sexta-feira, 27 de março de 2026

CUBA ESTÁ ENTRANDO EM DECOMPOSIÇÃO. ESSE É O CENÁRIO - Rodrigo da Silva (OESP)

PRA: Apenas um reparo neste excelente artigo sobre a situação calamitosa em Cuba, destruída pelo comunismo castrista durante seis décadas e atualmente sendo criminosamente asfixiada pelo autocrata de Washingon: a China (RPC) NÃO FOI “excluída das organizações internacionais por décadas”. Ela se auto excluiu, por decisão de seus dirigentes, com exceção da representação na ONU e seu pertencimento ao CSNU de 1949 a 1972, por decisão da AGNU, que assim votou, até a reviravolta americana de 1971-72. Paises que pertenciam à ONU, ao FMI-BM e ao Gatt antes de se tornarem comunistas, como Cuba, justamente, Tchecoslováquia e alguns outros permaneceram nas instituições “capitalistas”. A República da China (Taiwan) resolveu sair do Gatt no inicio dos anos 1950, mas permaneceu nos demais até os anos 1970, quando seu status foi modificado (contra a sua vontade). De resto meus cumprimentos ao Rodrigo da Silva pelo excelente artigo. Paulo Roberto de Almeida

CUBA ESTÁ ENTRANDO EM DECOMPOSIÇÃO. ESSE É O CENÁRIO

Rodrigo da Silva

OESP, 27/03/2026

O regime cubano enfrenta uma crise generalizada que pode virar uma catástrofe humanitária a qualquer momento 

Parece um delírio, mas Cuba já foi um dos países mais ricos da América Latina, quando tinha mais carros circulando em suas ruas do que muitos países europeus eram capazes de esbanjar. Isso foi há 66 anos.

A realidade atual é menos gloriosa. Só nesse mês, Cuba sofreu três apagões em três semanas. Não uma queda de luz temporária num bairro periférico de Havana. Mas 100% do território nacional sem energia elétrica ao mesmo tempo. Aconteceu nos dias 4, 16 e 21. Quase 10 milhões de pessoas completamente no escuro.

Cuba enfrenta um colapso no setor elétrico. Em Havana,os apagões podem durar mais de 10 horas por dia. No interior, o cenário é ainda pior. Os cubanos aprenderam a viver guiados pelo sol. Quando ele vai embora, o país desliga junto. As bombas d’água param. A comida estraga. Os hospitais operam com geradores a diesel – isso quando há diesel. As ruas ficam completamente escuras. As pessoas precisam recorrer à lenha para cozinhar. O país se transporta para o século 19.

Não é difícil entender a origem do problema. As usinas termelétricas cubanas foram construídas entre os anos 1960 e 1970, com tecnologia soviética. Tudo vem sendo corroído pelo tempo desde então. A ilha é um museu a céu aberto. Só entre 2018 e 2022, a capacidade de geração do país caiu 25% – e continua caindo.

E isso pra não falar da falta crônica de combustível. Cuba precisa de 100 mil barris de petróleo por dia para funcionar. Mas produz internamente uns 40 mil. O resto vem da Venezuela. Ou melhor: vinha.

Desde que Hugo Chávez chegou ao poder em 1999, a Venezuela meio que se tornou o oxigênio econômico de Cuba – um substituto dos soviéticos. Cuba mandava médicos e agentes de inteligência; a Venezuela enviava petróleo praticamente de graça. No pico, generosos 95 mil barris por dia. A estimativa dos recursos transferidos pelo chavismo entre 1999 e 2025, em valores corrigidos pela inflação, é de US$ 63,8 bilhões – quase cinco PIBs cubanos. Riqueza venezuelana praticamente doada para outra população.

E o petróleo não funcionava só como combustível, mas também como moeda. Cuba reexportava parte desse recurso no mercado internacional e embolsava o lucro em dólar. Era dessa forma que o governo conseguia importar alimentos, medicamentos e peças de reposição. Mas quando os embarques venezuelanos começaram a diminuir – por conta do próprio colapso da Venezuela –, a ilha passou a viver em sufoco. E quando, em janeiro, os americanos capturaram Nicolás Maduro, o oxigênio acabou de vez.

