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quinta-feira, 5 de março de 2026

Rombo na esperança (Banco master) - Cristovam Buarque (Correio Braziliense)

Rombo na esperança

Cristovam Buarque
Correio Braziliense, quarta-feira, 4 de março de 2026

O maior de todos os rombos do caso do Banco Master é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência, irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e seus eleitores

Existe um conto na literatura fantástica, do tipo Jorge Luis Borges, em que "um certo homem assalta um banco e corre para um cassino, onde joga todo o dinheiro roubado. Ao perder tudo que conseguiu com o assalto, decide vender o patrimônio do próprio dono do banco assaltado, com o argumento de que usará o dinheiro para salvar a instituição". Parece confuso, mas é como ocorre na literatura fantástica. E no Distrito Federal essa literatura fantástica parece estar virando realidade.

O governo desviou bilhões de reais do Banco de Brasília, o BRB, um banco público e sólido, na tentativa de salvar o Banco Master, uma instituição privada, que oferecia juros de agiota, como se fosse um cassino. Como acontece com todo banco ou cassino sem credibilidade, ao perceberem os riscos, os apostadores se afastaram, e o banco-cassino, começava a dar sinais de que quebraria.

Diante do rombo na transparência que foi imposto pelo sigilo nas investigações, até hoje não se sabe a razão que levou àquela decisão: vontade de ajudar um amigo banqueiro ou algum outro interesse escuso. Quando o Banco Central do Brasil impediu essa tentativa, o governo que depredou o Banco de Brasília apresentou a proposta de vender patrimônio de seus próprios donos, o povo do Distrito Federal, como forma de cobrir o rombo. Parece literatura fantástica, mas há maioria na Câmara Legislativa para aprovar a legislação que vai permitir cobrir um rombo com outro.

Mas, para conseguir os votos necessários, comete-se mais um rombo, nas finanças públicas: aumentar os gastos para empregar pessoas indicadas pelos deputados distritais.

Esse círculo vicioso de rombos provoca mais outro: a vergonha que a população do Distrito Federal passa diante do resto do Brasil. A culpa dessas sucessivas irresponsabilidades no uso do dinheiro e do patrimônio públicos é jogada na omissão dos líderes políticos, intelectuais, empresariais, e por ação espúria de seus deputados distritais. Essa vergonha não é medida em bilhões de reais, mas não é menos grave do que os outros rombos mencionados.

Para completar a fantasia tornada real, a população do Distrito Federal pode reeleger os deputados distritais que acobertaram os sucessivos rombos e eleger para novo cargo o responsável pelo primeiro rombo. Parece absurdo que eles votem para esconder um rombo arrombando mais. Também é absurda a hipótese de que, depois disso tudo, eles possam ser reeleitos por eleitores que sabem que seus deputados distritais são arrombadores, mesmo com a patética desculpa de que arrombam o patrimônio do povo para dar recursos ao governo para salvar o banco arrombado pelo próprio governo.

Como toda literatura fantástica, seu enredo fica difícil de ser entendido. Por isso, é bom relembrar os rombos que os brasilienses estão sofrendo: no BRB para tentar salvar o Master; no patrimônio do Distrito Federal para salvar o Banco de Brasília; rombo na transparência pelo sigilo imposto às investigações; nas finanças do governo do Distrito Federal para comprar com cargos os votos dos deputados distritais; o rombo na dignidade da população do Distrito Federal, vista como conivente com essa sucessão de malfeitos; o rombo na democracia, ao eleger o responsável pelos rombos e ao reeleger os deputados do arrombamento.

Cada um desses rombos tem consequências negativas sobre as finanças e o patrimônio do povo do Distrito Federal, e o maior de todos é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência, irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e seus eleitores. Nossas crianças e os jovens pagarão esses rombos com sacrifícios nos serviços oferecidos pelo governo do Distrito Federal, mas, sobretudo, serão afetados pelo rombo na esperança: na credibilidade do processo de escolha de nossos dirigentes.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Petrolão e Banco Master: dois casos paradigmáticos na corrupção geral que infesta o sistema político - Marcelo Guterman e Marcelo Godoy

 


Misturando as bolas

Não é a primeira vez que vejo a comparação entre o caso Master e o Petrolão, com “vantagem” para o primeiro na corrida para ser eleito, no dizer do colunista, o “escândalo do século”. Essa comparação se dá no nível da grana envolvida: enquanto a Petrobras deu baixa de R$ 6 bilhões em seu balanço, o caso Master fará o FGC desembolsar mais de R$ 40 bilhões.

Mas não é comparando cifras (per si incomparáveis por tratar-se de realidades contábeis completamente diferentes) que poderemos avaliar a gravidade de cada um desses casos.

No Master, temos um banqueiro megalomaníaco (Vorcaro), associado a um empresário inescrupuloso (Tanure) usando o moral hazard oferecido pelo FGC para captar poupança popular para financiar negócios arriscados. Para evitar problemas com a lei quando o castelo de cartas começou a desabar, supostamente molhou a mão de um punhado de políticos e juízes, assim como o sujeito que é parado em uma blitz tenta subornar o guarda. Os volumes envolvidos são grandes, mas não passam da ordem de milhões de reais.

O Petrolão foi completamente diferente. Agentes do Estado, usando de suas prerrogativas de controle sobre uma empresa estatal, surrupiaram dinheiro dessa empresa para seus projetos de poder e benefício pessoal. Aqui, tivemos ressarcimentos da ordem de bilhões de reais.

Portanto, em temos de recursos que foram parar no bolso de agentes públicos, o Master é um escândalo muitas vezes menor que o Petrolão.

Mas a comparação espúria não para por aí.

O caso Master teve como agente principal um ente privado que supostamente subornou agentes públicos. Não há roubo propriamente dito, apenas a exploração de uma falha do sistema, e posterior tentativa de evitar a liquidação do banco via suborno. Já no Petrolão, temos o concurso apenas de agentes públicos, que efetivamente roubaram recursos de uma empresa pública para fins pessoais e de perpetuação no poder. No primeiro caso, temos supostamente um caso clássico de tentativa de suborno para escapar da lei. No segundo, o roubo protagonizado por agentes públicos em uma empresa pública para sustentar o seu projeto de poder.

No caso Master, não há ameaça ao regime democrático. No Petrolão, o próprio regime democrático foi conspurcado, ao dar maior poder financeiro aos partidos que dividiam o Poder, desbalanceando o jogo eleitoral. Além disso, o protagonismo de agentes públicos no caso do Petrolão muda completamente a natureza do escândalo.

Comparar o Master com o Petrolão, misturando bolas imiscíveis, não deixa de ser um modo de reduzir a importância da Lava Jato, que desvendou um verdadeiro assalto à democracia brasileira, muito além do simples dinheiro roubado.

Blog do Marcelo Guterman é uma publicação apoiada pelos leitores.

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