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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990 - Marcos Degaut (Gazeta do Povo)

Enquanto os EUA mudam de estratégia, a diplomacia do Brasil está presa nos anos 1990

Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo.
Lula recebeu Nicolás Maduro em 2023: diplomacia parada no tempo. (Foto: EFE/André Coelho)

Na primeira parte deste artigo, analisei os princípios que estruturam a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos: o abandono das ilusões hegemônicas do pós-Guerra Fria, a acomodação pragmática entre grandes potências, a revalorização do Hemisfério Ocidental e o retorno explícito à lógica do poder, da hierarquia e das escolhas duras.

 Essa reorientação estratégica dos EUA, que reposiciona a América Latina no centro do cálculo geopolítico de Washington, evidencia, por contraste brutal, o grau de desorientação da política externa brasileira sob o governo Lula, que se revela não apenas anacrônica, mas estruturalmente incapaz de operar em um sistema internacional que premia o planejamento e pune o improviso.

Em um sistema internacional que voltou a operar segundo lógica de poder, competição geoeconômica e hierarquias regionais claras, o Brasil insiste em uma diplomacia conceitualmente ultrapassada, operacionalmente frágil e estrategicamente subserviente. A diplomacia lulopetista é mero invólucro, pois não dispõe de uma política externa consubstanciada em uma grande estratégia, mas exclusivamente de uma práxis diplomática formal que consiste em slogans, maneirismos afetados e apego desorientado a representações abstratas de poder que encontram cada vez menos respaldo na realidade objetiva. Não se trata de erro pontual ou ruído tático, mas de incapacidade estrutural de formular interesses nacionais coerentes e de convertê-los em ação diplomática consistente.

Para compreender a gravidade desse descompasso, é preciso esclarecer o que está em jogo. Grande estratégia não é diplomacia cotidiana, nem soma de políticas setoriais, tampouco retórica diplomática ou ativismo internacional difuso. Trata-se do arcabouço intelectual e político que integra meios e fins do Estado, articulando poder militar, capacidade econômica, base produtiva, política externa, tecnologia e coesão interna em torno de interesses nacionais hierarquizados no longo prazo. É a arte de alinhar recursos limitados a objetivos essenciais em um ambiente de competição permanente – e, sobretudo, de fazer escolhas.

A grande estratégia existe para responder a perguntas basilares: o que é vital, o que é secundário e o que pode ser sacrificado. Ela define onde engajar, onde conter, onde acomodar, onde recuar, onde alocar recursos. Sem esse quadro, o Estado se torna refém de agendas dispersas, pressões circunstanciais e impulsos ideológicos. Não por acaso, potências que falham em sua formulação tendem a desperdiçar recursos, perder autonomia e reagir aos acontecimentos em vez de moldá-los. No caso do Brasil lulopetista, sobretudo no atual contexto de transformação das forças que regem a ordem internacional, a ausência de uma grande estratégia tende a aprofundar a irrelevância do País em temas geoeconômicos, tecnológicos e militares, sem prejuízo de outros.

Não há, no Brasil de Lula, um projeto que integre desenvolvimento, defesa, economia, segurança, indústria, comércio exterior e inserção internacional. O país opera por reflexos, slogans e improvisos, reagindo tardiamente aos movimentos alheios em vez de moldar o próprio entorno estratégico.

É exatamente essa lacuna que define a política externa brasileira atual. Enquanto Washington redefine prioridades, aceita limites e reorganiza sua projeção global com base em critérios objetivos de poder e risco, Brasília continua a agir como se o mundo ainda fosse regido pelo multilateralismo abstrato dos anos 1990. A diplomacia brasileira permanece ancorada em noções vagas de “multilateralismo”, “diálogo intercultural” e “Sul Global”, conceitos que não são traduzidos em interesses nacionais claramente definidos, nem em ganhos concretos de poder, influência ou segurança.

Os formuladores e executores da política externa não se deram conta de que a autonomia estratégica com a qual o Brasil – e, grosso modo, os demais países latino-americanos, conforme destaquei na primeira parte deste artigo – contou nos últimos 35 anos não existe mais. Ela decorreu, em ampla medida, do relativo desengajamento dos EUA do Hemisfério Ocidental entre o fim da Guerra Fria e o início do atual mandato de Trump, tendo sido pessimamente empregada por todos os governos de esquerda da região. Na ordem que ora se conforma, o custo de se opor aos interesses estratégicos americanos na região é brutalmente superior àquele das últimas três décadas.

A operação militar na Venezuela expõe essa nova realidade: à luz da NSS 2025, a captura de Maduro não deve ser vista, exclusivamente, sob a lente primária da mudança de regime, do combate ao tráfico internacional de drogas, do fortalecimento do controle migratório norte-americano, da defesa da democracia ou mesmo da custódia virtual de reservas petrolíferas correspondentes a 303 bilhões de barris, mas sim da perspectiva de que Caracas operava como um hub de interesses antagônicos aos de Washington na América Latina: uma plataforma operacional chinesa, russa e iraniana para a promoção multissetorial de ações e projetos que ameaçavam (e ameaçam) interesses que o governo dos EUA considera vitais. Não que, à queda de Maduro, faltem sucessores regionais que se proponham a dançar e proferir diatribes e ameaças aos EUA e seu governo, como atestam as recentes declarações dos presidentes colombiano Gustavo Petro e cubano Miguel Díaz-Canel. Creio não convenha especular se os mandatários são inconsequentes, loucos ou ambas as coisas.

