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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org. Para a maior parte de meus textos, ver minha página na plataforma Academia.edu, link: https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida;

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segunda-feira, 18 de maio de 2020

Página do Oliver Stuenkel, com artigos e entrevistas

Post-Western World
Oliver Stuenkel


NEWS

1. O que o golpe de Fujimori em 1992 ensina ao Brasil de 2020 (EL PAÍS)
Apoio da população peruana ao fechamento do Congresso só foi possível porque Fujimori promoveu uma sensação de medo necessária para justificar medidas excepcionais. LER MAIS

2. Entrevista: ‘Ataques fragilizam Brasil e ajudam China a obter concessões’ (Folha de São Paulo)
Falar mal da China tem um custo. Ataques como o do deputado federal Eduardo Bolsonaro e do ministro da Educação, Abraham Weintraub, deixam o Brasil em posição frágil e ajudam o governo chinês a conseguir concessões do Brasil em negociações. LER MAIS

3. Pandemia revela que mundo pós-ocidental já chegou (EL PAÍS)
Resposta confusa dos EUA ao novo coronavírus sugere que época marcada pela liderança global de Washington chegou ao fim. LER MAIS

4. Com Trump acuado, Brasil precisa de Plano B (Valor Econômico)
“Acredito piamente na reeleição de Donald Trump”, anunciou Jair Bolsonaro durante sua primeira visita à Casa Branca, em março de 2019. Em viagem recente à Flórida, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, afirmou que a reeleição de Trump garantiria a continuidade da relação bilateral, peça-chave da estratégia de política externa do governo Bolsonaro.  LER MAIS

5. China’s Diplomats Are Going on the Offensive in Brazil (Foreign Policy)
Pro-Bolsonaro groups on WhatsApp are teeming with xenophobic, anti-China & anti-communist rhetoric, and radical Bolsonaro supporters commonly describe the coronavirus as a Chinese plot. Abandoning its subtle approach, Beijing has now decided to fight back. READ MORE

6. Latin America Must Act – Or Brace for Political Instability (Americas Quarterly)
People who joined Latin America’s new middle class during the 2000s’ commodity boom, and slid back into poverty during the 2010s, now realize that both they and their children are unlikely to escape poverty for years to come. A global recession, a wave of unemployment and limited government capacity to mitigate the crisis could thus lead to increased political instability — which would in turn make economic recovery far more difficult. READ MORE

7. Bolsonaro Faces His Biggest Crisis – And Is Struggling (Americas Quarterly)
There is no doubt Bolsonaro’s strategy to handle the pandemic has gotten off to a catastrophic start, costing the president valuable political capital and putting countless lives at risk. As Brazil heads into the storm, he is facing the greatest crisis of his turbulent presidency. READ MORE

8. Wanted: South America’s Participation in Global Geopolitics (Americas Quarterly)
Yet again, South America was largely absent from this year’s Munich Security Conference, which every year convenes heads of state and ministers from around the world to discuss urgent geopolitical challenges. Of the world’s top ten economies, Brazil was the only one without a single policy maker in Munich. READ MORE

9. Is Regional Cooperation Dead in Latin America? (Americas Quarterly)
With Latin America politically fragmented and convulsed, intra-regional dialogue is getting more difficult. READ MORE

10. Argentina y Brasil: la alianza necesaria (Foreign Affairs Latinoamérica)
La relación entre Argentina y Brasil enfrenta la peor crisis de su historia, pero, sin una relación bilateral estable y productiva, la región corre el riesgo de perder estabilidad y tendrá más dificultades para enfrentar de manera coordinada sus múltiples problemas. READ MORE

11. Entrevista: ‘Esta podría ser la peor crisis económica que América Latina ha tenido en su historia’ (BBC Mundo)
Mientras América Latina se prepara para enfrentar un aumento del número de contagios en las próximas semanas, la crisis económica ha comenzado a golpear duramente a las empresas y las familias más vulnerables. El debate ha estado centrado en cómo evitar un colapso en los hospitales y una escalada en el número de muertes, y cómo mitigar los efectos de una caída sin precedentes en el nivel de empleo, en medio de una crisis económica catalogada como “la peor desde la Gran Depresión de 1929”. Pero más allá de la emergencia, nos preguntamos cuáles serán las consecuencias políticas y económicas que la pandemia provocará en Latinoamérica y cómo cambiará el panorama regional en la era post-coronavirus. READ MORE

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“O Brasil está cada vez mais isolado no Ocidente”: Oliver Stuenkel (RFI)

Uma entrevista de Oliver Stuenkel antes da pandemia, mas que se mantém ainda válida cinco meses depois: 



“O Brasil está cada vez mais isolado no Ocidente”, diz cientista político (Oliver Stuenkel)
Radio France International, Brasil, 31/12/2019 - 18:26

Doutor em Ciências Políticas, Oliver Stuenkel é professor de Relações Internacionais na FGV-SP.Arquivo pessoal

