Ormuz, a arma do Irã
Por Yan Boechat
Nas águas turquesas e estreitas que separam as montanhas escarpadas do Irã das planícies áridas de Omã, o mundo assiste ao que analistas já chamam de a maior ”armamentização da geografia” da história moderna. O Estreito de Ormuz, uma artéria vital por onde flui um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do planeta, tornou-se o epicentro de um conflito que ameaça mergulhar a economia global em uma recessão profunda e imprevisível. Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o regime de Teerã respondeu com o fechamento efetivo deste canal de apenas 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito. O que tem se seguido é um choque de oferta de energia sem precedentes e mais de três vezes maior do que o embargo petrolífero árabe de 1973, forçando o mundo a enfrentar uma volatilidade que muitos economistas acreditavam ter ficado no passado, em uma escala que desafia tanto a supremacia militar americana quanto a estabilidade das prateleiras de supermercados em São Paulo , das bombas de gasolina em Nova York e de farmácias em Nova Déli.
Ormuz tem sido um elemento estratégico nas campanhas militares iranianas desde que aquela região do mundo era conhecida como Império Persa. Ele funciona como a jugular nesta que talvez seja a rota marítima mais importante da economia mundial. Ao ameaçar “incendiar” qualquer embarcação que desafie suas ordens, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reduziu o tráfego marítimo entre 70% e 90%, mergulhando a frota mercante global em uma paralisia nervosa. Em seu primeiro pronunciamento, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, voltou a reforçar a estratégia de manter o estreito fechado. Hoje, cerca de 200 navios estão presos no Golfo Pérsico, 150 deles superpetroleiros, estão sob ameaça de serem atacados caso tentem fazer a travessia. Navios com destino à China e a outros países parceiros do Irã, no entanto, têm sido autorizados a cruzar o estreito.
O estreito é palco de todo tipo de disputa há séculos. Uma das mais longevas aconteceu exatamente entre potências ocidentais e orientais. Portugal e o Império Otomano lutaram por quase um século por este que era um ponto estratégico pelo controle das rotas comerciais do Oceano Índico. Após conquistar Goa em 1510, os portugueses passaram a ocupar portos-chave da região e consolidaram o domínio sobre Ormuz em 1515, buscando monopolizar o comércio que percorria o Golfo Pérsico. Em 1552, o almirante otomano Piri Reis lançou uma ofensiva contra posições portuguesas, capturando Mascate e atacando Ormuz, mas acabou recuando para Basra, no atual Iraque, após saquear a região. Sua retirada foi considerada um fracasso em Istambul, e ele acabou executado. Nos anos seguintes, os otomanos tentaram reforçar sua presença naval no Golfo, mas derrotas sucessivas às forças portuguesas impediram a conquista definitiva do estreito. Apesar de novos confrontos esporádicos, o controle de Ormuz permaneceu nas mãos portuguesas, consolidando um equilíbrio de poder que limitou a presença naval otomana no Oceano Índico.
Agora, o combate não é em mar aberto, entre caravelas, galeões e galés. A eficácia do bloqueio iraniano reside em uma estratégia de guerra de assimetria brutal que Washington parece ter subestimado. Enquanto o governo de Donald Trump assegurava que a guerra seria “facilmente vencida”, os estrategistas militares americanos se depararam com uma realidade tecnológica desconcertante. O Irã assimilou as lições do conflito na Ucrânia e passou a usar enxames de drones Shahed-136 — aparelhos movidos por motores de motocicleta, muitas vezes feitos de isopor e custando cerca de 30 mil dólares — para saturar e cegar os sistemas de defesa aérea mais sofisticados do planeta. Radares americanos THAAD e Patriot, projetados para interceptar mísseis balísticos de milhões de dólares, lutam para distinguir essas pequenas aeronaves lentas de pássaros ou de voos civis. Em ataques coordenados, drones iranianos já atingiram centros de comando da Quinta Frota no Bahrein e radares de alerta precoce na Arábia Saudita, criando verdadeiros pontos cegos na vigilância aliada.
