Submissão

Submissão

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Logo ao início do governo militar, em junho de 1964, o primeiro general-presidente do regime militar, Castelo Branco, resolveu enviar o “último tenente”, Juracy Magalhães, como seu embaixador em Washington. Perguntado por um jornalista com que espírito assumia seu novo posto, o embaixador designado foi cândido: “O Brasil fez duas guerras como aliado dos Estados Unidos e nunca se arrependeu. Por isso eu digo que o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil.” (Cf. Juracy Magalhães, em depoimento a J. A. Gueiros, O Último Tenente. 3ª ed., Rio de Janeiro: Record, 1996, p. 325). Ele foi, quase de imediato, devidamente “massacrado” por todos, não só pela esquerda antiamericana, como um vil entreguista, sabujo dos interesses americanos.

Sua frase infeliz passou à história, como a própria confirmação da subserviência do governo militar à política do Império. Cabe, contudo, restabelecer o devido copyright da frase, que nunca foi, exatamente, de Juracy Magalhães, mas provinha da afirmação do novo presidente da General Motors, em 1946, Charles Wilson, ao inverter a famosa declaração de um antigo dirigente, Alfred Sloan, entre 1923 e aquele ano, segundo quem “what was good for our country was good for General Motors”, acrescentando Wilson, “and vice-versa”.

A frase se tornou um ícone da suposta colusão de interesses entre a grande indústria e o governo dos EUA e, após sua recuperação infeliz por Juracy Magalhães, um exemplo entre outros, ainda que envergonhado, da colusão de interesses entre os governos do regime militar brasileiro inaugurado em 1964 e os interesses da grande potência americana. Assim foi, pelo menos durante algum tempo, mas a corporação do Itamaraty soube restabelecer, em pouco tempo, os saudáveis princípios da diplomacia brasileira. Já no segundo governo da “Revolução”, sob o pouco instruído Costa e Silva, os “itamaratecas” conseguiram, sob o medianamente instruído chanceler Magalhães Pinto, retomar as grandes linhas da “Política Externa Independente” em praticamente todas as ações empreendidas doravante.

A propósito dessa frase, venho agora a um episódio ao qual assisti pessoalmente, pois que, exercendo o cargo de ministro-conselheiro na embaixada em Washington, em 2002, acompanhei a primeira visita a Washington, ainda como presidente eleito, de Lula, a convite de George Bush. Ao ser confrontado, no National Press Club, a uma pergunta marota de um jornalista, Lula utilizou-se dessa frase infeliz para revertê-la em seu favor. Perguntado por qual razão o PT havia estabelecido uma parceria com o Partido Comunista da China, ele saiu-se da seguinte maneira, tendo sido muito aplaudido, durante e após sua resposta: “Eu não conhecia a China muito bem, até que o governo americano fez da China seu parceiro comercial preferencial. E eu pensei comigo mesmo: ‘se é bom para os americanos, deve ser bom para os brasileiros.’ Nós vamos trabalhar muito estreitamente com a China, porque ela é um parceiro importante para os nossos objetivos comerciais.” (Transcrição parcial da seção de perguntas e respostas ocorrida no National Press Club, Washington, em 10/12/ 2002)

Não tenho certeza de que essa resposta tenha sido ensaiada pelo presidente eleito ou se ela foi espontânea, mas vários observadores brasileiros registraram a recuperação, de modo inteligente, da antiga frase infeliz de Juracy Magalhães. A pergunta tinha sido dirigida ao relacionamento político entre o PT e o Partido Comunista Chinês, e ela foi respondida em sua vertente puramente comercial, o que não estava em causa na indagação feita em Washington (que incluía igualmente uma referência ao Foro de São Paulo). Não pude, entretanto, deixar de reconhecer a notável capacidade do presidente eleito em adaptar de maneira simpática, e com bastante bom-humor, uma frase colocada no índex da “sabujice imperialista” ao novo contexto do relacionamento entre os dois maiores países do hemisfério.

Abordando, agora, a essência do relacionamento entre os Estados Unidos e o Brasil, não se pode deixar de reconhecer que, entre um império de um lado e uma potência média do outro, os interesses dos dois países podem coincidir em grande medida, e assim voltamos à frase paradigmática. Com efeito, o que é bom para os EUA – uma ordem internacional aberta aos fluxos de bens, capitais, serviços e pessoas, dotada de estabilidade e caracterizada por valores comuns compartilhados, como parecem ser a democracia, os direitos humanos e a defesa do meio ambiente – também o é para o Brasil, sem qualquer exclusivismo nesse plano mais geral das relações internacionais (ou pelo menos deveria ser, mas obviamente menos na era Trump). Logo depois da visita de Lula, as políticas externas dos dois países começaram a desalinhar rapidamente, começando pela invasão do Iraque e tudo o que se seguiu.

Registro mais uma curiosidade, antes de chegar o título deste artigo, a submissão ao Império, que foi e voltou ao longo do tempo. A historiografia do golpe de 1964 é consensual quanto ao apoio dos Estados Unidos à intervenção militar, sobretudo se ela resultasse numa guerra civil, caso houvesse “resistência”, com o apoio direto dos americanos aos golpistas, por parte da frota deslocada ao Atlântico Sul. Mas, existe ainda pouca adesão à “tese” – que modestamente é minha – de que os Estados Unidos interviram uma segunda vez no processo político brasileiro, desta vez a favor da democracia e contra um novo golpe, mais exatamente pelo envio, feito pelo presidente Joe Biden, de dois dos seus assessores, com o objetivo precípuo de garantir a continuidade das eleições brasileiras em 2022, na devida forma.

