Alquéres discute os limites da modernização nacional à luz de valores persistentes, desconfiança institucional e polarização. A edição ganha especial densidade com a chegada de nosso novo colaborador equatoriano, Johnny Jara Jaramillo, que se integra de forma valiosa ao corpo da Revista Será?. Em “2026: Retornar à Alteridade”, ele nos oferece uma reflexão filosófica poderosa sobre o esgotamento do vínculo com o outro e a urgência ética de reconstruir a convivência humana em sociedades governadas pelo medo.

Encerrando os ensaios, Carlos Eduardo de Vasconcelos, em “Jogos de Acertos de Contas, Riscos e Poesia. Salvemo-nos”, propõe um pensamento transversal que articula geopolítica, tecnologia, direito e arte, lembrando que sem ética e diálogo não há futuro possível. Na Última Página, a charge de Elson sintetiza, com ironia e acuidade, o espírito crítico da edição.

Boa leitura.
Os Editores

Índice

O protetorado bolivariano de Trump - Editorial
O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump? - Paulo Roberto de Almeida
https://revistasera.us2.list-manage.com/track/click?u=411db2b245b4b4625516c92f4&id=c53b6901fe&e=1647837395
O ano 2026 começou muito mal - Crans Montana, Venezuela e Iran - Rui Martins
Medo e Fascismo - Paulo Gustavo
Brasil, um país tradicionalista - Hubert Alquéres
2026: Retornar À Alteridade - Johnny Jara Jaramillo
Jogos de Acertos de Contas, Riscos e Poesia. Salvemo-Nos - Carlos Eduardo de Vasconcelos.
Última Página, a charge de Elson


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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 Um trabalho mais do que atual:


5104. “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial”, Brasília, 2 novembro 2025, 4 p. Revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/; divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html . Relação de Publicados n. 1601.

Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Artigo publicado na revista Será? Revista Será? (ano XIV, n. 683, 7/11/2025, link: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/ ).


As relações internacionais nunca foram um arremedo da famosa paz kantiana, pela simples razão de que o mundo nunca exibiu uma maioria de Estados republicanos, ou seja, governos baseados numa ordem legal fundada em regras aceitas por todos, a partir de regimes constitucionais estáveis, exibindo compromissos aquiescentes aos tratados internacionais. O mais avançado deles, a Carta das Nações Unidas, preservou o sistema oligárquico que é típico da maioria quase absoluta das nações organizadas politicamente, e que foi, no plano mundial, parcialmente controlado, justamente, pelos cinco supostos garantidores da ordem internacional, mas que a violaram mais frequentemente, mediante ações unilaterais de cunho tradicionalmente imperial, isto é, a manutenção de zonas de influência e de dominação econômica, política e militar. Outros compromissos relevantes, como por exemplo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, são solenemente ignorados por Estados, geralmente autoritários, que contornam impunemente seus principais dispositivos.
Não obstante, durante aproximadamente meio século foram poucas as tensões diretas entre as grandes potências durante a primeira Guerra Fria, a exemplo de episódios como o da crise dos mísseis soviéticos em Cuba (1962), a instalação de mísseis balísticos dos dois lados da “Cortina de Ferro” nos anos 1980, a guerra do Vietnã, além dos tratados de limitação de armas de alcance estratégico. Sempre foram mais comuns, justamente, as guerras por procuração, ou ações unilaterais mal calculadas, como a invasão soviética do Afeganistão (1979) ou a de Bush filho guerra contra o regime de Saddam Hussein (2003), que criou um desastre ainda não de todo equacionado no Oriente Médio. No entanto, cabe demarcar alguns episódios que sinalizaram mudanças graduais no equilíbrio entre as grandes potências.
No início dos anos 1970, Kissinger e Nixon alteraram a balança de poder, ao fazer uma aliança tácita com a China de Mao contra o inimigo comum: a União Soviética. A “aliança” perdurou até a incorporação da China de Deng ao sistema multilateral de comércio, via adesão ao Gatt e seu ingresso na OMC, em 2001 (depois de 14 anos de negociações). Os falcões de Washington imaginavam que, com isso, a China evoluiria para um sistema político de tipo liberal. Ao mesmo tempo, eles implementaram contra ela a mesma política de contenção que já tinha sido feita com relação à União Soviética durante a Guerra Fria, de 1947 a 1991. O impossível containment da China teve um lado trágico, que foi o bombardeio americano da embaixada chinesa em Belgrado, no quadro da contenção da Sérvia na sua política repressiva contra o Kossovo, em 1999. A China vinha percebendo que, a despeito de facilitar seu acesso aos organismos multilaterais da ordem liberal, os EUA pretendiam ditar condições, que por acaso se confundiam com a manutenção de sua própria hegemonia.
Foi quando ascendeu na política russa um antigo quadro do KGB, Putin, decidido a restaurar o que afirmou, em discurso na Dieta russa em 2005, ter sido a maior “tragédia geopolítica do século XX”, para ele a “dissolução da União Soviética” Em 2007, estabeleceu sua visão das relações internacionais, em um discurso na conferência sobre segurança de Munique, em torno de uma “nova ordem global multipolar”. China e Rússia já tinham se aproximado no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai, criada por iniciativa da China em 2001, para combater o terrorismo, o separatismo e o extremismo na região, compreendendo, inicialmente, a própria China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão; aderiram mais tarde a Índia e o Paquistão (2017), o Irã (2023) e a Bielorrússia (2024), constituindo, assim, uma das maiores organizações regionais do mundo em termos de área e população. Segundo seus próprios promotores, a OCX busca promover uma governança mundial alternativa e atua como um contrapeso a blocos ocidentais, como a OTAN. Em paralelo pode-se colocar o BRIC (2006-2009), com Brasil, Rússia, Índia e China, que incorporou a África do Sul em 2011, passando a ser BRICS, mais recentemente ampliado para onze membros efetivos e outros nove associados no BRICS+.