A ausência de grande estratégia torna-se particularmente visível na América do Sul. O Brasil, historicamente o principal polo de gravidade regional, abdicou de exercer liderança estratégica, por temor ou simples incapacidade. Em vez de estruturar um espaço regional minimamente coeso – política, econômica e geopoliticamente – optou por uma diplomacia passiva, reativa e autocentrada. Sem objetivos claros, o país confunde peso econômico e demográfico com influência e militância ideológica com liderança. O resultado é um vácuo de poder ocupado por atores externos e por rearranjos regionais dos quais o Brasil participa apenas marginalmente.

O contraste com países vizinhos é eloquente. Enquanto governos sul-americanos, guinando para a direita, como exposto em artigo nesta Gazeta, reorganizam alianças, explicitam orientações programáticas e constroem coalizões políticas regionais com objetivos definidos, o Brasil se isola, preso a uma visão consensualista que já não encontra eco no continente. A integração regional, antes instrumento potencial de projeção estratégica, sobretudo no que diz respeito à sua vertente infraestrutural, foi reduzida a um ritual diplomático sem capacidade de coordenação real.

No novo contexto hemisférico, a postura brasileira é especialmente custosa. A estratégia americana não é neutra, tampouco inclusiva. Ela opera por alinhamentos seletivos, coerção econômica, pressão regulatória e demonstração de força militar. Países que não se posicionam claramente deixam de ser sujeitos da política regional e passam a ser tratados como objetos de gestão estratégica.

Washington concebe o hemisfério ocidental como área vital a ser protegida da presença estratégica de potências extra-hemisféricas. Infraestrutura, energia, logística, telecomunicações, minerais críticos e cadeias de suprimento passaram a ser tratados como ativos de segurança nacional. Essa lógica redefine as regras do jogo, especialmente para o Brasil. Ignorar essa mudança não preserva autonomia. Ao contrário, expõe o país à pressão externa sem instrumentos de barganha.

Essa deficiência estrutural também explica a relação desequilibrada do Brasil com a China. Sob Lula, Pequim deixou de ser apenas um parceiro comercial relevante e passou a ocupar posição central na inserção internacional brasileira, sem que isso tenha sido enquadrado por uma estratégia de balanceamento, atração de investimentos, transferência de tecnologia, diversificação ou proteção de interesses sensíveis.

Hoje, mais de 30% das exportações brasileiras têm como destino o mercado chinês, concentradas em commodities de baixo valor agregado. O Brasil importa, por sua vez, bens industriais, tecnologia e insumos estratégicos. Trata-se de uma relação estruturalmente assimétrica, na qual o país aceita passivamente uma dinâmica baseada na exportação de commodities e na dependência tecnológica, que cria e amplia vulnerabilidades, como a reprimarização da economia e a fragilização da base industrial.

Ao mesmo tempo, Pequim amplia sua presença no território brasileiro em setores estratégicos como energia, portos, ferrovias, telecomunicações e tecnologia digital. Do ponto de vista norte-americano, esses investimentos já não são vistos apenas como negócios, mas como vetores de influência geopolítica e vulnerabilidade estratégica. Essa percepção orienta políticas industriais, sanções, controles de exportação e pressão diplomática.

Ainda assim, o governo evita qualquer política de diversificação séria, proteção de setores sensíveis ou condicionamento estratégico da relação bilateral. Não há balanceamento, não há linhas vermelhas, não há estratégia, apenas acomodação. Age como se a geopolítica fosse um ruído externo irrelevante, quando, na realidade, ela já molda decisões comerciais, financeiras e tecnológicas em escala global.

Essa ambiguidade não produz autonomia. Produz vulnerabilidade. Uma grande estratégia teria imposto limites, definido setores críticos, protegido capacidades nacionais e condicionado a cooperação econômica a objetivos políticos, comerciais, tecnológicos e industriais claros. Nada disso ocorreu.

Em vez disso, o Brasil naturalizou uma relação assimétrica, evita qualquer posicionamento firme em temas sensíveis aos interesses chineses e abdica, na prática, de autonomia estratégica, tudo isso sob o discurso genérico do pragmatismo. Ao não definir uma estratégia própria para lidar com a China, o Brasil se torna progressivamente dependente de decisões tomadas fora de seu controle.

O mesmo padrão se repete na diplomacia ambiental. Elevada a eixo central da projeção internacional do governo, a agenda climática é tratada como fim em si mesma, e não como instrumento de poder. Compromissos amplos são assumidos, constrangimentos externos são aceitos, mas esses ativos políticos não são convertidos em vantagens estratégicas duráveis, investimentos estruturantes ou fortalecimento da posição internacional do país. Uma grande estratégia teria transformado capital ambiental em poder; a atual diplomacia limita-se a acumular constrangimentos e sair em fotos ao lado de companhias, digamos, questionáveis.

Além disso, a diplomacia ambiental brasileira padece de um erro de cálculo geoestratégico grosseiro, pois confere às concepções ambientais de determinados países europeus relevância objetiva inspirada principalmente na autoatribuída “superioridade moral” que tais países proclamam. Utilizar metas propostas por potências europeias para fins de benchmarkambiental em diversos setores é, na melhor das hipóteses, um contrassenso, e, na pior, uma piada grotesca, particularmente para um país que, como o Brasil, precisa se reindustrializar.

A participação do setor industrial nas economias dos países da zona do euro, que em 2000 correspondia a 20%, foi, em 2024, de 13%. Somente entre 2023 e 2024, a produção industrial dos países da zona do euro teve queda de 2,2%. O carro-chefe desse espetáculo de zelotismo autocongratulatório e destruidor da economia real é a Alemanha, cuja produção industrial despencou 12% (!) entre 2019 e junho de 2025. É nesse exemplo de suicídio econômico que a diplomacia ambiental brasileira parece se inspirar.