Primeiro foi o diretor da CIA, William Burns, que veio ao Brasil em meados de 2021 para um encontro sigiloso e de alto nível com o próprio Bolsonaro, além de outros generais: algumas informações confidenciais revelam que Burns teria dito a Bolsonaro que os EUA confiavam inteiramente no sistema de votação do Brasil, então em fase de aberta contestação pelo presidente brasileiro. Depois, no auge dos preparativos de um golpe, mal preparado pelo golpista covarde e incompetente, foi a vez do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, no início de dezembro de 2022, que se reuniu com o presidente eleito, Lula, convidando-o, novamente, para uma visita a Washington. Ambos devem ter deixado muito claro, aos generais, que os EUA não tolerariam um golpe que interrompesse o processo democrático no Brasil. Desta vez, os gringos acertaram.

Volto ao passado, mas mais recente, para ressaltar o quanto a tradicional aliança do Brasil com os Estados Unidos, inquestionável durante dois séculos, transmutou-se numa declarada submissão, não ao país, mas ao seu bizarro presidente, durante os mandatos parcialmente coincidentes de Trump 1 e Bolsonaro, de 2019 a 2020. Aliás, desde antes de 2019, pois que a partir da campanha de 2018, Bolsonaro e os olavetes já prometiam total submissão a Trump e aos interesses exclusivamente unilaterais dos Estados Unidos, a começar por uma hostilidade ímpar à China “comunista” e uma adesão doentia às “teses” da franja lunática da extrema-direita americana. Elas eram propagadas no Brasil, nessa fase, pelo guru preferencial dos bolsonaristas, Olavo de Carvalho, que indicou ao governo o patético chanceler acidental, aquele que quase destruiu nossa diplomacia, e que não se envergonhava de converter o Brasil num “pária internacional”.

Não vou retomar aqui todas as críticas que formulei, assim que exonerado de meu cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty (Funag), contra a inacreditavelmente submissa política externa pró-trumpista, em pelo menos cinco livros, começando por Miséria da Diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty(2019) até Apogeu e Demolição da Política Externa (2021), passando por O Itamaraty num labirinto de Sombras, Uma certa ideia do Itamaraty e O Itamaraty Sequestrado (2020-2021). O que cabe ressaltar, neste momento de início de uma nova campanha eleitoral presidencial, é o perigo latente de uma nova recaída numa diplomacia submissa tão destruidora das diretrizes fundamentais, e históricas, de nossa política externa, como foi aquela, sobretudo durante a gestão do chanceler acidental (até março de 2021), mas continuada, de forma mais atenuada, sob a administração de seu sucessor, mas ainda submetido ao chefe da nação, felizmente contido, pelo menos parcialmente, pelo governo Joe Biden, a partir de 2021.

Os impulsos intervencionistas de Trump 2 são ainda mais poderosos, e não contidos por assessores também submissos, do que já tinham sido de 2017 a 2020, quando ocorreram os primeiros passos do protecionismo comercial, mas ainda sem a destruição completa do sistema multilateral de comércio, e do próprio multilateralismo político onusiano, como vem sendo o caso desde janeiro de 2025, culminando em agressões armadas contra os supostos inimigos do Império, espelhando, aliás, a guerra de agressão de seu amigo Putin contra os infelizes vizinhos do finado império soviético. Aquele que se crê “imperador do mundo” já enviou um inquisidor ao Brasil para se encontrar com o golpista fracassado e encarcerado, provavelmente dando início a uma nova fase de intervenção na política brasileira, desta vez em favor de uma direita talvez menos “carnívora”, e disfarçadamente “herbívora”.

O que Trump conseguiu obter numa Venezuela pós-madurista, ou seja, sua tutela sobre dirigentes complacentes, ele gostaria de lograr num Brasil novamente bolsonarista, embora ele tenha muito pouca chance de impor alguma “Delcy Rodriguez iraniana” na sua atual guerra de agressão contra a ditadura dos aiatolás e da Guarda Revolucionária Islâmica. O Brasil certamente não tem nada a ver com a trajetória da Venezuela chavista, da revolução à submissão, mas a rendição dos bolsonaristas a Trump, pessoalmente, promete se manter num eventual retorno dessa extrema-direita ao poder, o que representaria um novo episódio de sujeição de nossa política externa aos interesses, não essencialmente americanos, mas basicamente trumpistas. Tudo ainda é uma hipótese, mas em minha condição de diplomata comprometido com a dignidade de nossa credibilidade internacional, sinto-me terrivelmente preocupado com a possibilidade de que o Brasil de Rio Branco, de Oswaldo Aranha e de San Tiago Dantas possa vir a integrar-se ao “Escudo das Américas”, o novo órgão de controle imperial sobre seu “quintal” latino-americano, o que certamente ocorreria com o retorno dos bolsonaristas ao governo, em 2027.

Retomando a frase fatídica, pode ser que o que é bom para os Estados Unidos talvez seja igualmente bom para o Brasil – como argumentou instintivamente o presidente-eleito Lula em seu primeiro périplo americano, em 2002, ao mencionar a relação dos EUA com a China, ainda relativamente convergente naquele começo de século –, mas cabe aos brasileiros examinar atentamente, não o lado puramente formal da relação bilateral, mais distante ou mais próxima, segundo os governos, mas a substância desse quê, uma vez que soberania e dignidade nacionais passam na frente de qualquer modalidade de interação diplomática.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5240, 11 março 2026, 4 p.