Os eventos politicamente mais impactantes no sentido de uma nova turbulência nas relações internacionais foram a invasão por tropas russas de duas províncias setentrionais da Georgia em 2008, e da Transnístria, na Moldova em 2010, assim como a invasão e anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia em 2014, o que justamente resultou na expulsão da Rússia do G8 – formado politicamente em 1998 – e na introdução de sanções econômicas e diplomáticas por diversos países ocidentais (mas não pelo Brasil, cabe ressaltar). Pode-se dizer que foi Putin quem começou o desmantelamento do sistema político multilateral do pós-guerra, que teve desenvolvimentos surpreendentes a partir de 2022, quando teve início, em fevereiro, o anúncio da “aliança sem limites” entre a China e a Rússia, seguida, logo depois, pela invasão da Ucrânia por esta última, numa guerra de agressão claramente violadora do principal artigo da Carta da ONU, a guerra de agressão justamente.
Novas e mais duras sanções, conformes à letra e o espírito da Carta da ONU, foram implementadas por grande número de países contra a Rússia, embora o Brasil não as acate, pela justificativa formal de que não são multilaterais (em virtude do veto abusivo pelo membro agressor. De 2008 até o presente, o sistema internacional enfrenta as mais graves rupturas da ordem mundial, chamada desdenhosamente de “ocidental” por parte daqueles que pretendem inaugurar uma mal definida “nova ordem global multilateral”, anunciada por Putin e Xi Jinping, e prontamente aceita pelo presidente Lula (mas não pela diplomacia profissional brasileira, que também não foi responsável, esclareça-se, pelas ampliações sucessivas do BRIC até o atual BRICS+).
Depois dessas rupturas político-militares da ordem internacional, começa uma ruptura paralela da ordem econômica mundial, por iniciativa de Trump 2. Este começa num tom desafiador, que se impõe de modo bem mais amplo do que quando de seu primeiro mandato. O gesto mais espetacular, depois de ensaios caóticos, foi o “Dia da Liberação”, em abril de 2025, quando tem início sua “guerra de agressão tarifária”, consistindo na recusa da secular cláusula de nação mais favorecida e no desmantelamento tentativo do sistema multilateral de comércio, tal como estabelecido a partir de 1947 e institucionalizado em 1994.
Seu unilateralismo agressivo se desdobra igualmente no apoio a Israel, na ofensiva para “liberar” a Faixa de Gaza do Hamas, além do brutal recurso aberto à intimidação militar contra supostos inimigos dos EUA, entre estes o Irã e a Venezuela. O Irã já foi objeto de um “bombardeio corretivo”, ao passo que a Venezuela está em compasso de espera por algum ataque direto. Para responder ao projeto de uma “nova ordem global multipolar”, vagamente apresentada por seus dois principais contendores, Trump ainda não formalizou qualquer projeto seu, tendente a uma nova ordem global fundada numa “Pax Americana 2.0”.
Não creio que exista qualquer proposta aceitável para a construção de uma nova ordem liberal internacional, quando o que Trump visa, prioritariamente, são os seus próprios negócios e os da sua família. Por outro lado, as ações de Putin e de Xi Jinping podem corresponder a uma “certa ideia” do multilateralismo, mas unicamente do ponto de vista dos interesses nacionais dos dois Estados, que por sinal não especificaram, até o momento, a qual tipo de “nova ordem global multipolar” se refere a proposta feita por ambos, que seria, previsivelmente, modificadora da presente ordem política e econômica internacional.
Em resumo, não existe bola de cristal disponível para saber como vai evoluir a atual desordem internacional, em virtude das várias incertezas e dos imponderáveis que cercam as atitudes dos “fabricantes” de guerra, dos aventureiros expansionistas, dos “contempladores” relativamente impotentes em face dos três grandes – que são as potências médias, incluindo aqui a União Europeia, associados do G7 (Canadá e Japão), certamente a Índia e o Brasil e alguns poucos do tal de Sul Global, inexistente na prática – em face das várias crises e guerras em curso, já presentes na agenda internacional: (a) a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia; (b) a “limpeza” da Faixa de Gaza e o condomínio incerto entre Trump e Netanyahu em torno do futuro de todo o Oriente Próximo; (c) o ainda mais incerto futuro de Taiwan, entre ameaças chinesas e o duvidoso engajamento dos EUA em sua defesa.
Outras aventuras podem se apresentar no que ainda resta do mandato do candidato a imperador mundial (que só deve durar até 2028), talvez em 2027 (que corresponde ao final hipotético do terceiro mandato do novo Imperador do Meio) e não se sabe até quando no caso do neoczar, que não consegue terminar sua Operação Militar Especial, planejada para ser breve. Nada disso entra no multilateralismo, pois tanto a ONU quanto a OMC, assim como o próprio diálogo entre esses dirigentes imperiais, se encontram num estado de paralisia construída precipuamente por eles mesmos, que não possuem nenhuma agenda consensual para fazer funcionar a presente ordem ou qualquer outra que possam acordar entre eles.
Imagino que o vaidoso Trump, em sua ignorante megalomania, adoraria dispor de um retrato similar, se não semelhante, à famosa foto do encontro entre os três grandes em fevereiro de 1945 em Yalta: Churchill, Roosevelt e Stalin, trocando o clichê por ele próprio, ao lado de Putin e Xi. Não creio que este último toparia uma nova conferência a três para dividir o mundo, e os seus assuntos preferenciais, numa paridade totalmente irrealista, na ausência de uma crise terminal da presente ordem mundial.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5104, 2 outubro 2025, 4 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (9/11/2025, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no.html).