Desde então, Cuba não recebe importações significativas de petróleo. Mas depende de petróleo para tudo – da geração de eletricidade ao transporte. O cenário é de desespero.

Internamente não parece haver solução. O salário médio mensal em Cuba é de 6.649 pesos cubanos. Na taxa de câmbio do mercado negro – que é a taxa real, já que ninguém usa a oficial – isso equivale a US$ 16,30 por mês. Cinquenta e quatro centavos de dólar por hora. O salário mínimo é de 2.100 pesos: US$ 5,42 por mês.

Segundo o relatório En Cuba Hay Hambre, do Food Monitor Program – organização que monitora a segurança alimentar na ilha – 96,91% dos cubanos relatam ter perdido acesso a alimentos devido à inflação e à queda no poder de compra. Um em cada quatro vai dormir sem jantar. Sessenta por cento das famílias dedicam entre 5 e 15 horas por semana exclusivamente à busca por comida. Repare: não para cozinhar – procurando comida. Filas, mercado negro, telefonemas para quem tem um primo que trabalha num hotel, trocas, favores. Tudo é válido.

A libreta de abastecimiento – a caderneta de racionamento criada em 1962 – é o documento mais antigo da Revolução Cubana. Todo cubano tem uma. No papel, ela garante acesso a quantidades subsidiadas de produtos básicos: arroz, feijão, açúcar, óleo, café. Mas na prática, a teoria é outra. Em 2025, o governo suspendeu carne, óleo e café da libreta. O que sobra chega com semanas de atraso. O Estado hoje cobre algo entre 20% a 30% das necessidades calóricas de uma família – o resto precisa ser comprado a preços de mercado.

A saúde entrou em colapso. A mortalidade infantil – o indicador que Cuba exibia como troféu – explodiu. A mortalidade materna quase dobrou na última década.

O Ministro da Saúde admitiu publicamente que só 30% dos medicamentos essenciais estão disponíveis. Mais de 460 remédios estão em falta. Na verdade, dos 651 medicamentos do quadro básico cubano, só 292 estão disponíveis na rede de farmácias.

Aparece uma crise de dengue? Não há inseticida para fumigação – porque a fumigação precisa de combustível para os caminhões. Surge um surto de chikungunya e Oropouche ao mesmo tempo? Morrem 21 crianças. Precisa operar? Os hospitais do interior não têm como esterilizar instrumentos durante apagões que duram 20 horas.

E os médicos? Estão indo embora. O governo continua exportando profissionais de saúde – são a principal fonte de divisas do país –, mas o número de médicos trabalhando efetivamente dentro de Cuba cai a cada ano. Um médico cubano ganha menos de US$ 20 por mês. Do outro lado do mar, na Flórida, esse valor passa para US$ 15 mil.

A população vem desabando. Cuba tinha 11,18 milhões de habitantes em 2020. Oficialmente, em 2024, esse número passou para 9,75 milhões – uma queda de 13%. Mas o demógrafo Juan Carlos Albizu-Campos, usando dados cruzados de imigração de outros países, calcula que a população residente real na ilha é de cerca de 8 milhões. Se ele estiver certo, Cuba perdeu quase 1/4 da sua população em quatro anos – uma taxa de perda populacional que normalmente só se vê em países em guerra.

Só entre 2021 e 2024, mais de 860 mil cubanos chegaram aos Estados Unidos.

E quem vai embora? Normalmente os mais jovens; as mulheres em idade fértil (são 133 mulheres para cada 100 homens entre os emigrantes); os profissionais qualificados; os médicos, engenheiros e professores que o país formou com dinheiro público e não consegue reter porque oferece pífios US$ 16 de salário.