Autor de “O mundo pós-ocidental”, Stuenkel fala do isolamento do Brasil no Ocidente e da natural aproximação com a China, passando por questões comerciais, ambientais e de geopolítica. Confira os principais trechos da entrevista.
Sobre a política externa ao longo de 2019, Oliver Stuenkel pontua: “Este ano, a gente viu a maior ruptura na história da política externa brasileira, porque pela primeira vez o Brasil alterou vários dos pilares que guiam a atuação do país no mundo. O mais importante é o apoio ao multilateralismo, que sempre marcou a política externa brasileira, o apoio para a elaboração e manutenção do direito internacional, tudo isso sempre foi a marca registrada do Brasil e isso deixou de ser o caso em 2019”.
“E a outra questão que mudou muito é que o Brasil teve sempre uma previsibilidade bastante grande da sua atuação diplomática. Mesmo durante a ditadura militar, o Brasil sempre foi visto como um ator previsível no mundo, agora a gente tem vários grupos que participam abertamente do processo de criação de política externa: os ideólogos mais perto do presidente da República, os generais que fazem parte de seu governo e também os economistas que buscam uma liberalização. Então tem uma tensão evidente entre estes três grupos e isso cria uma imprevisibilidade”, afirma.
Por conta disso, ele explica, o Brasil deixou de ser um ator confiável: “Isso fica bastante claro no caso argentino: o novo governo não sabia até o último minuto se haveria ou não um representante do governo brasileiro na posse do presidente [Alberto] Fernández. Isso representa bastante bem esta nova forma de fazer política que a gente viu ao longo do último ano”.

Jerusalém
Sobre a anunciada mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, Stuenkel analisa: “Este caso demonstra claramente como funciona a política externa do governo Bolsonaro. Ele quer isso, mas os dois outros grupos que importam na criação da política externa brasileira se opõem. Os militares não querem a embaixada brasileira em Jerusalém porque isso coloca o Brasil no meio de um dos conflitos geopolíticos mais difíceis, mais complexos do mundo”.
“Se isso de fato ocorrer, a relação do Brasil, inclusive de segurança, com o mundo árabe vai piorar bastante. Isso explica por que o vice-presidente Hamilton Mourão tem dito publicamente que ele não apoia esta mudança. Da mesma maneira os economistas neoliberais não apoiam esta medida, porque ela teria possivelmente um impacto negativo para a relação comercial do Brasil com o mundo árabe”, continua.
“A decisão sobre se vai haver ou não essa mudança vai depender da briga interna das facções que compõem o governo Bolsonaro. Eu ainda acho que a mudança traria um custo diplomático enorme. O Brasil sempre foi visto como um ator que consegue manter um diálogo com todos os lados e esta decisão faria o Brasil perder isso, além do impacto comercial importante”, adverte.

Relações com os Estados Unidos
Para Oliver Stuenkel, a aproximação do Brasil com os Estados Unidos é a grande aposta do presidente Bolsonaro. “Isso costuma ser uma empreitada difícil porque, para dar certo, o Brasil precisa oferecer ganhos tangíveis ao governo americano, de natureza sobretudo geopolítica, pelo fato de Brasil não ser uma economia tão grande. No fundo, o que importa para esta parceria ser relevante para um presidente americano é ter algum benefício geopolítico, senão o Brasil simplesmente não é importante o suficiente em Washington”, diz.
“No caso de Bolsonaro com Trump, o americano pediu duas coisas para que esta aproximação pudesse de fato acontecer: a primeira é  apoio para derrubar o regime Maduro, na Venezuela, o grande inimigo do governo americano. Bolsonaro até sugeriu inicialmente o apoio brasileiro a uma possível intervenção militar na Venezuela, mas as Forças Armadas, de novo, conseguiram bloquear isso. E também houve muita resistência no Itamaraty. Então o Brasil não anunciou este apoio e deixou de ter um papel relevante na crise venezuelana”, constata.
“O segundo pedido do governo americano é apoio para reduzir a influência chinesa da América do Sul. Isso é importante para Trump e tornaria o Brasil um aliado importante dos EUA. O problema, obviamente, é que o Brasil depende economicamente da China, é o nosso principal parceiro comercial há dez anos, e muitos grupos econômicos que apoiaram a eleição de Bolsonaro – entre eles a agricultura, têm interesse em manter e fortalecer a relação comercial com a China. Isso dificulta muito para o Brasil reduzir a influência chinesa na região; ao meu ver, isso não vai acontecer, e o governo americano já percebe que esta parceria com o Brasil rende pouco. E Trump, sendo protecionista, tem pouco interesse de permitir mais acesso de produtos brasileiros ao mercado americano”, acrescenta.

Relações com a China
Se com Washington as relações deixam a desejar, com Pequim tudo vai de vento em popa, segundo Stuenkel.
“A princípio, as relações estão ótimas. Eu conversei ao longo do ano com diplomatas chineses e empresários brasileiros que dependem desta relação e acredito que o vice-presidente brasileiro teve um papel fundamental para consertar a relação bilateral entre o Brasil e a China. Havia bastante preocupação no início de 2019 de que esta relação poderia sofrer em função da retórica anti-China de Bolsonaro", conta.
Além disso, ele explica que grupos poderosos que apoiam o governo Bolsonaro deixaram muito claro que “o custo de ter uma relação ruim com a China é altíssimo”. E tem uma outra razão que ajudou o Bolsonaro a parar de falar mal da China: seus eleitores não enxergam a China como uma ameaça, como é o caso dos EUA”, avalia.
“A China é fundamental para atrair investimentos externos e será um parceiro cada vez mais importante. O Brasil exporta para a China mais que o dobro do que exporta para os Estados Unidos. Essa dependência só vai aumentar, porque a China não consegue se alimentar. Isso será o nosso futuro econômico. A China sabe disso e trata o Brasil como um parceiro de longo prazo. Isso explica por que Xi Jinping, ao ser atacado por Bolsonaro, nunca respondeu nem atacou de volta, porque, para ele, a relação com o Brasil é mais importante do que o presidente atual do Brasil”, pontua.

