quinta-feira, 21 de maio de 2026

Tensões geopolíticas: então e agora - Paulo Roberto de Almeida

Tensões geopolíticas: então e agora 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.

Reflexões sobre um conceito e especificidades históricas 

Quando se fala em “tensões geopolíticas”, a tendência de analistas acadêmicos, ou até dos jornalistas, parece ser a de colocar as atuais tensões, supostamente existentes entre as três grandes potências da atualidade – ou seja, EUA, China e Rússia –, no mesmo quadro histórico-mental das antigas ou tradicionais “tensões geopolíticas” do planeta, seja a do antigo “equilíbrio de potências”, entre 1870 e 1914, seja a das ameaças das potências revisionistas dos anos 1930 (Itália fascista, Alemanha nazista e Japão militarista), todas elas expansionistas, seja ainda aquelas existentes na Guerra Fria dos anos 1947-1991, agora chamada de Primeira Guerra Fria, na suposição de que já entramos numa Segunda Guerra Fria, entre EUA e China, agora a segunda maior do mundo, depois dos EUA, ao que parece em declínio irreversível (sobretudo sob o desequilibrado presidente Trump).

Não tenho certeza de que o mesmo modelo se aplica, e que existam, realmente, “tensões geopolíticas” entre as três. No mundo do jornalismo, tradicional ou opinativo (isto é, de análise das matérias, topicamente ou colunistas), todos mencionam as “tensões” existentes entre as três grandes potências, sendo todas as demais – União Europeia, Índia, Brazil, Indonésia etc. – meros coadjuvantes, em aliança ou coordenação com algumas dentre as três grandes. Se aplicarmos o “padrão Trump” – na verdade, não existe nenhum padrão, apenas um estilo confuso – de análise, as “tensões” só existiriam entre os EUA e a China, como aliás já revelado em inúmeros “alertas” saídos do Pentágono, revelando sua paranoia tradicional contra o contendor do momento, ou colocado no centro do possível futuro conflito entre essas duas, tal como exemplificado pelo livro do professor Graham Allison, de Harvard, sobre a “armadilha de Tucídides” no eventual conflito direto entre as atuais Atenas estabelecida (Washington) e a Esparta ascendente (China).

Se eu interpreto bem o que pensa (se ele pensa) e o que agita o desequilibrado presidente americano, o que ele pretende, realmente, não é exatamente um confronto com as outras duas potências – sobretudo não com a Rússia, da qual ele é um aliado, senão um serviçal –, mas sim uma espécie de Yalta 2, ou seja, uma reunião fotografada entre os três grandes líderes mundiais, devotados a uma nova “divisão do mundo” em suas respectivas “zonas de influência”. Trump parece que veria com extrema satisfação uma nova foto histórica na mesma posição de 1945 – Roosevelt, Stalin, Churchill – apenas que com ele ao lado de Putin e Xi Jinping, “resolvendo” os problemas do mundo.

Se for realmente isso, o que Trump ainda não conseguiu, não haveria, então, nenhuma “tensão geopolítica” de qualquer tipo entre os novos três grandes, mas apenas uma convivência aceitável entre elas, de maneira a dividir os “espólios” do resto da humanidade. Não imagino, tampouco, que Xi Jinping se seduziria por uma reunião e uma foto desse tipo, pois isso o colocaria como uma espécie de simples coadjuvante num cenário desenhado e animado por Trump, que é o megalomaníaco do momento. Putin aceitaria sem hesitação uma tal possibilidade, pois dos três ele é o único em decadência real, em dificuldades de sobrevivência, ao ter decidido erradamente, cinco anos atrás, conquistar um trânsfuga do antigo império soviético, aliás o mais desenvolvido industrialmente.

Em conclusão, não creio que as atuais “tensões geopolíticas”, se de fato existem, o que ainda precisa ser discutido, tenha qualquer coisa a ver com as tensões do passado, que levaram a duas conflagrações globais e a um impasse de quatro décadas entre um Atenas triunfante e uma Esparta que transpirou, se exibiu, como dominante e ameaçadora durante os setenta anos de existência do “comunismo”, e depois estrebuchou, deu dois suspiros e simplesmente morreu de inanição própria, jamais vencida pelo capitalismo ou pelo imperialismo americano. Algumas analogias permanecem entre a primeira Guerra Fria e a supostamente atual, como por exemplo no “keynesianismo militar” do presidente Reagan e sua “guerra nas estrelas”, e o atual projeto de Trump de protagonizar um novo “domo de ouro”, já denunciado por Putin e Xi como desestabilizador dos “equilíbrios geopolíticos” atualmente existentes. Não creio que esse projeto megalomaníaco seja factível, tendo em vista o grande buraco nas contas públicas dos EUA, mas ele oferece matéria para jornalistas e acadêmicos.

Enquanto isso, la nave va, isto é, o mundo caminha mais pela arrogância dos poderosos do que pela racionalidade dos estadistas (se é que existem atualmente), e assim permanecerá pelas próximas décadas, até que um novo Hegemon se afirme (a China, previsivelmente), outro pretendente afunde de vez – a Rússia é uma séria candidata a ser o Reino Unido do século XXI – e os EUA, sob um presidente normal consiga restabelecer as bases de sua preeminência econômica, tecnológica e militar. Por enquanto vamos continuar nesse “balé geopolítico” entre os três grandes, o que afeta o resto do mundo, mas não ao ponto de prejudicar suas possibilidades de desenvolvimento autônomo (desde que possuam projetos nacionais compatíveis com suas possibilidades reais, o que não parece ser o caso do Brasil atual). Quanto aos atores “juniores”, como o próprio Brasil, isto é, as potências médias, eles fariam melhor de se aliar entre si, para cuidar de seus assuntos afins, o que compreende se proteger contra as maldades dos grandes, em lugar de procurar qualquer alinhamento ou parceria estratégica com algum deles, sabendo que eles não são confiáveis.

Finalmente, essa coisa de uma “nova ordem global multipolar” é, em minha opinião, uma fraude completa, como já argumentei, mediante quatro argumentos contrários, em meu artigo “Nova Ordem Global Multipolar?” (Brasília, 20 maio 2026, 2 p.; divulgado no blog Diplomatizzando (20/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/nova-ordem-global-multipolar-paulo.html). Vamos continuar a debater.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5322, 21 maio 2026, 3 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (21/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/tensoes-geopoliticas-entao-e-agora.html).

 

 

Nenhum comentário:

Postagem em destaque

Tensões geopolíticas: então e agora - Paulo Roberto de Almeida

Tensões geopolíticas: então e agora   Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor. Reflexões sobre um conceito e especificidades ...