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sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Écologie politique en Amérique latine: colloque IHEAL, Paris, 5-7/05/2020


 Cher.es toutes et tous,

Nous avons le plaisir de vous proposer l’appel à communications pour le colloque international, « Ce que l’Amérique latine fait à ‘l’écologie politique’. Bilan d’étape d’un courant ascendant des sciences sociales », les 5, 6 et 7 mai 2020 au Campus Condorcet (Paris/Aubervilliers).
Le texte de l’appel à communications ainsi que toutes les informations se trouvent sur le site du colloque (date limite de réception des propositions de communication : 20 février 2020).

Résumé : La political ecology s’est aujourd’hui imposée comme un courant interdisciplinaire central pour penser les relations société/environnement. En Amérique latine, l’ecología politica s’est développée très rapidement depuis plus d'une trentaine d’année avec une grande richesse théorique, empirique et militante, et se trouve aujourd’hui dans une première phase d’institutionnalisation académique alors que la conjoncture politique actuelle du continent autorise également à considérer qu’une première phase se termine. Ce constat justifie l’idée de réaliser un ‘bilan d’étape’, et dans ce but, ce colloque international sera structuré selon quatre axes de débat:
1) Cartographier les spécificités de cette ecología política latino-américaine vis-à-vis du courant anglo-saxon;  2) Cerner les raisons des difficultés d’appropriation en France de ce courant par les sciences sociales;  3) Interroger la diversité interne de ce courant, notamment à travers la mise en valeur de trajectoires nationales/régionales de la ecología política4) Identifier les fronts émergents et reconfigurations du programme.
Ce colloque est cofinancé par 10 établissements de l’enseignement supérieur et de la recherche, et plusieurs conférenciers invités ont déjà confirmés leur participation : Susana Hecht (Université de Californie, Los Angeles, EUA), Joan Martinez-Alier (Université Autonome de Barcelone, Espagne), Gabriela Merlinsky (UBA, CONICET, Argentine), Diana Ojeda (Université des Andes, Colombie), Jose Augusto Padua (Univ. Fédérale de Rio de Janeiro, Brésil), Erik Swyngedouw (Université de Manchester, R.U.).

Nous vous encourageons à proposer (via le site web ci-dessus) une communication et à réserver ces journées de mai pour venir discuter avec la communauté qui se rassemblera à cette occasion au Campus Condorcet autour de l’écologie politique. 

Pour le comité d’organisation de ECOPOL-AL,
David Dumoulin Kervran (IHEAL-CREDA, Université Sorbonne Nouvelle

***

Estimadas y estimados,

Tenemos el placer de compartirles el llamado a propuestas para el simposium internacional « La ecología política en America latina. Balance de epoca y debates transnacionales » a realizarse los 5, 6 y 7 de mayo del 2020 en el Campus Condorcet (Paris / Aubervilliers).
El texto de este llamado, junto con todas las informaciones relativas al evento, se encuentran en el sitio (fecha límite de postulación: 20 de febrero 2020).
Resumen: En América Latina, la ecología política se ha desarrollado rápidamente en los últimos treinta años, a partir de una gran riqueza de enfoques, de miradas y de prácticas militantes. Como consecuencia de ello, en la actualidad atraviesa una fase de institucionalización académica y exhibe un gran nivel de consolidación como marco de análisis intelectual y político. Este simposio internacional tiene como objetivo revisar el panorama de la ecología política en América Latina en términos de :
1) hacer una cartografía de la ecología política latinoamericana en contrapunto con la corriente anglosajona;   2) identificar las razones que dificultan su apropiación por las ciencias sociales en Francia; 3) desarrollar un primer balance de la diversidad interna de la ecología política latinoamericana, en particular en lo que refiere al desarrollo de trayectorias nacionales/regionales y, 4) identificar temas, agendas  emergentes y aspectos invisibilizados, así como los diferentes modos de reconfiguración de esta corriente.
Este simposio internacional es financiado por 10 instituciones académicas, y ya tiene confirmados los siguientes destacados ponentes : Susana Hecht (Universidad de California, Los Angeles, EE.UU.), Joan Martinez-Alier (Universidad Autónoma de Barcelona, España), Gabriela Merlinsky (UBA, CONICET), Diana Ojeda (Universidad de los Andes, Colombia), Jose Augusto Padua (Univ. Federal de Rio de Janeiro), Erik Swyngedouw (Universidad de Manchester, Reino Unido).

Les invitamos a enviar una comunicación en el sitio a reservar los primeros días de mayo para venir a intercambiar ideas con la comunidad que se reunirá en el Campus Condorcet entorno de la ecología politica.

Por el comite organizador de ECOPOL-AL,
David Dumoulin Kervran (IHEAL-CREDA, Université Sorbonne Nouvelle)

 ***

Dear all,

We are pleased to share the call for abstracts for the International Symposium“Political ecology in Latin America. Balance of epoch and transnational debates”, that will be held on May 2020 (5, 6, and 7)  at Campus Condorcet-   Paris / Aubervilliers. 
The following link provides information about the call and logistics (Deadline for submissions of abstracts is February 20th). 

Abstract: Political ecology has now emerged as a central interdisciplinary field for thinking about society / environment relations. For the last 30 years, ecología política has been very rapidly developed in Latin America, with great theoretical, empirical and militant richness. As a result, Political Ecology is facing an institutionalizing phase and display a significant level of consolidation as a frame of intellectual and political analysis.
This International Symposium aims to revise the Political Ecology panorama in Latin America according to four topics : 1) Map the specificities of this Latin American political ecology vis-à-vis the Anglo-Saxon current; 2) Identify the reasons why Political Ecology as a field of research has not yet been appropriated by the French social sciences; 3) Examine the internal diversity of this field, focusing on national / regional trajectories of ecological política; 4) Identify new topics and emergent agendas of this research-program.