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 Paulo Roberto de Almeida, em “O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além”, analisa os dilemas estratégicos do país num sistema internacional em ruptura e sob pressões internas que corroem a governança democrática.


O Brasil num mundo turbulento, em 2026 e mais além


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Uma agenda interna e externa bastante movimentada em 2026.
Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 690, 02/01/2026; link: https://revistasera.info/2026/01/o-brasil-num-mundo-turbulento-em-2026-e-mais-alem/). Relação de Publicados n. 1615.

        O Brasil inicia 2026 com vários desafios, internos e externos. Em ambas as frentes, pendências políticas e diplomáticas já postas na agenda do Executivo vão exigir habilidades superiores às disponíveis para encaminhá-las exitosamente, no Congresso e na diplomacia.
        No plano interno, tendo sido aprovado, no último dia útil da sessão legislativa de 2025, o orçamento de 2026, os estudantes de todo o Brasil, do fundamental à pós-graduação, descobrem que os indigníssimos parlamentares tungaram (esse é o termo) meio bilhão de reais da dotação educacional federal, com vistas a inflar o bolão das indecorosas emendas parlamentares, que ascendem a mais de 61 bilhões de reais: sim, ele aumentou, e muito, em relação à extorsão feita no ano passado, que se junta aos fundos Partidário e Eleitoral, tudo concorrendo para ajudá-los numa reeleição que deveria ser vetada pelos eleitores. O Fundo de Assistência foi severamente podado, o que deve prejudicar o desempenho educacional e profissional de milhões de jovens em todo o Brasil; mas também serão prejudicados projetos de pesquisa e o apoio a programas de ciência e tecnologia em nível de pós-graduação. Começamos o ano, portanto, com o que se poderia chamar de “crime político”. Salvo alguma correção ao longo do ano, tal corte tornará a vida dos estudantes brasileiros mais precária e o futuro do desenvolvimento do país ainda mais incerto.
        O desafio externo também será relevante: a diplomacia brasileira ocupará, pela 12ª vez, a presidência do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o órgão que pode oferecer sugestões, mediante consultas, para compor a agenda de trabalho dos membros do CSNU – cinco permanentes, mais dez rotativos –, cuja incumbência principal é a de preservar a paz e a segurança no mundo, eventualmente mediante missões internacionais que podem envolver o uso da força armada. Aliás, dia 1º de janeiro foi o Dia Mundial da Paz e, também, o Dia da Confraternização Universal, comemorado no Brasil como feriado nacional desde 1935.
        Conflitos armados não faltam no mundo, começando pela guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e pela guerra de destruição de Israel contra a Faixa de Gaza, a pretexto de combater o grupo terrorista armado Hamas. Curioso registrar, se o termo não é irônico, que o Brasil possui posturas diametralmente opostas em face desses dois “conflitos”: uma áspera condenação das ações do governo Netanyahu contra a população palestina, e um retumbante silêncio, de fato uma indiferença chocante, em relação ao morticínio diário conduzido pelo amigo Putin contra a população civil ucraniana e contra o próprio país. Não parece provável que o Brasil retome, junto com o outro aliado no Brics, a China, o “plano de paz” elaborado sobre a guerra da Ucrânia, já que Trump conduz um denodado esforço para a cessão dos territórios ucranianos usurpados ilegalmente pela Rússia, medida que confronta as bases doutrinais da diplomacia brasileira, mas que parece esquecida pelo governo lulopetista.
        Ainda em sua presidência, a delegação brasileira na ONU poderá conduzir, em 27 de janeiro, sessão a propósito do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, data que marca a libertação de Auschwitz (Polônia), em 1945, que foi o principal e o mais terrível campo de extermínio de judeus do regime nazista. Quando o Brasil deixar a presidência do Conselho, em fevereiro, a guerra de agressão do amigo Putin provavelmente continuará por muitos meses mais, até que a Rússia seja, em algum momento, estrangulada economicamente pelas “sanções” ucranianas: a desativação da “frota fantasma” de petroleiros transportando um petróleo cada vez mais escasso, resultante da desativação de poços e de refinarias russas, por drones disparados a centenas de quilômetros, desde a Ucrânia.
        De volta ao país, fevereiro é o início do funcionamento das principais instituições governamentais, entre elas as que estão em agudo conflito, ou seja, os três poderes entre si. Os desentendimentos serão potencializados, obviamente, pelo calendário eleitoral, o que tende a acirrar a guerrilha no Parlamento e nas mídias sociais. O bolsonarismo, mesmo com o seu líder “engaiolado”, deixou de ser um fenômeno temporário e parece ter adquirido certa consistência política, ao conseguir ainda pautar a agenda congressual de vários partidos. Isso reduz a possibilidade de surgimento de alguma candidatura de centro-direita, independente da atual polarização. A economia demonstra certa resiliência, mas a perspectiva de manutenção de juros altos – pelo agravamento das contas públicas, a despeito do aumento da carga fiscal – deve manter o lento crescimento e o relativo insulamento do comércio internacional, numa conjuntura em que o Mercosul possui escassas possibilidades de aprofundamento externo.
