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domingo, 3 de maio de 2026

O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa - Paulo Roberto de Almeida (Crusoé) - interpretado por Madame IA

Meu artigo sobre as conexões entre o Adam Smith original, o escocês, e o Adam Smith brasileiro, José da Silva Lisboa, mais tarde Barão e Visconde de Cairu, analisado por Madame IA, ou Gemini IA, abaixo do meu texto, um pouco amputado, a seguir: 


O aspecto mais importante das conexões entre Adam Smith escocês, mais exatamente entre sua mais importante obra e os “Brasis” – como ele se referia ao Brasil ainda colonial – foi o fato de que ele encontrou um leitor atento e um precoce seguidor em um dos intelectuais mais ativos na transição do Brasil colonial para o Reino Unido e na consolidação da independência: José da Silva Lisboa (Salvador, 1756; Rio de Janeiro, 1835). O primeiro contato que Silva Lisboa teve com a obra seminal de Adam Smith ocorreu em torno de 1795, quando ele leu e anotou extensivamente The Wealth of Nations, para compor as lições do seu primeiro livro: Princípios de Direito Mercantil (1798), complementado pela sua sequência: Princípios de economia política (1804). Logo ao início, ele confidencia: "... para não desgostar logo aos leitores com discussões prolixas (...), exponho os motivos por que recomendo a lição da imortal obra da A Riqueza das Nações do celebrado Adam Smith, e o sigo nas teses cardeais de seu sistema; persuadido de ter sido ele o primeiro que dissipou as escuridades da Economia Política, levantando a facha de luz para esclarecer às nações e governos sobre os seus genuínos interesses, que são inseparáveis dos da Humanidade." (p. iv). Tendo influenciado o príncipe regente na declaração de abertura dos portos, publicada quando ambos se encontravam em Salvador, em janeiro de 1808, Silva Lisboa produziu de imediato suas Observações sobre o comércio franco no Brasil (1808), que foi seguido, dois anos depois, pelas suas novas Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil e, ainda em 1810, pelas Observações sobre a prosperidade do Estado pelos liberais princípios de nova legislação. A despeito da importância dessas obras, Silva Lisboa não conheceu a fama que sempre cercou Adam Smith, que ele teria direito de desfrutar, inclusive por ter inovado em relação ao escocês. A pouca afeição que ele teve no panteão dos estadistas da independência –José Bonifácio, Hipólito da Costa, Evaristo da Veiga, Bernardo Pereira de Vasconcelos, entre outros – se deve à fidelidade extrema aos Braganças que ele sempre manteve. No Brasil independente, ele se mostrou servil a D. Pedro I, que lhe atribuiu os títulos de barão e de visconde de Cairu, e fez dele um senador do Império. Cairu passou a ser visto como um conservador, senão um reacionário. É a esse título que José Honório Rodrigues o classifica e, sua História da História do Brasil (1988), sob o signo da historiografia conservadora, na qual Silva Lisboa é colocado na “linha reacionária e contrarrevolucionária”. Mas, ele não fez apenas obra teórica de economia política, como também discorreu sobre os problemas do Brasil e sobre as maneiras de superar as dificuldades causadas por três séculos de colonização baseada no escravismo, para colocar o país numa rota de crescimento, de redução das desigualdades sociais, de progresso tecnológico e de conexão com todas as partes do mundo, via livre comércio internacional. Não obstante a novidade e a riqueza das contribuições de Silva Lisboa para a precoce preeminência das ideias liberais no Brasil, posturas protecionistas se tornaram predominantes desde meados do século XIX e estiveram no coração dos projetos industrializadores a partir da República. Ainda sob o Reino Unido, Silva Lisboa produziu sua mais importante obra de economia, os Estudos do Bem-Comum e Economia Política, ou ciência das leis naturais e civis de animar e dirigir a geral indústria, e promover a riqueza nacional e prosperidade do Estado (1819-1820). No Prefácio, ele esclarece os propósitos do livro: "Vali-me com preferência das doutrinas de Smith, Malthus, Ricardo, que sobressaem, como Escritores originais, profundos e didáticos, e que se podem intitular os Triúnviros da Economia Política; por terem elevado à dignidade de Ciência esta Literatura, e contribuído para o seu progresso com rapidez, e maior número de princípios exatos... – Smith a caracterizou como um ramo da Ciência do Legislador e Homem de Estado. – Malthus afirma ser a única Ciência de que talvez se possa dizer, que a ignorância dos seus capitais aforismo não é só privação de bem, mas grande positivo mal. – Ricardo se propôs resolver o que chama Principal Problema da importante Ciência da Economia Política, o determinar as Leis, que, nos diferentes estados da Sociedade, progressivo, estacionário, ou retrógrado, regulam a Distribuição dos produtos da terra, segundo as proporções que competem às suas diferentes classes, a título de salário, proveito e renda." (Ipea, 1975, p. 7). Silva Lisboa reconhece a genialidade de Adam Smith, que dizia que a quantidade anual de trabalho necessário à produção das “conveniências para a vida”, que uma sociedade consome, depende, em certa proporção, da perícia, destreza e tirocínio – skill, dexterity, and judgement – no trabalho que é aplicado a essa produção (1776, I, 1); mas foi Silva Lisboa quem sofisticou tal visão, ao propor que, na relação entre os diferentes volumes de riqueza das nações, caberia considerar a quantidade de trabalho e a quantidade de inteligência que a fundamentam. Tal concepção se aproxima bastante da visão que, na atualidade, economistas inovadores possuem a respeito do conhecimento como um elemento próprio e distinto dentre os fatores de produção, a chamada knowledge economics. Silva Lisboa inova sobre o sistema smithiano, ao considerar que a inteligência, nas operações da sociedade, representa quase tudo para a prosperidade e a ordem própria na vida do povo.