This conference is co-funded by 10 academic institutions, and several keynote speakers have already confirmed their participation: Susana Hecht (University of California, Los Angeles, USA.), Joan Martinez-Alier (Universitat Autonoma de Barcelona, Spain), Gabriela Merlinsky (UBA, CONICET, Argentina), Diana Ojeda (University de los Andes, Colombia), Jose Augusto Padua (Univ. Federal de Rio de Janeiro, Brazil), Erik Swyngedouw (University of Manchester, U.K.).
 
We encourage you to submit a paper to the website save the date and come to share with the community that will gather in Campus Condorcet on this days of May.

For the organization committee of ECOPOL-AL,
David Dumoulin Kervran (IHEAL-CREDA, Université Sorbonne Nouvelle)

Institut des hautes études de l'Amérique latine
IHEAL
Université Sorbonne Nouvelle - Paris 3
Campus Condorcet - Bâtiment de Recherche Sud
5, cours des Humanités, 93322,  Aubervilliers - bureau 5028A
Facebook : IHEAL CREDA Twitter : @IHEAL_CREDA
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Perigo comunista na AL, segundo o chanceler (O Globo)

Em artigo, Ernesto Araújo alerta contra 'horizonte comunista' na América Latina

Chanceler diz que o intuito dos marxistas é preservar a 'utopia' comunista

O Globo, 18/12/2019

BRASÍLIA - O Itamaraty divulgou nesta quarta-feira um artigo em que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, "traça um panorama da ameaça comunista nos países latinos", que segundo ele "quer voltar a estrangular-nos" e regressar em Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Colômbia, México, Venezuela e no Brasil. O chanceler prega ainda que o sistema liberal estude seu antagonista para combatê-lo, sem aversão à ideologia. O texto foi disponibilizado na página oficial do ministério, mas foi escrito para o site Terça Livre, onde ainda não havia sido publicado até as 16h.

Intitulado "Para além do horizonte comunista", o artigo diz que a América Latina, sem dúvidas, "viveu dentro de um horizonte comunista" desde 2005 ou desde as vitórias eleitorais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002, ou do ex-líder venezuelano Hugo Chávez, em 1999. Em seguida, diz que este horizonte "começou a raiar", na verdade, a partir da criação do Foro de São Paulo, em 1991. Citando uma declaração de 2007 do então vice-presidente boliviano Álvaro García Linera de que "o horizonte geral da nossa era é o comunismo", Ernesto expôs seu ponto de vista sobre o cenário político na região:

"Veja-se bem a expressão: dentro de um horizonte comunista. Não em um sistema explicitamente comunista. Muitas pessoas ridicularizam a discussão sobre a presença do comunismo na América Latina atual dizendo que os partidos autoproclamados comunistas são fracos ou inexistentes e que em nenhuma parte — exceto um pouco na Venezuela — cogita-se instaurar um sistema com propriedade coletiva dos meios de produção ou ditadura do proletariado", escreveu, rechaçando que estas sejam definições do comunismo.

'Loucura marxista'

O chanceler do governo Jair Bolsonaro criticou ainda a "loucura marxista" e disse que, além do socialismo, há novos instrumentos de construção do comunismo sendo desenvolvidos, sendo o "globalismo" o principal deles. Termo originalmente usado pela direita americana para se referir de modo pejorativo às instituições internacionais, na definição de Araújo globalismo é "a captura da economia globalizada pelo aparato ideológico marxista através do politicamente correto, da ideologia de gênero, da obsessão climática, do antinacionalismo".
No texto em tom de alerta, ele diz ainda que o intuito dos marxistas é "preservar a 'utopia' comunista e reinseri-la na realidade política e social concreta de um mundo aparentemente avesso ao comunismo".
"Pode-se argumentar que neste século XXI o projeto comunista está mais forte do que nos anos 80, justamente porque ninguém o vê e pode operar à sombra da sociedade de consumo. Em lugar de combater o capitalismo em nome de uma alternativa socialista claramente fracassada, infiltrar-se de maneira sutil dentro do capitalismo", aponta o ministro.
Ele aproveitou ainda para criticar o que elegeu como a principal fragilidade do sistema liberal: não pensar ou trabalhar no mundo das ideias. Segundo Araújo, os liberais criaram uma repulsa por tudo aquilo que chama de "ideológico" e acabam ignorando os ideólogos do comunismo, deixando que eles trabalhem em paz.

"Já os amantes da liberdade que leem esses trabalhos marxistas para entender o novo projeto comunista e assim poder combatê-lo são chamados de 'ideológicos'. O mundo isentão lida apenas com a figura fictícia de um certo comunismo 'derrotado em 1989' e recusa-se terminantemente a reconhecer — muito menos a enfrentar – o projeto comunista real que atua hoje por toda parte. O isentismo é antes de mais nada uma forma de preguiça intelectual", argumenta. "A pressa com que hoje, no Brasil, os isentos correm para os braços da extrema esquerda e vice-versa, formando uma estranha 'isentoesquerda', é o sinal abjeto dessas afinidades profundas", complementa.