        O calendário eleitoral, como ocorre a cada dois anos, principalmente a cada quatro, afrouxará, parcialmente, o ativismo congressual; em contrapartida, haverá forte ativismo político, com traições, alianças fugazes e muita hipocrisia por parte dos candidatos e seus apoiadores (turbinados pelos milhões que inundam os múltiplos canais de financiamentos públicos criados pelos próprios políticos). Numa das mais baixas fases de qualidade, já bastante precária, da democracia brasileira – se algum dia ela apresentou alguma qualidade superior –, é tempo da sociedade se perguntar se não está na hora de revisar aspectos fundamentais da extrema permissividade sob a qual operam os “cartórios” partidários alimentados pelos dois fundos imorais: o Partidário e o Eleitoral. Ambos são ilegítimos, uma vez que partidos são entidades de direito privado, e não poderiam ser financiados com recursos públicos. Não obstante, os recursos são afrontosamente ampliados a cada escrutínio, enchendo as burras dos partidos registrados e de todos os oportunistas que buscam integrar a casta dos eleitos, desde vereadores das mais modestas prefeituras (cujos orçamentos próprios sequer as mantêm funcionando, mas que exibem vistosas câmaras), até a pletora de “aspones” dos representantes federais, ademais de todos os gastos associados aos seus mandatos.
        Da mesma forma, caberia discutir seriamente a reversão do caráter compulsório das emendas parlamentares, iniciado sob o probo mandato de Eduardo Cunha e aprofundado exacerbadamente desde então – em seus diversos formatos –, não só pela captura de nacos cada vez maiores do orçamento público, mas sobretudo pela fragmentação perversa dos recursos. Os parlamentares se converteram em “vereadores federais”, o que obsta qualquer sentido de planejamento racional de obras prioritárias na infraestrutura, educação e saúde. Esses três fatores, os dois fundos ilegítimos e o estupro orçamentário das emendas, estão no centro das mais nocivas deformações do sistema político, e da corrupção que entranha o mecanismo das barganhas indecentes que se estabelecem entre os operadores dessa poderosa máquina, ao unir elites econômicas às políticas, todas conjugadas nessa esbórnia.
        São esses alguns dos mecanismos da longa tradição oligárquica que fundamenta o funcionamento e a direção da nação, desde que aqui aportou D. Tomé de Souza, o primeiro governador geral dos tempos do pau-brasil. Somos hoje um país independente, que avançou muito nos últimos dois séculos, mas que ainda não conseguiu arrancar de uma miséria ancestral amplos estratos da população, os escravos africanos e seus descendentes, como é óbvio, mas também os relegados dos rincões mais pobres do território. Idealmente, uma sociedade equilibrada teria investido na educação de todos os seus membros, uma tarefa ainda hoje inconclusa, incompleta ou deficiente, para fins gerais de produtividade e emprego. São ainda tênues os efeitos dessas deformações sobre a sociedade civil, de maneira a abrir o caminho para a regeneração do sistema político, e para o correto funcionamento dos esteios básicos de uma sociedade sadia, que são educação e saúde, de qualidade, a higidez das instituições de Estado e a transparência requerida dos dirigentes. Promiscuidade e conivência entre estes e seus “financiadores” explicam a continuidade das deformações e a deterioração progressiva da governança, até uma crise e ruptura política, com substituição dos dirigentes.
        A nação atravessou recentemente mais uma dessas rupturas, mas ainda não corrigiu as fontes primárias das deformações, ao mesmo tempo em que a própria ordem mundial passa por processo preocupante de ruptura nos arranjos feitos menos de um século atrás, que nos garantiram algumas décadas de paz improvisada, ainda que à sombra das grandes potências. Em 2026, duas delas, a nação supostamente hegemônica, mas já declinante, e a nuclearmente armada até os dentes, que já foram adversárias na primeira Guerra Fria, parecem unidas no propósito comum de liquidar com o multilateralismo político e com o sistema multilateral de comércio, numa segunda Guerra Fria, que tem como protagonistas principais o suposto Hegemon, de um lado, e a China, do outro. Mas, o gigante asiático, do seu lado, possui uma estatura econômica extraordinariamente superior à dinâmica produtiva e competitiva que jamais possuiu a finada União Soviética, sendo capaz, portanto, de confrontar com êxito as ameaças e provocações comerciais e as restrições tecnológicas americanas dirigidas contra si. Já o provou cortando o fornecimento de terras raras, minerais críticos, quando Trump tentou fazer chantagem tarifária, mas teve de recuar a pedido de seus próprios empresários.
        Pois é justamente a partir do sistema internacional que decorrem as maiores ameaças ao Brasil, não exatamente como exportador de commodities, ou recebedor de investimentos estrangeiros, sequer como pressão para a deterioração do risco-país pelas agências de rating internacional, e sim como país envolvido involuntariamente no jogo geopolítico das grandes potências, mesmo indiretamente. O fato é que, a partir do primeiro BRIC, em 2006-2009, e sobretudo do BRICS a cinco, de 2011 a 2023, a política externa lulopetista, desde Lula 1, e mais enfaticamente sob Lula 3, conectou-se em excesso às superpotências antes opostas ao Ocidente, um vínculo que nunca tinha sido incorporado pela diplomacia profissional, cuja preocupação sempre esteve justamente voltada para preservar a autonomia decisória externa do país, visando jamais envolver-se nas fricções entre grandes potências adversárias.
        Os que seguem as tomadas de posição do Brasil em face do maior conflito geopolítico desde 1945 sabem que o governo Lula jamais teve qualquer palavra de censura aos crimes perpetrados por Putin e pelas forças russas invasoras da Ucrânia, que valeram ao líder russo um mandado de busca e apreensão do TPI, por crimes contra a humanidade: o sequestro de crianças ucranianas e seu envio para a Rússia. O Brasil se absteve em resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU justamente sobre esse crime imprescritível segundo o Direito Internacional desde Nuremberg. Da igual forma, as declarações ministeriais e presidenciais do BRICS evitam, vergonhosamente, dentre as dezenas e dezenas de temas abordados em cada uma delas, qualquer menção à guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. Esse tipo de omissão deliberada, inteiramente devida aos pedidos de Putin a Lula, corre o risco de afetar seriamente a credibilidade internacional da diplomacia brasileira.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5155, 25 dezembro 2025, 4 p.