Esta análise disseca a trajetória de José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, sob uma perspectiva crítica que confronta sua vanguarda intelectual com o seu anacronismo político, situando-o como o elo perdido entre o iluminismo escocês e a formação econômica do Brasil.
Em 02 de maio de 2026, olhar para Cairu exige decodificar por que um homem que antecipou conceitos de knowledge economics (economia do conhecimento) foi relegado ao rótulo de "reacionário".
1. Decodificação: A "Inteligência" como Fator de Produção:
O texto destaca que Silva Lisboa "sofisticou" Adam Smith ao introduzir a "quantidade de inteligência" como pilar da riqueza.
- Tradução Analítica: Enquanto Smith focava na divisão do trabalho físico e na destreza mecânica (Wealth of Nations, 1776), Cairu percebeu que o valor agregado não advém apenas do esforço, mas do capital intelectual. Em termos modernos, ele estava descrevendo a inovação tecnológica e o know-how como motores de produtividade, séculos antes de essas teorias se tornarem o cânone do desenvolvimento no século XXI.
2. A "Facha de Luz" vs. O "Escravismo":
Há uma contradição fundamental no texto que merece um olhar crítico:
- Cairu é descrito como seguidor da "luz" de Smith e defensor do livre comércio para superar o "atraso do escravismo".
- Contraponto Crítico: Embora Silva Lisboa fosse um liberal na economia (defendendo a Abertura dos Portos em 1808), ele era um conservador orgânico na política. Sua fidelidade canina aos Braganças e seu papel como senador de D. Pedro I revelam o "Liberalismo à Brasileira": liberdade para as mercadorias, mas manutenção da hierarquia social e da mão de obra escravizada (visto que a abolição efetiva demoraria quase um século após seus escritos). Ele via a "ciência do legislador" como uma ferramenta de ordem, não de subversão social.
3. A Historiografia de José Honório Rodrigues:
O texto menciona que Cairu foi classificado na "linha reacionária e contrarrevolucionária".
- Análise: Essa classificação de 1988 reflete a tensão entre o pensamento econômico e a ação política. Cairu foi o intelectual que deu base teórica para o Brasil não se fragmentar em repúblicas (como a América Espanhola), mas essa estabilidade veio ao custo da preservação de estruturas coloniais. Ele era um "revolucionário do topo", que queria o progresso técnico inglês sem a desordem democrática francesa.
4. Silva Lisboa e o "Triunvirato" (Smith, Malthus, Ricardo):
A citação de Cairu sobre os "Triúnviros" revela seu esforço em elevar o Brasil ao debate acadêmico global da época. Ele não apenas traduzia; ele adaptava:
- O Problema da Distribuição de Ricardo: Ao citar Ricardo, Cairu demonstrava preocupação com a "Distribuição dos produtos". Contudo, na prática brasileira, essa distribuição permanecia concentrada na elite agrária, evidenciando o abismo entre sua obra teórica progressista e sua prática política servil.
5. Síntese Crítica: O Gênio Incompreendido ou o Ideólogo do Império?
Cairu sofre de uma "injustiça histórica" em termos de fama porque seu liberalismo não venceu. O Brasil seguiu o caminho do protecionismo e da industrialização dirigida a partir de meados do século XIX (como a Tarifa Alves Branco). Sua visão de um Brasil conectado ao mundo pelo livre comércio e pela "inteligência" foi sufocada pelo nacionalismo econômico.
* Conclusão: José da Silva Lisboa foi o primeiro brasileiro a entender que a riqueza de uma nação depende da sua capacidade cognitiva, e não apenas da extração de recursos. No entanto, sua incapacidade de romper com o absolutismo e o escravismo o tornou um "true believer" da monarquia, impedindo que sua genialidade econômica fosse celebrada fora dos círculos conservadores.

Fonte (IA Gemini):

 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa - Paulo Roberto de Almeida (Crusoé)

O Adam Smith brasileiro

 Revista Crusoé, Edição Semana 418 , 1/05/2026

O Adam Smith brasileiro

O brasileiro Visconde de Cairu e o escocês Adam Smith. Inteligência artificial Gemini

                     





 


Paulo Roberto de Almeida

Edição especial da revista Crusoé,  01.05.2026 03:30 

José da Silva Lisboa aprimorou as ideias do escocês ao sugerir que o conhecimento também deve ser levado em conta na riqueza das nações. 