Relações com a França
Para o especialista, as relações com a França e com o continente europeu tendem a piorar, com a exceção dos países governados pela extrema direita, com os quais Bolsonaro se identifica.
“O Brasil a partir de agora é visto como um ator imprevisível. O atual presidente não se deixa controlar facilmente, utiliza muito as mídias sociais – e isso vale também para o presidente americano – e os próprios diplomatas brasileiros ficam sabendo de mudanças da política externa brasileira pelo Twitter”, diz.
“Houve pedidos dos principais assessores de Bolsonaro para que pudesse haver uma distensão da relação do Brasil com a França, sobretudo no auge dos incêndios na Amazônia”, conta.
“Parece que não vai melhorar muito em 2020, porque o tema do meio ambiente é cada vez mais importante, sobretudo na Europa, isso não vale apenas para a França. O tema ambiental é cada vez mais central e isso vai dificultar toda a relação destes países com o Brasil, porque o Brasil é visto como um vilão nesta questão ambiental, em função de vários comentários do presidente e seus assessores questionando a existência da mudança climática”, analisa.
Para Stuenkel, dificilmente o Brasil chegará a ter, nos próximos três anos, uma boa relação com países europeus governados por centristas. “O Brasil tem uma ótima relação com governos de extrema direita, como é o caso da Hungria, mas a relação com a maioria dos outros governos será muito difícil”.
“Dificilmente esta reputação que Bolsonaro adquiriu ao longo do último ano vá mudar. Ele é muito mal visto pela maioria da população europeia e seria um custo muito alto para um presidente francês ou alemão receber Bolsonaro na Europa”, avalia.
Outra novidade da política externa brasileira, segundo o professor, é a inclusão do tema religioso. “Isso também é cada vez mais relevante na política externa de países como Hungria e Polônia. No passado vimos isso também no caso da Itália. Isso certamente vai aumentar ainda mais para satisfazer demandas de grupos internos. Igrejas evangélicas estão tendo participação cada vez maior na articulação da política externa – e este também é o caso nos EUA – então isso me parece que vai se tornar uma nova marca registrada do Brasil”, prevê.

Risco de isolamento?
“Me parece que o Brasil já está bastante isolado, sobretudo no Ocidente. Isso fica bastante claro. Ao longo do último ano eu visitei várias capitais do mundo ocidental e a gente vê claramente que o Brasil é visto como um parceiro difícil, pouco popular em geral, a associação que a maioria dos europeus faz do Brasil hoje é negativa, principalmente pelo tema ambiental. Mas eu não diria que o mesmo é o caso na Ásia, por exemplo, ou na África, onde o tema ambiental não é tao relevante”, explica.
Stuenkel acredita que “por conta desta mudança da reputação brasileira no Ocidente, o governo brasileiro será lembrado por sua aproximação com a Ásia, porque lá esta atuação controversa em relação ao meio ambiente ainda não teve um impacto negativo sobre a reputação do Brasil”.
“O Brasil está cada vez mais solado no Ocidente e isso vai aproximá-lo ainda mais da China”, afirma.
Para ele, em 2020 será importante manter uma boa relação tanto com Washington quanto com Pequim.  
“Outras questões importantes para 2020 é ver como se dará o Brexit, que terá um impacto importante na política global, na economia europeia, que ainda é importante para o Brasil; e qual será o resultado das eleições dos estados Unidos em novembro. Se Trump não for reeleito, me parece que há uma necessidade de reorientar a política externa brasileira porque Bolsonaro perderia sua grande inspiração”, finaliza.


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O Brasil cada vez mais isolado no mundo - Oliver Stuenkel (RFI)

“O Brasil está cada vez mais isolado no Ocidente”, diz cientista político (Oliver Stuenkel)