Revista Será?, ano xiv, n. 690, 2/01/2026:
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sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Síntese das principais ocorrências em 2025 e agenda aberta para 2026.

        No conjunto de assuntos relevantes que ocuparam o Brasil em 2025 e que continuarão a fazê-lo em 2026 – temas econômicos, sociais, domésticos, regionais e internacionais – cabe um destaque especial para o cenário eleitoral, que já foi aberto neste ano, mas que assumirá especial importância em 2026, com destaque para as eleições gerais e presidenciais. As eleições gerais serão, por sinal, bem mais impactantes do que a própria eleição presidencial, uma vez que, independentemente da escolha do próximo presidente, as eleições para o Congresso (2/3 para o Senado Federal e a totalidade da Câmara dos Deputados), tendem a confirmar o peso decisivo da representação parlamentar na agenda política, social e econômica do Brasil, com uma relevância menor na política externa. Conflitos entre os poderes são inevitáveis, com destaque para a continuidade dos inquéritos – da PF e do STF – sobre as emendas parlamentares, o principal foco de desvios do orçamento para as benesses, consigo próprios, dos “representantes do povo”, ou seja, as emendas fraudulentas.
        O primeiro turno das eleições presidenciais em 4 de outubro de 2026, colocará em disputa o atual presidente, Lula 3 – que já confirmou, às vésperas de completar 80 anos, que será, como se houvesse alguma dúvida disso, o candidato do PT, aspirando um quarto mandato, algo inédito na história política do país –, contra, presumivelmente, o designado pela família Bolsonaro, que se refugiou na solução familiar do senador Flávio Bolsonaro (pelo menos até março de 2026). O PSD, aquele partido que não é nem de esquerda, nem de direita, sequer de centro, já passou a apoiar o filho sênior do clã, sugerindo o governador de MG, Romeu Zema, como seu candidato a vice. É cedo ainda para qualquer especulação, menos ainda quaisquer previsões, mas parece consistente afirmar, desde já que, a persistir tal polarização, as consequências para as orientações econômicas e sociais, assim como para a política externa serão contrastantes, quando claramente opostas. Voltaremos ao assunto no decorrer do ano eleitoral.
        Dentre os eventos internos mais relevantes no ano 2025, a “palma de ouro” – se é o caso do exagero retórico – fica com o conjunto de processos condenatórios dos diversos núcleos da tentativa golpista bolsonarista, que começou praticamente ao início do governo, em 2019, com maior ímpeto a partir de 2021 e culminou na depredação dos três poderes em janeiro de 2023. Pela primeira vez na história republicana, na história do país independente tout court, golpistas fracassados ou bem-sucedidos não são objeto de anistia, mas condenados a prisão efetiva (ainda que as pressões para anistia persistam). De certa forma, o Brasil se firmou no cenário internacional da fragilização das democracias como o país que superou as ameaças reais à continuidade da sua, o que se deveu inteiramente ao trabalho do STF (ainda que vilipendiado não só por golpistas, mas por estratos significativos da área conservadora).
        No domínio externo, o principal evento “brasileiro” em 2025 foi a organização da COP30, realizada na capital paraense – para sinalizar o comprometimento do Brasil com a agenda da sustentabilidade e da transição energética, ambos temas desafiados por decisões do próprio governo Lula 3 no sentido de impulsionar a exploração petrolífera na região. No plano concreto, a reunião, em si, terminou sem qualquer acordo para um phase-out do uso de combustíveis fósseis – o que já vinha sendo o caso nas duas COPs anteriores, e será ainda o tom das próximas COPs – e sem qualquer compromisso de financiamento compatível com os esforços de descarbonização por parte dos países avançados (sendo que os dois principais poluidores, China e EUA, ademais dos demais do “Norte Global”, tampouco se alinharam com às metas prometidas no Acordo de Paris, COP21, de 2015). Os cientistas continuam a antecipar, quase em desespero de causa, que o mundo não será capaz de ficar abaixo do limite de 1,5 graus centigrados acima dos níveis pré-industriais. Nesse capítulo, o Brasil está absolutamente tranquilo, quanto à sua matriz energética, mas continua a exibir a fragilidade do desmatamento, que é o principal fator das emissões de carbono neste caso concreto.
        No plano multilateral global, o Brasil é um participante costumeiro, como convidado, das reuniões do G7 (deixou de ser no intervalo esquizofrênico do bolsonarismo diplomático). É um membro oficial do G20 financeiro, embora tenha deixado de figurar entre as dez maiores economias do planeta, mas se trata de simples efeito cambial. Mas, em nenhuma das reuniões de 2025 cabe registrar qualquer convergência geral em torno dos grandes temas da conjuntura, que continuaram a ser a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e a guerra de destruição de Israel contra o território palestino de Gaza. Curiosamente, a postura de Lula 3 (já implícita em posições registradas sob Lula 1 e 2) se situa nas antípodas do que seria uma diplomacia coerente e conectada, não apenas a seus valores tradicionais, mas também aos grandes princípios do Direito Internacional: o governo Lula condena, com razão, os ataques atrozes de Israel contra a população civil palestina, mas permanece silente em relação aos ataques maciços contra alvos civis na Ucrânia, o que é incompreensível no plano mais elementar da agenda internacional, como por exemplo, sua abstenção na resolução do Conselho de Direitos Humanos sobre as crianças ucranianas sequestradas pela Rússia.
        A razão dessa contradição (vergonhosa para a diplomacia brasileira) tem nome, mas não endereço: trata-se do BRICS, que não tem estatuto, nem existência formal, a não ser um simples acordo quanto a reuniões anuais de cúpula, das quais resultam declarações grandiosas e extensíssimas, mas que nos últimos encontros realizaram a proeza de falar de tudo e mais um pouco, ignorando completamente o maior conflito militar existente na Europa desde a Segunda Guerra. Cabe não se enganar: Lula já apoiava, e de forma entusiasta, esse vínculo (inédito) do Brasil com duas grandes autocracias, assim como, desde 2023, passou a apoiar objetivamente a agressão da Rússia contra a Ucrânia, aumentando exponencialmente, por exemplo, as importações brasileiras de combustíveis e de fertilizantes russos (sob a falsa alegação de atender às necessidades nacionais, quando existem alternativas comerciais).
        O atual BRICS+ não tem nada a ver com o BRIC original (2006-2011), nem com o BRICS (ao incorporar, pelas mãos da China, a África do Sul), redundando no “inchamento” do bloco com novos membros e associados, em geral críticos, para não dizer opositores, dos países do Ocidente, em especial dos Estados Unidos e da UE, conformando uma espécie de antiG7 e anti-OCDE. Ao lado dos cinco tradicionais, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, as duas autocracias conseguiram agregar – contra a vontade do Brasil e da Índia – o Irã, a Etiópia, o Egito e os Emirados Árabes Unidos, ademais da Arábia Saudita (que ainda não confirmou seu ingresso), sendo que Indonésia foi admitida como novo membro a convite do Brasil (ingressou na cúpula realizada no Brasil em 2025), que também tinha convidado a Argentina (mas a dos peronistas), num gesto imediatamente recusado pelo presidente Milei.
Uma das realizações mais exitosas do BRICS em 2025 foi uma reunião com a Apec (Asia Pacific Economic Cooperation), realizada no Vietnã, evento ao qual o presidente Lula compareceu, embora não exista perspectiva de algum acordo prático no terreno da abertura comercial, por exemplo, evolução que, aliás, jamais existiu no âmbito do BRICS, pois que os intercâmbios comerciais continuam a ser feitos ao abrigo do sistema multilateral de comércio (que é amplamente abrangente para acomodar o intenso comércio bilateral do Brasil com a China, assim como com os demais países do bloco e com todos os outros). O Brasil continua recusando, por outro lado, ingressar formalmente no programa chinês do BRI, o famoso “cinturão e rota”, que já incorporou dezenas de outros países do chamado “Sul Global” e da própria América Latina; o BRI promete ultrapassar várias vezes o famoso “Plano Marshall” de reconstrução da Europa do pós-guerra (mas que incluía também generosas doações americanas em alimentos e insumos diversos, ademais do apoio financeiro ao retorno da Europa à conversibilidade monetária). A China continuará a ser o parceiro econômico e comercial mais importante do Brasil, mas junto disso vêm outros compromissos políticos.
        Um dos elementos dramaticamente mais relevantes do ano que finda foi a “desordem geopolítica” iniciada pelo presidente Trump 2, não só representada pela guerra de agressão tarifária generalizada contra aliados e competidores, mas também pelas ameaças imperialistas contra o vizinho Canadá (“sugestão” de se tornar o 51º estado dos EUA), contra o Panamá (retomada do canal, “devolvido” em 1999), contra a Dinamarca (ao pretender incorporar compulsoriamente o “território autônomo” da Groenlândia à soberania dos EUA) e outras demonstrações de unilateralismo extremo, sobretudo e principalmente contra a Ucrânia, uma vez que Trump e seus assessores subservientes adotam consistentemente os desejos imperiais de um outro candidato a imperador do mundo, Putin, do qual o presidente americano parece servir como assistente solícito. Trump praticamente desmantelou tudo aquilo que os EUA tinham construído desde Bretton Woods (1944) e San Francisco (1945), ou seja, o sistema multilateral de comércio e o multilateralismo político, e se empenha em construir um novo sistema imperial tripartite – China no controle da Ásia-Pacífico, Rússia na Eurásia e os próprios EUA no hemisfério americano, como aliás demonstrado pela sua nova Estratégia de Segurança dos EUA (analisada neste mesmo veículo por Hubert Alquéres no número 688, 19/12/2025, e por este autor, no número 687, 12/12/2025).
        A guerra tarifária contra o Brasil, ao início moderada (apenas 10% de sobretaxa adicional), converteu-se no meio do ano, por razões unicamente políticas (“solidariedade” à família Bolsonaro), em extorsão direta, à altura de 50% ad valorem contra alguns produtos essenciais da dieta americana: café, carne, suco de laranja, frutas, além de sapatos, móveis, maquinário e todo o mais. Como nos demais casos, o efeito inflacionário das tarifas fez com que o economicamente ignorante e desequilibrado dirigente as reduzisse posteriormente. O lado mais impactante da “estratégia trumpista” para o reordenamento mundial (se o termo se aplica) é um retorno à política das grandes potências do século XIX, assim como sua meta de “reindustrialização dos EUA” nada mais representa do que uma volta aos padrões produtivos da segunda revolução industrial. O presidente Lula, em todo caso, parece muito satisfeito com a sua política externa, talvez o lado mais criticável de seu terceiro governo: viajou a dezenas de países e promete continuar ativo nessas peregrinações. Não parece perto, contudo, de conjurar a ameaça mais visível no plano regional: o ataque trumpista à Venezuela do ditador Maduro, assim como não conseguiu firmar sua liderança na América do Sul.

Paulo Roberto de Almeida
[Brasília, 5153, 22 dezembro 2025, 4 p.; revisão: 23/12/2025]
Divulgado no blog Diplomatizzando (26/12/2025)

O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

O mundo marcha para a direita? Retornamos cem anos no passado?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Considerações sobre o retrocesso autoritário no mundo.


