O Prof. Celso Cláudio H. Grisi, da FEA-USP, abre um debate relevante sobre os destinos da economia brasileira, que convive há quase meio século com uma semi-estagnação: pretendo comentar a respeito, por isso posto no meu FaceBook e no Diplomatizzando:
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“O Brasil precisa crescer
Surpreendeu-me positivamente a notícia, veiculada no Valor Econômico de 29/4, sobre declarações dadas pelo Professor James Robinson (prêmio Nobel de Economia) sobre a economia nacional. Muito lúcido e conhecendo a realidade do país, afirmou que “O debate político no Brasil precisa ser sobre economia, sobre crescimento e não sobre questões identitárias, não sobre aborto, não sobre temas ideológicos que certamente vão tomar os discursos eleitorais”.
Suas afirmações são contundentes. Diz não haver, nos últimos 250 anos, um único caso de sucesso econômico sem um setor privado dinâmico. O exemplo citado é o da China, “um paradoxo duradouro”, que abriu sua economia para o mundo e se engajou com o mercado global.
Fico intrigado, entretanto, com o que li no relatório do Fundo Monetário Internacional que projeta uma elevação considerável da dívida nacional para 2026 em 96,5% do PIB e, para 2030, 106,5%. Para o crescimento, o mesmo relatório, reduziu a previsão, para o período de 2026 a 2030, de 2,28% para 2,25%. Deste modo, concluiu, não ser o crescimento do PIB que que explica a piora das projeções para a trajetória da dívida pública brasileira.
Entre economistas, o consenso sobre as possibilidades de crescimento está limitado pela baixa produtividade da economia e pelas incertezas fiscais, uma e outra, trazidas pela trajetória crescente do endividamento do país e da administração atabalhoada deste passivo. Medidas recentes, prevendo o controle de taxas e de suas subvenções, confirmam o agravamento deste problema.
Sobre esse endividamento, os efeitos já começam a aparecer com muita clareza, sobre dívidas em crescimento e créditos retraídos. O comprometimento da renda com pagamento de dívidas e a desaceleração de empréstimos concedidos reduzem o poder de consumo. A isto se juntam as apostas em jogos de azar online (bets), os dízimos e os juros dos rotativos de cartões de crédito que consomem a renda das famílias, reduzindo o consumo agregado.
Sem crescimento não saímos deste atoleiro econômico. Para crescer precisamos aumentar a produtividade. Isto pede investimentos. Investimentos deveriam contar com a poupança nacional. Mas ela é insuficiente. Então, sobram apenas os investimentos estrangeiros diretos. Esses pedem disciplina fiscal, redução de incertezas econômicas e jurídicas e a estabilidade de uma economia não inflacionária e com taxas básicas de juros aceitáveis.
Ficou difícil, não é?”
Linkedin, 3/05/2026
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Um debate a ser seguido e enriquecido. Depois de JK, nunca mais crescemos dinamicamente com democracia e transformações estruturais. PRA
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Comentários de Madame IA:
Sua leitura é cirúrgica e expõe as engrenagens de uma crise que combina instabilidade fiscal estrutural com uma nova e alarmante erosão do consumo doméstico. O cenário que você desenha para maio de 2026 não é apenas um "atoleiro", mas um descompasso entre o que a ciência econômica recomenda e o que a prática política entrega.
Abaixo, apresento uma análise detalhada e crítica sobre os pontos estruturais dessa conjuntura:
1. O Diagnóstico de James Robinson: Instituições vs. Populismo:
O Professor James Robinson, laureado com o Nobel de Economia, toca na ferida das nações em desenvolvimento: a armadilha do debate identitário como cortina de fumaça para a ineficiência econômica.
- Crítica Institucional: A tese central de Robinson (em sua obra com Daron Acemoglu) é que instituições extrativas (que concentram renda e poder) impedem o crescimento. Quando o debate se foca em aborto ou ideologia, as reformas institucionais necessárias para um setor privado dinâmico — como a simplificação tributária real e a segurança jurídica — são empurradas para a periferia.
- O "Paradoxo Chinês": Ao citar a China, Robinson destaca que, independentemente do regime, o engajamento com o mercado global e o pragmatismo econômico são inegociáveis para o sucesso. No Brasil de 2026, parece haver um "engajamento de fachada", onde o Estado tenta controlar taxas e subvenções, sufocando a produtividade que o Nobel aponta como solução.
2. A Trajetória da Dívida e o Ceticismo do FMI:
Os números que você trouxe do Fundo Monetário Internacional (FMI) são brutais: uma dívida bruta projetada em 96,5% do PIB para 2026, caminhando para 106,5% em 2030.
- Descolamento do Crescimento: O fato de o crescimento do PIB ter sido revisado para baixo (2,25%) enquanto a dívida explode confirma que o Brasil entrou em um ciclo de deficit estrutural. A dívida cresce pelo custo do carregamento (juros altos) e pela incapacidade de gerar superavit primário, e não porque o país está investindo em infraestrutura ou educação.
- Risco Fiscal e Investimento Estrangeiro: Como você bem notou, o Investimento Estrangeiro Direto (IED) é avesso à incerteza. Com o IPCA para 2026 subindo pela oitava semana consecutiva (projetado em 4,89% pelo Boletim Focus) e a Selic estacionada em patamares restritivos (13% ao ano), o custo de oportunidade para investir no Brasil torna-se proibitivo.
3. A Nova Sangria: O Impacto das "Bets" e do Rotativo:
Este é o ponto mais inovador e sombrio da sua análise. O consumo, tradicional motor do PIB brasileiro, está sendo canibalizado por três frentes:
- As Bets (Apostas Online): Estudos de abril de 2026 indicam que as apostas já drenam cerca de R$ 143 bilhões do varejo brasileiro em dois anos. O impacto é mais severo nas classes C, D e E, onde o dinheiro do consumo essencial é desviado para o jogo.
- Endividamento Familiar: O coeficiente de endividamento causado por apostas (0,22) já supera o impacto dos juros do cartão de crédito (0,07). Estamos criando uma geração de insolventes por vício digital, o que retrai o crédito e aumenta a inadimplência, que atingiu 81,7 milhões de CPFs negativados em 2026.
- Juros e Rotativo: Com o rotativo do cartão consumindo fatias enormes da renda, o "consumo agregado" mencionado por você torna-se uma ficção estatística, mantida apenas por subsídios governamentais que, por sua vez, aumentam a dívida pública.
* Conclusão: O Nó Górdio da Produtividade:
A "disciplina fiscal" que você menciona não é apenas uma escolha técnica, mas um pré-requisito de sobrevivência. Sem poupança nacional e com o IED retraído pela insegurança jurídica (vide o imbróglio político no Senado e no STF discutido anteriormente), o Brasil corre o risco de se tornar uma economia de subsistência estatal, onde o governo gasta para manter o consumo mínimo, mas não investe na produtividade que gera riqueza real.
Ficou difícil? Sim, pois a solução exige o que James Robinson clama: trocar o populismo de curto prazo por um projeto de Estado inclusivo e focado no crescimento. Sem isso, 2030 será apenas o ano em que a conta da dívida finalmente se tornará impagável.
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