RFI Convida, 31/12/2019 - 18:26

Doutor em Ciências Políticas, Oliver Stuenkel é professor de Relações Internacionais na FGV-SP.
Doutor em Ciências Políticas, Oliver Stuenkel é professor de Relações Internacionais na FGV-SP.Arquivo pessoal
Autor de “O mundo pós-ocidental”, Stuenkel fala do isolamento do Brasil no Ocidente e da natural aproximação com a China, passando por questões comerciais, ambientais e de geopolítica. Confira os principais trechos da entrevista.
Sobre a política externa ao longo de 2019, Oliver Stuenkel pontua: “Este ano, a gente viu a maior ruptura na história da política externa brasileira, porque pela primeira vez o Brasil alterou vários dos pilares que guiam a atuação do país no mundo. O mais importante é o apoio ao multilateralismo, que sempre marcou a política externa brasileira, o apoio para a elaboração e manutenção do direito internacional, tudo isso sempre foi a marca registrada do Brasil e isso deixou de ser o caso em 2019”.
“E a outra questão que mudou muito é que o Brasil teve sempre uma previsibilidade bastante grande da sua atuação diplomática. Mesmo durante a ditadura militar, o Brasil sempre foi visto como um ator previsível no mundo, agora a gente tem vários grupos que participam abertamente do processo de criação de política externa: os ideólogos mais perto do presidente da República, os generais que fazem parte de seu governo e também os economistas que buscam uma liberalização. Então tem uma tensão evidente entre estes três grupos e isso cria uma imprevisibilidade”, afirma.
Por conta disso, ele explica, o Brasil deixou de ser um ator confiável: “Isso fica bastante claro no caso argentino: o novo governo não sabia até o último minuto se haveria ou não um representante do governo brasileiro na posse do presidente [Alberto] Fernández. Isso representa bastante bem esta nova forma de fazer política que a gente viu ao longo do último ano”.
Jerusalém
Sobre a anunciada mudança da embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, Stuenkel analisa: “Este caso demonstra claramente como funciona a política externa do governo Bolsonaro. Ele quer isso, mas os dois outros grupos que importam na criação da política externa brasileira se opõem. Os militares não querem a embaixada brasileira em Jerusalém porque isso coloca o Brasil no meio de um dos conflitos geopolíticos mais difíceis, mais complexos do mundo”.
“Se isso de fato ocorrer, a relação do Brasil, inclusive de segurança, com o mundo árabe vai piorar bastante. Isso explica por que o vice-presidente Hamilton Mourão tem dito publicamente que ele não apoia esta mudança. Da mesma maneira os economistas neoliberais não apoiam esta medida, porque ela teria possivelmente um impacto negativo para a relação comercial do Brasil com o mundo árabe”, continua.
“A decisão sobre se vai haver ou não essa mudança vai depender da briga interna das facções que compõem o governo Bolsonaro. Eu ainda acho que a mudança traria um custo diplomático enorme. O Brasil sempre foi visto como um ator que consegue manter um diálogo com todos os lados e esta decisão faria o Brasil perder isso, além do impacto comercial importante”, adverte.
Relações com os Estados Unidos
Para Oliver Stuenkel, a aproximação do Brasil com os Estados Unidos é a grande aposta do presidente Bolsonaro. “Isso costuma ser uma empreitada difícil porque, para dar certo, o Brasil precisa oferecer ganhos tangíveis ao governo americano, de natureza sobretudo geopolítica, pelo fato de Brasil não ser uma economia tão grande. No fundo, o que importa para esta parceria ser relevante para um presidente americano é ter algum benefício geopolítico, senão o Brasil simplesmente não é importante o suficiente em Washington”, diz.
“No caso de Bolsonaro com Trump, o americano pediu duas coisas para que esta aproximação pudesse de fato acontecer: a primeira é  apoio para derrubar o regime Maduro, na Venezuela, o grande inimigo do governo americano. Bolsonaro até sugeriu inicialmente o apoio brasileiro a uma possível intervenção militar na Venezuela, mas as Forças Armadas, de novo, conseguiram bloquear isso. E também houve muita resistência no Itamaraty. Então o Brasil não anunciou este apoio e deixou de ter um papel relevante na crise venezuelana”, constata.
“O segundo pedido do governo americano é apoio para reduzir a influência chinesa da América do Sul. Isso é importante para Trump e tornaria o Brasil um aliado importante dos EUA. O problema, obviamente, é que o Brasil depende economicamente da China, é o nosso principal parceiro comercial há dez anos, e muitos grupos econômicos que apoiaram a eleição de Bolsonaro – entre eles a agricultura, têm interesse em manter e fortalecer a relação comercial com a China. Isso dificulta muito para o Brasil reduzir a influência chinesa na região; ao meu ver, isso não vai acontecer, e o governo americano já percebe que esta parceria com o Brasil rende pouco. E Trump, sendo protecionista, tem pouco interesse de permitir mais acesso de produtos brasileiros ao mercado americano”, acrescenta.
Relações com a China
Se com Washington as relações deixam a desejar, com Pequim tudo vai de vento em popa, segundo Stuenkel.