'Isentões'

Segundo o ministro, os "isentões" estão "jogando pedra justamente naqueles líderes que, no Brasil e no resto do mundo, querem descer ao porão" para lutar contra mazelas como corrupção e as drogas. "O isentão, quando você aperta, ele não quer uma economia livre, ele não quer uma internet livre, não quer um idioma livre capaz de expressar a complexidade e beleza do espírito humano em sua aventura multidimensional", aponta.
"No Brasil estamos rompendo o horizonte comunista e reenquadrando o liberalismo no horizonte da liberdade. O horizonte comunista está sendo rompido igualmente em outros lugares, certamente nos EUA, também no Reino Unido, na Hungria e na Polônia, penso que está sendo rompido na África, onde os últimos laivos da associação espúria entre comunismo e libertação, que vigorou por décadas desde as lutas anticoloniais, parecem estar-se dissipando", diz Araújo, citando os governos populistas de direita e extrema direita de Donald Trump, Boris Johnson, Viktor Orbán e Mateusz Morawiecki.
De acordo com o artigo, a Igreja Católica também havia se inscrito dentro do horizonte comunista, a partir dos anos 60 e 70, "mas ali a verdadeira fé parece estar resistindo e repelindo o avanço marxista sobre a sua doutrina bimilenar".
Entrando em ocorrências mais recentes, ele destaca que o horizonte comunista está sendo rompido na Bolívia, "onde o povo deu um basta a Evo Morales e García Linera, que queriam continuar arrastando os bolivianos para o abismo à custa da fraude eleitoral". O governo de Morales e Linera, que renunciaram em 10 de novembro sob pressão de protestos contra o resultado das eleições de 20 de outubro e dos militares, promoveu o maior crescimento econômico contínuo da história recente do país, a uma média de 5% ao ano por 13 anos.

"Porém o horizonte comunista quer voltar a estrangular-nos. Quer regressar na Bolívia (Evo Morales foi acolhido pelo novo governo e está ali, a poucos quilômetros da fronteira, à espreita). Quer voltar no Chile, no Equador e na Colômbia, quer voltar no Brasil. Quer 'iluminar' com suas trevas essas grandes nações que são a Venezuela, o México e a Argentina", afirma o chanceler. Chile, Equador e Colômbia passam por ondas de protestos que têm como pano de fundo a desigualdade econômica. México e Argentina elegeram em eleições diretas e livres, em 2018 e neste ano, governos de centro-esquerda.
"Precisamos olhar para além desse horizonte comunista, que não é um horizonte onde há árvores e campos mas sim as paredes de uma cela, esse horizonte que não é onde a terra encontra o céu mas onde a terra encontra o inferno. Tudo o que temos para combater o avanço dessas paredes e a aproximação desse abismo é o apego à liberdade. A liberdade que, insisto, não é uma ideologia, mas o eixo central do ser humano. Para começar, precisamos estudar o comunismo a partir do que dizem e fazem os comunistas, em lugar de sair aos gritos de 'ideológico, ideológico' condenando quem o estuda e quem o enfrenta", conclui Araújo.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

A América Latina frente às transformações globais - Fundação FHC

A América Latina frente às transformações globais

Auditório da Fundação FHC

Diante de um mundo repleto de incertezas políticas, sociais e econômicas, os países da América Latina devem ser capazes de enxergar além de estruturas e condicionamentos sociais arraigados e definir estratégias de desenvolvimento de médio e longo prazo, com o objetivo de assumir maior controle sobre seu presente e futuro, tanto em nível nacional como regional. Esta foi a mensagem transmitida pela maioria dos participantes da conferência "A América Latina frente às transformações globais: como navegar em águas turbulentas?", realizada pela Fundação FHC e a Corporación de Estudios para Latinoamerica (CIEPLAN), dois dos principais think tanks da América Latina.