As dificuldades militares americanas são agravadas por uma lacuna logística crítica: a escassez de navios caça-minas. Ironicamente, os Estados Unidos desativaram seus últimos navios especializados na remoção de minas na região pouco antes do conflito, e a capacidade britânica — outrora essencial — encolheu drasticamente. Com o Irã dispondo de um arsenal estimado em até 6 mil minas marítimas, a tarefa de limpar o estreito sob constante ameaça de mísseis antinavio tornou-se, para muitos especialistas, um pesadelo tático que pode levar semanas, talvez meses, para ser resolvido. Há, ainda, o desafio de operar em águas tão próximas da costa iraniana e de extrema vulnerabilidade. Entre os americanos, ganha força a ideia de que, para controlar Ormuz, os EUA terão que enviar soldados para garantir uma espécie de “buffer zone” costeira (ou “zona-tampão”, uma área neutra estabelecida entre dois exércitos para evitar confrontos diretos). Acontece que, para estabelecer uma zona-tampão os Estados Unidos precisariam mobilizar milhares de soldados para ocupar um pedaço do território iraniano extremamente hostil. Com as eleições de meio termo se aproximando, essa não parece uma estratégia com apoio político doméstico, porque pode ampliar significativamente as baixas, hoje contabilizadas em 11 soldados mortos.
Águas turbulentas
As ondas de choque desse impasse já atravessaram os oceanos. O mundo enfrenta agora o que analistas classificam como o maior choque de oferta de energia da história. Os preços do petróleo Brent dispararam, rompendo a barreira psicológica de US$ 100 e alcançando picos próximos de US$ 120 no final de semana passado. Para a Europa, que apostou no gás natural liquefeito como alternativa ao gás russo, o fechamento de Ormuz tornou-se um desastre. Com a produção no Catar suspensa após ataques de drones, os preços do gás no continente subiram 75%, levando os governos a cogitar racionamentos e pacotes emergenciais de subsídios. Para os Estados Unidos os preços são sentidos nas bombas e nas cadeias de distribuição, mas não da mesma maneira que na década de 1970.
Hoje os EUA são os maiores produtores de petróleo do mundo. Desde que os americanos passaram a produzir petróleo a partir do fracking, uma tecnologia que retira óleo e gás presos nas rochas, o país passou a ser autossuficiente. Foi uma virada importante no jogo. A partir dos anos 2010, o petróleo do Oriente Médio deixou de ser vital para a economia americana, apesar de ela ainda flutuar ao sabor das cotações internacionais, como agora. Na Europa, o jogo se inverteu. Extremamente dependente do gás russo após a adoção da política de reaproximação com a União Soviética nos anos 1970, os europeus passaram a buscar opções novas depois da invasão da Ucrânia por Moscou. Estava se tornando crescentemente dependente do gás natural vindo do Catar, que agora se mostra uma fonte tão instável quanto a russa.
A dor econômica, porém, é profunda e desigual. No Brasil, seus efeitos se manifestam em múltiplas frentes. Como um dos principais destinos das exportações farmacêuticas da Índia, o país enfrenta o risco concreto de desabastecimento de medicamentos genéricos e vacinas. A logística indiana — responsável por produzir cerca de 60% das vacinas do mundo — depende de Dubai como centro estratégico de distribuição e de manutenção da chamada “cadeia de frio”. Com o porto de Jebel Ali e o aeroporto de Dubai danificados por ataques iranianos, o transporte de remédios essenciais para o mercado brasileiro tornou-se um percurso caro e imprevisível.
No campo, a agricultura brasileira, motor fundamental do PIB nacional, acompanha com apreensão o aumento dos preços dos fertilizantes. O bloqueio de Ormuz retirou do mercado um terço do suprimento mundial desses insumos, justamente quando a China, maior exportadora de fertilizantes nitrogenados, restringiu suas exportações para proteger o mercado interno. O salto nos preços, em alguns casos de mais de 35% em apenas uma semana, antecipa um aumento inevitável no custo dos alimentos, que deverá chegar às mesas brasileiras em um prazo de 1 a 3 meses. Para conter o impacto imediato nos transportes, o governo brasileiro decidiu zerar os impostos sobre o diesel — uma tentativa de estabilizar a economia antes que o choque petrolífero comprometa o crescimento. No entanto, a Petrobras ampliou o preço do combustível em R$ 0,38 nas distribuidoras a partir de hoje. No Ministério da Fazenda, a expectativa de inflação para esse ano já mudou de 3,6% para 3,7%.
Enquanto isso, a geopolítica das matérias-primas passa por uma transformação acelerada. Os Estados Unidos, pressionados a reduzir a dependência da China e da instabilidade do Oriente Médio, dão sinais de que pretendem ampliar a ofensiva bilionária para garantir acesso aos minerais críticos do Brasil. Metais como cobre e níquel, essenciais para a transição energética e para a indústria de semicondutores, tornaram-se ativos de segurança nacional, especialmente diante da escassez de enxofre — subproduto do refino de petróleo do Golfo necessário para o processamento desses minerais — que já paralisa indústrias da Indonésia à África.
