quinta-feira, 19 de março de 2026

A queda do V-Dem - Augusto De Franco (Revista ID)

A queda do V-Dem

A esquerda acadêmica está capturando o instituto

O V-Dem vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo dos institutos que monitoram os regimes políticos no mundo

O V-Dem (Varieties of Democracy), da Universidade Gotemburgo, tão admirado por todos nós, democratas, entrou numa trajetória decadente de perda de credibilidade. 

Agora acabou de lançar seu relatório de 2026, intitulado “Unraveling The Democratic Era?”. Felizmente corrigiu, nesse relatório, o erro crasso (cometido no ano passado) de classificar a África do Sul como democracia liberal. Agora ela voltou para seu lugar: de democracia (apenas) eleitoral (quer dizer, não-liberal). 

No relatório de 2006, o V-Dem desclassificou os EUA como democracia liberal (o que parece estar correto, considerados os ataques do MAGA e de Donald Trump à democracia americana e às democracias liberais do mundo inteiro - embora a classificação do V-Dem seja de regimes políticos, não de governos). A The Economist Intelligence Unit, mais coerente, já há muitos anos, classifica dos EUA como flawed democracy (quer dizer, não como full democracy). 

Há vários problemas com o V-Dem. O principal deles é ter montado uma rede de consultores acadêmicos, espalhados por diversos países, predominantemente simpáticos a uma faixa do espectro político. Isso introduz um viés nas análises e distorce as avaliações. Por exemplo, eles sustentam que a democracia no Brasil está melhorando num ritmo mais acelerado do que o de todos os demais países, talvez porque Bolsonaro, que não era democrata, saiu do governo e está preso - o que é verdade; mas, novamente, regime não é governo. 

De fato a democracia brasileira se recuperou de uma tentativa desastrada (e mal-articulada) de golpe, promovida pelo governo anterior, mas pelos próprios critérios metodológicos do V-Dem ela não continuou melhorando depois disso, pelo contrário. Basta ver a crise institucional que se instalou a partir da aliança do governo com a suprema corte para compensar o fato de ser minoria no parlamento.

Considere-se que, de acordo com a pesquisa “Brasil no espelho”, a confiança no Brasil (mais do que uma medida, a própria definição de capital social) anda baixíssima. O brasileiro não confia nem mesmo em seus vizinhos. Apenas 6% dos entrevistados concordaram com a frase segundo a qual se pode confiar na maioria das pessoas, o que colocou o país à frente apenas à frente do Zimbábue em um ranking sobre esse tema. Na Noruega, esse índice era de 72%. Felipe Nunes, coordenador da pesquisa, conclui que esse déficit de confiança não é um mero estado de ânimo conjuntural. Ele interpreta isso como uma manifestação da “infraestrutura invisível da sociedade”. Ele não disse, mas está falando do capital social. Pois bem, com esse nível de capital social como é que o Brasil pode estar melhorando seus índices de democratização (mais intensa e rapidamente do que qualquer outro país do mundo) como se aventura a sustentar o V-Dem)? Entendam que há um erro grave aí.

Por último, para classificar um regime político - como democracia liberal, democracia eleitoral, autocracia eleitoral ou autocracia fechada - o V-Dem não leva em conta a orientação do país em política externa, o que é absurdo. E ainda há aqui uma grave deformação. Se um governo implanta uma política externa de apoio à ditaduras anti-imperialismo norte-americano - como Cuba, Venezuela, Nicarágua, Angola, Rússia, China, Irã - isso não afeta em nada sua classificação como democracia. Mas se um governo apoia Trump, Bukele, Modi, Orbán, Erdogan, Netanyahu, aí, sim, significa: esse governo passa a ser encarado como parte da "internacional fascista" e isso conta, subjetivamente, para fazer decair o regime político do país nos rankings mundiais de democracia.

O alinhamento do V-Dem é tão escandaloso que ele chegou a escrever no seu relatório em tela:

“A autocratização do Brasil começou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e acelerou após a eleição do populista de direita Jair Bolsonaro em 2018. Ataques à mídia, tentativas de minar as eleições, o legislativo e o judiciário se seguiram. A reviravolta ocorreu quando Luís Inácio “Lula” da Silva, apoiado por uma coalizão de nove partidos, venceu as eleições de 2022. Contudo, a sociedade brasileira permanece profundamente polarizada, e as eleições de 2026 serão decisivas para o futuro”. 

Essa é uma narrativa típica da esquerda populista (lulopetista). O V-Dem está insinuando que se Lula não for reeleito mais uma vez (a quarta) o Brasil entrará novamente em processo de autocratização? Vamos falar sério: o Brasil não se autocratizou após o impeachment de Dilma, que foi legítimo - dado o desarranjo que seu governo populista de esquerda instalou no país - e perfeitamente legal.

Os consultores acadêmicos, sempre eles: puxando, retorcendo, distorcendo. Fizemos, com a ajuda da IA, um levantamento dos acadêmicos com vínculos com o V-Dem no Brasil. Não vamos divulgar a lista com os vinte e dois nomes encontrados, é claro. Alguns são bem conhecidos como intelectuais militantes do PT. Vale apenas dizer que se fizermos uma pesquisa de intenção de voto nesse universo, Lula vencerá com um resultado que será muito parecido com o daquelas eleições na Coreia do Norte.

Ainda vamos nos debruçar mais longamente sobre o relatório do V-Dem que colocou Canadá e Reino Unido como democracias apenas eleitorais com tendência de democratização inferior a do Brasil. E que também não incluiu Grécia, Portugal e Suriname como democracias liberais.

Segundo o relatório do V-Dem 2026, temos 31 democracias liberais no mundo atual (1), um número semelhante ao dos seus relatórios anteriores. O problema são as inclusões e exclusões especiosas (e abruptas, como o foi o caso da África do Sul) da lista. Será que alguém disse que a África do Sul deveria entrar porque era do BRICS (pelo menos um dos consultores brasileiros do V-Dem se dedica ao BRICS) e depois outros técnicos viram que manter isso era insustentável? Será que o V-Dem está se preparando para promover o Brasil à condição de democracia liberal no próximo relatório? É o que tudo indica. Se Lula vencer a próxima eleição, é óbvio.

Assim o V-Dem (Varieties of Democracy, da Universidade de Gotemburgo) vai se afastando das mais reconhecidas instituições que monitoram os regimes políticos no mundo, como a Freedom House e a The Economist Intelligence Unit. Vai virando um bunker da esquerda acadêmica, de raiz classista (marxista) ou identitarista, no universo desses institutos.

Nota

(1) Democracias Liberais V-Dem 2026 (note-se que o Reino Unido foi retirado da lista):

1. Australia

2. Belgium

3. Costa Rica

4. Czechia

5. Denmark

6. Estonia

7. Finland

8. Germany

9. Iceland

10. Ireland

11. Japan

12. Latvia

13. Luxembourg

14. Netherlands

15. New Zealand

16. Norway

17. Seychelles

18. South Korea

19. Spain

20. Sweden

21. Switzerland

22. Taiwan

23. Austria

24. Barbados

25. Chile

26. Cyprus

27. France

28. Italy

29. Lithuania

30. Trinidad and Tobago

31. Uruguay

Revista ID é uma publicação apoiada pelos leitores.


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