“Política é ter uma hipótese para o futuro e saber jogar em função dessa hipótese. Tem de ter estratégia. Qual é a nossa (do Brasil e da América Latina)? Os países latino-americanos, de maneira geral, não têm estratégia clara. A Europa também não tem e está sofrendo com isso. Quem tem estratégia hoje são os chineses.”
Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, professor e pesquisador, foi presidente do Brasil por dois mandatos (1995-2002)
“Se estivesse conosco hoje, o economista Albert Hirschman (1915-2012) resistiria à tentação de exagerarmos em conclusões pessimistas sobre o presente. Também não seria favorável a um otimismo irracional. Provavelmente diria que devemos ser ‘possibilistas’ e pensarmos de forma não automática para melhor compreender as relações entre a globalização, as formações sociais e as condições políticas.”
Jeremy Adelman, historiador, é professor da Universidade de Princeton (EUA) e autor da biografia “Worldly Philosopher: The Odyssey of Albert O. Hirschman” (2013)
A conferência — que reuniu intelectuais públicos (economistas, sociólogos e cientistas políticos) do Brasil, Chile, Argentina e EUA, entre outros países, durante dois dias — também lembrou os 50 anos da obra Dependência e Desenvolvimento na América Latina, escrita por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto (Chile, 1935-2003) em 1965/67 e publicada dois anos depois. Na época, os dois jovens sociólogos trabalhavam no Instituto Latino-Americano de Planejamento Econômico e Social, organização das Nações Unidas ligada à CEPAL, em Santiago do Chile.
Em sua fala de abertura, o ex-presidente FHC lembrou as circunstâncias históricas e pessoais que levaram à elaboração do livro, considerado um clássico da sociologia latino-americana: “A ideia predominante (nos círculos intelectuais latino-americanos nos anos 1960) era de que a América Latina vivia uma dependência crônica frente ao imperialismo norte-americano (que só poderia ser rompida por meio de um processo revolucionário). A nossa proposta foi mostrar que havia diferentes formas de ligação dos países da periferia com o centro do capitalismo, a depender do grau de desenvolvimento de cada mercado interno, e que essas diferentes formas abriam espaços para uma maior ou menor autonomia.”
Para FHC, “a disjuntiva não era submissão ou revolução; não tínhamos nem uma visão mecanicista (no sentido de as estruturas socioeconômicas determinarem a política e o sistema internacional definir o destino dos países) nem voluntarista (no sentido de as estruturas socioeconômicas não importarem). Reconhecíamos o peso das estruturas (a divisão internacional do trabalho, seus reflexos sobre a formação das classes sociais nos países da periferia etc.), mas apontávamos para o potencial criador da política.” 
        FHC: ‘Política depende de visão e liderança’ 
Dependência e Desenvolvimento buscou juntar a análise dos desequilíbrios estruturais das economias latino-americanas às ligações e embates dos grupos sociais e, portanto, falar da política que poderia resultar no predomínio de uns sobre outros. “No Brasil dos anos 1960, onde já havia uma indústria forte, assim como na Argentina e no México, ocorria algo novo pelo menos para nós: a crescente associação do empresariado nacional com o capital estrangeiro. Não tínhamos noção disso, mas naquele livro já estávamos descrevendo o começo da globalização. Um quarto de século se passou e, em 1994, fui eleito presidente, num momento em que a globalização já era um fato inquestionável. Toda a esquerda brasileira não mediu esforços para tachar meu governo de neoliberal, quando nossa visão era a de que ou o Brasil se integrava à economia global ou seria excluído do jogo do comércio internacional. Não adiantava defender o interesse nacional com base em premissas ultrapassadas”, disse FHC.
“Agora assistimos a outros movimentos, com destaque para a emergência da China, que em poucas décadas se transformou em parte fundamental do jogo internacional e começa a disputar a hegemonia global com os Estados Unidos. Quem vai vencer a batalha pelas tecnologias do futuro? Como a América Latina vai se posicionar nessa contenda de gigantes? Por enquanto, estamos jogando o jogo de maneira infantil, agarrando-nos a velhas ou novas ideias sem avaliar sua validade atual e suas consequências futuras”, continuou.
Fernando Henrique lembrou que os meios digitais potencializam a crise da democracia representativa e a fragmentação social: “Descartes dizia ‘penso, logo existo’. Hoje é ‘estou conectado, logo existo’. Qual a estratégia possível em um mundo em que o rumo não é definido sobretudo pelo poder político, como antigamente, mas cada vez mais pela tribos da internet? Sim, existem estruturas, mas existem movimentos também. Eles dependem da política, e a política depende de visão e liderança”, concluiu.
       Sorj: ‘Intelectual e político engajado’ 
“Dependência foi um livro muito importante para toda uma geração de sociólogos latino-americanos, pois introduziu a ideia da relevância da prática e das escolhas políticas, quando minha geração estava encapsulada seja na teoria marxista seja na teoria da modernização, que falavam de fases pré-estabelecidas. A história existia, mas era o campo onde aquelas teorias se realizavam. De forma não voluntarista, pois reconheciam a existência de infraestruturas que delimitam o campo de possibilidades, FHC e Faletto colocaram a política no centro do debate sobre desenvolvimento na América Latina”, disse o sociólogo Bernardo Sorj, nascido no Uruguai e naturalizado brasileiro, diretor do Centro Edelstein de Políticas Sociais (Rio de Janeiro), em comentário após a fala do ex-presidente.
“Cinquenta anos se passaram, parece pouco tempo, mas Brasil, América Latina e o mundo são outros, acabou a oposição capitalismo-comunismo, outras utopias foram por água abaixo e, nos países avançados, tendências autoritárias se misturam ao nacionalismo xenófobo, à misoginia e à religião, colocando em risco a democracia justamente no núcleo geopolítico democrático que foi um suporte importante para os regimes democráticos também em nossas terras”, lembrou.