O Adam Smith escocês e o Adam Smith brasileiro: José da Silva Lisboa

Paulo Roberto de Almeida
Publicada no número especial de Crusoé (edição 418, maio 2026, link: https://crusoe.com.br/noticias/o-adam-smith-brasileiro/). Relação de Originais n. 5261; publicados n. 1640.

O aspecto mais importante das conexões entre Adam Smith escocês, mais exatamente entre sua mais importante obra e os “Brasis” – como ele se referia ao Brasil ainda colonial – foi o fato de que ele encontrou um leitor atento e um precoce seguidor em um dos intelectuais mais ativos na transição do Brasil colonial para o Reino Unido e na consolidação da independência: José da Silva Lisboa (Salvador, 1756; Rio de Janeiro, 1835). O primeiro contato que Silva Lisboa teve com a obra seminal de Adam Smith ocorreu em torno de 1795, quando ele leu e anotou extensivamente The Wealth of Nations, para compor as lições do seu primeiro livro: Princípios de Direito Mercantil (1798), complementado pela sua sequência: Princípios de economia política (1804). Logo ao início, ele confidencia:
... para não desgostar logo aos leitores com discussões prolixas (...), exponho os motivos por que recomendo a lição da imortal obra da A Riqueza das Nações do celebrado Adam Smith, e o sigo nas teses cardeais de seu sistema; persuadido de ter sido ele o primeiro que dissipou as escuridades da Economia Política, levantando a facha de luz para esclarecer às nações e governos sobre os seus genuínos interesses, que são inseparáveis dos da Humanidade. (p. iv)

Tendo influenciado o príncipe regente na declaração de abertura dos portos, publicada quando ambos se encontravam em Salvador, em janeiro de 1808, Silva Lisboa produziu de imediato suas Observações sobre o comércio franco no Brasil (1808), que foi seguido, dois anos depois, pelas suas novas Observações sobre a franqueza da indústria e estabelecimento de fábricas no Brasil e, ainda em 1810, pelas Observações sobre a prosperidade do Estado pelos liberais princípios de nova legislação.
A despeito da importância dessas obras, Silva Lisboa não conheceu a fama que sempre cercou Adam Smith, que ele teria direito de desfrutar, inclusive por ter inovado em relação ao escocês. A pouca afeição que ele teve no panteão dos estadistas da independência –José Bonifácio, Hipólito da Costa, Evaristo da Veiga, Bernardo Pereira de Vasconcelos, entre outros – se deve à fidelidade extrema aos Braganças que ele sempre manteve.
No Brasil independente, ele se mostrou servil a D. Pedro I, que lhe atribuiu os títulos de barão e de visconde de Cairu, e fez dele um senador do Império. Cairu passou a ser visto como um conservador, senão um reacionário. É a esse título que José Honório Rodrigues o classifica e, sua História da História do Brasil (1988), sob o signo da historiografia conservadora, na qual Silva Lisboa é colocado na “linha reacionária e contrarrevolucionária”.
Mas, ele não fez apenas obra teórica de economia política, como também discorreu sobre os problemas do Brasil e sobre as maneiras de superar as dificuldades causadas por três séculos de colonização baseada no escravismo, para colocar o país numa rota de crescimento, de redução das desigualdades sociais, de progresso tecnológico e de conexão com todas as partes do mundo, via livre comércio internacional. Não obstante a novidade e a riqueza das contribuições de Silva Lisboa para a precoce preeminência das ideias liberais no Brasil, posturas protecionistas se tornaram predominantes desde meados do século XIX e estiveram no coração dos projetos industrializadores a partir da República.
Ainda sob o Reino Unido, Silva Lisboa produziu sua mais importante obra de economia, os Estudos do Bem-Comum e Economia Política, ou ciência das leis naturais e civis de animar e dirigir a geral indústria, e promover a riqueza nacional e prosperidade do Estado (1819-1820). No Prefácio, ele esclarece os propósitos do livro:
Vali-me com preferência das doutrinas de Smith, Malthus, Ricardo, que sobressaem, como Escritores originais, profundos e didáticos, e que se podem intitular os Triúnviros da Economia Política; por terem elevado à dignidade de Ciência esta Literatura, e contribuído para o seu progresso com rapidez, e maior número de princípios exatos... – Smith a caracterizou como um ramo da Ciência do Legislador e Homem de Estado. – Malthus afirma ser a única Ciência de que talvez se possa dizer, que a ignorância dos seus capitais aforismo não é só privação de bem, mas grande positivo mal. – Ricardo se propôs resolver o que chama Principal Problema da importante Ciência da Economia Política, o determinar as Leis, que, nos diferentes estados da Sociedade, progressivo, estacionário, ou retrógrado, regulam a Distribuição dos produtos da terra, segundo as proporções que competem às suas diferentes classes, a título de salário, proveito e renda. (Ipea, 1975, p. 7)