“A princípio, as relações estão ótimas. Eu conversei ao longo do ano com diplomatas chineses e empresários brasileiros que dependem desta relação e acredito que o vice-presidente brasileiro teve um papel fundamental para consertar a relação bilateral entre o Brasil e a China. Havia bastante preocupação no início de 2019 de que esta relação poderia sofrer em função da retórica anti-China de Bolsonaro", conta.
Além disso, ele explica que grupos poderosos que apoiam o governo Bolsonaro deixaram muito claro que “o custo de ter uma relação ruim com a China é altíssimo”. E tem uma outra razão que ajudou o Bolsonaro a parar de falar mal da China: seus eleitores não enxergam a China como uma ameaça, como é o caso dos EUA”, avalia.
“A China é fundamental para atrair investimentos externos e será um parceiro cada vez mais importante. O Brasil exporta para a China mais que o dobro do que exporta para os Estados Unidos. Essa dependência só vai aumentar, porque a China não consegue se alimentar. Isso será o nosso futuro econômico. A China sabe disso e trata o Brasil como um parceiro de longo prazo. Isso explica por que Xi Jinping, ao ser atacado por Bolsonaro, nunca respondeu nem atacou de volta, porque, para ele, a relação com o Brasil é mais importante do que o presidente atual do Brasil”, pontua.
Relações com a França
Para o especialista, as relações com a França e com o continente europeu tendem a piorar, com a exceção dos países governados pela extrema direita, com os quais Bolsonaro se identifica.
“O Brasil a partir de agora é visto como um ator imprevisível. O atual presidente não se deixa controlar facilmente, utiliza muito as mídias sociais – e isso vale também para o presidente americano – e os próprios diplomatas brasileiros ficam sabendo de mudanças da política externa brasileira pelo Twitter”, diz.
“Houve pedidos dos principais assessores de Bolsonaro para que pudesse haver uma distensão da relação do Brasil com a França, sobretudo no auge dos incêndios na Amazônia”, conta.
“Parece que não vai melhorar muito em 2020, porque o tema do meio ambiente é cada vez mais importante, sobretudo na Europa, isso não vale apenas para a França. O tema ambiental é cada vez mais central e isso vai dificultar toda a relação destes países com o Brasil, porque o Brasil é visto como um vilão nesta questão ambiental, em função de vários comentários do presidente e seus assessores questionando a existência da mudança climática”, analisa.
Para Stuenkel, dificilmente o Brasil chegará a ter, nos próximos três anos, uma boa relação com países europeus governados por centristas. “O Brasil tem uma ótima relação com governos de extrema direita, como é o caso da Hungria, mas a relação com a maioria dos outros governos será muito difícil”.
“Dificilmente esta reputação que Bolsonaro adquiriu ao longo do último ano vá mudar. Ele é muito mal visto pela maioria da população europeia e seria um custo muito alto para um presidente francês ou alemão receber Bolsonaro na Europa”, avalia.
Outra novidade da política externa brasileira, segundo o professor, é a inclusão do tema religioso. “Isso também é cada vez mais relevante na política externa de países como Hungria e Polônia. No passado vimos isso também no caso da Itália. Isso certamente vai aumentar ainda mais para satisfazer demandas de grupos internos. Igrejas evangélicas estão tendo participação cada vez maior na articulação da política externa – e este também é o caso nos EUA – então isso me parece que vai se tornar uma nova marca registrada do Brasil”, prevê.
Risco de isolamento?
“Me parece que o Brasil já está bastante isolado, sobretudo no Ocidente. Isso fica bastante claro. Ao longo do último ano eu visitei várias capitais do mundo ocidental e a gente vê claramente que o Brasil é visto como um parceiro difícil, pouco popular em geral, a associação que a maioria dos europeus faz do Brasil hoje é negativa, principalmente pelo tema ambiental. Mas eu não diria que o mesmo é o caso na Ásia, por exemplo, ou na África, onde o tema ambiental não é tao relevante”, explica.
Stuenkel acredita que “por conta desta mudança da reputação brasileira no Ocidente, o governo brasileiro será lembrado por sua aproximação com a Ásia, porque lá esta atuação controversa em relação ao meio ambiente ainda não teve um impacto negativo sobre a reputação do Brasil”.
“O Brasil está cada vez mais solado no Ocidente e isso vai aproximá-lo ainda mais da China”, afirma.
Para ele, em 2020 será importante manter uma boa relação tanto com Washington quanto com Pequim.  
“Outras questões importantes para 2020 é ver como se dará o Brexit, que terá um impacto importante na política global, na economia europeia, que ainda é importante para o Brasil; e qual será o resultado das eleições dos estados Unidos em novembro. Se Trump não for reeleito, me parece que há uma necessidade de reorientar a política externa brasileira porque Bolsonaro perderia sua grande inspiração”, finaliza.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Why Latin America’s Protests Could Slow Brazil’s Economic Reforms - Oliver Stuenkel