“Há meio século, a questão na América Latina era como chegar lá (ao mundo desenvolvido), mas o lá entrou em parafuso no Ocidente e o eixo econômico e geopolítico se transfere rapidamente para a Ásia, que tem outros valores. Para onde nos dirigimos, em meio às desigualdades sociais e conflitos culturais que caracterizam nossa região? É importante que os intelectuais saiam de seus guetos e contribuam para a análise do momento complexo que atravessamos. Faletto e FHC fizeram isso ao longo de suas carreiras”, continuou.
“Assim como Hirschman, Fernando Henrique foi e continua sendo um intelectual engajado nos debates de seu tempo. Felizmente tivemos a sorte de também contar com suas realizações na política, em particular durante sua passagem pela Presidência (1995-2003). FHC encarna história e biografia de forma singular. É algo que devemos celebrar”, concluiu o sociólogo.
     Saiba mais:
     Ricupero: ‘Novo paradigma pede novo livro’
“Há meio século, o pressuposto na América Latina era o de que o desenvolvimento ocorreria via industrialização e exportação de manufaturas para o mundo desenvolvido. O caminho não era equivocado, prova disso é que os asiáticos tiveram êxito”, disse o embaixador Rubens Ricupero, autor de “A Diplomacia na Construção do Brasil 1750-2016”.
“Entre as décadas de 1940 e 70, o Brasil teve 40 anos de crescimento real de até 7% ao ano. Multiplicamos nosso PIB por 15, e a renda per capita por cinco, enquanto a população do país aumentou três vezes. Estávamos no caminho, mas desde os anos 80 perdemos o ímpeto e, com exceção de alguns anos positivos, a média de crescimento nas últimas décadas tem sido inferior a 1%. Isso se deveu a contradições internas e escolhas equivocadas”, continuou o ex-ministro da Fazenda (Governo Itamar Franco).
“Hoje há indícios de que o paradigma da industrialização se esgotou e a ideia de que países em desenvolvimento possam se industrializar com mão-de-obra barata parece ultrapassada. Desde 2008 (crise financeira global), o comércio internacional vem perdendo a dinâmica que teve nos anos anteriores. EUA e outros países adotam medidas protecionistas e as novas tecnologias, em especial a robótica e a Inteligência Artificial, chegaram para estabelecer um novo paradigma. A obra de FHC e Faletto era totalmente válida na virada dos anos 60 e 70, mas agora talvez seja necessário escrever outro livro”, disse Ricupero.
      Zovatto: ‘Falta governança’  
“Na primeira década do Século 21, a América Latina cresceu em média 6% ao ano (em parte explicado pelo ‘boom das commodities’), mas nos últimos anos só despencamos e terminaremos 2019 com algo em torno de 0,5% de crescimento em média. Estamos crescendo quatro vezes menos do que o mundo e dez vezes menos que a Ásia. O maior problema continua sendo a baixa produtividade”, lembrou o argentino Daniel Zovatto, diretor regional do IDEA International. 
“Ao celebrarmos 40 anos da terceira onda democrática, a região enfrenta uma crise de lideranças e instituições e uma fadiga da política. Nossos governos são pouco transparentes, não modernizaram os instrumentos de gestão e não incorporaram os avanços da revolução 4.0. Não basta democracia, precisamos de boa governança”, disse.
      Marfan: ‘Não conheço país de classe média autoritário’
“O Plano Real (1994), cuja concepção e implementação contou com as colaborações essenciais de FHC e Ricupero, estabilizou a economia brasileira, teve impacto redistributivo e definiu regras fiscais de médio prazo. Ao fazer isso, colocou o Brasil em boa situação para aproveitar as oportunidades do Século 21. Entretanto, de uns anos para cá, a economia brasileira enfrenta problemas e, em boa medida, isso se deve à política. Por quê? O Brasil e outros países da região precisam superar o mau hábito de pensar apenas na disputa partidária e no período de duração dos mandatos presidenciais e começar a trabalhar em estratégias com prazos mais longos”, afirmou o economista chileno Manuel Marfan Lewis, ex-ministro das Finanças do Chile.
Segundo o diretor executivo do think tank chileno CIEPLAN, desde a redemocratização do Chile (1990) prevaleceu uma reflexão sobre erros históricos que o país andino não deveria mais cometer: “Países nunca partem do zero. O governo Allende (1970-73) não partiu do zero, a ditadura Pinochet (1973-1990) não partiu do zero e os governos pós-redemocratização também não. Então, o que deve continuar e o que deve mudar?”.
“Boa parte do êxito econômico chileno nas últimas décadas se explica porque fomos capazes de preservar conquistas do passado e criar maiorias amplas na sociedade e no Congresso, que se traduziram em estabilidade política e econômica. É verdade que ainda há pobreza no Chile, que, segundo novos critérios bastante exigentes, atinge cerca de 15% da população. Entretanto, tem surgido uma classe média, ainda precária, que se preocupa com o risco de desemprego, exige melhores salários, e tem demandas relacionadas a saúde, educação de seus filhos e aposentadoria digna”, continuou.
“A classe política chilena não tem se mostrado capaz de estabelecer um novo paradigma para um país que está se tornando classe média. Daí seu atual desprestígio. Não sei onde essa ‘sociedade empoderada’ nos levará, mas acredito que a resposta aos anseios da população está em mais democracia. Não conheço país de classe média que seja autoritário. Como uma China de classe média lidará com a falta de democracia na nova potência asiática?”, disse o chileno. O debate ocorreu poucos dias antes da atual onda de protestos no Chile.
      Gerchunoff: Elogio da ‘auto-subversão’
O historiador econômico argentino Pablo Gerchunoff, professor de honra da Universidade de Buenos Aires, comparou os desempenhos econômicos dos países latino-americanos e defendeu a importância de uma macroeconomia organizada como base do desenvolvimento: “Política fiscal anticíclica é para quem pode porque construiu as bases para tanto.” Para Gerchunoff, a Argentina, que iniciou o Século 20 como o país mais promissor da América Latina, perdeu o fio da história. Já o Brasil, que teve importantes avanços desde a redemocratização, precisa reencontrar o rumo rapidamente. 
“Frente a tantas incertezas dos novos tempos, só há uma recomendação possível e ela vem mais uma vez de Albert Hirschman: Estejamos permanentemente atentos para reavaliar nossos valores e padrões. Pratiquemos a auto-subversão ao criticar hoje o que fizemos ontem e amanhã o que pensamos hoje”, propôs.
        Adelman: ‘Bias for hope’