Silva Lisboa reconhece a genialidade de Adam Smith, que dizia que a quantidade anual de trabalho necessário à produção das “conveniências para a vida”, que uma sociedade consome, depende, em certa proporção, da perícia, destreza e tirocínio – skill, dexterity, and judgement – no trabalho que é aplicado a essa produção (1776, I, 1); mas foi Silva Lisboa quem sofisticou tal visão, ao propor que, na relação entre os diferentes volumes de riqueza das nações, caberia considerar a quantidade de trabalho e a quantidade de inteligência que a fundamentam. Tal concepção se aproxima bastante da visão que, na atualidade, economistas inovadores possuem a respeito do conhecimento como um elemento próprio e distinto dentre os fatores de produção, a chamada knowledge economics. Silva Lisboa inova sobre o sistema smithiano, ao considerar que a inteligência, nas operações da sociedade, representa quase tudo para a prosperidade e a ordem própria na vida do povo.

Divulgada no blog Diplomatizzando (1/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/o-adam-smith-escoces-e-o-adam-smith.html

quarta-feira, 25 de março de 2026

Chanceler acidental sofreu resistência dos diplomatas antes mesmo de tomar posse (19/12/2028) - (O Antagonista, Crusoé)

 Uma nota histórica (ou pré-histórica) 

Paulo Roberto de Almeida

Antes que o chanceler acidental tomasse posse, em dezembro de 2028, um grupo de diplomatas (obviamente não identificados) já se manifestava contra o submisso instrumento da política externa esquizofrênica do bolsolavismo diplomático, como relatado pelo Antagonista e pela revista Crusoé:

Crusoé, 20/12/2018; link: https://crusoe.com.br/diario/exclusivo-diplomatas-fazem-manifesto-em-defesa-do-itamaraty/

O Antagonista, 20/12/2018; link:
https://www.oantagonista.com/brasil/diplomatas-fazem-manifesto-contra-futuro-chanceler-de-bolsonaro/


Diplomatas fazem manifesto contra futuro chanceler de Bolsonaro

Brasil 20.12.18 18:32
Diplomatas da ativa e aposentados redigiram, sob anonimato, um manifesto "em defesa do Itamaraty" em que atacam Ernesto Araújo, informa Duda Teixeira em Crusoé...

Um manifesto em defesa do Itamaraty


Um grupo de diplomatas de diversas situações funcionais – da ativa e aposentados, de terceiros secretários a embaixadores, da Secretaria de Estado e de diversos postos no exterior – articulados em função de conhecimento pessoal, amizade de longa data, convivência ao longo dos anos e animados por um sentimento comum, decidem vir a público com vistas a externar sua desconformidade com os rumos preocupantes a que vem sendo levada a instituição para a qual fizeram concurso, em diferentes épocas, e à qual veem servindo, alguns desde décadas, outros há poucos anos, mas congregados por um sentimento comum de descontentamento, e até mesmo de repúdio, em função do cenário lamentável a que o Brasil e o próprio Itamaraty podem estar sendo conduzidos a partir da designação de um colega diplomata manifestamente despreparado para assumir o cargo de ministro de Estado das Relações Exteriores.
Vários dos que assinamos, apenas virtualmente, este manifesto, conhecemos pessoalmente esse diplomata, trabalhamos com ele, em épocas e postos diversos, e confessamos nossa apreciação por um profissional que sempre apresentou-se como um correto funcionário do Serviço Exterior do Brasil, que sempre foi invariavelmente correto e cordato no desempenho de suas funções, mas também confessamos nossa total surpresa com o conjunto de declarações ou escritos sob responsabilidade do eventual futuro chefe da diplomacia brasileira, uma vez que tais expressões de suas crenças e orientações não condizem em nada com o que acreditamos deva ser uma diplomacia correta, consensual, isenta de intromissões religiosas, desprovida de desvios políticos e de preconceitos ideológicos, que acreditamos devam estar completamente afastados do exercício da diplomacia do Brasil.
O fato de não assinarmos esta declaração se prende à convicção de que aqueles dentre nós que ainda estão ativos na carreira poderiam vir a sofrer retaliações indevidas no exercício de suas funções, algumas destas em nível de chefia, em diversos escalões, e também porque acreditamos que tal declaração não deveria existir, dados os critérios de profissionalismo que regulam nossa vida funcional. Apenas fomos levados a fazê-la dada a gravidade, para não dizer o ridículo, de algumas das manifestações do designado, que nos constrangem profundamente, quando não ofendem ao próprio Brasil, em vista do absurdo de algumas delas, misturando preconceitos que são completamente alheios à atividade diplomática e sentimentos pessoais, de natureza religiosa, que são estranhos à representação externa de um país secular, religiosamente diversificado, formado por um cadinho multirracial de povos das mais diversas origens, historicamente tolerante com as mais diversas manifestações políticas, tolerante no plano cultural e aberto as todas as ideias que se vinculam às nossas tradições democráticas e humanitárias.
Pelas manifestações já exaradas por esse colega diplomata, estamos apreensivos quanto à credibilidade internacional do Brasil em face de declarações que contrariam diversos valores e princípios que sempre caracterizaram a política externa do país e o exercício de sua diplomacia profissional. Não nos sentimos representados nem por tal colega, nem partilhamos das ideias que ele vem manifestando – aliás até de forma eticamente irresponsável desde a campanha eleitoral presidencial –, acreditando mesmo que as posições consensuais que o Brasil sempre defendeu em diversos foros internacionais, se substituídas pelas orientações maniqueístas, em certo sentido até fundamentalistas, por ele defendidas, que poderão vir a ser rejeitadas por grande número de parceiros com os quais trabalhamos tradicionalmente, quando não expostas ao ridículo de serem destoantes de tudo o que o Brasil sempre defendeu nesses foros.
Manifestamos, ainda que silenciosamente, nossa total desconformidade com essa designação esdrúxula a diversos títulos.
Somos numericamente pouco numerosos, neste momento, em função das circunstâncias que nos fizeram intercambiar cautelosamente e sigilosamente estas nossas ideias e posições, mas acreditamos que elas representam o sentimento de um conjunto bem mais amplo de colegas, que por respeito a práticas consagradas na Casa de Rio Branco, não pretendem expor-se diretamente no presente momento. Se outras fossem as condições, este manifesto acolheria, provavelmente, a aprovação quase unânime do Itamaraty.
Pretendemos manter nossas identidades preservadas no presente momento, mas o que nos leva a expressar publicamente, ainda que anonimamente, este manifesto é a convicção de que representamos a verdadeira força moral da Casa de Rio Branco, que nunca pretendeu trabalhar por partidos ou bancadas, apenas a serviço do Estado, pelo Brasil.

