Enviado pelo amigo Maurício David, em 25/03/2026:
Caro Maurício (do Rafael Pertusier):
Há muito sensacionalismo circulando por aí. A principal questão é que não se pode prever nada numa situação que é de imprevisibilidade intrínseca; ainda mais com os posicionamentos erráticos do homem-laranja. Trabalho com previsões há tempo suficiente para saber que num momento como esse qualquer projeção tem valor presente igual a zero. Então o que fazer quando ao menos sabemos o que não sabemos? Espero conseguir chegar lá ao final deste e-mail.
Em termos de volumes absolutos e relativos à oferta global, a interrupção atual é maior que as de 1973 e 1979, que, não preciso dizer, transformaram a economia global. Mas só saberemos se a crise atual terá merecido o título de “choque” quando a situação avançar. Primeiramente, 1973 e 1979 foram mais choques de demanda que de oferta. Explico-me: choques de demanda via pânico de compra, deflagrados por um evento de oferta e ausência de qualquer política coordenada pelos consumidores. Isso num contexto de inexistência de capacidades ociosas ou de estoques estratégicos (em 1979 até havia alguma coisa, mas não foram usados justamente porque a subtração de oferta não fôra suficientemente grande para acionar o gatilho, o que reforça o ponto do choque de demanda). Como se costuma dizer hoje, foram tempestades perfeitas. Poderia ter havido vários outros desfechos, alguns com desenhos de mercado muito mais inteligentes. A consequência mais significativa foi a transformação da OPEP de frente de negociação em cartel de facto. E a desverticalização global da indústria, que deu início a uma era de maior volatilidade de preços de petróleo.
Hoje algumas dimensões são bem distintas: há estoques estratégicos (cuja administração é a razão de ser na Agência Internacional de Energia, que nos últimos tempos se transmutou em ativista ambiental..); a intensidade de uso do petróleo da economia global é a metade daquela da década de 1970; e há alguma capacidade ociosa (na Rússia, infelizmente), bem como maior velocidade de reação de oferta (os ciclos de investimento da nova oferta de petróleo dos EUA são uma fração da produção convencional). Por isso, veremos se o impacto sobre os preços do petróleo será ou não da ordem de grandeza de 1973 ou 1979.
Tampouco se vê, por ora, pânico na demanda; ao contrário, a crise de 2022 ainda está fresca na memória e muitas medidas, dos mais variados sabores (nem todos amargos quanto o petróleo) estão sendo implementadas. O uso dos estoques estratégicos é o principal instrumento para isso. Há também rotas alternativas que vão aliviar parte do que está impedido de passar pelo Hormuz. É interessante que os principais organismos não conseguem aferir o tamanho da subtração à oferta... num mercado que opera na margem, existe um nevoeiro de dados que sempre foi muito espesso.
Para o gás natural a situação é mais complexa. O gás natural não é commodity como o petróleo, pois ainda flui ou dentro de relações contratuais relativamente rígidas (necessárias para se garantir os fluxos de caixa para os investimentos muito mais intensivos em capital, por unidade energética, que o petróleo). Pode-se falar em preços internacionais de gás natural, mas não necessariamente eles definem preços nacionais. Mesmo os EUA têm preços insulares, que respondem a fundamentos essencialmente locais, malgrado ser, hoje, o maior exportador do energético pelo modal de GNL (in a nutshell, como a densidade energética do gás natural é cerca de 1.000 vezes inferior ao petróleo, em condições normais de temperatura e pressão, o que viabiliza seu comércio quando não por gasodutos é sua liquefação e transporte em navios).
Quem está mais exposto a essa interrupção são os países da Ásia, que fisicamente dependem daqueles contratos, mas isso não quer dizer que a crise não afete todos os importadores – a depender de como importam. Quem depende de comprar no mercado spot vai ter que competir e pagar os preços mais altos. É briga de foice. Mesmo que compra em contratos e tem seus preços definidos por cláusulas também vai pagar mais caro, pois essas cláusulas tipicamente vinculam o preço das cargas ao petróleo ou a alguma referência internacional de gás natural. Só quem importa dos EUA em contratos está mais protegido, pois os preços de lá, que indexam essas vendas, são, como falei, insulares.