        Observando a ascensão de expressões autoritárias em governos de diferentes regiões do mundo, tem-se a impressão de que o mundo realmente marcha para o fenômeno que se convencionou chamar de iliberalismo. A América Latina já foi abundante nos experimentos autoritários, sobretudo de expressão militar, atualmente também sob o formato do populismo de direita. Não se trata de algo novo, embora exista bastante diversidade nas manifestações desse fenômeno, com respeito, por exemplo, ao que se observou cem anos atrás.
        O século XX, sobretudo na sua primeira metade, e especialmente na Europa e na América Latina, foi, no dizer de vários historiadores, o século dos extremismos ideológicos, dos totalitarismos expansionistas, tanto à esquerda – o bolchevismo, o comunismo, a III Internacional, o socialismo do planejamento centralizado nos anos do pós-Segunda Guerra –, quanto à direita, sob a forma dos fascismos dos anos entre guerras, os nacionalismos autoritários. Esses fatores foram, aliás, responsáveis pela nova “Guerra de Trinta Anos”, como designou Winston Churchill essa fase de guerras contínuas entre 1914 e 1945.
        Depois do término de várias ditaduras de direita – geralmente militares – em países do Terceiro Mundo (na América Latina especialmente) e até mesmo na Europa (países ibéricos, Grécia, Turquia e alguns impulsos em outros países (como o renascimento do fascismo na Itália e na Alemanha), ocorreu, meio século atrás, uma espécie de “onda democratizante”, saudada por acadêmicos e líderes políticos. Mas, impulsos autoritários, tanto à esquerda quanto à direita, voltaram a se manifestar, embora não mais na forma dos antigos golpes de Estado por militares do Terceiro Mundo, e sim sob as novas formas de autoritarismo, geralmente associado ao populismo e, novamente, tanto à esquerda quanto à direita.
        Diferentes observadores – revistas como a Economist, entidades como a Freedom House, think tanks e ONGS voltados para esse tipo de estudo – já publicaram estudos qualitativos e quantitativos sobre os avanços do que foi chamado de iliberalismo, até orgulhosamente admitido por um desses autocratas, o primeiro-ministro Viktor Orban, da Hungria, que, efetivamente, designa seu regime como sendo uma “democracia iliberal”. Esses relatórios identificam, mais recentemente, uma redução dos governos plenamente democráticos ao redor do mundo, depois da reversão do autoritarismo nos anos 1980 – caso da América Latina e da Grécia –, ou seja, de ruptura com antigos regimes autoritários, como o salazarismo e o franquismo na península ibérica, processo seguido, no curso dos anos 1990, pela implosão do socialismo de tipo soviético na Europa central e oriental. Junto com a implosão do socialismo e a expansão do globalismo, parecia que uma nova onda democrática poderia se estender a todos os continentes. Que não se culpe Fukuyama por esse tipo de ilusão, pois o seu “fim da história” se referia bem mais ao fim das alternativas equivocadas às economias de mercado do que ao derretimento dos regimes antidemocráticos (seu artigo, aliás, foi escrito bem antes da queda do muro de Berlim e da implosão do comunismo).
        Em que os iliberalismos ou autoritarismos recentes diferem das modalidades anteriores, ou seja, os fascismos do entre guerras e as ditaduras militares na América Latina, na África e na Ásia? A diferença, muito clara no caso do chavismo preservado na Venezuela, está em que não existe mais uma ruptura golpista violenta, como nas modalidades clássicas de ditaduras emergindo a partir de golpes de Estado, e sim ocorre uma erosão gradual dos mecanismos, dos princípios e valores democráticos, por meio de pequenas alterações ou “inovações” no funcionamento e na composição das principais instituições de Estado e na forma de atuação dos governos. Geralmente se começa pelo aparelhamento do Estado e do governo com os próprios partidários do dirigente democraticamente eleito, depois se passa pela chantagem, suborno e pressões sobre os meios de comunicação independentes, se alcança os partidos políticos e o próprio parlamento – por meio de cargos, subsídios, transferências de recursos –, assim como a composição e a forma de atuação de órgãos judiciais, inclusive, quando houver, as instituições que cuidam diretamente das eleições. Essas são as principais modalidades.
        Muitos desses mecanismos estão descritos em livros de acadêmicos, como Timothy Snyder, sobre as novas formas de tirania, e Yasha Mounk, sobre o “povo contra a democracia”, entre vários outros autores. Vale a atenção, especialmente, para o trabalho impecável do V-Dem, um instituto multidisciplinar da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, as Varieties of Democracy, com relatórios anuais sobre a erosão democrática no mundo: https://www.v-dem.net/democracy_reports.html.
        O Brasil também conheceu essas expressões do novo autoritarismo, provavelmente estimulado pelo primeiro governo Trump (2017-2020), mas também como resultado das crises políticas pós-2013 e o impeachment do quarto governo do PT (2016). Não existe a menor dúvida de que Bolsonaro emergiu a partir de velhas e novas tendências do pensamento e das práticas autoritárias. Ele foi, com seus patrocinadores na direita militar, um agregador, sem ser doutrinário ou sequer pensador (o que seria de toda forma impossível), de diversas correntes de direita e conservadores que estavam mais ou menos retraídas durantes os anos do tucanato (governos FHC, de 1995-2002) e do lulopetismo (2003-2016), ambos representantes da socialdemocracia, mas possuindo o PT diversas conexões com as ditaduras de esquerda na América Latina, dada a composição do partido com muitos egressos dos movimentos de oposição armada à ditadura militar nos anos 1960-70.
        No caso de Bolsonaro, ele foi um representante repugnante não apenas dos autoritários do regime militar, mas daquela categoria que Elio Gaspari chamou de “tigres”, ou seja, a fração mais totalitária e repressiva da ditadura, os homens das catacumbas, os torturadores e assassinos, militares e civis, engajados na eliminação dos “comunistas” daqueles tempos. Ele próprio confessou admirar o “representante-modelo” da tortura e da repressão daquele momento, o coronel Carlos Brilhante Ustra, um dos mais bárbaros integrantes da “tigrada” das catacumbas do regime. Na verdade, Bolsonaro nunca teve alguma ideologia definida, além dessa adesão ao extremismo de direita, mas atendendo rusticamente a seus instintos primitivos, não a alguma doutrina anticomunista formalmente organizada e racional. Ele próprio confessou, certa vez, admirar o coronel Hugo Chávez, mostrando uma propensão a seguir seu exemplo de asfixiamento progressivo da democracia política.
        O Brasil sempre teve impulsos autoritários muito evidentes desde o advento da República – um mero golpe militar improvisado, segundo vários historiadores –, impulsos que acabaram se concretizando em governos ditatoriais: o Estado Novo (1937-1945), tentativas de golpes antes e depois disso, nos anos 1950, finalmente a ditadura tecnocrática de 1964 a 1985. Mas, mesmo nos momentos democráticos, o regime democrático sempre foi de muito baixa qualidade, geralmente sob controle das oligarquias rurais, na primeira metade do século XX, depois crescentemente sob a influência das elites industriais e, também, as do setor primário. Só nos tornamos uma democracia de massas a partir da reconstitucionalização de 1988, com a admissão do voto dos analfabetos, e ainda assim com as inclinações elitistas conhecidas (segundo a CF-1988, só ficam na cadeia comum os desprovidos de um canudo qualquer). As elites políticas expressam geralmente o poder do dinheiro, ou seja, os interesses das elites dominantes, os dos donos do capital, mas também houve uma progressiva evolução para uma representação política mais conforme aos diferentes estratos sociais da população.
        Na República Velha, observou Gilberto Amado, as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira, ou seja, eram eleitos representantes cosmopolitas das elites educadas. Na democracia de massas do período atual, pode-se dizer que as eleições são verdadeiras, mas a representação pode ser parcialmente falsa, expressando o corporativismo crescente na sociedade, com muitos representantes de grupos de interesse, sindicalistas de diversas categorias profissionais, lobbies setoriais (bancada ruralista, evangélicos, etc). Muitos desses grupos setoriais são inegavelmente autoritários, sem serem totalitários, já que não existem mais condições de se defender um regime de extrema-direita atendendo perfeitamente aos impulsos fascistas dos partidos dessa vertente. O presidente Bolsonaro foi um representante especialmente inepto dessas correntes, pois sequer teve condições de conduzir o Brasil a um golpe militar classicamente putchista, ou a um populismo autoritário ao estilo chavista. Nem o seu conservadorismo era verdadeiro, pois sempre partilhou os mesmos instintos estatistas e estatizantes de grande parte da esquerda atrasada da América Latina.
        Na Europa do pós-guerra, diversos partidos socialistas e comunistas caminharam no sentido de adotar a visão reformista da economia de mercado (como o SPD alemão desde os anos 1950; os socialistas franceses nos anos 1980 e até o New Labour de Tony Blair, nos anos 1990). Por outro lado, vários partidos comunistas, anteriormente plenamente stalinistas, começaram a aceitar, no curso dos anos 1980, as práticas democráticas, como no caso do “eurocomunismo” (PCI italiano, PCE espanhol e outros, menos o de Portugal).
        No caso de Bolsonaro, seria duvidoso identificá-lo na mesma categoria dos líderes iliberais dotados de doutrina, pois que ele nunca teve condições intelectuais mínimas para dirigir um movimento programaticamente estruturado na direita brasileira. Ele foi apenas o representante confuso desses instintos autoritários saudosistas da ditadura militar, sem qualquer doutrina formal. O restante da direita é fundamentalmente oligárquico, mas, dada a confusão ideológica reinante no antipetismo militante, até liberais econômicos acabaram se juntando aos radicais da direita. Isso demonstra que, no caso do Brasil, trata-se de um fenômeno maleável das diversas tendências conservadoras, não de um movimento fascista no conceito classicamente europeu.
        O trumpismo, na sua segunda versão (2025-202?), é bem mais agressivo nas suas tendências autoritárias, sendo que o seu mais famoso bilionário faz campanha aberta em favor dos movimentos mais extremistas na Europa, financiando partidos radicais que também acabam apoiando a Rússia no seu conservadorismo extremado (e são por ela apoiados). Trump ascende perigosamente, com ajuda até da Suprema Corte, no limiar de quebras constitucionais e legais no seu novo furor autoritário, depois de parcialmente contido no primeiro mandato. Mas, no caso de Bolsonaro, agora “engaiolado”, a extrema-direita mais estúpida já não mais poderá se beneficiar da pregação da extrema-direita conservadora americana, como ocorreu em 2018, o que nos dispensa, pelo menos na vertente da política externa e da diplomacia, de uma recaída nas piores vergonhas que o Brasil atravessou entre 2019 e 2022 no plano internacional.
        Como diplomata não convencional, censurado sob o tucanato, levado ao ostracismo funcional sob o lulopetismo, depois expurgado com raiva no bolsolavismo esquizofrênico, contemplo com um pouco de alívio nossas tendências persistentes, e competitivas, ao conservadorismo oligárquico de direita ou ao populismo estatizante de esquerda. São reduzidas as chances de um novo iliberalismo autoritário no Brasil. Olhando ao redor, concluo que existem coisas piores ocorrendo no mundo...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5138, 9 dezembro 2025, 4 p. Revisto 13/12/2025;