Somados, esses elementos revelam uma política externa sem arquitetura, sem hierarquia de interesses e sem visão de longo prazo. Em um sistema internacional marcado por competição entre grandes potências, instrumentalização da economia e reorganização de esferas de influência, o Brasil opera como se a simples participação em fóruns multilaterais fosse suficiente para garantir relevância.

A ausência de grande estratégia se manifesta de forma especialmente grave na área de defesa. O discurso oficial fala em autonomia estratégica, mas os investimentos são insuficientes, o planejamento é fragmentado e as capacidades militares não estão articuladas a uma visão geopolítica coerente.

O Atlântico Sul, vital para o comércio exterior, para a segurança energética, para as comunicações submarinas e para a soberania nacional, permanece insuficientemente protegido. O crime organizado transnacional – conectado a rotas globais de tráfico, lavagem de dinheiro e contrabando – avança mais rapidamente do que a capacidade estatal de resposta.

Em um cenário no qual os EUA reforçam sua presença naval no Caribe, reavaliam o controle de rotas estratégicas e tratam o hemisfério como área prioritária, essa fragilidade brasileira não é teórica, mas risco estratégico concreto. Falar em soberania sem capacidade dissuasória deixou de ser ingenuidade. Tornou-se imprudência.

A nova NSS dos EUA deixa claro que o tempo da ambiguidade estratégica acabou. Potências estão escolhendo prioridades, delimitando espaços de interesse e exigindo posicionamentos mais claros de seus entornos estratégicos. Nesse mundo, o Brasil surge como um ator paradoxal: grande demais para ser ignorado, mas cada vez mais irrelevante por falta de visão estratégica, em contexto no qual a ausência de uma grande estratégia não é neutralidade sofisticada – é vulnerabilidade estrutural. E vulnerabilidade, em um sistema governado por poder, raramente permanece sem custo e consequências.

Parte central do problema reside em uma diplomacia anacrônica, inadequadamente estruturada no que diz respeito à carreira, aparelhada, que se move por inércia, hermética, avessa à modernização, presa a tradições que já não resistem ao peso do tempo, resistente a revisar seus pressupostos e enlevada por sua autopercepção de ser um centro de excelência. O mundo mudou, a estratégia americana mudou, a competição entre grandes potências se intensificou, mas o discurso brasileiro permanece ancorado em um ambiente internacional que já não existe e a práticas, métodos e conceitos ultrapassados.

Política externa não se faz no vácuo. Um país com o peso geopolítico do Brasil não pode se contentar com uma diplomacia reativa e conformista sempre a reboque dos acontecimentos, que pouco influencia as relações internacionais, mas sofre em demasia os efeitos das políticas dos global players.

Tradições e práticas diplomáticas só fazem sentido e mantêm sua legitimidade quando são manifestamente convergentes com o interesse nacional mais amplo, alicerçadas em diretrizes de política externa que estejam alinhadas a uma grande estratégia de nação. A adesão cega a “tradições” trai o próprio conceito de diplomacia estratégica e prejudica toda a nação.

O balanço final é severo. Enquanto as grandes potências voltam a pensar o mundo em termos de poder, território, hierarquia e interesse nacional, a política externa de Lula revela-se incapaz de operar nesse ambiente. Não por falta de recursos, peso econômico ou relevância regional, mas por um déficit estrutural de pensamento estratégico e por sua lógica intrínseca de parasitação do Estado.

Isso se traduz em dependência geopolítica, fragilidade econômica, perda de influência regional e redução da capacidade de proteger interesses nacionais vitais. Em um hemisfério que deixou de ser periférico para voltar ao centro do cálculo geoestratégico, o custo para o Brasil, nesse cenário, é de uma crescente marginalização.

Marcos Degaut é doutor em Segurança Internacional, pesquisador sênior na University of Central Florida (EUA), ex-secretário especial adjunto de Assuntos Estratégicos da Presidência da República e ex-secretário de Produtos de Defesa do Ministério da Defesa.


segunda-feira, 14 de julho de 2025

Três impérios, três destinos - Paulo Roberto de Almeida

Três impérios, três destinos

Existem hoje, temporariamente, três impérios e meio no mundo.

O império chinês é guiado pela racionalidade instrumental dos mandarins tecnocráticos do PCC. 

O império russo é dominado pela obsessão expansionista de Putin. 

O império americano está sendo diminuído pela ignorância avassaladora de Trump.

Isso explica as trajetórias diferentes de cada um deles: sucesso sustentável no primeiro caso; impasses e disfunções no segundo caso, podendo levar a uma profunda crise estrutural da Rússia; aceleração do declinio no terceiro caso, mas que atinge não só os EUA, mas o mundo todo, dada a magnitude do ainda hegemônico império americano. 

De certa forma, o mundo econômico é uma vitima da extrema ignorância de um déspota eleito democraticamente.

O mundo político e geopolítico está sendo abalado pelo expansionismo obsessivo de um ditador totalitário.

O fabuloso Império do Meio do passado, que atraía comerciantes e aventureiros europeus da primeira globalização, a dos “descobrimentos”, está sendo pacientemente reconstruído pelos novos mandarins do PCC.

Em volta desses três impérios, e do meio império da UE, que não possui comando unificado no plano econômico ou militar, gira o destino de potências médias, como Índia e Brasil, assim como o de todos os demais países com alguma importância econômica ou política no mundo atual. 