Temos uma referência não muito distante na memória (embora se padeça gravemente de falta de memória institucional) que foi a crise de 2022. As medidas mais objetivas do custo dessa crise são três: a conta de 650 bilhões de euros (em programas de apoio); a falta de coordenação desses programas, cada país fazendo suas escolhas às expensas dos outros; e a desindustrialização da Europa, que agora sofrerá outro baque. A Europa sofreu com a perda do gás natural da Rússia, mas os preços das referências internacionais subiram igualmente.
Mas há que se reconhecer que de 2022 até 2024 o mercado mundial de gás natural foi extremamente sortudo, pois houve invernos amenos (muito atípicos) o suficiente para poupar o uso dos estoques. Não poderia frisar mais: não tivesse sido o clima (elemento totalmente imprevisível nas projeções), teríamos vivido uma crise energética global sem precedentes, com efeitos absolutamente nefastos. Devemos essa a São Pedro. Apesar da chance, contudo, o que marcou as escolhas públicas no esteio da crise foi uma grande disfuncionalidade dos processos de decisão. A crise ensinou-nos uma lição e deixou uma questão de múltipla escolha para respondermos. A lição é que a transição energética não é um tele-transporte para um futuro idílico; a questão é se o copo está meio cheio ou meio vazio: meio cheio se formos capazes de reconhecer os graves erros de escolhas de políticas energético-ambientais (mais disso adiante) e, com isso, aprender e, daí para a frente, fazer melhor; ou meio vazio, se isso revela uma disfuncionalidade e incapacidades intrínsecas de tomadas de decisão em nossas sociedades. Deixo a vocês a resposta...
Que escolhas foram essas? Uma das mentes mais originais sobre a questão energética é o professor Albert Bressand, da Columbia (ele que me convidou a escrever o livro sobre a Maldição do Petróleo). Tratamos a questão ambiental de forma quase moral, portanto absoluta, quando ela é fundamentalmente uma questão relativa, portanto mais afeita ao pensamento econômico. Parece que se esquece que as metas de emissão são de net-zero: net. Mas o foco não está no saldo, sim nas emissões. Isso leva a uma gama de decisões ruins, como, por exemplo, a demonização de toda energia fóssil quando, pelo menos num primeiro momento (e talvez no futuro também), o gás natural é parte da solução, a “low hanging fruit” das políticas ambientais. O que a Europa fez foi desincentivar sua própria produção, trazendo orgulhosamente ao peito suas medalhas de redução de emissões, quando, na verdade, não mudaram seus padrões de consumo e simplesmente tornaram-se dependentes do gás natural russo, portanto exportando suas emissões. Aliás, em minhas andanças por aí, o que ouço de países produtores de petróleo & gás em África é que as restrições aos investimentos fósseis (Banco Mundial na vanguarda dessas políticas) é uma forma de tornar o financiamento proibitivo a quem não tem mercados de capitais, ou seja, de expulsar os países sub-desenvolvidos do (ainda, agora muitíssimo) lucrativo negócio.
Aliás, quem vai sair vitorioso da guerra é o carvão, tal qual em 2022.
Mas a hipocrisia não termina aí, diga-se de passagem. Poucos sabem, mas um dia depois de eclodir a guerra na Ucrânia, malgrado todo o discurso, a Europa maximizou todas as nominações de gás natural da Rússia. E ainda é a maior importadora de GNL daquele país - o que chamamos de segredo pior guardado da indústria... Hoje é fácil à Europa dizer que não irão mais importar da Rússia quando foi este país que interrompeu seu fornecimento como forma de penalizar a Europa pelo apoio à Ucrânia. Aliás, a manipulação do mercado pela Rússia já estava em curso desde 2021, em preparação para uma guerra que claramente já estava planejada, mas isso é um outro assunto... A explosão do gasoduto que passava pelo Mar Báltico é uma questão ainda muito confusa que foi convenientemente esquecida. Não quero ser leviano em fazer alegações sem evidências, mas o que se comenta à boca pequena é que foi a Ucrânia (cui bono?). Minha crença nisso é reforçada pelo fato alguns artigos jornalísticos bombásticos (daqueles investigativos muito bem feitos) terem tido repercussão nenhuma. Mas não passa de crença, ou, no que nunca consegui traduzir satisfatoriamente, um educated guess...