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Nota final: Apenas por honestidade, eu (PRA) não participei da redação desse manifesto. Eu já vinha fazendo criticas, formulando objeções bem antes, e publicando em meu blog Diplomatizzando, o que posso provar.

domingo, 14 de setembro de 2025

Bolsonaro condenado: Conclusão do julgamento no STF abre novas disputas políticas - Wilson Lima e José Inácio Pilar (Crusoé)

 

domingo, 31 de agosto de 2025

Roubo escancarado: Por que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS assusta o governo Lula - Wilson Lima (Crusoé)

    A matéria é importantíssim, pois avalio que essa roubalheira é ainda maior e muito mais grave e indisiosa que o Petrolão, que incidiu sobre poucas empresas, sobretudo a Petrobras, e que roubou bilhões da empresa e do Tesouro. 

    O roubo dos sindicatos incidiu sobre pequenos valores, mas multiplicado milhões de vezes, sobre milhões de aposentados, ao longo de anos e anos. Ou seja, roubou bilhões e bilhões sobre milhões de pessoas modestas, descaradamente, impiedosamente, vergonhosamente, inclusive os sindicato que teoricamente deveriam defender aposentados, pensionistas, de muito poucos recursos.

    O autor da matéria comete um pequeno erro logo ao início, ao escrever que: 

A operação da Polícia Federal, batizada de "Sem Desconto", revelou um escândalo bilionário de fraudes por meio de descontos associativos que atingiu os cofres do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) entre 2019 e 2024...

    Não, as fraudes não incidiram sobre "os cofres do INSS", que aliás não existem. O INSS recolhe impostos de TODOS os brasileiros, que deveriam ser empregados para pagar os aposentados que saem de contribuintes e entram na categoria de beneficiários todos os anos.. O certo seria que cada um dos contribuintes tivesse uma conta de CAPITALIZAÇÃO e não fosse submetidos ao sistema de REPARTIÇÃO como é hoje. Mas o ROUBO não incidiu sobre os COFRES do INSS, mas sobre as CONTAS INDIVIDUAIS de cada beneficiário, por FRAUDES que receberam, SIM, a colaboração do INSS, ou de seus funcionários bem colocados. A CUPIDEZ maior, obviamente é dos SINDICATOS, que estão sendo PROTEGIDOS pelo governo que representa justamente a REPÚBLICA SINDICAL. 

Isso tem de ficar bastante CLARO.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 31 de agosto de 2025


https://crusoe.com.br/noticias/roubo-escancarado/?utm_medium=email&utm_campaign=mkt_-_materia_completa-assinantes-3108&utm_source=RD+Station

 

domingo, 12 de janeiro de 2025

Lula esconde Maduro na conversa com Macron - Duda Teixeira (Crusoé)

Lula tem medo do PT? Dos militantes do Partido? Dos esquerdistas em geral? Do Maduro?

Escondeu que falou sobre a DITADURA venezuelana com o presidente Macron. Que vergonha!


