domingo, 22 de março de 2026

Por que a Ucrânia é tão importante para a Rússia? -

 

Por que a Ucrânia é tão importante para a Rússia?

É só ver dois tipos de mapas: um puramente geográfico, outro decisivamente importante para a origem histórica da Rússia não só como Estado, mas sobretudo como nação com uma cultura e identidade coletiva distintivas.

Repare bem na situação da Ucrânia em relação à Rússia e vice-versa.

1 - A Ucrânia ocupa toda a fronteira sul da Rússia.

2 - O litoral ucraniano é logo ali colado ao estreito litoral que a Rússia tem no Mar Negro e lhe dá acesso ao Mediterrâneo (mesmo excluindo dessa conta agora a península da Crimeia, que já é de fatorussa depois da anexação efetuada em 2014, embora ainda tenha status oficial indefinido).

O grande calcanhar-de-Aquiles da Rússia para se projetar no mundo globalizado sempre foi e continua sendo o limitado acesso da Rússia Europeia (onde vivem 75% dos residentes da Rússia) ao litoral realmente útil, pois ela tem uma costa gigantesca (tão gigantesca quanto gelada) voltada para o Mar Ártico e praticamente no Polo Norte, muito pouco utilizada (as mudanças climáticas podem vir a mudar isso daqui a umas gerações, mas estamos no presente).

3 - Toda a fronteira leste da Ucrânia com a Rússia consiste em planícies de estepes e florestas-estepes (ou seja, nada de desertos potencialmente mortais ou vegetação muito densa, difícil de atravessar) ou planaltos baixos com no máximo uns 500 metros de altitude, de modo que basicamente não existe nenhuma fronteira natural bem delineada e, menos ainda, alguma barreira geográfica entre a Ucrânia e a Rússia. Transferir gente, equipamentos e veículos para lá e para cá é simplíssimo.

4 - A partir da Ucrânia, é bem fácil alcançar várias das cidades mais importantes da Rússia, como Rostov-do-Don, Krasnodar, Kursk, Voronej, Volgogrado, Saratov e, sim, até mesmo Moscou.

5 - Ao norte da Ucrânia, Belarus é um aliado quase incondicional da Rússia, então não é um problema no curto a médio prazo, enquanto os 3 países bálticos (Lituânia, Letônia e Estônia), que praticamente "fecham" o parco acesso da Rússia ao Mar Báltico e ao Mar do Norte, já são, infelizmente para os russos, uma derrota mais do que consolidada para os esforços diplomáticos e militares russos, definitivamente "puxados" para o lado da OTAN (mapa abaixo).

Numa eventual guerra futura, com certeza seria bem difícil a Rússia conseguir abastecimentos por via marítima nessa parte do seu litoral. Basicamente, exceto pela Ucrânia, que é o ponto de interrogação altamente disputado, a Rússia está hoje rodeada de potenciais rivais da OTAN, aliança sob o controle dos EUA, a oeste e ao sul (Bálcãs, Turquia), bem como por aliados quase certos dos EUA a leste (Japão, Coreia do Sul).

A Ucrânia é para a Rússia, em termos geoestratégicos e políticos, o que o México ou o Canadá é para os EUA. Imaginem só o escarcéu que seria se um dos dois decidisse fazer parte dum tratado de aliança militar mútua com a China ou a Rússia!

Ademais, existe um fator digamos mais "emocional", e não só puramente racional, que é o fato de que:

A Rússia e a Ucrânia são ambas herdeiras dos Rus' de Kiev, a imensa confederação de principados eslavos com suas origens no domínio e centralização de tribos eslavas por uma elite político-militar minoritária de varangianos (um subgrupo dos nórdicos germânicos vindo da Suécia oriental).

Os russos e ucranianos são dois povos eslavos orientais que não só têm uma origem comum e vários aspectos culturais e linguísticos bem semelhantes, mas também trajetórias políticas que, até certo período, foram umbilicalmente interligadas. A partir de fins da Idade Média, uma identidade mais distintamente ucraniana começou a aparecer, muito ligada à emergência do modo de vida cossaco, bem como sob influência bem mais forte de potências mais ao oeste, como a Confederação Polaco-Lituana.

Muito mais tarde, a Ucrânia voltou a estar junto com os russos sob o domínio do Império Russo, uma derivação expansionista do Grão-Ducado de Moscou, um dos fragmentos do antigo Rus' de Kiev, e essa posição subalterna para com Moscou foi passando de dinastia em dinastia e regime em regime por séculos (tempo bastante para, sem dúvidas, muitos russos começarem a ver a Ucrânia como um território tradicionalmente russo).

Isso continuou até que a Ucrânia, após começar a entrar na onda do nacionalismo que encorajou múltiplos separatismos Europa afora no século XIX, foi posta sob o domínio soviético, sucessor direto do Império Russo. Em 1917, sob a Revolução Socialista, foi declarada pela primeira vez uma república com o nome de Ucrânia e com fronteiras parecidas com as de hoje, e em 1922 a Ucrânia tornou-se uma república (suposta e teoricamente autônoma) da URSS, embora fosse óbvio que os russos é que continuavam sendo a força hegemônica no império soviético.

Assim, a Rússia e a Ucrânia são, mais ou menos, comparáveis a Portugal em relação à Galiza, a Inglaterra em relação à Escócia ou mesmo à Áustria em relação à Alemanha (não fosse ter havido uma uniformização linguística e, um tanto menos, convergência cultural bem mais intensas entre as duas regiões e respectivos povos, nesses dois últimos casos).

Com a industrialização e urbanização aceleradíssimas da União Soviética, processo já começado ainda nos tempos da dinastia Romanov, após meados de 1860–1870, houve uma migração gigantesca de russos para o território ucraniano, sobretudo a metade oriental do país e a península da Crimeia. A Ucrânia, por ter litoral para o Mar Negro, proximidade com o resto da Europa, terras muito férteis e enormes depósitos de carvão mineral (essencial para o início da industrialização), era muito atrativa para a nascente indústria e o comércio internacional.

Consequentemente, o porcentual de russos étnicos e de ucranianos falantes de russo (isto é, não de origem russa, mas preferencialmente usuários do russo como idioma do cotidiano) cresceu muito entre meados do século XIX e fins do século XX, de modo que hoje a Ucrânia é um país na prática bilíngue e com uma vasta minoria que se considera etnicamente russa e quer que esse caráter nacional hoje parcialmente russo, e não só ucraniano, seja reconhecido oficialmente pelo Estado ucraniano.

É natural que, com tantas semelhanças nas raízes culturais, genéticas e sociopolíticas e dezenas de gerações sob as mesmas estruturas governamentais, bem como muitos laços reforçados nos últimos séculos em migrações maciças entre Ucrânia e Rússia, muitos russos tenham passado a ver a Ucrânia como um "país especial", um "aliado natural" ou mesmo uma extensa da civilização da Grande Mãe Rússia, e não como uma nação soberana que é exatamente como qualquer outra nação estrangeira.


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