A guerra de agora será um golpe de misericórdia à competitividade industrial da Europa, já em notável processo de desindustrialização. E pularam da panela e caíram no fogo. Grande parte de suas escolhas de políticas energéticas foi justamente o que deu à Rússia um poder de influenciar o mercado de gás natural que ela antes não tinha. Agora estão expostos ao fornecimento dos EUA e com uma peculiaridades: ao mesmo tempo em que vêm dizendo que vão se tornar independentes do gás russo, seu discursos continua a elencar o gás natural como vilão ambiental, com metas muito restritivas de emissão. Quem vai querer se vincular em contratos de longo prazo com o mercado europeu? Pois é... poucos. Disto decorre que as importações dos EUA que salvaram a Europa são predominantemente de modalidade não contratada, isto é, têm preços definidos pela situação do mercado a cada momento, quando poderiam, se feitos contratos de longo prazo com vinculação aos preços dos EUA, estar totalmente isoladas dos efeitos da crise. Parece que o copo está meio vazio, mesmo...
Atenua muito a crise o fato de estarmos no meio de um fortíssimo ciclo de expansão de capacidade de exportação de GNL, capitaneado pelos EUA e em resposta à crise de 2022. O que se espera entrar de nova oferta até o final da década, contudo, é a metade do que segue interrompido no Oriente Médio. E mesmo que a crise se resolva amanhã, haverá um grande esforço de reposição dos estoques (o consumo de gás natural é sazonal, pela demanda por calefação) e haverá um efeito mais duradouro (até 5 anos), resultado das instalações que foram atacadas pelo Irã e que seguirão inoperantes.
Para além disso, o que muita gente esquece é que pelo estreito de Hormuz saem mas também entram muitos outros produtos. Existe uma dependência da importação de alimentos que infelizmente não recebe muita atenção (aqui) para que tenhamos uma melhor noção da dimensão da crise. E igualmente afetadas estão as exportações de fertilizantes. A alta dos preços do gás natural, aliás, torna a produção de fertilizantes inviável em muitos mercados, tal como ocorreu em 2022. Os impactos serão sentidos. Essa é uma crise de múltiplos vetores.
Por fim, há que se notar que a infra-estrutura de exportação energética do Irã segue relativamente intacta, o que deixa aberto um caminho para que haja futuro fiscal depois da guerra. Então todos os lados ainda têm muito a perder.
Então volto ao primeiro parágrafo. O que tirar disso tudo? Não é o momento de tomar decisões comerciais. Ou, se inevitáveis, escolher o atributo da segurança de oferta. Quem trabalha com cenários tem o melhor instrumento para análise, até porque os casos extremos são binários: Hormuz aberto ou fechado. E é nessa hora que vem à tona a percepção daquilo que deveria ser a prioridade primeira de qualquer política energética: a segurança de fornecimento. No UK, por exemplo, país tomado como paradigma para o processo de abertura do mercado de gás natural em curso no Brasil, 20 anos depois de concluída sua reforma, a crise de 2022 fez falir a maior parte das empresas que promoveram a competição. Uma investigação parlamentar de lá concluiu, com grande clareza e síntese, que a promoção da competição foi feita às expensas da segurança de fornecimento; e que um melhor equilíbrio entre esses atributos deveria ter sido buscado.
Dito isto, e no Brasil?
Bem, me sinto apto a falar apenas do gás natural, pois sei o que posso e o que não posso falar. Mas isso deixo para outro momento. Só digo que estamos aprendendo as lições erradas... e aplicando-as com o gosto que é típico do nosso rentismo.
Abraços do amigo que muito te admira,
Rafael
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