O resultado é uma tempestade demográfica perfeita: Cuba é o país mais envelhecido da América Latina. Um em cada quatro moradores da ilha tem mais de 60 anos.

Em 2024, nasceram 71 mil pessoas em Cuba, mas morreram 128 mil – quase o dobro. Nasceram menos bebês em Cuba do que em 1899 – quando a ilha ainda era uma colônia espanhola arrasada por três guerras de independência. 

A projeção do próprio governo para 2050 é de 7,7 milhões de habitantes. Ou seja: o futuro cubano é de um país menos habitado do que era antes da revolução.

Por que tudo isso aconteceu? Porque Cuba parou no tempo. Mesmo os seus pares comunistas conseguiram se adaptar ao capitalismo. Havana resiste bravamente a sair do passado.

Um chinês médio, em 1978, era doze vezes mais pobre que um cubano. O PIB per capita do Vietnã, em 1986, era 1/6 do cubano. Desde então, Deng Xiaoping liberalizou a agricultura chinesa, criou zonas econômicas especiais e abriu o país ao investimento estrangeiro. O Vietnã lançou o Doi Moi – um pacote de reformas de mercado inspirado no modelo chinês. Hoje exporta US$ 405 bilhões por ano – quinhentas vezes mais que Cuba.

E Cuba? Manteve o planejamento central. Reteve 91% do PIB sob controle estatal (contra 31% na China e 27% no Vietnã). Manteve o monopólio estatal do comércio exterior. Proibiu profissionais universitários de exercerem as suas profissões por conta própria (um engenheiro não pode abrir uma consultoria, mas pode dirigir um táxi). Forçou os agricultores a venderem 70% da colheita ao Estado a preços abaixo do mercado.

Fidel Castro rejeitou o modelo chinês porque não queria delegar poder econômico ao setor privado. Raul Castro provavelmente queria seguir os chineses, mas não tinha o poder do irmão e enfrentava oposição interna para seguir nessa direção. Díaz-Canel herdou um país travado, com a elite militar – o conglomerado GAESA, que controla uns 60% da economia – sem nenhum incentivo para mudar um sistema que oferece ao grupo o controle da ilha.

A consequência disso é que Cuba produz hoje menos açúcar do que em 1899. Um país que chegou a ser o maior exportador mundial de açúcar, que produzia 8 milhões de toneladas no fim dos anos oitenta, produziu menos de 150 mil toneladas na última safra, quando apenas 6 dos 14 engenhos planejados estavam funcionando. Cuba hoje importa açúcar do Brasil.

E o embargo? Existe desde 1962. É o mais longo embargo econômico da história moderna. E ele realmente prejudica Cuba. O embargo restringe o comércio, o acesso ao financiamento internacional, à tecnologia, aos medicamentos. Ele faz tudo mais caro e mais difícil.

Mas o embargo, sozinho, não explica a realidade cubana. O Vietnã organizou a sua reforma econômica, com sucesso, durante um embargo americano. A China cresceu apesar de ter sido excluída de organismos internacionais por décadas. Cuba permaneceria na condição de um dos países mais pobres do continente mesmo se o embargo jamais existisse.

E os cubanos que ficaram? Não estão parados. Os apagões desse mês desencadearam a maior onda de protestos na ilha desde julho de 2021. Manifestantes atacaram escritórios do Partido Comunista na cidade de Morón. Os cacerolazos – o protesto de bater panelas, que os brasileiros conhecem tão bem – tomaram bairros inteiros de Havana nas últimas semanas. O governo reagiu cortando a internet em áreas de protesto.

O que acontecerá no futuro? O regime pode se adaptar, cair ou resistir, mantendo o estado atual de penúria até onde for possível. Ninguém pode prever além disso. O que dá pra cravar é que Cuba está entrando em decomposição. Mesmo os seus mais calorosos defensores de outrora já não estufam o peito para anunciar o paraíso perdido socialista no Caribe.

O que restou do sonho cubano é um pesadelo – em condições de virar uma catástrofe humanitária a qualquer momento.

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