As próximas semanas prometem volatilidade e incerteza. O mercado de energia permanece em alerta permanente, reagindo a cada sinal vindo da Casa Branca ou de Teerã. A liberação coordenada de 400 milhões de barris das reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia foi recebida com alívio, mas também com inquietação: trata-se de uma medida de alcance limitado, incapaz de compensar os cerca de 20 milhões de barris diários que deixaram de circular. Nesta sexta-feira, o preço do petróleo seguia em alta, superando a casa dos US$ 100 o barril do Brent e a US$ 99 o barril do WTI.
Analistas trabalham com dois cenários principais. Em um cenário de bloqueio prolongado, o barril de petróleo poderia alcançar entre US$ 150 e US$ 200, empurrando o mundo para uma recessão global marcada pela estagflação — um fantasma dos anos 1970 que muitos acreditavam superado. Países mais pobres da Ásia, como Paquistão e Bangladesh, já enfrentam os primeiros sinais dessa crise, fechando escolas e lidando com protestos por combustível. Em um cenário de abertura parcial do estreito, possivelmente sob escolta naval americana, a estabilidade ainda seria frágil, com custos de seguro elevados e o risco permanente de derramamentos ambientais mantendo os preços altos e a inflação persistente.
O que emerge desse conflito é a percepção de que a infraestrutura que sustenta a prosperidade global é muito mais vulnerável do que se imaginava. O Estreito de Ormuz deixou de ser apenas um corredor geográfico para se tornar o ponto de ruptura de uma ordem internacional que, por décadas, dependeu do fluxo livre de energia e de mercadorias. Hoje, cada navio parado ao largo das costas de Omã é um lembrete de que, em um mundo profundamente interconectado, um choque em uma estreita faixa de água no Oriente Médio pode redesenhar o destino econômico de países a milhares de quilômetros de distância — do agronegócio do Mato Grosso às indústrias de tecnologia de Seul. E o Irã, ao que tudo indica, parece disposto a ditar o ritmo desse abalo, consciente de que mantém nas mãos o termômetro da estabilidade global e de sua própria sobrevivência como uma república islâmica que insiste em se contrapor aos desejos coloniais das potências ocidentais. Não é, como se sabe, uma história nova. Yan Boechat
Nas águas turquesas e estreitas que separam as montanhas escarpadas do Irã das planícies áridas de Omã, o mundo assiste ao que analistas já chamam de a maior ”armamentização da geografia” da história moderna. O Estreito de Ormuz, uma artéria vital por onde flui um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do planeta, tornou-se o epicentro de um conflito que ameaça mergulhar a economia global em uma recessão profunda e imprevisível. Desde o início dos ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro, o regime de Teerã respondeu com o fechamento efetivo deste canal de apenas 33 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito. O que tem se seguido é um choque de oferta de energia sem precedentes e mais de três vezes maior do que o embargo petrolífero árabe de 1973, forçando o mundo a enfrentar uma volatilidade que muitos economistas acreditavam ter ficado no passado, em uma escala que desafia tanto a supremacia militar americana quanto a estabilidade das prateleiras de supermercados em São Paulo , das bombas de gasolina em Nova York e de farmácias em Nova Déli.
Ormuz tem sido um elemento estratégico nas campanhas militares iranianas desde que aquela região do mundo era conhecida como Império Persa. Ele funciona como a jugular nesta que talvez seja a rota marítima mais importante da economia mundial. Ao ameaçar “incendiar” qualquer embarcação que desafie suas ordens, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) reduziu o tráfego marítimo entre 70% e 90%, mergulhando a frota mercante global em uma paralisia nervosa. Em seu primeiro pronunciamento, o novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, voltou a reforçar a estratégia de manter o estreito fechado. Hoje, cerca de 200 navios estão presos no Golfo Pérsico, 150 deles superpetroleiros, estão sob ameaça de serem atacados caso tentem fazer a travessia. Navios com destino à China e a outros países parceiros do Irã, no entanto, têm sido autorizados a cruzar o estreito.