Why Latin America’s Protests Could Slow Brazil’s Economic Reforms
Demonstrations across the continent have investors wondering if the same could happen in Brazil – and upend the government's economic reform agenda.
Oliver Stuenkel
Americas Quarterly, Washington DC 0 28.11.2019

São Paulo - When mass protests forced Ecuador's President Lenín Moreno to reverse course on a cut to fuel subsidies last month, most Brazilian political risk analysts interpreted the crisis as a country-specific event. An outbreak of protests in Bolivia the following week was similarly seen in Brazil as a largely isolated incident. Despite other recent protests in Peru, Honduras and Haiti, few observers in Latin America’s largest economy believed such events would have broader implications for the region.
That changed when protests in Chile, initially in response to a hike to subway fares in Santiago, led to a social conflagration of a size and intensity unseen since the country’s return to democracy three decades ago. When President Sebastián Piñera, suddenly fighting for political survival, put his pro-business agenda on hold, replacing his minister of finance and increasing the minimum wage and pensions, Brazilian analysts started scrambling to assess whether something bigger might be afoot – and whether protests could spread to Brazil and cause the government of President Jair Bolsonaro to rethink one of the region’s few remaining unabashedly neoliberal agendas.
Prior to recent events, the vast majority of Brazilian investors, supportive of economic reforms led by Finance Minister Paulo Guedes, considered Chile to be a model to follow. Guedes, who holds a Ph.D. from the University of Chicago and worked in Chile during the Pinochet dictatorship, often refers to Chile's economy as an inspiration. Thus Chileans’ mass mobilization against inequality and insufficient public services has raised uncomfortable questions about the political feasibility of Guedes' reform proposals. As an economist at a Brazilian hedge fund recently told me, "If it happens in Chile, it can happen anywhere, right?"
The recent outbreak of protests in Colombia has not helped to quell such concerns. Political instability across Latin America has strengthened those in the Bolsonaro administration who want to delay the announcement of Guedes’ additional reform projects, fearing they could trigger a public backlash similar to those seen elsewhere. Led by Bolsonaro's chief of staff Onyx Lorenzoni, this more cautious group recently won an internal battle against Guedes, who had hoped to present a series of new proposals before the end of the year, including rules that would affect sensitive issues like job security in the public sector.
Given these fears – and uncertainty over the possible public reaction to proposed reforms – Guedes is unlikely to be able to push through his plans at the speed he initially envisaged. Predicting the likelihood and timing of mass protests is hard; Brazilian elites where taken by surprise when an increase in metro fares in 2013 triggered the largest protests in decades. In the same way, virtually nobody in Chile foresaw the explosion of public unrest in 2019, even though former President Michelle Bachelet warned as early as 2014 that more needed to be done to combat inequality and avoid political instability – a view many regarded as alarmist at the time. 
In defending a more assertive approach to reform, Guedes is likely to point out several reasons why it would be simplistic to expect recent unrest elsewhere in the region to spread to Brazil. First, public debate in Brazil is far less connected to the region than it is in other countries. The average Brazilian does not follow political events in Latin America and is thus unlikely to be inspired by protests in Chile or BogotáSecond, Brazil saw protests of historic dimensions only six years ago, when millions vented their anger and frustration and indirectly caused the collapse of the country's political party landscape. That, in turn, led to the election of a populist president who embraces an anti-elite discourse, making a classic anti-establishment protest, such as the one seen in Chile, less likely. Considering how rare such seismic shifts have been in Brazilian history, a second wave of mass protests in less than a decade strikes many observers as improbable. 
Those favoring a more cautious approach, however, could point out that Brazil fares worse than its neighbors in several key economic dimensions that have contributed to recent protests – including inequality, unemployment, and economic growth. The economies of Chile, Bolivia and Colombia have all outperformed Brazil over the past few years, and Brazil is South America's most unequal country. Unemployment remains stubbornly high, and the number of Brazilians living in extreme poverty has recently risen to 13.5 million. In addition, given Bolsonaro's penchant for demonizing his opponents and limited interest in genuine dialogue, his capacity to defuse tensions after initial protests would probably be low. Belligerent rhetoric and a heavy-handed approach involving the armed forces to suppress protesters could cause small demonstrations to swell quickly.
In the end, price increases on bus and train fares can be delayed, but not put off indefinitely. Unavoidable fare hikes in major Brazilian cities in 2020 will give government officials sleepless nights, and provide a litmus test to the likelihood of broader social unrest in Brazil. The same is true for price increases on diesel fuel, which could revive protests by truck drivers that forced former President Michel Temer to undo price hikes in 2018. Policymakers will likely try to announce price adjustments during the long summer vacations from December to February, when university students have a harder time getting organized.
There is one final aspect which may explain why protests are likely to continue surging across the region: demonstrators have succeeded in extracting meaningful concessions from leaders who are overwhelmed by their size and determination. Whether in Ecuador, where protesters achieved the reinstatement of subsidies, in Chile, where protesters succeeded beyond expectations and forced Piñera to call for a constituent assembly, or in Bolivia, where anti-Morales protesters ousted the president, Latin American leaders have been remarkably vulnerable to large-scale protests this year. 
The protesters' key strength may lie in their leaderless format, which makes it nearly impossible for governments to negotiate with representatives and then lull them into largely symbolic compromises. This may explain why most protest movements do not allow opposition leaders to speak on their behalf – even though some, such as Colombia's Gustavo Petro, have tried – and why ex-president Luiz Inácio Lula da Silva’s recent release from prison is unlikely to affect chances of mass protest spreading to Brazil. 
As long as protests in other Latin American countries succeed and produce tangible benefits, the risk of them spreading to other countries, including Brazil, remains relatively high.

Oliver Stuenkel is a contributing columnist for Americas Quarterly and teaches International Relations at the Getulio Vargas Foundation in São Paulo. He is the author of The BRICS and the Future of Global Order (2015) and Post-Western World: How Emerging Powers Are Remaking Global Order (2016)

domingo, 4 de agosto de 2019

A destruição do Itamaraty enquanto instituição: Oliver Stuenkel, Paulo Roberto de Almeida

Meu mais recente livro, Miséria da diplomacia, tem por subtítulo "a destruição da inteligência no Itamaraty". 
Pois bem, o que diz abaixo o professor Oliver Stuenkel é ainda mais terrível do que a destruição da inteligência, que é na verdade o afastamento dos dissidentes, como eu mesmo, e a submissão dos que restam. 
Aparentemente, se visa um objetivo ainda mais grandioso: destruir o Itamaraty como instituição do Estado, e submetê-lo aos desígnios demenciais da família Bolsonaro e das propostas alucinadas do Rasputin de subúrbio.
Sequência de tweets de Oliver Stuenkel sobre a deterioração, em qualquer circunstância, da política externa e da diplomacia brasileira, traz uma realidade preocupante para a diplomacia profissional do Itamaraty: o que acontecer, de qualquer jeito, será a destruição do Itamaraty tal como o conhecemos até 2018: o olavo-bolsonarismo, com a ajuda do atual chanceler, está empenhado na obra de demolição, tanto dos fundamentos conceituais da política externa, quanto dos mecanismos operacionais da política externa.
Seremos arrastados para a mediocridade mais abjeta.
O próprio presidente já prometeu: ""Sim, o Senado pode barrar, sim. Mas imagine que no dia seguinte eu demita o (ministro de Relações Exteriores) Ernesto Araújo e coloque meu filho. Ele não vai ser embaixador, ele vai comandar 200 embaixadores."