O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

 O último artigo do ano de 2025 na revista Será?;

O Brasil em 2025, expectativas para 2026, no país e no mundo

O astrônomo - Vermeer

O astrônomo – Vermeer

No conjunto de assuntos relevantes que ocuparam o Brasil em 2025 e que continuarão a fazê-lo em 2026 – temas econômicos, sociais, domésticos, regionais e internacionais – cabe um destaque especial para o cenário eleitoral, que já foi aberto neste ano, mas que assumirá especial importância em 2026, com destaque para as eleições gerais e presidenciais. As eleições gerais serão, por sinal, bem mais impactantes do que a própria eleição presidencial, uma vez que, independentemente da escolha do próximo presidente, as eleições para o Congresso (2/3 para o Senado Federal e a totalidade da Câmara dos Deputados), tendem a confirmar o peso decisivo da representação parlamentar na agenda política, social e econômica do Brasil, com uma relevância menor na política externa. Conflitos entre os poderes são inevitáveis, com destaque para a continuidade dos inquéritos – da PF e do STF – sobre as emendas parlamentares, o principal foco de desvios do orçamento para as benesses, consigo próprios, dos “representantes do povo”, ou seja, as emendas fraudulentas.

O primeiro turno das eleições presidenciais em 4 de outubro de 2026, colocará em disputa o atual presidente, Lula 3 – que já confirmou, às vésperas de completar 80 anos, que será, como se houvesse alguma dúvida disso, o candidato do PT, aspirando um quarto mandato, algo inédito na história política do país –, contra, presumivelmente, o designado pela família Bolsonaro, que se refugiou na solução familiar do senador Flávio Bolsonaro (pelo menos até março de 2026). O PSD, aquele partido que não é nem de esquerda, nem de direita, sequer de centro, já passou a apoiar o filho sênior do clã, sugerindo o governador de MG, Romeu Zema, como seu candidato a vice. É cedo ainda para qualquer especulação, menos ainda quaisquer previsões, mas parece consistente afirmar, desde já que, a persistir tal polarização, as consequências para as orientações econômicas e sociais, assim como para a política externa serão contrastantes, quando claramente opostas. Voltaremos ao assunto no decorrer do ano eleitoral.

Dentre os eventos internos mais relevantes no ano 2025, a “palma de ouro” – se é o caso do exagero retórico – fica com o conjunto de processos condenatórios dos diversos núcleos da tentativa golpista bolsonarista, que começou praticamente ao início do governo, em 2019, com maior ímpeto a partir de 2021 e culminou na depredação dos três poderes em janeiro de 2023. Pela primeira vez na história republicana, na história do país independente tout court, golpistas fracassados ou bem-sucedidos não são objeto de anistia, mas condenados a prisão efetiva (ainda que as pressões para anistia persistam). De certa forma, o Brasil se firmou no cenário internacional da fragilização das democracias como o país que superou as ameaças reais à continuidade da sua, o que se deveu inteiramente ao trabalho do STF (ainda que vilipendiado não só por golpistas, mas por estratos significativos da área conservadora).

No domínio externo, o principal evento “brasileiro” em 2025 foi a organização da COP30, realizada na capital paraense – para sinalizar o comprometimento do Brasil com a agenda da sustentabilidade e da transição energética, ambos temas desafiados por decisões do próprio governo Lula 3 no sentido de impulsionar a exploração petrolífera na região. No plano concreto, a reunião, em si, terminou sem qualquer acordo para um phase-out do uso de combustíveis fósseis – o que já vinha sendo o caso nas duas COPs anteriores, e será ainda o tom das próximas COPs – e sem qualquer compromisso de financiamento compatível com os esforços de descarbonização por parte dos países avançados (sendo que os dois principais poluidores, China e EUA, ademais dos demais do “Norte Global”, tampouco se alinharam com às metas prometidas no Acordo de Paris, COP21, de 2015). Os cientistas continuam a antecipar, quase em desespero de causa, que o mundo não será capaz de ficar abaixo do limite de 1,5 graus centigrados acima dos níveis pré-industriais. Nesse capítulo, o Brasil está absolutamente tranquilo, quanto à sua matriz energética, mas continua a exibir a fragilidade do desmatamento, que é o principal fator das emissões de carbono neste caso concreto.