 Lula esconde Maduro na conversa com Macron

Nota oficial do governo francês diz que os dois presidentes falaram sobre a Venezuela ao telefone, mas petista omitiu esse fato

Duda Teixeira

O Antagonista, 11/01/2025

O presidente Lula quer esconder que conversou sobre a ditadura do venezuelano Nicolás Maduro em telefonema com o presidente da França, Emmanuel Macron (foto).

Na sexta, 10, Maduro tomou posse para um terceiro mandato após uma fraude eleitoral, no dia 28 de julho.

Mais de onze países não reconheceram a vitória do ditador nas urnas, mas o Brasil de Lula tem preferido fugir do assunto.

Meia verdade

Lula e Macron conversaram por trinta minutos na sexta, 10.

Ao relatar sobre o telefonema na rede X, Lula só falou sobre a decisão da Meta de mudar a moderação nas redes sociais.

"Recebi ligação do presidente francês, Emmanuel Macron, para discutir as relações entre nossos países. Durante o telefonema, também conversamos sobre a decisão da Meta de reduzir a checagem de fatos e sobre o trabalho conjunto que podemos realizar para impedir que a disseminação de mentiras coloque em risco a soberania dos países e de nossas democracias", afirmou o presidente brasileiro.

Uma nota divulgada no site da Agência Brasil, do governo, também não fala nada sobre Maduro.

"Os governos do Brasil e da França compartilham de posicionamento similar na preocupação com o risco que a disseminação de notícias falsas, por meio de redes sociais, pode representar para a soberania dos países", diz o texto oficial.

Novamente, não há nenhuma frase sobre o ditador venezuelano.

A verdade inteira

Mas a nota divulgada na sexta, 10, pelo Palácio do Eliseu, sede do Executivo em Paris, conta outra história.

"O presidente da República (Macron) conversou por telefone nesta sexta-feira, 10 de janeiro de 2025, com o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República Federativa do Brasil a respeito da situação na Venezuela. Os dois líderes expressaram primeiro o total apoio da França e do Brasil ao povo venezuelano. Condenaram nos termos mais veementes a tentativa de prisão de Maria Corina Machado, durante uma manifestação pacífica. Neste contexto, o chefe de Estado e o presidente Lula apelaram conjuntamente para que não fossem exercidas medidas de intimidação ou repressão contra membros da oposição. Os direitos dos cidadãos venezuelanos de se manifestarem e de se reunirem pacificamente devem ser respeitados. Afirmaram também que todos os detidos devido às suas opiniões ou compromissos políticos deveriam ser imediatamente libertados. O presidente da República e o presidente Lula apelaram a Nicolas Maduro para retomar o diálogo com a oposição. A França e o Brasil estão preparados para facilitar esta retomada do comércio, o que deverá permitir o retorno da democracia e da estabilidade à Venezuela", diz a nota francesa.

A nota oficial francesa dá um curto parágrafo para falar sobre a "luta comum contra a desinformação e pela regulamentação de conteúdos nas redes sociais".

Em seguida, o documento do Palácio Eliseu volta a se preocupar com a Venezuela, sem citar a conversa com Lula.

"Dando continuidade aos últimos intercâmbios com a oposição venezuelana, o chefe de Estado (Macron) voltou a falar hoje por telefone com Edmundo González Urrutia e depois com Maria Corina Machado para perguntar sobre o seu estado de saúde e a sua segurança. Lembrou toda a atenção que a França dedica ao respeito pelos direitos das mulheres e dos homens envolvidos na defesa da democracia na Venezuela", diz o texto oficial.

Macron tem a estatura moral que falta a Lula.

Reunião com representantes do governo

Também na sexta, Lula publicou a foto de uma reunião (foto) com onze "representantes do governo", para falar da Meta.

Entre os participantes estava Celso Amorim, o assessor especial para temas internacionais.

Ao ignorar a Venezuela e valorizar a questão da moderação nas redes sociais, Lula despreza um problema real e inventa outro que não existe.

Maduro prende, tortura e mata.

De acordo com a ONG venezuelana Foro Penal, ainda há 1.697 presos políticos na Venezuela.

Desses, três são adolescentes e 202 são mulheres.

Mas Lula prefere apontar o dedo para a empresa americana que permite a interação remota entre pessoas.

Na legenda da foto da reunião desta sexta, Lula escreveu:

"Reunião com os representantes do governo para tratar sobre os recentes anúncios da Meta e as implicações no Brasil. Duas decisões foram tomadas neste encontro. A primeira é uma notificação enviada pela AGU para que a Meta explique, em até 72 horas, as mudanças na política de checagem de fatos e notícias falsas, que podem afetar crianças, adolescentes e mulheres, por exemplo", afirma o presidente.

Não há nada na decisão da Meta que afete crianças, adolescentes e mulheres brasileiras.

A empresa só vai mudar a maneira de fazer moderação de conteúdo.