Paulo Roberto de Almeida
5/08/2019


Oliver Stuenkel
Bolsonaro is making only thinly veiled threats to senators that unless they approve his son's nomination as Brazil's Ambassador to Washington, he'll make him Foreign Minister- which does not require the Senate's approval. So approving the ambassadorship is basically damage control.

Oliver Stuenkel
Implicitly, this is a remarkable admission of his son's unpreparedness. Having daddy threaten others with giving you an important job in order to convince them to give you an somewhat less relevant position is pretty humiliating.

Oliver Stuenkel
When it comes to Brazilian foreign policy, the move is unlikely to make much of a difference. Araújo is the weakest Foreign Minister in decades and basically already does whatever Eduardo tells him. Their ultimate goal is to destroy the Foreign Ministry's bureaucracy.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Politica externa brasileira se tornou altamente imprevisivel - Oliver Stuenkel (DW)

 "Com Bolsonaro, política externa se tornou uma caixa de surpresas"

Entrevista com Oliver Stuenkel por Fernando Caulyt

Deutsche Wellle, 1/07/2019


Em seis meses, governo Bolsonaro provocou ruptura na política externa, marcada por distanciamento do multilateralismo e imprevisibilidade. Mudança gerou preocupação na comunidade internacional, avalia cientista político.

Jair Bolsonaro completa seis meses na Presidência do Brasil nesta segunda-feira (01/07) e, até agora, sua política externa pode ser caracterizada pela maior ruptura vista na política externa brasileira nos últimos cem anos, avalia Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em entrevista à DW Brasil, Stuenkel destaca que o país abandonou uma postura voltada para o multilateralismo e passou a adotar uma política externa altamente imprevisível.

"Há uma incerteza em relação a o que o Brasil pensa quanto à China, Mercosul e Oriente Médio, gerando uma grande preocupação da comunidade internacional", afirma.

Para o cientista político, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é "um ministro extremamente fraco, mas mantém sua capacidade de fazer declarações absurdas e causar danos". "Parece-me bastante provável que o país continue passando vergonha com frequência nos próximos anos", comenta.

- DW Brasil: Como você avalia os seis primeiros meses de Bolsonaro em relação à política externa?
- Oliver Stuenkel: Nós vimos uma grande ruptura na política externa. Ela mudou em duas dimensões: o posicionamento externo do Brasil se alterou totalmente, o país deixou de enfatizar o multilateralismo como estratégia preferida da sua política externa e se alinhou mais a países que têm um profundo ceticismo quanto ao sistema multilateral. Assim, o Brasil faz uma rejeição mais ampla ao multilateralismo e tem posturas que colocam o país como parte do campo antiglobalista. Eu diria que é a mudança mais profunda na política externa em pelo menos cem anos.

A segunda grande mudança é que a política externa se tornou altamente imprevisível. Antes, havia uma previsibilidade sobre o comportamento brasileiro no palco internacional. E, agora, em função da briga constante entre três grupos [os militares, os "olavistas" e os tecnocratas], a política externa se tornou uma caixa de surpresas – e isso, no âmbito internacional, reduz muito a capacidade brasileira de assumir liderança e de influenciar outros países. Pouco indica que isso mudará ao longo dos próximos anos. Além da mudança de posicionamentos, há uma incerteza em relação a o que o Brasil pensa quanto à China, Mercosul e Oriente Médio, gerando uma grande preocupação da comunidade internacional em relação ao papel e à estratégia brasileira.

- Mas o Brasil sempre se beneficiou do sistema multilateral.
- Toda a lógica da política externa brasileira se baseia na crença de que um sistema multilateral forte é benéfico para o Brasil, porque o multilateralismo, de certa maneira, ajuda a mitigar o impacto da geopolítica. É consenso também que o Brasil tem sido, ao longo das últimas décadas, o país que mais se beneficiou desta ordem multilateral, porque é uma nação que tem forte influência nestas instituições, que conhece muito bem suas regras e sabe interpretá-las para aumentar sua influência. E Bolsonaro iniciou um processo para combater justamente este sistema que beneficiou tanto o país, e este governo não apresentou ainda uma resposta crível às suas alegações de que o globalismo limita a autonomia do Brasil, apesar de Brasília ter uma grande capacidade de influenciar as regras do jogo.

- Quais são as consequências dessa falta de rumo na política externa para a região e a comunidade internacional?
- Fica evidente que é cada vez mais difícil contar com o Brasil, porque, como o posicionamento brasileiro não está totalmente claro e nunca se sabe qual grupo interno irá se impor, Brasília é chamada cada vez menos para iniciativas. Um exemplo recente é a lançada pela Alemanha e pela França em defesa do multilateralismo, à qual foram chamados países como Argentina, Austrália, Canadá e Coreia do Sul – quer dizer, potências médias que têm interesse em defender o multilateralismo. O Brasil não foi chamado, e isso é inédito. Brasília participará menos de novas iniciativas, porque até mesmo países antiglobalistas, como os EUA, têm dúvidas sobre a capacidade de Bolsonaro implementar políticas de maneira coerente no âmbito externo.