No plano multilateral global, o Brasil é um participante costumeiro, como convidado, das reuniões do G7 (deixou de ser no intervalo esquizofrênico do bolsonarismo diplomático). É um membro oficial do G20 financeiro, embora tenha deixado de figurar entre as dez maiores economias do planeta, mas se trata de simples efeito cambial. Mas, em nenhuma das reuniões de 2025 cabe registrar qualquer convergência geral em torno dos grandes temas da conjuntura, que continuaram a ser a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia e a guerra de destruição de Israel contra o território palestino de Gaza. Curiosamente, a postura de Lula 3 (já implícita em posições registradas sob Lula 1 e 2) se situa nas antípodas do que seria uma diplomacia coerente e conectada, não apenas a seus valores tradicionais, mas também aos grandes princípios do Direito Internacional: o governo Lula condena, com razão, os ataques atrozes de Israel contra a população civil palestina, mas permanece silente em relação aos ataques maciços contra alvos civis na Ucrânia, o que é incompreensível no plano mais elementar da agenda internacional, como por exemplo, sua abstenção na resolução do Conselho de Direitos Humanos sobre as crianças ucranianas sequestradas pela Rússia.

A razão dessa contradição (vergonhosa para a diplomacia brasileira) tem nome, mas não endereço: trata-se do BRICS, que não tem estatuto, nem existência formal, a não ser um simples acordo quanto a reuniões anuais de cúpula, das quais resultam declarações grandiosas e extensíssimas, mas que nos últimos encontros realizaram a proeza de falar de tudo e mais um pouco, ignorando completamente o maior conflito militar existente na Europa desde a Segunda Guerra. Cabe não se enganar: Lula já apoiava, e de forma entusiasta, esse vínculo (inédito) do Brasil com duas grandes autocracias, assim como, desde 2023, passou a apoiar objetivamente a agressão da Rússia contra a Ucrânia, aumentando exponencialmente, por exemplo, as importações brasileiras de combustíveis e de fertilizantes russos (sob a falsa alegação de atender às necessidades nacionais, quando existem alternativas comerciais).

O atual BRICS+ não tem nada a ver com o BRIC original (2006-2011), nem com o BRICS (ao incorporar, pelas mãos da China, a África do Sul), redundando no “inchamento” do bloco com novos membros e associados, em geral críticos, para não dizer opositores, dos países do Ocidente, em especial dos Estados Unidos e da UE, conformando uma espécie de antiG7 e anti-OCDE. Ao lado dos cinco tradicionais, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, as duas autocracias conseguiram agregar – contra a vontade do Brasil e da Índia – o Irã, a Etiópia, o Egito e os Emirados Árabes Unidos, ademais da Arábia Saudita (que ainda não confirmou seu ingresso), sendo que Indonésia foi admitida como novo membro a convite do Brasil (ingressou na cúpula realizada no Brasil em 2025), que também tinha convidado a Argentina (mas a dos peronistas), num gesto imediatamente recusado pelo presidente Milei.

Uma das realizações mais exitosas do BRICS em 2025 foi uma reunião com a Apec (Asia Pacific Economic Cooperation), realizada no Vietnã, evento ao qual o presidente Lula compareceu, embora não exista perspectiva de algum acordo prático no terreno da abertura comercial, por exemplo, evolução que, aliás, jamais existiu no âmbito do BRICS, pois que os intercâmbios comerciais continuam a ser feitos ao abrigo do sistema multilateral de comércio (que é amplamente abrangente para acomodar o intenso comércio bilateral do Brasil com a China, assim como com os demais países do bloco e com todos os outros). O Brasil continua recusando, por outro lado, ingressar formalmente no programa chinês do BRI, o famoso “cinturão e rota”, que já incorporou dezenas de outros países do chamado “Sul Global” e da própria América Latina; o BRI promete ultrapassar várias vezes o famoso “Plano Marshall” de reconstrução da Europa do pós-guerra (mas que incluía também generosas doações americanas em alimentos e insumos diversos, ademais do apoio financeiro ao retorno da Europa à conversibilidade monetária). A China continuará a ser o parceiro econômico e comercial mais importante do Brasil, mas junto disso vêm outros compromissos políticos.

Um dos elementos dramaticamente mais relevantes do ano que finda foi a “desordem geopolítica” iniciada pelo presidente Trump 2, não só representada pela guerra de agressão tarifária generalizada contra aliados e competidores, mas também pelas ameaças imperialistas contra o vizinho Canadá (“sugestão” de se tornar o 51º estado dos EUA), contra o Panamá (retomada do canal, “devolvido” em 1999), contra a Dinamarca (ao pretender incorporar compulsoriamente o “território autônomo” da Groenlândia à soberania dos EUA) e outras demonstrações de unilateralismo extremo, sobretudo e principalmente contra a Ucrânia, uma vez que Trump e seus assessores subservientes adotam consistentemente os desejos imperiais de um outro candidato a imperador do mundo, Putin, do qual o presidente americano parece servir como assistente solícito. Trump praticamente desmantelou tudo aquilo que os EUA tinham construído desde Bretton Woods (1944) e San Francisco (1945), ou seja, o sistema multilateral de comércio e o multilateralismo político, e se empenha em construir um novo sistema imperial tripartite – China no controle da Ásia-Pacífico, Rússia na Eurásia e os próprios EUA no hemisfério americano, como aliás demonstrado pela sua nova Estratégia de Segurança dos EUA (analisada neste mesmo veículo por Hubert Alquéres no número 688, 19/12/2025, e por este autor, no número 687, 12/12/2025).

A guerra tarifária contra o Brasil, ao início moderada (apenas 10% de sobretaxa adicional), converteu-se no meio do ano, por razões unicamente políticas (“solidariedade” à família Bolsonaro), em extorsão direta, à altura de 50% ad valorem contra alguns produtos essenciais da dieta americana: café, carne, suco de laranja, frutas, além de sapatos, móveis, maquinário e todo o mais. Como nos demais casos, o efeito inflacionário das tarifas fez com que o economicamente ignorante e desequilibrado dirigente as reduzisse posteriormente. O lado mais impactante da “estratégia trumpista” para o reordenamento mundial (se o termo se aplica) é um retorno à política das grandes potências do século XIX, assim como sua meta de “reindustrialização dos EUA” nada mais representa do que uma volta aos padrões produtivos da segunda revolução industrial. O presidente Lula, em todo caso, parece muito satisfeito com a sua política externa, talvez o lado mais criticável de seu terceiro governo: viajou a dezenas de países e promete continuar ativo nessas peregrinações. Não parece perto, contudo, de conjurar a ameaça mais visível no plano regional: o ataque trumpista à Venezuela do ditador Maduro, assim como não conseguiu firmar sua liderança na América do Sul.

Paulo Roberto de Almeida

[Brasília, 5153, 22 dezembro 2025, 4 p.; revisão: 23/12/2025]

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