“Por que um jovem deveria ler Hirschman hoje?”, perguntou o historiador norte-americano Jeremy Adelman, professor da cátedra Henry Charles Lea e diretor do Global History Lab (Princeton University). “Hirschman foi um intelectual que vivia intensamente o universo das ideias, mas que se comprometeu com a noção de que as ideias pertencem ao mundo e de que existe uma relação estreita entre observação, análise e ação. Tinha a capacidade de encontrar esperança mesmo nos lugares e momentos mais improváveis e valorizar o possível”, afirmou o biógrafo do economista nascido em Berlim durante a Primeira Guerra Mundial. 
Hirschman viveu em diversos países, entre eles França, Itália, EUA e Colômbia (entre 1952 e 1956 morou e trabalhou em Bogotá e realizou pesquisas de campo no interior do país). Visitou diversos países latino-americanos, onde colaborou com renomados intelectuais. Morreu em 11 de dezembro de 2012, aos 97 anos, em New Jersey (EUA). “Ele se imaginava como um ‘possibilista’, não somente no sentido de estar atento às oportunidades, mas também de criar novas oportunidades. Defendia o que costumava chamar de bias for hope (viés de esperança, em português)”, disse. 
Ao final de sua fala, ilustrada por diversas imagens da vida de economista (ver seção Conteúdos Relacionados, à direita desta página), Adelman mostrou uma foto dele ao lado do recém-empossado presidente FHC, em 1º de janeiro de 1995 em Brasília. “A chegada de Fernando Henrique à Presidência do Brasil representou a fusão do conhecimento acadêmico à ação política com o objetivo de promover relevantes mudanças sociais e econômicas”, concluiu.
        Sola: O Plano Real e o conceito de ‘statecraft’ 
Para a cientista política Lourdes Sola, o conceito de possibilismo se aplica bem ao Plano Real, idealizado por um grupo de economistas sob a liderança do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso em 1993 e colocado em prática no último ano do Governo Itamar Franco. 
“Desafiados a elaborar um plano para controlar a inflação, aquele grupo de economistas criou uma engenhosa inovação, a URV (Unidade Real de Valor, que possibilitou a desindexação progressiva da economia e a transição do antigo Cruzado para o novo Real sem recorrer a medidas bruscas e congelamento de preços). O papel de Fernando Henrique, que não é economista, mas sociólogo e político, foi o de explicar à população o passo a passo do plano e negociar com o Congresso as medidas necessárias para sua implementação. Nesse sentido, foi um bom exemplo do que Hirschman chamava de ‘statecraft’ (habilidade de governar um país, de acordo com o Dicionário de Cambridge). Sem liderança política, o Plano Real não teria tido o êxito que teve”, afirmou a professora e pesquisadora da USP.
        Amaral: ‘O pior dos mundos seria termos de escolher entre EUA e China’
Sérgio Amaral, que foi embaixador em Washington de 2016 a 2019, destacou, na primeira mesa do segundo dia de debates, que a América Latina já é palco da crescente disputa comercial e tecnológica entre EUA e China. “A Huawei (empresa chinesa que domina o 5G, futura geração de tecnologia móvel) já está presente em nossos países e deve se tornar dominante nos próximos anos. Pequim também quer estender o projeto One Belt, One Road (que prevê investimentos maciços em infraestrutura ao redor do mundo) para cá. E tem investido pesadamente nas áreas cultural, por meio dos Institutos Confúcio, e acadêmica, com milhares de brasileiros indo estudar na China. Os EUA vão aceitar essa ofensiva chinesa? O pior dos mundos seria termos de escolher um dos lados dessa disputa”, disse o diplomata.
Para o também embaixador Rubens Ricupero, as prioridades da agenda estratégica dos EUA definida pelo presidente Donald Trump não têm pontos de contato com os reais interesses da América Latina. “Rivalidade com a China pelo primeiro lugar na economia mundial e domínio das tecnologias do futuro, sanções contra Irã e Rússia, respaldo incondicional a Israel, retirada do Acordo de Paris, negação da mudança climática e combate ao multilateralismo. Nada disso trará benefícios à região”, afirmou. 
Para o ex-ministro do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, a América Latina deve apostar na construção de soluções globais com base no multilateralismo, entre elas a luta contra o aquecimento global. “Esta é a questão mais relevante do presente e do futuro. Todos os temas que nos desafiam nos próximos anos e décadas dependem do sucesso de enfrentarmos coletivamente o desafio da mudança climática”, disse. Ainda segundo Ricupero, nossos países precisam superar a desigualdade social, por meio de crescimento econômico, políticas de distribuição de renda e igualdade de oportunidades, para que a democracia se consolide definitivamente na região.
      Leia também:
      ‘Caudilhismo’ e  ‘democracia de públicos’
“Na América Latina, os novos ‘caudilhos’, que podem ser tanto de direita como de esquerda, costumam lançar mão de diversas formas de mobilização popular, como plebiscitos e referendos, com o objetivo de enfraquecer o Estado de Direito e ampliar seu poder. Para pôr freio ao populismo, o caminho é o fortalecimento das instituições democráticas”, disse o advogado e cientista político Ignacio Walker, que foi ministro das Relações Exteriores do Chile. 
“Temos de nos acostumar com a ideia de que os partidos políticos já não terão a importância que tiveram no passado, pois perderam a capacidade de organizar as preferências dos eleitores e dar uma resposta às suas demandas. A realidade é que os resultados eleitorais serão cada vez mais voláteis, assim como o apoio aos governantes. Vivemos cada vez mais uma ‘democracia de públicos’”, disse a professora Maria Hermínia Tavares de Almeida, pesquisadora sênior do CEBRAP.
“Falou-se muito de Albert Hirschman hoje. Como ele, também creio que as dificuldades, por maiores que sejam, não podem nos paralisar. Somos latino-americanos, não gostamos de hierarquias rígidas, mas nossas sociedades têm força e encontram espaço para defender seus interesses. Não se trata apenas de ser otimista, mas cabe ao líder político ouvir a sociedade, definir rumos possíveis e avançar”, disse o ex-presidente FHC ao final da conferência. 
      Saiba como foi o debate:
Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