Alguns destes são guiados por estadistas inteligentes e racionais; outros, infelizmente, o são por lideres impulsivos ou mal assessorados, que reagem de forma tão irracional quanto o atual candidato a déspota dos EUA; de certa forma, este último está facilitando o itinerário bem sucedido do primeiro império.

CQD!

Paulo Roberto de Almeida

São Paulo, 14/07/2025


domingo, 2 de fevereiro de 2025

Um novo Estudo da História? - Paulo Roberto Almeida

Um novo Estudo da História?

Paulo Roberto Almeida


A partir dos anos 1930, indo até o início dos anos 1960, o historiador britânico Arnold Toynbee produziu os muitos volumes do seu monumental Um Estudo da História, sintetizados num único volume em duas oportunidades do pós-guerra. 

Ele traçou a emergência, ascensão e declínio de mais de duas dezenas de grandes civilizações históricas, buscando detectar as similaridades ou constâncias nesses processos, sempre por fatores estruturais, próprios às suas evoluções, mas alguns de natureza contingente, como guerras, invasões externas e dominação por forças mais poderosas, ou grandes desastres naturais. 

Ele não tinha sido apresentado ainda a um fator relativamente incongruente que é a possibilidade de um idiota completo ser democraticamente eleito por uma larga tropa de similares e começar a destruir sistematicamente um país, que ocorre ser uma das mais prometedoras civilizações da História.

Não contava com a astúcia muito pouco hegeliana da História.

Sorry pela brincadeira…

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 2/02/2025


terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Os EUA chegaram finalmente ao que Tocqueville mais temia? - Paulo Roberto de Almeida

Os EUA chegaram finalmente ao que Tocqueville mais temia?

Paulo Roberto de Almeida


Todos somos prisioneiros da “ditadura do momento”, ou tendemos a ser.

Os Founding Fathers se referiam a, e queriam, um tipo de sociedade que não existe mais, convergente no trabalho honesto, ao estilo da “ética protestante” de Max Weber.

Já são muitos os exercícios teóricos sobre os EUA totalmente disfuncionais e em declínio inevitável. Arnold Toynbee, por exemplo, nos volumes posteriores à IIGM do seu monumental Estudo da História, já acreditava nessa decadência no momento de maior poder mundial dos EUA, em 1947. 

Seu sistema eleitoral, por exemplo, foi feito para evitar a “tirania da maioria”, como dizia Tocqueville, mas essa maioria pode ainda assim produzir a tirania da mediocridade, com uma democracia de massas que se opõem ao conhecimento de uma elite educada. 

Os EUA chegaram à mediocridade da maioria?

Olhando a turba que apoia Trump de maneira irracional parece que sim.

Contemporaneamente aos Founding Fathers, o romancista James Fenimore Cooper - o do Último dos Moicanos - já dizia que a democratização leva inevitavelmente à mediocrização. 

Talvez seja o caso. Sociedades homogêneas e pequenas talvez consigam conservar a qualidade do regime democrático; grandes sociedades muito diversificadas podem correr o risco da “tirania da mediocridade”, sujeitas à “ditadura” de algum oportunista capaz de encantar e manipular a maioria de cidadãos pouco educados.

Acho que a maioria dos pouco educados nos EUA encontrou o seu oportunista idiota que os conduzirá ao aprofundamento de um declínio toynbeeano.

Enquanto isso, a China milenar aposta numa sociedade do conhecimento e isso não tem muito a ver com a “ditadura de um partido leninista” e sim com a tradição persistente de um regime tecnocrático baseado na seleção mandarinesca dos mais competentes para gerir uma boa administração das coisas e das pessoas.

O PCC é mais chinês do que marxista-leninista, uma doutrina que ficou na superfície da estrutura política; a infraestrutura humana continuou mandarinesca, isto é, meritocrática.

Nos EUA, a meritocracia parece ter se deixado aprisionar por um oportunista obcecado pela ideia de sua própria grandeza, que ele confunde com a grandeza americana, quando o país já deixou de ser uma sociedade do conhecimento para valorizar apenas a riqueza fugaz do ganho financeiro.

O “enriqueça rapaz” já não segue mais os preceitos austeros de um Benjamin Franklin, e sim o oportunismo manipulador de um especialista em enganar os incautos como o idiota ignorante de um Trump.

Pior para os americanos, sorte dos chineses, que continuam a valorizar o conhecimento de longo prazo sobre o enriquecimento rápido.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 21/01/2025

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Carga tributária total, setorial e natureza da incidência, nos EUA e no Brasil - Ricardo Bergamini

 Transcrevo o que acabo de colocar no Facebook, com base em mensagem de Ricardo Bergamini: 

O economista Ricardo Bergamini comenta sobre a natureza, a composição e os volumes respectivos das cargas tributárias dos Estados Unidos e do Brasil. Nós, obviamente, estamos do lado oposto: tributamos os mais pobres, em lugar dos mais ricos:

"Hoje, a distribuição de lucros e dividendos é isenta [no Brasil], mas passará a ser tributada com a criação de um imposto mínimo para quem ganha acima de R$ 600 mil por ano. A medida deve ser discutida no Congresso em 2025 e, se aprovada, passar a valer em 2026.
A composição da Carga Tributária dos Estados Unidos tem como base 83,46% de sua arrecadação incidindo sobre a Renda, Lucro, Ganho de Capital, Folha Salarial e Propriedade (classes privilegiadas da nação americana), e o Brasil 55,45% e apenas 16,54% [nos EUA] incidindo sobre Bens e Serviços (arroz, feijão, remédios, transportes e educação), e o Brasil 44,55%. Com uma Carga Tributária total de apenas 26,6% do PIB, e o Brasil de 33,0% do PIB.
No Brasil, por deformação cultural, seria uma proposta comunista, mas é à base da grandiosidade dos EUA, com um PIB de US$ 30,0 trilhões (no Brasil, tributando à fome a miséria, é de US$ 2,0 trilhões)."

