quinta-feira, 14 de maio de 2026

Já chegamos ao último grau do fanatismo político? Talvez ainda não! - Paulo Roberto de Almeida

Já chegamos ao último grau do fanatismo político? Talvez ainda não!

Paulo Roberto de Almeida 

Nos anos 1930, pacíficos alemães — supostamente um dos povos mais cultos da Europa —, que poderiam estar tranquilamente lendo Goethe ou ouvindo alguma sinfonia de Ludwig van Beethoven, foram enredados numa nova e grave crise econômica — que já tinha destruído suas poupanças numa versão anterior —, duplicada pela exacerbação de paixões politicas opostas, que começaram a minar os fundamentos da República de Weimar, dotada de uma das constituições mais progressistas e inovadoras do mundo civilizado. 

Daí para uma das pregações políticas mais atraentes oferecidas no mercado das opções eleitorais foi apenas um passo, e depois para um mergulho na adesão fatal ao “salvador da nação”.

Ao longo dos anos seguintes, a adesão às mensagens de ódio fez com que os “pacíficos” eleitores passassem a frequentar os conclaves mobilizadores e a denunciar vizinhos, por alguma vaga sensação de que eles eram nocivos ao bem-estar da sociedade alemã. A sequência é bem conhecida na História: o comportamento brutal induzido pelo supremo líder levou à catastrofe da guerra e ao horror do Holocausto, complementado pelas ações individuais de fanatismo e de matança serial.


Ainda não chegamos a esse estágio, mas a veiculação de vídeos de pessoas bebendo um detergente por acaso detectado como possível indutor de contaminação por bactéria numa análise técnica me fez pensar em como a mente humana pode ser frágil em face de apelos politicos persistentemente veículados como foi o caso do nazismo e do hitlerismo na Alemanha dos anos 1930 e primeira metade dos anos 1940.

De fato, é quase incompreensível como um povo culto como o alemão foi fanatizado de maneira tão absoluta que foi capaz de perpetrar as brutalidades mais atrozes no curso da guerra (e mesmo antes, nas exações contra os judeus, logo depois contra certas minorias e deficientes em algum grau.


Não, ainda não chegamos lá, mas certas imagens nos últimos dias me deixaram bastante preocupado. Até onde a estupidez humana pode levar a gestos e comportamentos insensatos? Não estamos no último grau do famatismo politico, pelo menos ainda não. Mas as sementes já foram plantadas anos atrás e o que eu pensava tratar-se de um fenômeno passageiro parece ter se transformado num movimento caótico, mas portador de algumas disfunções talvez preocupantes para o futuro de uma nação amena e civilizada.

Meu “talvez” do título foi muito hesitante, pois algumas reações dessa tribo de aderentes pode ser reveladora de tendências mais profundas. Algumas características da personalidade de um dirigente de uma grande democracia, como detectadas por psiquiatras dos mais competentes, demonstram como certos instintos destruidores podem ser facilmente transmissíveis a um maior número de pessoas, possivelmente propensas a comportamentos pautados por profunda alienação da realidade.

Não tenho pretensões à psiquiatria política, mas tenho a impressão de que voltamos às paixões da pandemia.

Não esperava isso dos brasileiros, pois sei das mortes não “necessárias”, mas provocadas por lideranças das mais desequilibradas, próximas de certos precedentes dos mais tristes…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 14/05/2026


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