sábado, 26 de outubro de 2019

Mini-reflexões sobre as atuais turbulências latino-americanas - Paulo Roberto de Almeida


Mini-reflexões sobre as atuais turbulências latino-americanas

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: reflexão; finalidade: debate público] 

As manifestações ocorridas em diversos países latino-americanos, diferentes em suas motivações e características, não possuem conexões entre si. Tampouco são o resultado da ação do Foro de São Paulo, como pretendem jornalistas ou militantes da extrema-direita. Elas são o reflexo de situações próprias a cada um deles, e respondem a gatilhos diversos, alguns sistêmicos – ou seja, decorrem de problemas estruturais, persistentes –, outros, puramente conjunturais, isto é, motivados por iniciativas políticas nem sempre compatíveis com a racionalidade elementar na governança que devem manter os presidentes. Vou estender-me sobre algumas dessas manifestações, mas desde já adianto a minha conclusão, infelizmente pessimista, ou realista, como corresponde a um observador transparente como acredito que sou. Minha conclusão é esta:
Depois de idas e vindas no caminho das reformas, da modernização das instituições, da racionalidade na definição de políticas econômicas sólidas e dos ajustes necessários no caminho da superação de sua inacreditável letargia na “normalização” de políticas e práticas correntes, os países envolvidos nessas manifestações voltam ao “mainstream” da política latino-americana “normal”, ou seja, o populismo nas políticas econômicas, a demagogia nas atitudes dos governantes, o distributivismo nos mecanismos sociais, a recusa das ferramentas baseadas no mérito e na competição, a recusa da livre ação dos mercados, a introversão no protecionismo, nos subsídios a determinados grupos – que não estranhamente são por vezes os mais privilegiados – e o retraimento no enfrentamento das questões reais desses países. O Brasil ainda não foi envolvido nesse turbilhão de manifestações, a despeito de exibir certos traços sociais e políticos – entre eles a desigualdade social, a corrupção política – que estiveram na origem dos distúrbios em países vizinhos; nada impede, porém, que certos traços dos movimentos neles presentes, ou no próprio Brasil, possam impulsionar ações futuras por parte de grupos políticos, ou até da população como um todo, como foi o caso das manifestações aparentemente “espontâneas” de 2013, que produziram efeitos até hoje visíveis no cenário político brasileiro.
Vou abordar alguns aspectos dessas manifestações, começando pela paranoia visível em determinadas manifestações públicas do governo brasileiro, ou de sua militância política, no sentido de ver nessas diferentes convulsões a ação organizada dessa entidade mítica chamada “Foro de São Paulo”, o grande fantasma da extrema direita no Brasil. Em minha opinião, não há qualquer relação entre essas diversas manifestações com esse fantasma metafísico que se chama Foro de São Paulo, ainda que ele exista e vou me pronunciar sobre ele neste mesmo espaço.
O FSP é uma construção cubana, com a ajuda integral do PT no Brasil, e representa apenas uma espécie de Cominform dos cubanos para a América Latina, ou seja, um mecanismo de controle que os comunistas cubanos exercem sobre diversos, não todos, partidos de esquerda na América Latina. Começou com grandes expectativas de consolidação de governos de esquerda na região, num momento em que desaparecia o “mensalão” soviético que sustentava o decrépito regime comunista castrista, mas nunca pode assegurar plenamente esse papel. Os governos petistas – cujos dirigentes tinha recebido muito apoio político e até ajuda financeira durante os anos anteriores à conquista do poder – até que ajudaram o falido regime comunista da ilha, e os chavistas o fizeram de forma muito mais ampla. Mas tudo isso não se manteve e hoje os comunistas cubanos tentam apenas sobreviver.
As manifestações atuais não são, contudo, em nada teleguiadas pelo FSP, com apenas essa particularidade que muitos dos militantes de partidos que são membros do FSP podem estar nas manifestações, mas esse é um nexo puramente casual e sem qualquer conexão com algum papel diretivo do Foro na condução das manifestações. Elas surgiram num contexto e cenário próprios a cada país, com dinâmicas totalmente distintas, e a única coisa que as “une”, num sentido puramente formal, é o uso das redes sociais para a mobilização de manifestantes. Se o FSP tivesse algum papel, essas manifestações não seriam tão caóticas quanto claramente são, e, sim, exibiriam diretivas claras, conectadas ao universo político da esquerda “oficial”, que é aquela coordenada pelos comunistas cubanos. Estamos, em minha opinião, muito mais em face de “anarquismo” espontâneo do que de leninismo, ou stalinismo.
Não existem, visualmente, objetivos comuns a nenhuma dessas manifestações e os objetivos específicos a cada uma delas estão muito mais conectados a realidades peculiares a cada governo, ou cada ou país, do que a uma incitação imaginária impulsionada pelo FSP. Apenas paranoicos, ou adeptos de teorias da conspiração, podem achar que o FSP teria capacidade ou poder de determinar fenômenos, processos, eventos, bobagens tão diversas quanto essas às quais assistimos nas últimas semanas, ou meses, que listo a seguir:
1) aprofundamento da crise econômica na Argentina, por incompetência, ou falta de coragem, do governo dito “liberal” no combate à inflação, na correção dos desequilíbrios internos e externos, o que redundou no declínio eleitoral da equipe governante e seu recurso subsequente a medidas claramente populistas, demagógicas e insustentáveis, em face de um peronismo multiforme sempre presente no cenário político daquele país;