Ricardo Bergamini só utiliza dados oficiais em todos os seus comentários.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Cuba: a falácia do embargo como produtor da miséria da ilha: Paulo Roberto de Almeida e Marcelo Aleixo

 Uma postagem feita na minha página no Facebook sobre a penúria de Cuba em matéria petrolífera – essencial para a geração de energia e para transportes –, agora reduzida apenas a pequenos fornecimentos do México, recebeu alguns comentários nas antípodas. Um dos grandes comentários, merece ser promovido abaixo, por ser significativo dos problemas estruturais cubanos, que NÃO TÊM NADA a ver com o embargo americano.

Cumprimento seu autor, Marcelo Aleixo, que conhece o que comenta. Acrescento apenas uma coisa: dizer que Cuba é "membro da OMC desde 1995" não traduz toda a realidade. Cuba é membro original do GATT-1947, abrigou a famosa conferência da ONU sobre comércio, emprego e desenvolvimento, em 1947-48 (que criou a primeira Organização Internacional do Comércio, o terceiro pé de Bretton Woods, mas que não foi aprovada na época) e continuou no GATT nas décadas seguintes, mesmo se tornando comunista em 1961.

Ou seja, o embargo é uma piada, pois Cuba pode comerciais com TODOS os demais membros da ONU, do GATT e da OMC, que SEMPRE VOTAM CONTRA o embargo, todos eles, pois todo mundo é contra a aplicação extra-nacional e unilateral de leis inernas. Cuba é POBRE pelo socialismo, não por causa do embargo, e só sobreviveu graças ao "mensalão" soviético, e depois graças aos petrodólares chavistas.

PRA.

This year Cuba’s oil imports have collapsed.
Source: Economist



Marcelo Aleixo:
É incrível a imaginação (ou a falta dela) de alguns para tentar justificar o injustificável, e buscam com ilógica achar um culpado dos problemas cubanos. Vemos isso quando resumem os problemas de Cuba ao embargo.
Antes da revolução de 1959, Cuba era um dos países mais ricos da América latina, e quando Fidel morreu era um dos mais pobres, com uma taxa de pobreza de 90%. Antes, estava em quinto no ranking de renda per capita, terceiro na expectativa de vida, com taxa de alfabetização de 76%, a quarta mais alta da América Latina, sendo que o Brasil só foi alcançar esse índice em 1980. Cuba ocupava a 11ª posição no mundo em número de médicos per capita. Hoje a ilha tem que importar cerca de 75% da comida que sua população consome, incluindo açúcar. Com o salário médio de Cuba gasta-se mais de 70% só com alimentação. Segundo dados do IBGE, as famílias com rendimento do salário médio brasileiro gastam cerca de 20% com alimentos. Cuba tem um salário mínimo de US$9. Foi Castro que iniciou o processo para eliminar a classe média e alta da sociedade, principalmente através de duas reformas agrárias. A segunda, mais radical que a primeira, incluiu a nacionalização das empresas americanas e a erradicação da propriedade privada sobre os meios de produção.
Logo depois da revolução os americanos reconheceram Fidel Castro como o novo líder daquela ilha, tanto que o revolucionário foi recebido por Richard Nixon nos EUA, até colocou flores no túmulo de George Washington em sessão solene, com direito à foto oficial apertando a mão do vice-presidente americano. Ou seja, não houve naquele momento uma questão de defender democracia ou alguma ideologia na ilha. Porém, em fevereiro de 1960 Cuba e União Soviética assinam um acordo comercial para a URSS comprar produtos cubanos e abastecer Cuba com petróleo bruto. O governo dos EUA determinou que empresas de petróleo americanas em Cuba parassem de refinar o petróleo soviético. Cuba então nacionalizou as refinarias americanas e desapropriou todas as propriedades dos EUA dentro da ilha, sem pagar por indenizações, e passou a discriminar as importações de produtos norte-americanos, dando motivos aos EUA declararem embargos, que contou com apoio da OEA e sem oposição da OMC.
Era uma questão comercial e de geopolítica, nada a ver com ideologia. Hoje alguns dizem que o atraso da ilha é por causa do embargo, não contam a história mais completa, e omitem que a limitação de comércio da ilha é apenas parcialmente com os EUA. Os cubanos podem fazer, e de fato o fazem, comércio internacional com muitos países, além do país ser membro da OMC desde 1995. Cuba importa cerca de 6% do PIB, índice próximo do que - na história recente - o Brasil tem comprado do exterior, país este que nem tem embargo algum. E, por vezes, esses mesmos que defendem o fim dos embargos contra Cuba, também defendem o protecionismo insano brasileiro, para manter o status quo. Ora, segundo essa lógica deles, se Cuba é um país atrasado por causa das sanções, que a levaram a tão baixo comex, então o Brasil é um país atrasado por proposições como as deles mesmos, que restringem o comex brasileiro. Mas, sabemos, lógica não é o forte deles.
Como disse Diogo Costa: "Antes de 1959, o problema de Cuba era a presença de relações econômicas com os Estados Unidos. Depois o problema se tornou a ausência de relações econômicas com os Estados Unidos". A sanção americana é obscena, como o despotismo do governo cubano também é, mas o embargo não é a raiz da pobreza cubana. Os cubanos, por exemplo, já compram vários produtos dos EUA, podem comprar outros produtos americanos pelo México, como podem comprar carros do Japão, eletrodomésticos da Alemanha, brinquedos da China, ou cosméticos e até implementos agrícolas do Brasil.
Por que não compram? Porque não têm como pagar. Não é um problema contábil ou monetário, pois o governo cubano emite moeda sem lastro nem vergonha, coisa que muitos dos mesmos que defendem o protecionismo brasileiro e o fim do embargo também defendem. O que falta é oferta. Cuba oferece poucas coisas de valor para o resto do mundo. Cuba é pobre porque o trabalho dos cubanos não é produtivo. Os pequenos produtores da ilha, que supostamente se beneficiaram das reformas agrárias, não têm liberdades. O Estado cubano lhes diz o que produzir, a que preço, e eles não podem sequer matar uma vaca da propriedade. Isso daria até 25 anos de prisão se desrespeitado. Pode-se fazer uma analogia entre o que ocorre em Cuba com o que aconteceu na Europa da Inquisição: toda pessoa que discorda do estabelecido pelo governo é reprimida, a casa é tomada e outras pessoas entram. O difícil para os socinhas e comunas conceberem é que produtividade é coisa de empresário capitalista. É o capital que deixa o trabalho mais produtivo. E é pelo empreendedorismo que uma sociedade descobre e realiza o melhor emprego para o capital e o trabalho.
Mesmo quando o governo cubano permitiu um pouco de empreendedorismo, restringiu a entrada de capital. Raúl Castro fez a concessão de quase 170.000 lotes de terra não cultivada para agricultores privados. Só que faltam ferramentas e máquinas para trabalhar a terra. A importação de bens de capital é restrita pelo governo de Cuba. Faltam caminhões para transportar alimentos. Os poucos que existem estão velhos e passam grande parte do tempo sendo consertados. Em 2009, centenas de toneladas de tomate apodreceram na ilha por falta de transporte, por causa destes fatores de controles excessivos e insano planejamento central da economia.
O modelo econômico cubano reside no fato de que, apesar de funcionar sob diretrizes socialistas e autossuficientes (segundo o governo local), depende quase exclusivamente, desde 1959, do que outros governos (vários capitalistas) podem ajudar. Segundo o economista cubano Carmelo Mesa Lago, Cuba recebeu mais ajuda da União Soviética e de outros países do que qualquer outro país da América Latina: US$ 65 bilhões em 30 anos.
E se mesmo com todas essas informações alguém ainda queira insistir que atualmente os problemas de Cuba são derivados dos embargos, exclusivamente ou não, devo lembrar também que os revolucionários não só deram motivos para as sanções, como também assim queriam, conforme foi declarado por Che Guevara no discurso de Argel, após repetir diversas vezes que o objetivo era “cortar todos os laços de Cuba com o capital internacional”, considerando isso um dos principais objetivos da revolução de 1959.