Os seis primeiros meses do governo foram caracterizados por declarações polêmicas – como a de que o nazismo foi de esquerda – e manobras para cumprir parcialmente promessas eleitorais, como a abertura de um escritório comercial em Jerusalém em vez da transferência da embaixada brasileira para a cidade.

Essas afirmações mostram que, além do radicalismo do governo, há também claramente uma falta de preparo. Isso aumenta a frequência de gafes e erros crassos na política externa, como viajar para um país e articular uma preferência clara em relação à política interna dessas nações, como foi o caso da Argentina e EUA. Não há problema nenhum em ter uma preferência, mas articular de uma maneira tão explícita gera um problema quando esse seu lado preferido perde a próxima eleição. E isso afeta negativamente a relação bilateral. Nós vemos uma acumulação de erros desnecessários que não são posicionamentos que geram algum valor para o Brasil. A solução seria colocar um chanceler experiente que possa controlar o presidente, mas acho pouco provável que isso aconteça. Então me parece bastante provável que o país continue passando vergonha com frequência nos próximos anos.

- Como você avalia a atuação do chanceler Ernesto Araújo?
- Ele simboliza a ruptura radical que muitos eleitores desejaram ao votar em Bolsonaro. O chanceler articula essa "mudança de verdade" com uma postura que gera muita tensão interna e dificuldades de o Brasil fazer cooperação com outros países. A grande maioria do Itamaraty discorda dos posicionamentos dele, e isso afeta gravemente a reputação do país no exterior. Ele tem concorrentes dentro do próprio grupo político [dos antiglobalistas], e os interlocutores dele têm muitas dúvidas sobre o poder que ele tem de verdade, o que é péssimo para um chanceler. Ele é um ministro extremamente fraco, mas mantém sua capacidade de fazer declarações absurdas e causar danos.

- Como você vê as alianças de Bolsonaro com ultranacionalistas como Donald Trump e Viktor Orbán, e a postura do brasileiro de contrariar parceiros de longa data no Oriente Médio ao se aliar com Israel?
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De certa maneira, essas alianças deixam muito claro para onde esse governo quer ir e facilitam o entendimento da comunidade internacional sobre quais são as intenções de Brasília. Porém, isso causa problemas para o interesse nacional brasileiro, porque esses países, do ponto de vista econômico, agregam muito pouco: o valor do comércio do país com Israel, Polônia, Hungria e Itália é relativamente pequeno. Por isso que existe aí uma preocupação profunda entre representantes da economia brasileira sobre o possível impacto negativo que essas mudanças podem ter para a economia do país.

- Berlim e Brasília têm uma parceria estratégica desde 2002, mas ela esfriou principalmente após as turbulências do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Antes da reunião do G20 da semana passada, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e Bolsonaro trocaram farpas. Como você vê o futuro da relação entre os dois países?
- O espaço para a cooperação bilateral diminuiu bastante, porque em várias áreas importantes, como mudança climática e multilateralismo, o Brasil mudou radicalmente de direção. O ministro do Exterior alemão, Heiko Maas, esteve neste ano no país para avaliar como é possível continuar com essa parceria estratégica, mas certamente será necessário adaptá-la às novas circunstâncias e ser muito mais modesto a possíveis resultados.

- Como você avalia o alinhamento do Brasil com os EUA? Até agora, quais foram os ganhos para Brasília?
- Houve ganhos pontuais, ou seja, o Brasil faz parte agora dos países aliados fora da Otan, o que facilita a cooperação militar. Mas com as duas questões fundamentais que Washington quer de Brasília, que são o apoio para resolver a crise na Venezuela e a ajuda para limitar a influência chinesa na América Latina, o Brasil não conseguirá contribuir. Em função disso, parece-me que a relação dificilmente se aprofundará da maneira que o governo brasileiro espera.

- Como você vê o futuro das relações do Brasil com a China e com a Europa?
- No momento há algo interessante acontecendo: uma parte do governo quer se aproximar dos EUA e, a outra, manter os laços com a China. Em breve, o Brasil terá que tomar decisões muito importantes que dificultam uma estratégia de ficar bem com os dois lados: a primeira é se Brasília fará parte ou não da iniciativa "One Belt One Road". Washington quer que o Brasil não participe; já a China, obviamente, tem a expectativa de que isso ocorra. A segunda questão é em relação ao 5G: os EUA pressionam para que o Brasil possa banir a Huawei, e grande parte dos técnicos quer que a empresa participe da construção da rede brasileira.

Em relação à União Europeia, a relação vai se aprofundar devido ao fechamento do acordo de livre-comércio com o Mercosul. Mas sempre há a ressalva de que os líderes europeus têm plena consciência da hostilidade do governo brasileiro em relação ao projeto europeu, e isso, fora o âmbito comercial, vai limitar qualquer tipo de cooperação.

- O governo Bolsonaro reduziu o papel político do país no Mercosul e na crise da Venezuela. Quais são as consequências de Brasília com menos influência regional para o futuro da região?
- O Brasil não tem uma estratégia clara nem para o Mercosul nem para a América do Sul. Em função disso, a região não sabe como responder à postura brasileira, e há um vácuo de liderança na América do Sul. Isso é agravado pelo fato de o Brasil ter que encarar muitos desafios internos e ter muita dificuldade de governar. Isso significa que nenhum projeto regional irá avançar nos próximos anos, e a região continuará à deriva, sem um plano brasileiro crível para resolver a crise da Venezuela ou, pelo menos, exercer uma influência positiva naquele país.