2) eliminação, de forma abrupta e concentrada, da política de subsídios combustíveis no Equador, um país petrolífero, eventualmente padecendo dos baixos preços dessa matéria-prima, na sequência de medidas sociais insustentáveis adotadas pelo governo populista anterior, quando da fase de valorização no mercado de petróleo; o presidente do Equador pode ter cometido o mesmo erro do presidente francês Emmanuel Macron, quando decidiu ser “politicamente correto” ao adotar novos impostos sobre combustíveis fósseis, no mesmo momento em que o câmbio encarecia os preços dessas mercadorias;
3) aumento de alguns centavos nos transportes urbanos do Chile, que constituiu, aparentemente, o gatilho das manifestações gigantescas ali ocorridas, um pouco como os “vinte centavos” serviram de partida para as manifestações no Brasil em 2013, o que não foi o caso, cabe afirmar claramente; num e noutro caso, a dimensão das manifestações não se deve absolutamente a esse prosaico evento, e sim a forças políticas diversas, diversamente motivadas, mas convergentes na sua insatisfação contra os governantes; como geralmente ocorre, nesses casos, a evolução do movimento se torna imprevisível, como nas ações de turbas irracionais, estimuladas por diferentes movimentos políticos;
4) possível fraude na apuração de votos na Bolívia, ainda que o presidente atual seja manifestamente popular junto às grandes massas populares, e perfeitamente capaz de vencer eleições limpas e corretamente aferidas; ocorre que o próprio presidente é um fraudador da sua constituição e do plebiscito feito para lhe conceder mais um mandato, recusado e, com a conivência de um tribunal eleitoral complacente, levado a um ambiente de tensão inevitável; mas o caso boliviano é bastante distinto das demais manifestações “populares” na região, pois ele se dá num contexto eleitoral de divisão política do país, não de relativa convergência de forças “populares” atuando diretamente por força de motivações “econômicas”;
5) caos político no Peru, por razões absolutamente anódinas, de disputas partidárias latentes, sem o caráter agudo das manifestações de rua existente nos demais países, em aguardo de novos desenvolvimentos no cenário político-eleitoral do país andino;
6) “tremores” no México, por causa de um cartel de narcotraficantes, prontamente “atendido” em sua reivindicação principal – a libertação do chefe do cartel – pelo presidente de esquerda, alegadamente para “poupar vidas” em determinada cidade, o que demonstra a baixa capacidade do governo no enfrentamento do mais grave problema enfrentado atualmente pelo país, o desafio da criminalidade organizada.
Não cabe ainda colocar na mesma classificação de “manifestações de massas” a mobilização de manifestantes ecologistas, de estudantes e diversos esquerdistas no Brasil, posicionados contra o governo Bolsonaro e suas políticas, pois não se chegou ainda ao “ponto ótimo” da crise, que seria a total incapacidade do governo encaminhar os grandes problemas do Brasil atual: recessão, alto desemprego, desequilíbrios sociais, esgotamento das finanças públicas, insegurança cidadão, degradação de políticas setoriais no campo da justiça, das investigações contra criminosos – inclusive nos círculos governamentais – e indefinição total em diversas áreas de governo, inclusive em política externa. Tampouco se pode falar em outros “distúrbios” na Venezuela, absolutamente esgotada por uma crise que se arrasta desde muitos anos, e impasses persistentes no terreno político. Não há em comum, tampouco, com as gigantescas manifestações de massa ocorridas na Catalunha, de origem puramente local, de cunho nacionalista, ou em Hong Kong, onde o que está em causa é a defesa dos valores e princípios democráticos numa “dependência” que reluta em se integrar ao império autocrático comandado desde Beijing.
Em outras palavras, cada um dos movimentos referidos acima é único e original, sem nada em comum, a não ser o uso de ferramentas sociais para sua caótica organização e um descontentamento geral pairando em todos eles.  Para concluir com o FSP, e exclui-lo de vez de qualquer papel nessas manifestações de países latino-americanos, esse Cominform cubano é totalmente incapaz de explorar essas manifestações em seu proveito próprio. Pode-se, assim, repetir Shakespeare: much ado about nothing, ou seja, muito barulho por nada...
Mas, o Brasil poderia, teoricamente, ser igualmente tomado por manifestações desse tipo? Não sou paranoico, nem adepto de teorias conspiratórias e não creio que eventos que se desenvolvem em outros cenários políticos possam se desenvolver por aqui, inclusive porque, cabe repetir, essas “ações” – que são descoordenadas, caóticas, imprevisíveis, ingovernáveis – não possuem nada, absolutamente nada em comum, a não ser o já referido mecanismo das redes sociais – também amplamente explorado pelas direitas, se por acaso existem na região. Observou-se, ademais, uma extrema violência nos casos do Equador e do Chile, o que não parece perto de se reproduzir no Brasil. Multidões desorganizadas, jovens marginais não possuem uma mesma identidade política ou objetivos uniformes, apenas o desejo de se vingarem de uma suposta “injustiça social”; as razões foram mais econômicas no caso do Equador, e mais políticas no caso do Chile. Este último país possui uma história e uma esquerda bem mais organizada do que em outros país – com exceção, talvez, do Uruguai –, mas os grandes partidos de esquerda nesse país não estão por trás do movimento no Chile.
Volto ao meu diagnóstico inicial: infelizmente, a América Latina parece voltar às suas correntes tradicionais de populismo econômico e demagogia política, pois seus governantes, todos eles, não encaram as reformas necessárias como missão de estadistas, apenas como simples sobrevivência eleitoral. Vamos continuar sendo o que sempre fomos...

Paulo Roberto de Almeida
Taubaté, 26/10/2019