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Certas quedas são extremamente bem-vindas... - Lula ausente da reunião do Brics - Igor Gielow (FSP)

Certas quedas são extremamente bem-vindas... Ausência de Lula na cúpula do BRICS evita possíveis tensões diplomáticas com os EUA Igor Gielow Folha de S. Paulo, 21/10/2024 - 09h36 A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 16ª Cúpula do BRICS, realizada em Kazan, Rússia, pode ter evitado um cenário diplomático delicado para o Brasil, de acordo com especialistas em relações internacionais. Leonardo Trevisan, professor da ESPM, destacou que um encontro presencial entre Lula e o presidente russo Vladimir Putin poderia ter gerado tensões com os Estados Unidos, considerando o atual contexto de conflitos globais. Em análise publicada no Estadão, Trevisan afirmou que, diante das crescentes tensões entre o Ocidente e a Rússia, uma imagem de Lula ao lado de Putin poderia ser interpretada de forma negativa pelos Estados Unidos. “O aperto de mãos com Putin seria visto como um sinal de alinhamento em um momento de confronto entre o Ocidente e a Rússia”, explicou Trevisan. Segundo o especialista, isso poderia resultar em pressões diplomáticas adicionais para o Brasil, especialmente em sua relação com Washington e outros aliados ocidentais. A cúpula do BRICS, que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, discute uma série de temas, incluindo a desdolarização das economias do bloco. Essa pauta já provocou reações nos Estados Unidos, particularmente de Donald Trump, ex-presidente e atual candidato à presidência pelo Partido Republicano. Trump tem sido categórico em suas declarações sobre o tema, afirmando que, se retornar ao poder, buscará punir países que optarem por seguir esse caminho. Além disso, Trevisan comentou que outro aspecto sensível seria a possibilidade de um encontro entre Lula e o presidente do Irã. Para o professor, tal reunião poderia ser vista como um distanciamento do Brasil em relação a aliados tradicionais no Oriente Médio, como Israel. Embora o Brasil tenha mantido uma postura crítica em relação a Israel em diferentes ocasiões, uma reunião com o Irã, neste momento, poderia ser interpretada como uma mudança significativa na política externa brasileira. “Isso ultrapassaria um limite que o governo brasileiro tem evitado até agora”, destacou o especialista. Outra questão em debate na cúpula é a proposta de China e Índia de incluir a Nicarágua e a Venezuela no BRICS, uma ideia que, segundo Trevisan, não é vista com bons olhos pelo Brasil. Ele apontou que o governo brasileiro considera que essas inclusões não trariam benefícios estratégicos. “O Brasil não tem interesse em fortalecer suas relações com a Nicarágua, e a reaproximação com a Venezuela ainda é um processo delicado”, afirmou. Em meio a esses contextos, o Brasil será representado na cúpula pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Fontes diplomáticas indicaram que a ausência de Lula foi justificada como “força maior”, em razão de um acidente doméstico sofrido pelo presidente no fim de semana. O ministro Vieira, de acordo com essas fontes, terá plenos poderes para negociar e representar o Brasil em todas as discussões. A presença de Vieira na cúpula reflete a importância dada pelo governo brasileiro ao BRICS, ao mesmo tempo que busca evitar a associação direta de Lula com Putin, em um momento em que as relações entre Rússia e países ocidentais estão especialmente tensas. A participação do Brasil no BRICS é vista como uma oportunidade para fortalecer laços econômicos e políticos com outras potências emergentes, mas também exige cuidados na condução das relações internacionais, especialmente com os Estados Unidos. A estratégia de Lula parece ter sido calculada para manter o equilíbrio entre diferentes interesses geopolíticos. O Brasil, como membro do BRICS, está engajado nas discussões do bloco, que busca reduzir a dependência do dólar nas transações internacionais. Contudo, o país também mantém relações importantes com os Estados Unidos e a União Europeia, e um alinhamento explícito com a Rússia e a China poderia comprometer esses laços. A ausência de Lula, portanto, pode ser vista como uma medida preventiva para evitar confrontos diplomáticos que poderiam surgir em meio ao cenário internacional volátil. Embora o Brasil busque ampliar sua influência no BRICS, o governo parece estar ciente dos riscos de ser associado de forma muito próxima aos interesses de Rússia e China, especialmente em um momento em que os Estados Unidos demonstram grande sensibilidade em relação à postura de seus aliados em temas globais. Com isso, o papel do Brasil na cúpula do BRICS ficará nas mãos do ministro Vieira, que terá a tarefa de conduzir as negociações sem comprometer a posição de neutralidade que o país tem procurado manter. A decisão de Lula de não participar pessoalmente do encontro em Kazan pode ter sido um movimento estratégico para proteger a diplomacia brasileira de um embaraço internacional.