O estreito é palco de todo tipo de disputa há séculos. Uma das mais longevas aconteceu exatamente entre potências ocidentais e orientais. Portugal e o Império Otomano lutaram por quase um século por este que era um ponto estratégico pelo controle das rotas comerciais do Oceano Índico. Após conquistar Goa em 1510, os portugueses passaram a ocupar portos-chave da região e consolidaram o domínio sobre Ormuz em 1515, buscando monopolizar o comércio que percorria o Golfo Pérsico. Em 1552, o almirante otomano Piri Reis lançou uma ofensiva contra posições portuguesas, capturando Mascate e atacando Ormuz, mas acabou recuando para Basra, no atual Iraque, após saquear a região. Sua retirada foi considerada um fracasso em Istambul, e ele acabou executado. Nos anos seguintes, os otomanos tentaram reforçar sua presença naval no Golfo, mas derrotas sucessivas às forças portuguesas impediram a conquista definitiva do estreito. Apesar de novos confrontos esporádicos, o controle de Ormuz permaneceu nas mãos portuguesas, consolidando um equilíbrio de poder que limitou a presença naval otomana no Oceano Índico.
Agora, o combate não é em mar aberto, entre caravelas, galeões e galés. A eficácia do bloqueio iraniano reside em uma estratégia de guerra de assimetria brutal que Washington parece ter subestimado. Enquanto o governo de Donald Trump assegurava que a guerra seria “facilmente vencida”, os estrategistas militares americanos se depararam com uma realidade tecnológica desconcertante. O Irã assimilou as lições do conflito na Ucrânia e passou a usar enxames de drones Shahed-136 — aparelhos movidos por motores de motocicleta, muitas vezes feitos de isopor e custando cerca de 30 mil dólares — para saturar e cegar os sistemas de defesa aérea mais sofisticados do planeta. Radares americanos THAAD e Patriot, projetados para interceptar mísseis balísticos de milhões de dólares, lutam para distinguir essas pequenas aeronaves lentas de pássaros ou de voos civis. Em ataques coordenados, drones iranianos já atingiram centros de comando da Quinta Frota no Bahrein e radares de alerta precoce na Arábia Saudita, criando verdadeiros pontos cegos na vigilância aliada.
As dificuldades militares americanas são agravadas por uma lacuna logística crítica: a escassez de navios caça-minas. Ironicamente, os Estados Unidos desativaram seus últimos navios especializados na remoção de minas na região pouco antes do conflito, e a capacidade britânica — outrora essencial — encolheu drasticamente. Com o Irã dispondo de um arsenal estimado em até 6 mil minas marítimas, a tarefa de limpar o estreito sob constante ameaça de mísseis antinavio tornou-se, para muitos especialistas, um pesadelo tático que pode levar semanas, talvez meses, para ser resolvido. Há, ainda, o desafio de operar em águas tão próximas da costa iraniana e de extrema vulnerabilidade. Entre os americanos, ganha força a ideia de que, para controlar Ormuz, os EUA terão que enviar soldados para garantir uma espécie de “buffer zone” costeira (ou “zona-tampão”, uma área neutra estabelecida entre dois exércitos para evitar confrontos diretos). Acontece que, para estabelecer uma zona-tampão os Estados Unidos precisariam mobilizar milhares de soldados para ocupar um pedaço do território iraniano extremamente hostil. Com as eleições de meio termo se aproximando, essa não parece uma estratégia com apoio político doméstico, porque pode ampliar significativamente as baixas, hoje contabilizadas em 11 soldados mortos.
Águas turbulentas
As ondas de choque desse impasse já atravessaram os oceanos. O mundo enfrenta agora o que analistas classificam como o maior choque de oferta de energia da história. Os preços do petróleo Brent dispararam, rompendo a barreira psicológica de US$ 100 e alcançando picos próximos de US$ 120 no final de semana passado. Para a Europa, que apostou no gás natural liquefeito como alternativa ao gás russo, o fechamento de Ormuz tornou-se um desastre. Com a produção no Catar suspensa após ataques de drones, os preços do gás no continente subiram 75%, levando os governos a cogitar racionamentos e pacotes emergenciais de subsídios. Para os Estados Unidos os preços são sentidos nas bombas e nas cadeias de distribuição, mas não da mesma maneira que na década de 1970.
Hoje os EUA são os maiores produtores de petróleo do mundo. Desde que os americanos passaram a produzir petróleo a partir do fracking, uma tecnologia que retira óleo e gás presos nas rochas, o país passou a ser autossuficiente. Foi uma virada importante no jogo. A partir dos anos 2010, o petróleo do Oriente Médio deixou de ser vital para a economia americana, apesar de ela ainda flutuar ao sabor das cotações internacionais, como agora. Na Europa, o jogo se inverteu. Extremamente dependente do gás russo após a adoção da política de reaproximação com a União Soviética nos anos 1970, os europeus passaram a buscar opções novas depois da invasão da Ucrânia por Moscou. Estava se tornando crescentemente dependente do gás natural vindo do Catar, que agora se mostra uma fonte tão instável quanto a russa.