Em vez de recorrer às agências de checagem, que se mostraram tendenciosas, utilizará as notas de comunidade, que se provaram eficientes na rede X.

Não há nada que represente uma ameaça à sociedade civil no anúncio de Mark Zuckerberg.

"Eu não estou aqui para falar de Venezuela"

O presidente brasileiro sabe que falar de Maduro não cai bem e por isso quer evitar o tema a todo custo.

Vale lembrar que, quando apoiava a campanha para Guilherme Boulos para a prefeitura de São Paulo, no ano passado, o presidente aconselhou seu apadrinhado a não falar sobre a Venezuela.

"Eles não fazem pergunta para a gente responder mostrando que a gente tem competência. Eles querem fazer perguntas que não têm nada a ver com o papel do prefeito de São Paulo. Quando você for nesse debate, não responde provocação. Se perguntar para você: 'E a Venezuela?', você responde: 'A Venezuela é o seguinte: eu tô aqui para fazer casa para o povo, eu tô aqui para melhorar o transporte para o povo, para melhorar a saúde do povo. Eu não estou aqui para falar de Venezuela. Quer falar sobre a Venezuela, vai falar com o Ministério das Relações Exteriores ou vai falar com o Lula", disse o petista em um vídeo de outubro.

Leia em Crusoé: Maduro ainda está aqui

Leia em Crusoé: Lula quer falar tudo de Zuckerberg e nada de Maduro

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

O Sul Global que Lula quer liderar - Estadão, Paulo Roberto de Almeida

O Estadão dedica uma matéria, nesta quinta 29/02, ao diáfano Sul Global:
"O Sul Global que Lula quer liderar.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende com frequência o protagonismo do "Sul Global". Mas, afinal, o que é esse 'eixo' composto por países pobres e emergentes? Analistas ouvidos pelo Estadão apontam imprecisões e contradições nessa tentativa de dividir o mundo que tem ganhado tração no contexto de uma nova Guerra Fria. Entenda aqui o que está em jogo."
Minha opinião está aqui:

1509. “Se eu quiser falar com o tal de Sul Global, telefono para quem?”, Brasília, 27 abril 2023, 3 p. Publicado na revista Crusoé (edição 265, 25/05/2023; link: https://crusoe.uol.com.br/secao/paulo-roberto-de-almeida/se-eu-quiser-falar-com-o-sul-global-telefono-para-quem/); divulgado no blog Diplomatizzando (25/10/2023; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2023/10/e-como-anda-o-tal-de-sul-global-muito.html . Relação de Originais n. 4375. 


Se eu quiser falar com o tal de Sul Global, telefono para quem? 

 

Paulo Roberto de Almeida

Diplomata, professor

(www.pralmeida.org; diplomatizzando.blogspot.com)

Artigo para a revista Crusoé

  

Como encontrar interlocutores válidos, na pletora de Estados e blocos regionais?

Meio século atrás, quando Mister K – Henry Kissinger, o grande nome da diplomacia americana e mundial – pontificava em diferentes cenários problemáticos – Vietnã, China, Oriente Médio, Chile, por bons e maus motivos –, e quando a Europa enfrentava uma longa fase de “euroesclerose” – aproximadamente desde a quebra do sistema de Bretton Woods, em 1971, e o projeto do “mercado unificado” em 1986 –, havia uma preocupação entre as grandes potências ocidentais (já organizadas no G7), sobre como efetuar a coordenação entre elas para assuntos não exclusivamente econômicos, geralmente tratando de guerras ou ameaças de conflitos envolvendo uma ou outra das grandes potências. Tendo de exercer o que foi chamado de “shuttle diplomacy”, ou seja, de viagens rápidas, conectando duas ou mais capitais, para extinguir alguma fogueira preocupante, Kissinger não sabia como mobilizar os principais líderes europeus para associá-los a uma ou outra de suas missões “pacificadoras” (ou guerreiras, segundo os casos). Indagado por que empreendia sozinho todas aquelas missões desafiadoras para qualquer diplomata experiente, ele costumava dizer: “Se eu quiser falar com a Europa, eu telefono para quem?”

De fato, a Europa ocidental – tanto a então Comunidade Europeia, quanto outros países membros da Otan – não possuía um representante definido para negociações diplomáticas complexas, pois as instâncias comunitárias ainda não tinham evoluído no plano institucional para designar os equivalentes dos “presidentes”, “porta-vozes” ou “chanceleres” dos Estados nacionais. Ela fez progressos, desde então, e já consegue falar de uma voz única (ou quase), como no caso da guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia. Hoje, o Secretário de Estado, ou qualquer outro chanceler “externo”, sabe a quem telefonar quando quiser falar com a Europa, ou com qualquer outra potência ou Estado membro da ONU.