domingo, 6 de outubro de 2024

Pessoas cometem erros, países cometem erros: uma análise histórica - Paulo Roberto de Almeida

Pessoas cometem erros, países cometem erros: uma análise histórica Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor. Sobre como se aprende melhor com erros do que com acertos, a partir de exemplos nacionais. Nenhuma trajetória, individual ou coletiva, é isenta de desvios, de percalços, de erros ou de desastres. Erros individuais são, aparentemente, mais fáceis de corrigir, dado que eles podem ser objeto de recriminações, de alertas, de recomendações de terceiros, geralmente os mais próximos, ou seja, familiares ou amigos, o que pode (nem sempre o faz) induzir o sujeito equivocado – por ignorância, ingenuidade, ambição ou alienação temporária – a tentar retificar suas ações e retomar um caminho, senão virtuoso, pelo menos mais adequado às circunstâncias e limitações da vida prática. (...) Brasil e Argentina talvez estejam ainda sob o domínio excessivo dos “instintos primitivos” de seus animais políticos. Provavelmente já é mais do que tempo de se livrar das oligarquias regressivas e abrir espaços para a energia dos empreendedores individuais. O senso comum considera que a China é uma ditadura comunista, o que é apenas meia verdade. Se consultarmos os indicadores setoriais de liberdade econômica, constataríamos que a China é mais livre, economicamente, do que Brasil, Argentina e a maioria dos países. Paulo Roberto de Almeida Brasília, 4751, 6 outubro 2024, 8 p. Disponível na plataforma Academia.edu; link: https://www.academia.edu/124475398/4751_Pessoas_cometem_erros_paises_cometem_erros_uma_analise_historica_2024_

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

EUA: Imigrantes são uma fonte de riqueza essencial no presente e no futuro - Oliver Stuenkel (O Estado de S. Paulo)

Imigração é garantia de que os EUA não entrarão em declínio

Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo, 23/09/2024

https://www.estadao.com.br/internacional/oliver-stuenkel/imigracao-e-garantia-de-que-eua-nao-entrarao-em-declinio/


Disfunção política, polarização destrutiva, epidemia de opioides, dívida pública crescente, expectativa de vida masculina em declínio e risco crescente de violência política – a lista de problemas enfrentados atualmente pelos Estados Unidos é longa e preocupante. Diante de tantas dificuldades, seria de se esperar que a maior potência econômica e militar do planeta estivesse em processo irreversível de declínio.

Porém, comparados com a maioria das outras economias desenvolvidas, os EUA estão em uma situação surpreendentemente invejável: diferentemente da Alemanha e de outras economias europeias, onde as principais empresas como Volkswagen não souberam se modernizar, os EUA lideram em áreas que devem dominar a economia do século 21, como a inteligência artificial. Igualmente em contraste com várias das maiores economias do planeta – como o Japão, a China e de novo a Alemanha, que enfrentam crises demográficas – a média etária nos EUA é relativamente baixa e estável. Enquanto expressiva parte da Europa enfrenta estagnação econômica, a economia americana vai bem: atualmente os EUA são responsáveis por 26,3% da economia global, a maior porcentagem em quase duas décadas e um aumento de 2,3 pontos porcentuais desde 2018. Se o Reino Unido fizesse parte dos EUA, seria um dos Estados com o menor PIB per capita do país, comparável ao Mississippi.

Há numerosos fatores que explicam a superioridade dos EUA em dinamismo e riqueza, desde maior produtividade per capita até a “sorte geológica” de não ter que importar energia, além de um ambiente regulatório e leis trabalhistas mais flexíveis.