A dor econômica, porém, é profunda e desigual. No Brasil, seus efeitos se manifestam em múltiplas frentes. Como um dos principais destinos das exportações farmacêuticas da Índia, o país enfrenta o risco concreto de desabastecimento de medicamentos genéricos e vacinas. A logística indiana — responsável por produzir cerca de 60% das vacinas do mundo — depende de Dubai como centro estratégico de distribuição e de manutenção da chamada “cadeia de frio”. Com o porto de Jebel Ali e o aeroporto de Dubai danificados por ataques iranianos, o transporte de remédios essenciais para o mercado brasileiro tornou-se um percurso caro e imprevisível.
No campo, a agricultura brasileira, motor fundamental do PIB nacional, acompanha com apreensão o aumento dos preços dos fertilizantes. O bloqueio de Ormuz retirou do mercado um terço do suprimento mundial desses insumos, justamente quando a China, maior exportadora de fertilizantes nitrogenados, restringiu suas exportações para proteger o mercado interno. O salto nos preços, em alguns casos de mais de 35% em apenas uma semana, antecipa um aumento inevitável no custo dos alimentos, que deverá chegar às mesas brasileiras em um prazo de 1 a 3 meses. Para conter o impacto imediato nos transportes, o governo brasileiro decidiu zerar os impostos sobre o diesel — uma tentativa de estabilizar a economia antes que o choque petrolífero comprometa o crescimento. No entanto, a Petrobras ampliou o preço do combustível em R$ 0,38 nas distribuidoras a partir de hoje. No Ministério da Fazenda, a expectativa de inflação para esse ano já mudou de 3,6% para 3,7%.
Enquanto isso, a geopolítica das matérias-primas passa por uma transformação acelerada. Os Estados Unidos, pressionados a reduzir a dependência da China e da instabilidade do Oriente Médio, dão sinais de que pretendem ampliar a ofensiva bilionária para garantir acesso aos minerais críticos do Brasil. Metais como cobre e níquel, essenciais para a transição energética e para a indústria de semicondutores, tornaram-se ativos de segurança nacional, especialmente diante da escassez de enxofre — subproduto do refino de petróleo do Golfo necessário para o processamento desses minerais — que já paralisa indústrias da Indonésia à África.
As próximas semanas prometem volatilidade e incerteza. O mercado de energia permanece em alerta permanente, reagindo a cada sinal vindo da Casa Branca ou de Teerã. A liberação coordenada de 400 milhões de barris das reservas estratégicas pela Agência Internacional de Energia foi recebida com alívio, mas também com inquietação: trata-se de uma medida de alcance limitado, incapaz de compensar os cerca de 20 milhões de barris diários que deixaram de circular. Nesta sexta-feira, o preço do petróleo seguia em alta, superando a casa dos US$ 100 o barril do Brent e a US$ 99 o barril do WTI.
Analistas trabalham com dois cenários principais. Em um cenário de bloqueio prolongado, o barril de petróleo poderia alcançar entre US$ 150 e US$ 200, empurrando o mundo para uma recessão global marcada pela estagflação — um fantasma dos anos 1970 que muitos acreditavam superado. Países mais pobres da Ásia, como Paquistão e Bangladesh, já enfrentam os primeiros sinais dessa crise, fechando escolas e lidando com protestos por combustível. Em um cenário de abertura parcial do estreito, possivelmente sob escolta naval americana, a estabilidade ainda seria frágil, com custos de seguro elevados e o risco permanente de derramamentos ambientais mantendo os preços altos e a inflação persistente.
O que emerge desse conflito é a percepção de que a infraestrutura que sustenta a prosperidade global é muito mais vulnerável do que se imaginava. O Estreito de Ormuz deixou de ser apenas um corredor geográfico para se tornar o ponto de ruptura de uma ordem internacional que, por décadas, dependeu do fluxo livre de energia e de mercadorias. Hoje, cada navio parado ao largo das costas de Omã é um lembrete de que, em um mundo profundamente interconectado, um choque em uma estreita faixa de água no Oriente Médio pode redesenhar o destino econômico de países a milhares de quilômetros de distância — do agronegócio do Mato Grosso às indústrias de tecnologia de Seul. E o Irã, ao que tudo indica, parece disposto a ditar o ritmo desse abalo, consciente de que mantém nas mãos o termômetro da estabilidade global e de sua própria sobrevivência como uma república islâmica que insiste em se contrapor aos desejos coloniais das potências ocidentais. Não é, como se sabe, uma história nova.
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