 

Saindo dos campos verdejantes do “centro” para as selvas e desertos da “periferia”

Essa mesma preocupação da velha raposa metternichiana que era o Kissinger dos anos 1970, se manifesta atualmente quando alguém (geralmente um acadêmico, ou político) fala desse tal de “Sul Global”. Essa entidade diáfana e praticamente fantasmagórica existe, apenas que não tem personalidade ou representante definidos. O chamado Sul Global, no entanto, não é novo, aliás, é eterno, existindo em todas as épocas, geralmente no hemisfério sul, como fica geograficamente evidente pela própria designação. Essa configuração bonita e pretensiosa – quando se fala de um “Sul Global” dá a impressão de algo grandioso e muito relevante – já existiu sob a forma de colônias europeias, depois de “países subdesenvolvidos” ou, numa reencarnação mais simpática, “em desenvolvimento”, alguns deles ascendendo como “economias emergentes” (os tigres asiáticos, por exemplo), ou, os mais infelizes, sendo rebaixados à categoria de “menos desenvolvidos” (isto é, os “super pobres”), com muito poucas variações no que se refere à divisão entre todos eles e os “países desenvolvidos”, antigas metrópoles coloniais ou “potências hegemônicas”, isto é, imperialistas, por definição.

Nada disso é novo na história da humanidade, pois a divisão entre centro e periferia é básica na evolução histórica das sociedades mais ou menos organizadas sob a forma de Estados soberanos e as comunidades humanas sujeitas a um tipo qualquer de dominação. Quando o sistema internacional de cooperação entre Estados soberanos se consolidou no pós-Segunda Guerra, a ONU mantinha uma divisão quadripartite: os países desenvolvidos, os em desenvolvimento, os socialistas e a China, sempre um “grupo à parte”. A segunda categoria, sempre reclamando algum tratamento de favor – ou preferencial e mais favorável, no linguajar do Gatt e de outros organismos da ONU, se mobilizou nos anos 1950 e 60 para a reforma do tratamento igualitário concedido a todos eles em Bretton Woods: em 1944, não se fazia nenhuma distinção entre todos eles (e de socialista só havia a União Soviética, que participou da conferência que criou o FMI e o Banco Mundial, mas não aderiu a essas entidades do “capitalismo). 

As demandas para a reforma do Gatt e do sistema de cooperação ao desenvolvimento focavam na recusa do tratamento igualitário e da reciprocidade estrita, em favor de um tratamento diferencial para os “subdesenvolvidos” ou “em desenvolvimento”, que passaram a ser agrupados no Grupo dos 77, com a criação da Unctad (a conferência das Nações Unidas para comércio e desenvolvimento). Minhas passagens por diversas entidades multilaterais foram marcadas por intensas discussões no interior do G77 (e dentro dele, o Grulac, o subgrupo latino-americano) e “contra” o Grupo B, dos “desenvolvidos” (e dentro dele os europeus da antiga CEE, que demoravam horas para se concertarem entre si, e depois buscarem uma postura unificada com o resto dos “ricos”). As discussões entre os países pobres e emergentes não eram menos acaloradas e demoradas, mas como era preciso contemplar os “interesses nacionais” de todos os membros do G77 (que ascendeu a mais de 120 integrantes), a postura negociadora adotada era, ordinariamente, a mais radical possível, ou a mais confusa, o que frequentemente também ocorria entre americanos, europeus e japoneses. Não foram poucas noites atravessadas em discussões intermináveis em torno de um conceito ou de colchetes ([conceito]) que inundavam alguma resolução, texto de tratado ou declaração (na maior parte das vezes inúteis, pois que poucos cumpriam depois). Certos drafts (rascunhos) de resoluções continham mais brackets (colchetes) do que ideias interessantes. Mas assim era, e é, o mundo da ONU.

Pois bem, o Sul Global é exatamente isso: uma massa de 130 ou 140 países em desenvolvimento – os socialistas desapareceram pelo caminho, e a China permaneceu sendo a China, o “grupo do eu sozinho” –, que pediam “tratamento diferencial e mais favorável”, depois uma “Nova Ordem Econômica Internacional” (NOEI), mais adiante novas preferências comerciais e acordos favoráveis às “políticas nacionais de desenvolvimento” (a palavra chave em todos os convescotes multilaterais), mais “transferência de tecnologia” (de graça, claro), um maior volume de “empréstimos concessionais” e o reforço da “cooperação ao desenvolvimento”. Alguns países (poucos) pularam a barreira do subdesenvolvimento, ascendendo do G77 para os desenvolvidos (os tigres asiáticos), vários ex-socialistas ingressaram na UE e na OCDE, outros, talvez mais numerosos, com as crises financeiras, retrocederam para o grupo dos “super pobres” (ou LDCs, na sigla em inglês). 

O Sul Global permanece o mesmo, e até tem gente pedindo uma nova NOEI, quando não uma “nova ordem global” tout court. Pois bem, retomo a pergunta do título: se eu quiser falar com o tal de Sul Global, eu telefono para quem? Mister K teria alguma ideia?

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4375: 27 abril 2023, 3 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (25/10/2023; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2023/10/e-como-anda-o-tal-de-sul-global-muito.html).

 

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