No entanto, um fator merece destaque e deve se tornar uma vantagem competitiva cada vez mais relevante – e uma espécie de salva-vidas econômico. Trata-se da capacidade ímpar dos EUA de atrair e integrar imigrantes em grande escala. Tal afirmação pode parecer estranha diante da retórica pouco acolhedora da chapa presidencial do Partido Republicano, que tem chance considerável de comandar a nação a partir de 2025. É pouco provável, porém, que as promessas de deportação em massa de imigrantes sem documentação passem de uma tentativa de mobilizar a base trumpista. Afinal, a expulsão dos aproximadamente 11 milhões de imigrantes ilegais no país produziria uma catástrofe econômica e criaria uma enorme pressão inflacionária em função da falta de mão de obra.

Enquanto muitos americanos criticam, com razão, a forma como o atual governo lida com a crise migratória na fronteira com o México, quase dois terços da população veem a imigração como algo positivo, e os dados corroboram as vastas vantagens que a imigração produz para os EUA. Segundo previsões do Banco Central, a força de trabalho dos Estados Unidos crescerá por 5,2 milhões de pessoas na próxima década, principalmente por causa do aumento da imigração. Como resultado, o PIB será cerca de US$ 8,9 trilhões maior, e as receitas fiscais do governo federal serão US$ 1,2 trilhão maiores no período de 2024-34, levando a uma redução de US$ 900 bilhões do déficit.

Além disso, a imigração é o motor da inovação da economia americana: 45% das empresas da Fortune 500 foram fundadas por imigrantes ou seus filhos – entre eles, Google, AT&T, Budweiser, Colgate, eBay, General Electric, IBM e McDonalds, Apple, Disney, IBM, Boeing, 3M e Home Depot. Embora os estrangeiros representem apenas 13,6% da população dos EUA, 55% das startups americanas com valor de pelo menos US$1 bilhão tiveram pelo menos um fundador imigrante.

Independentemente de quem sucederá Joe Biden na Casa Branca, não há dúvida de que os EUA devem reformar seu sistema migratório e a gestão de suas fronteiras. Da mesma maneira, porém, o país continuará se beneficiando imensamente da chegada de milhões de migrantes em busca de oportunidades econômicas – que o ex-presidente George W. Bush chamou de “trunfo definidor dos EUA”. Vale lembrar as palavras do ex-presidente Ronald Reagan, do Partido Republicano, em 1989.

“Qualquer pessoa, de qualquer canto da Terra, pode vir morar nos EUA e se tornar um americano... Acredito que essa é uma das fontes mais importantes da grandeza dos Estados Unidos. (...) De maneira única entre as nações, atraímos nosso povo—nossa força—de todos os países e de todos os cantos do mundo. E, ao fazer isso, renovamos e enriquecemos continuamente nossa nação. Graças a cada nova onda de chegada a esta terra de oportunidades, somos uma nação eternamente jovem (...) Essa qualidade é vital para nosso futuro como nação. Se algum dia fechássemos a porta para novos americanos, nossa liderança no mundo logo seria perdida.”

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Rússia acusa EUA de tentar minar secretamente o avanço dos BRICS - Roberto de Lira (InfoMoney)

 Rússia acusa EUA de tentar minar secretamente o avanço dos BRICS

Roberto de Lira

InfoMoney, 22/05/2924

Diplomata russo alega que EUA atua nos bastidores para impedir o desenvolvimento do bloco de emergentes, por entender que ele desafia a hegemonia americana

Os Estados Unidos estão tentando minar secretamente o grupo BRICS das economias emergentes, disse nesta quarta-feira (22) o vice-ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov. Segundo a agência de notícias russa Tass, Ryabkov afirmou que Washington não gosta do grupo criado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul porque não pode controlá-lo.

"Os Estados Unidos não gostam de tudo o que está além de seu controle, por isso estão conduzindo um trabalho de bastidores para minar os BRICS", disse em entrevista. "Tudo o que vai além do modelo de monoliderança e hegemonia americana ( ) causa a rejeição de Washington", reforçou.

O diplomata acusou que, entre os esforços americano para reduzir a relevância do bloco, estão conspirações de bastidores, interrupção de projetos e complicações de atividades de suas instituições, como o Banco de Desenvolvimento. "Temos nossos próprios canais, mecanismos e formas de cooperação com cada um dos membros do BRICS, que continuam se desenvolvendo apesar da resistência dos EUA", disse Riabkov.

Ele afirmou ainda que os novos países-membros do BRICS estão se encaixando perfeitamente na organização e trabalhando com entusiasmo. "Os países que aderiram à associação expressam grande entusiasmo e grande interesse. Seu objetivo é obter resultados. Não há nenhum sentimento de que estejam causando dificuldades adicionais dentro da associação", disse.

Segundo o diplomata, a cultura dos BRICS é não ficar atolado em diferenças entre os Estados-membros, mas avançar em uma direção positiva. "Apelaremos a todos os potenciais associados para que deixem de lado os seus problemas, divergências e preocupações relativamente ao comportamento de qualquer outro membro da associação. Não é fácil, mas a nossa experiência mostra que é possível", disse.

O grupo BRICS teve duas ondas de expansão desde seu surgimento, em 2006. Em 2011, a África do Sul aderiu ao grupo original, que incluía Brasil, Rússia, Índia e China. Em agosto de 2023, seis novos membros, incluindo a Argentina, foram convidados a se juntar à associação. Buenos Aires mudou de ideia no final de dezembro do ano passado, após a eleição do presidente libertário Javier Milei.

Os outras cinco recém-chegados - Egito, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Etiópia - começaram a trabalhar de pleno direito nos BRICS em 1º de janeiro de 2024.

(Com Reuters)


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